REVISTA PRATICANDO CAPOEIRA: ENCONTROS, DESENCONTROS E PLURALIDADE IDENTITÁRIA NO CAMPO DA CAPOEIRA
REVISTA PRATICANDO CAPOEIRA: ENCONTROS, DESENCONTROS E PLURALIDADE IDENTITÁRIA NO CAMPO DA CAPOEIRA
Revista Prâksis, vol. 1, 2017
Centro Universitário Feevale

Resumo: Este artigo discute as tensões, encontros e desencontros entre as variadas formas de expressão da Capoeira, ou seja, os conflitos que se manifestam por conta da pluralidade existente no campo da Capoeira. Neste sentido, a Capoeira é entendida como ‘campo social’, conceito desenvolvido por Pierre Bourdieu (1996) e discutido neste texto. Pretendemos ampliar o conhecimento relacionado à Capoeira e o uso de revistas como fontes. As leituras das revistas foram feitas a partir dos conceitos de “lugar social” (1982) e “estratégia” (1998), de Michel de Certeau; já o recorte especifico, que foi as entrevistas, foi ponderada a partir do conceito de “campo social” de Pierre Bourdieu (1996).
Palavras-chave: Capoeira, Revista, Lugar social, Campo.
Abstract: This article discusses the tensions, meetings and disagreements between the various forms of expression of Capoeira, that is, the conflicts that are manifested by the Plurality in the field of Capoeira. In this sense, Capoeira is understood as 'social field', a concept developed by Pierre Bourdieu (1996) and discussed in this text. We intend to expand the knowledge related to Capoeira and the use of magazines as sources. The journals will be analyzed from the concepts of "social place" (1982) and "strategy" (1998), by Michel de Certeau; Already Capoeira, will be considered from the concept of "social field" of Pierre Bourdieu (1996).
Keywords: Capoeira, Magazine, Social place, Field.
1 INTRODUÇÃO
O objetivo deste artigo é desenvolver uma reflexão sobre a Capoeira por meio da leitura da Revista Praticando Capoeira, a fim de ampliar o conhecimento relacionado à prática dessa luta, buscando identificar a pluralidade identitária e problematizar a ideia predominante, no público não especialista, de uma Capoeira no singular. Para tanto, nos utilizamos de quatro revistas, tendo como recorte específico as entrevistas realizadas com mestres dessa prática. Os dados (as entrevistas) foram ponderados a partir de Pierre Bourdieu e seu conceito de Campos, ou seja, tratamos cada mestre como agente dentro do Campo da Capoeira, que estão em constante luta (simbólica) para defini-la a partir dos fundamentos de seus próprios grupos. Assim sendo, este artigo aponta que não apenas o campo da Capoeira é composto por uma heterogeneidade de concepções e valores, quanto esta diversidade é manifestada através de tensões, aqui apontadas como encontros e desencontros entre os discursos dos mestres de Capoeira.
A capoeira - como campo social - pode ser entendida como espaço de luta onde se distribuem agentes (capoeiristas) e instituições (grupos e associações). Estes agentes e instituições ocupam posições diferenciadas dentro deste espaço e lutam por troféus específicos. Sendo assim, a capoeira possui, não somente uma história em figura de personagem[1] que se desloca no tempo, mas tem uma história interna, onde há outros personagens e quase personagens. Desse modo, analisamos a Capoeira em seu enredo interno, observando que a pluralidade identitária é visível nos encontros e desencontros discursivos sobre a sua prática, ou seja, as diversas formas que os mestres concebem a Capoeira demonstram que esta não é um fenômeno singular, mas sim plural (cada mestre possui um tipo de identificação com ela). Assim sendo, analisamos a pluralidade da Capoeira por meio do conceito de campo proposto por Bourdieu, de modo a dar visibilidade às suas variadas formas de identificações.
Pensando nesta possibilidade - de um olhar diferenciado ao tema - foi que surgiu a ideia de uma pesquisa[2] sobre esta trama interna. No entanto, levantou-se a questão acerca de qual fonte utilizaríamos para a pesquisa. Foi então que as revistas de capoeira – das quais sou leitor desde 1999 - vieram contribuir para este estudo. O trabalho com revistas ainda é um acontecimento novo, porque foi graças à Escola de Annales, ainda em seu início, e o advento da Nova História Cultural que a história passou a incorporar novos objetos, como, por exemplo: a fotografia, a literatura, o alimento, etc.
Para fins desta pesquisa, tínhamos inicialmente planejado trabalhar com duas revistas de capoeira, as duas mais antigas e populares entre os capoeiristas: Praticando Capoeira e Capoeira. Porém, como houve uma série de dificuldades para obter exemplares da revista Capoeira, tivemos que optar por usar somente a revista Praticando Capoeira, da qual selecionamos 4 edições.
As revistas foram lidas a partir dos conceitos de “lugar social” (1982), “estratégia” e táticas (1998), de Michel de Certeau; já o recorte especifico, que foram as entrevistas, foram ponderadas a partir do conceito de “campo social” de Pierre Bourdieu (1996). As revistas não foram analisadas em sua totalidade de elementos, porque se focou, sobretudo, na seção de entrevista “Cara a cara com Mestre”, buscando por meio delas compreender o campo capoeirístico e como se dá o enredo interno.
A noção de “lugar” aparece de forma mais precisa na obra Escrita da História (1982), na qual Certeau argumenta que a historiografia é feita a partir da relação com um lugar, que ele chama de “lugar social”. Conforme Certeau (1982, p.65):
Toda a historiografia se articula com um lugar de produção socioeconômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração que circunscrito por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de observação ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Ela está, pois, submetida a imposições, ligada a privilégios, enraizada em particularidades.
Pensando a partir desta perspectiva de lugar social, é que encaramos as revistas de capoeira. Apesar de este termo ser aplicado à historiografia, sabemos que uma revista ou um jornal também possui seu lugar social, e seu conteúdo é determinado pelo coletivo estabelecido neste espaço, o qual se torna um lugar. Vale ressaltar que para Certeau, um espaço só se torna um lugar quando ele é ocupado por pessoas. Assim, entendemos que o lugar social da revista Praticando Capoeira só é um lugar por ter um espaço ocupado por pessoas, que consiste no corpo editorial. Conforme Certeau (1989 apud REIS, 1998, p. 2001) “Um lugar é [...] uma configuração instantânea de posições. Implica uma relação de estabilidade.”
