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DIVERSIDADE DE GÊNERO E EDUCAÇÃO SEXUAL: A EXPERIÊNCIA EM EXTENSÃO NO PROJETO RONDON EM ACARI (RN)
DIVERSIDADE DE GÊNERO E EDUCAÇÃO SEXUAL: A EXPERIÊNCIA EM EXTENSÃO NO PROJETO RONDON EM ACARI (RN)
Revista Conexão UEPG, vol. 13, núm. 3, pp. 488-499, 2017
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 30 Julho 2016
Aprovação: 09 Dezembro 2016
Resumo: Há consenso entres os estudiosos sobre a complexidade em se trabalhar a questão de gênero nas escolas e nos espaços públicos. Diante disso, uma das oficinas do Projeto Rondon, Operação Forte dos Reis Magos 2016, no município de Acari (RN), foi a de “Diversidade de Gênero e Educação Sexual”, alcançando os professores, alunos e a sociedade. As oficinas buscaram conscientizar, problematizar e capacitar sobre o assunto. Para isso, trabalhou-se com fontes históricas, midiáticas e mecanismos das redes sociais. Portanto, este artigo tem como objetivo apresentar a experiência com as oficinas de diversidade de gênero e educação sexual em uma atividade de extensão no interior do Rio Grande do Norte. Os procedimentos metodológicos foram: levantamento bibliográfico, realização das atividades de extensão e sistematização dos resultados. Os resultados foram notáveis, visto que a realidade na qual o município está inserido dificulta ainda mais o trabalho com a questão de gênero.
Palavras-chave: educação, diversidade, gênero.
Abstract: There is a consensus among the scholars of education about the complexity of working with gender issues in schools and open public environments. Therefore, one of the workshops carried out through Project Rondon - Operation Forte dos Reis Magos, to teachers, students and locals of Acari (RN), in 2016, was “Gender Diversity and Sex Education”. It aimed to raise awareness, discuss and give information about this subject. To achieve this, it was used historical sources, media, and social networks. Thus, this article aims to describe the results of the workshop “Gender Diversity and Sex Education” carried out as part of Project Rondon in a small city of Rio Grande do Norte. The methodology involved bibliographical research, outreach activities and systematization of results. Despite the difficulty of dealing with gender issues in a small city, the results obtained were remarkable.
Keywords: education, diversity, gender.
Introdução
A Universidade precisa ir além de seu espaço físico. Por isso, a extensão universitária se destaca como “uma forma de interação que deve existir entre a universidade e a comunidade (...), uma espécie de ponte permanente entre a universidade e os diversos setores da sociedade” (NUNES; SILVA, 2011, p. 120). Nesse cenário, ela atua levando conhecimentos às pessoas, além dos acadêmicos, e recebe, em contrapartida, “influxos positivos em forma de retroalimentação, tais como suas reais necessidades, anseios e aspirações” (NUNES; SILVA, 2011, p. 120). Então, a partir do Plano Nacional de Extensão, a extensão universitária “é o processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e sociedade” (NUNES; SILVA, 2011, p. 120).
Diante disso, o objetivo deste artigo é apresentar a experiência na realização das oficinas de diversidade de gênero e educação sexual na “Operação Forte dos Reis Magos”, no município de Acari, no Seridó do Rio Grande do Norte. Os objetivos específicos são: contribuir com o debate teórico sobre a diversidade de gênero e a educação sexual, demonstrar procedimentos metodológicos para a abordagem deste tema em atividade de extensão e refletir sobre os temas no interior do Estado do Rio Grande do Norte.
Os procedimentos metodológicos foram: levantamento bibliográfico acerca dos temas, descrição e análise das práticas e da preparação do projeto de extensão, realização das oficinas de extensão durante o Projeto Rondon e sistematização dos resultados na elaboração da redação final deste artigo.
O Rio Grande do Norte é uma Unidade da Federação brasileira, pertencente à Região Nordeste, cuja capital é Natal. O Estado faz fronteira com a Paraíba ao Sul e o Ceará à Oeste, possuindo suas faces Norte e Leste litorâneas, com extensão de 410 quilômetros, banhadas pelo Oceano Atlântico. A área do Estado é de 52.811 quilômetros quadrados e a população absoluta de 3.168.027 habitantes, gerando uma densidade demográfica de 60 habitantes por quilômetro quadrado. (IBGE, 2010).
