A COMIDA E A LINGUAGEM EM “FOLCLORE DA ALIMENTAÇÃO” (1963): CASCUDO, OS FOLCLORISTAS E A CULTURA ALIMENTAR

FOOD AND LANGUAGE IN “FOLCLORE DA ALIMENTAÇÃO” (1963): CASCUDO, THE FOLKLORISTS AND FOOD CULTURE

Ariza Maria Rocha
Universidade Federal do Ceará, Brasil

A COMIDA E A LINGUAGEM EM “FOLCLORE DA ALIMENTAÇÃO” (1963): CASCUDO, OS FOLCLORISTAS E A CULTURA ALIMENTAR

Revista Prâksis, vol. 1, pp. 64-80, 2018

Universidade Feevale

Recepção: 19 Agosto 2017

Aprovação: 13 Novembro 2017

Resumo: Até que ponto o sistema alimentar de um povo está impregnado nos verbetes que usamos na linguagem cotidiana? Esta comunicação tem o objetivo de analisar os significados culturais atribuídos aos alimentos que expressam a relação com o corpo e o comportamento a partir da obra “Folclore da alimentação”, de Cascudo (1898-1986), publicada na Revista Brasileira de Folclore (1963). O estudioso compilou 135 palavras, expressões, frases feitas e imagens comparativas provenientes do vocabulário corrente do cotidiano associadas à alimentação. Faz-se mister esclarecer que a mesma produção foi inserida no livro a “História da Alimentação no Brasil” (1983). O folclorista empregou a pesquisa histórica, etnográfica, bibliográfica e documental, a exemplo, O Diário de Pernambuco, fundado em 1825, a obra Auto da Ave-Maria – Auto dos Cantarinhos: com uma notícia biográfica do autor, de Antônio Prestes (1530) e o diálogo com outros folcloristas, tais como, Francisco Manuel de Melo (1608-1666), João Loureiro (1717-1791), Hermann Urtel (1873-1926), Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923), Valdomiro Silveira (1873-1941), Ataliba Amaral Leite Penteado (1875-1929), Hidelgardes Cantolino Vianna (1919-2006), Édison de Souza Carneiro (1912-1972) e Cornélio Pires (1884-1958). A obra é uma rica fonte de pesquisa e reflexão da cultura alimentar que revela a contribuição africana, portuguesa, asiática, árabe, francesa, além da civilização da Antiguidade. Nas linhas e entrelinhas da obra, o historiador revela a riqueza da linguagem e da cultura da alimentação. Para analisar o referido universo comunicativo empregou-se os estudos da história cultural do alimento e, metodologicamente, investiu-se na pesquisa documental da obra o “Folclore da alimentação”.

Palavras-chave: Comida, Linguagem, Folclore.

Abstract: To what extent does a people's food system permeate the words we use in everyday language? This communication aims to analyse the cultural meanings attributed to foods that express the relationship between body and behaviour having as a starting point the book “Folclore da Alimentação” – “Folklore of food”, by Cascudo (1898-1986), published in the Revista Brasileira do Folclore – Brazilian Magazine of Folklore (1963). The scholar compiled 135 words, idioms, phrases, and comparative images from the current everyday vocabulary associated with eating at that time. It is necessary to clarify that the same production was inserted in the book “História da Alimentação no Brasil” – "History of Food in Brazil" (1983). The folklorist employed the historical, ethnographic, bibliographical and documentary researching methods, for example, O Diário de Pernambuco, founded in 1825, the work Auto Da Ave-Maria - Auto dos Cantarinhos: with a biographical article by Antônio Prestes (1530) and dialogues with other folklorists, such as Francisco Manuel de Melo (1608-1666), João Loureiro (1717-1791), Hermann Urtel (1873-1926), Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923), Valdomiro Silveira (1873-1941), Ataliba Amaral Leite Penteado (1875-1929), Hidelgardes Cantolino Vianna (1919-2006), Édison de Souza Carneiro (1912-1972) and Cornélio Pires (1884-1958). The book is a rich source of research and reflection on food culture that reveals the African, Portuguese, Asian, Arab and French contributions, besides the contributions made by ancient civilizations. Along and between the lines of the book, the historian reveals the richness of both language and food culture. In order to analyse the aforementioned communicative universe, the study of the cultural history of food was carried out and, methodologically, a documentary research of the book “Folclore da Alimentação” was conducted.

Keywords: Food, Language, Folklore.

1 INTRODUÇÃO

Uma palavra pode possuir diversos significados e, pela dinâmica social, mudar de sentido de uma geração a outra, dependendo, por vezes, do lugar e do contexto social. De igual forma, o alimento pode apresentar múltiplas compreensões e expressar a relação do indivíduo com os hábitos, práticas e crenças alimentares. Nessa lógica, tanto a linguagem quanto o alimento têm o potencial para comunicar a história, a cultura e a identidade de um povo.

Nesse universo comunicativo, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) compilou 135 palavras e expressões da língua portuguesa relacionadas à alimentação e demonstrou os diferentes significados que elas assumiam nos contextos culturais em que estavam inseridas. O vocabulário de uma língua é advindo da estrutura social, política e cultural, o qual, ao propagar-se na comunidade falante, expressa crenças, valores, atitudes, comportamentos, identidades e modos diversos de qualificação do corpo.

