Artigos
AÇÕES EXTENSIONISTAS, NA ÁREA DA SAÚDE, DE FORMA REMOTA: RELATO DE EXPERIÊNCIA
AÇÕES EXTENSIONISTAS, NA ÁREA DA SAÚDE, DE FORMA REMOTA: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Revista Conexão UEPG, vol. 17, núm. 1, pp. 01-12, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Recepción: 13 Julio 2021
Aprobación: 05 Octubre 2021
Resumo: Relato de experiência que descreve desafios e aprendizados advindos da migração das ações de um projeto de extensão para o formato remoto, durante a Pandemia Covid-19, que aconteciam presencialmente em Centros de Educação Infantil (CEI). Foram elaborados vídeos sobre saúde, educação e cidadania destinados a crianças, pais e professoras dos CEI, os quais contemplam as demandas apontadas pelas diretoras em reuniões conjuntas de planejamento e avaliação. Nesse processo, surgiram desafios inerentes à busca de ferramentas, apropriação de suas operacionalizações, desenvolvimento das comunicações verbais e não verbais, utilização de linguagem clara e capacidade de síntese. Verificou-se que tanto as ações extensionistas presenciais quanto as que ocorrem a distância possuem pilares em comum, que incluem a dedicação docente e discente. Constatou-se que as tecnologias de comunicação são relevantes, porém são indispensáveis pessoas que as desenvolvam e estabeleçam fluxos para que as atividades extensionistas cumpram o seu papel.
Palavras-chave: Relações Comunidade-Instituição, Recursos Audiovisuais, Educação Superior, Pandemias.
Abstract: This is a university outreach experience report that describes challenges and learnings arising from the migration of actions to the remote format in an outreach project during the Covid-19 pandemic, which, until then, took place onsite at two Early Childhood Education Centers. Videos on health, education and citizenship were produced for children, parents and nursery teachers, which address the demands identified by the principals in joint planning and evaluation meetings. In this process, challenges arose inherent in the search for computing tools, appropriation of their operationalizations, development of verbal and non-verbal communications, use of clear language and synthesis capacity. Our results revealed that both the onsite outreach actions and those occurring remotely have common pillars, which include the dedication of teachers and students. Communication technologies were seen to be relevant, however, people who develop and establish flows are essential so that the outreach activities really fulfill their role.
Keywords: Community-Institutional Relations, Audiovisual Aids, Higher Education, Pandemics.
Introdução
Ações extensionistas (AE) dizem respeito ao fazer, ensinar e aprender de forma compartilhada e contextualizada, a realidade dos locais onde as ações acontecem. Implicam na vivência e no atendimento das demandas existentes e devem promover melhorias nas condições de vida das diversas comunidades. Em momentos atípicos, como os que acontecem em uma Pandemia, as AE devem buscar alternativas viáveis para cumprir o seu papel da melhor forma possível.
Nesse contexto, as AE presenciais ou as ações extensionistas a distância (AED) necessitam de avaliações e planejamentos sistemáticos entre os atores envolvidos em todo processo. Faz-se necessário agregar pessoas em torno de um diálogo franco, verbalizar expectativas e intencionalidades para que, juntas, possam refletir e compreender as potencialidades bilaterais dessa prática (CODATO et al., 2017a). Importante destacar que também requerem inovação, readequação e resiliência, principalmente em situações atípicas e imprevistas, como a que acontece durante a Pandemia da Covid-19. Necessitam de envolvimento e trabalho conjunto entre todos os envolvidos, sempre permeados por escuta qualificada, a qual pode ocorrer por meio de encontros presenciais ou com utilização de tecnologias de informação e comunicação (TICs).
Mas como realizar as AE que aconteciam presencialmente em um momento de Pandemia, em que isolamento e distanciamento social são indispensáveis para mitigar a transmissão e diminuir o número de casos? Como realizar atividades em locais em que as pessoas não mais o frequentam? Como adaptar-se a essa dificuldade e continuar realizando as ações do projeto de extensão de forma efetiva e assertiva em benefício da população?
Frente a esse cenário, o caminho possível é a reorganização e realização de atividades extensionistas de forma remota. Silva et al. (2020) destacaram que as diferentes mídias sociais como WhatsApp®, Instagram®, YouTube® e Google Meet® foram fundamentais para a confecção e divulgação de cards, folders e vídeos para profissionais e comunidade. Segundo os autores, por meio das mídias sociais, as ações extensionistas aconteceram de forma significativa e permitiram a manutenção do cuidado com a comunidade atendida (SILVA et al., 2020).
