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<journal-title specific-use="original" xml:lang="pt">Administração: Ensino e Pesquisa</journal-title>
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<article-title xml:lang="pt">Resenha Crítica do livro: Sociologia das organizações: conceitos, relatos e casos</article-title>
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<title>Didática como preocupação</title>
<p> Quando fui convidada a escrever esta resenha me senti muito lisonjeada. Pelo o que já conhecia de um dos autores, Pedro Jaime, minhas expectativas foram as melhores. O livro chegou em minha casa logo depois do convite: Sociologia das Organizações: conceitos, relatos e casos. Mas, antes mesmo de começar a ler, me questionei no que ele seria diferente daqueles que eu já tinha na estante tais como o tradicional Sociologia das Organizações, de Reinaldo Dias, e alguns outros de Sociologia aplicada à Administração. Foi, então, com essa questão em mente que iniciei a leitura, procurando aspectos que o diferenciasse do pouco que encontramos no Brasil sobre o assunto. Para minha grata surpresa, logo os encontrei. </p>
<p>  Esta resenha opinativa faz um julgamento de valor da obra chamando atenção do leitor para seu potencial como recurso didático em cursos de graduação e pós-graduação em Administração no Brasil. Ao construí-la, procurei alcançar dois objetivos. O primeiro, exercício de toda e qualquer resenha de texto, foi apresentar brevemente as características relevantes da obra para os leitores que ainda não tiveram a oportunidade de conhecê-la. Fiz isso indicando o que acredito ser importante dos capítulos, por vezes agrupando-os, e procurando oferecer uma visão geral do livro. O segundo objetivo foi ressaltar a capacidade didática dos autores na sua elaboração e, principalmente, o cuidado em oferecer um valioso material que ultrapassa as expectativas do leitor interessado. </p>
<p>  Aos meus olhos, três foram as grandes preocupações dos autores ao elaborarem esta obra: precisar os conceitos e termos envolvidos em cada capítulo; contextualizar, insistentemente, conceitos e casos no Brasil e a atenção ao processo de ensino-aprendizagem, traduzida pelas duas questões anteriores e também pelos recursos didáticos oferecidos generosamente ao longo das 280 páginas do livro. </p>
<p>  Os autores construíram suas trajetórias no campo das Ciências Sociais, onde a Sociologia e a Antropologia se destacam. Pedro Jaime é graduado em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutor em Antropologia Social pela USP e em Sociologia e Antropologia pela Université Lumière Lyon 2. Atualmente é professor do Departamento de Administração do Centro Universitário FEI. Fred Lucio é Bacharel licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Mestre em Antropologia pela Unicamp e Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Atua como professor do Núcleo de Humanidades da ESPM-SP. Sem dúvida, grande parte do conhecimento construído em ambas as trajetórias acadêmicas está impressa nas páginas de Sociologia das Organizações: conceitos, relatos e casos, notavelmente a dedicação dos autores aos estudos sobre diversidade nas organizações. Raça, gênero e sexualidade são exemplos de temas que permeiam a obra e certamente a tornam bem diferente do que encontramos tipicamente em livros didáticos sobre Sociologia das Organizações. </p>
<p>  Sociologia das organizações: conceitos, relatos e casos divide-se em oito capítulos. Partindo de uma visão geral, contextual e conceitual, da origem da Sociologia e da Sociologia das Organizações, os autores vão aprofundando as especificidades do campo em cada capítulo, ora adentrando o mundo das empresas e do trabalho, ora saindo dele para olhar o ambiente organizacional externo. Nesse processo, tensões, ambiguidades e diversidade são noções que aparecem em ambas as perspectivas e que acabam também caracterizando sensivelmente a obra.  </p>
