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PROGRAMA DE EXTENSÃO “FISIOTERAPIA ESPORTIVA”: UMA VIVÊNCIA EXTENSIONISTA
PROGRAMA DE EXTENSÃO “FISIOTERAPIA ESPORTIVA”: UMA VIVÊNCIA EXTENSIONISTA
Revista Conexão UEPG, vol. 15, núm. 3, pp. 269-273, 2019
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 28 Fevereiro 2019
Aprovação: 14 Junho 2019
Resumo: O objetivo do trabalho é apresentar o programa de extensão “Fisioterapia esportiva”. Este programa de extensão é composto por três ações de extensão: o atendimento supervisionado de fisioterapia na área do desporto, o mesmo atendimento fisioterapêutico para atletas do paradesporto e um curso de atualização e/ou realização de simpósio institucional sobre temas relacionados ao assunto, ou seja, contribui com a formação universitária dos acadêmicos em sua relação teórico-prática. Os autores demonstram a importância do programa de “Fisioterapia Esportiva” como uma atividade de extensão universitária como um espaço de formação acadêmica dos alunos (e dos professores), uma vez que estas corroboram para a articulação teórica-prática e para as vivências multi e interdisciplinares.
Palavras-chave: Extensão universitária, Fisioterapia, Lesões do esporte.
Abstract: The objective of this article is to present the university extension program called “Physiotherapy in sports”. This program consists of three extension actions: the supervised attendance of physiotherapy in sport, the same physiotherapeutic care given to athletes of the para-sport and an update course and/or an institutional symposium addressing themes related to the subject. We believe it contributes to the university students’ education in their theoretical-practical relation. The authors demonstrate the importance of the “Physiotherapy in Sports” program as a university extension activity extension activity providing students (and teachers) with academic education, since it promotes theory-practice articulation as well as multi and interdisciplinary experiences.
Keywords: Extension, Physiotherapy, Sports injuries.
Introdução
Diversas lesões do sistema musculoesquelético ocorrem em decorrência da prática esportiva (FOURNIER, 2015; MCGREGOR, 2017). A formação dos profissionais envolvidos na abordagem dessas lesões, bem como as competências e atribuições de profissionais na área esportiva, são variáveis de país para país. Este fato pode levar a implicações para a saúde e decisões de políticas públicas sobre a adequação da utilização destes profissionais para fornecer atendimento de acesso direto para pacientes com tais condições musculoesqueléticas (CHILDS et al., 2005). Waddington, Roderick e Naik (2001) encontraram que poucos profissionais esportivos de clubes ingleses tinham experiência ou qualificações prévias em medicina esportiva.
A Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva (SONAFE), no I Fórum Nacional dos Docentes da Fisioterapia de 2005, determinou as diretrizes para normatização do ensino de graduação e pós-graduação referentes à área de Fisioterapia Esportiva (denominadas "Carta de Londrina"). Estas fundamentam-se em orientações aos profissionais fisioterapeutas professores e coordenadores de cursos (SOCIEDADE NACIONAL DE FISIOTERAPIA ESPORTIVA, 2005). A SONAFE sugeriu a Fisioterapia Esportiva com integração de outras conteúdos curriculares; no entanto, somente 38% das IES com a disciplina/o módulo de Fisioterapia Esportiva as ofertam de forma específica (DE OLIVEIRA et al., 2013), ou seja, a maioria dos cursos aplica os conteúdos da disciplina/do módulo associados a outras disciplinas. Esse achado demonstra uma carga horária específica menor e pode dificultar o processo de ensino aprendizagem do conteúdo da Fisioterapia Esportiva e sua ancoragem de outros saberes.
Programas de Extensão Universitária mostram a importância da relação estabelecida entre instituição e sociedade. Estes acontecem por meio da aproximação e troca de conhecimentos e experiências entre professores, alunos e população; pela possibilidade de desenvolvimento de processos de ensino aprendizagem, a partir de práticas cotidianas, juntamente com o ensino e pesquisa e, especialmente, pelo fato de propiciar o confronto da teoria com o mundo real de necessidades (HENNINGTON, 2005).
Analisando os aspectos apresentados, verifica-se a importância de sugerir formas de inserção da disciplina/módulo de fisioterapia esportiva no currículo universitário dos cursos de Fisioterapia. Por conseguinte, o objetivo do trabalho é apresentar o programa de "Fisioterapia Esportiva" e demonstrar sua inserção como uma extensão universitária.
Métodos
O presente estudo foi realizado no Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). O programa está inscrito no Sistema de Informação e Gestão de Projetos (SigProj) do Ministério da Educação -MEC, através de edital vigente.
