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DIÁLOGO ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA UTILIZANDO A FOTOGRAFIA E A PINTURA PARA O ESTUDO DAS PAISAGENS DO SEMIÁRIDO NORDESTINO

DIALOGUE BETWEEN THEORY AND PRACTICE USING PHOTOGRAPHY AND PAINTING TO STUDY LANDSCAPES IN THE SEMI-ARID NORTHEAST

Raqueline Landim Nascimento
Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, Brasil
Raquel Landim Nascimento
Universidade Estadual Vale do Acaraú, Brasil
Antonia Vanessa Silva Freire Moraes Ximenes
Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, Brasil

DIÁLOGO ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA UTILIZANDO A FOTOGRAFIA E A PINTURA PARA O ESTUDO DAS PAISAGENS DO SEMIÁRIDO NORDESTINO

Revista Conexão UEPG, vol. 19, núm. 1, pp. 01-15, 2023

Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 23 Diciembre 2022

Aprobación: 10 Abril 2023

Resumo: Este trabalho trata-se de um relato sobre o uso de recursos didáticos como a fotografia e a pintura no ensino de Geografia e sobretudo para o estudo do Semiárido nordestino, com foco em suas paisagens. Pensando nisso foi elaborado um projeto de extensão com o tema “Semiárido vivo! Riqueza ameaçada”, que foi apresentado e realizado na escola de Referência em Ensino Médio EREM Carlos Pena Filho, localizada no município de Salgueiro-PE, tendo por público-alvo alunos do ensino médio. Metodologicamente foram realizados levantamentos bibliográficos sobre as temáticas centrais da pesquisa e atividades teóricas, práticas (fotografias e pinturas) e ainda atividade de campo em um ponto turístico do município de Salgueiro-PE. As práticas realizadas afirmaram a importância de se trabalhar com fotografias para o estudo da paisagem no ensino de Geografia e reforçaram a importância do estudo do Semiárido brasileiro.

Palavras-chave: Semiárido, Paisagem, Riqueza e Ameaças.

Abstract: This work is a report on the use of didactic resources such as photography and painting in the teaching of Geography and especially for the study of the semi-arid Northeast, focusing on its landscapes. Therefore, extradition project subject project/menu was prepared with the theme “semi-arid alive! Threatened Wealthiness”, which was presented and performed at EREM Carlos Pena Filho High School Reference, located in Salgueiro-PE municipality, with high school students as the target audience. Methodologically, bibliographic surveys were carried out on the central thematic of the research and theoretical and practical activities (photographs and paintings) as well as field activities in a Salgueiro-PE municipality tourist spot. The practices carried out stated the importance of the working with photographs for the study of landscape in Geography teaching besides reinforced the importance of studying the Brazilian semiarid region.

Keywords: Semi-arid, Landscape, Wealthiness, Threats.

Introdução

O Semiárido brasileiro está presente nos estados do Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e na porção Norte de Minas Gerais, representando 13,25% do território nacional, com 1.262 municípios incluídos em uma área de 1.128.697 Km², e 27.870.241 habitantes, (IBGE, 2017).

Embora seja uma região importante tanto quanto aos aspectos físicos, quanto aos culturais e sociais, o Semiárido ainda é pouco conhecido, sendo muitas vezes reduzido a estereótipos que o inferiorizam frente às demais regiões, representado como região de atraso, pobre, seca e sem recursos naturais. Um pensamento totalmente equivocado e que deve ser superado.

O Semiárido brasileiro dispõe de um bioma exclusivo do Brasil, a caatinga, com espécies endêmicas que se adaptaram, resistem e deixam as paisagens únicas e belas. Porém, o descaso e as atividades degradadoras vêm comprometendo de uma maneira muito significativa toda essa riqueza da região.

Cabe dessa forma buscar estratégias que promovam a divulgação e conscientização frente à necessidade da conservação do Semiárido. Essas devem ser pensadas sobretudo em ambientes educacionais, como as escolas. Nesse sentido tem-se a Geografia, como disciplina que trabalha com essa temática de forma crítica e contextualizada.

