Resenhas

Reflexões sobre a influência do pós-doutorado sobre produção científica da pós-graduação

Marcello Vinicius Doria Calvosa
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil

Reflexões sobre a influência do pós-doutorado sobre produção científica da pós-graduação

Administração: Ensino e Pesquisa, vol. 20, núm. 2, pp. 537-544, 2019

Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração

Resenhas reviews

Castro, P. M. R. (2017). Influência do pós-doutorado sobre produção científica da pós-graduação: O caso da USP. Saarbrücken: Editora Omniscriptum/Novas Edições Acadêmicas.

Pedro Castro é psicólogo pela Universidade de Brasília, com mestrado e doutorado em administração pela USP. É Analista em Ciência e Tecnologia atuante na CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). É pesquisador, com diversos artigos científicos relevantes publicados no Brasil e no exterior. Também atua como avaliador e revisor de vário periódicos científicos. Colunista e atuante no tema pós-doutorado e seus impactos acadêmicos e científicos no país.

Em sua obra denominada Influência do Pós-doutorado sobre Produção Científica da Pós-graduação – O caso da USP, o que chama a atenção é o fato do autor trazer para discussões questões seminais do universo acadêmico e científico, usando como conjuntura uma das mais expressivas instituições de ensino superior brasileira. Em sentido contributivo, a leitura parece ser um convite interessante para ampliar a discussão do tema entre pares e para tantas outras instituições.

Em um ambiente de análise do cenário do estágio pós-doutoral, o livro envolve temas e assuntos que permeiam o ambiente acadêmico e científico, tais como: capacitação docente, avaliação do ensino superior, contextos de atuação da pós-graduação, nuances da produção científica e o cenário do pós-doutorado vivenciado pelos docentes da Universidade de São Paulo (USP).

A estrutura do livro é de cinco capítulos, além de apêndice e anexo. Os três primeiros capítulos são aspectos da preparação do trabalho de investigação. O primeiro capítulo traz aspectos gerais envolvidos com o pós-doutorado, principalmente, a discussão sobre a necessidade do contínuo aperfeiçoamento de carreira. Digno de nota, o estímulo ao debate sobre tal questão presente na Academia torna-se premente. Na prática observa-se o formato de contínua pressão em alunos e profissionais pelo fomento e pelos recursos necessários para concretização do aperfeiçoamento de ingresso no estágio pós-doutoral, a desenhar uma evolução não equilibrada da procura (demanda) e da concessão (oferta) de bolsas para realização de Pós-Doutorado, especialmente no exterior.

O segundo capítulo traz aspectos teóricos da Gestão do Conhecimento nas organizações e contextualiza a universidade em estudo (USP). Permite que o leitor visualize um panorama da pós-graduação nacional, desde a sua criação com o Parecer Sucupira, na década de 1960 até os dias atuais. Nele se considera o pós-doutorado como um elemento a somar para a pós-graduação brasileira, apresentando-se conforme os princípios da Gestão do Conhecimento, como qualificação docente, por meio da socialização entre pesquisadores, visando a posteriori a externalização do conhecimento, entre os pares.

O terceiro capítulo diz respeito ao método. O autor trabalhou a perspectiva de que o pós-doutorado não pode ser encerrado na fase de Gestão do Conhecimento da socialização presencial entre pesquisadores. O método foi estruturado para pontuar antes e depois do pós-doutorado realizado (por meio de uma série de índices), verificando a variação da produção docente, nos seguintes quesitos: livros, capítulos de livros, artigos científicos publicados em periódicos, trabalhos publicados em anais de eventos, prefácio, posfácio, tradução de obras e demais produções relevantes que estivessem listadas pelo pesquisador em seu currículo lattes.

Uma das contribuições do livro para o leitor e para um cenário de classificação/comparação entre profissionais (e, no futuro, instituições), em minha visão, foi a representação dos “quesitos de produção bibliográfica comuns na carreira docente”. Esses foram utilizados para poder comparar o antes e depois em relação ao mesmo docente, como também foram utilizados para cotejar a produção do docente com seu par comparável (com mesmo tempo de carreira e atuante na mesma área do conhecimento), verificando se havia diferenças de desempenho entre docentes com pós-doutorado e docentes sem pós-doutorado realizado. Essa análises de desempenho, neste momento do livro, geram reflexões e inferências oportunas.