Faria et al. (2020) produziram materiais educativos e autoexplicativos sobre saúde bucal e Covid-19 por meio de banners, cartazes, imagens e vídeos de curta metragem. Os banners foram fixados em uma Unidade Básica de Saúde e divulgados nas mídias sociais: Instagram®, YouTube® e WhatsApp®, assim como os demais informativos. Esses materiais foram produzidos com o auxílio do Microsoft® PowerPoint®, Canva® e o Wondershare Filmora®. Para os autores, as mídias sociais favorecerem a interação entre discentes, docentes e a população e proporcionam o compartilhamento de conteúdo educativo em saúde para o enfrentamento da Covid-19, em meios virtuais frequentemente acessados pela população em geral (FARIA et al., 2020).
Oliveira et al. (2021), como alternativa para a manutenção das AED, elaboraram flyers com temáticas referentes a educação em saúde mental e pandemia. O processo de divulgação utilizado ocorreu, quinzenalmente, por meio do WhatsApp®, Facebook®, Instagram® e outras mídias sociais. Para elaboração dos flyers, utilizaram o Canva® e o Microsoft® Powerpoint®. Segundo os autores, o uso das redes sociais amplifica o alcance das AE desenvolvidas, aproxima Instituição de Ensino Superior (IES) e comunidade e, sobretudo, corrobora para a ampliação do acesso à informação segura, baseada em evidências (OLIVEIRA et al., 2021).
Dessa forma, o presente trabalho tem por objetivo relatar a experiência do projeto de extensão “Ações de Educação em Saúde e de Educação Continuada para Profissionais do Sistema Único de Saúde”, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em relação à readaptação, os desafios e os aprendizados advindos da readequação de suas atividades durante a Pandemia da Covid-19, que até então aconteciam de forma presencial.
O processo
O presente projeto foi criado no ano de 2018 e está vinculado ao Departamento de Medicina Oral e Odontologia Infantil. Com relação aos integrantes, conta com a participação de 15 (quinze) estudantes do terceiro ao décimo período do Curso de Odontologia e 4 (quatro) docentes da área de Saúde Coletiva.
Antes da Pandemia da Covid-19, as ações do projeto eram desenvolvidas presencialmente em dois Centros de Educação Infantil (CEI), espaços filantrópicos e conveniados ao município de Londrina-PR, localizados em área de risco social e infraestrutura precária. As ações de educação em saúde eram destinadas a pais, crianças de 0 (zero) a 6 (seis) anos e professores vinculados aos CEI.
Os temas e cronogramas das ações eram planejados a partir das necessidades dos CEI, em conjunto entre a coordenadora do projeto, as diretoras e pedagogas dos CEI. Periodicamente, também havia reuniões presenciais entre docentes e estudantes integrantes do projeto para planejamento e operacionalização das ações.
No início da Pandemia, as AE do projeto foram paralisadas, pois não se sabia a dimensão e as implicações do que estava acontecendo e, principalmente, porque não se enxergava que caminhos poderiam ser seguidos. Os CEI e a IES estavam sem atividades presenciais.
Posteriormente, considerando a continuidade e o agravamento da Pandemia da Covid-19, ficou clara a necessidade e, sobretudo, a vontade de continuidade das ações do projeto à distância. Assim, foram realizados encontros virtuais entre as diretoras dos CEI e a docente coordenadora do projeto para entendimento da realidade e para que pudessem descobrir o que o projeto poderia realizar de forma remota, ou seja, ações que de fato fossem relevantes para a população. Nessa oportunidade, vislumbrou-se a possibilidade de o projeto elaborar vídeos, os quais seriam encaminhados para as diretoras, que encaminhariam para as famílias e professoras. Nesse momento, alguns temas já foram propostos pelas próprias diretoras, tais como: “ser professor em época de Pandemia” e “cuidados com a saúde”.
