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O EMPREENDEDORISMO SOCIAL E AS PRÁTICAS EXTENSIONISTAS: RELATO DE UM PROJETO DE EXTENSÃO DESENVOLVIDO COM INSTITUIÇÕES DO TERCEIRO SETOR DE SÃO BENTO DO SUL (SC)
Revista Conexão UEPG, vol. 17, núm. 1, pp. 01-20, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Artigos



Recepción: 03 Febrero 2021

Aprobación: 30 Junio 2021

DOI: https://doi.org/10.5212/Rev.Conexao.v.17.17401.46

Resumo: Este artigo relata a proposta e as ações do Projeto de Extensão Aurora, realizado na Universidade da Região de Joinville (Univille), campus São Bento do Sul (SC), que objetivou promover o empreendedorismo social junto aos acadêmicos da Univille por meio de ações de apoio a instituições do Terceiro Setor, com base em uma proposta multi e interdisciplinar. Foram instituições sãobentenses parceiras do projeto a Rede Feminina de Combate ao Câncer (no período de 2017 a 2019) e a Associação Protetora de Animais (em 2020). A proposta atendeu a edital de demanda interna da Universidade, foi aprovada pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários e desenvolvida com base em cronogramas, metas e metodologias específicos para cada ano de execução. Como resultados principais, o projeto contribuiu para uma formação abrangente e humanizada, habilitando os discentes ao exercício profissional e à prática da cidadania, incentivando o voluntariado e sensibilizando para causas sociais críticas.

Palavras-chave: Empreendedorismo social, Voluntariado, Terceiro setor.

Abstract: This article reports the proposal and actions of an Outreach Project named Aurora carried out at the University of the Joinville Region (Univille, Portuguese acronym), campus São Bento do Sul (SC). The project aimed at promoting social entrepreneurship among Univille undergraduate students by means of actions that support Third Sector institutions, based on a multi and interdisciplinary proposal. The partner institutions were the Women's Network to Fight Cancer (from 2017 to 2019) and the Animal Protection Association (in 2020), both from São Bento do Sul. The project met an internal demand of the university and was approved by the Dean of Community Affairs Office and developed based on specific schedules, goals and methodologies for each year of its implementation. As main results, the project contributed to a comprehensive and humanized academic education, enabling students to develop professional and citizenship practices, encouraging volunteering and raising awareness of critical social causes.

Keywords: Social entrepreneurship, Volunteering, Third sector.

Introdução

Em perspectiva ampla, a formação acadêmica – sobretudo no Ensino Superior – demanda a construção de um currículo amplo, articulado às demandas contemporâneas e que viabilize o desenvolvimento das competências ensejadas ao profissional em construção. Para além das relevantes questões técnicas, a vivência universitária deve ser capaz de promover uma formação plena e humanizada, que habilite com excelência o estudante para o exercício profissional e para a prática da cidadania. Isso requer um esforço integrado daqueles que circulam pelas mais diversas esferas institucionais, bem como a efetiva prática, no contexto universitário, da indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão. Fundamentando-se em tais pressupostos, o presente artigo tem como objetivo geral relatar a proposta e as ações de um Projeto de Extensão realizado na Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE), mais especificamente no campus localizado na cidade de São Bento do Sul (SC).

Denominado como Projeto AURORA – Acadêmicos solidários: uma proposta multi e interdisciplinar de apoio a instituições do Terceiro Setor de São Bento do Sul, o projeto teve início no ano de 2017, e em termos teóricos seu escopo se insere no campo de conhecimento denominado como Empreendedorismo Social, que se caracteriza por iniciativas da sociedade civil que intencionam solucionar problemas sociais em relação aos quais tanto o Estado quanto o Mercado demonstram incapacidade ou inadequação de atendimento. De acordo com Oliveira (2004), a literatura se caracteriza por certa imprecisão conceitual acerca do que, de fato, é empreendedorismo social, ainda que, em termos práticos, figuras como Martin Luther King e Mahatma Gandhi evidenciem que sua essência já existe há muito tempo. Para o autor, dentre as definições de empreendedorismo social existentes, destaca-se a proposta pela organização suíça Foud Schwab:

São agentes de intercambiação da sociedade por meio de: proposta de criação de ideias úteis para resolver problemas sociais, combinando práticas e conhecimentos de inovação, criando assim novos procedimentos e serviços; criação de parcerias e formas/meios de auto-sustentabilidade dos projetos; transformação das comunidades graças às associações estratégicas; utilização de enfoques baseados no mercado para resolver os problemas sociais; identificação de novos mercados e oportunidades para financiar uma missão social. [...] características comuns aos empreendedores sociais: apontam ideias inovadoras e veem oportunidades onde outros não veem nada; combinam risco e valor com critério e sabedoria; estão acostumados a resolver problemas concretos, são visionários com sentido prático, cuja motivação é a melhoria de vida das pessoas, e trabalham 24 horas do dia para conseguir seu objetivo social.

O empreendedorismo social, portanto, pode ser compreendido como um processo que cria soluções inovadoras para problemas sociais imediatos, mobilizando ideias, competências, recursos e arranjos sociais necessários à geração de transformações sociais sustentáveis (ALVORD; BROWN; LETTS, 2004). O empreendedor social, de acordo com Dornelas (2007, p. 14), “tem como missão de vida construir um mundo melhor para as pessoas. Envolve-se em causas humanitárias com comprometimento singular. Tem um desejo imenso de mudar o mundo, criando oportunidades para aqueles que não têm acesso a elas”. Trata-se de alguém que possui o olhar voltado para a coletividade; fala na primeira pessoa do plural (nós); sente indignação diante da exclusão social, da pobreza e da miséria; e encontra no risco de vida do outro a motivação para suas ações (MELO NETO; FRÓES, 2002). Torna-se evidente, assim, a importância do empreendedorismo social e das pessoas que o desenvolvem, e revela-se a profundidade que tal proposta abarca.

