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CORAÇÕEZINHOS DE BAEPENDI NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE ATRAVÉS DA METODOLOGIA PARTICIPATIVA: RELATO DE EXPERIÊNCIA

Maíra Fernandes Madureira
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Luisa Marina Morato Peixoto
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Haylla Haramoto
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Natália de Paiva Sobreira
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Nayara Soares Pereira
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Roberta Neves Ferreira
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Luiza Schettino Pereira
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Rafael Oliveira Alvim
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Carlos Alberto Mourão Júnior
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil
Camila Maciel Oliveira
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil

CORAÇÕEZINHOS DE BAEPENDI NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE ATRAVÉS DA METODOLOGIA PARTICIPATIVA: RELATO DE EXPERIÊNCIA

Revista Conexão UEPG, vol. 12, núm. 3, pp. 400-411, 2016

Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 30 Julho 2015

Aprovação: 09 Dezembro 2015

Resumo: O presente artigo emergiu de ações do Projeto de Extensão “Coraçõezinhos de Baependi”, desenvolvido através de uma parceria entre a UFJF e o INCOR/HC-FMUSP, na cidade de Baependi (MG). O projeto baseia-se na metodologia participativa na construção de um ensino integral, tendo como ferramentas o teatro de fantoches e a música, e objetiva a promoção da saúde das crianças envolvidas, esperando despertar nelas o interesse pela ciência e pesquisa, fomentando a busca pelo conhecimento e incentivo ao autocuidado. Ao final das oficinas realizadas, foi visível a evolução quanto à participação dos alunos, ao interesse e à compreensão dos temas, o que foi relatado tanto pelos docentes da escola, como pelos familiares. Conclui- se, assim, que a introdução ainda na infância de conhecimento em saúde mostrou-se eficaz na promoção de autocuidado e prevenção de morbidades, reforçando o propósito das escolas como terrenos férteis para a disseminação de conceitos em saúde.

Palavras-chave: Metodologia participativa. Educação em saúde. Teatro de fantoches.

Abstract: This article is the result of the Outreach Project “Coraçõezinhos de Baependi” developed in partnership between UFJF and InCor / HC- FMUSP in the city of Baependi (MG). The project is based on participatory methodology in order to build comprehensive teaching, using puppet shows and music as tools. It aims at promoting the health of the children involved and hopes to awaken their interest in science and research by promoting the search for knowledge and encouraging self-care. At the end of the workshops, it was possible to observe an increase in students´ participation, interest and understanding of the issues, as reported by teachers and parents. Therefore, it was possible to conclude that the introduction of knowledge about health during childhood proved to be effective in the promotion of self-care and prevention of morbidity, which reinforces the role of schools as suitable contexts for the spread of health concepts.

Keywords: Participatory methodology. Health education. Puppet show.

Introdução

De acordo com Pelicioni e Torres (1999, p. 8), “é nas idades pré-escolar e escolar que as crianças adquirem as bases de seu comportamento e conhecimento, o senso de responsabilidade e a capacidade de observar, pensar e agir”. Ainda segundo os autores, é durante esse período que se inicia a adoção de hábitos de higiene, a descoberta das potencialidades corporais e o desenvolvimento de habilidades para cuidar da própria saúde. Faz-se lógico pensar, então, em tal período como oportuno para o desenvolvimento de práticas educativas em saúde, visto que a aprendizagem de conceitos em saúde corretos neste período tem a possibilidade de conduzir a uma adoção do autocuidado e da responsabilização futura das crianças pela própria saúde.

A escola emerge nesse cenário como um ambiente ideal, oferecendo um espaço de sociabilização e integração entre o conhecimento teórico e prático à medida que proporciona o despertar da curiosidade do corpo docente, a exposição deste aos conhecimentos teóricos pertinentes e a vivência da aplicação de conceitos saudáveis.

É importante ressaltar, todavia, que a atenção à saúde dessa faixa etária não tem ocorrido de maneira eficaz. De acordo com Cyrino e Pereira (1999, p.40):

Para algumas parcelas da população infantil, como a criança em idade escolar ou o adolescente, chama-se a atenção para a marginalização ao atendimento realizado pelo setor saúde, a necessidade de aumentar a cobertura e melhorar a qualidade dos serviços oferecidos a essa população.