O quarto capítulo apresenta os resultados e a análise das hipóteses levantadas, quanto a rejeição ou não rejeição das mesmas. E, de forma a suscitar controvérsias, a maior parte deles indicam e depõem contra senso comum a respeito do pós-doutorado. Como, por exemplo, a não corroboração da hipótese:

“A hipótese da magnitude da variação do índice será diferente em função da área do conhecimento / atuação do docente não foi confirmada, [pois] as diferentes áreas possuem resultados bastante próximos e diferenças não significativas”. (p. 50)

Para um “leigo”, o assunto poderia parecer patente, pendente para áreas geralmente contempladas com maior fomento ou interesse midiático. Contudo, o estudo, ao contrário, mostra um resultado de impacto mediano, mas comum a todas as áreas da universidade investigadas, sem diferenças significativas entre elas.

Outro resultado que pode ser destacados e deverá ser um ponto de interesse ao leitor é a relação da “pausa” entre a conclusão do doutorado e a realização do pós-doutorado - o interstício entre as qualificações. O livro aponta que quanto maior essa pausa, maior é a tendência do pós-doutorado gerar resultados positivos sobre a produção científica: os pesquisadores seniores tendem a se beneficiar mais do pós-doutorado que do recém-doutores atuantes na universidade.

Em seus capítulos finais tem-se as considerações críticas, análises acerca do pós-doutorado, as referências utilizadas e um capítulo no qual o autor relaciona todos os artigos científicos que foram publicados decorrentes da obra. Essa seção final é um adendo ainda raro na nossa prática acadêmica: o autor relaciona todos os artigos científicos que deram embasamento para a elaboração do livro, exploram ainda mais o tema e que foram publicados, via de regra, em revistas prestigiosas e de boa pontuação na base Qualis da Capes. Tais trabalhos/papers (CASTRO; PORTO, 2008, 2010, 2012, 2016; CASTRO; PORTO; KANNEBLEY Jr, 2013) foram decorrentes de pesquisa científica extensiva e mostra a preocupação de agregar diversos conteúdos em um só local, facilitando o aprofundamento do leitor no tema de análise, caso tenha esse interesse.

Adicionalmente, em seu conteúdo (CASTRO, 2017, pp. 34) pode ser observada uma sugestão de nova pontuação inter áreas para o Qualis. O autor aborda a explicação de como surgiu a famigerada, e por vezes, debatida como controversa, pontuação que todos conhecemos (pontuação de zero a 100, de C a A1 nos diversos estratos) – tendo como origem piloto no mestrado do próprio autor (no ano de 2002). Percebe-se e nos é informado que, progressivamente, foram seguidas diversas adoções gradativas, por muitas comissões de área da Capes, sendo a primeira a adotar a ideia de “pontuações” - a área de Administração. Logo seguida pela área de Educação. Essa forma de computar foi se expandindo a tal ponto que passou a configurar as tabelas atuais de pontuações Qualis a qual, enquanto acadêmicos e pesquisadores, conhecemos hoje.

Como ponto alto da amostra selecionada houve o cuidado de analisar a Universidade de São Paulo. A USP é a maior instituição de ensino superior pública do país em números e indicadores de desempenho, e no cenário acadêmico e científico, está entre as mais relevantes da América Latina. Destaca-se por ser uma instituição de excelência em ensino e pesquisa, mas também, em sua extensão universitária para uma comunidade acadêmica que supera em muito o seu entorno geográfico. A situação relatada no livro, envolvendo o pós-doutorado de docentes dessa instituição, gera reflexões e ponderações! Dificilmente, um pesquisador no cenário Brasil não parará para refletir... realidade só da USP ou é possível realizar inferências para outras instituições de excelência no cenário brasileiro?

