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O PAPEL DA ESCOLA, DA UNIVERSIDADE E DA COMUNIDADE NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Ronaldo Aurélio Gimenes Garcia
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Brasil
Jackson Luís Martins Cacciamani
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Brasil

O PAPEL DA ESCOLA, DA UNIVERSIDADE E DA COMUNIDADE NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Revista Conexão UEPG, vol. 15, núm. 3, pp. 339-345, 2019

Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 28 Fevereiro 2019

Aprovação: 30 Maio 2019

Resumo: O programa de extensão A formação de professores em diferentes contextos espaciotemporais (Edital 1098/GR/UFFS/2017) visou proporcionar uma interação dialógica mais intensa e constante entre a escola pública da Educação Básica, a Universidade e a Comunidade. Por esse motivo, agregou projetos de extensão na formação de professores sob diferentes abordagens, visto que isso potencializa a consolidação dessa parceria, que é essencialmente aprendente e formativa. O programa buscou abranger aspectos constitutivos da nossa formação como professores num espaço-tempo que transcende a sala de aula, tanto da escola quanto da universidade. Diferentes metodologias foram adotadas, como a produção de depoimentos, exposição de fotografias, rodas de conversa, mostra de filmes e documentários, bem como vários debates acerca de temáticas concernentes à nossa constituição enquanto professores. Todas as ações desenvolveram formas de avaliação que incluíam uso de questionários, rodas de conversa e relatos de experiência dos participantes. Participaram cerca de 330 professores de escolas públicas.

Palavras-chave: Formação de Professores, Relação Escola, Universidade e Comunidade, Dialogicidade.

Abstract: The outreach program Teacher education in different space/time contexts (Notice 1098/GR/UFFS/2017) aimed at providing a more intense and constant dialogic interaction between Basic Education public schools, the University and the Community. For this reason, the program involved outreach projects about teacher education from different approaches, as this helps consolidate the partnership that is essentially a leaning and formative activity. The program sought to cover constitutive aspects of teacher education in a space and time that goes beyond the classroom from either schools or the exhibitions, conversation groups, film exhibits and documentaries, as well as several debates about the themes related to what constitutes teachers. All the actions included evaluations in the form of questionnaires, conversations groups and participants’ experience reports. Approximately 330 public school teachers participated in the program.

Keywords: Teacher Education, School, University and Community Relationship, Dialogicity.

Introdução

A proposta do programa de .extensão surgiu de inquietudes e preocupações desde muito tempo a respeito do distanciamento existente entre a formação inicial dos nossos professores na universidade e o seu futuro espaço tempo profissional, ou seja, a escola da Educação Básica (NOVOA, 1995). Pois, embora algumas ações no sentido de nos integramos em termos de projetos de ensino, pesquisa e extensão, percebemos que ainda estamos distantes e poderíamos estabelecer parcerias formativas mais consistentes e produtores de sentidos. Argumentamos que o processo de formação de professores nessa intenção entre a escola, a universidade e a comunidade adquire uma produção de sentidos importante no que diz respeito ao movimento de compreensão da realidade vivida nesses espaços e tempos.

Autores como Nóvoa (2009) indicam que é necessário que, cada vez mais, no inicio da formação, os estudantes das licenciaturas possam estar presentes nos espaços escolares, a fim de conhecer melhor esta realidade identificar seus limites e potencialidades, para que 'tenham condições de analisar e de refletir a respeito de formas inovadores de qualificarmos o processo educativo. Ações que . contribuam transformação dos entraves, no muito da construção de uma escola de melhor qualidade, acolhedor e que, de fato, faça a diferença na vida das pessoas e da comunidade ao seu entorno. Além disso, a própria universidade se consolida no contexto em que está inserida, uma vez que tem a escola e. a comunidade e como parceiras no sentido de construir e reconstruir conhecimentos e saberes oriundos da realidade desse espaço e tempo historicamente situado.

Esse é um trabalho continuo que depende do esforço e do envolvimento de diferentes agentes escola pública, da universidade1 e da comunidade, pois em cada um desses espaços e em diferentes tempos, é possível a construção de processos de ensinar e de aprender mais intensos, complexos e produtores de sentidos a todos os envolvidos, principalmente, pautados na mediação, na interação dialógica e na alteridade constante dos envolvidos.

