SIMBOLISMOS ALIMENTARES E MANJARES DA NOITE MAIS LONGA DO PORTO: ENTRE O SAGRADO E O PROFANO DAS FESTAS DE SÃO JOÃO
FOOD SYMBOLISMS AND MEALS OF THE LONGEST NIGHT OF OPORTO CITY: BETWEEN THE SACRED AND THE PROFANE IN ST JOHN´S HOLIDAY
SIMBOLISMOS ALIMENTARES E MANJARES DA NOITE MAIS LONGA DO PORTO: ENTRE O SAGRADO E O PROFANO DAS FESTAS DE SÃO JOÃO
Revista Prâksis, vol. 1, pp. 5-22, 2018
Universidade Feevale

Recepção: 18 Agosto 2017
Aprovação: 20 Outubro 2017
Resumo: Não tendo a riqueza alimentar do Natal ou da Páscoa, o manjar cerimonial do S. João no Porto, como o de outros santos populares é isso mesmo: popular. Na véspera, sardinha assada, caldo verde, febras de porco, pimentos, pão e muito, muito vinho. O cordeiro salta do colo do santo e é imolado no dia seguinte com batatas assadas e arroz de forno. Mas noutros alimentos, que nesta noite o não são, reside também a simbologia das festas sanjoaninas: erva-cidreira, manjerico e alho-porro, atores principais da noite de S. João, que protegem e transmitem mensagens fraternas. Alimentos simbólicos, como simbólicos são também a água das fontes e o fogo das fogueiras e os balões que iluminam o céu nesta noite de infindável madrugada. É a vivência atual do S. João no Porto que constitui o tema central deste estudo, através de um passeio pela cidade na sua noite mais longa, identificando através desse percurso o que de mais singular a cidade manifesta e oferece, quais os comportamentos sociais e alimentares desta festa e a respetiva simbologia.
Palavras-chave: São João, Porto, Festa, Manjerico, Alho-porro.
Abstract: Although it does not have the richness of Christmas or Easter, the ceremonial food of St. John´s holiday in OPorto city is, like other popular saints feasts, exactly that: popular. On 23rd june´s evening, sardines, “caldo verde”, pork fibres, roasted peppers, bread, and much, much wine. The lamb jumps out of St John´s shoulders and is immolated with baked potatoes and rice. But in other nourishments, which in this night are not for eating, also lies the symbolism of St. John´s festivities: lemon balm, basil and leek, main actors of St. John´s night, protect and transmit fraternal messages. Symbolic, like fountain´s water and the fire of bonfires and balloons that light up the sky of this endless night. It is the actual experience of St. John in OPorto the focus of this study, experienced in a city tour in its longest night, identifying through this journey what most unique the city manifests and offers, the social and culinary behaviours this festivity holds and its symbology.
Keywords: Saint John, Porto, Festivity, Basil, Leek.
1 INTRODUÇÃO
“S. João… cravos aos molhos
Manjericos pelas ruas
E no sonho dos teus olhos
Balões grandes como a lua”
A noite que o solstício de verão faz a noite mais pequena do ano transforma-se na noite maior da cidade do Porto.
Se, no hemisfério norte, o dia 21 de junho é o dia mais longo do ano, o seu significado histórico e cultural vai muito para além da medida das horas de luz deste dia, nele se festejando, em épocas primitivas, a fertilidade e a abundância associadas à alegria das colheitas. Festas que a Igreja cristianizou, fazendo-as coincidir com o nascimento de S. João Baptista e que, com este santo popular como padroeiro, se vivem de modo especial e único na cidade do Porto, mantendo vivas as mais antigas práticas e tradições de homenagem aos elementos da natureza, integrando-as na devoção religiosa, aliando o profano e o sagrado.
É a vivência atual do S. João no Porto que constitui o tema central deste estudo, propondo-se um passeio pela cidade na sua noite mais longa, identificando através desse percurso o que de mais singular a cidade manifesta e oferece, o que move o mar de gente que inunda as ruas, quais os comportamentos sociais e alimentares desta festa e a respetiva simbologia.