É indiscutível o fato de que a comida comunica cultura, significados e valores, mas importa indagar: até que ponto o sistema alimentar de um povo está impregnado nos verbetes que usamos na linguagem cotidiana? Este trabalho tem o objetivo de analisar os significados culturais atribuídos aos alimentos que expressam a relação com o corpo e o comportamento, a partir da obra “Folclore da alimentação”, de Luís da Câmara Cascudo, publicada na Revista Brasileira de Folclore no ano de 1963.

Este artigo encontra base teórica nos estudos da história cultural do alimento, entre eles, destaco os seguintes pesquisadores: Dupont (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998; MONTANARI, 2008). Metodologicamente, investiu-se na pesquisa documental a partir da obra “Folclore da alimentação”, de Cascudo (1963). Faz-se mister esclarecer que, em 1983, essa mesma produção foi inserida no livro a “História da Alimentação no Brasil”.

Esta investigação está organizada em três tópicos. O primeiro reflete sobre as contribuições de Cascudo no estudo da história cultural da alimentação brasileira. O segundo analisa o diálogo que Cascudo estabelece com outros folcloristas na composição da obra “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963). O terceiro faz uma relação da comida com as representações culturais presentes na linguagem popular e em algumas práticas alimentares. O quarto aborda a comida e o componente simbólico na história da alimentação.

Convém sinalizar que a obra do folclorista potiguar transcende a esta breve análise e, sem a pretensão de esgotar a reflexão a respeito da riqueza vocabular da língua portuguesa para se referir à alimentação no cotidiano, esta comunicação permite aos leitores menos familiarizados com as possíveis relações entre comida e cultura, vislumbrar um rico universo que ainda pode ser explorado.

2 CASCUDO, O FOLCLORE E A HISTÓRIA CULTURAL DA ALIMENTAÇÃO

Longe dos rótulos reducionistas que não contemplam a complexidade de nenhum ser humano, pode-se afirmar que Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um estudioso da cultura brasileira. Autor de uma extensa atividade intelectual – divulgada em livros, opúsculos, poesias, separatas, crônicas e artigos –, contou muitas vezes com o financiamento do Governo Federal, sem deixar, no entanto, de produzir de modo independente ou com o auxílio de outras instituições interessadas em suas obras.

Nascido na capital do estado do Rio Grande do Norte, Cascudo foi professor, escritor, pesquisador, jornalista, folclorista e antropólogo. Tendo em vista a abrangência de sua atuação, deixou contribuições importantes em diversas áreas do conhecimento, como na história cultural da alimentação do Brasil, foco deste artigo. Nesse campo, Cascudo foi precursor, juntamente com outros estudiosos, dentre os quais destaca-se a folclorista baiana Hildegardes Vianna (1919-2006)[1]. Cascudo (1963, p. 1) narra como ocorreu o nascimento de sua paixão pela temática relacionada à alimentação:

Mais ou menos em 1940 apaixonei-me pela Alimentação, perguntando, anotando, lendo, sobre a dieta brasileira. Comida do trivial e das festas, das reuniões domésticas e públicas, das feiras, banquetes do Império, das viagens, dos naturalistas itinerantes, caçadores, pescadores, vaqueiros, gente do campo e da cidade, dos sertões do nordeste, da (?) amazônica, dos pampas gaúchos, dos ‘gerais’ do Sul, Mato Grosso, Goiás, serranias de Santa Catarina e Paraná. Ia arquitectanto uma geografia da alimentação ao lado das técnicas da elaboração.

O folclorista, em outro fragmento, explica seu interesse histórico-cultural pelo alimento, o que destoa de qualquer visão simplista sobre o tema:

Não estava pensando em hidratos de carbono, gorduras, proteínas, sais, água, diástases e mistérios de assimilação. Não me prendia à Nutrição e regímenes dietéticos, mas à comida do homem na quarta dimensão, caminhando pelo tempo. Não era, confiteor, a Nutrição a dama dos meus sonhos, mas a história da comida, os elementos escolhidos para a suficiência orgânica. Esses alimentos eram também expressões mágicas, índices culturais, temas de superstições, tendo valor psicológico independente do valimento fisiológico. Valendo pela eleição e não pelo rendimento em calorias (CASCUDO, 1963, p. 2).

Foi nesse paradigma que o estudioso, após décadas de investigação, publicou História da alimentação no Brasil (CASCUDO, 1983). Fruto de pesquisa histórica e etnográfica, a obra possui um valor excepcional, consagrando Cascudo em função de seu mérito, pioneirismo e autenticidade. Salienta-se que, a despeito de sua relevância, este artigo não se deterá profundamente à mencionada obra, tendo em vista que ela já foi objeto de análise de muitos estudiosos, dentre os quais se destaca Corção (2014). Este artigo enfatizará a obra “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963).