Nesta conjuntura, os projetos de extensão que têm como público-alvo crianças em idade escolar e como meta a promoção da saúde figuram como importantes mediadores na busca pelo princípio da integralidade, tão almejado durante a reforma sanitária brasileira. Esta integralidade é vista aqui tanto em seu sentido holístico do cuidado quanto no que se refere à resposta às demandas espontâneas geradas pela comunidade.

É importante ressaltar a relação de ganhos bilaterais entre universidade e o meio social gerados por este tipo de iniciativa. Ao deixar o ambiente acadêmico, o estudante se depara com desafios existentes em sociedade e pode traçar metas para solucioná-los, e, concomitantemente, obter uma formação mais humanizada e crítica.

A atual mudança no perfil epidemiológico brasileiro assinala para mais uma das razões para se trabalhar com crianças em idade escolar a respeito de hábitos de vida saudáveis, com ênfase nos alimentares. De acordo com Kaufman (1999 apud PIMENTA, 2001, p. 20):

Há no Brasil cerca de 3 milhões de crianças com menos de 10 anos de idade que sofrem de obesidade. A principal preocupação está no fato de que a população de obesos dobrou, em relação a vinte anos atrás, isto é, a obesidade não para de crescer.

Nos últimos anos, a obesidade tornou-se foco de inúmeras pesquisas que têm por finalidade estabelecer sua gênese e elaborar métodos eficazes de intervenção, com o objetivo de erradicar o que hoje já se acredita ser uma epidemia. Nesse cenário, o rápido aumento da prevalência mundial de obesidade infantil vem ganhando maior notoriedade, tornando-se uma grande preocupação.

Não se sabe ao certo qual a verdadeira gênese da obesidade. Acredita-se que inúmeros fatores são importantes para o seu estabelecimento, tais como os genéticos, fisiológicos e metabólicos. Todavia, é cada vez mais notório que tal condição está intimamente relacionada às mudanças no estilo de vida e aos hábitos alimentares da população, nos quais evidenciamos o aumento do consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras, com um elevado teor calórico, atrelado a um estilo de vida cada vez mais sedentário, em que a prática de atividades físicas é substituída por mais horas dedicadas à TVs, vídeo games e computadores.

Nesse cenário, as crianças surgem como perfeitos produtos do novo estilo de vida implementado nos últimos anos, uma vez que elas herdam não somente as características genéticas de seus pais como também seus costumes e hábitos.

Com o crescente número de crianças se tornando obesas, aumentam também as preocupações em relação à sua qualidade de vida e sua saúde. A obesidade é a principal causa de hipertensão arterial em crianças e adolescentes, podendo levar ao desenvolvimento de complicações cardiovasculares e cerebrovasculares, além de terem maiores chances de se tornarem adultos obesos e com comorbidades.

Segundo Kaufman (1999, p. 218 apud PIMENTA, 2001, p. 23),

As crianças obesas têm maior propensão à hipertensão, diabetes, transtornos cardíacos, respiratórios e ortopédicos; cerca de 50% delas apresentam alterações de taxa de colesterol; 47,5% dessas crianças têm níveis diminuídos de HDL e 20,5% têm níveis elevados de LDL.

Tendo em vista a mudança no perfil nutricional do país, marcada principalmente pela coexistência de desnutrição, obesidade e doenças carenciais específicas relacionadas à má nutrição, um modelo de atenção à saúde que abranja ações de promoção da saúde, prevenção e tratamento de doenças como a obesidade tornou-se cada vez mais necessário, sendo atualmente um desafio para a saúde pública.

A partir do exposto, depreende-se que é cada vez mais imprescindível o desenvolvimento de políticas que promovam a intervenção e conscientização da população acerca da implementação de um estilo de vida mais saudável. Acreditando no princípio de que para uma atividade se tornar hábito, esta deve ser trabalhada desde cedo, o presente estudo foi estruturado e planejado com o intuito de conscientizar crianças em idade escolar de uma forma lúdica através de medidas de caráter educativo e informativo, motivando os estudantes a adquirirem uma alimentação mais saudável, associada a uma prática de atividade esportiva que lhes dê prazer, afastando-os do sedentarismo, na tentativa de minimizar o número de crianças obesas e, consequentemente, de suas complicações.