As origens e significados das festas sanjoaninas, festas cíclicas de origem pagã com uma forte componente mística e de magia, são abordadas na primeira parte do estudo, em que se evidencia a simbologia de plantas e ervas aromáticas como o manjerico e o alho-porro, atores principais da noite de S. João.
2 FESTAS SANJOANINAS: ORIGENS E SIGNIFICADOS
Dando início à estação do verão, fertilizadora por excelência, o mês de junho surge, nos calendários agrícolas medievais, associado a sementeiras e colheitas. Colheitas de cereais como o trigo, centeio e cevada, pois “Em junho, foicinha em punho”.
Mês também de colher cerejas e nêsperas e que, segundo o Almanaque Borda D´Água, também é de ”cavar, estrumar e semear os campos”.
Tempo e estação desde sempre celebrados em festas pagãs, festejando a fertilidade e a abundância associadas à alegria das colheitas e, por isso, marcando na Idade Média o início do novo ano económico.
Remontamos à antiga Grécia e encontramos o solstício de verão como o início do novo ano, assinalando a contagem decrescente até às olimpíadas seguintes. Um pouco por toda a Grécia, mas particularmente em Atenas, celebrava-se também nesta data, numa homenagem ao deus Kronos, o festival de Kronia que juntava, por uma vez, escravos e homens livres, pois que as colheitas dependiam de uns e de outros. Esta única e improvável união estará porventura na base do esquecimento temporário das restrições socais que hoje se observam nos rituais de festividades profanas ou de origem profana, como são as do carnaval ou dos santos populares.
Associadas ao solstício de verão e celebrando o sol enquanto elemento fecundador por excelência, as festas de S. João anteveem também, segundo alguns autores, a entrada na “triste peregrinação do inverno”, assumindo assim um duplo caráter: a celebração da estação fertilizadora, enquanto Vida, mas também o caminho para a privação trazida pelo inverno, época de morte de toda a natureza (PEDROSO, 1988, p. 112):
[…] O Sol, atingindo a plena manifestação da sua força criadora, inclina-se sobre a Terra, e cada dia vai perdendo mais e mais o seu vivificador brilho; os dias começam a decrescer e as noites a aumentar. Esta volta do sol, isto é: a sua ida para a longínqua carreira hibernal, é acompanhada de celebrações populares, coincidindo com o dia de São João Baptista (24 de junho) […]
Esta dualidade não é, contudo, totalmente partilhada por outros autores, que antes entendem estas festas como um combate entre o Bem e o Mal, sendo o apogeu do Sol, entendido como o Bem, celebrado como “a superioridade da fecundação e do Eterno Renascer sobre a angústia da Morte”. É nessa luta entre o Bem e o Mal que assume particular importância o papel e significado simbólico das ervas e plantas aromáticas e das suas virtudes, pois estas, “florescendo sob a plenitude dos raios solares, substituem-nos contra a noite da fome e da doença e dos azares maldosos” (PACHECO, 2004, p. 18-19).
Virtudes místicas a que também se refere Manuel António Pina “E, como ninguém vê, deixarão o alho atrás da porta todo o ano. Parece que afasta os espíritos ruins, os malefícios e os quebrantos e impede os enguiços e os tolhimentos dos inimigos!” (PINA, 2002, p. 29).
Assumindo um ou outro caráter, as festas de São João estão inquestionavelmente associadas à teoria solsticial, associação que segundo Ernesto Veiga de Oliveira não é posta em causa pela falta de coincidência entre os dias que decorrem entre o dia 21, dia do solstício e 24, dia da festa de São João (OLIVEIRA, 1984, p. 122).
As festas sanjoaninas têm pois origem em ritos agrários, associados à alegria das colheitas, envolvendo um caráter místico e de magia e tendo o Sol, enquanto fonte de criação e de vida, como elemento dominante; ritos que se perpetuaram através dos tempos e hoje se mantêm visíveis no maior motivo da festa de São João, a celebração da Felicidade.
As atuais práticas destas festas envolvem cores, aromas e sabores, mas também água e fogo, presenças constantes na História de Deuses e de Homens.
