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PROJETO DE EXTENSÃO “UM SORRISO PELA VIDA”: A PRÁTICA DA RISOTERAPIA NA HUMANIZAÇÃO DA ATENÇÃO À SAÚDE
PROJETO DE EXTENSÃO “UM SORRISO PELA VIDA”: A PRÁTICA DA RISOTERAPIA NA HUMANIZAÇÃO DA ATENÇÃO À SAÚDE
Revista Conexão UEPG, vol. 17, núm. 1, pp. 01-12, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Recepción: 02 Febrero 2021
Aprobación: 14 Mayo 2021
Resumo: O artigo descreveu as ações e os resultados do Projeto de Extensão “Um Sorriso Pela Vida”, que atuou utilizando a figura do palhaço vestido de doutor e a risoterapia com o objetivo de desenvolver benefícios psicológicos tanto para pacientes hospitalizados / institucionalizados quanto para participantes, desenvolvendo também uma visão biopsicossocial. Partiu-se da problemática caracterizada por diversos desafios que geraram fatores estressores nos universitários e pelo processo de formação de profissionais da saúde, que enfrentaram dificuldades quanto à relação humanizada com o paciente. Como resultado, os participantes desenvolveram habilidades de comunicação, empatia, capacidade de enfrentar situações adversas e diminuíram o estresse através do lúdico, o que foi observado e relatado. Além disso, os próprios hospitalizados e acompanhantes relataram sentir-se bem com a presença dos “doutores”. Essa abordagem melhorou a experiência e a qualidade da internação desses indivíduos. Dessa forma, o projeto mostrou beneficiar positivamente tanto os participantes quanto a comunidade externa envolvida.
Palavras-chave: Impacto psicossocial, Terapia do riso, Humanização.
Abstract: This article describes the actions and results of the outreach project “A Smile for Life”, which involved clowns dressed as doctors and laughter therapy in order to develop psychological benefits for both hospitalized / institutionalized patients and participants, in addition to developing a biopsychosocial view of health care. The study was motivated by several challenges, which generated stress factors in university students, and by the process of health professional education, who faced difficulties related to a humanized relationship with patients. Participants observed and reported the development of communication skills, empathy, the ability to face adverse situations and the reduction of stress through playful activities. In addition, hospitalized patients and their companions reported feeling better with the presence of the “doctors”. This approach improved the experience and the quality of hospitalization. Therefore, the project demonstrated a positive benefit for both participants and the external community involved.
Keywords: Psychosocial impact, Laughter therapy, Humanization.
Introdução
A Organização Mundial da Saúde define saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (WHO, 2016). Esse conceito é complexo e exige uma percepção do indivíduo muito além do que permite o modelo mecanicista de atenção à saúde, que tem como foco apenas a doença (FURLAN et al., 2020). Desse modo, é essencial ampliar o modelo de assistência à saúde, avaliando o paciente em sua totalidade, entendendo os conceitos de saúde, doença e enfermidade e como interferem no seu relacionamento com o mundo (SILVA; MUHL; MOLIANI, 2017; TAKAHAGUI et al., 2014). Para isso, é necessário um olhar humanizado por parte do profissional de saúde, o que implica na compreensão da singularidade e das necessidades específicas de cada indivíduo, criando subsídios para que eles tenham maiores condições de exercer sua autonomia (FURLAN et al., 2020).
Atualmente, a humanização da relação entre profissionais da saúde e pacientes ainda enfrenta dificuldades devido ao processo de formação desses profissionais. Isso ocorre porque é dado foco no conhecimento técnico e na leitura de sinais biológicos, deixando-se de lado habilidades pessoais que façam o estudante reconhecer o paciente como um ser biopsicossocial (TAKAHAGUI et al., 2014). Isso piora quando se levam em consideração os desafios e fatores estressores aos quais o estudante é exposto ao ingressar na graduação. O relacionamento com pessoas diferentes, a adaptação a novas rotinas e regras, o desafio de viver longe da família, encarar rigorosas tarefas e assumir novas responsabilidades são fatores que geram estresse mental nesses indivíduos (OLIVEIRA et al., 2015), o que pode estar associado, dentre outros fatores, à depressão e a uma diminuição do desempenho acadêmico (RULL et al., 2011). Os estudantes, ao enfrentarem tais fatores, podem abandonar a faculdade ou recorrer a drogas lícitas ou ilícitas se não tiverem uma rede de apoio adequada (RULL et al., 2011). Esses fatores, somados ao método de ensino biomecanicista e hospitalocêntrico prevalente, podem impactar negativamente no vínculo profissional-paciente e na qualidade da assistência prestada ao mesmo.