Metodologia

O “Projeto Coraçõezinhos de Baependi” foi implementado no município de Baependi, Minas Gerais, em quatro escolas (três públicas e uma particular filantrópica) – Escola Municipal Senador Alfredo Catão, Escola Municipal Raquel Campos Gonçalves, Escola Municipal Dr. Wenceslau Braz e Colégio Franciscano Santo Inácio – para crianças de 6 a 12 anos, durante horário escolar, no período de março a setembro de 2015, e conduzido por estudantes de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal De Juiz de Fora (UFJF). O número de alunos por escola se encontra especificado na Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição de alunos participantes por escola
Tabela 1: Distribuição de alunos participantes por escola

O Projeto foi desenvolvido através de uma parceria entre a UFJF e o INCOR/ HC-FMUSP, que mantém, na cidade de Baependi (MG), a sede do projeto ”Corações de Baependi”, o qual atua há 10 anos acompanhando a comunidade local, sendo o primeiro estudo familiar em doenças cardiovasculares no Brasil. Com base nisso, a escolha dessa cidade para a realização do projeto de extensão foi feita com a intenção de devolver à sociedade a contribuição dada pelos moradores na pesquisa, visto que estes se disponibilizam a ser seu objeto de estudo.

Desde o início do Projeto, foi visível a evolução quanto à participação dos alunos de Baependi nos encontros, tanto durante a conversa como na música e no teatro. Em casa e na sala de aula, os pais e professores notaram maior interesse em relação às questões de saúde e nutrição, o que demonstra a eficácia dessa abordagem em despertar a criança para o autocuidado.

Inicialmente, um grupo de três acadêmicos de medicina cumprimentavam os alunos e começavam a apresentação de um teatro de fantoches previamente ensaiado, escrito pela endocrinologista e colaboradora do Projeto, Dra. Camila Maciel de Oliveira. O encontro tinha um tema específico envolvendo saúde em geral (apesar de os primeiros terem tido como foco principal a alimentação saudável) e os fantoches eram confeccionados pelos próprios participantes do Projeto, com materiais de baixo custo, como EVA, feltro e cartolina.

Embora a faixa etária das crianças tivesse grande variabilidade, as peças tinham, em seu enredo, termos e conceitos científicos, que frequentemente não estavam inseridos no cotidiano dos alunos. No entanto, durante as apresentações eram criadas alusões acerca da expressão ou ideia abordada, sempre realizadas de maneira lúdica e próxima do universo infantil. No teatro “O estômago apaixonado e o coração partido”, os personagens HDL e LDL eram representados como um anjo e um diabo, respectivamente, para já criar a impressão de que um era bom e o outro, ruim.

Em seguida, uma conversa era iniciada com os alunos que assistiram à apresentação (normalmente divididos por idade), em que os acadêmicos faziam perguntas abrangentes para introduzir a discussão e gerar um ambiente acolhedor. As crianças relatavam exemplos familiares, faziam perguntas, interagiam umas com as outras e até mesmo extrapolavam o tema proposto, como no teatro “A vitamina D e os três ratinhos”, em que surgiram perguntas a respeito de outras vitaminas e quais alimentos as continham.

Após a reflexão, os conceitos introduzidos no teatro de fantoches eram explicados de uma forma simples, depois de se questionar o entendimento que o aluno já tinha. Em uma das peças, o infarto do miocárdio foi comparado com o entupimento de uma mangueira por certas sujeiras (colesterol LDL) e que uma das soluções para evitá-lo seria utilizar um sabão (HDL).

Por fim, eram entregues atividades didáticas, também confeccionadas pelos participantes do Projeto, que normalmente continham ilustrações para colorir, as quais buscavam instigar mais os alunos a respeito de assuntos não diretamente tratados na apresentação, mas que tinham uma certa correlação, para que eles buscassem em casa ou na escola mais informações sobre o tema. Um exemplo foi a entrega de um desenho esquematizando os nomes dos ossos do corpo humano, durante um encontro que trazia a importância do cálcio para a saúde.