Água que neste dia é abençoada, como é a água do Batismo, com que São João batizou Jesus Cristo, transmitindo-se essa bênção ao orvalho caído na madrugada, que confere saúde e formosura aos Homens e virtudes especiais às plantas por ele molhadas. São as célebres orvalhadas de S. João, presentes em quadras populares e assim festejadas (PEDROSO, 1988, p. 117):
“Orvalhadas!
Minhas orvalhadas
Viva o rancho
das moças casadas”
“Orvalhadas!
Minhas orvalheiras
Viva o rancho
das moças solteiras”
“Orvalhadas!
Minhas orvalhudas
Viva o rancho
das mulheres viúvas”
Com um espetáculo de fogo-de-artifício sobre o rio Douro, um dos pontos altos da noite, e com o lançamento de balões, se homenageia o fogo, presente também nas fogueiras que ainda se saltam, “repetindo a crença primitiva das virtudes fecundantes e propiciadoras do fogo, tendo em vista o casamento, a saúde e a felicidade” (OLIVEIRA, 1984, p. 175).
Tal como com outras festas pagãs, a igreja cristianizou esta festa do solstício de verão, fazendo-a coincidir com a data do nascimento de São João Batista, e não com a data da sua morte, como com os outros santos. O que só acontece com Jesus Cristo, nascimento celebrado no Natal, a coincidir com o solstício seguinte, o de inverno. Por esse motivo é São João Batista o Santo Precursor, que nasce quando os dias passam a diminuir, nascendo Cristo quando aqueles passam a aumentar. “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 30,3).
E é São João Batista que nos apresenta Cristo como o cordeiro a imolar: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).
Cordeiro que os portuenses simbolicamente sacrificam no dia de São João e que, certamente não por acaso, constitui manjar cerimonial deste dia, mesmo que nos tempos que vão correndo, possa o cordeiro ser substituído por cabritinho ou borrego.
Contrariamente à convicção generalizada, é São João o padroeiro das festas mas não da cidade. Durante mais de cinco séculos, o padroeiro do Porto foi S. Pantaleão, tendo sido substituído pelas autoridades eclesiásticas, em 1981, por Nossa Senhora da Vandoma (CLETO, 2012), imagem desde sempre presente no brasão da cidade.
Talvez por esse motivo, a imagem de São João, embora presente na maioria das igrejas portuenses e mais abundante do que qualquer outra figura, com exceção de Nossa Senhora, não é particularmente inspiradora de obras artísticas, refletindo deste modo a importância do Santo, para o qual o não estão previstas, para o dia 24 de junho, homenagens litúrgicas (2015). Apesar disso, celebram-se em algumas igrejas eucaristias festivas da solenidade do nascimento de São João Batista, como é o caso das igrejas de S. João da Foz, de S. João Novo e de S. Nicolau.
Mas São João é sobretudo evocado pelo povo ao ar livre, alegre e festivamente[1]. Tal como o homenageiam, não só outras cidades portuguesas[2] como Braga ou Angra do Heroísmo, mas outros países, em festas igualmente associadas ao solstício de verão, com particular ênfase no culto do fogo, como são exemplos a “Fête de la Saint-Jean” em França e na Bélgica, o “San Xoán” em Espanha, sendo, no Canadá, considerada a festa nacional da região de Quebeque.
Festejos que datam no Porto pelo menos desde a Idade Média, pois a elas se refere Fernão Lopes, na crónica de D. João I, citada por Hélder Pacheco (PACHECO, 2004, p. 46): “Elles no Porto, por ledice de sua vinda, hordenarom huú torneio em vespera de sam Joham, que era dia em que os moradores daquela çidade costumavom de fazer gram festa”.
Festejos que, mantendo vivas as mais antigas práticas e tradições de homenagem aos elementos da natureza, aproximando deuses e homens, se mantêm e de cuja vivência atual se dará conta no ponto seguinte.
3 Festa na Noite
Em chegando a noite d´ hoje,
a noite de S. João,
os velhos sentem-se moços
e os moços mais do que o são”
É noite de São João, padroeiro da grande festa da cidade do Porto. Santo que, para o nosso poeta maior, é um rapaz ainda menino, cuja missão é ter ao colo um cordeiro pequenino (PESSOA, 1994, p. 34).