O livro História da alimentação no Brasil (CASCUDO, 1983) aborda, na primeira parte, a história da alimentação em terras brasileiras a partir da contribuição indígena, africana e portuguesa. Na parte intitulada “Cozinha brasileira”, o historiador apresenta e discute os seguintes tópicos de interesse: a sociologia da alimentação, os alimentos básicos do brasileiro, as técnicas culinárias, o ritmo da refeição, o farnel de trabalho e viagem, as superstições alimentares, as bebidas no Brasil, a comida de esteira e mesa, os mitos e realidades da cozinha africana no Brasil e o folclore da alimentação.

Com relação a esse último tópico, referente ao folclore da alimentação, salienta-se que ele já havia sido publicado integralmente com o mesmo título em 1963, na Revista Brasileira de Folclore, vinculada ao Ministério de Educação e Cultura (MEC). É possível ainda encontrar enxertos da obra em sites da internet.

A Revista Brasileira de Folclore era publicada quadrimestralmente, atividade que realizou durante o período de 1961 a 1976. O periódico surgiu da ação de intelectuais que atuavam na Comissão Nacional de Folclore. Essa comissão brotou por iniciativa do musicólogo, folclorista e ministro Renato Almeida (1895-1981), que se uniu a outros intelectuais que abraçaram as Recomendações sobre salvaguarda do folclore, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), publicadas na ocasião da 25ª Reunião da Conferência Geral da Unesco, em 15 de novembro de 1989.

O referido documento reconhece o folclore como patrimônio da humanidade, portador da cultura tradicional e popular. Segundo a Unesco (1989, p. 2), a cultura tradicional e popular refere-se ao:

[...] conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos e que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social; as normas e os valores se transmite oralmente, por imitação ou de outras maneiras. Suas formas compreendem, entre outras, a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes.

Em vista disso, a Unesco (1989, p. 4) passou a recomendar que os estados-membros:

i) estabelecessem um conselho nacional da cultura tradicional e popular, formado sobre uma base interdisciplinar ou outro organismo coordenador semelhante, no qual os diversos grupos interessados estivessem representados; ii) prestassem apoio moral e financeiro aos indivíduos e instituições que estudem, tornem público, fomentem ou possuam elementos da cultura tradicional e popular; iii) fomentassem a investigação científica à salvaguarda da cultura tradicional e popular.

A partir dessas orientações, a Comissão Nacional de Folclore (atualmente chamada de Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular), a Revista Brasileira de Folclore e os Congressos Brasileiros de Folclore passaram a atuar com o objetivo de compartilhar os conhecimentos produzidos, bem como promover o debate sobre as políticas públicas de salvaguarda e divulgação da cultura brasileira. Para fortalecer esse propósito, era necessário realizar o financiamento de pesquisas, do plano regional ao internacional, no intuito de proteger as mencionadas “[...] manifestações da criatividade intelectual ou coletiva” consideradas semelhantes às “[...] outras produções intelectuais” (UNESCO, 1989, p. 5).

Assim, um grupo de estudiosos de cada região brasileira passou a realçar o folclore nacional em seus estudos, pesquisas, debates, congressos e publicações. Cascudo surgiu como uma importante liderança no seu estado, Rio Grande do Norte. A realização de eventos nacionais concernentes à temática, desde o I Congresso Brasileiro de Folclore (1951) até o VIII Congresso Brasileiro de Folclore (1995), favoreceu bastante o tratamento da complexa diversidade cultural brasileira. Além disso, ampliaram substancialmente a discussão e a releitura do conceito de folclore, que passou a ser entendido como:

[...] conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constitui-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. Ressaltamos que entendemos folclore e cultura popular como equivalentes, em sintonia com o que preconiza a Unesco. A expressão cultura popular manter-se-á no singular, embora entendendo-se que existem tantas culturas quantos sejam os grupos que as produzem em contextos naturais e econômicos específicos (COMISSÃO NACIONAL DE FOLCLORE, 1995, p. 1).

É no plano cultural que o folclorista Cascudo trata a temática da alimentação. O presente trabalho reflete sobre as contribuições do também historiador em torno do significado cultural dos alimentos no vocabulário português.

3 O DIÁLOGO COM OUTROS ESTUDIOSOS NA CONSTITUIÇÃO DA OBRA “FOLCLORE DA ALIMENTAÇÃO”

A obra “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963), de apenas treze páginas, diz muito acerca do vocabulário da língua portuguesa a respeito da alimentação. Trata-se, portanto, de uma rica fonte de pesquisa e reflexão da cultura alimentar, exigindo do leitor um olhar atento e profundo sobre suas linhas. Para melhor compreensão da obra, convém adentrar no itinerário investigativo de Cascudo, cuja predominância é a história e a etnografia, sem desprezar a pesquisa documental e bibliográfica. A produção do folclorista traz ainda diversos exemplos para justificar seus argumentos.

Entre os documentos pesquisados por Cascudo, destaca-se o Diário de Pernambuco, fundado em 1825 por Antonino José de Miranda Falcão, considerado o periódico mais antigo da América Latina. É redundante ressaltar a importância do referido jornal como fonte histórica e documental de um registro do universo individual e coletivo em dada sociedade.

Além do periódico, Cascudo menciona a obra Auto da Ave-Maria – Auto dos Cantarinhos: com uma notícia biográfica do autor, do escritor português Antônio Prestes (século XVI). O folclorista potiguar menciona que a referida obra foi publicada pela primeira vez no ano de 1530.