No verso dessas atividades, havia a letra de uma paródia baseada em músicas infantis tradicionais, como “O sapo não lava o pé”. O fato de serem utilizadas melodias conhecidas facilitava a participação e o interesse. Além disso, as letras retomavam o enredo do teatro apresentado, o que auxiliava na consolidação do tema abordado, e eram sempre cantadas em conjunto e com todos os alunos de pé, para que até mesmo os mais tímidos se desinibissem e aproveitassem o momento de ludicidade.

Um dos objetivos bastante considerados durante o planejamento dos temas, peças, músicas e materiais didáticos foi a tentativa de despertar o interesse pela ciência. Uma das apostas que foram feitas durante o processo de concepção do projeto consiste em acreditar que não há tema complexo demais que não possa ser comunicado de maneira que os interlocutores compreendam.

Como o “Coraçõezinhos de Baependi” surgiu pelo já “Corações de Baependi”, o aspecto de incentivo à ciência não poderia deixar de estar presente. Sabe-se que o genuíno interesse pela pesquisa não é devidamente estimulado e a curiosidade vem sendo cada vez mais minada. Pensando nisso e na necessidade de mentes pensantes no presente e futuro, a introdução e o fomento à busca pelo conhecimento foi um dos pilares do projeto de extensão em foco.

Na peça “Salada de frutas em confusão”, foi descrita uma experiência laboratorial em que eram descobertos os efeitos hipotensores da uva em indivíduos hipertensos. Na história, os personagens indagavam os alunos se esses resultados decorriam do consumo da semente ou da polpa. Além disso, a narrativa enfatizava o quão satisfatório era para os cientistas essa descoberta e, por fim, falava os possíveis benefícios desconhecidos pela ciência e que eles, as crianças e os futuros pesquisadores poderiam ajudar a descobrir. Uma passagem do texto utilizado nesse encontro:

“Num laboratório de pesquisa

A minha geleia usaram

Deram para alguns ratinhos

Para ver se a pressão baixavam.”

Apesar de algumas apresentações não terem tido essa abordagem, os objetivos mantiveram-se os mesmos. Os encontros tiveram que ser adaptados para cada faixa etária, já que foram atendidos alunos de 5 a 13 anos e o grau de conhecimento prévio diferia entre eles. O maior desafio foi lidar com os extremos de idade, pois para crianças muito pequenas os materiais escritos não eram aproveitados (por estarem em fase de pré-alfabetização) e havia mais desenhos e esquemas. Para os adolescentes, as ilustrações eram pouco atrativas por remeterem ao mundo infantil e, por isso, a abordagem era mais focada na conversa. Assim, foi possível atingir impactos semelhantes,independentemente do grau de escolaridade abordado.

O Projeto baseia-se na metodologia participativa, teatro e música, para a promoção e prevenção da saúde das crianças envolvidas e suas famílias, esperando que esta ideia seja difundida para outras regiões do país por meio de mídias sociais.

Metodologia Participativa

Apesar de o Projeto utilizar uma estratégia muito comum na área de educação em saúde para crianças – a apresentação de fantoches –, o objetivo principal foi implementar uma metodologia que desconstruísse a tradicional hierarquia na educação, em que o processo de discussão normalmente ocorre de modo unidirecional, do educador para o aprendiz, de uma maneira passiva e que não incita a construção de visão crítica. Paulo Freire denomina de educação bancária, seguindo a metáfora de que os alunos apenas recebem (assim como os bancos) blocos de conhecimentos não interconectados.

Nesta educação vazia de diálogo e de criticidade só há passividade e o condicionamento de ambos os sujeitos do processo: educandos condicionados a apenas ouvir passivamente e educadores condicionados a discursar, sem estabelecerem relações entre o conhecimento e a realidade concreta. (SCHNORR, 2000, p.91, apud MACIEL, 2011, p. 342).

Diante disso, durante a concepção do Projeto, foi planejada a realização de uma conversa inicial sem estruturação prévia, seguindo apenas o grande tema abordado no mês, em que as crianças eram estimuladas a relatar experiências pessoais, dúvidas e seu conhecimento acerca do objeto da discussão do momento.