A existência de empreendedores sociais, entretanto, não é fruto do acaso. De acordo com Itelvino et al. (2018), a formação do empreendedor social está vinculada aos espaços e contextos de aprendizagem, à trajetória de liderança social e à motivação para o empreendedorismo social – uma conjuntura na qual a educação formal desempenha um papel imprescindível. Ou seja: a formação universitária, ao proporcionar ao empreendedor a aquisição de habilidades e competências profissionais, por meio de um processo educacional que leve em consideração um conjunto de conhecimentos acadêmicos, orienta o desenvolvimento do empreendedorismo.

De acordo com os autores, contudo, esse conhecimento formal é insuficiente para que uma pessoa transcenda o status de empreendedor para se tornar empreendedor social. Mais do que uma matriz curricular com disciplinas sobre “Empreendedorismo”, “Terceiro Setor” e “Economia Solidária”, é fundamental que as Instituições de Ensino sejam capazes de promover a “Socialização Empreendedora” dos cursos universitários, a partir de ações didáticas capazes de efetivamente integrar espaços e contextos formais e não formais, além de possibilitar o desenvolvimento da liderança profissional e do senso coletivo, por meio de atividades práticas de intervenção social (ITELVINO et al., 2018). Significa dizer que, mais do que teorizar sobre o assunto (ainda que isso também seja necessário), a formação de empreendedores sociais requer vivência e aplicação de conhecimentos, habilidades e atitudes em prol das causas sociais.

As contribuições de uma formação acadêmica que privilegie o empreendedorismo social são múltiplas, relevantes e de amplo alcance. Tais aspectos são evidenciados a partir do perfil do empreendedor social, elaborado por Oliveira (2004), e que estabelece os seguintes aspectos:

  • Conhecimentos: saber aproveitar as oportunidades; ter competência gerencial; ser pragmático e responsável; saber trabalhar de modo empresarial para resolver problemas sociais;

  • Habilidades: ter visão clara e iniciativa; ser equilibrado, participativo, ágil, criativo, flexível, focado e inovador; saber negociar e trabalhar em equipe; saber pensar e agir estrategicamente; ser perceptivo e atento aos detalhes;

  • Competências: ser visionário e persistente; ter senso de responsabilidade e de solidariedade; ser sensível aos problemas sociais; saber usar forças latentes e regenerar forças pouco usadas; saber correr riscos calculados; saber integrar vários atores em torno dos mesmos objetivos; saber interagir com diversos segmentos e interesses dos diversos setores da sociedade; exercer liderança;

  • Posturas: ser inconformado e indignado com a injustiça e desigualdade; ser determinado, engajado, comprometido, leal, ético, profissional e transparente; ser apaixonado pelo que faz (campo social).

As características apontadas por Oliveira (2004), quando analisadas de forma integrada, consistem em elementos necessários a qualquer área em que se queira fazer a diferença e ir além do trivial. Neste sentido, compreende-se que uma formação acadêmica que inclua e privilegie o empreendedorismo social, viabilizando práticas que possibilitem aos estudantes o contato com o ambiente social com vistas a desenvolver uma postura empreendedora e inovadora, terá como consequência progressiva a alteração do perfil dos profissionais e empresários brasileiros, possibilitando a geração de novos negócios, bem como a criação de produtos e serviços com maior valor agregado, estimulando inclusive o desenvolvimento tecnológico e social do país (PEREIRA et al., 2016; ITELVINO et al., 2018).

Com base em tais premissas, o Projeto Aurora foi proposto e aprovado pela Universidade, tendo como objetivo promover o empreendedorismo social junto aos acadêmicos da Univille, campus São Bento do Sul, por meio de ações de apoio a instituições do Terceiro Setor do município, com base em uma proposta multi e interdisciplinar. Ao longo dos quatro anos de desenvolvimento (2017-2020), o Projeto teve duas instituições são-bentenses como parceiras: a Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC) e a Associação Protetora de Animais (APA). Assim, quanto à sua estrutura, este artigo contempla sequencialmente: (i) a metodologia de proposição e de desenvolvimento do projeto de extensão; (ii) a contextualização do projeto junto à RFCC, com o relato das principais ações e respectivos resultados; (iii) a caracterização do Projeto Aurora quando desenvolvido junto à APA, incluindo os métodos e decorrências; (iv) as considerações finais do artigo.

Projeto de Extensão Aurora: critérios de proposição e metodologia

O desenvolvimento do Projeto de Extensão Aurora envolveu inicialmente sua aprovação por parte da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade da Região de Joinville (Univille). O projeto foi construído e proposto em atendimento a edital de demanda interna anualmente aberto pela Univille, que possui objetivos alinhados às políticas e estratégias institucionais, expressas, por exemplo, no PDI (2016) da Universidade, a saber:

  • estimular o desenvolvimento de projetos de extensão em consonância com os três macroprocessos da política de extensão da Univille: Formação humanística, científica e profissional; Inserção comunitária e Promoção da sustentabilidade socioambiental;

  • contribuir para o desenvolvimento de um processo pedagógico participativo, possibilitando um envolvimento social com a prática do conhecimento e, na sua interface com a pesquisa, responder cientificamente às demandas suscitadas pela comunidade;

  • promover o intercâmbio de conhecimentos entre a Universidade e a comunidade externa, incentivando a autonomia e a apropriação de tecnologias desenvolvidas;

  • contribuir para a formação do estudante por meio da sua participação em atividades que o coloquem em contato com a realidade social e profissional;

  • desenvolver as atividades de extensão em articulação com os colégios, os cursos de graduação e os programas/cursos de pós-graduação, considerando a sua curricularização e inserção nos respectivos projetos pedagógicos;

  • socializar experiências e compartilhar conhecimento produzido na articulação da Universidade com a comunidade.

Ao propor um projeto de extensão, há critérios relevantes a serem contemplados, perspectivando o efetivo cumprimento dos objetivos supramencionados. Exemplifica-se: o projeto deve contemplar um ou mais Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS); a proposta deve possuir alinhamento evidente com o Projeto Pedagógico dos Cursos envolvidos e com a política de extensão, e deve estabelecer estratégias de integração com o Ensino e com a Pesquisa. Além disso, o projeto deve prever a vinculação de bolsista(s) de extensão dos cursos de graduação e/ou pós-graduação da Univille, com custeio das bolsas financiado por fundo próprio da instituição.