Quando ocorre a institucionalização do paciente, é a abordagem biomecanicista que prevalece no seu atendimento. Isso, unido ao fato de que é comum ocorrer uma fragilização do seu estado psicológico e social pela ruptura do seu cotidiano e autonomia (OLIVEIRA et al., 2012), pode fazer com que a doença e a hospitalização suscitem questões emocionais que podem interferir em seu quadro clínico. Essas questões abrangem desde o desconforto da própria doença, o medo do desconhecido, até sentimentos de ansiedade, preocupação e angústia (BORGES, 2018). Já existem relatos de que essas emoções podem interferir negativamente em sua reabilitação, favorecendo o desenvolvimento de novos quadros ou agravando os preexistentes (MARQUES et al., 2013). A situação do paciente também atinge familiares e acompanhantes, que passam por uma alteração em suas rotinas e vivem intensos momentos de medo, impotência, estresse, pena e até mesmo culpa (CARDOSO et al., 2019; SUDÁRIO; SOUSA; DUARTE, 2018).
No Brasil, o campo da saúde pública lida com algumas dificuldades nesse mesmo sentido de humanização das práticas médicas. É fato a existência de um Sistema Único de Saúde (SUS) que dá certo e que está em processo de melhorias e adequações. Entretanto, os principais desafios que a saúde pública brasileira enfrenta nesse contexto se relaciona à qualidade e à dignidade no cuidado em saúde; às iniciativas de humanização dentro do sistema; e aos problemas na organização e na gestão do trabalho em saúde, que produzem resultados nefastos tanto na produção de saúde quanto na vida dos profissionais envolvidos (PASCHE; PASSOS; HENNINGTON, 2011).
Nesse sentido, com o intuito de efetivar as diretrizes do SUS no processo de humanização, nas práticas de atenção e gestão, na qualificação da saúde pública e nas trocas entre as relações de gestores, profissionais e usuários, em 2003 as Políticas Nacionais de Humanização (PNH) foram implementadas. Essas políticas se desenvolveram em torno de um objetivo comum - humanizar o SUS. O programa, também conhecido como HumanizaSUS, pressupõe diversas ações estratégicas para alcançar tal meta, podendo destacar o incentivo de ações integrais, intersetoriais, que inovem o processo de trabalho em busca do compartilhamento dos cuidados (BRASIL, 2010). Evidencia-se, mais uma vez, a necessidade que os sistemas de saúde têm de incentivar e contribuir com ações e projetos que objetivam as relações humanizadas.
Vistas essas questões suscitadas anteriormente, observa-se a risoterapia como uma ferramenta capaz de aproximar as pessoas, ao exercitar a compreensão das limitações de profissionais, futuros profissionais e pacientes (FILHO, 2012), atenuando sofrimento, depressão e ansiedade pelos benefícios terapêuticos do riso, além de proporcionar melhoras na qualidade de vida e saúde do paciente (DUARTE, 2015). Assim, esse tipo de intervenção se torna uma proposta capaz de auxiliar no desenvolvimento mais humanista desse relacionamento (FREITAS et al., 2013), condizente com aquilo que a PNH institui. Além disso, se torna também uma terapia alternativa capaz de auxiliar no processo de formação acadêmica e profissional. Portanto, ela contribui de forma direta e indireta na promoção da saúde de todos os envolvidos (FILHO, 2012).