Num segundo momento, houve reunião virtual entre estudantes e docentes participantes do projeto. Nesse encontro, conversou-se sobre a realidade e os desafios presentes nas AED. Foram relatadas as principais demandas dos CEI e sugeridos meios e estratégias, dentro da viabilidade do projeto, para que fossem dadas respostas positivas a essas demandas. Nesse momento, surgiram outros temas e/ou subtemas que poderiam ser desenvolvidos em cada um dos vídeos, como: “lavagem de mãos” e “higiene corporal e bucal”. Outros temas foram surgindo ao longo do processo, tais como: “o valor do sorriso”; “amor”; “saúde mental da criança” e “fazer bom uso do tempo com os filhos” (Quadros 1 e 2).
Para operacionalização dessas atividades, os estudantes dividiram-se, por afinidade, em duplas e trios e cada subgrupo foi responsável por desenvolver um ou mais temas. Após essa escolha, os estudantes realizaram estudo prévio para aprofundar seus conhecimentos acerca das temáticas e apropriarem-se das informações que seriam compartilhadas. Além disso, cada subgrupo deveria socializar com os demais membros do grupo, por meio do aplicativo WhatsApp®, os conhecimentos recém adquiridos e considerar as demais opiniões expostas.
Após essa etapa, cada subgrupo de estudantes foi encarregado, primeiramente, pela elaboração da versão inicial dos roteiros dos vídeos. Na sequência, os estudantes compartilhavam esse produto com a coordenadora docente para troca de ideias sobre possíveis ampliações de discussões, análise e formas de abordagens dos objetivos, linguagem utilizada e da comunicação não verbal, para que a mensagem ficasse clara para atingir os objetivos daquele vídeo. Em seguida, as alterações/sugestões propostas eram trabalhadas pelos estudantes, reenviadas para a coordenadora até a chegada da versão final do roteiro.
Cabe esclarecer que não foi adotado cronograma preestabelecido para orientação e acompanhamento docente das atividades dos subgrupos. Todos os processos foram permeados por constantes comunicações via WhatsApp® e os encontros/orientações aconteciam de acordo com as necessidades e realidade de cada trabalho. Importante destacar que as comunicações, avaliações e sugestões das diretoras em relação aos vídeos produzidos aconteceram predominantemente via WhatsApp®, Google Meet® e por meio de ligações telefônicas tradicionais.
Nesse processo de elaboração dos roteiros, um ponto bastante considerado foi a necessidade de clareza da comunicação nos vídeos. Para tal, buscou-se utilizar uma linguagem compreensível, adequada e objetiva para que fosse compreendida e despertasse o interesse de apropriação do conteúdo da mensagem pelas pessoas que o assistissem.
Logo após essa etapa, era iniciado o processo de criação dos vídeos. Nesse momento, cada subgrupo pesquisava e escolhia aplicativos e programas de preferência, tais como: Microsoft® PowerPoint®, Canva® e Vyond®. Todos os vídeos criados foram permeados de dinamismo, animações, edição, músicas autorais e/ou a própria imagem dos estudantes.
Desse modo, foram elaborados 11 (onze) vídeos com duração máxima de 3 (três) minutos. Alguns vídeos foram produzidos com temas ligados à saúde geral e bucal (Quadro 1) e outros com temas ampliados e variados (Quadro 2).
| Temática do vídeo | Público-alvo | Intencionalidades |
| Hábitos alimentares | Crianças | Adoção de hábitos saudáveis |
| Cuidados com a higiene bucal dos bebês | Pais e cuidadores | Promoção de Saúde |
| Escovação dentária para as crianças | Crianças | Mostrar o valor e estimular a prática diária |
| Traumatismo dento-alveolar | Pais e cuidadores | Como agir caso aconteça |
| Higiene corporal | Pais e cuidadores | Promoção de Saúde |
| Higiene pessoal | Crianças, pais e cuidadores | Promoção de Saúde |
| Temática do vídeo | Público-alvo | Intencionalidades |
| Ser professor em época de Pandemia | Professores | Motivacional |
| O valor e a importância do sorriso | Pais, cuidadores e professores | Motivacional |
| Amor presente na atenção para as pessoas | Pais, cuidadores e professores | Atenção e cuidado compartilhado |
| Saúde mental da criança | Pais e cuidadores | Entendimento ampliado de saúde |
| Fazer bom uso do tempo em casa com as crianças | Pais e cuidadores | Pais e cuidadores auxiliarem e estimularem o aprendizado das crianças em casa |
Após a finalização de cada vídeo, quinzenalmente, a docente coordenadora disponibilizava os vídeos para as diretoras dos CEI por meio do aplicativo WhatsApp®. Juntamente com cada vídeo, também era compartilhado um pequeno texto motivacional para despertar o valor e aplicação de cada tema. As diretoras dos CEI opinavam sobre os conteúdos dos vídeos e eram responsáveis por compartilhá-los, via WhatsApp®, para os pais e cuidadores das crianças. Uma limitação dessa AE é que as pessoas foram “receptoras de um produto pronto” e não se sabe como foi a repercussão desses vídeos junto ao público-alvo. Ou seja, não foi possível estabelecer uma relação de diálogo, troca de saberes e interação “de mão dupla” entre a universidade e a população. Só foi possível estabelecer essa interação dialógica com as diretoras que participaram do planejamento e opinavam sobre os temas e conteúdo trabalhados.