O conceito de estratégia e tática foi proposto por Certeau, em sua obra Artes de fazer: invenção do cotidiano, onde ele explana que a estratégia é a manipulação dos significados (que pode ser a escrita) vindo de um lugar (que pode ser uma revista), que tem nos receptores (os consumidores) seus alvos a serem atingidos, de modo a construir os sujeitos a partir desses lugares. Conforme Certeau:
Chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações como uma exterioridade de alvos ou ameaças. [...] o “próprio” é uma vitória do lugar sobre o tempo. Permite capitalizar vantagens conquistadas [...] é o domínio do tempo pela função de um lugar autônomo (CERTEAU, 1998, p. 99).
Até então se pensava os consumidores como passivos, que só recebiam informações. No entanto, Certeau traz o conceito de tática, que é a idéia de um não lugar, onde os consumidores, por não possuírem um lugar, buscam no campo inimigo seu lugar, e dali que estabelecem o jogo, dando novos horizontes aos produtos de consumo. Certeau expõe que a tática é “a ação calculada que é determinada pela ausência de um lugar próprio” (1998, p.100), ou seja, a tática está em um não lugar e, por isso, “deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como organiza uma lei de uma força estranha” (1998, p.100). Assim sendo, por meio desse jogo dentro do campo do adversário (as revistas) o consumidor (o capoeirista) dará novos sentidos ao material de consumo, por meio das apropriações.
O conceito de campo, segundo Bourdieu (2003, p.120):
Define-se entre outras coisas definindo paradas em jogos e interesses específicos, que são irredutíveis às paradas em jogo e aos interesses próprios de outros campos (não se pode fazer correr um filósofo com as paradas em jogo dos geógrafos) e que não são percebidos por alguém que não tenha sido construído para entrar nesse campo (cada categoria de interesses de interesses, outros investimentos, assim votados a serem percebidos como absurdos, insensatos, ou sublimes, desinteressados). Para que um campo funcione, é necessário que haja paradas em jogo e pessoas prontos a jogar esse jogo, dotados do habitus que implica o conhecimento e o reconhecimento das leis imanentes do jogo, das paradas em jogo, etc.
Em suma, o campo é o espaço caracterizado pela distribuição de agentes, que estão em constante luta. Os agentes (capoeiristas) e instituições (grupos e associações) ocupam posições diferenciadas dentro deste espaço (graduações, hierarquias, etc.) e lutam por troféus específicos. Assim sendo, buscamos encontrar a luta simbólica entre os mestres por meio das entrevistas, bem como mostrar a pluralidade identitária dentro do campo da Capoeira.
2 Breve História da Capoeira
A capoeira que nasceu como resistência negra contra europeus, especificamente portugueses, e que foi considerada ilegal, veio ao longo da história abrindo espaço para o reconhecimento como cultura brasileira legitima. Em 2000 foi criado o Programa Nacional de Patrimônio Imaterial ampliando o conceito de patrimônio dentro do Estado brasileiro. Desta forma, abriram-se novos horizontes para capoeira, pois ela veio a ser reconhecida pelo IPHAN, em 20 de novembro 2008, como Patrimônio Nacional, e como patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 26 de novembro de 2014.
Conforme Macul (2008), a capoeira está envolta em grande mistério relacionado à sua origem, de tal modo que surgem três teorias para explicar o seu nascimento. Uma delas diz que a capoeira nasceu na África; outra diz que a capoeira nasceu em solo brasileiro, desenvolvida e aperfeiçoada entre nós brasileiros; já outros, como o próprio mestre Bimba, defendiam que a capoeira era afro-brasileira. Segundo Macul (2008, p.52), Mestre Bimba afirmava que “os escravos sim, eram africanos, mas a capoeira é de Santo Amaro e Ilha de Maré camarado”. Essa teoria é a mais aceita por grande parte dos estudiosos da capoeira. Mestre Sergipe (2008) também segue esta linha. Para ele, a capoeira nasceu de uma simbiose de danças ritualísticas de origem africana, como o N’golo e a cultura indígena, sendo que o próprio nome capoeira carrega traços da língua Tupi-guarani. O vocábulo Capoeira teria sido registrado pela primeira vez no Brasil em um livro de gramática guarani, de autoria do Padre José de Anchieta, em 1595, intitulado A arte da Gramática da Língua mais usada na Costa do Brasil, onde, para dar um exemplo de concordância verbal, o autor cita a seguinte frase: “Os índios Tupi-Guarani se divertiam jogando Capoeira” (VIEIRA, 1997, p. 25).
Autores como Carlos Eugênio Líbano Soares focaram seus estudos no século XIX e conseguiram fazer levantamentos importantes, seja por meio da literatura ou por meio de arquivos policias da época. A capoeira, a partir de 1850, passa a incorporar - além dos negros e escravos – também os libertos e brancos, o que acaba por contribuir para a visibilidade desta arte, que ainda na época era vista com maus olhos. Segundo Fonseca:
Majoritariamente negra e escrava no início do século XIX, a partir de 1850 seu perfil se alarga, passando a abarcar livres e libertos, contando ainda com uma grande parcela de mestiços e, no último quartel, principalmente, brancos – brasileiros e estrangeiros – além de contar com capoeiras oriundos não somente das classes menos favorecidas, como também membros da elite, como é o caso de Juca Reis, filho do Conde de Matosinhos (FONSECA, 2008, p. 3).
É, sobretudo, nos arquivos policiais que se encontram grande parte dos documentos a respeito da capoeira, relacionadas ao século XIX, logo que no dia 11 de outubro de 1890, havia sido decretada a lei onde a capoeira tornava-se oficialmente proibida. Denominada de lei “DOS VADIOS E CAPOEIRAS”, trazia em seu Artigo 402 que “Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal, conhecido pela denominação de capoeiragem […] Pena: prisão celular de dois a seis meses” (SOARES, 2004, p.775).