O Estado possui, atualmente, 167 municípios, sendo que Natal, a capital, é o maior demograficamente, com pouco mais de 803 mil habitantes (IBGE, 2010). Na sequência, outras duas cidades se destacam, com mais de 200 mil habitantes: Mossoró, com quase 260 mil, e Parnamirim, com 202.456 (IBGE, 2010). Os demais municípios do Rio Grande do Norte são considerados demograficamente pequenos. O Estado é dividido geograficamente em quatro Mesorregiões: Leste Potiguar, onde se localiza a capital; Agreste Potiguar; Central Potiguar; e, Oeste Potiguar, a maior em extensão. (IBGE, 2008). Nessa perspectiva regional, a divisão do Rio Grande do Norte acompanha a subdivisão nordestina, ou seja, apresenta características semelhantes da Zona da Mata, do Agreste e do Sertão.
Os indicadores sociais e demográficos do Rio Grande do Norte estão em fase de evolução, ou seja,vivencia-se uma transição demográfica e social no Estado no sentido de melhora dos indicadores. Ainda assim, o Estado possui problemas sociais graves. A taxa de fecundidade, apesar de ser de 2,3 filhos por mulher, é desequilibrada, o que fica comprovado pela altíssima taxa de mortalidade infantil, 44,8 em mil nascidos vivos, uma das cinco piores do Brasil. Além disso, a expectativa de vida ao nascer é de quase 70 anos (três anos a menos que a média nacional e seis a menos que a taxa do Rio Grande do Sul, a melhor do Brasil) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é considerado baixo: 0,684. (IBGE, 2010; RIO GRANDE DO NORTE, 2015).
O município de Acari está localizado na Microrregião do Seridó Oriental e da Mesorregião Central Potiguar, possuindo, portanto, características típicas do Sertão Potiguar. A microrregião possui dez municípios e 3,77 mil km², com quase 150 mil habitantes. O município de Acari tem 11.035 habitantes, sendo que mais de 80% são de população urbana (IBGE, 2010). Ele compõe o chamado Polo Seridó ou Roteiro Seridó, reconhecido pelo chamado turismo rural nordestino, baseado no ecossistema da Caatinga. Na região tem, ainda, sítios arqueológicos e artes rupestres. (RIO GRANDE DO NORTE, 2015). A economia local se sustenta em quase 50% nos serviços e quase 40% na pecuária e agricultura. Mais da metade da área plantada é de feijão e milho. Os indicadores sociais do município mais problemáticos são: IDH de 0,679, coleta de esgoto em apenas 75% dos domicílios, rendimento mensal per capital de 328,00 reais e 62% dos habitantes em situação de pobreza.
O Projeto Rondon e a Operação Forte dos Reis Magos
Nascido no interior do Regime Militar (1964-1985), o Projeto Rondon tinha por lema “Integrar para não entregar”, visto que as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste encontravam-se distantes do Sul e do Sudeste e eram pouco conhecidas e exploradas. Ainda que não houvesse a nominação do projeto, apenas com a ideia de levar os jovens universitários a conhecerem e integrarem o país, a primeira operação ocorreu em 11 de julho de 1967. Com uma equipe formada por 30 universitários e 2 professores de universidades do antigo Estado da Guanabara, foi realizada no Território Federal de Rondônia, atual Estado de Rondônia, levando os alunos a se depararem com a realidade amazônica, e teve duração de 28 dias. Logo no ano seguinte, em 1968, foi nominado “Projeto Rondon”, em homenagem ao bandeirante paulista Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon e instituído oficialmente pelo Decreto nº 62.927, de 28 de junho de 1968 (RONDON, 2016).
Em 1989 o projeto foi extinto, para que somente em 2004, a União Nacional dos Estudantes (UNE) propusesse uma reformulação do Projeto e em 2005 acontecesse uma nova Operação, já em novos moldes e sob a supervisão do Ministério da Defesa. Em 2010,o Ministério da Defesa foi reestruturado e em 2015 aprovou os seguintes documentos para a atualização das ações do Rondon: Concepção Estratégica do Projeto Rondon e Concepção Política do Projeto Rondon. O segundo documento citado apresenta os objetivos de:
Proporcionar ao estudante universitário conhecimento de aspectos peculiares da realidade brasileira; contribuir com o fortalecimento das políticas públicas, atendendo às necessidades específicas das comunidades selecionadas; desenvolver no estudante universitário sentimentos de responsabilidade social, espírito crítico e patriotismo; contribuir para o intercâmbio de conhecimentos entre as instituições de ensino superior, governos locais e lideranças comunitárias. (BRASIL, 2015, p.1).