O processo de elaboração dos vídeos nessa atividade extensionista possibilitou o desenvolvimento da empatia e amorosidade, até em função do momento delicado que a humanidade atravessa em uma Pandemia, porque sempre se buscava compreender a realidade do outro, fazer o que era necessário e considerado melhor para o público alvo, sempre a partir dos relatos das diretoras. Conforme Rios et al. (2019), a empatia é essencial em AE, pois permite a aproximação com a comunidade, o desenvolvimento da capacidade de escuta e de se colocar no lugar do outro, reconhecendo assim seu papel de cidadão e agente transformador da sociedade (RIOS et al., 2019). Interessante também que alguns dos temas trabalhados, como o valor do sorriso, do amor e da saúde mental foram benéficos para os próprios integrantes do projeto, pois cada um tinha seus desafios a serem trabalhados e superados.
Nesse contexto, as AE no processo de formação do estudante do ensino superior auxiliam o entendimento do cuidado humanizado, a formação de indivíduos críticos e com capacidade de refletir, transformar e recriar o seu trabalho, a partir da realidade vivenciada (SELAU; KOLAVESKI; PAIM, 2020). Para Rios et al. (2019), a vivência em AE possibilita maior contato com a realidade, o que estimula a formação de profissionais conscientes de seus papeis e de suas ações de cidadania (RIOS et al., 2019).
As readequações experienciadas nesse período de Pandemia remeteram a uma missão desafiadora e, concomitantemente, indispensável e favorável para o ensino-aprendizagem, sendo um caminho adicional para o rompimento do ensino convencional e o fortalecimento do ensino-aprendizagem contemporâneo (OLIVEIRA et al., 2020). A elaboração de vídeos é um meio de cuidado e da atenção à saúde.
É fato que a Pandemia da Covid-19 acelerou a inovação e exacerbou os desafios para adequar os processos educativos a esse novo e complexo contexto. As metodologias ativas nesse período possibilitaram a busca por melhores práticas educacionais baseadas em novas competências emergentes, necessárias e não vinculadas essencialmente em conteúdo, tendo o estudante como centro do processo educativo (TOMAZ, 2020). As referidas metodologias visam à promoção dos estudantes como protagonistas em seus processos de ensino-aprendizagem, possibilitam meios para que os estudantes possam guiar o seu desenvolvimento educacional. Nelas, o professor atua como um facilitador e não o detentor do saber. Estudantes e docentes devem ser sujeitos-autores dos processos de ensinar e aprender e compartilhar atribuições (CHARCZUK, 2021), situação desafiadora, porém estimuladora para a relação horizontal, o trabalho em equipe, aprendizados mútuos e tomada de decisões bilaterais.
O uso de metodologias ativas de aprendizagem que se adequem a essa forma de educação deve estimular e motivar os estudantes a se engajarem no processo de ensino-aprendizagem de forma significativa, colaborativa e serem capazes de gerar conhecimento para a população (TOMAZ, 2020). A EU proporciona expansão do espaço de aprendizagem dos acadêmicos, viabiliza o compartilhamento de saberes e desenvolve competências para atividade interprofissional, humana, autônoma e ética (FAIOLLA et al., 2019). Além disso, métodologias ativas, baseadas na problematização, podem levar o estudante à produção do conhecimento, principalmente com a finalidade de solucionar desafios (CALDARELLI, 2017). Nesse sentido, o emprego de metodologias ativas oportuniza ao estudante familiarizar-se com situações atípicas, críticas e adversas e, mesmo assim, ser capaz de liderar, assumir o protagonismo e ter voz ativa para desenvolver estratégias criativas e inovadoras frente ao cenário vivenciado.
