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EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA COM DANÇAS CIRCULARES: REFLEXÕES NA PRÁTICA PROFISSIONAL DE EDUCADORAS
EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA COM DANÇAS CIRCULARES: REFLEXÕES NA PRÁTICA PROFISSIONAL DE EDUCADORAS
Revista Conexão UEPG, vol. 17, núm. 1, pp. 01-18, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Recepción: 29 Enero 2021
Aprobación: 10 Junio 2021
Resumo: Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa realizada no âmbito do Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no Pampa, desenvolvido na Universidade Federal do Pampa, com o objetivo de verificar se a vivência de danças circulares traz contribuições para a prática profissional de educadoras. Os dados foram produzidos a partir de falas e/ou escritas de dez educadoras-participantes e apreciados por Análise Textual Discursiva em diálogo com teóricos que destacam potencialidades das danças circulares na Educação. Da análise emergiram duas grandes categorias: aspectos do sentir, evidenciados em unidades de sentido como tranquilidade, alegria, criatividade e integração; e aspectos do agir, nos quais esses sentimentos são transpostos para a vida pessoal e para as ações desempenhadas nos seus ambientes de trabalho. As educadoras veem possibilidades de levar as danças circulares para as práticas que desenvolvem com o propósito de estimular o movimento, cultivar a sensibilidade e integrar a comunidade escolar.
Palavras-chave: Projeto de extensão, Danças circulares, Educadoras, Prática profissional, Integração.
Abstract: This paper presents the results of a research about the outreach project Circle Pampa – Circle Dances in the Pampa, developed at the Federal University of the Pampa. The aim of the study was to verify if the experience of circle dances contribute to the professional practice of educators. The data generated from the discourse and / or the writings of ten participating-educators was analyzed according to Discursive Textual Analysis with the support of theorists who highlight the potential of circle dances in Education. Two major categories emerged from the analysis: aspects of feeling, evidenced in units of meaning such as tranquility, joy, creativity and integration; and aspects of acting, in which these feelings are transferred into personal life and the actions performed in work environments. The educators observe the benefits of circle dances in their practices in order to stimulate movement, cultivate sensitivity and integrate the school community.
Keywords: Outreach project, Circle dances, Educators, Professional practice, Integration.
Introdução
Este artigo traz os resultados de uma pesquisa qualitativa na modalidade estudo de caso realizada com dez educadoras que participaram de rodas de danças circulares no âmbito do Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no Pampa da Universidade Federal do Pampa - Campus Bagé, em 2016 (OLIVEIRA, 2016).
Assume-se que a extensão universitária é uma diretriz institucional fundamental que, segundo Síveres (2013), pode ser reconhecida como
[...] um processo mediador de construção de conhecimentos, uma atividade que aponta para a finalidade do percurso da aprendizagem, qualificando o valor epistemológico, ético e político da instituição, que deve ser vivenciado, cotidianamente pelos sujeitos acadêmicos e comunitários, pelos processos instituídos e instituintes e seus resultados individuais e coletivos (SÍVERES, 2013, p. 20).
Na Universidade Federal do Pampa, a extensão tem o papel de promover a relação dialógica com a comunidade externa, pela democratização do acesso ao conhecimento acadêmico (UNIVERSIDADE, 2019). Além disso, essa articulação da universidade com a comunidade através da extensão “[...] gera novas pesquisas, pela aproximação com novos objetos de estudo, garantindo a interdisciplinaridade e promovendo a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (UNIVERSIDADE, 2019, p. 31).
Esta pesquisa é fruto da integração universidade-comunidade através de um Projeto de Extensão que, a partir das danças circulares e de falas e escritas de educadoras, gerou novos conhecimentos e novos pensares sobre uma educação mais humana e integradora.
Muitos projetos de extensão envolvendo danças circulares em diferentes universidades brasileiras têm gerado conhecimentos sobre as potencialidades dessas danças. Duvidovich (2018) ressalta, em sua dissertação de mestrado, que cursos de formação e projetos de extensão universitária “[...] são importantes avanços rumo ao processo de visibilização e legitimação das danças circulares como práticas de educação, cultura e arte (DUVIDOVICH, 2018, p. 80). Dentre os resultados do trabalho, essa autora ainda reforça o papel das universidades na difusão e conhecimento das danças circulares através de componentes ministrados por professoras dançantes ou por projetos de extensão.
Silva e Souza (2008), ao relatarem o desenvolvimento do Projeto de Extensão “Danças Circulares Sagradas na UFPB”, salientam o papel dessas danças ao promoverem “[...] momentos de integração da comunidade acadêmica com a comunidade como um todo, gerando uma melhor relação entre os indivíduos participantes, a instituição e a comunidade em geral (SILVA; SOUZA, 2008, p. 2). Como resultados desse Projeto, as autoras destacam o apoio mútuo, a integração, o equilíbrio entre os corpos físico, emocional, mental e espiritual e a ampliação da criatividade, da percepção e da concentração dos participantes.