A Operação Forte dos Reis Magos aconteceu durante o mês de julho de 2016, entre os dias 8 a 24, no Estado do Rio Grande do Norte, no Nordeste brasileiro. O município em que a equipe da Universidade Estadual do Norte do Paraná1 esteve participando foi Acari (RN), com o Conjunto A2 das atividades, englobando as áreas de Cultura, Direitos Humanos e Justiça, Educação e Saúde.
O Estado do Rio Grande do Nortes e destaca nas atividades turísticas, principalmente em suas áreas litorâneas, e, por conseguinte, o nome da Operação de julho de 2016 foi pertinente a um dos mais importantes pontos turísticos do Estado, o Forte dos Reis Magos. No município de Acari, a maior atração turística – e influenciadora na fonte de renda – até meados de 2012 era o Açude Marechal Dutra, conhecido como “Gargalheiras”, inaugurado em 1959. Entretanto, desde 2010 o local tem passado por forte seca, fator que levou os habitantes de Acari a uma grande melancolia e à fé pela chuva, para que o açude volte a “sangrar”3.
Durante a preparação das oficinas, foi pesquisado a fundo sobre o Rio Grande do Norte, o Seridó e, principalmente, Acari e a sua realidade econômica, social e política. Pode-se dizer que a historiografia sobre a localidade vem sendo reescrita e repensada, visto que a cultura coronelística da região não permitiu por muitos anos a participação da diversidade de atores na construção do Seridó. Um dos autores mais significativos para se entender o Rio Grande do Norte e o município de Acari foi o historiador Helder Macedo (2003), o qual salienta que muito do que se publicou sobre a História do Rio Grande do Norte precisa ser revista, principalmente no que tange à presença indígena e negra no interior do Estado.
Dessa forma, a cultura tradicional, do culto ao herói e da exaltação das grandes famílias que povoaram o local, deixa muito de lado diversos atores sociais, inclusive as mulheres e os LGBTTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). Em visita à Prefeitura, observando os quadros dos prefeitos desde 1835, apenas uma mulher foi eleita, reflexo da política nacional, em que desde a Proclamação da República, em 1889, a presidência foi ocupada somente por uma mulher, de 2010 a 20164. Com isso e muitos outros índices e pesquisas, uma das oficinas desenvolvidas na área de Educação foi a intitulada “Diversidade de Gênero e Educação Sexual”. O público-alvo foi composto por alunos dos colégios, professores e sociedade local. Dado que os indivíduos citados têm características e vivências diferentes, foram utilizados slides, vídeos e imagens diferentes para a abordagem da oficina.
Diversidade de Gênero e Educação Sexual
Sabe-se que a complexidade em se trabalhar a questão de gênero nas escolas é intensa devido a fatores como preconceito, não entendimento sobre o tema, medo, influências políticas, entre outros, que acentuam a dificuldade. O debate sobre os conceitos relacionados à diversidade de gênero sendo incorporados à Educação vem sendo crescente na sociedade e alvo de muitas disputas nos campos políticos e ideológicos. Porém, é inegável a importância desse debate na escola, instituição por excelência de aprendizado e troca de conhecimentos na infância e adolescência. É essencial aos alunos questionar as relações de poder, hierarquias sociais opressivas e processos de subalternização ou de exclusão, que as concepções curriculares e as rotinas escolares tendem a preservar (SILVA,1996).
Ainda que a escola seja o espaço de aprendizado e convivência com as diferenças,pode-se ver que é local onde acontecem inúmeros problemas emocionais e psicológicos,deixando marcas no indivíduo por toda a vida. A questão do gênero é um tabu, pois envolve a sociedade, a família e os próprios alunos, entretanto, quando há diálogo entre todos os envolvidos, é possível que sejam esclarecidos muitos desentendimentos.