Já no século XX os estudos e as fontes tornam-se mais numerosas, devido à uma série de mudanças dentro do próprio Estado brasileiro, pois a capoeira foi descriminalizada em 1934, saindo do Código Penal, através da ação de Getúlio Vargas, o então presidente da República. Com estas mudanças, a capoeira passou a ganhar mais visibilidade. Vargas, governante caracterizado como populista (BRESSER-PEREIRA, 2009, p. 01), viu na capoeira uma forma de obter apoio popular. Conforme Mestre Sergipe (2006), em seu livro O Poder da Capoeira, depois que esta foi oficialmente descriminalizada, houve o registro da primeira academia de capoeira: a academia de mestre Bimba em Engenho Velho de Brotas. Pouco depois, a capoeira seria introduzida na Confederação Brasileira de Pugilismo.
Contudo, em 1992 após a criação da Confederação Brasileira de Capoeira, ela foi retirada da Confederação Brasileira de Pugilismo, por iniciativa de alguns capoeiristas de São Paulo, acreditando ser melhor manter ela dentro de sua própria confederação. Na mesma época, houve a criação da Associação Brasileira de Professores de Capoeira, cujo objetivo era promover a padronização do sistema de graduação.
A capoeira, tal qual conhecemos hoje, está estritamente ligada a duas figuras importantes no mundo da capoeira: Mestre Bimba e Mestre Pastinha. Estes dois Mestres foram os norteadores da capoeira, levando-a a um patamar que transcendeu o enquadramento da marginalidade da capoeiragem.
2.1 Mestre Bimba e Mestre Pastinha
Mestre Bimba foi aluno de Bentinho, um “capitão da Companhia de Navegação Baiana”, do qual Bimba falava com admiração reportando-se à extraordinária habilidade no capoeirar” (CAMPOS, 2009, p.116). Pastinha dizia que naquela época “a polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado”. Segundo Pires (2004 apud MACUL, 2008) a perseguição e os castigos aos capoeiristas pegos em flagrante eram bastante cruéis - um dos castigos era amarrá-los pelos punhos no rabo de dois cavalos e arrastá-los até o quartel.
Foi em 1937 que a capoeira passou a ser treinada dentro daquilo que é considerada prática esportiva. Mestre Bimba criou, justamente nesse ano, o Centro de Cultura Física Regional da Bahia, onde desenvolveu um método e um sistema de ensino da capoeira Regional que a diferenciou de todas as capoeiras existentes até então. Ele o fez exatamente com a ideia de transformar a capoeira, arrancá-la daquela caricatura marginalizada e lançá-la no patamar de arte desportiva disciplinada. A capoeira Regional bebe da fonte da capoeira Angola, pois Mestre Bimba era antes de tudo um angoleiro, e o que ele fez foi introduzir no jogo de Angola elementos do batuque, uma dança africana praticada por seu pai. Também nas novas mudanças introduziu mais velocidade dentro do jogo, o qual deixa de ser rasteiro, e o toque do berimbau deixa de ser de angola passando a ter o toque de regional.
Mestre Bimba introduziu regras para os praticantes da capoeira Regional, como, por exemplo, não usar bebidas alcoólicas ou cigarro, dentre outras. A capoeira Regional passou a chamar a atenção, tanto que por ocasião de uma visita do Presidente Getúlio Vargas à cidade de Salvador, Bahia, Mestre Bimba foi convidado a fazer uma demonstração, após a qual Vargas teria proferido a frase “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. Depois disto, a capoeira foi retirada do Código Penal, vindo a tornar-se um elemento cultural do país. Pode-se dizer que Mestre Bimba teve uma importância muito grande do ponto de vista de aberturas para a cultura negra.
Mestre Pastinha, logo após Bimba ter fundado sua academia, também criou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, em 1941. A capoeira de Mestre Pastinha, conhecida como capoeira Angola, se caracteriza por movimentos mais lentos, ritualísticos, lúdicos e como uma capoeira mais tradicional, ligada às origens.
Essas duas primeiras academias abriram portas para o surgimento de inúmeras outras. Aos poucos foi nascendo toda uma metodologia de ensino, mesmo que contraditória entre as academias.
A Capoeira Angola, na década de 1970, passou por grande crise, porque uma série de Mestre se aposentou, alguns adoeceram e teve início a diáspora da capoeira para o mundo, que culminou em um esvaziamento na capoeira nacional. Para Nascimento:
É a partir da década de 1970, que o refluxo iniciado em 1930, vai se fazer sentir de forma mais contundente, com a extinção de muitas rodas, muitos mestres se aposentando (da Capoeira), desmotivados pela falta de incentivo e interesse popular pela Capoeira Angola, outros ainda ficando doentes e desassistidos (NASCIMENTO, 2007, p.13).
A capoeira Angola, em 1980 se recuperou pelas mãos de um aluno de Mestre Pastinha, o Mestre Moraes, o qual criou, no Rio de Janeiro, o GCAP (Grupo de Capoeira Angola Pelourinho) e passou a divulgar a capoeira no Rio de Janeiro, Bahia e no Sul do país.
Desde 1970 a capoeira começou a ser levada para o exterior; sendo que, por volta de 1990, o movimento capoeirístico intensificou-se lá fora. Hoje já podemos dizer que há uma globalização da capoeira, pois, conforme Mestre Sergipe (2006), pode-se encontrá-la em mais de 164 países.
Mestre Bimba e Pastinha, mesmo tendo sido os principais nomes mantenedores da capoeiragem, tiveram fins tragicamente parecidos. Ambos os mestres morreram na miséria, completamente abandonados pelo Estado.
Embora em nossos dias a capoeira seja praticada em todos os Estados brasileiros e já tenha dado a “volta ao mundo”[3]; ainda enfrenta uma série de problemas relacionados a ela e à forma de relacionamento que existe entre Estado e capoeira (por exemplo, tentativa de “civilizar” e tornar a capoeira homogênea, para ser instalada como esporte olímpico), sociedade e capoeira (os preconceitos contra a capoeira) e mesmo entre capoeira e capoeira (as violências físicas entre capoeiristas de grupos diferentes).