Bem-estar, integração, relaxamento, benefícios físicos, espirituais e psicológicos também foram percebidos por Santos et al. (2021) ao levarem as danças circulares para uma maternidade pública no interior da Bahia, no âmbito de uma ação do Programa de Extensão “Acolhendo e Humanizando Partos e Nascimentos” desenvolvida por cinco bolsistas de extensão universitária sob a orientação de duas professoras (Enfermeiras Obstétricas) da Universidade Estadual de Feira de Santana. Os participantes da ação, desenvolvida no segundo semestre de 2019, foram 6 gestantes, 8 puérperas, 6 acompanhantes, 1 profissional de saúde e 1 graduanda em Psicologia. Os autores perceberam “[...] que a Dança Circular impactou positivamente no bem-estar das participantes; a dança, o toque, e esse ato de dar as mãos ultrapassaram um simples movimento em roda [...]” (SANTOS et al., 2021, p. 30).
Ainda, de acordo com a Portaria nº 849/2017 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2017), que incluiu a dança circular, juntamente com outras práticas, na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, a dança circular - também conhecida como dança circular sagrada ou dança dos povos - pode ser descrita como:
[...] uma prática de dança em roda, tradicional e contemporânea, originária de diferentes culturas que favorece a aprendizagem e a interconexão harmoniosa entre os participantes. Os indivíduos dançam juntos, em círculos e aos poucos começam a internalizar os movimentos, liberar a mente, o coração, o corpo e o espírito. Por meio do ritmo, da melodia e dos movimentos delicados e profundos os integrantes da roda são estimulados a respeitar, aceitar e honrar as diversidades (BRASIL, 2017, p. 69).
Andrada e Souza (2015) investigaram o potencial das danças circulares como mobilizadoras de afetos e de reflexões que resultassem na ampliação da consciência de professores da rede pública de ensino. Nas intervenções com as danças circulares oferecidas em duas escolas durante o horário destinado à formação dos professores, as pesquisadoras perceberam pequenas transformações, registradas em diários de campo, como as expressas a seguir:
[...] depois da dança me sinto mais focada e mais tranquila em relação à realização do meu trabalho”; “antes da dança eu me sentia irritada, nervosa, muito tensa, sem vontade, com ansiedade, o coração estava acelerado. Agora parece que despertei”; “a dança acaba tocando um pouco de nossa calma e paz interior” (Diário 10-Escola 2) (ANDRADA; SOUZA, 2015, p. 366, grifos no original).
Embora as experiências positivas de amparo, disposição e promoção da consciência tenham sido menores em relação às declarações de desgaste e desamparo, “[...] os encontros ofereceram pausas para os professores viabilizando vivências da docência de outra perspectiva, mais positivas, favorecendo a reflexão crítica sobre o cotidiano” (ANDRADA; SOUZA, 2015, p. 367).
A referida pesquisa instigou os autores a investigar se a participação das educadoras no Projeto de Extensão Pampa Circular traria esses reflexos positivos em seus cotidianos escolares. Portanto, delineou-se como objetivo de pesquisa verificar se a vivência de danças circulares traz contribuições para a prática profissional de educadoras.
Nas próximas partes deste texto, procura-se esclarecer melhor o que são danças circulares, como surgiu esse movimento e como foi difundido. Também são trazidas as percepções de teóricos e pesquisadores que discorrem sobre os benefícios das danças circulares na Educação, os percursos metodológicos da pesquisa realizada no Projeto de Extensão e os resultados da análise dos dados produzidos. Para finalizar, foram retomados os principais resultados da pesquisa nas considerações finais.
As danças circulares
As danças circulares são práticas de danças em roda com coreografias tradicionais de diferentes culturas ou com músicas contemporâneas coreografadas para serem dançadas geralmente em círculo e de mãos dadas (ANGELO, 2016a). As rodas são conduzidas por uma ou mais pessoas, denominadas de focalizadoras, com mais experiência e conhecimento de coreografias.
Desde os primórdios da humanidade há registros de rituais de danças em círculo realizados por diferentes culturas para, por exemplo, celebrar a colheita, agradecer à chuva, comemorar nascimentos, casamentos e passagens. “As danças circulares sempre existiram de uma forma ou de outra, com mais ou menos ênfase, na cultura dos povos” (LIMA, 2014, p. 45).
No entanto, com o decorrer do tempo, as danças foram sendo profissionalizadas e a técnica, o equilíbrio, a ordem e a rigidez que os palcos exigiam foram distanciando as danças das camadas populares (GOMES JUNIOR; LIMA, 2001-2002).
Foi o trabalho de resgate e pesquisa de danças folclóricas da Europa Oriental, empreendido pelo bailarino e coreógrafo alemão Bernhard Wosien (1908-1986), a partir de 1962, que possibilitou uma visibilidade maior para as danças dos povos e para coreografias elaboradas para serem dançadas em roda, conhecidas hoje como danças circulares (ANGELO, 2016b). Ao frequentar grupos de danças folclóricas, Wosien (2015) percebeu a energia e o poder terapêutico dessas danças:
Deixei-me arrebatar pela vibração das danças populares, contagiado pelo fogo maravilhoso da comunidade, que realmente dava para sentir fisicamente, em carne e osso. [...] É preciso dançar essas danças, para descobrir isso; é preciso se tornar muito presente para nos apropriarmos delas, para sentir e vivenciar seu efeito curativo e terapêutico (WOSIEN, 2015, p. 108-109).