As práticas pedagógicas da Geografia escolar, sobretudo atualmente, estão centradas na análise da relação sociedade e natureza (FALCÃO SOBRINHO; COSTA FALCÃO, 2015), tendo em vista aprofundar o conhecimento a respeito dos territórios. Para tanto, é importante que o docente sempre busque usar diferentes recursos didáticos, pois estes são mediadores de conhecimento, que proporcionam aos alunos a compreensão do mundo e assim dar significado ao mesmo (BATISTA et al 2018).

Dessa forma, destacamos aqui a importância da utilização de recursos didáticos nas aulas de Geografia, uma vez que esses, associados à metodologia empregada pelo professor, podem proporcionar uma aproximação da temática estudada no caso o Semiárido nordestino, podendo assim, transformar as aulas em momentos significativos para o crescimento intelectual e pessoal dos alunos, uma vez que irão conhecer seu “lugar”.

Com o objetivo de aliar teoria e prática, foi pensada uma proposta de atividade voltada à extensão, cujo objetivo foi promover um ensino mais dinâmico e holístico da geografia do Semiárido nordestino, compreendendo a extensão como uma forma de aproximar a universidade do ensino básico (nesse sentido, com mestrandas e professores do mestrado em Geografia da Universidade Estadual do Vale do Acaraú-UVA), fazendo com que o conhecimento ultrapasse as salas de aula.

Nesse sentido, o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras de 2001, afirma que a extensão universitária se trata de:

Um processo educativo que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e a sociedade. A extensão é uma via de mão dupla com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará na sociedade a oportunidade da elaboração da práxis de um conhecimento acadêmico (FORPROEX, 2001)

Assim foi elaborado e aplicado um projeto com o tema “Semiárido vivo: riqueza ameaçada”, pensado para aplicação nas aulas da disciplina de Geografia, utilizando dois recursos didáticos: a fotografia e a pintura. O projeto foi apresentado e realizado na escola de Referência em Ensino Médio EREM Carlos Pena Filho, localizada no município de Salgueiro-PE, com um número em torno de 40 alunos do ensino médio (entre 15 e 17 anos, cursando 1°, 2° e 3° ano desse grau de ensino).

O projeto, metodologicamente, foi estruturado conforme a realização de aulas teóricas referentes à temática e ao local de estudo, no caso o município de Salgueiro-PE, e aulas mais práticas, com a utilização de dois recursos didáticos em especial, produzidos pelos próprios alunos, a fotografia e a pintura, que representassem a paisagem semiárida.

Dessa forma, esta proposta de estudo apresenta um relato sobre a importância do uso de recursos didáticos como a fotografia e a pintura no ensino de Geografia para o estudo do Semiárido nordestino, com foco em suas paisagens, com alunos do ensino médio.

Pintura, paisagem e fotografia e ensino de geografia

Conforme Panizza (2014 p.75) “antes mesmo de haver uma palavra para designar a paisagem, alguns artistas já pintavam em quadros um conjunto de coisas que hoje chamaríamos de paisagem”. Dessa maneira, foi por meio da pintura com suas cores, formas, sensações que a paisagem surge em sua essência, o que vem depois com o advento da fotografia a ser aprimorado.

O conceito de paisagem é muito antigo na Geografia. No período clássico esse foi um dos conceitos privilegiados (juntamente com o conceito de região). Nesse momento, se discutia o objeto da Geografia, assim como sua identidade no contexto das outras ciências (CORRÊA, 1995). A paisagem assim, era ligada ao gênero de vida, com o Possibilismo de Vidal de la Blache.