Dentre os movimentos sociais que lutam para que o assunto se torne, cada vez mais, pauta dentro das escolas, o movimento feminista acaba obtendo destaque nas falas dos alunos, visto que as meninas têm muito acesso aos conteúdos via redes sociais. Os movimentos LGBTTT têm menos voz nas escolas, principalmente nos municípios com pequena população, visto que a influência da Igreja e da família são maiores do que nas cidades com grande população. A questão da laicidade também é fator determinante quando se trata de gênero, pois a influência dos grupos de fundamentalistas religiosos no Congresso, que lutam contra essa questão, é muito forte. Dessa forma:
[...] manifesta-se hoje no Brasil a prática fundamentalista citada em nossos debates, durante o seminário que deu origem a esta publicação. Prática que pode ser vista nas igrejas, mas não apenas nas igrejas, como também nos parlamentos, no Judiciário e em várias áreas do executivo de todos os níveis e muitas vezes em espaços públicos, transformados, de forma equivocada, em templo de pregação, numa completa confusão entre liberdades laicas e abuso de liberdade religiosa. (MALAVOLTA, 2015, p.44).
Concerne também aos Direitos Humanos a garantia de voz aos movimentos sociais, visto que, já no Artigo 1º, salienta que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (ONU, 1948, p. 2). Isso implica ensinar a todos os seres humanos a garantia de direitos e o respeito mútuo para com o próximo, entendendo o outro com empatia.
No que tange aos assuntos da Educação Sexual, segue outro assunto que enfrenta resistência. Não obstante as crianças e os adolescentes, de todas as classes e gêneros, atualmente terem mais facilidade de acesso à internet e a todo o conteúdo que a envolve, para a família, tratar do tema na sala de aula ainda é algo desafiador. Muitas vezes, o que é visto na escola entra em confronto com o que a família pensa e ensina. Mas, tanto no que se refere à saúde como à educação, lidar com essa temática contribui para que os alunos se sintam livres a fazerem perguntas, a debaterem situações e a compartilharem vivências que em casa, geralmente, não têm abertura para falar.
Portanto, em todos os assuntos e momentos da oficina, foi concedida liberdade aos alunos para tratarem de suas experiências, exporem seus pontos de vista e aprenderem com a troca de conhecimentos entre rondonistas e alunos. Ainda que em quatro horas não fosse possível mudar todo um pensamento e conceitos já formados, todos os envolvidos mostraram-se abertos a aprende, conhecer e incorporar o conhecimento à sua vivência e ao cotidiano.
A oficina nas escolas
No total, foram atendidas três escolas5 com a oficina: Escola Estadual Tomaz de Araújo – Ensino Fundamental e Médio; Escola Estadual Prof. Iracema Brandão de Araújo – Ensino Fundamental e Médio; e Escola Municipal Major Hortêncio Brito – Ensino Fundamental. As turmas foram de 8º ano do Ensino Fundamental, e 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio. Foi um desafio maior tratar do assunto na turma do 8º ano, visto que os alunos tinham, em média, de 12 a 13 anos e ainda estavam sendo introduzidos aos assuntos no ambiente escolar.
O objetivo principal da oficina, segundo o Plano de Ação da Equipe UENP6 apresentado, foi: capacitar professores (as) para atuação em atividades de educação sexual,principalmente de crianças e adolescentes, no sentido de um processo de intervenção pedagógica, livre de preconceitos;capacitar a comunidade escolar acerca da diversidade de gênero e das possibilidades de debates sobre o tema; e,apresentar formas de enfrentamento para Prevenção de DST/Aids entre adolescentes.
Por meio de estudos recentes, vídeos educativos e imagens didáticas, buscou-semostrar aos alunos a diversidade de gênero em todos os seus âmbitos, dando enfoque à temática das mulheres e dos LGBTTT, aos movimentos sociais para a igualdade de gênero, além das conquistas e dos desafios presentes. Explanou-se aos alunos e professores quais são os desafios dentro das escolas para se entender e superar quaisquer barreiras na questão de gênero. Aos professores, privilegiou-se o enfoque nas ações possíveis de serem realizadas em sala de aula para mediar os conflitos entre gêneros e fazê-los conviver em um ambiente harmonioso. Dentro da temática da diversidade de gênero, abordou-se também a Educação Sexual, de forma a abranger tanto questões biológicas, como psicológicas e emocionais, levando o debate ao âmbito escolar.
Primeiramente, é abordado de forma geral o conteúdo apresentado aos alunos.Em um segundo momento, aparecem as análises da recepção que cada turma teve e dos resultados mais gerais alcançados nas escolas. Durante a redação deste artigo, são destacadas algumas das principais imagens utilizadas para a explicação dos conceitos e melhor entendimento do assunto.