Em meados de 1976, através de um pedido de Peter Caddy, um dos fundadores da comunidade de Findhorn – uma ecovila atualmente chamada de Fundação Findhorn – localizada no norte da Escócia, Wosien foi convidado a levar para os moradores dessa comunidade uma coletânea de músicas e coreografias de danças tradicionais, incorporando a ideia de dançar em círculo (RAMOS, 2015).
Como Findhorn era (e ainda é) uma comunidade que agregava moradores de diferentes países, as danças circulares se estenderam para o mundo. Por isso, fala-se que “[...] Bernhard Wosien foi o pai e a Comunidade de Findhorn foi a mãe, que recebeu as danças, acolheu a semente, semeou em seu solo e compartilhou os frutos com outras regiões da Europa e, mais tarde com o mundo” (LIMA, 2014, p. 56).
As danças circulares chegaram ao Brasil na década de oitenta com Sara Marriott, uma escritora norte-americana que residiu por cerca de 12 anos em Findhorn e foi co-fundadora do antigo Centro de Vivências Nazaré, hoje denominado Nazaré Universidade da Luz, em Nazaré Paulista-SP, e com Carlos Solano Carvalho, um mineiro que havia passado por uma curta experiência em Findhorn (MADALÓZ, 2016).
De lá para cá, a expansão de rodas de danças circulares de norte a sul do Brasil é notável e crescente, sendo que, em 2017, também foram reconhecidas pelo Ministério da Saúde como:
[...] espaços significativos para o desenvolvimento de estados emocionais positivos, tornando-se um recurso importante no contexto de grupos, uma vez que estimulam a cooperação, despertam o respeito ao outro, a integração, a inclusão e o acolhimento às diversidades. A prática tem o potencial mobilizador da expressão de afetos e de reflexões que resultam na ampliação da consciência das pessoas (BRASIL, 2017, p. 69).
Alguns trabalhos que relacionam as danças circulares e o campo da Educação têm sido desenvolvidos por pesquisadores brasileiros como Ostetto (2005), Barcellos (2012), Andrada (2014), Andrada e Souza (2015) e Duvidovich (2018).
Luciana Ostetto realizou sua pesquisa de doutorado privilegiando o encontro com quatro grupos de educadoras em rodas de danças circulares. A autora comenta como foi a idealização desses encontros:
[...] busquei mobilizar outras dimensões do “ser educador”, aproximando linguagens, provocando experiências, convidando à aventura de entregar-se ao momento. Tudo que tínhamos era o momento da dança, a música, os gestos, a tradição de diferentes povos, na roda de mãos dadas. O caminho foi sendo traçado ao entrar na roda com as educadoras (OSTETTO, 2005, p. 22).
Para ela, o educador “[...] que se dispõe ao autoconhecimento e se abre ao encontro do outro e das múltiplas linguagens poderá realizar uma educação de corpo inteiro” (OSTETTO, 2005, p.115). Com isso, Ostetto (2005) afirma que “A Dança Circular é um convite. Aceitá-lo pressupõe abrir-se ao encontro do outro, do múltiplo no mundo – dentro e fora de si” (OSTETTO, 2005, p. 53). Portanto, a autora evidencia as danças circulares como um possível caminho para trabalhar a empatia e o autoconhecimento, entre outros aspectos, na educação.
Janete Teresinha da Silva Barcellos realizou uma pesquisa de mestrado em Educação, cujos sujeitos eram nove participantes de um grupo de danças circulares de um centro comunitário. O grande desafio de sua pesquisa “[...] residiu na reflexão acerca da relação que se estabelece com o outro no dançar-junto, onde a Presença, o Ritmo, a Escuta e o Olhar sensíveis, se evidenciam” (BARCELLOS, 2012, p. 54). Em seu trabalho, ressalta que a dança circular “[...] pode ser considerada inclusiva, solidária e cooperativa; permite experimentar um estar-junto alicerçado pelos laços emocionais a partir do dançar em círculo [...]” (BARCELLOS, 2012, p. 46). A autora concorda com o pensamento de utilizar a dança circular como uma abordagem pedagógica mais carinhosa e cooperativa, tornando os processos educativos mais sensíveis e solidários.
Paula da Costa Andrada realizou uma pesquisa de doutorado com dois grupos de professores, de duas escolas diferentes, cujo objetivo era observar como as danças circulares, sendo mediadoras das expressões dos sujeitos, poderiam facilitar o desenvolvimento dos professores, “[...] promovendo a tomada de consciência de si, de seu papel e compromisso profissional” (ANDRADA, 2014, p. 8). Numa das escolas, as gestoras tinham a intenção de melhorar o relacionamento entre professores e gestores. Na outra, o objetivo era envolver os professores em processos reflexivos que modificassem os modos como eles percebiam e exerciam suas práticas, pois:
[...] a dança, especificamente, ao tocar o sujeito de corpo inteiro, constitui-se em meio privilegiado para a ampliação da tomada de consciência sobre si e o outro, sobre as condições que caracterizam a vida e a profissão. Ela pede e provoca, simultâneamente, envolvimento, quebra de rigidez, disposição, partilha e entrega; instiga a abrir mão do controle, da sisudez, da cobrança por acertos (ANDRADA, 2014, p. 192).