Nesse sentido, Cavalcanti (2019) ressalta que na Geografia, a paisagem tem sido tratada na concepção clássica, como parte de uma extensão territorial, em sua expressão de combinação de elementos físico-naturais, e em suas transformações sociais e culturais. De acordo com a autora, pela paisagem, grava-se a produção dos espaços ao longo do tempo, dando sentido ao sistema de objetos, pelas ações sociais. Ao ser assim significado, valorado, o conjunto de formas adquire função social, constituindo-se em espaço geográfico (CAVALCANTI, 2019).

Um conceito bastante conhecido de paisagem é o de Santos (2008, p. 67), que a define como: “Tudo o que nós vemos, o que nossa visão alcança. Esta pode ser definida como domínio do visível, aquilo que a vista abarca.” Atualmente a paisagem vem ganhando força nos estudos que se relacionam à Geografia Física e a Geografia da Percepção.

O período de nascimento da Geografia como ciência acaba coincidindo com a discussão do conceito de paisagem, assim como, com a autonomia de artistas sobre os temas a serem pintados, onde se destacam as pinturas das paisagens naturais, realizadas durante as expedições dos naturalistas ao novo mundo (MYANAKI, 2003).

Como a fotografia ainda não era utilizada, a pintura fazia o papel de representar o visível. Mas o desenvolvimento das técnicas fotográficas, a partir da segunda metade do século XX, fez com que a pintura voltasse a ter valor de reflexão, mais do que a informação, dando à fotografia esse papel (MENEZES, 1997). Todavia, a pintura até os dias atuais ainda desempenha um papel significativo quanto à representação de paisagens, sobre isso Ferraz (2001), afirma:

Desta feita, a paisagem representada numa pintura expressa as formas de se olhar o mundo a partir das condições históricas, culturais, políticas, éticas, estéticas, técnicas e tecnológicas que o pintor e o público estavam inseridos. Tal fato, portanto, permite-nos colher noções que, mesmo que a pintura não expresse a realidade em sua inteireza, auxilia a uma melhor compreensão da visão que os indivíduos e a sociedade possuíam de sua espacialidade em determinada época e lugar. (p. 154)

Dessa forma, compreende-se que a paisagem tem uma ligação muito forte com a pintura e com a fotografia (Falcão Sobrinho et al, 2019; Oliveira & Falcão Sobrinho, 2020; Oliveira et al, 2022), uma vez que essas são representações dos elementos que compõe essa paisagem, tanto físico, quanto culturais, ambas capturam a essência de um instante, sua beleza, suas mazelas, cores, sentimentos, fluxos e cotidiano. Esses recursos são essenciais ao ensino de Geografia e possibilitam uma visão holística dos conteúdos a serem trabalhados em sala de aula.

As técnicas e equipamentos voltados à fotografia evoluíram muito nas últimas décadas. Hoje é bem mais fácil o acesso à mesma, sobretudo devido aos celulares acoplados com câmeras. Uma parcela dos alunos tem acesso a essas tecnologias, o que acaba por influenciar no planejamento dos professores, que podem assim, incluir o uso desses como recursos didáticos em suas aulas. Sobre a importância do uso da fotografia pelos professores, Dantas (2007, p. 4) afirma que:

[...] o educador ao manusear as fotografias como fermento das práticas educativas, não vê somente a leitura que foi feita de um tempo, de uma pessoa, de um objeto. Compreende também, a topografia dos espaços, dos olhares. Se imiscui na trama explicita que secreta histórias indizíveis, reconhecendo o passado, o presente, mas também a transcendência como condição para projetar o futuro.”

Todavia é de extrema importância que alguns paradigmas relacionados ao uso da fotografia em sala de aula, sejam superados, como a mera ilustração de textos em livros didáticos, sem a mínima contextualização, assim como, com outros métodos tradicionais, que precisam dar lugar a novas metodologias com linguagens diferenciadas, dentre elas a visual.