Iniciou-se com uma abordagem de como o mundo lhes foi apresentado, seus padrões, imposições e privação de direitos e vontades. A partir do vídeo “Igualdade de gênero”, produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), procurou-se mostrar as desigualdades entre as pessoas, fruto da imposição de comportamentos e, principalmente, na questão das mulheres. O vídeo também incentiva que, desde a infância, os filhos saibam que podem ser quem realmente são, sem se importarem com o que a sociedade dita, ou com as frases excludentes e preconceituosas usadas frequentemente.
Posteriormente, mostrou-se o significado de gênero segundo Lauretis (1994, p.210), que caracteriza:
[...] o termo “gênero” é, na verdade, a representação de uma relação, a relação de pertencer a uma classe, um grupo, uma categoria. Gênero é a representação de uma relação [...] o gênero constrói uma relação entre uma entidade e outras entidades previamente constituídas como uma classe, uma relação de pertencer [...]. Assim, gênero representa não um indivíduo e sim uma relação, uma relação social; em outras palavras, representa um indivíduo por meio de uma classe.
Portanto, fazendo a conceituação e mostrando como as regras são impostas, passou- se a explorar as consequências da chamada “ordem natural” do mundo. Apresentaram-se aos alunos algumas implicações nessa questão, como: a violência contra as “minorias”; maior dificuldade de envolvimento em questões políticas; alvo de preconceitos e diferença de tratamento social na escola; diferenciação de oportunidades de emprego e salários desiguais; e problemas emocionais e psicológicos. Além disso, iniciou-se um debate para saber quais outras consequências os alunos observavam ou vivenciavam no dia a dia, momento em que alguns puderam falar das próprias experiências, colaborando com a oficina.
Para iniciar uma discussão mais aprofundada sobre as decorrências da desigualdade de gênero, abordou-se sobre a cultura do estupro, que é,no mundo contemporâneo, um dos casos mais frequentes dentro do ambiente escolar. Colocaram-se para os alunos situações cotidianas e se eles achavam normais ou não. O debate intensificou-se entre meninas e meninos, e foi interessante perceber como as meninas se posicionaram e justificaram porque não era normal, ou se manifestaram quanto às regras que são impostas para elas somente por serem meninas. Foi mostrado que a cultura do estupro está presente nas piadas, nas gírias, nos comerciais de televisão e nas próprias novelas, o que faz parecer, aos olhos da sociedade, que são atitudes “normais”. Dessa forma, colocou-se um caso que havia ocorrido recentemente7 para que os alunos opinassem e pudesse ser gerada uma troca de opiniões. Pode-se ver que muito do que os alunos falavam era reproduzido de páginas nas redes sociais, de todas as visões sobre o assunto.
Logo após, passou-se a mostrar os movimentos de resistências a esse tipo de atitude, para que eles pudessem entender que, durante a história, nem sempre foi possível protestar, manifestar e ser divulgado esse tipo de violência, e que existiram pessoas que lutaram por isso. Ao se apresentar isso para os alunos, os objetivos eram que eles entendessem os processos históricos e culturais que trouxeram o debate para a atualidade e conhecessem personagens que estão além dos livros didáticos, aos quais, na maioria das vezes, eles não foram introduzidos.
Simone de Beauvoir foi a primeira a ser apresentada, considerando-se a importância que ela representa para a luta feminista e o legado deixado até hoje. A frase deixada para os alunos foi: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja a nossa própria substância” (1961)8. Mostraram-se outras mulheres protagonistas de lutas, como: Bertha Lutz, que participou da luta pelo direito ao voto das mulheres, no movimento sufragista; Maria da Penha e a sua história, que a motivou a lutar por outras mulheres e que culminou depois de mais de 20 anos de luta na Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha; e, por fim, foi apresentada a professora Celia Guimarães, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, muito próxima a eles, que conseguiu registro para votar antes mesmo da aprovação do voto feminino. Com isso e a aprovação da lei que permitia o sufrágio, o Rio Grande do Norte foi o primeiro Estado a lançar a candidatura de mulheres e a ter uma eleita, na cidade de Lages - RN.