A simplicidade da ideia, um diálogo em grupo, parece ser óbvio e natural, já que não exige muitas ferramentas e tecnologias – como alguns creem que seja necessário em um processo de educação – e que diversas civilizações partilharam saberes nesse movimento de mão dupla por séculos. No entanto, a prática mais difundida hoje nas instituições de ensino desde o maternal até as universidades é aquela baseada no pressuposto de que o professor é o único detentor do conhecimento e o aluno, a tábula rasa, recebe o que o educador transmite para o grupo, sem participar ativamente.

Existem diversos projetos pedagógicos que têm em suas bases teóricas ideias que rompem com o modelo de educação oficial do sistema. Dentre esses, aquele que se destaca por sua importância histórica no contexto brasileiro é a chamada Educação Popular, cujos fundamentos foram concebidos e alicerçados por Paulo Freire.

Esse referencial metodológico-teórico é um rompimento com a estruturação tradicional da educação, fomentando formas coletivas de aprendizado, valorizando a intercomunicação entre os participantes do processo de aprendizagem e utilizando como matéria-prima as experiências anteriores dos atores. O intercâmbio entre o saber científico e o saber popular, o devido estímulo à participação e iniciativa dos educandos constituem práticas essenciais da educação popular.

Teatro

A palavra teatro, em sua origem grega theatron, significa o lugar de onde se vê e, para Aristóteles, o teatro permitia conhecer, e conhecer além da superfície. Para o pensador grego, o teatro tinha a qualidade de ensinar às pessoas a enxergarem além do discurso, além das aparências, a ver o que estava encoberto, nas profundezas. Tal conhecimento, entretanto, não ocorre de um momento para o outro. É uma construção lenta, que deve começar ainda na infância, mobilizando aspectos cognitivos, afetivos, sociais e motores das crianças, implicando, ainda, em aprendizagens e construção de conhecimento.

O teatro é considerado uma arte dramática que retrata momentos, situações ou problemas do cotidiano de forma lúdica e que pode despertar a criatividade e o aprendizado das crianças, pois aborda importantes assuntos de forma descontraída e, ao mesmo tempo, inspira as crianças a utilizarem a imaginação e exercitarem seu raciocínio, fazendo com que as mesmas possam compreender a essência da peça teatral.

Ultrapassando a atividade de brincar, o teatro enfatiza a atitude e o interesse, alcançando a criança em toda sua globalidade. Toda criança, ao brincar, dramatiza o seu mundo do faz-de-conta, e a linguagem do teatro propicia uma aproximação da criança com o tema a ser abordado. Ao se transmitir conhecimento para as crianças, elas poderão repassar o que aprenderam para os indivíduos do seu meio de convivência, participando, dessa forma, da promoção de saúde em sua própria comunidade.

As crianças possuem características diferenciadas de aprendizado, logo, o teatro torna-se uma ótima forma de educá-las em relação à saúde. Nesse contexto, a escola pode contribuir ao associar saúde, aprendizado, profissionais de saúde, família, educação e membros da comunidade em diversas atividades. Isso pode ser feito implementando-se políticas que visem o bem-estar individual e coletivo, e que permitam a formação de um ambiente saudável.

Existem alguns fatores que podem potencializar o desempenho do comunicador durante a peça teatral, são eles: (1) o comunicador deve estar seguro em relação ao assunto abordado, para não transmitir insegurança durante a peça; (2) as partes da peça que envolvem mais imaginação da história devem ser mais ressaltadas para que o público não se sinta entediado; (3) a utilização de uma linguagem simples é essencial para que as crianças entendam a peça; (4) é importante que o apresentador dê liberdade para que o público possa interagir com a história, o que ajuda na absorção do conhecimento.

Deste modo, as peças teatrais foram realizadas com o intuito de promover orientação em saúde, proporcionando informações simples e concisas que aprimorassem positivamente o conhecimento dessas crianças em relação ao autocuidado e promoção de hábitos de vida saudáveis, além de permitir que interagissem com a história, possibilitando motivação e construção de conhecimento.