Contudo, os participantes do projeto devem estar abertos no sentido de compreender esse processo formativo, ou seja, que todos os membros são responsáveis pela formação uns dos Outros2, desconstruindo assim qualquer tipo de hierarquia, pois entendemos que as experiências vividas de cada integrante desse coletivo são importantes no sentido de aprendermos coletivamente a sermos professores, assim como a partilha de experiências, conhecimentos e saberes é potencializadora da transformação desses professores em processo permanente de formação. Diante disso, as palavras de Freire auxiliam nesse contexto:

O diálogo é este encontro dos homens, imediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu. Esta é a razão por que não é possível o diálogo entre os que querem a pronúncia do mundo e os que não querem; entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito. (FREIRE, 2005, p.91)

As diversas ações do programa de extensão tiveram como proposta construir um espaço de diálogo que envolveu a produção de depoimentos de ex­professores, ex-gestores e ex-alunos das escolas urbanas e rurais da região sudoeste do Paraná com a organização de uma exposição de fotografias; rodas de conversa com professores das escolas públicas (SOUZA, 2001), envolvendo questões do cotidiano escolar e da profissionalização docente, especialmente a identidade docente; organização de um cine debate sobre a temática indígena envolvendo os estudantes do nosso campus da UFFS e da comunidade, abordando, assim, na forma de uma roda de conversa aspectos sociais históricos, culturais, alimentares, dentre outros. Isso ocorreu de modo a proporcionarmos uma roda de conversa acerca de aspectos sociais, históricos, culturais, alimentares, políticos, econômicos, dentre outros, numa perspectiva da constituição dos professores pesquisadores (MALDANER, 2000).

Tivemos rodas de conversa com a equipe pedagógica da Escola Estadual Dom Carlos Eduardo, em Realeza/PR, acerca da cultura alimentar dos estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, pois a intenção era problematizarmos diversos aspectos vinculados a essa temática, que é, por natureza, um tema transversal. Essa intervenção ocorreu em parceria com um o curso de graduação em Nutrição do Campus, visto que os estudantes também estiveram envolvidos nessa proposta (MONTEIRO, 2009). Optamos por organizar diversos momentos em parceria com os colegas professores da escola acerca da interação dialógica sobre o alto consumo de carboidratos, baixa ingestão de frutas, verduras e legumes, a ausência do consumo de água na dieta alimentar e, ainda, a obesidade nas crianças e adolescentes, dentre outros aspectos que emergiram dessa integração. E o que nos preocupa é identificarmos que esse tema não faz parte do currículo escolar como realmente um conteúdo transversal, bem como outros tantos, por exemplo, as drogas, a sexualidade, a Educação Ambiental etc.

A maioria das ações propostas no programa oportunizou a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, visto que são temáticas emergentes entre os grupos de pesquisa envolvidos, ou seja, o TRIPEC3 e o GPECieN4. Por isso, podemos destacar as seguintes ações, tais como: [1] a memória e formação de professores; [2] a alimentação no contexto escolar; [3] a formação de professores em rodas de conversa. Houve várias possibilidades, a partir do desenvolvimento das ações do programa, de construir processos de pesquisa, uma vez que trouxeram situações, informações, experiências vividas, conhecimentos e saberes importantes no processo de formação de professores numa perspectiva acadêmico­ profissional (DINIZ-PEREIRA, 2008), isto é, potencializando o (re)pensar, o (re)construir e o (re)significar os nossos cursos de licenciatura.

Os objetivos desse programa foram os seguintes: (1) contribuir para que os professores e população local compreendam sua história na formativa a partir das memórias revistadas. Além disso, (2) formar uma massa documental que permita subsidiar as pesquisas atuais e futuras sobre a formação de professores da região sudoeste do Paraná; ampliar a ideia de formação de professores da região; (3) identificar a cultura escolar local; (4) propor trabalhos de comparação; (5) fortalecer e incentivar a pesquisa em formação de professores; (6) fortalecer as licenciaturas da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Realeza/PR. A partir da extensão, buscamos a apropriação das experiências no sentido de qualificar o processo de formação dos estudantes nas licenciaturas e publicizar o processo de formação de professores em uma perspectiva que conceba as relações históricas, sociais, econômicas e culturais. Desta forma, pretendemos oportunizar situações diversas de (re)significar e (re)construir o processo de formação de professores (TARDIF; LESSARD; LAHAYE, 1991).