Uma das formas de utilização da risoterapia é a atuação de doutores-palhaços. Doutor-palhaço é o termo utilizado para descrever quem utiliza artes de performance, habilidades inter-pessoais, comunicação e técnicas de improviso, promovendo a saúde através de melhora no bem-estar, qualidade de vida e diminuição da ansiedade e estresse entre aqueles atendidos (TAKAHAGUI et al., 2014). Tal impacto também ocorre nos próprios doutores palhaços, os quais têm oportunidade de expressar seus sentimentos, desenvolver habilidades e diminuir o estresse através do lúdico, auxiliando no processo de formação acadêmica e profissional.
Partindo das definições propostas por Filho (2012) e Takahagui et al. (2014), constata-se que a risoterapia possui uma repercussão positiva a todos os envolvidos. Assim, foi criado o projeto de extensão “Um Sorriso pela Vida”, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (PROEXC/UFVJM), em Diamantina/MG. O projeto tem o intuito de utilizar a figura de um(a) palhaço(a) vestido(a) de doutor(a), de modo a beneficiar os pacientes institucionalizados no Hospital Nossa Senhora da Saúde (HNSS) e na Santa Casa da Caridade de Diamantina (SCCD), além dos idosos presentes na instituição de longa permanência Pão de Santo Antônio. Este trabalho visa à demonstração dos efeitos da risoterapia em pacientes submetidos às intervenções do projeto de extensão “Um Sorriso pela Vida”, assim como os benefícios notados pelos participantes do projeto.
Metodologia
O projeto de extensão “Um Sorriso Pela Vida”, ativo desde 2016, é aberto a todos os cursos da universidade, sendo composto majoritariamente por alunos dos cursos da área da Saúde (Medicina, Odontologia, Farmácia, Fisioterapia, Enfermagem e Nutrição) e cursos da Engenharia, e minoritariamente por cursos de Zootecnia, Sistemas da Informação, História e Geografia. O projeto conta, ainda, com a participação efetiva de professores e colaboradores externos, como psicólogos e pedagogos.
Ao iniciar no projeto, a pessoa interessada compareceu em uma reunião e preencheu o formulário de inscrição via Google Forms. Após inscrito, o participante iniciou a atuação como “oiante”, que é uma figura que não se caracteriza como doutor palhaço, mas utiliza vestimentas adequadas para o ambiente hospitalar. A função do “oiante” é a de observar o grupo por algumas semanas, o que lhe permite o aprendizado por observação e a possibilidade de relatar aos doutores palhaços sua opinião acerca da atuação deles. Para se tornar doutor palhaço, o “oiante” passou por uma oficina de capacitação que aborda o que é um palhaço e seu processo, maquiagem e figurino, trabalho em equipe, atitudes dentro das instituições, medicina focada no paciente, cuidados com o paciente, objetivos das visitas, humanização, desenvoltura física e psicológica, improviso, jogos e brincadeiras. Todos os temas são abordados de forma lúdica, através de dinâmicas de grupo. Cada oficina tem duração média de oito horas, e nelas os participantes são incentivados a montarem seus doutores Palhaços.
As atividades do projeto contaram com duas etapas: as intervenções e as reuniões, ambas quinzenais. As intervenções ocorreram nas instituições parceiras do projeto: Hospital Nossa Senhora da Saúde, Santa Casa de Caridade de Diamantina e no Asilo Pão de Santo Antônio, todos em Diamantina, Minas Gerais. Tais parcerias foram firmadas a partir de cartas de anuência previamente acordadas entre as instituições e o projeto. Em sua realização, os participantes, doutores palhaços, se dividiram em duplas e atuaram nas diversas alas das instituições. Essa atividade durou cerca de 20 minutos em cada quarto dos hospitais, mediante permissão verbal dos que estão hospitalizados ou responsáveis.
As intervenções foram realizadas de acordo com as definições de Filho (2012), que caracteriza a palhaçaria justamente pela sua diversidade, permitindo uma gama de atividades lúdicas envolvendo músicas, malabares, mágica, mímica, leitura e interpretação de histórias etc. O autor caracteriza essa arte principalmente pelo potencial adaptativo à realidade dos ambientes, bem como de promover o diálogo, possuindo, assim, caráter essencialmente humano. E, com isso, o palhaço se transforma em um improvisador habilidoso, com a capacidade de responder às necessidades autênticas e imediatas evocadas por qualquer paciente em qualquer situação (SATO et al., 2016).