No tocante à mencionada obra, destacando-se especialmente uma situação vinculada à alimentação, Cascudo (1963, p. 216) explica o sentido figurado da palavra “azeitona”: “mulatinha frajola. Morder azeitona: gostar de beber. No Auto da Ave-Maria, 1530, Antônio Prestes diz ‘casou co'azeitona’, significando o bebedor”. A obra de Prestes (1530) foi apontada pelo Blake (1983, p. 4) como sendo um “[...] testemunho da boa graça portuguesa nos fins da Idade Média e um documento valioso para a história dos costumes e linguagem desse tempo”.

Outro estudioso português citado na obra de Cascudo é o folclorista, linguista e historiador das literaturas hispânicas Francisco Manuel de Melo (1608-1666), cujas obras são: Obras portuguesas, Segundas três musas, Fidalgo aprendiz, Gil Vicente, Cartas familiares, entre outras. Cascudo (1963, p. 221), a fim de explicar o verbete “queijo”, faz menção a Francisco Manuel de Melo, como se verifica no excerto a seguir:

Queijo: corpo feminino, as partes mais volumosas. ‘Comer queijo’ é acalcanhar o calçado. ‘Comendo queijo de brisa’, curtindo fome. ‘Foi queijo’, valeu a pena. Facilidade. Quem come muito queijo fica sem memória. No século XVII, 1665, D. Francisco Manoel de Melo versejava: ‘Sempre ouvi por regra aceita / De Galeno que haja glória / Que tira o queijo a memória / A toda gente direita’.

Além dos autores citados, Cascudo também faz referência a João Loureiro (1717-1791) como mais um estudioso português que contribuiu para a sua análise acerca dos sentidos diversos atribuídos a palavras relacionadas ao vocabulário alimentar luso-brasileiro.

Em sua pesquisa bibliográfica, Cascudo (1963, p. 216) recorre ao trabalho do alemão Hermann Urtel (1873-1926), professor, romancista e folclorista, para explicar o significado da palavra “banana”:

[...] covarde, tolo, amaricado, sempre concordante. Banana-mole. Bananzola. Moraes já registara nessa accepção. Gesto obsceno, de sugestão fálica; pôr a mão ou o antebraço no sangradouro do outro, oscilando êste com a mão fechada. Dar bananas. ‘Adeus de mão fechada’. Com o nome de banana é recriação brasileira. Veio de Portugal onde o denominam as armas de São Francisco, manguito, màngarito. Hermann Urtel não mencionou o sinónimo brasileiro quando estudou o gesto em Portugal.

Cascudo (1963) também cita Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923), jornalista pernambucano, advogado e autor de obras como Enciclopédia brasileira (1889), Folclore pernambucano (1909), Vocabulário pernambucano (1936), entre outras. Cascudo (1963, p. 221) faz referência ao pernambucano em vários momentos, dentre os quais, destaca-se aquele em que o autor explica o sentido figurado da fruta pitomba, conforme se verifica no fragmento adiante: “Pitomba: pancada, pedrada, coere, tiro na cabeça. Levou uma pitomba no quengo. Exclamativa: Ora, pitombas! Pequenos pedaços de carne do Ceará, charque, quase que perdido provindos dos que se cortam por imprestáveis, ou para perfazer as pesadas. Pereira da Costa”.

O paulista Valdomiro Silveira (1873-1941) também é mencionado na obra de Cascudo (1963). Silveira foi advogado, jornalista, deputado, secretário de educação do estado de São Paulo e autor das seguintes obras: Os caboclos (1920), Nas serras e nas furnas (1931), Mixuangos (1937) e Lereias (1945). Cascudo (1963, p. 221) faz alusão a Silveira para esclarecer o significado da palavra “puba”, conforme aponta o trecho seguinte: “estar na puba, isto é, estar no trinque, estar muito bem vestido e ataviado, informa Amadeu Amaral. Casquilhice, faceirice no trajar, segundo Valdomiro Silveira”.

Cascudo (1963, p. 219) invoca igualmente o paulista Ataliba Amaral Leite Penteado (1875-1929), jornalista, poeta e autor das obras O dialeto caipira (1920) e Tradições populares (1948), para elucidar a acepção do termo “panqueca”: “o frito de ovos, manteiga, açúcar e canela, denomina quem viva sossegado, sem cuidados e preocupações. Está na panqueca. ‘Vadiação regalada, boa vida’, anota Amadeu Amaral”.

A folclorista baiana Hidelgardes Cantolino Vianna (1919-2006) também marca presença no referido trabalho de Cascudo (1963). A advogada, escritora, professora de música folclórica na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Católica de Salvador (UCSal) e historiadora ocupou a cadeira nº 36 da Academia de Letras da Bahia (ALB), sendo autora das seguintes obras: Cozinha baiana: seu folclore e suas receitas (1955), A Bahia já foi assim (1973) e Antigamente era assim (1979). Cascudo (1963, p. 219) invoca Hidelgardes Vianna para tornar compreensível o significado do vocábulo “macaxeira”, conforme evidencia a seguinte passagem: “Macaxeira: braços alvos e roliços. Perna branca. Na Bahia, anota Hidelgardes Vianna, descascar aipim é desnudar perna branca. Aipim é macaxeira. Membro viril. Nas macaxeiras é vida folgada, o rato dentro do queijo”.