O referido programa de extensão ocorreu em quatro cidades do sudoeste do Paraná, sendo elas: Realeza, Santa Izabel do Oeste apenas com as escolas urbanas, Santo Antônio do Sudoeste (escolas urbanas e do campo), e as escolas municipais do campo de Francisco Beltrão. Ao todo, foram envolvidos cerca de 330 professores da Educação Básica, 100 alunos dos cursos de licenciatura da UFFS (Letras, Química, Ciências Biológicas e Física), e do curso de Nutrição e em tomo de 15 professores da universidade. Os encontros ocorriam na escola, na universidade e em outros espaços de acordo com as necessidades e a natureza da atividade. A maioria dos encontros ocorreu mensalmente, com exceção das escolas de Santo Antônio do Sudoeste, que realizava as formações de acordo com o calendário da Secretaria Municipal de Educação. Em razão de situações como esta, nem sempre foi possível desenvolver um trabalho mais próximo e constante com os professores como o programa previa. Este foi um dos desafios do trabalho desenvolvido.

Nosso entendimento acerca da escola é de um espaço-tempo de formação numa perspectiva humanizadora, ou seja, de interação humana. Portanto, os conteúdos diversos que procuramos abordar na escola e na universidade precisam produzir sentidos aos atores sociais envolvidos nesse processo.

As metodologias de formação propostas: desafios e possibilidades

Os referenciais metodológicos do programa de extensão percorrem diversos caminhos, uma vez que cada projeto nele integrado possui diferentes perspectivas metodológicas, epistemológicas, pedagógicas e formas de interação com os professores da escola de Educação Básica, tendo em vista que isso enriquece e fortalece a nossa ação no processo formativo, principalmente quanto ao processo de imersão na escola (ARROYO, 2011).

Os instrumentos de produção de informações nesse processo de formação podem ser mencionados em cada subprojeto, tais como: entrevistas audiogravadas, narrativas, filmagens, gravações diversas, fotografias e tantos outros. No entanto, a nossa intenção no programa é nos apropriarmos das mais diversas formas de linguagem (VYGOTSKY, 2009), haja vista que a escrita, a leitura, a argumentação, a oralidade, a dialogicidade, a fotografia, a música, o teatro, o cinema, a arte, dentre outras tantas formas, podem ser explorados nesse processo formativo com os colegas professores da Educação Básica, em que todos aprendemos coletivamente a "sermos professores". Trata-se, portanto, de um processo essencialmente coletivo e colaborativo. Trabalhar nessa perspectiva antagoniza com o que preconiza os interesses individualistas e meritocráticos que hoje tende a prevalecer nas atuais políticas educacionais (SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA, 2001).

O cerne epistemológico do programa é do educar pela pesquisa (DEMO, 1998; MALDANER, 2000; GALIAZZI, 2003), que compreende os processos educativos na sala de aula da escola e da universidade, ancorados na pesquisa que os professores realizam com os seus estudantes acerca dos processos de ensinar e de aprender. O educar pela pesquisa, enquanto principio educativo, proporcionou (re)construirmos e (re)significarmos o currículo, tanto na escola quanto na universidade, pois no momento que compreendemos de outro modo os processos de ensinar e de aprender, estamos transformando nossas teorias e paradigmas. Isto é, nossa proposta neste programa, em termos de formação de professores, é de que os nossos licenciandos e colegas professores das escolas sejam autores e construam autonomia frente ao seu processo de formativo, ou seja, uma proposta de autoformação.

A formação de professores deve ser assumida dentro da profissão de acordo com Nóvoa (2009), ou seja, concedendo um papel essencial aos professores mais experientes na formação daqueles que estão em início da formação. Essa é uma das apostas desse programa de extensão em todos os seus projetos, pois na articulação entre a escola, a universidade e a comunidade, tem um papel fundamental na formação do coletivo.

A diversidade de ideias e de propostas do programa potencializou construirmos um repertório compartilhado em termos metodológicos. Isso proporcionou o engajamento de um grupo de colegas professores, bem como a volatilização de outros. Isso ocorre ainda, uma vez que os processos de formação estão ancorados nessa ideia de que a universidade é responsável pela formação dos colegas da Educação Básica e existem resistências acerca de uma proposta ancorada na pesquisa. Esta, por sua vez, procura desconstruir qualquer hierarquia do processo, pois todos os envolvidos são responsáveis pela formação de todos.