Para a visita no Asilo Pão de Santo Antônio, os estudantes contavam com outras formas de interação, como instrumentos musicais. Essa visita tem as particularidades de se lidar com um público idoso e carente de afeto, contando com conversas com os institucionalizados e intervenção com músicas. A atuação neste local também é caracterizada por doutores palhaços.
O acompanhamento das atividades do grupo era feito por uma reunião após cada intervenção, por meio de feedback entre os participantes e de relatos das intervenções. A reunião foi acompanhada por membros do Núcleo de Apoio Psicopedagógico da Faculdade de Medicina (NAPMED), colaboradores, coordenadores e participantes. Nessas reuniões, discutiam-se os aspectos emocionais e marcantes de cada intervenção, além de sugestões de melhora e de piora de atuação. Também eram debatidos assuntos teóricos pertinentes ao desenvolvimento do projeto.
As reuniões ocorriam em uma sala da Universidade previamente reservada e compõem um ambiente seguro, com o acompanhamento de uma psicóloga, em que o participante era convidado a falar sobre a intervenção passada, sendo coordenadas pelo Coordenador Docente e Discente do projeto. Nesses relatos, eram informados ao restante do grupo as opiniões e reações imediatas dos pacientes, assim como os sentimentos, emoções e dificuldades dos próprios participantes. Em conjunto, o grupo acolheu esses relatos e forneceu um espaço de escuta ativa para as emoções, além de propor alternativas para as dificuldades encontradas. Essas experiências pessoais foram usadas para colaborar com o desenvolvimento do restante do grupo. Os relatos foram, então, anotados durante a reunião por um participante responsável por essa função.
Esses relatos coletados em cada reunião foram a base para os resultados deste projeto, permitindo avaliar os impactos e opiniões, positivos e negativos, de pacientes e participantes. Eles tiveram seu conteúdo interpretado de modo a categorizar as falas, retirando das mesmas os sentidos para serem trabalhados pelo projeto, seguindo o modelo de análise de conteúdo. Para a reprodução dos relatos neste artigo, foram aplicados Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aos envolvidos.
Os principais impactos do referido projeto são de cunho subjetivo. Importante destacar, como observado por Sato et al. (2016) em sua metanálise, que a estruturação e avaliação de projetos de doutores palhaços se deu por depoimentos e visões subjetivas, o que dificulta o estabelecimento de métodos quantitativos estabelecidos para confirmar os resultados.
Resultados
Impactos das intervenções sobre os pacientes
Estima-se que foram atendidas mensalmente cerca de 500 pessoas hospitalizadas e seus acompanhantes, os quais estavam inseridos nos cenários de prática dessa proposta.
Os relatos dos pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde foram ouvidos rotineiramente pelos doutores palhaços durante suas intervenções nos locais de atuação. Os doutores relataram que recebem abraços, pedidos para filmar e fotografar o momento, depoimentos de agradecimentos, sentem que o paciente se permite chorar e desabafar quando eles estão presentes, e assim por diante. De modo geral, os relatos dos participantes foram de cunho positivo, destacados os seguintes:
“Fui fazer a visita, e me deparei com uma idosa com mal de Alzheimer que se recusava a comer. A família me pediu para ajudar, e, ao entrar no mundo dela, tentar entender os anseios dela, sem me preocupar em ser engraçada, ela comeu. Ela não comia há um dia inteiro, e a família ficou muito feliz e até abraçou a gente. Naquele momento, usando o lúdico, ajudamos uma idosa a comer, e facilitamos um pouco o trabalhado de cuidadores da família.” - Participante
Neste relato, foi possível perceber um impacto positivo indireto no tratamento de um paciente. A hospitalização de idosos apresenta muitos vieses emocionais, pois se trata de um grupo frágil, que tem a necessidade de acolhimento e de afeto. Logo, a equipe deve estar atenta a várias alterações físicas, psicológicas e sociais que ocorrem nesses pacientes e que justificam um cuidado diferenciado (LIMA et al., 2010). Ademais, a doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, caracterizada por sintomas como perda de memória, deficiência nas atividades diárias e anormalidades neurocomportamentais (BMJ, 2018), que podem dificultar o tratamento do paciente. Assim, após a intervenção do doutor palhaço, o paciente aceitou se alimentar, evidenciando-se a influência da risoterapia em sua recuperação. Outros relatos semelhantes acompanham, como os que se seguem:
“Quando nós, doutores, chegamos nos locais das intervenções, acabamos afetando todo o ambiente, desde o paciente aos funcionários do hospital/asilo.” - Participante
“Eu estava na intervenção e uma moça veio conversar comigo. Ela se sentiu à vontade para falar pra mim o real motivo de ela ter ido pro hospital. Ela não estava à vontade para falar isso para mais ninguém, mas pra mim ela falou. Ficou confortável com o nariz.” - Participante
Esse relato mostrou a criação do vínculo que a figura do doutor palhaço oferece. A formação desse vínculo é uma das atividades trabalhadas durante o projeto, como forma de favorecer a atenção integral ao paciente (FILHO, 2012). Assim, quando ele se estabelece entre o doutor palhaço e o paciente, contribui para uma melhor comunicação e adaptação ao novo ambiente durante o processo de internação (CATAPAN; OLIVEIRA; ROTTA, 2019). A figura do palhaço, em prol da formação de profissionais, da área da saúde e outros, permite desenvolver maior aptidão à solução de conflitos, empatia e criatividade, fortalecimento da importância da relação profissional-paciente e harmonia entre equipes multiprofissionais, contribuindo, portanto, de forma direta e indireta na promoção da saúde (FILHO, 2012). Ao sentir-se à vontade para falar de seus anseios, que não eram a razão biológica de a paciente ter procurado o serviço, ela foi contemplada com uma atenção biopsicossocial, sendo o doutor palhaço a ferramenta complementar ao atendimento que ela teve no serviço.
“Em minha primeira experiência como ‘oiante’, lembro-me de entrar num quarto cheio e, na cama mais ao fundo, estava uma senhora. Aparentava ser simples e não tinha acompanhante. Quando entramos no quarto, seu rosto se iluminou e ela sorriu de uma maneira tão bonita que quase pude ver seu espírito saltitando pela sala. A simplicidade e a alegria dela me trouxeram uma alegria gigantesca.” - Participante
Esse relato de um “oiante” mostrou o retorno mais simples e mais comum percebido pelos participantes do projeto: o sorriso. O impacto trazido pelo sorriso na recuperação dos pacientes já foi bem descrito na literatura. Dentre os benefícios encontrados dessa prática, destacam-se alterações positivas no apetite, sono, adesão aos procedimentos, interação com profissionais e redução da ansiedade (CAIRES et al., 2014; LINGE, 2012). Na pesquisa de Mussa e Malerbi (2012), os doutores palhaços auxiliaram na melhor interação de pacientes adultos com os profissionais de saúde, e os pacientes relataram que se sentiram mais felizes, menos preocupados em relação à doença, ao afastamento familiar e às dificuldades financeiras, e, por fim, muitos deles tiveram reduzido o nível de dor.
Impactos do projeto nos participantes
Os relatos dos participantes foram coletados nas reuniões do projeto, os quais descrêveram que frequentemente se emocionaram durante as atuações e terem um sentimento de realização pessoal por participar do projeto. Alguns estão descritos a seguir:
“O projeto é incrível e sou muito grato por estar nele. Ser um integrante do projeto mudou a vida de muitos pacientes e a minha também.” - Participante
“Apesar de sempre me interessar pelo projeto, procurei saber mais sobre ele quando foi indicado por uma professora depois que relatei a ela alguns problemas pelos quais estava passando e prejudicando minhas atividades tanto acadêmicas quanto outras, e dessa forma comecei a participar das intervenções. Engraçado, não? A forma que encontraria para solucionar algumas das minhas aflições seria ajudando nas aflições de outras pessoas.” - Participante
Além da construção de um melhor profissional com contato diferenciado com pessoas, este projeto também se destacou como uma ferramenta lúdica para os integrantes do grupo. Esse fato ganha importância quando se considera o alto índice de estresse entre os estudantes universitários, devido, muitas vezes, a pressões do curso, a ausência da família e de lazer (OLIVEIRA et al., 2015). Auxiliando nessa questão, a figura do palhaço é uma excelente forma de expressar sentimentos e organizar sensações, propiciando um melhor bem-estar (ESTEVES; ANTUNES; CAIRES, 2014).