Marina Luar de Souza Duvidovich realizou sua pesquisa de mestrado guiada pelo objetivo de investigar a presença e o papel das danças circulares na vida de professoras que dançam. Para tanto, analisou narrativas escritas de 59 professoras dançantes de 11 estados da Federação. Dentre os resultados, a autora destaca que as professoras que dançam reconhecem mudanças em si próprias e indicam alterações positivas em sua prática docente, na interação com estudantes, colegas e comunidade escolar. Além disso, as danças circulares contribuem “[...] para o exercício de uma escuta atenta, compreensiva e empática, fecundando relações pedagógicas menos verticais, mais dialógicas e democráticas” (DUVIDOVICH, 2018, p. 4).
As pesquisas mencionadas indicam o potencial das danças circulares em promover uma ampliação da sensibilidade das educadoras e das pessoas inseridas na roda, colaborando para uma prática educativa e humana mais acolhedora.
Caminho metodológico e contexto da pesquisa
O Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no Pampa foi proposto para compartilhar com educadoras da Rede Municipal de Ensino de Bagé e com demais pessoas da comunidade interna e externa os saberes das danças circulares enquanto uma prática integrativa de interação, de cooperação e de respeito às diferenças. O Projeto foi realizado de 16 de março a 14 de dezembro de 2016, com encontros semanais de uma hora e meia de duração, que aconteceram no auditório da Escola Municipal de Ensino Fundamental São Pedro, localizada na cidade de Bagé-RS. Optou-se pela realização dos encontros nessa escola por ser mais central, facilitando o acesso das participantes.
A equipe executora do Projeto foi constituída por 1 professora da UNIPAMPA, que focalizava as danças circulares, e por 2 acadêmicos de graduação da mesma universidade, sendo um deles bolsista do Projeto. Durante o ano de 2016, 14 participantes se mantiveram presentes nos encontros regulares do Projeto, sendo 5 professoras da educação básica, 1 professora da UNIPAMPA e 5 gestoras em escola de educação básica. As outras 3 participantes eram pessoas da comunidade. Optou-se por chamar as professoras e gestoras de educadoras, pois todas trabalhavam com educação, seja em sala de aula ou na gestão, do nível básico ao nível universitário.
Assim, às quartas-feiras, das 18h30min às 20h foram realizadas as rodas de danças circulares e, em média, sete coreografias eram dançadas por noite, elegidas a partir de um roteiro organizado previamente pela focalizadora, com uma música e coreografia mais simples e suave, intercalando com músicas e danças que exigiam mais atenção e energia. Considerando que grande parte das educadoras atuava em escolas de Educação Infantil, a professora focalizadora trazia, na maioria dos encontros, uma coreografia e/ou brincadeira adequada para essa etapa de ensino. No final dos encontros, geralmente, acontecia uma dança suave, além de haver um momento para relatos e partilha de experiências.
Para verificar se o potencial desenvolvido nas danças circulares também se fazia presente na prática profissional das educadoras participantes do Projeto de Extensão Pampa Circular, um acadêmico da UNIPAMPA, integrante da equipe executora – co-autor deste artigo - mobilizou-se pela seguinte pergunta de pesquisa: Quais as potencialidades das danças circulares na prática profissional de educadoras? Para tanto, sob a orientação da professora universitária, focalizadora das danças circulares, realizou entrevistas semiestruturadas com 7 educadoras e analisou produções escritas delas e de mais 3 educadoras, totalizando 10 escritas. Todas as educadoras que participaram do Projeto em 2016 foram convidadas para a pesquisa, das quais 10 manifestaram disponibilidade e, sendo assim, foram denominadas educadoras- participantes, assinando um termo de consentimento livre e esclarecido que autoriza o uso de imagens, vídeos, falas e produções escritas para fins de pesquisa e divulgação científica.
A pesquisa realizada teve abordagem qualitativa, por se preocupar “[...] com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais” (GERHARDT; SILVEIRA, 2009, p. 32), pelo estudo do caso das educadoras-participantes que se reuniram semanalmente nos encontros do Projeto de Extensão Pampa Circular, pois “Reúne o maior número de informações detalhadas, valendo-se de diferentes técnicas de pesquisa, visando apreender uma determinada situação e descrever a complexidade de um fato” (MARCONI; LAKATOS, 2009, p. 274).
Como instrumentos de produção de dados, foram utilizadas produções escritas e entrevistas semiestruturadas. As produções escritas trouxeram relatos acerca do que o Projeto vinha significando para as 10 educadoras-participantes e as entrevistas foram realizadas de forma individual, em local e horário escolhido por 7 delas, de acordo com sua disponibilidade, sendo, posteriormente, transcritas. Circulando por esses instrumentos, obtiveram-se dados que constituíram o corpus de análise da pesquisa, o que, segundo Moraes (2003), constitui uma amostra textual capaz de evidenciar resultados importantes dos fenômenos investigados. Nesse âmbito da pesquisa, para verificar se a vivência de danças circulares traz contribuições para a prática profissional de educadoras.