Segundo Mariusso (2015, p. 04),“o Nordeste continua sendo a região mais homofóbica do Brasil, pois, abrigando 28% da população, concentra 45% das mortes”. Para tratar das resistências por parte dos homossexuais, usou-se como exemplo o jornal “Lampião da Esquina”, surgido nos anos finais do Regime Militar, período em que já se iniciava a abertura política. As publicações tiveram veiculação entre 1978 e 1981. A maioria das notícias e artigos era referente à cultura homossexual e à violência cometida contra essas pessoas, que não eram denunciadas ou debatidas.
Usou-se dessa fonte para mostrar aos alunos que nem todos se silenciavam e que se hoje o debate é muito mais amplo e mais científico, é porque pessoas se levantaram para denunciar, se manifestar e levar a identidade à população. Tentou-se levar aos alunos toda forma de empatia para com o semelhante, para que no cotidiano eles pudessem propagar para a vida o que a oficina apresentou, entendendo que o respeito à diferença é o que faz a humanidade ser melhor, e não a intolerância em todos os âmbitos.
A questão da Educação Sexual, na perspectiva da Educação, foi falada com menos profundidade do que a diversidade de gênero, pois existiam oficinas sobre o tema na área da Saúde. Os alunos ficaram muito agitados e as maiores dúvidas e debates surgiram quando se falou sobre a gravidez na adolescência e no papel de cada um quando essa situação ocorre. Além disso, enfatizou-se a responsabilidade sexual, em relação às consequências e a refletir sobre os próprios atos, sendo responsável com a vida.Os participantes contaram muitas situações vivenciadas por amigos, família e até por ex-colegas de classe que no momento não estavam mais na escola.
De modo geral, no Tomaz, os alunos participaram mais, se envolveram com a temática e deram mais opiniões. Além dessa oficina, outras foram dadas no colégio, por isso eles se sentiam mais à vontade para falar das experiências cotidianas. No Major, a oficina foi para o 8º ano e, embora apresentasse participantes mais receosos quanto ao assunto, dois se identificaram como homossexuais e contaram algumas situações e dificuldades vividas por eles na infância e no início de adolescência. No Porfíria, realizou- se a oficina com os alunos do 3º ano do Ensino Médio, com participantes que falaram e participaram muito pouco, entretanto,observou-se a diferença que a abordagem fez na vida de alguns alunos,nas falas posteriores às oficinas9.
A oficina para os professores e para a sociedade local
As oficinas sobre diversidade de gênero e educação sexual também foram aplicadas em professores10 e na sociedade local. Nas oficinas para as docentes, houve uma dificuldade de início, pois muitas tratavam a oficina com desdenho, achando previamente que não lhes acrescentaria nada; porém, durante a oficina, perceberam que haviam se enganado e depois se desculparam, afirmando que aprenderam significativamente.
O conteúdo abordado para as educadoras foi parecido com o que foi passado para os alunos, entretanto, tentou-se acentuar os problemas do cotidiano no ambiente escolar e qual é o papel do professor na amenização da desigualdade de gênero e no tratamento acerca da educação sexual.Para as oficinas, foram elaboradas apostilas para suporte e consulta após a oficina, por isso, foram tratadas algumas imagens essenciais para o entendimento da identidade de gênero, como a Figura 1.

Passou-se, então, a abordar as dificuldades do cotidiano escolar, causadas pelo machismo, homofobia e violência física, verbal e psicológica. No mês anterior à oficina, ocorreu um fato que chocou o mundo todo11, e que se usou como referencial para tratar das questões sobre homofobia, pois estase inicia dentro de casa, na escola e na sala de aula, ambiente em que o professor media as situações. Portanto, tentou-se salientar que:
Ninguém nasce homofóbico. A homofobia se aprende em casa, na escola, nas ruas, nas igrejas, nas mesquitas e nas sinagogas. É aquela obsessão dos pais de que rosa é de meninas e azul é de meninos. É a bronca dos professores se a criança brinca de carrinho ou de boneca. É o sermão do padre ou do pastor falando que viver a homossexualidade é viver no pecado. É o bullying que os LGBTs sofrem ou já sofreram algum dia, com piadas infelizes, agressão verbal e física. (MORAES, 2016, s. p.)