2.2 Capoeira contemporânea e a Somaterapia
A capoeira denominada contemporânea, qual mescla elementos do jogo de Angola e Regional, vinculou as duas tradições de capoeira e também incorporou o break dance[4] e lutas orientais. Vale salientar que o break já havia se encontrado - por meio de Mestre Jelon - com a capoeira em 1975, recebendo variadas influências (CASTRO, 2007).
Há também a Somaterapia, qual foi criada por Roberto Freire nos anos de chumbo. A Somaterapia utiliza a capoeira Angola como forma de canalização de energias negativas e neuroses provocadas pelos processos de mecanização do mundo contemporâneo.
Roberto Freire, depois de entrevistar Mestre Pastinha para a revista Realidade, viu nos fundamentos da capoeira Angola e na forma de atuação do capoeirista na roda, um terreno fértil para trabalhar dentro da Soma. Para Silva (2015, p. 244), a primeira ideia de incorporar a capoeira no processo de desencouraçamento (conceito reichiano referente à libertação das neuroses por meio do corpo) vincula-se ao trajeto jornalístico de Freire, já que, no ano de 1967 ele entrevistou Mestre Pastinha e ficou realmente impressionado com sua humanidade. Conforme Roberto Freire e João da Mata (1993, p. 18):
A capoeira Angola foi definitivamente incorporada à Soma quandose constatou a importância de um trabalho corporal mais constante e eficaz para ajudar na descronificação da couraça muscular e na economiaenergética necessária para enfrentar a neurose.
No entanto, a capoeira não se limita, logicamente, à capoeira Angola, Regional, contemporânea e a terapia de grupo, criadas por Roberto Freire. Pois é fato que a capoeira é vasta e plural. O número de capoeiras é proporcional ao número de grupos, e porque não dizer ao número de capoeiristas, uma vez que os estilos variam de capoeirista a capoeirista.
A capoeira de rua quase sempre é esquecida e marginalizada, mas sabemos que mesmo com a criação das duas escolas, a Regional e Angola, a capoeira dita marginal prosseguiu de forma paralela. E ainda hoje a capoeira de rua persiste, porém como ela é um campo que foge as instituições, não se tornou grande alvo dos pesquisadores.
A explosão demográfica da capoeira e a formação de mestres e grupos fizeram com que a capoeira ganhasse uma enorme pluralidade. Mesmo sendo perceptível em todas as capoeiras elementos básicos que a diferenciam de outras artes, podemos dizer que não há homogeneidade, nem na forma de jogo e nem nas suas filosofias. Existe uma série de diferenças, algumas provocando confrontos simbólicos e, em casos mais graves, confrontos físicos.
As diferenças estão, desde a forma de graduação, passando pelas vestimentas, formas de jogo e até nas formas de organizar os instrumentos. A capoeira tem cada dia mais se pluralizado, pois cada grupo cria seu próprio mito de origem oferecendo aos adeptos uma identidade única que os diferencia de outros grupos de capoeira.
3 REVISTA PRATICANDO CAPOEIRA, SEU LUGAR SOCIAL E SUAS ESTRATÉGIAS
A revista Praticando Capoeira possui estratégias especificas, por se tratar de um público especifico. Diferente de uma revista que atende o povo em geral, ela prioriza o capoeirista e é para ele que ela se dirige. A estratégia está estritamente ligada ao seu lugar social e para quem ela se dirige. Uma revista é formada por um corpo editorial e sua elaboração é sempre produto desse corpo, sendo assim, podemos tratar a revista Praticando Capoeira como produto determinado por seu lugar social. Esta concepção de lugar social é trazida de Certeau, em que ele comenta sobre o lugar social do discurso histórico, sendo a escrita da história sempre um produto de uma instituição, tirando qualquer possibilidade de uma escrita solitária, tendo como denúncia do lugar social o “nós” em sua escrita.
Conforme José Carlos Reis, ao comentar sobre Michel de Certeau, “A verdade histórica não se refere a um além filosófico, exterior a um lugar tempo determinado. Esse lugar-tempo é uma sociedade, uma política, uma instituição. A pesquisa histórica é uma prática enredada nesses lugares” (2006, p. 170). A partir dessa perspectiva, podemos, além de olharmos para o lugar social dos historiadores, olhar também para publicações dirigidas a outros públicos, como o caso da revista Praticando Capoeira e tratá-las como lugar social, onde um conjunto de ideias a respeito da capoeira, com um gesto de quase historiador, foi levada e sistematizada para leitores do campo capoeirístico; porque, conforme Certeau (apud REIS, 2006, p. 170) “toda ideia emerge de um lugar; o gesto de historiador é aquele que leva as ideias ao seu lugar”.
A revista Praticando Capoeira nasceu no ano de 1999, através da editora D+T LTDA, e desde então tem havido muitas publicações, todas esporádicas. Por meio das informações da contracapa da revista e contato, via e-mail, com a própria editora, obtivemos algumas informações relevantes para compreender o lugar social da revista.
Segundo Letícia Cardoso de Carvalho, o corpo editorial da revista Praticando Capoeira era formado por três pessoas: Denise de Oliveira Freire, que era a Jornalista responsável e conforme Letícia “ela só assinava com o MTB, pois trabalhava em outras publicações da Editora D+T.”; Letícia Cardoso de Carvalho, Editora chefe da Praticando Capoeira. Conforme a própria, ela era “a única capoeirista do corpo editorial. Sou formada em Comunicação Social com especialização em Relações Públicas pela Fundação Armando Álvares Penteado, conhecida por FAAP. Em 1998, meu trabalho de conclusão de curso foi sobre capoeira. Em 1999, o Mestre do grupo em que treinava apresentou-me aos proprietários da Editora D+T, que no momento buscavam uma editora para a segunda edição da Praticando Capoeira. Segundo ela as vendas foram um sucesso e fiquei até 2008. O terceiro integrante do corpo editorial era Rodney Marcelo Borges, que era o diagramador e trabalhava para melhorar a qualidade das fotografias”.