O Projeto de Extensão Aurora atendeu a todos os critérios estabelecidos em edital, foi considerado relevante e teve seu desenvolvimento aprovado no período de 2017 a 2020, com avaliações e renovações anuais e cronogramas de trabalho definidos para intervalos de 12 meses. Seu objetivo geral consistiu em promover o empreendedorismo social junto aos acadêmicos da Univille, campus São Bento do Sul, por meio de ações de apoio a instituições do Terceiro Setor do município, com base em uma proposta multi e interdisciplinar. Em sua construção, dentre outros aspectos (como justificativa e plano de trabalho da equipe), o projeto envolveu a definição de metas para cada período contemplado, bem como o delineamento de sua metodologia de execução. Estes dois elementos (i.e.; metas e metodologia) são absolutamente integrados – ora, a definição dos procedimentos a serem observados deve levar em consideração as metas que se pretende alcançar, tornando cada ano do projeto único em questões de método. No entanto, há alguns aspectos metodológicos que foram comuns a todos os anos, por serem fundamentais a quaisquer trâmites. Aqui, incluem-se iniciativas como:

  • realização de reuniões entre a equipe do projeto e representantes da instituição do terceiro setor selecionada para levar a proposta a campo. Esta interação perspectivava compreender, de forma mais acurada, as condições de operação da instituição, suas maiores dificuldades e as principais frentes de atuação do projeto;

  • socialização junto à comunidade acadêmica (i.e.; professores, técnicos administrativos e estudantes dos diversos níveis) quanto à existência e aos propósitos do projeto, perspectivando identificar alunos que queiram atuar como voluntários, bem como sensibilizar a todos para a importância das atividades inerentes ao projeto. Isso foi realizado por meio de exposições em salas de aula, auditórios, bem como por meio de canais oficiais de comunicação da Universidade;

  • manutenção de registros detalhados de todos os processos e eventos, com vistas à socialização posterior dos resultados alcançados. Tal documentação é de responsabilidade do(s) aluno(s) bolsista(s) vinculados ao projeto.

Aliás, no que se refere ao grupo de trabalho, cumpre destacar que o Projeto Aurora foi contemplado com equipes bastante numerosas de estudantes. Incluem-se aqui bolsistas beneficiados pelo Fundo de Apoio à Extensão da Univille, estudantes que receberam bolsas de órgãos públicos (como Estado e Prefeitura), e discentes que se vincularam ao projeto de maneira voluntária, perfazendo um total de 56 estudantes ao longo dos quatro anos. Além dos representantes estudantis, a equipe do Projeto Aurora foi também composta pelas professoras Soraya Juliane da Silva (coordenadora) e Eliziane Meurer Boing, autoras deste artigo.

É importante mencionar ainda que, dentre os critérios para proposição e aprovação do projeto de extensão junto à Univille, é obrigatória a anuência da comunidade/instituição, concordando com o desenvolvimento das ações extensionistas. No caso do Projeto Aurora, foram duas as instituições do terceiro setor vinculadas como parceiras para o fomento do empreendedorismo social: a Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Bento do Sul, nos anos de 2017 a 2019, e a Associação Protetora de Animais de São Bento do Sul no ano de 2020.

Acadêmicos solidários: combater o câncer, priorizar a vida

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA, 2016), “câncer” é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que se caracterizam pelo crescimento desordenado de células, invadindo tecidos e órgãos. Multiplicando-se com relativa rapidez, tais células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, culminando na formação de tumores malignos que podem se espalhar para outras regiões do corpo. Este processo pode ser deflagrado por causas diversas, podendo ser externas ou internas ao organismo, estando inter-relacionadas. Como causas externas, encontram-se questões referentes ao meio ambiente e aos hábitos e costumes próprios de uma sociedade. As causas internas, por sua vez, na maioria dos casos são geneticamente predeterminadas, e estão ligadas à capacidade que o organismo possui de se defender das agressões externas.

O aumento da expectativa de vida, a urbanização e a globalização, ainda de acordo com o INCA (2016), são alguns dos fatores que podem explicar parte dos quase 600 mil novos casos de câncer estimados para a população brasileira anualmente. Os principais tipos, por ordem de incidência, são: (i) os de pele não melanoma (em ambos os sexos), (ii) o de próstata; e (iii) o de mama. Outros cânceres cuja incidência merece destaque são os do intestino grosso (terceiro mais incidente entre as mulheres e o quarto entre os homens); pulmão (terceiro entre os homens e quinto entre as mulheres), colo do útero (quarto mais comum nas mulheres); estômago (quinto entre os homens e sexto entre as mulheres); e cavidade oral (sexto mais comum entre homens).

Atualmente, o câncer é a segunda maior causa de morte no Brasil, com 190 mil óbitos por ano. Por se tratar de uma doença associada principalmente ao envelhecimento, quanto maior a expectativa de vida da população, maior costuma ser a incidência do câncer. Além da idade, outros fatores de risco já relacionados com o aumento da chance de desenvolver o câncer são o tabagismo, a obesidade, o sedentarismo, o consumo de carnes processadas (linguiça, salsicha, embutidos em geral) e o etilismo (consumo de álcool). Assim, muito embora predisposições genéticas não possam necessariamente ser modificadas, a disseminação de hábitos saudáveis e a promoção de mudanças de comportamento e estilo de vida são essenciais para uma reversão nesse cenário tão pessimista. Para o diretor-geral em exercício do INCA (2016), Luís Felipe Ribeiro Pinto, tais fatores podem contribuir para que cerca de um terço dos casos estimados de câncer seja prevenido – um índice que, convenhamos, compensa quaisquer esforços.