Música

A escolha da música como ferramenta educadora foi pautada em sua grande importância e relevância como instrumento de aprendizagem. Desde a Antiguidade, a música tem estado presente na vida e no cotidiano do homem, participando e contribuindo das mais diversas maneiras na construção das sociedades. Sua importância como metodologia de ensino remonta a Idade Média e ao Renascimento, períodos em que era considerada um dos quatro pilares da aprendizagem, dividindo espaço com a geometria, a astronomia e a aritmética. Todavia, sua notória importância foi se tornando obsoleta às custas do advento de outras ferramentas metodológicas.

Em razão de sua relevância e como sendo componente inerente ao homem, a música sempre foi alvo de muitos estudos que buscavam entender a dimensão de sua influência na sociedade, em seus múltiplos aspectos. Tais estudos resgataram o valor da música no âmbito educacional, restabelecendo um antigo e renomado instrumento de aprendizagem. É cientificamente comprovado que a música auxilia no desenvolvimento humano, o que pode ser evidenciado pelas cantigas ensinadas na escola e que contribuem para o desenvolvimento da criança.

No Projeto em questão, a utilização de músicas atreladas à exibição de peças de teatro ganhou relevância por despertar nas crianças o interesse pelas atividades propostas, além de criar um ambiente acolhedor para o aprendizado. Segundo Campbell (2000, p.134 apud RONAVI, 2009, p. 9), “a música pode criar uma atmosfera positiva, que vai ajudá-lo a se concentrar para aprender”.

Assim, a arte do som estimula a concentração e o raciocínio dos estudantes, sendo um artifício que nos proporcionou ainda maior proximidade com os mesmos. Ela aparece nesse cenário como um instrumento motivador da aprendizagem, despertando a criatividade e o interesse no educando pelo que estava sendo proposto, como é defendido por Costa (2008 apud BANDEIRA, 2008, p. 22): “A música pode entreter, motivar, inspirar e acalmar. Pesquisadores revelam que a música também pode melhorar o modo de pensar e raciocinar, mostrando como o cérebro funciona.”.

Diante do exposto, faz-se lógico pensar na música como um instrumento de grande valor em atividades lúdicas envolvendo crianças em idade escolar. Porém, ao lidar com determinadas faixas etárias, despertar o interesse e, sobretudo, manter esse interesse pode surgir como uma tarefa árdua. Nesse sentido, a música apresenta a potencialidade de aguçar a atenção, motivando a criança a adentrar no contexto que é a ela apresentado. De acordo com a revista Crescer (2009, p. 7 apud RONAVI, 2009, p. 6), “A música ajuda a afinar a sensibilidade dos alunos, aumenta a capacidade de concentração, desenvolve o raciocínio lógico-matemático e a memória, além de ser forte desencadeador de emoções.”.

Essa ferramenta pedagógica possibilita ainda a sociabilização, à medida que, envolvida em uma atividade conjunta, a criança percebe a necessidade de um trabalho em equipe, ao mesmo tempo em que se identifica como parte importante e necessária desse conjunto.

Utilizar a música como ferramenta metodológica possibilitou promover, por conseguinte, um maior interesse pelas atividades propostas, sociabilização, geração de um ambiente acolhedor e também certa receptividade por parte das crianças para com as atividades que lhes eram levadas. Como a proposta fundamental do Projeto se pautou na utilização de metodologias participativas, permitir que a criança adentrasse no contexto proposto e, de fato, participasse através das letras das canções entregues a elas durante as atividades se mostrou fundamental.

Mídias Sociais

Atualmente, é indiscutível o alcance da internet e suas inúmeras possibilidades de utilização. Diante disso, encontra-se nas mídias sociais uma maneira de difundir experiências e métodos, tornando possível que estes sejam tomados como base e inspiração para que, em diversas regiões do país, os educadores e profissionais da saúde enxerguem nas crianças uma forma rica de promover saúde, para que estas influenciem seus lares hoje e se tornem adultos conscientes amanhã.

