The Sweat of Their Brow

Alexandre Fortes
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil

The Sweat of Their Brow

Revista Prâksis, vol. 2, 2016

Centro Universitário Feevale

. The Sweat of Their Brow: A History of Work in Latin America. 2000. Armonk/London. M.E. Sharpe. 209pp.. 2000

O livro de David J. McCreery The Sweat of Their Brow: A History of Work in Latin America é corajoso e inovador. A pesquisa histórica sobre esse tema passou por uma grande expansão nas últimas duas décadas, mas, a sua maioria, na forma de estudos monográficos. Em conjunto, os inúmeros estudos sobre regiões específicas, períodos históricos e categorias de trabalhadores contribuíram para grandes mudanças nas abordagens teóricas e metodológicas e enriqueceram o conhecimento empírico, engendrando novos temas e questões.

Entretanto, até o presente momento, exceto por algumas revisões bibliográficas, poucas tentativas foram feitas no sentido de fornecer uma visão articulada e abrangente dos dados obtidos por essa historiografia. Importantes iniciativas foram empreendidas em estudos comparativos; mas, embora relevantes, mesmo o exemplo mais conhecido, o livro de Charles W. Bergquist’s Labor in Latin America: Comparative Essays on Chile, Argentina, Venezuela and Colombia1, oferece apenas uma visão parcial, excluindo dos seus estudos de caso dois dentre os três principais países da região.

Assim, um volume único sintético, escrito em linguagem clara e objetiva, abrangendo desde os tempos pré-coloniais até os desafios contemporâneos e ainda incorporando questões de gênero e raça, é um grande feito em si mesmo. Direcionado para um público leigo, ele fornece uma primeira aproximação às peculiaridades históricas assumidas pelas relações trabalhistas e de trabalho na América Latina. Por outro lado, disponibiliza ao público especializado uma competente versão historiográfica, ainda que mais atualizada em alguns aspectos do que em outros.

Além das utilidades práticas de uma visão tão abrangente, especialmente para o ensino e como obra de referência, ela também estimula a revisão de temas tradicionais sob nova luz. Isso é possível porque McCreery não apenas sintetizou as conclusões estabelecidas da pesquisa acadêmica, ele reuniu peças intrigantes e díspares produzidas por diversos acadêmicos e, guiado por uma perspectiva teórica bem definida, focou no desenvolvimento de “formas de mobilização e controle dos trabalhadores”.

O autor mostra como as mudanças que o capitalismo mundial testemunhou desde o século XV até o XX afetaram as formas pelas quais a América Latina se integrou a ele, mas ao mesmo tempo demonstra que, se os mecanismos para tornar o trabalho “disponível” por vezes sofreram transformações guiadas por mudanças sistêmicas, também continuaram a ser pautados pelo imperativo de maximizar a geração e a concentração de renda. Para a maior parte da história latino-americana, isso significou uma série de formas de trabalho forçado.

É também mérito de McCreery ter optado por uma compreensão mais ampla do tema, rejeitando visões tradicionais excessivamente focadas em trabalhadores urbanos e nas estruturas institucionais que definem seu lugar nos sistemas sociais latino-americanos. Ao contrário, o autor defende uma “história do trabalho”, a qual, segundo ele, expressa a experiência da maior parte do povo latino-americano em sua luta para sobreviver e prover seu sustento, em vez de uma “história do movimento dos trabalhadores” (labor history) focada em minorias e seu ativismo político. Trabalho, nessa perspectiva, pode englobar atividades tão distintas quanto operações de guerra, crime, prostituição, trabalho doméstico, burocrático e mendicância.

Se esta abordagem abrangente tem seus aspectos salutares e está em consonância com as tendências recentes de pesquisa, ela também apresenta alguns problemas e armadilhas. A noção de trabalho é cultural, como bem ilustrado pela discussão que McCreery apresenta sobre as diferentes percepções que os colonizadores e os nativos tinham a esse respeito. Os últimos, por exemplo, estavam acostumados com a experiência de empregar esforços físicos e intelectuais direcionados a alcançar algum resultado concreto, mas não compartilhavam dos valores relacionados à aquisição e acumulação inerentes à definição de trabalho dos primeiros.

Sensível a tal problemática cultural, o autor também mostra como os significados de trabalho em contextos históricos específicos são estabelecidos em grande medida em oposição ao que é definido como o seu contrário, como no caso das “leis de vadiagem”, cuja importância decisiva está bem demonstrada no livro. Isso leva a um paradoxo no qual muitas das “formas de ganhar a vida” incluídas por McCreery em sua concepção de uma “história do trabalho” foram definidas como não sendo formas de trabalho, mesmo por quem as praticava.