De modo geral, no que se refere aos diversos tipos de câncer, há certo consenso quanto à importância das ações de prevenção contra a doença, com o objetivo de prevenir enfermidades, diagnosticá-las e tratá-las precocemente e minimizar seus efeitos na população, assegurando a cada indivíduo um padrão de vida adequado à manutenção da sua saúde. Entretanto, não raras vezes as ações preventivas são cercadas de mitos, preconceitos e resistências, que desafiam o seu sucesso. Em termos práticos, Thuler (2003) destaca a existência de três tipos de prevenção, classificados com base no período de progressão da doença sobre o qual se deseja intervir: (i) antes da instalação do processo patológico (prevenção primária), (ii) depois que a doença se iniciou e ainda não há sintomas (prevenção secundária); ou (iii) quando já há sintomas (prevenção terciária).

As ações de prevenção primária objetivam diminuir a incidência de uma doença numa população, reduzindo o risco de surgimento de casos novos, ao prevenir a exposição aos fatores que levam ao seu desenvolvimento, interromper seus efeitos ou alterar as respostas do hospedeiro a essa exposição, impedindo que ocorra seu início biológico. Alguns exemplos dessas estratégias podem ser encontrados em programas que promovem práticas sexuais seguras, ajudam pessoas a deixar de fumar e realizam vacinação em massa. [...] A prevenção secundária tem por finalidade alterar o curso da doença, uma vez que seu início biológico já aconteceu, por meio de intervenções que permitam sua detecção precoce e seu tratamento oportuno. Para isso, deve haver clara evidência de que a doença em questão possa ser identificada em uma fase precoce, quando ainda não está clinicamente aparente, e que permita uma abordagem terapêutica eficaz, alterando seu curso ou minimizando os riscos associados com a terapêutica clínica. [...] É essencial educar a população e os profissionais de saúde para o reconhecimento dos sinais e sintomas precoces do câncer, contribuindo para sua detecção em estágios menos avançados e aumentando as chances de sucesso do tratamento preconizado. Isto pode ser obtido por meio de campanhas educativas e capacitação de agentes de saúde (THULER, 2003).

Quando já instalado, o câncer é uma doença que afeta profundamente a vida do paciente, em termos biológicos, psicológicos e sociais, visto comumente como uma enfermidade sinônimo de sofrimento e morte. No âmbito biológico, o paciente se depara com o diagnóstico de uma doença que evolui geralmente de forma agressiva, com sintomas debilitantes como dor, perda de peso, presença de nódulos e um tratamento prolongado associado a efeitos colaterais desagradáveis de radioterapia e quimioterapia. Frente a essa realidade, é comum que o paciente vivencie grandes dificuldades, como: alteração da rotina diária em virtude do tratamento; maior dependência de cuidados de terceiros; mudanças de hábitos arraigados (e.g.; tabagismo, etilismo); alteração da imagem corporal, isolamento social, entre outras. Esses aspectos podem culminar em intenso sofrimento psicológico, evidenciado através de sintomas de depressão, ansiedade, pensamentos de desesperança, sentimentos de medo e incerteza quanto ao futuro e insatisfação com a imagem corporal (SANTANA; ZANIN; MANIGLIA, 2008).

É importante considerar ainda que, além do próprio paciente, há um grupo geralmente maior de pessoas que também acabam sendo profundamente afetadas pela doença, representado sobretudo pela própria família do enfermo. Em casos de tratamento domiciliar, a família pode não estar preparada para assumir o cuidado, necessitando ser informada sobre a doença e o tratamento, além de receber instrução sobre habilidades técnicas para cuidar no domicílio. Além disso, é fundamental (inclusive para o sucesso do tratamento) que se reconheça o quanto a família é afetada pela doença, bem como o fato de que a dinâmica familiar afeta o paciente. Depressão no paciente, por exemplo, prediz depressão no cuidador, e vice-versa.

Apesar do papel fundamental que desempenham, os cuidadores geralmente não são reconhecidos como pessoas passando por processo doloroso e que precisam de ajuda, apoio e orientação. O papel de cuidador da pessoa com câncer, além de afetar sua saúde mental, causando depressão, ansiedade, sobrecarga, conflito de papéis, incerteza, erosão nos relacionamentos, entre outros problemas, também afeta sua saúde física, causando fadiga, declínio da saúde, falta de exercícios, nutrição precária e necessidade de medicamentos. A origem dos problemas pode estar na sobrecarga física, emocional e até mesmo econômica dos cuidadores familiares, levando muitos doentes a desejarem a própria morte por sentirem-se sobrecarga para a família (SANCHEZ et al., 2010).

Diante deste cenário tão desafiador, diversas instituições públicas e privadas têm empreendido esforços no sentido de contribuir com os processos de prevenção do câncer e de apoio às pessoas que desenvolvem a doença. É o caso, por exemplo, da Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC), entidade que se configura como uma instituição não governamental, de caráter privado, sem fins lucrativos, de finalidade social e filantrópica. De âmbito nacional, a entidade está presente em diversos estados e munícipios, atuando fortemente em ações de suporte aos pacientes com câncer, além de trabalhar na prevenção da doença e também dar apoio às famílias dos pacientes.

Na cidade de São Bento do Sul, a RFCC foi fundada em 15 de setembro de 1999, atualmente conta com, aproximadamente, 40 voluntárias e tem como missão “Proporcionar atendimento humanizado nos serviços ofertados, contribuindo para a prevenção do câncer e a melhoria da qualidade de vida”. Em termos de ações focadas no paciente, os esforços empreendidos pela instituição envolvem ações de prevenção primária, secundária e terciária, direcionadas especificamente para os casos de câncer de mama e de colo de útero. Embora as atividades preventivas se concentrem nos dois tipos de câncer mencionados, a atuação de apoio social da entidade se estende a pacientes portadores de quaisquer tipos de câncer, envolvendo inclusive ações de suporte à família e aos cuidadores.

