ARTIGOS
Recepción: 15 Octubre 2023
Aprobación: 22 Febrero 2024
DOI: https://doi.org/10.5212/Rev.Conexao.v19.22502.068
Resumo: O projeto de extensão Socorristas Mirins, vinculado ao Programa Institucional de Apoio à Extensão da Universidade do Estado de Minas Gerais, curso de graduação de Enfermagem, capacitou crianças e adolescentes de uma escola pública em Divinópolis, em técnicas de primeiros socorros, por meio de oficinas práticas e realísticas. O programa consistiu em doze encontros com grupos de crianças e adolescentes, com temáticas sobre o SAMU e Corpo de Bombeiros, obstruções das vias aéreas, queimaduras, mordeduras de animais peçonhentos, traumatismos, hemorragias, desmaios, convulsões, distúrbios glicêmicos e infarto agudo do miocárdio. Atividades interativas, com recursos como slides, simulações realísticas e materiais lúdicos foram adotadas para manter o interesse dos participantes. As crianças apresentaram maior média de participação (79,5%) em comparação aos adolescentes (62%). O projeto aproximou universidade e comunidade, possibilitando aos participantes acesso à informação de qualidade e oportunizou às acadêmicas de enfermagem o desenvolvimento da prática de assistência em primeiros socorros.
Palavras-chave: Primeiros Socorros, Criança, Adolescente, Educação em Saúde.
Abstract: The outreach project “Junior Rescuers” is linked to the Institutional Program for Outreach Support from the State University of Minas Gerais, more especially to the Nursing Undergraduate Course. The project trained children and adolescents from a public school in Divinópolis, MG in first aid techniques through practical and simulation-based workshops. The program consisted of twelve sessions offered to groups of children and adolescents; topics ranged from SAMU (Portuguese acronym for Mobile Emergency Services), Fire Department operations, airway obstructions, burns, bites from venomous animals, traumas, hemorrhages, fainting, seizures, glycemic disorders to acute myocardial infarction. Interactive activities, including slides, simulations, and playful materials were adopted to maintain participants’ interest. Children showed a higher average participation rate (79.5%) compared to adolescents (62%). The project bridged the gap between the university and the community, providing participants with access to quality information and offering nursing students the opportunity to develop first aid care practices.
Keywords: First Aid, Children, Adolescents, Health Education.
Introdução
Situações de urgência e emergência podem ocorrer nos mais diversos locais e situações. A conduta adequada impacta positivamente no prognóstico do estado de saúde das vítimas (Cabral et al., 2019; Grimaldi et al., 2020). Diante disso, a promoção do conhecimento em primeiros socorros para a população mostra-se relevante na prevenção de agravos, com destaque para a educação em saúde em ambiente escolar. (Bomfim et al., 2022; Cardoso et al., 2021). Esse ambiente é um local comum de acidentes e é ideal para difundir e valorizar medidas acerca da atuação em primeiros socorros, visto que crianças e adolescentes passam muitas horas na escola (Ilha et al., 2021; Grimaldi et al., 2020).
No Brasil, os acidentes representam a principal causa de morte entre crianças e adolescentes com idades entre 1 e 14 anos (Cruz et al., 2020; Jesus et al., 2023). Nesta faixa etária, as situações comuns de urgência e emergência são as quedas, o traumatismo craniano encefálico, queimaduras, choque elétrico e obstrução de vias aéreas por corpo estranho (Brito et al., 2020). Todas essas situações poderiam ser evitadas e o agravamento dos casos amenizado se houvesse implementação efetiva de medidas educativas para a prevenção de acidentes e primeiros socorros (Cruz et al., 2022; Dutra et al., 2021).
Em 2018, tornou-se obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros de professores e funcionários de estabelecimento de ensinos públicos e privados de educação básica e de recreação infantil, com a promulgação da Lei n° 13.722 (Brasil, 2018). No entanto, verifica-se que o ensino da temática ainda é pouco difundido, sendo mais presente nas universidades e para os profissionais de saúde (Brasil, 2018; Cardoso et al., 2021). Nesse cenário, realizar projetos de extensão em primeiros socorros por acadêmicos de enfermagem mostra-se relevante pelo potencial de contribuir para a formação da comunidade escolar na prestação de assistência ágil e adequada às vítimas (Ilha et al., 2021; Silva, 2021).