De acordo com Silva et al (2017), a fotografia enquanto linguagem pode estimular a formação crítica do sujeito, pois aproxima o aluno dos fatos observados na imagem. Todavia, o professor enquanto mediador deve auxiliar na interpretação do que foi registrado e está sendo exposto, para que os elementos registrados possam ser problematizados em sala de aula. Assim, “trabalhar com a linguagem fotográfica nas aulas de geografia já não é uma novidade, mas possibilidade de ensino, no qual o professor poderá reinventar sua prática pedagógica” (SILVA, et al. 2017 p.6).

Assim, por meio de pinturas e fotografias, pode-se abordar novas formas de analisar a paisagem, assim como, as transformações no espaço geográfico, destacando o uso das cores, técnicas utilizadas, sendo possível demonstrar ao aluno pontos importantes que muitas vezes são descartados, observando diferentes pontos de vistas sobre um mesmo objeto ou acontecimento.

Paisagem semiárida

Conforme Teixeira (2016), o termo Semiárido, tem referência direta com o clima, marcando o ecossistema dessa região, contando com características como: índice de pluviosidade baixa, menor que 800 mm ao ano, concentrado em um período que dura em torno de três ou quatro meses ao ano, assim como um alto índice de insolação. Além disso, apresenta solos rochosos, arenosos e rasos, e uma vegetação típica caatinga, que apresenta espécies variadas e muitas delas endêmicas.

Mas essa definição, embora cotidianamente usada, não representa tudo o que o Semiárido de fato é, pois como afirma Malvezzi (2007 p. 9) “O Semiárido brasileiro não é apenas clima, vegetação, solo, sol ou água. É povo, música, festa, arte, religião, política, história. É processo social. Não se pode compreendê-lo de um ângulo só”.

Partindo desse pensamento, pode-se conhecer o Semiárido brasileiro a partir de algumas óticas tais como: natureza, cultura, história, religião, entre outras, que acabam por formar a paisagem do Semiárido, já que por definição a paisagem se trata do resultado de um sistema de origens que também evoluem, seja em um cenário geológico, geomorfológico, botânico e\ou econômicos, sociais e culturais (BESSE, 2006).

Partindo do viés natural, o Semiárido que recebe esse nome devido às características climáticas, diferentemente do que se propaga, é uma região muito rica no que diz respeito à Biodiversidade (diversidade de vida, espécies vegetais e animais, por exemplo) e Geodiversidade (diversidade abiótica, rochas, solos, relevo, água), apresentando um conjunto de elementos que formam paisagens singulares e que merecem ser divulgados e sobretudo conservados.

O clima é ponto chave para entender os demais elementos da paisagem semiárida, uma vez que a vegetação e os processos de relevo a ele se adaptam de acordo com a época do ano e com o período se seco ou chuvoso, o que acaba por influenciar os solos, os rios que em sua maioria são intermitentes condicionados ao período chuvoso (REBOITA et al, 2016).

Conforme Malvezzi (2007), o Semiárido brasileiro é o mais chuvoso do planeta e o mais populoso, mesmo considerando que em nenhum outro lugar as condições são tão precárias quanto aqui, devido à falta de planejamento e investimentos na região, o que demonstra a força do sertanejo e a resistência, que são símbolo do Nordeste. Sobre as características naturais o autor explica:

O subsolo é formado em 70% por rochas cristalinas, rasas, o que dificulta a formação de mananciais perenes e a potabilidade da água, normalmente salinizada. Por isso, como veremos, a captação da água de chuva é uma das formas mais simples, viáveis e baratas para se viver bem na região. Há déficit hídrico. Mas essa expressão não significa falta de chuva ou de água. O grande problema é que a chuva que cai é menor do que a água que evapora. No Semi-Árido brasileiro, a evaporação é de 3.000 mm/ano, três vezes maior do que a precipitação. Logo, o jeito de agasalhar a água de chuva é fundamental para aproveitá-la (MALVEZZI, 2007 p. 9).