Muito embora alguns dos procedimentos realizados pela RFCC sejam viabilizados pelo Sistema Único de Saúde, a maior parte das ações da instituição depende de recursos financeiros captados por meio de doações e da boa vontade de pessoas dispostas a contribuir voluntariamente. Neste sentido, reconheceu-se que a Univille possui grande representatividade local, e pode, enquanto instituição comunitária, contribuir significativamente para o sucesso das atividades da Rede Feminina em São Bento do Sul e região. Compreendeu-se que muitas das atividades realizadas na RFCC poderiam ser aprimoradas com o apoio de conteúdos e atividades inerentes aos cursos do campus de São Bento do Sul, tais como CST em Gestão Comercial, Direito, Administração e Educação Física, seja em ações para arrecadação de fundos, palestras sobre conteúdos diversos aos doentes e seus familiares, ações de voluntariado em geral, etc. Com base nessa compreensão, e fundamentando-se no objetivo geral do Projeto Aurora, a RFCC teve um papel relevante nos anos de 2017, 2018 e 2019 para o desenvolvimento de competências relacionadas ao empreendedorismo social da comunidade acadêmica envolvida, numa lógica na qual todas as partes foram favorecidas.

A seguir, serão apresentadas algumas das metas definidas no escopo do Projeto Aurora, consideradas relevantes em função da mobilização proporcionada e do alcance dos resultados.

Meta: Realizar palestra relacionada aos direitos assegurados às pessoas com câncer e seus familiares (2017).

Metodologia e Resultados: Realizou-se a palestra “Aurora: A Esperança para Renascer – Direitos dos Pacientes com Câncer” em 14/06/2017, tendo como tema os direitos assegurados aos pacientes com câncer e seus familiares. O evento foi organizado por acadêmicos do quinto semestre do CST em Gestão Comercial, como atividade de ensino da disciplina de Marketing, e atraiu ao auditório da Univille um expressivo público (aproximadamente 300 pessoas). O conteúdo da palestra, por sua vez, foi preparado e ministrado por acadêmicos do curso de Direito, em atividade do Núcleo de Práticas Jurídicas da instituição. O evento foi gratuito e envolveu questões como: benefício assistencial, benefícios previdenciários, isenções tributárias, auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, entre outros. Além da relevante socialização de informações de alto interesse para aqueles que se encontram em tratamento do câncer, o evento proporcionou a arrecadação de alimentos não perecíveis, entregues à Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC) de São Bento do Sul para repasse às famílias assistidas pela instituição.

Meta: Executar o projeto de um calendário, envolvendo as integrantes do grupo “Amigas da Alegria”, composto por mulheres em tratamento do câncer que se reúnem semanalmente na sede da RFCC. Tal calendário deverá representar, simultaneamente: (i) um mecanismo de resgate da autoestima das pacientes envolvidas; e (ii) por meio de sua comercialização, uma fonte de arrecadação de recursos para a instituição (2018).

Metodologia e Resultados: O calendário foi realizado ao longo do ano de 2018, nos moldes estabelecidos na definição da meta. Participaram das fotos do calendário 25 mulheres em tratamento de câncer, integrantes do grupo “Amigas da Alegria”. O desenvolvimento da ação envolveu as seguintes etapas:

  1. 1. Mobilização das pacientes para a participação no projeto;
  2. 2. Busca por parcerias para os processos necessários (cabeleireiros, maquiadores, fotógrafos, espaço para as fotos, etc.);
  3. 3. Realização das fotos, conciliando as agendas de todas as pessoas envolvidas. Esta foi uma das etapas mais desafiadoras, uma vez que os registros fotográficos dependiam das condições climáticas (bastante instáveis em São Bento do Sul, aliás), das condições de saúde das participantes, que não raras vezes estavam debilitadas pelo tratamento a que eram submetidas, e da disponibilidade de agenda dos profissionais parceiros;
  4. 4. Diagramação do calendário;
  5. 5. Realização de campanha para levantamento do montante financeiro necessário à impressão dos calendários (patrocínios). A equipe do Projeto Aurora mobilizou 34 empresas que contribuíram com recursos financeiros para a execução do calendário. A intenção da equipe consistia em subsidiar todos os custos da ação, a fim de que a venda dos calendários representasse uma entrada líquida de dinheiro para a RFCC. Ainda que muitas empresas tenham apoiado o projeto, em geral eram organizações de pequeno porte, e o montante levantado foi insuficiente. Isso demandou criatividade por parte dos estudantes, que se engajaram inclusive na venda de docinhos para levantar o valor restante – alcançado com êxito ao final;
  6. 6. Realização de evento de lançamento do calendário, na Univille. As mulheres integrantes da RFCC, tanto as voluntárias quanto as pacientes e suas famílias, foram convidadas para uma solenidade de entrega dos calendários prontos. O evento contou ainda com a participação da equipe do Projeto Aurora e da comunidade acadêmica de forma ampla;
  7. 7. Distribuição dos calendários para venda, via Rede Feminina. Ao todo, foram impressas 1.500 cópias, as quais a RFCC passou a vender por R$10,00.

Na Figura 1, pode-se observar uma das páginas do calendário, que tendo sido desenvolvido ao longo do ano de 2018, tem como referência o ano de 2019. Além disso, cumpre mencionar que a ação envolveu o desenvolvimento de um TCC no curso de Administração da Univille (MATTOS, 2018).



Figura 1 – Lâminas do calendário desenvolvido pelo Projeto Aurora para a RFCC de São Bento do Sul
Fonte: Projeto Aurora (2018)

Meta: Realizar melhorias no composto mercadológico da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Bento do Sul, sobretudo no bazar de roupas usadas que representa a principal fonte de renda da instituição. Incluem-se aqui também ações que visem divulgar amplamente junto à comunidade são-bentense os propósitos e ações da RFCC no município (2018).

Metodologia e Resultados: Foram realizadas atividades pelos acadêmicos do CST em Gestão Comercial, nas disciplinas de Marketing e Pesquisa de Mercado. Os estudantes visitaram as instalações da RFCC, conheceram as atividades desenvolvidas pela instituição e elaboraram planos de ação com sugestões de melhoria tanto ao bazar quanto à divulgação geral das atividades da RFCC. Tais projetos foram apresentados às voluntárias, no entanto, a implementação das melhorias propostas ficou sob a responsabilidade da própria RFCC. É válido mencionar que a instituição possui alto nível de organização e certa burocracia para a realização de ações originadas externamente.