Outro baiano nomeado no texto de Cascudo (1963) é Édison de Souza Carneiro (1912-1972), advogado, historiador, antropólogo, escritor e autor de várias obras, entre elas: Religiões negras (1936), A conquista da Amazônia (1956) e A sabedoria popular (1957). Na obra, Cascudo (1963, p. 216) ilustra o significado do léxico “bucho”, consoante se verifica adiante: “Bucho: o mesmo que Bote. Édison Carneiro informa na Bahia: ‘Bucheiro, homem que tem predileção por mulheres feias’”.

O paulista Cornélio Pires (1884-1958), poeta, jornalista, escritor, humorista, empresário, músico, etnógrafo e autor das obras Conversas ao pé do fogo (1924) e Sambas e cateretês (2004), também foi base para Cascudo (1963, p. 216) explicar o sentido da bebida chá: “gôsto, requinte, retoque essencial, característica mais apreciada. ‘O chã é mandar chumbar um dente a ouro e pôr uma coroa na frente’, Cornélio Pires”.

Cascudo (1963, p. 217) cita ainda o carioca Júlio César de Melo e Sousa (1895-1974), também conhecido pelo nome de Getúlio César e pelo pseudônimo Malba Tahan, professor, matemático, escritor e autor das obras Céu de Allah (1927) e O homem que calculava (1938):

Coirana: courana, coerana, Cestum leviegatum, Schl, uma solanácea, extremamente amarga e picante. ‘A coerana já estêve muito em voga quando o seu nome significava o mesmo que atualmente quer dizer a palavra roedeira, isto é: ciúmes, ciumadas, amôres contrariados, pretensões não cabíveis entre namorados, despeito, etc.’, escreve Getúlio César: ‘Se coerana se vendesse, / Uma fôlha era um tostão; / Eu bem sei quem tá roendo / Mas, não dá demonstração’. ‘Roer coirana’ é estar ciumado. Altera-se para courama, ‘roer courama’, ‘roer um couro’, na mesma intenção.

Outros exemplos, semelhantes aos que foram analisados até aqui, poderiam ser multiplicados, haja vista a vastidão de intelectuais que são trazidos à baila na obra “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963). Entretanto, para ter acesso à magnitude do referido escrito, recomenda-se a sua leitura integral. Por fim, convém destacar a riqueza da produção de Cascudo ao mencionar vários estudiosos para explicar o significado linguístico e cultural de verbetes relacionados ao vocabulário alimentar.

4 A OBRA: A COMIDA, A LINGUAGEM E OS SIGNIFICADOS CULTURAIS

A comunicação é dinâmica, a qual revela a relação do homem com o mundo que o rodeia, contemplando desde a linguagem até a alimentação, por meio dos quais emergem os laços históricos e socioculturais.

Soares (2007) lembra que a palavra “companheiro”, em sua origem, significa “o pão compartilhado”. Percebe-se, através do exemplo, que a relação da comida com a linguagem emerge da comunicação dinâmica do sujeito com a história cultural de seu povo. Usualmente a língua é empregada para qualificar o corpo, o comportamento, a identidade e algumas situações corriqueiras que podem variar de acordo com a sociedade da qual emergem e do momento histórico em que são vivenciadas.

Na obra “Folclore da alimentação”, Cascudo (1963) elenca os significados culturais presentes no vocabulário alimentar. As palavras escolhidas revelam a contribuição de outros povos na constituição da alimentação, linguagem e cultura, conforme se ilustra nos seguintes exemplos: cultura africana (a palmeira-dendê), língua portuguesa (o paio, enchido de carne de porco), procedência asiática (banana), contribuição árabe (alfenim, que significa alvo, e cuscuz), origem francesa (biscoito), além da referência ao azeite como exemplo de comida da Antiguidade.

A obra de Cascudo (1963) registra 135 palavras ou expressões empregadas na linguagem popular para referir-se à alimentação. Nas palavras do folclorista: usam-se “[...] frases-feitas, locuções, imagens comparativas, exclamações de protesto e desabafo” (CASCUDO, 1963, p. 215). Esta seção do trabalho tem a finalidade de selecionar exemplos extraídos da obra nos quais a relação entre comida e linguagem figurada se fazem presentes.

Para efeito de análise, apresenta-se adiante o quantitativo de ocorrências de verbetes relacionados a cada grupo alimentar, conforme se verifica no Quadro 1.

Quadro 1
Ocorrência de palavras em cada grupo alimentar
Grupo alimentar Total
1 Comida / prato principal / acompanhamentos 28
2 Frutas 22
3 Carne animal e derivados 17
4 Peixes / mariscos 15
5 Doces 13
6 Verbos e ação ligados à comida 9
7 Alimentos transformados / processo alimentar 9
8 Vegetais / raízes / sementes 9
9 Bebidas 7
10 Utensílios alimentares 3
11 Outros 3
Total 135
Fonte: Elaboração dos autores (2017)

Consoante o Quadro 1, as palavras ou expressões que mais aparecem se relacionam a pratos de comida, com uma ocorrência de 28 vocábulos ao longo da obra. A sopa e o cuscuz, em dados momentos histórico-culturais, são servidos como refeição principal no cotidiano brasileiro; em outras épocas, por exemplo, são apenas acompanhamentos.