Para apreciar o corpus, utilizaram-se os pressupostos da Análise Textual Discursiva (ATD), a fim de descrevê-lo e interpretá-lo, “[...] com a finalidade de produzir novas compreensões sobre os fenômenos e os discursos” (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 7). Para tanto, realizaram-se as 3 etapas auto-organizadas da metodologia criada por Moraes e Galiazzi (2007): a desmontagem dos textos, a categorização e a produção de um metatexto, que expressou a captação do novo emergente. Na primeira etapa, desconstruiu-se o corpus de análise, identificando-se unidades de significado que responderam à seguinte pergunta fenomenológica: Que é isso que se mostra nos registros escritos e nas transcrições das entrevistas realizadas com as educadoras-participantes do Projeto de Extensão Pampa Circular?
Nessa etapa, também foram atribuídos códigos às unidades de significado separadas no corpus de análise sem revelar a identidade das educadoras-participantes. Assim, os códigos utilizados correspondem às entrevistas ou registros escritos das 10 educadoras-participantes, organizados da seguinte forma. As educadoras que atuavam em sala de aula receberam códigos que as identificavam como Professora 1, Professora 2, Professora 3, Professora 4 e Professora 5. Da mesma forma, as educadoras-participantes que atuavam na gestão da escola (diretora, supervisora, orientadora educacional) receberam códigos que as identificavam como Gestora 1, Gestora 2, Gestora 3, Gestora 4 e Gestora 5. Além disso, ao lado da identificação da educadora-participante, as abreviações E e RE indicam se a unidade de significado se refere à entrevista ou registro escrito, respectivamente.
Na segunda etapa da ATD, quando as unidades de significado com sentidos semelhantes foram aproximadas, emergiram duas categorias, 1) aspectos do sentir, e 2) aspectos do agir, organizadas em subcategorias, conforme foram se evidenciando durante a leitura. A relação entre as categorias encontradas em diálogo com teóricos que estudam as danças circulares constituiu a terceira etapa da ATD, a captação do novo emergente expresso em um metatexto, que será mostrado nas próximas partes deste artigo.
Aspectos do sentir
As educadoras destacaram que as danças circulares propiciam sentimentos de calma, relaxamento, paz, leveza, suavidade e serenidade como os observados nos seguintes depoimentos:
Eu saio bem tranquila ... [...], vou pra casa bem, durmo bem [...]. Eu gosto muito dos encontros. (Gestora 1 – E);
[...] as Danças Circulares têm me ensinado a reconhecer os aspectos mais positivos do desenvolvimento desse trabalho e ficar mais calma e serena, que era algo que interiormente me faltava. (Professora 1 – E);
[...] as danças me proporcionam mais paz, equilíbrio e um encontro com o próprio eu. (Gestora 3 – RE);
[...] posso dizer que o encontro traz leveza, paz, aprendizado, amizade e principalmente entusiasmo [...] (Gestora 5 – RE);
[...] a gente acha que a quarta é aquele dia sabe, de dar uma relaxada. (Professora 4 – E).
Andrada (2014) também relatou que “Entrar para os encontros e ver os rostos cansados e, ao final, perceber o riso, a leveza e a tranquilidade podem ser indicativos do processo de mudança pela quebra da rigidez, do automatismo e da indisposição inicial” (ANDRADA, 2014, p.167). Com as falas das educadoras e os relatos de Andrada (2014), pode-se perceber que, após praticar as danças circulares, as participantes sentem-se mais tranquilas e serenas. Além disso, algumas educadoras expressam que gostariam que esses sentimentos fossem também vivenciados pela comunidade escolar, como relatado pela Professora 2: “[...] o pessoal precisa dessa oportunidade de relaxar, de poder se soltar e de poder se desestressar.” (Professora 2 – E). Já a Professora 3 afirma que as danças circulares trariam “[...] um aluno mais tranquilo em sala de aula. [...] e para a família, uma pessoa suave, mais amorosa em sala de aula...dentro de casa” (Professora 3 – E).
A alegria, a descontração, a felicidade e o carinho também foram aspectos do sentir bastantes mencionados pelas educadoras.
Rimos, suamos, a quarta se torna diferente e prazerosa com esses encontros. Agora nesses frios, à noite, saindo do trabalho, dá aquela vontade de ficar em casa [...] mas só em saber que vamos nos aquecer, vamos nos divertir vale a pena encarar o arzinho congelante de (nome do município). (Gestora 3 – RE);
Participar do Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no pampa vem sendo maravilhosamente positivo em minha vida ... espero as quartas-feiras com expectativa, pois a cada encontro sempre saio motivada, feliz e em paz. (Gestora 4 – RE);
[...] reencontro com um sorriso, um abraço, um olhar carinhoso de cada um que chega para a dança. (Professora 5 – RE).