Discussão, aprendizados e desafios
As ações extensionistas à distância representaram uma forma de “se estar presente”, de ensinar e aprender, de entender e atender demandas gerais e específicas da população. Demandou, necessariamente, a identificação e a postura ativa frente às diferentes realidades e demandas existentes.
É fato que os vídeos são instrumentos dinâmicos, interativos e favoráveis para o trabalho em saúde, tendo em vista o seu poder de compartilhamento e de alcance de informações confiáveis. São ferramentas facilitadoras na atuação de profissionais da saúde em suas práticas educativas com a comunidade (RODRIGUES-JÚNIOR et al., 2017). Provocam impactos na saúde por meio do consumo das informações compartilhadas, estabelecem vínculos sociais e, potencialmente, refletem comportamentos, hábitos e condições de saúde da população (FRANÇA et al., 2019).
Importante destacar que a utilização dos aplicativos e dos programas de edição e elaboração de vídeo são fundamentais para o desenvolvimento das AED. Conforme Serrão (2020), há novos desafios e percalços de como pensar a extensão frente às novas restrições e as ferramentas digitais tornaram-se os relevantes meios para mobilização, já que promovem articulação e compartilhamento dos resultados alcançados (SERRÃO, 2020).
A utilização de comunicação verbal e não verbal adequada aos objetivos de cada vídeo foi um dos grandes desafios dessa atividade extensionista, que demandou reflexões e pesquisas prévias sobre cada conteúdo a ser trabalhado. Segundo Rodrigues-Júnior et al. (2017), vídeos educativos são recursos audiovisuais que demandam dinamismo, planejamento, termos coloquiais, linguagem acessível e definições lúdicas (RODRIGUES-JÚNIOR et al., 2017). As comunicações verbal e não-verbal são interligadas e favorecem a construção cultural do conhecimento. A ausência e/ou uso inadequado dessas comunicações podem resultar em sérias implicações sobre a construção que pode ser feita desse conhecimento e que, inevitavelmente, interfere em sua compreensão, transmissão e recriação (AMORIM; SILVA, 2014).
As comunicações verbais e não-verbais são ferramentas que potencializam a atuação e a prática em saúde, pois provocam mudanças significativas por meio da promoção e produção do cuidado entre comunidade-profissionais e tonificam a relação de trabalho em equipe (TORRES et al., 2019). Nesse contexto, essa associação potencializa e facilita a incorporação dos asberes no cotidiano dos indivíduos e possibilita a futura replicação para a comunidade.
Segundo Rodrigues-Junior et al. (2017), é essencial que a linguagem utilizada seja condizente com o nível de conhecimento e compreensão de cada público-alvo. Ainda assim, ratificam que termos científicos e frases complexas devem ser substituídos por linguagem popular, definições lúdicas e de fácil entendimento da população. Adaptar a linguagem e o vocabulário representa uma estratégia fundamental e indispensável para trabalhar com diversos públicos-alvo, em especial o público infantil (RODRIGUES-JÚNIOR et al., 2017). A linguagem deve ser concisa, conter informações, mas também ser criativa, segura e bem explicada (FAIOLLA et al., 2019). Logo, essa etapa exigiu dos estudantes muita reflexão e senso crítico para a gravação dos vídeos com falas claras, objetivas, acessíveis à singularidade dos indivíduos e que orientassem suas práticas e atitudes.
Outro ponto desafiador dessa experiência extensionista diz respeito ao aprender a aprender. Os estudantes, embora adeptos e experts em tecnologia e mídias sociais, não possuíam domínio e familiaridade de aplicativos para elaboração e edição de vídeos. Esse momento requereu estudo, entendimento da funcionalidade dos programas, busca ativa de possiblidades e ferramentas para o desenvolvimento dos vídeos. Além disso, opções já utilizadas pelos estudantes como o Microsoft® Powerpoint® foram empregadas com outras finalidades.