<p>  O primeiro capítulo – O que é Sociologia? A Sociologia e o mundo organizacional – oferece a visão histórica do surgimento das Ciências Sociais, suas preocupações, seu contexto e seus principais pensadores. No entanto, o texto não se perde na história e procura relacionar conceitos com fatos contemporâneos. Já no início deste capítulo, por exemplo, a greve da Polícia Militar no Espírito Santo, em 2017, serve de base para pensarmos o conceito e o campo de investigação da Sociologia: “viver em sociedade é uma propensão natural do ser humano?” (p. 20), provocam os autores. Ao apresentarem relações diretas entre conceitos, contexto e casos reais, são oferecidas ao leitor não apenas informações, mas uma interessante e mais completa forma de nos ajudar a pensar a realidade. Nesse primeiro capítulo, ainda, desembaralham-se certos conceitos e seus pensadores, apresentando didática e precisamente ideias complexas tais como fato social em Émile Durkheim (1858 – 1917), ação social, tipo ideal e burocracia em Max Weber (1864-1920) e luta de classes, alienação e mais-valia em Karl Marx (1818-1883). </p>
<p>  Os capítulos 2 e 3 adentram o mundo interno das organizações. Mostram as organizações como sistemas sociais, a formação de grupos, estratégias e lógicas de ator, oferecendo um modelo analítico para compreender a dinâmica interna das empresas (p. 80). Com esse modelo analítico, ao mesmo tempo que oferecem um instrumento de caráter aplicado, tão caro para alunos de administração, pesquisadores e gestores, não abandonam os aspectos críticos das relações de trabalho discutindo, especificamente no capítulo 3, as assimetrias de poder no jogo organizacional. Aqui, o indivíduo organizacional é apresentado em sua complexidade, tomado por angústias na busca por satisfação no trabalho, reconhecimento e poder num ambiente ao mesmo tempo hostil e promissor. </p>
<p>  O esmero na escolha dos filmes que os autores indicam ao final de cada capítulo, a meu ver, representa bem a preocupação com o processo de ensino-aprendizagem. Por exemplo, o filme “O Corte” (Le Couperet), do diretor Costa-Gravas, conhecido pelas denúncias de caráter político-ideológico realizadas através dos seus filmes, ilustra muito bem as discussões apresentadas no capítulo 3. No filme, um executivo francês da indústria de papel se vê desesperado depois de mais de dois anos desempregado. De repente, ele tem uma ideia esdrúxula: matar, literalmente, todos os seus concorrentes potenciais. No contexto da globalização, de concorrência e de crise econômica até em países desenvolvidos, onde mesmo os mais capacitados estavam desempregados, essa ideia lhe parece mais simples do que procurar outro tipo de trabalho. O protagonista a empreende ao longo do filme e toda a complexidade conceitual apresentada nos dois capítulos pode ser discutida de forma mais interessante. </p>
<p>  Os capítulos 4 e 5 voltam o olhar para o ambiente externo das organizações, apresentando as dinâmicas interorganizacionais – competição, cooperação e redes - e, principalmente, as relações entre as organizações e a nossa sociedade, representadas, por exemplo, por sindicatos, consumidores e o Estado. No capítulo 5, especificamente, os autores discutem a sociedade contemporânea, suas tensões e ambiguidades. Esse capítulo, em particular, revela um livro mais do que didático. Ele apresenta, discute e permite reformular a noção de Globalização por meio de fatos históricos e desdobramentos incontestes, como a difícil relação entre meio ambiente e crescimento econômico. A pertinente apresentação da crítica de Zygmund Bauman à globalização (p. 137) elucida bem a postura crítica dos autores. Em todos os capítulos, os leitores encontram os prós e contras das perspectivas apresentadas, denunciando a complexidade do pensamento em Sociologia das Organizações e conferindo amplitude ao livro. </p>
<p>  Os dois capítulos seguintes - Cultura e organizações e Cultura brasileira e gestão de empresas (6 e 7, respectivamente) – retomam os conceitos de cultura e de cultura organizacional. Os autores contextualizam a apropriação da noção de cultura no mundo das empresas e no campo da administração. Eles problematizam esse processo e apresentam a compreensão ampliada da noção de cultura ao enfatizarem a imanência entre o ser que a sociedade produz e a sociedade produzida por ele. Como de costume, os autores apresentam casos e relatos esclarecedores (e por vezes perturbadores) ao longo dos capítulos. No capítulo 6, o leitor se depara com o revelador caso dos programas de prevenção da Aids na África implantados por Organizações Não-Governamentais (ONGs) e apoiados por agências de cooperação internacional: os autores lembram que os programas fracassaram durante anos por desconhecerem um aspecto da cultura africana sobre a origem da vida.  </p>