A editora D+T, segundo Letícia, possuía dois proprietários: José Eduardo Teixeira, que dava a letra T para o nome da editora D+T; e Rogério Vieira Dias, a letra D.
Aqui fica perceptível o lugar social feminino da revista Praticando Capoeira, e esse lugar nos elucida o porquê da seção “Na roda com a mulher”, onde, a cada edição é realizada uma entrevista com uma capoeirista e é discutida a importância e as dificuldades da mulher dentro do campo capoeirístico. Segundo Letícia Cardoso de Carvalho:
As seções Cara a Cara com o Mestre e na Roda com a Mulher foram seções criadas posteriormente à segunda edição (para oferecer um pouco de novidade aos leitores). Procurávamos capoeiristas que tivessem certa notoriedade. Aceitávamos sugestões de leitores, capoeiristas e discutíamos se seria interessante tal pessoa naquela publicação.
Logicamente – e pela mentalidade da sociedade patriarcal brasileira - seria mais difícil - caso o corpo editorial fosse formado só por homens - uma seção direcionada para o público feminino (mesmo com sugestões de leitores). Se tivéssemos no corpo editorial da revista um homossexual, provavelmente teria uma seção para esse público e assim por diante.
Em relação ao trabalho com gênero, existe um estudo sobre a presença da mulher na capoeira, por meio da revista Praticando Capoeira, elaborado por Leitão (2004), mas ainda existe muito a ser discutido naquilo que diz respeito às “relações de gêneros” dentro do Campo capoeirístico.
As estratégias da revista é atingir um público variado, por isso a variedade de elementos dentro da revista. São abordadas desde questões históricas a assuntos banais do mundo da capoeira, e isso, provavelmente, é com o intuito de alcançar um grande público de capoeirista. Já a capa, que é a primeira coisa que o leitor vai ver, em todas as edições aqui trabalhadas são apresentadas fotografias dos grandes mestres que participam daquela edição; sempre os mestres de grande renome. Aqui há, é claro, uma espécie de marketing, pois os capoeiristas, quase que todos, se interessam pela sabedoria dos grandes mestres. Eles são os guardiões da memória; e, por conseguinte a lembrança junto à titulação de mestre acrescenta a eles um capital simbólico necessário para dizer “o que é a capoeira” ou o “que ela deveria ser”. Contudo, vale frisar que os mestres de capoeira não estão em pé de igualdade com seus pares, pois nem todos possuem o mesmo capital simbólico; aqueles que possuem mais história dentro da capoeira ou possuem uma ligação mais próxima dos grandes mestres (Pastinha e Bimba), logicamente vão deter mais capital e, por conseguinte, terão mais potência para o embate dentro do campo capoeirístico.
O leitor comprará a revista induzido pelo marketing; mas, contudo, no que diz respeito à leitura, ao abrir a revista, o capoeirista poderá ter três, pelo menos, atitudes perante a leitura: a primeira, de ler somente aquilo que a revista indicou anteriormente na capa; a segunda, de dar uma olhada rápida nas imagens e fotografia; e, por terceiro, ler ela toda. Essas três atitudes, mesmo a primeira que parece ser mais passiva, irão configurar o texto e dar vida a ele, uma espécie de terceiro tempo; o tempo da consciência, aquilo que Paul Ricoeur chamaria de mimese III[5]. Contudo, é sempre uma leitura a partir da revista, apesar da leitura se fazer por uma relação de força (texto e leitor); ainda assim, são perceptíveis as marcas da revista sobre a mentalidade do capoeirista e capacidade de, por meio dos agentes que nelas lutam, configurar o Campo capoeirístico.
A intenção da revista é, além de levar informações históricas sobre a capoeira, levar informação sobre a luta simbólica que ocorre na capoeira dentro do tempo presente. Ela aparece como o narrador de um jogo, e ao levar os dados ao capoeirista ela acaba por contribuir para a reconfiguração do Campo capoeirístico.
4 ORGANIZAÇÃO DAS REVISTAS
De todo o montante de revistas publicadas, optamos por quatro, escolhendo uma de cada ano, que vão de 2004 até 2008, pulando o ano de 2007, que não conseguimos adquirir. A revista de 2005 é da editora Red Sun Grupo Editorial, porém não houve alterações no formato; isso devido ao corpo editorial que continuou basicamente o mesmo, conforme as informações contidas na própria revista.
Por se tratar de um periódico esporádico, não existem datas de publicações e a única forma de datá-las é através da seção ‘Palavras do Editor’ e pelas datas de eventos divulgados etc.
A Revista ANO II – Nº 25 foi publicada em 2004. Chegamos a esta conclusão devido à seção ‘Palavras do Editor’, que informa o aniversário de cinco anos da revista; como sabíamos que a revista nasceu em 1999 foi fácil datá-la. Além disso, ainda havia os eventos, que datavam o ano de 2003 e 2004, o que possibilitou a confirmação do ano.
A Revista ANO III – Nº 29 teve sua publicação em 2005, pois o título da seção ‘Palavras do Editor’ é “Feliz 2005!!!!!”, e o texto ainda indica que sua publicação foi após o carnaval. A hipótese do ano se confirma com a seção ‘Mercado e a Calendário’.
A Revista ANO III – Nº 37 é de 2006, e a datação foi novamente conseguida através da seção ‘Palavras do Editor’, que informa o aniversário de 60 anos de mestre Nestor Capoeira, nascido em 1946. A data novamente se confirma através da seção ‘Mercado e Calendário’.
A Revista ANO IV – Nº43 constatamos e concluímos como data de publicação, o ano de 2008. Chegamos a esta conclusão, novamente foi por meio da seção ‘Palavras do Editor’, que comenta sobre os nove anos de existência da revista. E a seção ‘Mercado’, por meio das datas de eventos, nos confirma o ano de 2008.