No sentido figurado, em que palavra ganha outra conotação, destaca-se a palavra “sopa”, que na obra manifesta uma situação em que a facilidade predominou na resolução de um negócio financeiro ou amoroso, ou seja, “sopa no mel” (CASCUDO, 1963, p. 221). Já o vocábulo “cuscuz” é utilizado para se referir aos “seios flácidos, disfarçados sob a blusa” do corpo feminino (CASCUDO, 1963, p. 217). O léxico “angu” significa uma situação complicada quando empregada na expressão “angu de caroço” (CASCUDO, 1963, p. 215). O termo “bocado” é sinônimo de subsistência, alimentação diária, consoante o enunciado “preciso ganhar o meu bocado” (CASCUDO, 1963, p. 216). O “preguiçoso” é também chamado de “empada” (CASCUDO, 1963, p. 217). O “farofeiro” é aquele mentiroso ou “gabola” (CASCUDO, 1963, p. 217). “Pamonha”, por sua vez, refere-se ao “desprovido de iniciativa, parvalhão, submisso, lerdo, pesadão” (CASCUDO, 1963, p. 219). E, finalmente, “pão-duro” quer dizer “miserável” (CASCUDO, 1963, p. 220).

Outros vocábulos ou expressões se referem ao lugar de origem de uma pessoa, ou seja de pertencimento à uma região, como, por exemplo: “papa-arroz” é usado para quem é natural do Maranhão; “papa-goiaba” aponta para o fluminense; “papa-jerimum” expõe quem nasceu no Rio Grande do Norte; “papa-mamão” diz respeito ao procedente de Olinda, no Recife (CASCUDO, 1963). Ressalta-se que não há indício de autoria para cada uma das denominações citadas. É justamente isso que caracteriza uma manifestação cultural, também denominada de tradição folclórica: quando as informações são aceitas pelo coletivo, transmitidas oralmente, preservando o anonimato e consolidando-se no dia-a-dia do povo.

No entanto, as expressões nascem na cultura ou seja, brotam da vivência, crença, costume, hábito e prática dos sujeitos, enfim, do conhecimento empírico. A título de exemplo: “Descascar abacaxi” para falar de algo difícil, trabalhoso. “Pegar peixe, “pescar” com dormir. A pesca exige paciência, silêncio, horas de concentração que podem levar o sujeito ao cochilo. Há uma relação, não é uma invenção, mera espontaneidade e repetição. Algumas expressões são difíceis, atualmente, de compreender, devido às mudanças culturais. Mas isso não significa que elas sejam aleatórias, frutos do acaso.

Prosseguindo com analise dos alimentos listados na obra de Cascudo, está a categoria que se relaciona ao nome de frutas é a segunda com maior índice de ocorrência na obra de Cascudo (1963), conforme sinaliza o Quadro 1. A seguir, as frutas que são citadas no livro: abacaxi, azeitona, banana, catolés (palmeira), goiaba, guabiraba, jaca (bago), jaca (jaqueira), limão, mangaba, mangabinha, manga verde, melancia, melões, pepineira, pepino, pitomba, tomate e uva.

É importante salientar que algumas das frutas mencionadas são de origem nativa, a exemplo da goiaba. Outras, porém, foram implantadas ao longo da história da alimentação e da economia mundial, as quais, de tão comuns na cultura, popularizaram-se a ponto de ter sua nacionalidade confundida, a exemplo do caso da banana, que é de origem asiática, e não brasileira (AMORIM, 2010). Em dados momentos históricos, um paladar refinado era tido como distinção social. Nesse sentido, muitas frutas exóticas foram disputadas por pessoas que queriam estar em evidência na sociedade, conforme sugere Camponesi (1996) na obra A arte de viver na época das luzes.

Entre os significados figurados atribuídos à categoria de alimentos em análise, aparece “fruta nova” para reportar-se a uma “pessoa estranha, estrangeira” ou a uma “meretriz recém-chegada”. Cascudo (1963, p. 218) recorre ao folclorista Antônio Prestes para explicar que essa expressão era também “[...] aplicada ao indivíduo estranho e era corrente em Portugal, na primeira metade do século XVI”. Outro exemplo é o caso do abacaxi, que é sinônimo de “desajeitado” ou “problema complicado” (CASCUDO, 1963, p. 214). Limão, por sua vez, denota “temperamento azêdo, constante mau humor, zangadão irritante” (CASCUDO, 1963, p. 218).