O estudo que analisou o impacto de projetos extensionistas em primeiros socorros mostra que as atividades realizadas com crianças e/ou adolescentes impactam positivamente em sua autorrealização e autonomia ao prestar suporte às vítimas e estreitamento entre comunidade e universidade (Bomfim et al., 2022). Além disso, crianças e adolescentes estão em uma fase privilegiada para a aprendizagem e aquisição de bons hábitos, atuando também como multiplicadores dos conhecimentos adquiridos para outros grupos de convivência (Cruz et al., 2022; Dutra et al., 2021; Jesus et al., 2023; Loureiro et al., 2022).
Acredita-se que a promoção do conhecimento em primeiros socorros e a enfermagem, juntos, ocupam posição de destaque nesse contexto, visto que a educação em saúde é uma estratégia de ensino utilizada por enfermeiros para melhorar as condições de saúde e índices epidemiológicos em todos os âmbitos da saúde da população (Ilha et al., 2021). Sendo assim, somar o caráter educador da enfermagem com as habilidades de crianças e adolescentes em aprender e disseminar conhecimentos é importante para que esses indivíduos se tornem promotores do conhecimento, bem-estar, socorro e prevenção do agravamento das vítimas em situações de urgência e emergência.
Nesse sentido, foi desenvolvido o projeto de extensão “Socorristas Mirins”, do curso de graduação de Enfermagem da Universidade do Estado de Minas Gerais, unidade Divinópolis, cujo objetivo foi capacitar crianças e adolescentes de uma escola pública na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, por meio de oficinas práticas e realísticas com técnicas de primeiros socorros até a chegada do serviço profissional.
Metodologia
Trata-se de um relato de experiência que descreve a primeira edição do projeto “Socorristas Mirins”, executado por discentes do curso de Enfermagem da Universidade do Estado de Minas Gerais, campus Divinópolis. O projeto foi realizado em uma escola pública da rede estadual do município, entre setembro e dezembro de 2022. As ações desenvolveram-se a partir da elaboração de estratégias de ensino teórico e práticas como simulações realísticas e oficinas interativas, para garantir o aprendizado, curiosidade e atenção dos participantes.
O município de Divinópolis possui 11 escolas estaduais que oferecem ensino fundamental e médio. Dessas, foram contatadas 5 escolas que possuíam o maior número de crianças e adolescentes e selecionada aquela com disponibilidade compatível com o cronograma do projeto.
Uma vez elegida a escola, a diretoria e as autoras apresentaram o projeto às turmas dos 4º e 5º do ensino fundamental I e 8º e 9º anos do ensino fundamental II integral. Dessa forma, dentre os alunos que manifestaram interesse em participar, o projeto contemplou 22 crianças do 4°e 5° anos do ensino fundamental e 32 adolescentes entre o 8° e 9° ano integral, totalizando 54 participantes, com idades entre 10 e 16 anos.
Crianças e adolescentes foram separados em dois grupos, sendo realizados 6 encontros com cada grupo. A divisão entre os dois grupos justifica-se pelo cuidado em garantir uma metodologia e linguagem adequadas para as idades. Respeitando o cronograma de execução, os encontros eram realizados uma vez por semana, com intervalo de 15 dias. Para cada dia de encontro, as atividades desenvolveram-se no mesmo dia e tinham duração de 50 minutos (Figura 1).

Os dois grupos passaram pela experiência dos seis encontros a partir das temáticas: i) conhecendo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU); ii) conhecendo o Corpo de Bombeiros Militar; iii) Obstrução das Vias Aéreas por Corpos Estranhos (OVACE) e queimadura; iv) mordeduras e picadas de animais peçonhentos; v) traumatismos, hemorragias, desmaios e convulsões, e, vi) distúrbios glicêmicos e Infarto Agudo do Miocárdio (Figura 1).
Estes temas foram selecionados após busca na literatura, conforme as situações de urgência e emergência mais prevalentes vivenciadas por crianças e adolescentes na sua rotina diária (Brito et al., 2020; Cabral; Oliveira, 2019; Grimaldi et al., 2020).
Cada encontro foi planejado para ter três etapas: explanação teórica e dialogada pelas autoras, com auxílio de imagens ilustrativas, slides, data show e roda de conversa. Em seguida, simulação realística das condutas referente ao tema, em que foram utilizadas lesões realísticas construídas pelas autoras e objetos diversos condizentes à temática do dia. E, na última etapa, os participantes foram convidados a reproduzir, por meio de uma simulação realística, as situações de primeiros socorros, de forma que eles conseguissem identificar e, em alguns casos, intervir até a chegada do atendimento de um profissional da saúde. Nesse momento, tanto as autoras quanto os participantes eram divididos entre vítimas e socorristas e podiam usar os recursos e objetos disponibilizados pelo projeto disponível na sala (Figura 1).