De acordo com Codato et al. (2017b), para o estudante, o aprender a aprender representa uma possibilidade para o aprendizado ativo, para a inovação e a experiência do novo e que, a partir disso, tenha novas ideias, busque soluções e/ou alternativas criativas e proativas. Destacam que a postura ativa, a curiosidade e criatividade do estudante são aberturas e atitudes favorecedoras da formação. Permitem que os estudantes sejam proativos, que ousem e libertem o imaginário para o processo ensino-aprendizagem (CODATO et al., 2017b).
De acordo com Gargallo et al. (2016), os estudantes devem ser capazes de aprender a aprender sempre, seja no intramuro da IES, na Extensão Universitária (EU) e na futura atividade profissional. Destacam que isso implica em tomada de decisões, consciência crítica, gerenciamento e controle das próprias habilidades e capacidades (GARGALLO et al., 2016). O aprender a aprender está vinculado ao desenvolvimento da compreensão verbal, das atitudes positivas, da motivação, da escuta ativa, do autoconhecimento e do trabalho em equipe (GUTIÉRREZ-TAPIAS, 2018).
Outro ponto desafiador na elaboração dos vídeos foi o desenvolvimento da capacidade de síntese aliada a uma linguagem de fácil comunicação. Nesse processo, surgiram dúvidas: como colocar o conteúdo de cada mensagem em menos de três minutos? O que é essencial para a compreensão? O que pode ser filtrado e o que pode ser cortado do vídeo? Tudo isso demandou reflexões, paciência, resiliência, entendimentos, senso crítico, muita criatividade e tomada de decisões assertivas e efetivas. Os vídeos forma trabalhados a partir de situações cotidianas que agregassem valor e gerassem repercussões positivas.
O uso do aplicativo WhatsApp® foi um facilitador para a interação e comunicação entre os estudante-docente, estudante-comunidade e comunidade-docente. De acordo com Paulino et al. (2018), o referido aplicativo possui potencial didático e educativo que que permite a fácil interação imediata, a fluidez do diálogo e a troca de informações. Os autores ainda destacam que o WhatsApp® pode ser amplamente utilizado e representa um espaço de interações que é dinâmico e que viabiliza o compartilhamento de informações (PAULINO et al., 2018).
Considerações finais
É evidente que a Pandemia da Covid-19 trouxe vários desafios para as atividades extensionistas. Houve necessidade de reflexões, criatividade e reajustes que geraram e demandaram aprendizados e superações de desafios. Uma limitação dessa experiência foi o fato de que ela não possibilitou interação dialógica com o público alvo, que recebeu um “produto pronto”, a partir das demandas apontadas pelas diretoras dos CEIs.
Outra limitação dessa atividade extensionista é o fato de ela não ter tido um planejámento prévio e bem detalhado. Iniciou-se sem adoção prévia de referenciais teóricos e de instrumentos de avaliação para ampararem as ações. Foram adotadas metodologias ativas que se mostraram possíveis, a partir de um cenário totalmente atípico e inesperado.
Para os docentes, estudantes e diretoras integrantes do projeto, ficou a vivência do quanto o aprender-aprender e o ensinar-aprender podem ser obtidos por diferentes formas. O processo de elaboração dos vídeos, escolha de temas, melhores formas de comunicação e recursos audiovisuais oportunizaram um aprendizado para todos os envolvidos. Permitiram fortalecer e desenvolver competências como: tomada de decisões, capacidade de síntese, protagonismo, reflexão, comprometimento, trabalho em equipe e criatividade.
Nessa experiência, verificou-se que tanto as ações extensionistas presenciais quanto as que ocorrem à distância possuem pilares em comum, que incluem a dedicação, envolvimento, atenção à saúde e postura ativa do docente e do discente, para além do cumprimento de mais uma demanda educacional. É evidente que as tecnologias de comunicação são relevantes, porém, são indispensáveis pessoas que as desenvolvam e estabeleçam fluxos para que as atividades cheguem até os públicos-alvo e os motivem a se apropriarem das informações.
Referências
AMORIM, R. K. de F. C. C. de; SILVA, M. J. P. da. Comunicação não verbal efetiva/eficaz em sala de aula: percepção do docente de enfermagem1. Texto & Contexto-Enfermagem, v. 23, n. 4, p. 862-870, 2014.
CALDARELLI, P. G. A importância da utilização de práticas de metodologias ativas de aprendizagem na formação superior de profissionais da saúde. Revista Sustinere, v. 5, n. 1, p. 175-178, 2017.