Sobre o subsolo, tem-se a cobertura vegetal com a caatinga, expressão indígena que quer dizer “mata branca” (FALCÃO SOBRINHO, 2020), que no período chuvoso fica verde e florida. Por outro lado, no período seco, fica seca, com uma aparência esbranquiçada ou acinzentada, que explica a sua denominação. A caatinga abriga uma das maiores biodiversidades brasileiras, com centenas de espécies endêmicas, que se adaptaram às características físicas do ambiente.

A caatinga é um bioma exclusivo do Brasil, nos últimos séculos vem sendo um dos biomas mais alterados pelas atividades antrópicas, devido sobretudo a substituição da vegetação nativa para a pecuária extensiva, assim como, pelo desmatamento, queimadas, para a preparação de terras, o que acaba por diminuir a diversidade vegetal e animal (ALBUQUERQUE et al, 2010). Sobre os processos de desertificação que a caatinga vem enfrentando Souza, Artigas e Limas (2015, p2), explicam que:

Como consequência das profundas alterações pelas quais vêm passando, a Caatinga apresenta grandes extensões onde a desertificação já se encontra instalada, existindo uma relação estreita entre este tipo de degradação, a vegetação e os solos, sendo o seu desenvolvimento iniciado com as modificações que venham a diminuir a presença da cobertura vegetal por períodos prolongados, aumentando os processos erosivos e deteriorando as propriedades físicas, químicas, biológicas e econômicas do solo CCD (1995).

A imagem que é frequentemente difundida do Semiárido, não colabora com a divulgação de suas riquezas e com as ameaças que vem sofrendo. Onde o clima é visto de uma forma distorcida, com a ideia de uma região árida e não semiárida, ou seja, é como se não chovesse de maneira nenhuma, as matas fossem secas e as secas durassem anos.

As imagens de migrantes, solo rachado, açudes secos, animais mortos e migração da asa branca, dispostas em livros didáticos e nos veículos de notícias e redes sociais, acabam por estereotipar uma região tão rica, e tão pouco conhecida. Trata-se de “um ponto de vista, ao mesmo tempo, real e ideológico, que muitas vezes serve para que se atribua à natureza problemas políticos, sociais e culturais, historicamente construídos” (MALVEZZI, 2007 p.11).

Essa imagem distorcida do Semiárido deve ser reconstruída, sendo divulgado o que de fato é essa região, sobretudo na educação formal e informal. Nas aulas de Geografia, por exemplo, essa discussão cabe bem, uma vez que essa disciplina trata das relações sociais e naturais, além de trabalhar com o conceito de paisagem, que se relaciona com a pintura e com a fotografia, recursos que podem auxiliar na divulgação de conhecimentos referentes ao Semiárido e a sua conservação.

Metodologia

A pesquisa foi dividida em dois momentos ou etapas. Primeiramente foi realizado um levantamento bibliográfico com leituras e discussões de materiais publicados em artigos, dissertações, livros e em órgãos públicos sobre as temáticas: Semiárido nordestino, pintura, paisagem e fotografia.

Depois foi elaborado um projeto de extensão, apresentado para os professores, coordenadores e gestores da Escola de Referência em Ensino Médio EREM Carlos Pena Filho, localizada no município de Salgueiro-PE, que foi aprovado.

O projeto teve como tema: “Semiárido vivo, riqueza ameaçada”, e teve por objetivo principal apresentar a riqueza natural e cultural do Semiárido nordestino, assim como, as constantes ameaças que vem enfrentando e, dessa forma, divulgar e promover a conscientização dos alunos quanto à conservação do Semiárido nordestino.

Após a aprovação, o projeto foi apresentado aos alunos, que se inscreveram no mesmo. Contando com alunos de 1°, 2° e 3° ano do ensino médio (entre 15 e 17 anos), formou-se uma turma de em torno de 40 alunos. O projeto foi organizado em um total de 40 horas aulas, contando com abordagens teóricas e práticas, com aula de campo no Mirante do Cruzeiro, localizado em Salgueiro-PE. Com antecedência, foi organizado um plano de trabalho, onde ficou estabelecido que os alunos, além da observação e anotação de dados importantes repassados durante a prática do campo, deveriam também realizar registros fotográficos e vídeos que representassem as paisagens semiáridas. Ainda foram realizadas oficinas de pinturas com os alunos.