<p>  O oitavo e último capítulo - Diversidade e organizações - adentra nos aspectos da cultura brasileira e ampliam a discussão sobre questões fundamentais que revelam não apenas a atualidade dos estudos e pesquisas dos autores, mas também suas nítidas preocupações com as questões de gênero e, notadamente, do racismo no ambiente organizacional. O relato que abre o capítulo, elaborado a partir de uma denúncia de racismo publicada no jornal El País, em março de 2017 e intitulada “ ‘Eu não entrevisto negros’: racismo no ambiente organizacional”, dá o tom crítico do fechamento do livro. Os autores apresentam questões fundamentais como os tipos de discriminação, questões de gênero e sexualidade, violência contra mulheres e o movimento LGBT no Brasil. Seja em forma de conceitos, relato ou caso, o capítulo final convida o leitor a refletir sobre a intolerância. Usando criativamente o mito do Leito de Procusto, mostram que a intolerância é a mutilação da realidade quando os fatos são incompatíveis com crenças e valores arraigados dos que não toleram diversidade. Somos convidados a relembrar que por anos acreditamos na existência de diferentes raças humanas e, mesmo tendo sido cientificamente comprovado, no final do século XX, que a raça humana é uma só, negamos. Mutilamos a realidade e alicerçamos a intolerância com crença em “outras raças”. </p>
<p>  A intolerância contra negros é o foco no capítulo final do livro. Trata-se do racismo no Brasil e suas nuances, como o preconceito de ter preconceito e a frágil noção de que vivemos o que Gilberto Freyre chamou de “democracia racial”, onde não existiria preconceitos de raça entre os brasileiros, mas sim dominação de classes. Nada como mais um bom exemplo apresentado para desmontar essa tese como o repercutido caso das manifestações de racismo, via redes sociais, direcionadas à jornalista Maria Júlia Coutinho, em 2015. </p>
<p>  Como mencionei anteriormente, trata-se de um livro que se diferencia dos típicos livros didáticos sobre Sociologia das Organizações que encontramos no Brasil. Obviamente cada leitor constrói sua própria interpretação de uma obra a partir dos seus interesses, experiências e expectativas. Para mim, Sociologia das organizações: conceitos, relatos e casos reúne elementos que demonstram três preocupações dos autores. Impressionaram-me, reitero, a preocupação com a precisão e clareza dos conceitos; com a contextualização dos conceitos e práticas no Brasil e, sem dúvida, com o processo de ensino-aprendizagem demonstrada pela meticulosidade na escolha e elaboração dos relatos e casos e outros tantos recursos didáticos espalhados pelo livro. </p>
<p>  À guisa de conclusão, é oportuno indicar a leitura do número especial da revista Organizações &amp; Sociedade (O&amp;S), v. 85, n. 27 de 2018, editado por Pedro Jaime (FEI), Paula Barreto (USP) e Cloves Oliveira (FFCH/UFBA). Intitulado “A questão racial no mundo empresarial”, os oito artigos do número mostram a diversidade de pesquisas e discussões que permeiam o mundo organizacional sobre a questão racial. Questões como a invisibilidade, diferenças salariais, preconceitos e deméritos da população negra nas organizações são tratadas profundamente pelos autores. </p>
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<mixed-citation>BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. São Paulo: Jorge Zahar Editor,1999.</mixed-citation>
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<mixed-citation>DIAS, R. Sociologia das organizações. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2012.</mixed-citation>
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<mixed-citation>O CORTE. Direção: Costa-Gavras. Intérpretes: José Garcia, Karin Viard, Ulrich Tukur, Olivier Gourmet e outros. Co-produção:Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Roteiro: Costa-Gavras, Jean-Claude Grumberg, Patrick Blossier e outros. França: Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) e Wanda Vision. 2005. 117 min. DVD.</mixed-citation>
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