Paira no ar uma estranha agitação e a cidade fervilha, preparando-se para viver a noite mais curta do ano que é, afinal, a mais longa do Porto.
Os passeios da baixa portuense são agora ocupados por vendedeiras de ervas santas e plantas aromáticas, onde o povo para, para ver, cheirar e sentir. Erva-cidreira, limonete, alfazema, cravos, alecrim, mas sobretudo o manjerico e o alho-porro, símbolos por excelência desta festa, coexistindo atualmente com os menos pacíficos martelinhos. Ervas e plantas que encherão de perfumes e aromas toda a noite de São João.
E um pouco por toda a cidade, algumas crianças, indiferentes à nova moeda, repetem numa enternecedora pedinchice “Um tostãozinho para o S. João”, a relembrar o grupo de Carlitos e Teresinha de Aniki Bóbó (Oliveira, 1942).
Manjericos de todos os tamanhos, fazendo contrastar o verde das folhas com o vermelho do barro dos vasos que os suportam, ostentando quadras alusivas às festas, ou permitindo a sua escolha, refletindo toda a simbologia associada a estas festas. Manjericos cujo aroma se sente só com as mãos, presentes oferecidos com dedicatórias de amor ou de amizade transformadas em quadras. E que se levam para os lares, para os protegerem, alegrarem e perfumarem, embora raramente perdurem para além do mês de junho.

“Tem barbas e não as corta; tem dentes e não come; tem rabo e não o arrasta” (FELGUEIRAS, 1962, p. 77). Assim se descrevia em 1962 o alho-porro, símbolo eminentemente tripeiro, a quem a fantasia popular atribui virtudes de afastamento dos “espíritos maus” e proteção contra “maus-olhados” e que por isso se guardam, em casas e lojas, atrás da porta. Presença obrigatória na mão dos foliões da noite sanjoanina, com ele se toca na cabeça de quem passa, novos e velhos, bebés e crianças sempre, e até nos agentes de autoridade, que nesta noite se esquecem um pouco dela quando tiram o chapéu para os mais afoitos lhes poderem “bater” com o alho-porro. Gestos de verdadeiras carícias, de transmissão de superstições e crenças associadas às colheitas das plantas orvalhadas.
Alho-porro com o qual, nesta noite e só nesta noite, os conservadores homens do Porto aceitam que outros homens “batam” nas “suas” mulheres e estas noutros homens que não os “seus”. Atrevemo-nos a sugerir que o termo utilizado talvez reforce a teoria da representação do falo pelo alho-porro (que alguns conseguem ver igualmente nos martelinhos), refletida em versos e quadras populares deste São João:
“Alho-porro tem três folhas, ó maldito não me tolhas…”
Ou
“Meu amor, teu alho-porro
Namora o meu manjerico
Quando se beijam, sem gorro,
Que sobressaltada eu fico!”

Uma semana antes da tão festejada data, já o “jeito fechado” e o “timbre pardacento”[3] do Porto se perdem e a cidade se enche de vivas cores emprestadas pelas ruas engalanadas de bandeiras, arcos e balões. Balões em forma de Sol, vivos, alegres, de cores quentes, ou não fosse o Sol um dos homenageados da noite que se aproxima.


Ruas avivadas pelas montras aprimoradas das lojas e pelas cascatas, preparando aquela que é a maior manifestação coletiva dos portuenses, símbolo da confraternização de uma cidade inteira, num ato de democracia plena. E às habituais despedidas quotidianas se acrescenta, por todos e para todos, um voto de “ Bom S. João”!
Mantendo viva a tradição popular e tendo como principal motivo a representação da figura do Santo Precursor como simbologia das festas sanjoaninas, lojas tradicionais e modernas, associações, coletividades e particulares competem entre si nos concursos de Montras e Cascatas de S. João.[4]
Cascatas que fazem lembrar presépios, as mais das vezes encimadas pelos três santos populares, Santo António, São Pedro e um maior São João, magro, de parcas vestes e sempre com um cordeirinho, como figura central.