O projeto teve como produto final a exposição e apresentação dos materiais elaborados, sendo esses pinturas e fotografias e vídeos que representassem a paisagem semiárida. Também foi realizado um concurso fotográfico com premiações às melhores fotografias.

Resultados e discussões

Tendo em vista a diversidade histórica e natural do Semiárido nordestino, o projeto “Semiárido vivo: riqueza ameaçada”, focou-se em tal abordagem, elencando temáticas variadas, tomando como base o conceito de paisagem, desde questões históricas, sociais, culturais e econômicas, até as temáticas físico naturais: Geodiversidade e Biodiversidade, representando toda a riqueza presente nessa região, para então apresentar as ameaças que ela vem enfrentando e sofrendo.

Nesse sentido, foi possível a realização de aulas mais teóricas com a apresentação do Semiárido, seguindo a seguinte organização temática: “A região do Semiárido brasileiro: Aspectos geohistóricos”; “Geodiversidade do Semiárido: clima, rochas, relevos, solos; água e recursos hídricos”; “O bioma caatinga Fauna e Flora” e “Ameaças ao Semiárido”. Além disso, foram apresentados pontos específicos do município de Salgueiro-PE, onde alguns aspectos naturais e culturais se destacam quanto à temática, dentre eles: O açude Velho, Serra da Onça, Pedra Preta, Serra das Princesas, Pedra do Frade, entre outros.

Durante as aulas teóricas, para cada tema eram destacadas fotografias e pinturas (as xilogravuras também foram muito exploradas), que representassem o Semiárido em suas mais variadas óticas. Esses recursos por sua vez eram visualizados nas apresentações por meio de slides e vídeos e em meio impresso, algumas dessas podem ser observadas no quadro 1, separadas quanto aos temas explanados na disciplina.

Quadro 1: Temáticas, fotografias e pinturas utilizadas nas aulas.
Quadro 1: Temáticas, fotografias e pinturas utilizadas nas aulas.
Fonte: Montagem a partir de imagens coletadas nos sites: Bonifácio, Quixadá Turismo e História; Pinterest e G1: Petrolina e Região

E cada vez que uma fotografia ou pintura era apresentada antes de sua contextualização, era dado aos alunos um tempo de cinco a dez minutos para observação e anotação de pontos que chamaram a atenção. Eram destacadas questões como: Você reconhece essa paisagem? O que mais se destaca nela? Ela tem algum significado para você? Perguntas simples como essas geram um rico debate de ideias de pertencimento, identidade quanto ao que se vê.

Algumas imagens como a que representava a Pedra da Galinha Choca, não eram de conhecimento de todos os alunos. O destaque nessa imagem foi o formato esculpido na rocha, onde foi explicado o conceito de monólitos, Inselbergs, geoformas, dentre outros conceitos que envolviam geologia e geomorfologia e que a maioria dos alunos nunca ouviu antes.

A Xilogravura: Vida no sertão de J. Borges, conforme a percepção dos alunos, era a que mais representava o Semiárido, no seu contexto histórico, pois demonstra a vida do sertanejo, do retirante e do forte do sertão, um dos alunos assim escreveu:

A vida aqui no sertão tempos atrás era bem difícil, minha avó sempre falava que a espera da chuva era longa, mas a alegria quando ela chegava era muito maior. Sair da terra era mais difícil do que aqui ficar, as memórias de uma vida toda de esperanças e de força, vão sempre representar o Nordeste: o sertão/Semiárido (ALUNO “A”).