Devido ao fato de cada ação, dentro do programa, ter uma metodologia própria, os projetos apresentaram diferentes fases de desenvolvimento. No entanto, de uma maneira geral, identificamos alguns procedimentos em comum, como prévio contato com as escolas, apresentando a proposta e a partir daí construindo parcerias com os colegas. Em seguida, as instituições indicam o horário e local mais adequado para a formação. A escolha dos espaços procurou levar em conta uma rotatividade entre as escolas, a universidade e a comunidade.

Em outras ações, como a memória da formação de professores do sudoeste do Paraná, a metodologia utilizada levou em conta as contribuições da história oral (HALBWACHS, 2004). Trata-se de urna técnica que surgiu com o advento do gravador em meados do século passado e que procurava outras fontes para além dos documentos oficiais. Além disso, a história oral tem o poder de conceder voz aos que frequentemente estão excluídos do discurso do vencedor. Foi pensando nisso que a ação buscou, em diferentes cidades da região do sudoeste paranaense, ex-professores, ex-gestores e ex-alunos que vivenciaram o processo de criação e implantação das primeiras escolas (LELIS, 2001).

Inicialmente, buscamos as escolas, Secretarias Municipais de Educação (SME) e mesmo Núcleos Regionais de Educação (NRE) para levantar os nomes dos possíveis entrevistados. Em alguns pequenos municípios, foi possível contar com o apoio de escolas e secretarias, que entraram em contato com as professoras e professores e os convidaram para comparecerem em um dia e hora marcada para concederem seus depoimentos (LE GOFF, 1996). Além dos relatos orais e audiogravados, realizamos também a coleta de todo tipo de material escolar que os professores possuíam sob sua guarda. Por se tratar de algo de grande valor afetivo, a maioria dos docentes nos permitiu reproduzir esses materiais (fotos, livros, cadernos de classe, diários, jogos didáticos e tantos outros documentos). Alguns poucos nos doaram o que tinham sobre seu poder. Nas localidades onde esses encontros não foram possíveis, íamos até o encontro do entrevistado diretamente em sua residência ou outro espaço por ele ou ela indicado.

Foram momentos de grande aprendizagem por parte de todos. Os colaboradores ou colaboradoras eram reunidos em uma roda de conversa e, assim, narravam suas experiências, os desafios enfrentados, sobre os alunos, as comunidades, o envolvimento dos pais, as longas distâncias a serem percorridas, a precariedade das instalações e materiais escolares e os caminhos trilhados até a formação como docentes.

No caso da ação Cinedebate, a proposta era utilizar o cinema como uma importante ferramenta na formação de professores e também um meio de envolver a comunidade local com diversas temáticas. No caso específico desta versão do projeto, um grupo de estudantes do curso de Letras Português/Espanhol, sob a orientação de um grupo de docentes, decidiu trazer para o debate a questão indígena, tendo em vista a comemoração do "Dia do índio" no mês de abril. Foram convidados alunos de todos os cursos de licenciatura do Campus e estudantes dos cursos noturnos das escolas de Realeza. Inicialmente, foram apresentados dois documentários sobre a inclusão do indígena no Ensino Superior. Na sequência, foi organizada uma mesa com alimentos típicos da culinária indígena. Uma estudante indígena do curso de Nutrição ajudou os demais colegas estudantes na elaboração do cardápio e no preparo dos alimentos. Todos foram convidados a degustar os pratos, que, por sinal, estavam deliciosos e processados com o maior zelo, respeito e pertencimento à cultura indígena. Na parte final do evento, um grupo de professores, de diferentes áreas do conhecimento, realizou uma análise dos documentários com a participação do público presente.