CHARCZUK, S. B. Sustentar a Transferência no Ensino Remoto: docência em tempos de pandemia. Educação & Realidade, v. 45, n.4, p. 109-145, 2021.
CODATO, L. A. B. et al. Estudantes, docentes e profissionais na atenção básica: coexistência segundo a fenomenologia heideggeriana. Trabalho, Educação e Saúde, v. 15, n. 2, p. 519-536, 2017a.
CODATO, L. A. B.; GARANHANI, M. L.; GONZÁLEZ, A. D. Percepções de profissionais sobre o aprendizado de estudantes de graduação na Atenção Básica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 27, n. 3, p. 605-619, 2017b.
FAIOLLA, F. de P. et al. Atividades educativas sobre armazenamento e descarte correto de medicamentos: relato de experiência com público infantil. Saúde em Debate, v. 43, n. 120, p. 276-286, 2019.
FARIA, M. H. D. et al. Relato de alunos de odontologia no enfrentamento à covid-19. Cadernos ESP-Revista Científica da Escola de Saúde Pública do Ceará, v. 14, n. 1, p. 118-122, 2020.
FRANÇA, T.; RABELLO, E. T.; MAGNAGO, C. As mídias e as plataformas digitais no campo da Educação Permanente em Saúde: debates e propostas. Saúde em Debate, v. 43, n. esp. 1, p. 106-115, 2019.
GARGALLO, B.; CAMPOS, C.; ALMERICH, G. Learning to learn at university. The effects of an instrumental subject on learning strategies and academic achievement/Aprender a aprender en la universidad. Efectos de una materia instrumental sobre las estrategias de aprendizaje y el rendimiento académico. Cultura y Educación, v. 28, n. 4, p. 771-810, 2016.
GUTIÉRREZ-TAPIAS, M. Estilos de aprendizaje, estrategias para enseñar. Su relación con el desarrollo emocional y" aprender a aprender". Tendencias pedagógicas, v. 31, p. 83-96, 2018.
OLIVEIRA, Z. M. et al. Estratégias para retomada do ensino superior em saúde frente a COVID-19. Revista Enfermagem Atual In Derme, v. 93, e020008-e020008, 2020.
OLIVEIRA, R. M. de et al. Saúde mental e a Covid-19: intervenções virtuais de educação em saúde para o enfrentamento da pandemia. Expressa Extensão, v. 26, n. 1, p. 675-696, 2021.
PAULINO, D. B. et al. WhatsApp® como recurso para a educação em saúde: contextualizando teoria e prática em um novo cenário de ensino-aprendizagem. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 42, n. 1, p. 171-180, 2018.
RIOS, D. R. D. S.; SOUSA, D. A. B. D.; CAPUTO, M. C. Diálogos interprofissionais e interdisciplinares na prática extensionista: o caminho para a inserção do conceito ampliado de saúde na formação acadêmica. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, v. 23, e180080, 2019.
RODRIGUES-JUNIOR, J. C. et al. Construção de vídeo educativo para a promoção da saúde ocular em escolares. Texto & Contexto-Enfermagem, v. 26, n. 2, e06760015, 2017.
SELAU, B. L.; KOVALESKI, D. F.; PAIM, M. B. Promoção da saúde de crianças e adolescentes em uma Organização da Sociedade Civil: refletindo sobre os valores e a formação profissional. Trabalho, Educação e Saúde, v.18, n. 3, e00303135, 2020.
SERRÃO, A. C. P. Em tempos de exceção como fazer extensão? Reflexões sobre a Prática da Extensão Universitária no Combate à Covid-19. Revista Práticas em Extensão, v. 4, n. 1, p. 47-49, 2020.
SILVA, D. A. et al. Ações do PET Odontologia UEFS em tempos de pandemia. Raízes e Rumos, v. 8, n. 1, p. 328-335, 2020.
TOMAZ, J. B. C. Educação na saúde em tempos de pandemia: desafios e oportunidades. Cadernos ESP-Revista Científica da Escola de Saúde Pública do Ceará, v. 14, n. 2, p. 7-9, 2020.
TORRES, G. M. C. et al. Comunicação não-verbal no cuidado com usuários hipertensos na Estratégia Saúde da Família. Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, v. 7, n. 3, p. 284-295, 2019.