No que tange à divulgação das ações da RFCC, uma ação realizada que pode ser vinculada à meta se refere a evento voltado à comunidade acadêmica da Univille. Em atenção às campanhas do Outubro Rosa e Novembro Azul, foi organizado um evento de conscientização acerca da prevenção ao câncer, voltado à comunidade acadêmica da Univille (alunos, professores e técnicos administrativos). Além da entrega de materiais explicativos, foram ofertados doces cuja renda foi revertida integralmente à RFCC.

Meta: Planejar e executar ações voltadas à ampla divulgação junto à comunidade são-bentense dos propósitos e ações da RFCC no município, a fim de favorecer o apoio da população à causa e às campanhas promovidas pela organização.

Metodologia e Resultados: Esta meta foi cumprida por meio das seguintes iniciativas:

  1. - Primeiramente, foi realizada pesquisa junto à comunidade de São Bento do Sul, a fim de mapear o nível de informações mantido acerca das ações da RFCC, bem como o perfil comportamental quanto a doações a instituições do terceiro setor. A pesquisa, caracterizada metodologicamente como um levantamento descritivo de abordagem qualitativa, envolveu a aplicação de um questionário junto a 200 pessoas residentes no município, no período de 05/09 a 01/11/2019. Os dados foram coletados, tratados e analisados à luz do contexto da própria RFCC, bem como de referencial teórico envolvendo temas como marketing social, comportamento do doador, formas de captação de recursos para o terceiro setor, dentre outros. As informações levantadas foram valiosas inclusive para a própria RFCC, que obteve meios de fundamentar melhor suas ações e processos decisórios;

  2. - Com base nas informações previamente obtidas, foi realizada a gravação de vídeo institucional, com apoio de cinegrafista, locução e edição de vídeo de profissionais parceiros e voluntários. O vídeo institucional (que pode ser visualizado no seguinte link: https://www.facebook.com/RedeFemininaSBS/videos/999002717123305/) levou o nome do Projeto Aurora em sua abertura, e foi divulgado nas redes sociais da RFCC;

  3. - Construiu-se parceria com o Cine Gracher, rede de cinemas que inaugurou em 2018, unidade em São Bento do Sul, e, ao longo do mês de outubro, em campanha do “Outubro Rosa”, o vídeo institucional foi veiculado antes da exibição dos filmes que estavam em cartaz;

  4. - Por fim, a bolsista Paula Karina Jantsch desenvolveu seu Trabalho de Conclusão de Estágio do curso de Administração com o tema de Marketing na RFCC (JANTSCH, 2019), tendo realizado diversas ações voltadas à divulgação do trabalho da instituição.

Projeto Aurora e a causa animal

Ao longo do desafiador ano de 2020, o Projeto Aurora passou por uma mudança em seu contexto operacional. A experiência adquirida ao longo dos três primeiros anos permitiu perceber a amplitude de organizações não-governamentais atuantes em São Bento do Sul e região, com demandas múltiplas e de relevância equivalente às existentes na Rede Feminina de Combate ao Câncer. Assim, o projeto ensejou aplicar iniciativas pedagógicas de ensino, pesquisa e extensão que promovessem o empreendedorismo social, tendo como instituição parceira a Associação Protetora de Animais (APA), de São Bento do Sul. A APA foi constituída em 2007, sem fins econômicos, de caráter organizacional, filantrópico, assistencial, recreativo e educacional, e conta com o trabalho de 14 voluntários cujas ações envolvem, dentre outros aspectos: ações de educação e conscientização acerca dos direitos dos animais, mutirões de castração e atendimentos clínicos, resgate de animais debilitados, promoção de eventos de adoção, além de campanhas de conscientização e incentivo à adoção, arrecadação de ração e medicamentos aos animais atendidos, etc.

A atuação da APA conta com o apoio da Vigilância Sanitária municipal no que se refere ao atendimento a emergências – ou seja, animais abandonados e que estejam em condições de saúde precárias, tenham sido atropelados ou possuam alguma enfermidade. Para além disso, no entanto, a Associação não recebe ajuda financeira do poder público: todas as ações e demandas são financiadas por meio de recursos arrecadados na forma de doações, eventos beneficentes, venda de artigos para animais e humanos, e na entrega pessoal dos voluntários e das famílias que cedem suas casas para lares temporários aos animais disponíveis para adoção.

Importante mencionar, contudo, que muito embora exista uma mobilização social em prol da causa defendida pela APA, o apoio ainda é insuficiente frente às demandas existentes. Para que se tenha uma ideia, por mês, são quase 500 denúncias e pedidos de ajuda, e há pelo menos 300 animais aguardando vaga/recursos para castração. Infelizmente, o abandono de animais ainda é uma prática recorrente, movido pelas recessões econômicas, desemprego e, sobretudo, pela falta de informação de muitas pessoas e do senso pessoal quanto à posse responsável de um animal. Como o abandono é diário e poucas cidades possuem planejamento previsto por lei para a vacinação e castração de animais de rua, além do encaminhamento para adoção, constata-se que, na maioria dos municípios brasileiros, há um aumento populacional de cães e gatos, levando à propagação de possíveis zoonoses, o que torna o assunto também um caso de saúde pública (CORDEIRO, 2017). E na cidade de São Bento do Sul isso não é diferente!

Para além disso, enquanto articulação das ações desenvolvidas pela APA e o escopo do empreendedorismo social, é relevante mencionar que o Brasil passa por um momento ímpar no que se refere à percepção e à sensibilidade relativas aos animais de estimação. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em junho de 2015, Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) com dados coletados no ano de 2013. O resultado evidencia a grande importância dos animais na vida cotidiana dos brasileiros: em 2013, 44,3% dos domicílios do país possuíam pelo menos um cachorro, estimando-se a população de cães em 52,2 milhões. Com relação à presença de gatos, 17,7% dos domicílios possuíam pelo menos um. A imprensa deu destaque à pesquisa, ressaltando que o resultado revelava existirem mais cachorros do que crianças nos domicílios brasileiros, já que o número de crianças somava 44,9 milhões. Essa realidade vem acompanhada do crescimento impressionante dos negócios voltados para tal segmento. A Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), em balanço divulgado sobre o ano de 2015, informou que o setor lucrou nada menos do que 18 bilhões de reais, registrando crescimento de 7,6% em relação a 2014 (OSTOS, 2017). Neste sentido, compreende-se que a inserção dos acadêmicos em atividades sociais relacionadas a este contexto pode suscitar inovações tanto em termos do próprio empreendedorismo social quanto despertá-los para oportunidades de negócios emergentes.