A escola forneceu autorização por escrito para a execução do projeto a todos os 54 elegíveis participantes. Todas as famílias das crianças e adolescentes receberam uma carta convite contendo descrição detalhada sobre o desenvolvimento do projeto, a preservação da identidade dos participantes e autorização para o registro, divulgação e uso das imagens. As cartas assinadas foram recebidas pela coordenação da escola e arquivadas pelas autoras, tendo participado do projeto apenas os alunos que apresentaram consentimento de seus responsáveis legais.
Ressalta-se que, conforme a Resolução CNS 520/16, de 7 de abril de 2016, este trabalho dispensa apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que as atividades não identificam os participantes e foram realizadas com intuito educativo por alunos de graduação em Enfermagem.
Resultados e Discussão
Após a realização dos encontros, verificou-se que o grupo A (crianças) teve maior adesão, com média de 18 participantes por encontro, enquanto o grupo B (adolescentes) teve média de 20 participantes por encontro. Com relação ao sexo, o feminino predominou no grupo A, com 59%, e o masculino no grupo B, com 56%; e, ainda, as faixas etárias mais prevalentes foram as de crianças com 10 anos de idade (86%) e adolescentes com 14 anos (47%) (Figura 2).

Os 12 encontros foram desenvolvidos de acordo com planejamentos didático-pedagógicos, compostos dos seguintes pontos: objetivo, espaço didático, recursos didáticos, ações, texto de referência e avaliação. O objetivo de aprendizagem para todos os encontros foi a identificação das situações de urgência e emergência e as ações a serem empreendidas diante de sua ocorrência. Os encontros aconteceram no auditório da escola, contudo, o quarto e o quinto encontro do grupo A e o quinto encontro do grupo B foram realizados no laboratório de informática.
Como recursos didáticos, foram utilizados slides (Figura 3) para a exposição dialogada da temática, maquiagem e objetos para compor o cenário na realização das simulações realísticas e fotocópias para a resolução de questões.

Para cada encontro, foi elaborado um material didático a partir do estudo de literatura científica recente, composto de texto de referência, slides, questionário de retomada da temática e roteiro das simulações realísticas a serem realizadas. Para a elaboração dos materiais, buscou-se a utilização de recursos lúdicos e interativos, como imagens, vídeos e personagens do universo adolescente e maquiagens realísticas, visando aumentar o interesse dos participantes, despertando a sua criatividade e curiosidade.
A elaboração desses materiais didáticos foi importante para suprir a lacuna existente no país referente às produções sobre primeiros socorros com embasamento científico, para o uso nas escolas. Profissionais e estudantes da área de saúde são os principais responsáveis pela formação de escolares em primeiros socorros (Callou et al., 2020; Lemos et al., 2022; Loureiro et al.,2022; Margarida et al., 2021; Sousa et al., 2021). Contudo, é necessário expandir as ações de formação nos ambientes escolares, contribuindo para melhorar a autonomia, a disseminação do conhecimento para a comunidade escolar, a promoção de saúde e a prevenção de agravos.
No primeiro encontro, a temática abordada foi “Conhecendo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU-192) ”, a qual possibilitou aos alunos compreenderem as diferenças entre urgência e emergência, o número para acionar o serviço e em quais situações pedir auxílio. Para muitos participantes, esse foi o primeiro contato com a realização de primeiros socorros, apesar de já terem presenciado diversas situações de urgência e emergência na vida cotidiana. Acidentes podem ocorrer em qualquer ambiente, sendo o ambiente escolar um espaço de risco para os estudantes, devido ao tempo de permanência e as atividades recreativas realizadas. Além disso, crianças e adolescentes ficam expostas a acidentes em decorrência das características do próprio desenvolvimento, como aquisição de coordenação motora e busca de novas experiências (Dutra et al., 2021; Loureiro et al., 2022; Moura et al., 2022).
Na explanação teórica, foram apresentadas situações em que o SAMU deveria ser acionado e as informações que deveriam ser fornecidas no momento da ligação ao 192. As autoras simularam uma situação de choque elétrico e, posteriormente, os participantes foram convidados a praticar as atividades do dia, por meio da realização de simulação realística de perda de consciência, organizados como vítimas, socorristas e atendente do SAMU (Figura 4).