A diversidade de metodologias, bem como de referenciais teóricos presentes no programa foram importantes para ampliar o espaço de formação inicial e continuada de professores, especialmente nessa interação com a escola e a comunidade. Além disso, procuramos romper com alguns paradigmas ainda muito presentes no imaginário escolar, ou seja, a falsa ideia de que "aula" é somente aquilo que ocorre em sala de aula, sob a responsabilidade de um professor. Isso é um ponto essencialmente relevante, pois nem mesmo na universidade existe essa compreensão mais ampliada acerca do episódio tão significativo que é a "aula". Por causa disso, recorremos à obra de Freire (1995). A sombra desta mangueira. Apostamos, durante as diversas ações do programa, numa proposta que desconsidera qualquer hierarquia e potencializa a construção de uma comunidade. Isto é, uma comunidade aprendente a respeito da nossa constituição como/enquanto/na qualidade de" professores em formação acadêmico-profissional.

É fundamental cultivar nos licenciandos a concepção de que todos os lugares podem ser locais de aprendizagem. Essa relação entre o espaço e o tempo é dialética, por um lado, e por outro é totalmente engendrada. Então, a "aula", na nossa concepção, pode ocorrer em qualquer espaço-tempo que haja um grupo de professores, de estudantes e demais pessoas envolvidas e engajadas e, acima de tudo, dispostas a exercer a complexidade do diálogo e da escuta atenta ao Outro. Sobretudo, esta se constituiu numa preocupação constante dos envolvidos no desenvolvimento do programa e das ações que o compuseram.

Em um país tão desigual e violento como o Brasil, a educação sempre passou ao largo dos grandes projetos de nação. Em nenhum deles a valorização da escola e do professor esteve presente. Sendo assim, mesmo na universidade, enfrentamos uma concepção ainda muito arcaica e tradicional do que venha ser o educar. Tanto alunos como docentes ainda estão muito presos ao modelo de aula em que o professor fala e o aluno ouve passivamente, a hipervalorização da prova escrita como único, verdadeiro e absoluto modo de avaliar. Desta forma, quando propomos uma outra abordagem que envolve a adoção de novas metodologias, como a simples discussão de um filme, muitos estudantes entendem que isso não é aula e tendem a desconsiderá-la diante do que vivenciam na maioria dos componentes curriculares que frequentam. Assim, levar a cabo um programa de extensão com esse tipo de proposta em muitos casos provocou uma certa estranheza nos participantes e houve um frequente e recorrente discurso no sentido de defender a proposta e os motivos que nos levaram a adotar esse caminho e não outro.

Essa ideia de formação acadêmico-profissional (DINIZ-PEREIRA, 2008) é a integração entre licenciandos, professores da escola e professores da universidade. A potencialidade dessa proposta é produtora de sentidos no momento em que ocorre uma interação mais dialógica entre os atores sociais envolvidos nesses espaços educativos, ou seja, desconstruindo o paradigma da individualidade e da competição. Aliás, ao contrário, propondo um movimento de cooperação e de coletividade.

É essencial potencializar com os licenciandos e os colegas professores da escola e da universidade que os diversos espaços e tempos podem se constituir em experiências muito densas e intensas acerca da nossa constituição como professores, ou seja, que o processo de ensinar e de aprender ocorre em diferentes espaços e formas distintas.

Acreditamos que aprendemos bastante com Freire (2005) acerca da própria concepção de sala de aula, de escola, de currículo, da linguagem, da dialogicidade, etc. Essas propostas, certamente, são acalentadoras das nossas ações na formação de professores.

As experiências vividas no processo de formação de professores

O presente programa de extensão proporcionou diversos momentos de formação, integrando colegas professores da universidade e das escolas da Educação Básica, bem como da comunidade do sudoeste do Paraná; as atividades desenvolvidas no processo de formação, integrando, assim, os projetos inseridos nesse programa de extensão, bem como ensino e pesquisa. Ou seja, os nossos projetos, pertencentes ao TRIPEC e ao GPECieN, procuram por princípio engendrar os três eixos basilares da universidade, ou seja, o ensino, a pesquisa e a extensão.

Durante os anos de 2017 e 2018, foram realizadas aproximadamente 30 entrevistas nos municípios de Realeza, Santo Antônio do Sudoeste, Bom Jesus do Sul, Barracão, Planalto, Pérola d'Oeste e Capanema com ex-professores, gestores e estudantes. Foram gravadas aproximadamente 25 horas de entrevistas. Além disso, foram coletados cerca de 80 documentos reunindo fotografias, cadernos de sala de aula, anotações de diversos tipos, avaliações, documentos escolares e variados recursos didáticos. Ainda, como parte das atividades do projeto, foram desenvolvidas duas exposições: uma no Instituto Federal do Paraná (IFPR) de Capanema/PR, em agosto de 2017; e em novembro de 2017, foi organizada outra exposição no Campus UFFS de Realeza/PR, no "hall" de entrada do Bloco A.