Observando a satisfação e a expectativa de cada uma pelos encontros nas quartas-feiras, como destacado pela Gestora 4, percebe-se que os encontros do Projeto elevaram essas sensações de carinho e felicidade no grupo. Rodrigues (2015) ressalta que “Este tipo de Dança, além de harmonizar as pessoas através do ritmo, evoca também, na maioria das vezes, uma imensa alegria, uma alegria consciente, de amor benevolente e desapegado [...]” (RODRIGUES, 2015, p.52). Berni (2015) também observou em pacientes que frequentavam rodas de dança circulares que
Pessoas que se encontravam em algum estado de depressão eram, gentilmente, levadas a vivenciar as qualidades da alegria e do bem estar; uma alegria e um bem estar que parecem se instalar com certa permanência, de forma a tornar as pessoas mais calmas e felizes (BERNI, 2015, p.59).
A partir desses comentários, não é de se estranhar que o carinho e a alegria se tornaram algo habitual nos encontros, confirmando o quanto as danças circulares são capazes de evocar sentimentos de felicidade e amorosidade.
Algumas educadoras relataram ainda sobre o equilíbrio físico e mental que adquiriram no decorrer do Projeto, bem como o sentido de harmonia dos movimentos com a música, motivando- as a continuar suas funções diárias de maneira mais equilibrada.
Tem muita gente que às vezes não faz nenhum tipo de atividade no dia a dia e é uma atividade que envolve todo o desenvolvimento da gente, corpo, mente e equilíbrio. (Gestora 2 – E);
[...] trazem uma paz e um senso de equilíbrio maravilhoso [...]. (Gestora 1 – RE);
[...] as danças me proporcionam mais paz, equilíbrio e um encontro com o próprio eu. (Gestora 3 – RE).
Ao fazer referência a estudos de Vigotski, Andrada (2014) expressa que a arte “[...] tem um papel de promover o equilíbrio no homem, o que transcende o estereótipo da função da arte como mero ornamento” (ANDRADA, 2014, p. 58). Algumas das professoras que participaram da pesquisa de Andrada (2014) também exaltaram esse equilíbrio interno restaurado pelas Danças Circulares: “Também aumentam as percepções emocionais e os sentimentos, alinhando a mente e o corpo. Ajudou-me a restaurar o equilíbrio interno [...]” (ANDRADA, 2014, p.187, grifo no original). A Professora 5, em seu relato escrito, evidencia que o equilíbrio físico “[...] também possibilita o relaxamento dos músculos amenizando a tensão e dores no corpo [...]” (Professora 5 – RE). Portanto, dentre as sensações de bem-estar que as Danças Circulares proporcionam, estão a harmonia e o equilíbrio físico e mental.
A expressão da criatividade também foi mencionada por duas educadoras participantes do Projeto.
[...] Cabe destacar também, algo muito especial que me acontece após as danças circulares. Depois que chego em casa e me organizo para planejar atividades das aulas pelas quais sou responsável nos cursos de licenciatura na universidade, parece que os filtros da criatividade são desobstruídos. (Professora 1 – RE);
Eu voltei pra sala de aula mais criativa, com mais disposição de colocar mais coisas diferentes dentro da minha aula. (Professora 3 – E).
Para Ostetto (2005, p. 49), “Encontrar a Dança Circular alimentou minha criatividade e meu desejo em fazer diferente, em recriar o cotidiano. Não queria a aridez do deserto acadêmico [...]. Queria a terra molhada, sementes, fertilidade”. Wosien (2015) também ressalta esse aspecto criativo do dançar: “A dança se comunica do ponto, onde a respiração, a representação, a imagem e a vivência onírica afloram e se tornam criativas, desprendidas do plano da realidade prosaica e dos grilhões terrestres” (WOSIEN, 2015, p. 26). As falas das duas educadoras citadas anteriormente mostram que as danças circulares também as despertaram para a criatividade e as encorajaram a levar essa criatividade para sua prática profissional.
Outros aspectos muito mencionados pelas educadoras foram a interação, a cooperação, a socialização e a integração propiciadas pelo dançar em roda.
[...] achei bonita a maneira como foi conduzida a roda, como integrou as pessoas àquela hora. Até no primeiro dia da reunião aqui [Na escola onde trabalha] eu falei pras gurias que eu acho que essa dança circular, dançar em mãos/ de mãos é tu compartilhar tuas alegrias, as tuas angústias, é estar em grupo. (Gestora 3 – E);
[...] considero bastante relevante é a integração e cooperação do grupo, pois a gente nunca se sente excluído, mesmo errando a coreografia da música todos se ajudam para acertar o passo sem criticar o colega. (Gestora 2 – RE);
[...] O círculo e a mandala no seu centro contribuem para pensar no movimento, algo vivo que nos conecta uns com os outros pela nossa diversidade e que naquele momento somos personagens de uma mesma história. (Professora 5 – RE).
Como as rodas de danças circulares geralmente são dançadas em círculo e de mãos dadas, elas propiciam o encontro com o outro, através do toque das mãos e dos olhares que se cruzam; as relações, a integração, a socialização e a interação são vividas e experimentadas por todos os participantes da roda. Barcellos (2012) também acrescenta que a prática das danças circulares “[...] pode ser considerada inclusiva, solidária e cooperativa; permite experimentar um estar-junto alicerçado pelos laços emocionais a partir do dançar em círculo [...]” (BARCELLOS, 2012, p.46). Por sua vez, Ostetto (2005) relata que escolheu trazer em suas rodas momentos que permitiam cultivar “[...] o espírito universal de tolerância e cooperação através das Danças Circulares. Através do outro eu posso me ver e me conhecer” (OSTETTO, 2005, p.134).