O programa de extensão “Fisioterapia Esportiva”é composto por três ações de extensão? o Fisioterapia Esportiva, o Atendimento fisioterapêutico no Paradesporto e um curso de atualização ou simpósio aberto relacionado ao tema. As ações de fisioterapia esportiva e no paradesporto consistem no envolvimento de professores, profissionais fisioterapeutas e acadêmicos para atender de forma supervisionada inúmeros atletas, com ou sem deficiências mentais ou físicas, com necessidade de atenção/assistência fisioterapêutica.
O curso ou simpósio possui como objetivo difundir os conhecimentos teórico-práticos dessa área da fisioterapia. Em suma, o programa procura executar suas ações de forma a valorizar os saberes com vivência prática. Complementarmente a essas ações, o programa compreende, ainda, a realização de seminários semanais, visando a atualização científica dos alunos participantes, objetivando o melhor embasamento teórico para os atendimentos dos pacientes atletas.
Alunos que participam do programa
Inicialmente, as vagas para a participação no Programa de "Fisioterapia Esportiva" foram oferecidas gratuitamente a todos os alunos regularmente matriculados no curso de bacharelado de Fisioterapia da instituição. Porém, pela regulação de números de alunos por supervisor, o número é restrito a 15 participantes. Como o número de inscritos é relativamente grande para a supervisão, atendimentos e infraestrutura institucional, há uma seleção dos candidatos por meio de prova escrita, entrevista e prova prática.
As atividades dentro das ações são resumidas na Tabela 1.

Público/população alvo
No projeto "Fisioterapia Esportiva", são realizados avaliações e atendimentos a atletas amadores e profissionais encaminhados à Clínica Escola de Fisioterapia do CEFID/UDESC, participantes do JIUDESC (Jogos de Internos da UDESC), bem como os representantes da UDESC em eventos esportivos como JUC's e Copa UNISINOS. Além disso, avaliação e atendimento fisioterapêutico para paradesportistas encaminhados à Clínica de Fisioterapia do CEFID/UDESC. E as ações de realização de eventos, seja curso de atualização ou simpósio, são destinadas a profissionais fisioterapeutas e acadêmicos de fisioterapia.
O programa de extensão é realizado de março a dezembro, respeitando-se o período de disponibilidade da Clínica Escola de Fisioterapia CEFID/UDESC, ou seja, se estende ao período de recesso escolar do mês de julho, em razão da necessidade de continuidade dos tratamentos :fisioterapêuticos dos atletas assistidos. Os eventos de atualização profissional no âmbito da fisioterapia esportiva ocorrem no mês de outubro dos anos de vigência do programa.
Locais de realização
O principal local de realização das ações é na Clínica Escola de Fisioterapia do CEFID/UDESC, sendo que o Programa de Extensão se estende aos eventos esportivos que a UDESC organiza ou efetua seu apoio. Portanto, de forma eventual, há os atendimentos fisioterapêuticos realizados nesses momentos (JIUDESC, JISUDESC, JUC'se Iron Man Brasil).
Resultados
Após a divulgação dos processos de seleção para alunos interessados em participar do programa, há, em média, 20 alunos inscritos por seleção. Nos últimos anos, o grupo formado pela inserção de alunos que foram selecionados variou entre 10 e 13 alunos, entre voluntários e bolsistas atuantes.
Para a ação de evento, o simpósio reuniu 80 inscritos para o ano de 2017 e 120 para 2018, os dois primeiros anos do evento.
Para a atuação no programa de "Fisioterapia Esportiva", é adaptado o principio da indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão (ZANUTTO; ISHIDA; DUARTE, 2017). Para tanto, após o convite para os alunos participarem, há a capacitação para posterior atuação no programa.
A capacitação é realizada por supervisores tutores (professores doutores) e, através dos próprios alunos, de maneira hierárquica de tempo de programa, experiência na prática e fase da graduação (atrelada a teoria), no acompanhamento do cotidiano das ações do programa (Figura 1).

Atualmente, o programa é composto por 13 alunos, entre voluntários e bolsistas, sendo 2 mulheres, idade média de (19 ± 1) anos, e 11 homens, idade média de (22 ± 2) anos. São 2 alunos bolsistas e 11 voluntários.
Atendimentos realizados
A Tabela 2 mostra um quadro geral dos dados de atendimentos de pacientes e alunos do programa.