Além dessa dificuldade metodológica, pode-se ressaltar que, mesmo se o tema fosse definido de forma mais restrita seria difícil concretizar, em um breve livro, uma narrativa continental completa incluindo cinco séculos. Ao ampliar o escopo o autor necessariamente precisa se focar em alguns tipos de atividade social e somente em determinados períodos e regiões específicas. McCreery demonstra, por exemplo, que a guerra havia sido uma das principais formas de se ganhar a vida em Castile e que isso esclarece características importantes do imperialismo espanhol. Mas, ao contrário do que se poderia esperar da introdução do livro, ela não apresenta uma visão geral das operações de guerra como trabalho na história latino-americana.

Ainda em relação à opção de McCreery por uma história do “trabalho” (work history) em oposição a uma história do “movimento trabalhista” (labor history), deve-se acrescentar que a distinção não faz sentido em espanhol ou português, ou seja, na perspectiva das estruturas linguísticas que moldaram o universo cultural no qual a maioria dos povos latino-americanos se integrou à noção ocidental de trabalho ou emprego. É claro que, apesar desse limite em nossas ferramentas conceituais, os latino-americanos são capazes de entender a distinção entre, por um lado, a generalizada experiência social de sobrevivência em condições de exploração e, de outro, as estruturas institucionais envolvendo organizações representativas, a política, o estado e a lei.

McCreery está claramente ciente da interação entre ambos os aspectos da problemática trabalho/movimento dos trabalhadores, especialmente em sua análise do período colonial, onde enfatiza tanto as formas pelas quais o trabalho na América Latina era regulado pelos impérios espanhol e português, quanto as estratégias criadas por diferentes tipos de trabalhadores para resistir à opressão e negociar por melhores condições de vida e de trabalho. No entanto, o autor apresenta uma clara tendência a entender a participação política e a construção de organizações formalizadas como se fossem externas à experiência da classe trabalhadora (movimento trabalhista, não trabalho).

À medida que a narrativa se aproxima do século XX, essa dissociação provoca a reprodução de alguns estereótipos básicos típicos dos relatos clássicos nos quais os trabalhadores desempenham um papel passivo nas histórias nacionais e regionais. Os migrantes internos, nos diz McCreery, trouxeram para as metrópoles latino-americanas “ideias rurais tradicionais de deferência, hierarquia e paternalismo” (p.147), que foram exploradas em grande escala por líderes populistas carismáticos. Seria ingênuo negar que submissão, manipulação e acomodação são, em certa medida, parte da experiência dos trabalhadores latino-americanos. Mas os resultados dos extraordinários processos de industrialização e urbanização da região e a incorporação das massas na política moderna não podem simplesmente se reduzir a isso, como preconiza teoria do populismo, hoje desmoralizada academicamente.

Um dos efeitos mais poderosos do livro de McCreery é o de oferecer uma visão panorâmica das dimensões catastróficas assumidas pela opressão política e econômica diretamente associadas aos sistemas de controle dos trabalhadores impostos sobre os povos latino-americanos. Ele não fornece, na mesma medida, uma visão geral de como através de suas lutas, os trabalhadores, mesmo quando derrotados em seus objetivos finais, conseguiram discutir os significados do trabalho dentro de suas sociedades e construir identidades coletivas baseadas nos valores e símbolos que eles escolheram para atribuir às suas experiências políticas e sociais.

É verdade que muitas vezes essa “consciência de classe” não se encaixou em modelos de esquerda, e às vezes até mesmo as doutrinas nas quais as esperanças de mudança estrutural se baseiam na ação política dos trabalhadores têm tido dificuldades em estabelecer um diálogo com eles. De qualquer forma, sustentar que o anarquismo, em qualquer momento, foi “tão eficaz quanto os espiões da polícia em dividir e enfraquecer a solidariedade dos trabalhadores” (p. 133) ou que comunistas “na maioria dos países latino-americanos tiveram um papel pouco significativo na organização dos trabalhadores” (p. 141) contradiz fatos já bem demonstrados por muitas pesquisas. Também é totalmente injusto com milhares de ativistas que têm dedicado, e às vezes sacrificado suas vidas defendendo os direitos dos trabalhadores.

Há uma grande lacuna entre a experiência do trabalho na maldição bíblica referida pelo título do livro e as esperanças revolucionárias com as quais McCreery conclui. Transcendê-la é uma tarefa primordial para os trabalhadores latino-americanos e suas organizações. Escrever uma história do trabalhismo capaz de abranger todas as complexidades desse processo representa um desafio para muitos especialistas. O estímulo fornecido por este livro para o desenvolvimento da pesquisa e do debate na área torna-o indispensável para quem nutre uma ou ambas as inquietações.

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