Sendo assim, é possível observar, nas diversas falas das educadoras e dos pesquisadores, que, além de sentimentos de calma, tranquilidade, amorosidade, alegria e equilíbrio, as danças circulares potencializam sentimentos ligados ao coletivo, como cooperação, tolerância e interação. A Professora 2 também relatou, na entrevista, que os estudantes necessitam desenvolver o aspecto coletivo, “[...] essa maneira da gente ficar em círculo, que um está vendo o outro, então eles aprendem a se olhar e olhar o outro através do próprio olhar, a ser crítico consigo mesmo através daquilo que ele vê no outro” (Professora 2 – E), ou seja, compartilhar essas sensações, aprender com elas e principalmente agir com mais consciência após essa reflexão.
Aspectos do agir
A leitura das falas das professoras permitiu perceber que a calma, o estabelecimento de relações com outras áreas, a concentração, a forma de se relacionar com as pessoas, a compreensão do outro, a criatividade, a disposição e a afetividade foram mobilizadas pelas danças circulares e refletiram positivamente na sua prática profissional.
[...] Então ela me ajuda a ter mais concentração e estabelecer melhores relações nas minhas atividades de preparação de aula. (Professora 1 – E);
[...] eu aprendi a ter mais calma, porque eu sou muito agitada, às vezes não presto atenção nas coisas, né, pra mim é muito difícil me concentrar [...]. Então pra mim trouxe a concentração, o benefício da concentração (Gestora 1 – E);
[...] tu consegue compreender mais as pessoas, os colegas. (Gestora 2 – E);
Eu voltei pra sala de aula mais criativa, com mais disposição de colocar mais coisas diferentes dentro da minha aula.” (Professora 3 – E);
[...] acho que agir com mais calma, mais/ pensar antes [...]. (Professora 4 – E);
[...] eu olho as minhas crianças e digo assim “Bah” eu olho e vejo aquela criança desajeitada e digo “eu também sou assim”. É inegável, é inevitável que o fato de persistir uma, duas, três danças te forçam a mudar e a partir daí tu quer mudar, tu quer mudar porque tu sabe que com essa mudança tu te aprimora, tu melhora e esse melhorar tu consegue levar o outro a melhorar também. (Professora 2 – E).
Nessa última fala da Professora 2, ao se reconhecer desajeitada na aprendizagem de algumas danças, mas persistir em aprendê-las, ela percebe que seus alunos também têm seus tempos de aprendizagem na escola. Duvidovich (2018) constatou, nos relatos das professoras que dançam, que “O equilíbrio, tranquilidade e serenidade alcançadas dançando reverberam nos momentos em que estão em sala, no respeito aos ritmos de aprendizagem de cada estudante, com paciência diante de suas dificuldades” (DUVIDOVICH, 2018, p. 148).
Algumas educadoras também relataram a aplicação de algumas danças circulares aprendidas no Projeto com os seus alunos e/ou colegas de trabalho.
[...] eu ensino pros meus alunos, eu faço com eles, e o quanto é produtivo, depois daquele momento de dança o quanto eles produzem [...]. (Professora 2 – E);
A gente já aplicou aqui na escola e foi bem legal. Também aplicamos eu e a (fala o nome da Gestora 3) num encontro, numa formação de professores e foi bem interessante também. [...] Adoram e participam bastante, fizemos até no Dia do Desafio, foi danças circulares. (Gestora 2 – E);
Já realizei a Dança do Abraço em nossa escola, as crianças adoraram [...]. (Gestora 3 – RE);
Quero comentar que eu fiz [danças circulares] numa última aula do componente curricular que tive semestre passado com uma turma de Química, quer dizer que nem é da área das humanas, e o primeiro momento eles ficaram meio assim [Professora demonstra uma expressão de espanto] quando convidei, né? Fizemos duas danças. Após a primeira dança um aluno comentou “tinha que ter isso todos os dias”, então a percepção não é só minha, mas também de alunos com que/ que já fiz danças circulares dizem que é necessário. (Professora 1 – E).
A Professora 2 relatou que seus alunos, que são do primeiro ano do Ensino Fundamental, produziram mais em sala de aula depois da realização das danças. Já a Professora 1, que utilizou algumas danças com universitários do Curso de Química, destacou que um acadêmico solicitou que eles dançassem todos os dias. A Professora 3 propôs que uma turma de adolescentes pesquisasse sobre as danças circulares e aplicasse algumas delas com uma turma de crianças: “[...] queria respostas e eu obtive respostas, os pequenos lembram até hoje da atividade que os grandes fizeram com eles” (Professora 3 – E). A pesquisa de Duvidovich (2018) e esses relatos reforçam o quanto as danças circulares estão sendo utilizadas em situações diversas na escola e na universidade:
Em determinado (sic) momentos na sala de aula, em atividades extra-classe, como excursões com estudantes para pesquisas de campo ou passeios escolares, em atividades com todo o grupo de funcionários da unidade escolar, nas reuniões do corpo docente e de pais e mestres, dançar vai permitindo a construção de atmosferas propícias ao trabalho conjunto e à troca de saberes (DUVIDOVICH, 2018, p. 148).