Discussão
A extensão universitária, entre a diversidade de entendimentos, pode ser considerada uma diretriz institucional, um processo mediador de construção do conhecimento e uma atividade que aponta para a finalidade do percurso da aprendizagem, qualificando o valor epistemológico, ético e politico da instituição, que deve ser vivenciado, cotidianamente, pelos sujeitos acadêmicos e comunitários, pelos processos instituídos e instituintes, e pelos resultados individuais e coletivos (FERNANDES et al., 2012)
A criação de projetos de extensão como componentes de cada disciplina deve ser construída em diálogo entre professor, alunos e necessidades de determinadas populações. Pode-se trabalhar com o esporte, cultura e lazer, centrando, prioritariamente, no levantamento e atendimento a necessidades básicas de emprego, renda, moradia, empoderamento das comunidades, tecnologias sociais, saúde, transporte, justiça e segurança, nutrição, enfim, na qualidade de vida, no bem viver das populações mais necessitadas e empobrecidas (GADOTTI, 2017).
De modo geral, as ações do programa de "Fisioterapia Esportiva" buscam oportunizar aos acadêmicos de fisioterapia maior aprendizado dentro da área, ampliando seus recursos terapêuticos, formando-os e habilitando-os a trabalharem com atletas e paratletas. Consequentemente, também oferecem benefício social, seja para promover a integração dos atletas nas suas funções da forma mais breve possível, seja aumentando a saúde dos seus participantes da comunidade (principalmente aos paratletas), conferindo-lhes melhora da performance e, consequentemente, maior qualidade de vida.
O programa de "Fisioterapia Esportiva" é pautado pelos objetivos de: 1) proporcionar a vivência prática dos conhecimentos fisioterapêuticos através da execução dos atendimentos fisioterapêuticos supervisionados realizados e acompanhados por acadêmicos do Curso de Fisioterapia; 2) exaltar a importância da Universidade como promotora do desenvolvimento social através da prestação de serviços de qualidade que implementem a melhoria da qualidade de vida da comunidade interna e externa através dos serviços de Fisioterapia prestados de forma gratuita; 3) promover o aprimoramento acadêmico através do estudo dos casos clínicos atendidos durante a vigência do programa de extensão; e 4) proporcionar aos acadêmicos de fisioterapia, através de aulas teóricas-práticas, um aprofundamento e aprendizado de matérias como anatomia, fisiologia, biomecânica e cinesiologia dentro da abordagem terapêutica, assim como o conhecimento teórico de técnicas apresentadas durante o programa e o estudo prático destas, por meio da prática entre os alunos, com isso tomá-los mais aptos ao aperfeiçoamento das técnicas aprendidas, através do atendimento da comunidade, e complementando-se através da discussão dos casos clínicos com o grupo de alunos e ministrantes dos projetos; e, 5) proporcionar à comunidade tratamento fisioterapêutico adequado às suas disfunções, proporcionando-lhe alívio de seus sintomas, melhoramento das alterações posturais e um trabalho profilático de futuras disfunções decorrentes das alterações já instaladas, além de educação em saúde através de orientações de autocuidado.
Estes objetivos do programa contemplam as observações de Síveres et al. (2012), que dita que "a atividade extensionista contribui para o aprofundamento dos conceitos, ou seja, aquilo que se deve saber para o exercício de sua profissão", como também para o desenvolvimento pessoal. Ainda, este autor descreve três subcategorias para esse processo de aprendizagem direcionado à formação profissional que encaixam aos objetivos acima descritos, que seriam: a) a aprendizagem para o conhecimento da realidade de atuação profissional; b) a aprendizagem para a aquisição de habilidades; e c) a aprendizagem para fazer a relação da teoria com a prática.
O programa de "Fisioterapia Esportiva" é um espaço destinado para o aprimoramento das competências e habilidades profissionais dos acadêmicos do Curso de Fisioterapia, por ser um local destinado aos atendimentos fisioterapêuticos tanto no ambiente voltado ao atleta quanto ao paradesportista. Além dos atendimentos fisioterapêuticos, são realizados estudos de casos clínicos, fórum de discussão e debates sobre as vivências práticas e palestras voltadas para a Educação em Saúde e para performance dos atletas.
O programa mantém-se ativo e atuante, com as características descritas neste artigo. Ainda há muito a aprender sobre a prevenção e tratamento de lesões esportivas. Como próximo passo, objetiva-se maior qualificação e treinamento para formação de profissionais mais qualificados, e colaborar para oferecer aos atletas melhor tratamento e reabilitação disponíveis hoje.
Conclusão
Propostas que inserem o acadêmico em situações centradas na prestação de serviços especializados, como é caso do presente programa de "Fisioterapia Esportiva", em que se possibilita um ambiente rico em experiências e, ao mesmo tempo, pautado nas reais necessidades do mercado de trabalho, são responsáveis pelo aprimoramento das habilidades e competências profissionais.
Logo, o projeto se justifica pela finalidade, pelos resultados já alcançados, pelo comprometimento dos envolvidos e, não menos importante, pelo compromisso da universidade em procurar atender as demandas sociais através da prestação de serviços que atendam a comunidade e preencham lacunas importantes na formação acadêmica.
Referências
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