5 LUTA DE MESTRES NO CAMPO CAPOEIRÍSTICO
A capoeira, desde que começou a ser documentada, vem se mostrando das mais variadas formas e definições. A capoeira já foi e ainda é definida como vadiagem, banditismo, arte, dança, luta, religião, filosofia de vida etc. A busca pela melhor definição de capoeira é uma luta constante dentro do meio capoeirístico. Em relação à definição da capoeira, podemos ver diversas concepções.
Com a análise das entrevistas que faremos a seguir, notaremos que cada grupo de capoeira tem sua concepção do que seria a capoeira, e cada grupo tentará defender a sua concepção de tal forma que pareça a mais correta. Deste modo, cada grupo acabou por fazer sua própria configuração; e cada grupo luta para que sua configuração seja reconhecida, em alguns casos como a melhor e, como veremos, os grupos acabam por criar uma identidade própria, uma capoeira própria. Assim sendo, passamos para a leitura e contextualização das entrevistas.
• Revista ANO II – Nº 25
A edição nº 25, assim como as outras três selecionadas para este estudo, possui 50 páginas[6]. A capa apresenta duas fotos: uma de Mestrando Morcego, do Grupo Abadá e outra de Mestre Suassuna, do Grupo Cordão de Ouro. Na parte superior vemos o preço da Revista e a informação de que vem em anexo com a revista um CD inédito de Mestre Suassuna.
Neste exemplar da revista é possível perceber uma pluralidade de identificação com a capoeira por meio das variadas seções. A seção Cara a Cara com o Mestre, por exemplo, traz uma entrevista com Mestre Miguel do Grupo Cativeiro.
Leitão (2004) conta que Mestre Miguel Machado é um dos fundadores do Grupo Cativeiro. Esse grupo nasceu objetivando a integração social e com intuito de aceitar todas as diversidades socioculturais, tendo como lema “ninguém deve ser cativo de ninguém”. Para dar uma referência cultural e reafirmar a cultura negra, o Grupo Cativeiro, criou uma graduação baseada nas cores dos orixás. O Grupo Cativeiro nasceu no contexto de redemocratização, entre os 1970 e 1980, em São Paulo, com uma forte reafirmação da cultura negra e grande elo com os símbolos e costumes do Candomblé (ALBUQUERQUE, 2012).
A seção inicia informando o leitor que a cada edição trará uma entrevista com um mestre de renome, que responderá treze questões polêmicas, sempre as mesmas em todas as edições. Por serem questões fixas, elas acabaram por facilitar pouco mais a leitura, a identificação das lutas entre os agentes e as variadas formas de identificações com a capoeira.
Mestre Miguel, quando questionado sobre a eficácia da capoeira perante outras lutas, respondeu que a capoeira se diferencia das outras lutas por se tratar de uma luta do fraco contra o forte. Segundo ele,
A capoeira tem uma eficácia que eu acho muito importante... algo que as outras lutas não têm. A capoeira, filosoficamente, é a luta do fraco contra o forte, do oprimido contra o opressor. Na capoeira não tem confronto direto. Na capoeira você não detecta qual o golpe que o outro vai aplicar. Isso são valores de uma luta, ou de um esporte, que eu acho de fundamental importância. Toda técnica corporal tem que estar vinculada à cultura de um povo (Mestre Miguel, Revista Praticando Capoeira, 2004, p. 8).
Percebemos que mestre Miguel faz um esforço para definir a capoeira em contraposição às outras lutas. Por isso ele se refere a “algo que as outras lutas não têm”.
Mestre Miguel nos leva, por meio de sua fala, a pensar as outras lutas como campo fechado às pessoas fracas, o que acaba favorecendo a capoeira e trazendo pessoas dos biótipos mais plurais. Percebemos que a capoeira, na concepção de Mestre Miguel, tem uma identidade de resistência, originada em uma tradição, na qual a capoeira se vincula na luta pela libertação dos negros. Aqui podemos ver que, para Mestre Miguel, existe uma contraposição entre a capoeira, a qual possui uma tradição e as outras lutas, que não possuem, estando presos na modernidade, sem um vínculo com o passado. Para reforçar a ideia da capoeira como luta do povo, vinculada a uma tradição, e ao mesmo tempo contestar as outras lutas (às quais ele se refere como de técnica corporal, de modo a colocar a capoeira defronte a todas as artes corporais), ele diz que “toda técnica corporal tem que estar vinculada à cultura de um povo”. Assim sendo, a capoeira como cultura popular ficaria em um patamar mais alto do que o boxe, balé etc.
Percebemos aqui uma exposição das regras que regem a capoeira, ou pelo menos a capoeira de seu grupo. Ao mesmo tempo em que ele entra como agente em luta dentro do campo das lutas, definindo a capoeira como uma técnica corporal mais eficiente e coerente, ele também entra em luta com seus pares, pois existem muitos grupos de capoeira que não veem a capoeira desta forma. A luta com seus pares ganha mais clareza quando ele é questionado sobre a alteração do biotipo do capoeirista, que estaria “aumentando em muito a massa muscular em comparação com os tempos de origem da capoeira”. Em relação à alteração do biotipo do capoeirista, Miguel responde que:
Deve-se respeitar a individualidade e as características do aluno, hoje em dia não estão respeitando essas características físicas do aluno. Estão colocando uma sobrecarga de peso muito forte no aluno que pode prejudicar as articulações, dar problema de coluna...[...] a capoeira é a luta do fraco contra o forte, do oprimido contra o opressor. Além do mais, esse físico não funciona no aspecto da lutapois o que a gente está vendo na prática é que essas pessoas que dão ênfase apenas às questões biológicas, como força muscular, não vão às rodas sozinhas, só andam de galera (Mestre Miguel, Revista Praticando Capoeira, 2004, p. 8).
Para Miguel existem grupos que estão forçando o aluno a alterar o biotipo natural de seu corpo e isso estaria ferindo as individualidades. A afirmação de que “hoje em dia não estão respeitando essas características físicas do aluno” mostra que, para Mestre Miguel, existe uma tradição de respeito às individualidades dos alunos. Sendo assim, para ele, a capoeira de hoje em dia, a moderna, está em embate com uma tradicional. Em suma, aqui vemos novamente o embate entre a modernidade e a tradição, uma tradição de liberdades individuais e uma modernidade de imposição de regras ao capoeirista, inclusive ao seu corpo.