Dando continuidade à compreensão de situações de urgência e emergência, o segundo encontro abordou a temática “Conhecendo o Corpo de Bombeiros Militar (CBMMG -193) ”. Foram apresentadas as competências do Corpo de Bombeiros Militar, o que permitiu aos participantes compreenderem as distinções entre os serviços e as circunstâncias nas quais é necessário solicitar o auxílio do CBMMG e/ou do SAMU.
Para ensinar essas distinções, foram realizadas pelas autoras uma simulação de vazamento de gás no ambiente domiciliar e desmaio após dor forte na região torácica. Os alunos foram convidados a identificar qual serviço acionar em cada caso. Separados em dois grupos, reproduziram as duas simulações realizadas, com o atendimento inicial às vítimas e o acionamento dos respectivos serviços de urgência e emergência (Figura 4). Após as simulações, os participantes participaram de dinâmica de categorização de situações, como sendo ou não de atuação do CBMMG, para revisar a temática do dia.

Já no terceiro encontro, foram abordadas as temáticas sobre Obstrução das Vias Aéreas por Corpos Estranhos (OVACE) e queimadura. Para que os alunos alcançassem o objetivo do encontro de identificar uma OVACE e quais ações a serem realizadas, realizou-se uma explanação teórica, com o apoio de slides, sobre as vias aéreas e os mecanismos da obstrução e desobstrução, com a apresentação da manobra de Heimlich em uma boneca.
Procedeu-se com uma simulação realística de uma OVACE ocasionada por caroço de azeitona, com a realização de manobra de Heimlich. E para melhor explicação sobre como proceder, repetiu-se a simulação realística de forma lenta, com a identificação de cada fase da obstrução das vias aéreas e o que fazer ou não fazer em cada etapa, diferenciando como agir em crianças, gestantes e pessoas obesas.
Ainda no terceiro encontro, a temática queimadura foi apresentada por meio de explanação teórica, com auxílio de slides, e simulação realística de uma queimadura com água quente. Após a realização da simulação realística, realizou-se roda de conversa com os participantes, que indicaram o que fazer e o que não fazer diante da queimadura apresentada, e também narraram situações vividas. Para maior fixação da aprendizagem, os alunos foram divididos em duplas e, com a orientação das autoras, realizaram a manobra de Heimlich entre si e na boneca, além de atividade com perguntas e respostas sobre as duas temáticas do dia.
No quarto encontro, o tema “mordeduras e picadas de animais peçonhentos” proporcionou aos participantes uma compreensão sobre os quatro grandes grupos de animais peçonhentos: cobras, lagartas urticantes, escorpião e aranha; e sobre como atuar nessas situações. Para facilitar a aprendizagem, foram realizadas três simulações realísticas concomitantemente às explanações.
A primeira simulação foi referente à picada de cobra; a segunda foi de queimadura por lagarta urticante, e a terceira de picada de aranha, sendo que, em todas, foram apresentados os primeiros socorros e os procedimentos de encaminhamento da vítima para o serviço de atendimento adequado. Para todos os casos, as simulações contavam com explanação sobre o que fazer e o que não fazer em cada situação.

Os participantes do grupo A indagaram sobre o que fazer em caso de queimadura com água viva, tema que não estava no planejamento pedagógico. Foram acolhidas as suas dúvidas e eles foram orientados sobre os procedimentos com primeiros socorros. Assim, foi incorporada a mesma temática ao grupo B. Para fixar a aprendizagem, os alunos foram separados em 3 grupos, ficando cada um responsável por prestar os primeiros socorros às autoras vítimas de picada de aranha, mordida de cobra e queimadura por lagarta (Figura 5). Ao final, os participantes realizaram uma dinâmica interativa com perguntas e respostas para revisar a temática do dia.
O quinto encontro apresentou duas temáticas: traumatismos e hemorragias. Por meio da exposição dos conceitos de trauma, entorse, contusão, luxação, fratura exposta e fechada e hemorragia, os participantes foram apresentados às ações de primeiros socorros a serem realizadas em cada caso, com enfoque no que não fazer. Com o intuito de reforçar a aprendizagem, as autoras realizaram simulações práticas de queda de cadeira com fratura exposta no osso da perna, hemorragia causada por corte de faca e contusão, com a realização dos primeiros socorros e o acionamento do serviço de urgência em cada situação.