Em terceiro lugar, aparece a categoria atinente à carne animal e derivados. A galinha, o galo, o ganso, o pato e o peru são exemplos de aves citadas ao longo da obra do folclorista potiguar. O bode foi o único caprino mencionado. Referente à carne bovina, destacam-se: o bife, proveniente da palavra beef, referindo-se ao homem inglês; a carne-seca, que indica a recorrência de costumes antiquados; a linguiça, que designa o homem magro; e, por fim; a palavra “aflambrado”, que era usada para prenunciar uma pessoa “vestida com elegância”. Ainda com relação a esse último vocábulo, observe-se sua presença no anúncio seguinte, publicado no jornal Correio Paulistano[2] (1941, p. 17):

Anúncio
do aflambrado sem osso – Frigorífico Wilson do Brasil
Figura 1
Anúncio do aflambrado sem osso – Frigorífico Wilson do Brasil
Fonte: Jornal Correio Paulistano (1941, p. 17)

O registro exibido na Figura 1 vai ao encontro do estudo de Cascudo (1963). No que diz respeito ainda às palavras de cunho pejorativo, destacam-se: “paio”, que se refere ao “pagador crédulo, borrachão” (CASCUDO, 1962, p. 219); “pato”, que aponta para “a vítima, crédulo, imbecil, pacóvio, otário” (CASCUDO, 1962, p. 220); “linguiça”, usada na expressão “encher linguiça”, que se refere à situação de “[...] ocupar o tempo com banalidades; discurso sem assunto digno de audição; palavrório; chantagem verbal” (CASCUDO, 1962, p. 218). Os exemplos semelhantes tirados do universo da prática e do consumo alimentar poderiam ser multiplicados, haja vista sua profusão na obra.

Na quarta categoria, encontram-se os peixes e mariscos: bacalhau, badejo, manjuba, moqueca, ova, piaba, siri, xarén e as variações de peixe (peixão, peixe caro, peixe fresco, peixe podre e peixinho). Na obra “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963), são lembradas as seguintes expressões: “pegar peixe” é sinônimo de tirar um cochilo; “peixe fresco” anuncia uma debutante, prostituta nova ou ainda um político ou literário estreante; “peixe podre” é o mesmo que sem valia, sem significação, desprezível; por fim, a palavra “peixinho” aponta para aquele que é preferido, mimado.

Os doces que estão na quinta categoria em termo de recorrência na obra de Cascudo (1963) são: “alfenim” indica um sujeito ou situação melindrosa; “arroz-doce” tem o sentido de coisa ou pessoa vulgar; “arroz-doce de pagode” relaciona-se àquele que é infalível nas festas; “cocada” significa o mesmo que levar um bofetão; “confeito” é o que faltava para a coroação do momento; “furrundum” é o doce de cidra para uma discussão; “goiabada” exprime uma solução imprevista; “melaço”, presente desde o Brasil colônia nos engenhos de açúcar, manifesta um namoro quente; “pastel de nata” significa ter prestígio; “puxa-puxa” é aquele fofoqueiro que leva e traz; “rapadura”, quando aparece na expressão “entregar a rapadura”, denota desistir de alguma empresa ou plano; “marmelada” indica alguma cilada ou armação. Aqui cabe informar que o doce de marmelo (fruto) do marmeleiro (árvore) é originário da Ásia e Sudoeste da Europa e foi trazido ao Brasil no período da chegada dos primeiros colonos.

Na sexta categoria, há também os verbos e expressões associados à comida, tais como: “arrotar”, “beber jurema”, “biscoitar”, “bromar”, “comer”, “mamar”, “amadurecer” e “derramar molho”. A seguir, destacam-se apenas os exemplos mais emblemáticos do vocabulário alimentar:

[...] supor, presumir, julgar. ‘Eu o comia por médico e era um charlatão’. Explica-se o estado psicológico ou a situação social pela espécie alimentar. Comendo pimentas, furioso, decepcionado, cheio de ira. Comendo areia, desempregado, faminto, azarado. Comendo barata, enfrentando dificuldades, fatos desagradáveis. Comendo fogo, ambiente hostil, áspero, antipático. Comendo água, embriagando-se. Comendo prego, na batalha pela manutenção. Comer rama, embebedar-se. Comer verbena, beber cachaça. Comer pedras, comer queijo de brisa, sem meios de subsistência. Come-longe, indivíduo pálido, macerado, hipoêmico. Comer insôsso, amarguras diárias, sucessivas. Comer com a testa, não conseguir, falhar o plano e vê-lo realizado por outrem. Comer couro, ser surrado, sovado. Comer calado, pacientemente. Comer safado, contrariedades, contratempos. Comer brisa, passar fome, não querer comer. Comer da banda pôdre, adversidades. Comer brocha, o mesmo que comendo pregos. Comer, copular. A fecundação por via oral é uma tradição mitológica mantida nas versões populares à menção de ervas e frutos que engravidam. Comer gerumba, suportar trabalhos pesados curtir desapontamentos, forçado pelas conveniências, ou pela necessidade, e análogos estados d'alma. Comendo corda, acreditando em mentiras. Comeu junça, sexualmente forte. A junça Cyperus esculentus, Linneu, dizem ser tônico afrodisíaco, nos tubérculos terminais das raízes. Comer salgado, enfrentar situação dificultosa, precariedades (CASCUDO, 1963, p. 217).