“Durante meu período de atuação no projeto “Um Sorriso pela Vida”, pude perceber sua extrema importância e necessidade de estar ativo e funcionando. A atuação dos doutores palhaços traz muitos benefícios aos pacientes: vê-los sorrir (ou até mesmo chorar de felicidade) e fazê-los esquecer pelo menos um pouco dos seus problemas é muito gratificante e faz a gente se orgulhar do nosso trabalho.” - Participante
“Cuidar das pessoas fazendo-as rir, esquecer os problemas por alguns segundos ou mesmo aliviar a dor daqueles que sofrem sem utilizar remédios. Isso é uma arte, uma forma de fazer valer a pena o conhecimento adquirido na área da saúde.” - Participante
Os relatos demonstraram que o projeto possui impacto emocional positivo para os integrantes. Foi relatado que as visitas despertaram choro, abraços, risos e diálogos, os quais permitiram que os participantes se sentissem mais próximos dos pacientes, o que está de acordo com o descrito por Filho (2012). As atividades lúdicas de treinamento, ocorridas nas mesmas reuniões, contribuíram ainda para a redução do estresse e melhoria da comunicação e trabalho em equipe, sendo um momento aguardado pelos participantes.
“As brincadeiras ao final de cada reunião melhoraram demais a integração e desempenho dos doutores e oiantes nas intervenções.” - Participante
As experiências vividas nesse projeto foram marcantes e visam à construção de um profissional mais humanizado ao proporcionar um contato diferenciado com o paciente. E, assim, contribuem para a formação de um profissional completo, que aplique o componente afetivo na prática, pois o cuidado ultrapassa a dimensão estritamente técnica e pedagógica (SLOMP JUNIOR; FEUERWERKER; LAND, 2015). Ademais, o doutor palhaço auxilia no desenvolvimento de habilidades como comunicação, empatia, sensibilidade e diminuição de preconceitos (TAKAHAGUI, 2014), importantes para qualquer profissional.
Conclusão
A ação do projeto “Um Sorriso pela Vida”, utilizando-se da arte da risoterapia, fundamentada na figura e atuação do doutor-palhaço, permitiu a promoção de efeitos positivos em todos os envolvidos no projeto, de forma direta ou indireta.
Para os participantes que ainda estão em processo de formação profissional, o projeto trouxe o desenvolvimento de habilidades como empatia, criatividade, solução de conflitos, comunicação interpessoal e criação de vínculos. Essas habilidades fortalecem a relação com os pacientes e promovem, ainda que indiretamente, melhoria no seu atendimento ao atentar-se para o modelo biopsicossocial. Além disso, o projeto teve influência positiva ao auxiliá-los a lidar com dificuldades emocionais e estressoras oferecidas pela graduação, fornecendo-lhes um ambiente seguro e prático.
Quanto aos pacientes, profissionais de saúde e demais envolvidos no ambiente hospitalar, e que recebem a visita dos doutores, o projeto ofereceu benefícios em sua saúde. Os relatos, aqui descritos, dos participantes revelam alguns efeitos imediatos da visita dos palhaços, como melhora da experiência dos pacientes nas instituições, mudança emocional com a chegada dos doutores palhaços e empolgação com as rotinas após uma intervenção. Além disso, é possível acompanhar efeitos a médio e longo prazo pelo feedback oferecido pelos profissionais hospitalares e pelo fato de as instituições, todos os anos, renovarem as cartas de anuência que garantem a presença do projeto em tais ambientes.
Dessa forma, pode-se concluir a presença de benefícios oriundos do projeto a todos os envolvidos, ressaltando-se a sua importância no meio acadêmico e hospitalar.
Referências
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