Ele também reforça a sua definição de capoeira dizendo novamente que a capoeira é a luta do fraco contra o forte, ou seja, não há necessidade alguma na alteração do biotipo do aluno, frisando que o esforço pela mudança do biótipo pode ser prejudicial para a saúde.
É interessante perceber que a sua fala termina com um tipo de denúncia irônica, onde ele dá a entender que existem conflitos entre os capoeiristas de grupos focados nas questões dos biótipos, os quais, no entanto, não conseguem ser bons de forma individual, pois “só andam em galera”. É uma forma de, ao mesmo tempo desqualificar os grupos focados na questão do biotipo, e fazer com que outros não passem para este tipo de grupo, pois seriam alvo de chacota, já que seria necessário “andar em bando”.
• Revista ANO III Nº 29
Nesta revista, encontramos uma perspectiva diferenciada sobre a capoeira, se afastando um pouco daquilo que Mestre Miguel compreende por capoeira. Na seção Cara a Cara com o Mestre foi Mestre Suíno o entrevistado. Mestre Suíno é presidente e fundador do Grupo Candeias, conforme o site Portal Capoeira. Segundo Milani (2008), ”o Grupo Candeias se caracteriza mesmo por ser simples, humilde, amigo, de paz e hospitaleiro, mantendo boas relações com todos e expressando, continuamente, sua grande gratidão aos mestres que o ajudaram no início.
Em relação à capoeira Mestre Suíno (2005, p 7) deixa claro que:
A capoeira, na minha opinião, não é luta arte marcial. Creio que não se deve comparar a capoeira com outras lutas. Defesa pessoal é apenas mais um aspecto que podemos explorar, mas não é a mais importante. [...] vários estudos têm colocado a capoeira como um dos melhores esportes, perdendo para a natação, que eu questiono. A capoeira enquanto esporte cultural tem exuberante acervo de informações, sua riqueza simbólica e seus movimentos de resistência. Os currículos educacionais também têm explorado de maneira efetiva os elementos da capoeira, que assim, portanto, contribuem para instrução e a educação crítica do povo brasileiro (Mestre Suino, Revista Praticando Capoeira, 2005, p. 7).
Para Mestre Suíno, a capoeira é rica demais para pensarmos nela somente como luta. Deste modo, ele destaca a questão cultural e histórica, e considera a capoeira como um livro que ensina. Este modo de pensar a capoeira vai na contramão de muitos grupos que não pensam muito em seus aspectos históricos e valores pedagógicos, como Suíno frisa no final de sua fala. Além desta luta interna entre ele e outros agentes discordantes, podemos ver uma luta no campo social do esporte, quando ele frisa que “vários estudos têm colocado a capoeira como um dos melhores esportes, perdendo para a natação, que eu questiono”.
Em relação ao biotipo, Mestre Suíno frisa que “na capoeira, era esperada essa mudança de biotipo, pois o perfil do praticante de capoeira iria com certeza, mudar com o tempo; [...] a forma da mudança do biotipo é que, em alguns casos, é condenada, como é o caso de quem usa substâncias consideradas doping (2006, p. 8). Portanto, enquanto Mestre Miguel afirma que “hoje em dia não estão respeitando essas características físicas do aluno”, tentando mostrar que nem sempre foi assim, e antes era melhor, Mestre Suíno já vê as mudanças como esperada, ou seja, sem um grande apego à tradição.
• Revista ANO III – Nº 37
Esta revista traz, na seção Cara a Cara com o Mestre, uma entrevista com Mestre Bamba (Rubens Costa Silva), responsável pela ACMB (Associação de Capoeira Mestre Bimba). Conforme o site Soul Capoeira (CHAN, 2008):
A Associação de Capoeira Mestre Bimba fica localizada na Rua das Laranjeiras nº1, último lugar da Bahia onde Mestre Bimba ensinou. Mestre Vermelho, 27, depois que Mestre Bimba partiu para Goiânia, teve a honra de assumir a responsabilidade da escola. E Rubens Costa Silva, o Mestre Bamba, foi homenageado com a responsabilidade de cuidar da escola quando Mestre Vermelho faleceu.
Para Mestre Bamba, a capoeira é uma modalidade ampla, pois mexe com o cérebro e com todos os músculos do corpo. Conforme Bamba (2006, p. 7):
Vejo a capoeira como uma modalidade muita completa. Quanto a sua eficácia percebo que trabalha todos os grupos musculares. A prova é a ginga; se o indivíduo resolver que vai só gingar vai suar bastante; é verdade que bem menos do que uma pessoa que estará fazendo movimentos acrobáticos, mas vai suar, porque aliado à eficácia tem as movimentações, a manha, a malicia, o improviso, o teatro... Tudo isso mexe com os músculos e o cérebro (Mestre Bamba, Revista Praticando Capoeira, 2006, p. 7).
Em relação ao biotipo do capoeirista, Mestre Bamba diz que: “ficar forte é bom sim. Veja o pessoal do remo, do alpinismo, tem muita gente grande e musculosa, porém sem anabolizante pois o final a gente já sabe qual é: câncer” (2006, p.8). Percebemos aqui que Mestre Bamba vai ao desencontro com o discurso de Mestre Miguel e de encontro com Mestre Suíno, em relação à mudança de biotipo.
• Revista ANO IV - N º 43
Esta edição traz na seção Cara a Cara com o Mestre, uma entrevista com Mestre Mão Branca do Grupo Capoeira Gerais. Conforme site do grupo Capoeira Sul da Bahia, de San Francisco:
William Douglas Guimarães, Mestre Mão Branca, nasceu em Belo Horizonte no dia 14 de abril de 1960 e começou a jogar Capoeira, em meados dos anos 70 com Mestre Jacaré, que treinou por um ano antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Sua formação foi com Mestre gigante, qual treinou por muitos anos. E foi nesse momento que, em um dia frio quando ele jogou em uma Roda de luvas brancas, que ele ganhou o apelido de "Mão Branca".