Como se deduz do fragmento selecionado, a comida e seus significados estão presentes na cultura com distintos sentidos em frases feitas e imagens comparativas provenientes do vocabulário corrente do cotidiano. Na obra de Cascudo (1963, p. 221), o vocabulário compreende também alguns processos de transformação do alimento, como, por exemplo, estar em ponto de bala, que significa “[...] ao ponto em que a calda do açúcar refinado com essência de fruta atinja a densidade indispensável para o esfriamento e feitura de balas, bolas, rebuçados”. Seguem outros exemplos de processos alimentares contemplados na linguagem do povo que ganham sentidos diversos: “puba” (estar no trinque); “farinha” (fartura); “goma” (mentira); “manteiga” (melindroso); “meladura” (ganho demasiado); “sal” (talento); “azeites” (mau humor) e “vinagre” (agiotas).

O universo dos vegetais, raízes e sementes ocupa o oitavo lugar em incidência. Adiante, o vocabulário extraído do livro “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963), seguido de seu significado: “batata” (foi no alvo); “cana-de-açúcar descascada” (sorte inesperada); “cebola” (desdém); “coirana” (planta nativa que exprime despeito); “macaxeira” (membro viril); “dendê” (palmeira procedente da África que significa coisa gostosa); “feijão” (trivial); “pinhões” (desagrado) e “taioba” (nádegas).

No universo das bebidas, estas são as palavras mais citadas: “água” (banalidade); “cachaça” (vício, mania); “café-pequeno” (facilidade); “chá” (requinte); “garapa” (solução fácil); “suco” (principal); “tereré” (infusão da erva-mate de procedência dos índios guarani), que é usado na expressão “tereré não resolve, deixe de tereré” (CASCUDO, 1963, p. 222).

Nem os utensílios domésticos utilizados na alimentação foram esquecidos por Cascudo (1963). Ocupando o décimo lugar nas recorrências, aparecem as seguintes palavras: “colher”, que significa facilidade imediata; “panelinha”, que denota uma minoria influente; e “prato”, que representa a subsistência.

Por esta perspectiva cultural, a relação com a comida “dá o que pensar “ (DUPONT, p. 199), sobre o comportamento alimentar na história da alimentação desde a aurora da humanidade e, particularmente, a presença do sistema alimentar nos verbetes que usamos na linguagem cotidiana.

A comida comunica e, na sua centralidade, Cascudo revela a cultura alimentar presente nas expressões e vocábulos associados ao universo da alimentação e ganham significados culturais distintos em que, segundo Montanari “a comida é cultura” (2008, p. 15) e não se trata de uma prática natural, pois, desde a produção, preparo e o consumo apoiam-se em critérios culturais.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra História da alimentação no Brasil (1983), de Cascudo, proporciona ao leitor uma vasta compreensão dos costumes, hábitos e práticas alimentares que não se restringem apenas às fronteiras internas do país, mas que demarcam a influência de outros povos que vieram ao Brasil em virtude dos laços entre os portugueses, africanos, franceses, ingleses e árabes.

Atento à dinâmica da língua, novas expressões e vocábulos surgem, outras desaparecem, algumas preservam-se ao longo de várias gerações e umas envelhecem. Cascudo cita os exemplos mais emblemáticos, mas, outros semelhantes poderiam ser extraídos da história cultural da alimentação.

Em “Folclore da alimentação” (CASCUDO, 1963), o historiador revela muito mais do que está escrito em suas poucas páginas. A esse respeito, destacam-se cinco contribuições importantes da obra em análise, a saber: (i) a ligação da alimentação com a linguagem popular; (ii) a proximidade da alimentação com a história e a cultura de um povo; (iii) a alimentação ligada à ciência através do método científico da antropologia, a etnografia; (iv) o profícuo diálogo com outros folcloristas; e, por fim, (v) a aproximação do autor com a formação da identidade brasileira pela comida.

Referências

AMORIM, B. A história da banana. 2010. Disponível em: http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1075&sid=7&tpl=printerview. Acesso em: 9 ago. 2017.

BLAKE, S. Diccionário bibliográphico brazileiro. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883.

CAMPONESI, P. A arte de viver na época das luzes. São Paulo: Unesp, 1996.

CASCUDO, L. C. História da alimentação no Brasil: cozinha brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1983.

______. Folclore da alimentação. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, v. 3, n. 7, p. 213-223 ,1963.

COMISSÃO NACIONAL DE FOLCLORE. Carta do Folclore Brasileiro. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE, 8., 1995, Bahia. Anais... Salvador: Fundaj, 1995.

CORÇÃO, M. C. C. O “provinciano incurável”: desvendando os caminhos de história da alimentação no Brasil. 2014. 267 f. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2014.

JORNAL CORREIO PAULISTANO. Anuncio do aflambrado sem osso – Frigorifico Wilson do Brasil. Jornal Correio Paulistano, 23 fev. 1941, p. 17, Disponível em: http://bndigital.bn.br/acervo-digital/correio-paulistano/. Acesso em: 3 ago. 2017.

SOARES, A. B. N. Comida: prazeres, gozos e transgressões. 2. ed. Salvador: UFBA, 2007.

UNESCO. Recomendação sobre a salvaguarda da cultura tradicional e popular. Paris: Unesco, 1989.

Notas

[1] Há divergência na escrita do nome da escritora, ora a grafia atende por Vianna, ora atende por Viana.
[2] Jornal que circulou de 1854 a 1863 em São Paulo.
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