Cascatas que desrespeitam épocas históricas, juntando figuras e representações de cenas quotidianas de todos os tempos da vida da cidade, em que relevam as atividades ligadas à alimentação. Com o rio sempre presente, no qual “navegam” as pipas do vinho do Porto nos barcos rabelos, encontram-se sob a ponte lavadeiras, padeiras, peixeiras, aguadeiras, pescadores, assadores de sardinhas, vendedeiras de manjericos, tendas e restaurantes. E, um pouco mais atrás, lá estão as atividades agrícolas e os campos cheios de cordeirinhos e seus pastores que por vezes são outro pequeno S. João, uma pequena igreja ao fundo. E a algumas não faltam as procissões, as bandas e os carrosséis, tudo engalanado de arcos e balões.
Cenários feitos à mão com todo o carinho que se tem pela cidade e pelo seu S. João, a fazer meninos quem as olha…



“Sinto que ao pôr na cascata
O meu olhar de menino
Mesmo de fato e gravata
Serei sempre pequenino!”[5]
Já na grande noite, seja no espaço doméstico, entre família e amigos, seja no espaço público dos restaurantes das muitas praças e pracinhas da cidade, vai-se cortando a broa e preparam-se as brasas para assar pimentos e febras e, claro, a iguaria principal desta noite de festa, a sardinha. Pois, por nesta época ser mais gorda, é no S. João que ela “pinga no pão”. Tradicionalmente comida em festa convivial à volta do assador, com a simplicidade de o fazer à mão sobre uma fatia de pão, convenientemente acompanhada pelo prazer de um (geralmente mais) copos de vinho. O cordeiro, cabrito ou borrego fica reservado para o almoço tardio do dia seguinte, acompanhado de batatas assadas e arroz de forno.
Acabada a vontade das sardinhas, já que estas sempre sobejam, e depois do caldo verde e cerejas de Resende ou do Fundão, é hora de ocupar as ruas e encontrar o melhor lugar para, durante cerca de um quarto de hora, deixar brilhar o olhar com o fogo-de-artifício lançado do Douro. Brilho que torna dia a noite e eleva os sonhos ao céu que agora se confunde com o rio. Fogo cujo fim, anunciado pelo estrondear de três foguetes já sem brilho, é calorosamente saudado por palmas de milhares de mãos, como que numa despedida até ao próximo solstício.
Sendo inúmeras as alternativas para os percursos sempre circulares desta noite, ruma-se este ano até às Fontainhas, local obrigatório da noite sanjoanina.
Mas no caminho, a par do alho-porro na mão, vão também os balões que chegou o tempo de “largar” e juntar aos outros que, quais sóis, já iluminam o céu.

É entrando no mar de gente que cantando e dançando inunda as Fontainhas que se encontra, no local de uma antiga fonte, um pequeno santuário a S. João Batista, tendo como motivo o Batismo de Cristo. Local onde inicialmente os moradores daquele bairro montavam a sua cascata, que por ser bela se tornou famosa, dando origem a que por ali passassem as rusgas[6] para a visitar. Gentes já cansadas da folia, a quem se servia café quente, aletria e aguardente (COSTA, 2002) e que aproveitavam a pausa para se refrescar na fonte, mantendo a tradição da água benta e purificadora da madrugada de S. João, deixando esmolas e ofertas de cera em cumprimento de promessas feitas.
No meio das cores e aromas misturados dos manjericos e alhos-porros, das farturas das roulottes e das sardinhas e pimentos que nas Fontainhas assam noite fora, embalado pela música do artista da noite e a dos matraquilhos, carrosséis, tômbolas e martelinhos, pausa o povo silenciosamente diante do sagrado daquele lugar, repetindo os rituais das esmolas, acendendo velas ou depositando figuras em cera. Cabeças, sobretudo. Mais do que em qualquer outro lugar do Porto, é nas Fontainhas que o sagrado e o profano dançam lado a lado nas festas de S. João.