Além disso, cumpre mencionar os diversos benefícios gerados ao ser humano pela presença e companhia de animais como cães e gatos. Estudos recentes apontam para os seguintes benefícios: (a) efeitos psicológicos: diminui depressão, estresse e ansiedade; melhora o humor; (b) efeitos fisiológicos: menor pressão arterial e frequência cardíaca, maior expectativa de vida, estímulo a atividades saudáveis; (c) efeitos sociais: socialização de criminosos, idosos, deficientes físicos e mentais; melhora no aprendizado e socialização de crianças. O desenvolvimento da relação entre o ser humano e o animal de companhia conseguiu produzir uma mudança comportamental importantíssima na sociedade, que passou a cultivar vários hábitos, tais como: menor número de filhos e mais recursos em geral; conferir ao animal de companhia o status de membro da família, que passa a viver mais dentro de casa do que fora; o animal de companhia ganha seu espaço; está previsto no orçamento familiar e passa a ser assistido na vida e na morte (SANTANA et al., 2004). Tais fatores, cuja relevância é inegável, são potenciais consequências da realização do Projeto Aurora junto à Associação Protetora de Animais de São Bento do Sul.

Assim, amparando-se na experiência adquirida ao longo dos primeiros anos de desenvolvimento do Projeto Aurora, e levando-se em consideração as metas e iniciativas tidas como mais bem sucedidas, o escopo do projeto para o ano de 2020 previu novamente a realização de um calendário, mas desta vez tendo como ênfase os animais resgatados pela APA. A opção por reeditar uma meta envolvendo o calendário possui múltiplas justificativas, mas destacam-se duas: (1) quanto às contribuições para a instituição do terceiro setor parceira, é uma ação com resultados reais e significativos, especialmente em termos dos recursos financeiros tão escassos para ONGs como a APA; e (2) o desenvolvimento de um calendário demanda atuação em frentes diversas, envolve inúmeros obstáculos das mais variadas ordens, desafiando os estudantes que, de forma bastante prática, exercitam e desenvolvem as competências ensejadas. Desta forma, a seguir será apresentada a meta, sua metodologia e os resultados alcançados.

Meta: Planejar e executar o projeto de um calendário, envolvendo os animais atendidos pela Associação Protetora dos Animais de São Bento do Sul. Tal calendário deverá representar, simultaneamente: (i) um mecanismo de sensibilização da comunidade local em relação à causa, por apresentar as histórias de animais abandonados, resgatados, reabilitados e reinseridos no convívio social através da adoção; e (ii) por meio de sua comercialização, uma fonte de arrecadação de recursos financeiros tão necessários às atividades da entidade.

Metodologia e Resultados: Para a execução do projeto do calendário, foram identificadas as seguintes atividades centrais: (1) obtenção de recursos financeiros para viabilizar a impressão dos calendários e, assim, gerar à APA um resultado líquido sobre suas vendas; (2) a realização das fotos a serem utilizadas no calendário; (3) a diagramação do calendário em si e sua encomenda junto a uma gráfica previamente definida. Todas essas atividades foram acompanhadas e coordenadas por bolsistas do projeto, com o apoio da professora coordenadora e contando com o auxílio de toda a equipe do Projeto Aurora.

Dessa forma, em 10 de agosto de 2020, foi realizada uma reunião de toda a equipe, por meio da plataforma MS Teams, para discussão dos propósitos e definição das responsabilidades ao longo do processo. Cada estudante pôde contribuir com ideias e indicar com quais atividades teria melhores condições de contribuir, levando em consideração as ações centrais supramencionadas.

Assim, inicialmente, foram realizados orçamentos, em diversas gráficas. para a impressão de 1.000 unidades do calendário, a fim de que se tivesse clareza quanto ao valor a ser arrecadado para cobrir os custos. A intenção consistia em arcar com as impressões, para que a venda dos calendários representasse uma entrada líquida de recursos à APA. As características definidas para as cotações foram as seguintes: calendário de mesa com 7 lâminas, com suporte, tamanho 15x20cm, com wireo-o branco, vinco, papel tríplex 350 gramas, cor 0x0, miolo papel couche brilho 150 gramas, 4x4 cor. Dessa forma, foram levantados orçamentos que variaram de R$2.490 a R$3.950, por 1.000 unidades impressas.

Com base nos valores orçados, definiu-se como meta a arrecadação de R$ 3.000, a fim de viabilizar a impressão das 1.000 unidades, e um eventual saldo remanescente seria repassado em espécie à APA. Para obtenção destes valores, a equipe do Projeto Aurora foi mobilizada, buscando apoio de pessoas físicas e jurídicas, com base nos seguintes critérios:

  • Pessoa Jurídica:

    1. - Modalidade APOIADOR: contribuições entre R$50 e R$299. Como contrapartida, inserção da logomarca em página específica ao final do calendário;

    2. - Modalidade PATROCINADOR: contribuições a partir de R$300. Como contrapartida, inserção da logomarca em todas as páginas do calendário;

  • Pessoa Física: não há limites mínimos ou máximos de contribuição.

Para legitimar o processo de busca pelo suporte financeiro ao calendário, a coordenação do Projeto Aurora emitiu um ofício, impresso em papel timbrado da Univille e assinado pela responsável. Ao final do processo de captação de recursos, foram obtidos R$2.200 com apoiadores, patrocinadores e doações de pessoas físicas.