No projeto "A potencialidade da formação acadêmico-profissional de professores nos diversos espaços e tempos da docência: a integração entre a Educação em Ciências e Saúde", uma das metas principais foi realizar rodas de conversa com os professores e estudantes das escolas da Educação Básica, integrando aspectos importantes na interação entre Educação em Ciências e Educação em Saúde. Ao longo da proposta do projeto, conseguimos dialogar com os colegas professores do Colégio Estadual Dom Carlos Eduardo (Realeza - PR). Aliás, esse tem sido um limite nos nossos projetos de ensino, pesquisa e extensão, uma vez que as Secretarias Municipais de Educação (SME) e os Núcleos Regionais de Educação (NRE) entendem o processo de formação de forma pontual e muitas vezes desconsideram um processo realmente de interação mais estreita entre a escola e a universidade. Sobretudo, as ações realizadas em parceria com os colegas professores e com os estudantes proporcionaram dialogarmos acerca de temáticas importantes a respeito da alimentação das crianças e adolescentes na escola, como, por exemplo, o consumo de alimentos ricos em carboidratos e, por conseguinte, a obesidade infantil e o diabetes.

Nóvoa (2009) comenta que é essencialmente importante construir um espaço coletivo não somente no plano do conhecimento, mas no plano da ética, ou seja, enquanto professores na escola e na universidade somos desafiados a enfrentarmos diversas situações que não encontramos respostas. Coletivamente, numa interação dialógica, conseguiremos, baseados em princípios morais e éticos. Além disso, é preciso ressaltar a importância da relação mais próxima entre a universidade e as escolas da Educação Básica. A maior integração entre esses dois espaços permite, desde as fases mais iniciais da formação de professores, que os estudantes tenham a oportunidade de conhecer melhor a realidade escolar, identificando suas possibilidades e desafios, além de pensar, juntamente com os docentes da escola e da universidade, metodologias diferenciadas para contribuir nas soluções de problemas que as instituições escolares enfrentam no seu cotidiano. Como preveem as novas Diretrizes Curriculares para Formação Inicial e Continuada de Professores n° 2 de 2015:

§6° O projeto de formação deve ser elaborado e desenvolvido por meio da articulação entre a instituição de Ensino Superior e o sistema de Educação Básica envolvendo a consolidação de fóruns permanentes estaduais e distritais permanentes de apoio à formação docente, em regime de colaboração, e deve contemplar:

I - sólida formação teórica e interdisciplinar dos

profissionais;

II - a inserção dos estudantes de licenciatura nas instituições de Educação Básica, espaço privilegiado da práxis docente;

III - o contexto educacional da região onde será desenvolvida;

IV- as atividades de socialização e a avaliação de seus impactos nesses contextos [...] (BRASIL, 2015).

Apesar de todo respaldo legal e de vários estudos indicando a maior proximidade entre a escola a universidade, isso não se dá de forma tranquila. Há resistências de ambos os lados. Isso, talvez, seja o ponto mais preocupante que encontramos no processo formativo, ou seja, a construção de um trabalho realmente coletivo e cooperativo, pois historicamente o movimento individualista ainda prevalece nesse processo. Aliás, acreditamos que esse seja o ponto de maior complexidade, visto que as histórias de formação dos colegas professores são distintas e muitas delas ancoradas numa perspectiva que valoriza o modelo hegemônico tradicional de educação. Superar esta condição irá depender de ações contínuas que irão, aos poucos, quebrando as resistências e construindo um novo modelo formativo (TARDIF, 2008).

A ação sobre "O universo indígena., foi um momento de dialogarmos acerca dos aspectos culturais, históricos, sociais, políticos, alimentares, dentre outros, dos indígenas (inclusive contou com a contribuição das duas estudantes indígenas do Campus). Esse momento instigou a conhecermos mais acerca da cultura indígena, pois fizemos uma mesa redonda com colegas professores da universidade acerca de temáticas pertinentes à cultura indígena e publicizamos alguns documentários, potencializando, assim, uma roda de conversa com os estudantes da escola e da universidade. Contudo, reconhecemos que precisamos apostar muito mais no processo de interação com outras culturas, pois é evidente no Campus a discriminação com esses estudantes dentro da universidade, ou seja, precisamos construir um movimento de dialogicidade, de cooperação, de coletividade e de alteridade (BUENO; CATANI; SOUSA, 2003).