Fogo que Prometeu roubou aos deuses para dar luz e calor aos homens, valendo-lhe a ira de Zeus e um terrível castigo. Fogo que para uns purifica e para outros vivifica e fertiliza, como faz o Sol com toda a natureza:
“Foge à fogueira, Maria, Senão o tempo, verás, Transforma a tua alegria Em rapariga ou rapaz…”[7]
E depois do fogo, não pode a noite acabar sem a presença da água. Se das costumeiras orvalhadas desta noite, tanto melhor. Orvalhadas que já abençoaram as ervas nos campos em que noutros tempos as mulheres se rebolavam procurando a fertilidade:
“Na noite de São João É bem tolo quem se deita Sem tomar as orvalhadas Nos campos de Cedofeita”
E assim os resistentes se encaminham agora para a Foz, dando ainda um pezinho de dança no bailarico de Miragaia. Chegados à praia, alguns ainda se aventuram pelo mar dentro no banho que esta madrugada pede. Mas a maioria termina a noite deitado na areia, aguardando pelo nascer do sol, outro sol que a partir de agora estreitará os dias. Até ao solstício de inverno. Até ao Natal.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
“São João p´ra ver as moças, Fez uma fonte de prata As moças não vão à fonte… São João todo se mata”
Enche-se de alegria e festa o coração dos portuenses na Noite de S. João.
Alegria que remete para as origens pagãs das festas ligadas ao solstício de verão, de celebração ao sol enquanto força criadora e mãe da abundância, que o cristianismo fez coincidir com o nascimento de S. João Batista.
O Porto mostra nas festas sanjoaninas a sua devoção ao santo, não com o pudor e o recato próprios das virtudes sagradas, mas em plena euforia, dançando, comendo, cantando e namorando, celebrando a Vida nesta que é, apesar de mais pequena, a sua maior noite.
S. João a tudo assiste do alto das cascatas que enchem a cidade, ao lado de um manjerico e de um alho-porro, sendo nesta madrugada menos santo e mais humano, um verdadeiro santo popular.
Não tendo a riqueza alimentar do Natal ou da Páscoa, o manjar cerimonial do S. João, como dos outros santos populares é isso mesmo: popular.
Na véspera, sardinha assada, base da alimentação portuguesa desde a Idade Média, caldo verde, febras de porco, pimentos, pão e muito, muito vinho. No S. João, aliás, bebe-se mais do que se come, servindo de metáfora a Alberto Pimentel, para quem no S. João “o povo bebe o prazer como bebe o vinho: a longos tragos, não às pinguinhas“ (PIMENTEL, 1971, p. 21).
O cordeiro, o que tira o pecado do mundo, salta do colo ou dos ombros do santo e é imolado no dia seguinte com batatas assadas e arroz de forno.
Noutros alimentos, que nesta noite o não são, reside também a simbologia das festas sanjoaninas: erva-cidreira, manjerico e alho-porro, que tanto caracterizam esta noite que une num abraço toda a cidade. Símbolos que protegem e transmitem mensagens fraternas.
Simbólicos como são a água e o fogo, elementos e alimentos da natureza. A água do orvalho, das fontes, do rio e do mar, e o fogo das fogueiras e dos balões que iluminam o céu nesta noite de infindável madrugada.
Louvando a natureza protetora, cantando aos amores e à Vida, se celebra no Porto, numa festa sem igual, o nascimento de S. João Batista, num cruzamento singular entre o sagrado e profano.
Referências
2015. Disponivel em: http://www.dehonianos.org/portal/santoral.asp. Acesso em: 22 junho 2015.
CLETO, J. Lendas do Porto - Volume II. Vila do Conde: Quidnovi - Edições e Conteúdos, S.A., 2012.
COSTA, S. M. Festas e Tradições Portuguesas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002.
FELGUEIRAS, G. O Tripeiro, p. 77-82, 1962.
OLIVEIRA, E. V. D. Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984.
PACHECO, H. Porto. O Livro do S. João - TOMO I. Porto: Edições Afrontamento, Lda., 2004.
PEDROSO, C. Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988.
PESSOA, F. Os Santos Populares. Lisboa: Edições Salamandra, Lda., 1994.
PIMENTEL, A. Noite de S. João. In: POMBO, P. S. João no Porto - Antologia. Porto: Câmara Municipal do Porto, p. 19-23, 1971.
PINA, M. A. Porto, Modo de Dizer. Porto: Edições Asa , 2002.
Notas