Foi criada uma página no Facebook chamada “Projeto Coraçõezinhos de Baependi”, onde as visitas às escolas foram divulgadas, disponibilizando-se o material didático utilizado, o teatro e a música de todos os encontros. Além disso, através da página, é possível conhecer mais sobre o Projeto e entrar em contato com os organizadores, tornando-se uma forma de divulgação e aproximação com os interessados em reproduzir e/ou colaborar com o trabalho.

Outra maneira de difundir o Projeto é através de um canal no Youtube, chamado “Coraçõezinhos de Baependi”, onde são colocados vídeos das apresentações e depoimentos de responsáveis das crianças que participaram do Projeto, um importante feedback para análise dos resultados quanto ao alcance dos objetivos do trabalho proposto.

Resultados

O objetivo inicial mais importante do Projeto era tornar as crianças mais cientes de sua saúde, incitar a curiosidade e a busca pelo conhecimento e fazê-las participar desse processo, para que este fosse significativo. No último encontro realizado, foi visível a evolução quanto à participação dos alunos, ao interesse e à compreensão dos temas. Além da observação feita pelos integrantes do Coraçõezinhos, os professores e pais também relataram um maior envolvimento das crianças de todas as idades e que, em algumas faixas etárias, houve inclusive curiosidade a respeito de como era um laboratório, o que os cientistas faziam e outras questões relacionadas a ciências.

Pais e familiares também deram depoimentos (disponibilizados na página do projeto no Youtube), dizendo que as crianças contavam o que aprenderam no Projeto naquele dia, comentavam e explicavam a respeito de boas práticas em saúde, como ocorriam certas doenças e como o corpo funcionava. Ao fazer isso, a abrangência do trabalho desenvolvido no Coraçõezinhos de Baependi foi maior porque, além dos filhos, os pais, irmãos e avós também aprenderam mais. Em relação à alimentação saudável, a interação aluno-família foi mais importante ainda. Mesmo que os adultos já soubessem a importância de se comer bem, quando seus filhos os advertiam sobre qual alimento faz bem ou mal, o sentimento de ser exemplo para aquela criança teve maior impacto na prática que somente o conhecimento prévio dos pais.

Surpreendentemente, ao contrário do impacto que o Projeto teve sobre a família (que era esperado e inclusive pautava um dos objetivos), as escolas também foram afetadas positivamente. Das quatro instituições visitadas, todas foram receptivas e cederam horário, local e algumas vezes até materiais no intuito de chamar mais a atenção dos alunos, mas uma, em especial, abraçou o Projeto de forma jamais esperada.

A escola municipal Senador Alfredo Catão preparou murais sobre os temas dos encontros e aprofundou mais os assuntos tratados, estendendo a discussão para a sala de aula e, por isso, temáticas relacionadas à saúde estiveram mais presentes no dia a dia dos alunos. Isso ocorreu também nos outros colégios visitados, em que os professores e alunos se atentavam para o que era discutido no Projeto e uma semente era plantada para que esses assuntos também fossem abordados na grade curricular. Assim, além da vantagem de reunir mais facilmente os participantes no ambiente escolar, o benefício de dar enfoque para práticas saudáveis aumenta a importância de realizar o Projeto em escolas.

Conclusões

A introdução ainda na infância de conhecimento em saúde mostra-se eficaz na promoção de autocuidado e prevenção de morbidades. Diante disso, atividades voltadas para crianças em idade escolar possuem muita importância na construção de uma sociedade que reflita mais sobre maneiras saudáveis de vida e, a longo prazo, que transforme estas ideias em mudança de hábito.

O Projeto “Coraçõezinhos de Baependi” mostrou como as escolas são terrenos férteis para a disseminação de conceitos de saúde para seus alunos e, por consequência, para as famílias de um modo geral. Dessa maneira, foi possível notar que os objetivos foram alcançados, já que, através dos métodos utilizados, as crianças aprenderam sobre os diversos assuntos e adquiriram informações de qualidade que podem ser passadas adiante, formando, assim, uma rede de conhecimento.

É importante, portanto, que mais projetos de extensão voltados para a educação de crianças em saúde sejam realizados, conscientizando pais, responsáveis, professores e as crianças sobre estilo de vida e hábitos saudáveis.

Referências

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