Os participantes foram divididos em três grupos e, com o auxílio das autoras, reproduziram as simulações realísticas de hemorragia externa causada por corte, fratura exposta após acidente de moto e contusão ocasionada por batida em móvel. Os participantes tinham que realizar os primeiros socorros, enquanto eram avaliados pelos outros grupos quanto às condutas prestadas (Figura 6). Após as simulações, os participantes participaram de uma dinâmica de perguntas e respostas, a fim de revisar o tema do dia.
O sexto encontro abordou desmaios, convulsões, hipoglicemia e infarto agudo do miocárdio. Para cumprir o prazo estimado para o encontro, optou-se pela realização da simulação realística como parte da explanação teórica nas temáticas hipoglicemia e convulsão. Divididos em 3 grupos, os participantes reproduziram as simulações de desmaio, convulsão e infarto, prestando os primeiros socorros às vítimas e realizando os chamados para os serviços adequados (Figura 6). Para fixar a aprendizagem, os participantes participaram de dinâmica de perguntas e respostas para revisar a temática do dia, discutindo o que fazer em cada umas das quatro situações abordadas no encontro.
Crianças e adolescentes, grupo vulnerável a acidentes, passam ao menos um terço do dia no ambiente escolar, sendo fundamental que, nesses espaços, existam pessoas capacitadas para a prestação de primeiros socorros. No entanto, o conhecimento geral da comunidade escolar sobre a temática é insuficiente, apesar da obrigatoriedade imposta pela Lei Lucas (Lei nº 13.722/2018) de realização de capacitação anual de professores e funcionários de instituições de ensino em primeiros socorros (Assis et al., 2022; Brasil, 2018; Moraes et al., 2021; Moreira et al., 2021).
A formação de indivíduos leigos para a prestação de primeiros socorros em situações de urgência e emergência é primordial para salvar vidas. De acordo com a literatura, estudantes jovens, após treinamento, são capazes de prestar suporte básico de vida em situações de urgência e emergência, demonstrando interesse e habilidades após o contato com as técnicas de primeiros socorros. A participação em atividades interativas de formação aumenta o interesse de crianças e adolescentes, contribuindo para a construção do conhecimento em saúde desse público (Cruz et al., 2020; Dutra et al., 2021; Loureiro et al., 2022).
A construção de hábitos e atitudes se dá na infância e adolescência. A partir dessa premissa, é importante que profissionais da saúde reconheçam esses indivíduos jovens como protagonistas da promoção em primeiros socorros como potenciais para preservar vidas, prevenir agravos e salvar pessoas em ações educativas.
Estudos evidenciam que, quanto mais precoce for a formação em primeiros socorros, maior será a duração dos resultados (Cardoso et al., 2021; Oliveira; Machado, 2020). Isto porque, quando participam de capacitações práticas, ativam a aprendizagem psicomotora, promovendo habilidades, o que resulta em melhor fixação das informações. E no contexto de primeiros socorros, poderão atuar como multiplicadores de conhecimento entre seus pares e familiares (Cruz et al., 2020; Lemos et al., 2022; Loureiro et al., 2022).
A adolescência, contudo, mostra-se como um período de grandes transformações, tornando o adolescente mais vulnerável a adversidades. Nesse contexto, a educação em saúde ganha maior relevância, podendo atuar como estratégia de desenvolvimento e fortalecimento de recursos individuais de proteção, melhora na qualidade de vida e de saúde (Cardoso et al., 2021; Cruz et al., 2020; Lemos et al., 2022; Loureiro et al., 2022).
O estudo que retrata a adesão dos adolescentes às ações de promoção de saúde, tanto na instituição escolar quanto na Atenção Primária à Saúde, aponta que ainda existem lacunas para tal integração (Brasil, 2017). Isso se dá devido à dificuldade na escuta dos adolescentes, a desarticulação dos setores de educação e saúde e indisponibilidade dos profissionais para trabalharem ações de educação.
Tal informação corrobora o objetivo do Programa de Saúde nas Escolas (PSE), que pontua a importância da articulação da saúde e da educação atuantes nas áreas para mudar tal realidade, e que ainda se configura como um problema de saúde pública (Lopes et al., 2019; Oliveira; Machado, 2020).