Mestre Mão Branca se diferencia dos entrevistados das edições dos anos II e Ano III, aqui analisadas porque, para ele, não existe uma luta melhor que outra. Adotando tal postura, ele não se insere, ou ao menos evita se inserir, na luta no campo social das artes-marciais. Em suma, ele não leva a capoeira para o campo de luta na figura de agente; outros o fazem, mas Mestre Mão Branca parece não estar interessado neste confronto. Mestre Mão Branca deixa claro que não se interessa pela luta da capoeira em relação às outras artes marciais. Ele diz que “temos na história capoeiristas que venceram outros lutadores de outras artes marciais, mas temos também aqueles que perderam. Então eu parto para o seguinte raciocínio; não existe uma luta melhor que a outra mas sim o melhor lutador ” (2008, p. 6).
Agora, em relação ao biotipo do capoeirista, ele se insere na luta em oposição a outros grupos de capoeira que dão ênfase à mudança de físico do capoeirista. Segundo Mestre Mão Branca, “Para se jogar capoeira não precisa ser o Mister Universo” e, “Não tenho nada contra o aumento da massa muscular no capoeirista [...] o que não acho certo é o cara treinar capoeira uma vez por semana e musculação quatro vezes para se impor dentro da roda”. Ou seja, para ele existe um problema sério em relação a fazer mais musculação do que capoeira, pois para ele, isto caracteriza a intenção de se impor, mais pela força do que pelo jogo. Ele finaliza dizendo que “Ganhar na força bruta é fácil, difícil é ganhar na manha do jogo.” Aqui percebemos um desencontro com as falas de Mestre Bamba e Suíno e uma aproximação do discurso de Mestre Miguel.
Selecionando apenas duas perguntas de cada entrevista, uma sobre biotipo e outra sobre a eficácia da capoeira em relação às outras lutas, conseguimos observar alguns embates entre os Mestres (agentes) da capoeira (campo), ficando claro os encontros e desencontros dentro do campo capoeirístico. Os encontros são necessários para delimitar o campo, dando a configuração necessária para ser considerado um campo autônomo, e os desencontros são os embates necessários para reafirmação dos agentes distribuídos dentro do espaço social que atuam, o seja, o campo capoeirístico.
Em desacordo com as alterações do biótipo do capoeirista, encontramos Mestre Miguel e Mão Branca. Para Mestre Miguel, a questão física “não funciona no aspecto da luta”. Mestre Mão Branca também parece discordar destas mudanças, já que para ele “não precisa ser um Mister Universo para jogar capoeira”. Em contrapartida, na defesa da mudança no biotipo, temos Mestre Bamba, para o qual “ficar forte é bom”. Mestre Suíno segue nessa mesma linha pois, para ele, “na capoeira era esperada esta mudança de biotipo”.
Dessa forma, podemos notar que há uma pluralidade de concepções sobre o corpo dentro da capoeira: determinados grupos vão dar prioridade ao corpo atlético, enquanto outros acreditam que não é necessário padrão de corpo para a prática da capoeira.
Em relação à eficácia da capoeira perante outras lutas, Mestre Suíno diz que a capoeira não é arte marcial e não deveria ser comparada com as outras lutas, pois a defesa pessoal seria somente um dos seus aspectos; e prossegue afirmando que a capoeira é “um dos melhores esportes”. Já para Mestre Miguel, “a capoeira é a luta do fraco contra o forte”, e seria nesse ponto o seu diferencial em relação às outras lutas. Com Mestre Bamba fica claro o diferencial, pois de início ele afirma que “Vejo a capoeira como uma modalidade completa” e “quanto a sua eficácia ela trabalha todos os músculos”. Em contrapartida, temos Mestre Mão Branca, que não acredita em uma luta melhor que a outra, pois para ele “não existe uma luta melhor que a outra, mas sim melhor lutador.”
O que as falas dos mestres nos mostram é que os discursos por eles engendrados são representação do grupo (campo) a que pertencem e, assim sendo, a pluralidade identitária está proporcionalmente ligada a quantidades de grupos, pois cada grupo mostra possuir uma identidade própria (vista nas divergências de concepções, nos desencontros). Esta pluralidade identitária fica visível quando capoeiristas de grupos diferentes tecem comentários sobre temas semelhantes. No entanto, mesmo havendo variados desencontros entre os grupos, também há muitos encontros. Os encontros são necessários para a configuração do campo e os desencontros são necessários para manter a identidade dos grupos de capoeira.
Completamos que a Capoeira é um campo, tal como trabalhado por Pierre Bordieu, e os grupos de Capoeiras são agentes em lutas. As lutas travadas entre os grupos acabam por criar as identidades de grupos e, desta forma, podemos dizer que não existe Capoeira, mas CapoeiraS.
6 CONCLUSÃO
Esta pesquisa foi essencial do ponto de vista do aprendizado, pois possibilitou o exercício da pesquisa empírica e uma aproximação maior das propostas teóricas do campo da História (Utilização de periódicos como fontes históricas, utilização de novos métodos e interdisciplinaridade, que em nosso caso foi a utilização de conceitos da sociologia de Bourdieu para a leitura das entrevistas). Pode ser dito também, que a prática da pesquisa é primordial para o exercício da escrita histórica e da análise de fontes. Não há outra possibilidade de aprender a historiografia, senão a de se inserir no campo e conhecer no exercício o processo de construção historiográfica que rege todo esse campo.
Em síntese, ansiamos ter, por meio deste artigo, colaborado para a discussão sobre a Capoeira e explanado que ela não é singular, mas plural, e que a fala dos mestres está articulada ao lugar de onde se encontram (grupos de Capoeira), assim como a revista Praticando Capoeira está articulado a um lugar de produção (lugar social).
Por fim, este artigo, longe de encerrar o estudo sobre a Capoeira por meio das revistas, pretende fomentar reflexões para outros escritos acadêmicos. Assim sendo, este estudo ficará aberto para quem quiser contribuir e dar continuidade.