Depois de todo o aparato teórico, uma prática de campo com os alunos foi realizada. A mesma ocorreu no Mirante do Cruzeiro de Salgueiro-PE, que fica localizado próximo à zona urbana do município, no bairro Primavera. Neste momento, foi possível ver na prática muito do que foi apresentado em sala de aula, sobretudo os aspectos físico naturais: relevo, rochas, solo, vegetação que formam as paisagens do Semiárido, e essa em específico.

Foi também nesse momento e local que os alunos fizeram registros fotográficos, que propiciaram a realização de um concurso ao final da disciplina, com a fotografia que melhor representasse o Semiárido (FIGURA 1).

No Cruzeiro, alguns aspectos se destacam, o relevo, no topo do mirante que chega a uma altitude que ultrapassa 630 m, onde a nordeste pode-se ter uma visão panorâmica da sede do município; ao norte, em primeiro plano, a Serra da Onça e, ao fundo, a Chapada do Araripe; a oeste e ao sul, em primeiro plano, pode-se ver a superfície aplainada e o Rio Pitombeira e, ao fundo, alguns maciços residuais. Todo seu entorno é composto por uma vegetação de caatinga, do estrato arbustivo sobretudo, porém nota-se espécies arbóreas e herbáceas, além disso a presença de afloramentos de rochas é bem comum na área, com vários exemplares de rochas graníticas.

No topo do Mirante, está erguido um cruzeiro de madeira, sobre um pedestal de alvenaria, que foi construído em 1925, além disso o acesso a esse é possível graças a uma trilha por uma escadaria de 348 degraus, construída sobretudo por influências religiosas. Abaixo do cruzeiro, tem-se um pequeno abrigo natural com a superposição de blocos rochosos.

As fotografias registradas pelos alunos, revelaram um olhar sobretudo aos aspectos bióticos da paisagem, sendo que em sua maioria os alunos registraram espécies vegetais típicas do Semiárido, sobretudo cactáceas, mas além dessas também as fotos destacaram o relevo, as rochas e os aspectos culturais como o cruzeiro e a escadaria. Ao serem questionados a respeito do registro que fizeram, alguns alunos justificaram da seguinte maneira:

“O Semiárido é retratado muitas vezes como algo pobre, mas a diversidade de plantas que observei no campo me fizeram ver o quanto trata-se de uma paisagem rica, os cactos chamam atenção e representam: força, resistência e beleza, que são adjetivos também do povo que aqui vive” (ALUNO “A”).

“Vejo o Semiárido como uma região que sofre, mas que se ergue, além disso um lugar cheio de belezas, a flor do mandacaru representa toda a beleza e riqueza da região” (ALUNO “B”).

“A paisagem semiárida além das belezas naturais, também tem grande influência cultural, o cruzeiro e a escadaria demonstram essa paisagem humana e cultural” (ALUNO C).

Diante desses relatos, torna-se clara a internalização dos alunos quanto a rica paisagem semiárida. Suas palavras revelam admiração, orgulho e identidade. Por meio das belas fotografias registradas por eles, pode-se conhecer um pouco do Semiárido e suas belezas tão importantes e únicas.

Figura 1: Prática de campo e registros fotográficos dos alunos
Figura 1: Prática de campo e registros fotográficos dos alunos
Elaboração: Autora

Com as oficinas “riqueza ameaçada”, foi apresentado para os alunos uma abordagem acerca da biodiversidade do Semiárido, elencando espécies da fauna e da flora da caatinga, e destacando as espécies que estão em processo de extinção. Além de debates, foram apresentados também vídeos sobre a temática.

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE (2014), 366 espécies da Caatinga estão ameaçadas de extinção, (dentre essas, algumas podem ser vistas na tabela 1). O número revela a importância da criação de estratégias que visem a conservação do bioma caatinga, que pode acontecer por meio da educação ambiental, tanto no âmbito formal, quanto informal, promovendo a conscientização dos alunos e das comunidades sertanejas para a proteção da biodiversidade.