O encerramento do projeto aconteceu mediante um encontro com os participantes, com a entrega de um certificado de participação. Para tornar o momento festivo, a escola e os participantes providenciaram um lanche coletivo, como forma de agradecimento das autoras para com os alunos e o reconhecimento do trabalho e vínculo criado entre todos os envolvidos. O estabelecimento de vínculos contribui para a aprendizagem, na medida em que proporciona segurança e melhores relações entre mediadores e participantes de ações educativas (Bomfim et al., 2022; Lopes et al., 2019).
Para o estabelecimento do vínculo, a realização de seis encontros com intervalos quinzenais foi fundamental, pois possibilitou maior tempo de convivência entre estudantes e autoras. Essa análise é corroborada por estudos que demonstram que, para o desenvolvimento de vínculo, é necessário um maior tempo de realização das ações, e que esse contribui para melhora na aprendizagem dos participantes (Bomfim et al., 2022; Lopes et al., 2019).
Além disso, possibilitou o acompanhamento do processo de consolidação da aprendizagem - percebido na desenvoltura dos alunos nas reproduções das simulações das situações de urgência e emergência abordadas - e a aproximação da comunidade escolar com as atividades extensionistas da Universidade do Estado de Minas Gerais, o que demonstra o valor da universidade para o município.
A realização do projeto de extensão permitiu, ainda, a aproximação entre universidade e comunidade, possibilitando aos participantes acesso à informação de qualidade e oportunizando às acadêmicas o desenvolvimento da prática de assistência em primeiros socorros.
Considera-se como um desafio na realização desse projeto a dificuldade de desenvolvimento simultâneo em mais escolas, a fim de abranger um maior número de participantes. O fato justifica-se devido à dificuldade de compatibilidade de horários entre autores e escolas para a sua realização. O projeto seguirá em outras edições, em outras escolas do município, para dar continuidade à capacitação de crianças e adolescentes e ao desenvolvimento da prática de assistência em primeiros socorros entre acadêmicas, integrando a Universidade nos âmbitos do serviço, saúde e comunidade.
As limitações deste relato de experiência se baseiam na complexidade de retirada de conclusões sobre a efetividade do aprendizado dos participantes, uma vez que não se utilizaram medidas de avaliação, comparação, proporção e análises inferenciais dos resultados. As potencialidades deste trabalho consistem na apreciação criteriosa dos resultados descritos, os quais demonstraram que a utilização de recursos lúdicos e interativos, como a simulação realística, aumentam o interesse, a criatividade e curiosidade pelo conhecimento. No contexto da saúde, independentemente da temática trabalhada por profissionais da enfermagem, atividades interativas como as utilizadas neste relato têm o potencial de melhorar a transmissão das informações acerca da promoção, segurança e manutenção da saúde.
Conclusão
A partir da premissa de que hábitos e atitudes se formam na infância e adolescência, o projeto conscientizou e capacitou estudantes do 4º e 9º anos do Ensino Fundamental para lidar com situações de urgência e emergência. A participação ativa demonstrou o interesse dos participantes e a eficácia da metodologia aplicada em estimular o interesse na aprendizagem das condutas de primeiros socorros para as situações de urgência e emergência abordadas.
A criação de vínculo foi essencial para o comprometimento e cumprimento do planejamento didático-pedagógico. A explanação das propostas e recursos, bem como o envolvimento dos profissionais, contribuiu para a difusão clara e facilitadora dos conhecimentos. Ademais, o reconhecimento do projeto pela escola e o interesse em mais edições indicam a viabilidade de capacitações para alunos e professores, prevenindo acidentes e promovendo ações eficazes de socorro.
A experiência vivenciada durante todo processo, desde o planejamento à execução do projeto, foi de grande valia para a formação profissional das executoras. Foi um período de muitos aprendizados, em que se aliou o conhecimento teórico previamente adquirido durante a graduação às práticas elaboradas. Foi preciso avaliar todo o cenário para ser construído o cronograma das atividades, o que demandou trabalho em equipe e delegação de funções para cada executora. Além disso, foi necessário aplicar uma abordagem singular para o público atendido, para se ter um melhor entrosamento.
Sendo assim, espera-se que a experiência, os resultados e materiais construídos na primeira edição do “Socorristas Mirins” sirvam de fortalecimento e embasamento para novas edições, a fim de propagar conhecimento para crianças e adolescentes no âmbito dos primeiros socorros e estimular outros acadêmicos de enfermagem a desenvolverem práticas de educação em saúde com a comunidade.
Agradecimentos
Ao Programa Institucional de Apoio à Extensão, Edital PAEx 1/2022, da Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, unidade de Divinópolis.
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