Algumas gestoras relataram, ainda, que já utilizaram as danças circulares em reuniões na escola. A Gestora 1 destacou que iniciar um encontro na escola com as danças circulares faz com que as pessoas se concentrem mais nas orientações que necessitam ser repassadas. Portanto, algumas educadoras já se mostram seguras para levar as danças circulares para suas práticas profissionais, obtendo como retorno ótimas experiências de convívio e de aprendizagem.
Mesmo as educadoras que ainda não aplicaram as danças circulares em seus ambientes de trabalho relataram as possibilidades e os possíveis benefícios da sua inserção como atividade para estimular o movimento, a interação com o grupo, o aprendizado, a motivação e, no caso da Educação Infantil, a psicomotricidade.
[...] agora tu imagina isso na /que fizesse parte do currículo ou fosse uma atividade extra que pudesse ser aplicada uma ou duas vezes por semana para todas as turmas, principalmente pra turma de adolescente que precisa de movimento, que precisa de harmonizar o movimento de seu corpo, então isso seria/ acredito, tenho quase certeza que o aprendizado deles seria assim/ dava um pulo, até um “up” de acréscimo a partir da dança. (Professora 2 – E);
[...] a dinâmica das danças que permitem interações com todos no grupo e com certeza quando estiver em sala de aula irei utilizá-las. (Gestora 4 – RE);
[...] como aqui a gente tem a questão da rotina, tem a hora da rodinha, tem a hora da música, a gente poderia colocar as danças circulares nesses momentos [...]. Nas aulas de psicomotricidade também. (Gestora 3 – E).
Uma das depoentes da pesquisa de Duvidovich (2018), que é professora universitária, também vê nas danças circulares a possibilidade do trabalho cooperativo e o desenvolvimento e aprimoramento de diversas habilidades e capacidades motoras (DUVIDOVICH, 2018, p. 130). De maneira geral, as educadoras acreditam que as danças circulares trariam para outros participantes os mesmos aspectos positivos que encontraram nas rodas de dança das quais participaram.
Considerações finais
A partir da realização do Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no Pampa, delineou-se como objetivo de pesquisa verificar se a vivência de danças circulares traz contribuições para a prática profissional de educadoras. A leitura de alguns textos e estudos que levaram em consideração o papel das danças circulares no desenvolvimento da sensibilidade, da integração, da consciência de si e do outro, já davam indicativos de que as danças circulares poderiam despertar esses sentimentos nas participantes. No entanto, não havia convicção de que transcenderiam para suas práticas profissionais.
A análise dos registros escritos e entrevistas das educadoras-participantes do Projeto de Extensão mencionado evidenciou que as danças circulares trouxeram leveza, harmonia, equilíbrio, criatividade e, principalmente, integração, despertando nelas uma vontade de querer levar essas danças para os seus alunos e para a comunidade escolar. O carinho e a alegria se tornaram algo habitual nos encontros, confirmando o quanto as danças circulares são capazes de evocar sentimentos de felicidade e amorosidade.
Algumas educadoras-participantes destacaram o equilíbrio físico e mental que adquiriram no decorrer do Projeto, bem como o sentido de harmonia dos movimentos com a música, motivando-as a continuar suas funções diárias de maneira mais equilibrada. Duas educadoras- participantes reconheceram que as danças circulares também as encorajaram a ser mais criativas em seus fazeres profissionais.
Outro aspecto enfatizado por todas as educadoras-participantes foi a integração impulsionada pelo dançar em roda. Como as danças circulares geralmente são dançadas em círculo e de mãos dadas, elas propiciam o encontro com o outro, através do toque das mãos e dos olhares que se cruzam. Esse encontro, essa interação, esse respeito ao outro e essa integração foram os aspectos mais evidenciados pelas educadoras-participantes como importantes de serem desenvolvidos com alunos, com professores e com toda a comunidade escolar.
Destacou-se também relatos de educadoras-participantes que atuavam no âmbito da gestão. Elas manifestarem que, ao realizarem algumas danças com professores nos encontros das escolas onde trabalham, perceberam que houve uma melhora nas relações interpessoais. As educadoras-participantes que atuavam em sala de aula também introduziram algumas danças circulares com os seus alunos, enfatizando que houve uma ótima receptividade, inclusive percebendo que eles se sentiram mais motivados na continuidade das atividades escolares daquele dia. Mesmo as educadoras-participantes que ainda não realizaram danças circulares em seus ambientes de trabalho relataram as possibilidades e os possíveis benefícios da sua inserção como atividade para estimular o movimento, a interação com o grupo, o aprendizado, a motivação e, no caso da Educação Infantil, a psicomotricidade.
A partir da pesquisa realizada no Projeto de Extensão Pampa Circular - Danças Circulares no Pampa, conclui-se que os sentimentos vivenciados pelas educadoras-participantes nas rodas de danças, transcenderam para além dos encontros do referido Projeto refletindo positivamente em aspectos pessoais e trazendo algumas contribuições para a sua prática profissional.
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