Embora os projetos de extensão que constituíram o programa tivessem propostas distintas, sustentamos o argumento de que o cerne epistemológico desse processo de formação esteve ancorado numa perspectiva do "educar pela pesquisa", ou seja, todos nesse movimento formativo são aprendentes e responsáveis pela formação uns dos Outros.(MORAES; RAMOS; GALIAZZI, 2004).

Considerações finais

Na formação de professores, é de vital importância a presença dos licenciandos no espaço escolar, dialogando e aprendendo com os nossos colegas professores. É preciso que o estudante entre em contato com os problemas, desafios e possibilidades da instituição escolar e, a partir disso, tenha condições de construir um caminho de investigação-ação-formação, isto é, propondo, assim, alternativas criativas e criadoras. O ideal é que essas atividades sejam subsidiadas pela universidade, abrindo espaço para dialogar sobre o universo escolar e instigando os licenciandos a construírem alternativas possíveis. Desta forma, a atividade extensionista está organicamente presente e articulada com o ensino e a pesquisa na formação de professores, ou seja, numa proposta de formação acadêmico-profissional.

Na prática, as possibilidades, no caso do presente programa, de relacionar ensino e extensão estão claras. No entanto, isso ainda poucos estudantes e os cursos ainda não dispõem de meios e espaços para trazer à discussão de sala de aula os resultados da ação extensionista. Além disso, ainda precisamos criar mais vínculos colaborativos e acolhedores em relação às escolas da Educação Básica em todos os níveis. É lamentável que ainda prevaleça uma relação de hierarquia da Universidade com a escola pública, pois em muitos casos as instituições escolares são entendidas unicamente como espaços de estágios e algumas outras ações muito pontuais. Esta visão é, de fato, muito limitadora, além de fazer da escola pública um mero espaço de aplicação de metodologias e técnicas desenvolvidas na universidade. Está mais do que na hora de superarmos esta concepção e avançarmos rumo a uma interação entre os espaços universitário e escolar, em que prevaleça o trabalho coletivo, a colaboração e a troca de experiências. Além disso, é preciso apostar na escola como como instituição co-formadora de professores.

O programa atingiu resultados importantes e demonstrou que é possível realizar ações envolvendo diferentes públicos e uma maior aproximação com a escola da Educação Básica. No entanto, existe ainda um longo percurso a ser feito, tendo em vista alguns desafios que precisam ser superados, como a resistência dos docentes tanto do Ensino Superior como das instituições escolares, superar modelos tradicionais de formação de professores que valorizam em demasia o espaço da sala de aula, a presença de uma grade curricular pouco flexível nos cursos de licenciaturas, que dificulta a participação dos estudantes em ações de extensão como estas. A situação se toma ainda mais complexa tendo em vista que os cursos de licenciatura são noturnos e a maioria dos alunos é de trabalhadores. Trata-se de um desafio que ainda persiste e que exige novas formas de abordagem e mudança de paradigma.

Reiteramos o argumento de que o processo de formação de professores necessita articular a escola, a universidade e a comunidade numa interação dialógica, em que coletivamente aprendemos a ser professores em processo de formação acadêmico­ profissional.

Referências:

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Notas

1 O programa de extensão contou com a colaboração do seguintes docentes da UFFS - Campus Realeza PR: Rosume Moreira da Silva Swiderski; Renata Orl.andi; Gilson Luís Voloski; Gisele Louro Peres e Amélia Dreyer Machado.
2 A palavra "Outro(s)" escrita em maiúsculo visa destacar o papel importante dos participantes do projeto como sujeitos ativos, em um processo de parceria entre a universidade e a escola, para constituição e partilha de conhecimentos.
3 Grupo de Pesquisa (Trans)Formação Inicial, Continua e Continuada de Professores da Educação Básica e os Processos de Ensinagem do Campus da UFFS - Realeza PR.
4 Grupo de Pesquisa Educação em Ciências Naturais do Campus da UFFS-Realeza PR.
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