Acentuou-se a importância de não se reproduzirem termos ou frases que reafirmam a desigualdade de gênero, mostrando um trabalho realizado por estudantes de jornalismo na Universidade de São Paulo (USP, 2016), que continha frases como: “nada contra gays, mas...”; “você é muito bonita pra ser lésbica”; “com esse cabelo curto você parece uma sapata”; “ai de você se aparecer com um namorado em casa”; “vira homem”; “isso não é coisa de mulher”. O principal termo que não deve ser reproduzido é: homossexualismo. Desde 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Portanto, por questões políticas e de respeito, o termo “homossexualismo’’ é errado e ofensivo, já que era ligado a alguma doença psíquica, e considerado questão de saúde pública. A maneira certa de se referir à conduta homossexual é “homossexualidade”.
No decorrer da oficina, sentiu-se certa indignação das professoras diante de algumas afirmações, principalmente nos momentos em que era trabalhada a homossexualidade na infância e as consequências de seu não entendimento ao longo da vida. Na questão do machismo, ainda que todas fossem mulheres, poucas questionavam o papel que sempre lhes foi colocado e os momentos em que ouviam que não podiam fazer “coisas de meninos”. As ocasiões em que elas mais se manifestaram foram na questão da “cultura do estupro”, trabalhada da mesma forma como foi com os alunos, porém, apresentando-se pequenas entrevistas e documentários relacionados, para se entender de forma sociológica o contexto.
Não se pode saber ao certo o que mudou na concepção das professoras, mas houve árduo esforço para que pudesse haver diálogo em todo o tempo, para que elas entendessem e que não se ferisse nenhum tipo de crença e valores. No entanto, o trabalho com gênero é um processo longo, que necessita de diversas intervenções, em uma busca constante de se amenizar a desigualdade. Intentou-se iniciar as professoras ao assunto, para que pelo menos no cotidiano escolar elas pudessem perceber situações e corrigir possíveis erros no agir, falar, os quais acentuam a desigualdade.
Para a sociedade, o embate foi muito maior: havia dois homens no ambiente que não aceitaram e não viram com bons olhos nada do conteúdo. Houve afirmações como “sempre foi assim, por que vocês tão querendo mudar?” [sic], o que dificultou bastante o aprendizado, já que é necessário que todos estejam dispostos a aprender. Todavia, havia adolescentes e mulheres também, que fizeram perguntas, contaram experiências da infância e acrescentaram à oficina.
Considerações Finais
É inevitável dizer que a “cultura machista” que há no Brasil contribui de forma contínua para a desigualdade de gênero e para a educação sexual. Nas escolas, é ainda maior a dificuldade, por ser o local em que são acentuadas as situações de violências físicas, psicológicas e emocionais pelas quais pessoas são marcadas ao longo da vida.
A importância de se trabalhar a questão de gênero no ambiente escolar é indiscutível, já que esta acaba determinando de forma desumana quem o indivíduo pode ou não ser, qual profissão seguir, os comportamentos permitidos, e tudo o que lhe convém devido ao seu gênero. Isso impede a criatividade, as sensibilidades e peculiaridades que cada um carrega dentro de si.
Todavia, ainda que seja um processo árduo, observou-se que os alunos têm a mente muito mais aberta para conhecer, formar opiniões e entender o outro. Foi interessante perceber a influência das redes sociais e das informações imediatas presentes na internet; em diversos momentos, os alunos citaram páginas conhecidas do Facebook e postagens que os próprios rondonistas já haviam visto. A dificuldade maior foi conversar com os adultos, pessoas que já tem um mundo preconcebido e que na maioria das vezes não têm disposição para enxergá-lo de outra forma. Os valores morais e religiosos são de influência ímpar nessa preconcepção, pois ainda é demasiadamente difícil conciliá-los aos científicos.
A tentativa foi positiva, tanto quanto aos adolescentes, com a mente mais aberta, quanto aos adultos, com preconcepções mais definidas. Eles ouviram, debateram e tiveram contato com o conteúdo ministrado. A oficina foi satisfatória nesse sentido e enriquecedora para a experiência acadêmica e pessoal.
Essa é a essência do Projeto Rondon, compartilhar conhecimentos, trocar experiências, conhecer realidades e concepções de vida diferentes. Ainda que em duas semanas não seja possível mudar toda uma realidade, busca-se contribuir com o exemplo, o amor e a dedicação com que as oficinas são planejadas e aplicadas. Alguns assuntos trabalham extraordinariamente com o emocional das pessoas, e é esse ponto que se busca alcançar.
Referências
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Notas