Tabela 1: Algumas espécies ameaçadas de extinção, conforme o IBGE.
FAUNA FLORA
Gato-do-mato Amburana-de-cheiro
Periquito-cara-suja Micranthocereus hofackerianus
Onça-parda Aroeira (Myracrodruon urundeuva)
Tatu-bola baraúna (Schinopsis brasiliensis)
Fonte: IBGE, 2014, Elaboração: autora.

Com as pinturas feitas pelos alunos que representavam uma das espécies ameaçadas de extinção, foi possível realizar um momento rico em debates, troca de informações e conhecimentos práticos entre alunos e professores, onde poderiam compartilhar técnicas de desenho e pinturas. Houve ainda uma contextualização por parte dos alunos a respeito das espécies escolhidas em suas pinturas, onde os mesmos fizeram pesquisas extras e apresentaram, problematizando e defendendo a preservação da flora e fauna da caatinga.

Figura 2: Pinturas feitas pelos alunos representando as espécies ameaçadas de extinção do Semiárido
Figura 2: Pinturas feitas pelos alunos representando as espécies ameaçadas de extinção do Semiárido
Elaboração: Autora

Ao final, foi produzido ainda um vídeo para a culminância do projeto. Para tanto, os alunos junto com a professora escreveram um texto, destacando todas as temáticas que foram trabalhadas na eletiva. Cada aluno ficou responsável pela apresentação de uma estrofe. Além disso, foram adicionados legendas, fotografias e vídeos do campo realizado no Mirante do Cruzeiro.

A culminância do projeto contou com a exposição de quadros nos corredores da escola, com as fotografias dos alunos, além de um mural com as pinturas dos mesmos, e apresentação do vídeo e da votação, escolha e premiação das fotografias mais votadas, que representam o Semiárido.

Considerações finais

O Semiárido brasileiro é uma região extremamente rica em vários aspectos, sociais, culturais, humanos e naturais. Mais do que uma região que sofre e já sofreu muito com períodos de estiagem, é um lugar de um povo forte, acolhedor, que resiste, assim como sua vegetação e todos seus elementos físicos. “O Semiárido é vivo! mas corre perigo”. É preciso que medidas e estratégias de conservação sejam pensadas e implementadas.

Primeiramente, é de extrema importância que o Semiárido seja de fato conhecido e valorizado, e um ambiente propício para tal é sem dúvidas a sala de aula, para que desde crianças os nordestinos e os brasileiros, e até o mundo, conheçam o quão magnífico é esta região e o quanto ela precisa ser conservada.

O projeto de extensão “Semiárido vivo, riqueza ameaçada” foi pensado exatamente pelo anseio de que os alunos conheçam, valorizem e protejam o local ao qual pertencem. Cada atividade realizada desde as aulas teóricas até as práticas, sobretudo o campo, foi pensada nesse sentido.

Foi possível observar no decorrer das aulas que cada vez mais o interesse dos alunos quanto ao conhecimento do Semiárido foi crescendo e no campo, esse interesse ficou explícito nas fotografias e nas palavras dos alunos, que dedicaram seu tempo e aprenderam a usar técnicas para apresentar aos que ainda não conhecem ou perceberam o quanto o Semiárido tem paisagens belíssimas.

As pinturas reforçaram o desejo de que as espécies da caatinga sejam protegidas. Além disso, os alunos puderam por meio delas, construir argumentos e criticidade para defender o patrimônio biológico do Semiárido.

A respeito do uso dos dois recursos didáticos - fotografia e pintura), durante as aulas, foram constatadas a eficiência e a importância de ambos para o estudo das paisagens semiáridas e para o ensino de Geografia, assim como, abriu margem para um maior aproveitamento e aprofundamento deles em um projeto futuro, focando em uma maior reflexão a respeito das condições históricas, culturais, naturais e nas mudanças constantes nas paisagens.

Diante do exposto, o desejo é que o projeto se fixe nos próximos semestres e até mesmo em novas escolas, para que assim, de pouco a pouco, o Semiárido seja divulgado, valorizado e conservado.

Referências

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