Como esse valor não era suficiente para imprimir as 1.000 unidades do calendário, os bolsistas entraram em contato com a gráfica que havia apresentado o menor valor de orçamento, representado por R$ 2.490. Propôs-se que a gráfica concedesse um desconto de R$300, passando a ser considerada também patrocinadora do projeto, uma proposta que foi prontamente aceita. Assim, o valor levantado foi suficiente para a impressão das 1.000 unidades, conforme planejado inicialmente.

Para a realização das fotos que compõem o calendário, definiu-se que a estudante Julienne Raíssa Gumbowski, que além de bolsista do Projeto Aurora é também fotógrafa, seria a responsável pela realização das imagens, concedendo seu estúdio fotográfico para isso. Realizou-se, então, contato com a presidente da APA, a fim de que fossem definidos os animais que seriam fotografados, bem como a data mais conveniente para a realização das fotos. A Associação estabeleceu como critério para a escolha dos cães que se tratasse de animais sob os cuidados da APA e que estivessem disponíveis para adoção. Muitos estavam em lares temporários e foi necessário mobilizar também esses tutores para que a sessão de fotos se tornasse possível.

Todos os cachorros escolhidos pela presidente e voluntários da APA para aparecerem no calendário têm sua história contada para os acompanhantes da instituição em suas redes sociais. A escolha foi feita para aparecerem aqueles que estão há bastante tempo sob cuidados da organização, aqueles que têm alguma deficiência – e por isso difíceis de serem adotados – ou aqueles que são idosos.

As fotos foram agendadas e realizadas no dia 4 de outubro de 2020. Para ter um diferencial e as fotos não ficarem iguais e monótonas, entrou-se em acordo com todos os integrantes do Projeto Aurora que as fotos então seriam feitas com uma temática mensal, cada mês representando uma data comemorativa, sendo elas:

  • Janeiro: férias;

  • Fevereiro: início das aulas;

  • Março: Dia da Mulher;

  • Abril: Páscoa;

  • Maio: Dia das Mães;

  • Junho: início do inverno;

  • Julho: festa julina;

  • Agosto: Dia dos Pais;

  • Setembro: aniversário de São Bento do Sul;

  • Outubro: Dia das Crianças;

  • Novembro: Proclamação da República; e

  • Dezembro: Natal.

No dia da realização das fotos, os bolsistas e a fotógrafa se programaram junto a voluntários da APA para organizarem a decoração e levarem os animais escolhidos até o local marcado. Foram escolhidos 12 cachorros para fazerem parte do calendário, todos sob tutela da instituição ou em lar temporário voluntário. Organizou-se o espaço e o fluxo de animais/ tutores, a fim de se evitar aglomeração e manter as condições de distanciamento social e demais cuidados necessários em função da pandemia da Covid-19.

O calendário foi então diagramado com as fotos registradas e tratadas, com a inserção da logomarca dos realizadores, patrocinadores e apoiadores, e o resultado pode ser observado na Figura 2. Foi solicitada a impressão das 1.000 unidades, com data de entrega dos materiais para 04/12/2020. Os calendários foram comercializados pela APA pelo valor de R$10 a unidade, podendo ser adquiridos junto aos voluntários da instituição, nos eventos promovidos por ela e também com os integrantes do Projeto Aurora. Em aproximadamente 10 dias, todos os calendários já tinham sido vendidos, resultado que surpreendeu e emocionou a todos os envolvidos.



Figura 2 – Lâminas do calendário desenvolvido pelo Projeto Aurora para a APA de São Bento do Sul
Fonte: Projeto Aurora (2020)

O desenvolvimento do calendário, dentre outras iniciativas em prol da APA de São Bento do Sul, suscitaram o desenvolvimento de um TCC do curso de Administração da Univille (SESTREN, 2020). Além disso, o projeto foi socializado com a comunidade acadêmica e local por meio de vídeo no canal Univille Play, mantido pela instituição no Youtube – para conhecer com mais detalhes as ações e o próprio resultado final do calendário, basta acessar o seguinte link: https://bit.ly/39IM1d2.

Considerações finais

As atividades realizadas no Projeto Aurora viabilizaram uma integração efetiva entre ensino, pesquisa e extensão, pilares fundamentais da estrutura universitária, na medida em que as ações perpassaram a prática docente em sala de aula, configurando-se como método ativo de ensino. O projeto viabilizou, ainda, a mobilização de alunos dos mais diversos cursos do campus são-bentense da Univille, por vezes de forma simultânea, firmando o caráter multidisciplinar da proposta. Para além disso – e talvez até mesmo mais relevante – o Projeto Aurora impactou os acadêmicos envolvidos de uma forma ímpar: a solidariedade demonstrada, o efetivo engajamento com as causas envolvidas e com as atividades propostas, e a emoção demonstrada por diversas ocasiões sinalizam a importância do projeto enquanto mecanismo gerador de uma formação profissional abrangente e humanizada, que habilita os discentes para o exercício profissional e para a prática da cidadania, com incentivo ao voluntariado e sensibilização para causas sociais críticas.

Além disso, a inclusão de vivências relativas ao empreendedorismo social fomenta o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, competências e posturas diversas, apontadas por Oliveira (2004) e apresentadas na introdução desta proposta, e que, quando analisadas de forma integrada, consistem em elementos necessários a qualquer área em que se queira fazer a diferença. No cômputo geral, compreende-se que o objetivo geral estabelecido para o Projeto Aurora foi cumprido de maneira satisfatória. Da mesma forma, ao relatar os pressupostos, as questões metodológicas e alguns dos principais resultados do projeto ao longo de sua execução, compreende-se que o objetivo deste artigo também foi alcançado com êxito.

Por fim, destaca-se que o Projeto Aurora não foi encerrado em 2020, tendo continuidade ao longo de 2021 – e potencialmente enquanto sua operacionalização for viável. Enseja-se que o relato aqui exposto possa inspirar iniciativas semelhantes, bem como contribuições às autoras que permitam melhorar o desenvolvimento deste projeto e de outras iniciativas extensionistas.

Referências

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