Se o pós-doutorado na USP comporta-se dessa forma, por analogia (ou mesmo uma tendência humana natural de quantificar eventos), em uma escala de zero a dez, como se comportará o desempenho de instituição de ensino superior na qual trabalho e/ou estudo? Qual a nota que seria atribuída à minha instituição, caso fosse atribuída uma nota ٧ ou ٨ para situação dos professores seniores da USP, por exemplo. A recomendação do referido livro envolve tais questões dilemáticas surgidas automaticamente no leitor, que se envolve e particulariza a narrativa. Se essa é a realidade da USP, referenciada como “vitrine” por alguns, como será a realidade de outras instituições? Agregando situação igualmente muito provável, a de que um doutorando próximo da defesa de sua Tese, ponderará: será que vale a pena realizar o pós-doutorado? É de fato essencial para a minha carreira? Qual o melhor momento para o fazer, caso realmente opte por esse caminho?

O livro é abrangente e aponta a necessidade de reflexão dos vários componentes envolvidos – a enfatizar a necessidade, inclusive, de uma visão mais ampla e não tão restrita da produção de artigos em periódicos. Sobretudo, pode-se enriquecer e considerar nas diversas avaliações, outros critérios que podem ser muito mais amplos, como os relacionados em Castro e Porto (2016b), com base na reflexão acadêmica do que nós queremos na pós-graduação? Seria Ensino e Pesquisa... e nada mais? Um profissional vinculado ao ensino superior não deverá ficar imune ao seu teor, quer seja no curto prazo, quer seja no longo prazo. O livro provoca, instiga e leva o leitor a (re)pensar do ponto de vista cognitivo diversos tópicos, não apenas do pós-doutorado.

Em resumo, obra traz conteúdos inéditos e, em perspectiva, traz duas informações de grande repercussão: o impacto pós-doutoral é mais significativo e positivo em especial entre os doutores seniores; pesquisadores que realizam estágios pós-doutorais no exterior apresentam resultados de performance semelhantes aos que realizam no Brasil, ou seja, não são as “celebradas férias”, como veiculado em corredores acadêmicos das instituições de ensino superior.

A obra posiciona-se contra o “locus sagrados” pela força do uso corrente e de lugar comum, de frases politicamente corretas como: qualificação nunca é demais; formação quanto mais rápida e mais acelerada melhor; entre outras. Questionadas, diante de um trabalho exaustivo e alicerçado em dados empíricos coletados na citada maior instituição do país, que aponta um sinal de alerta de que, a práxis acadêmica, precisa também ser pesquisada, avaliada e, em especial, ser revista e repensada constantemente, visando a melhoria dos resultados acadêmicos e sociais que são esperados. Um livro provocativo e que gerará desejado impacto acadêmico, talvez até em produção científica, na formação de carreira dos docentes e pesquisadores!

A relevância da obra está direcionada a vários públicos: professores universitários, alunos de mestrado e doutorado e dos mais diversos atores relacionados com a avaliação, administração e condução do ensino superior como um todo. Da motivação inicial, o leitor tem acesso a um trabalho denso, interessante e desafiador da perspectiva operacional da sua condução. Reflexivo no que diz respeito aos seus achados.

A leitura do livro é simples, adequada e agradável. Isso se deve pelo fato do autor desenvolver menos enquadramento/linguagem formal que a dos artigos, com um tom interessante e atrativo, tornando mais leve a sua leitura. Porém, não deixando de trazer para o grande público um tema polêmico, ainda não consensual na própria Academia.

Referências

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S. Retorno ao Exterior Vale a Pena? A questão dos estágios pós-doutorais sob a perspectiva da produção em C&T. Organizações & Sociedade, v. 15, n. 47, p. 155-173, 2008. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1984-92302008000400009

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S. Análise exploratória sobre a mensuração de resultados da capacitação via estágios pós-doutorais: Heterogeneidade entre grandes áreas do conhecimento? Revista de Administração (RAUSP), v. 45, n. 1, p. 43-56, 2010. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S0080-2107(16)30508-8

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S. Avaliação de resultados da capacitação via estágios pós-doutorais: breves notas sobre a produção científica em periódicos. Revista Ensaio, v. 20, n. 74, p. 51-72, 2012. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40362012000100004

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S.; KANNEBLEY JÚNIOR, S. Pós-Doutorado, essencial ou opcional? Uma radiografia crítica no que diz respeito às contribuições para a produção científica. Revista da Avaliação da Educação Superior, v. 18, n. 3, p. 773-801, 2013. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772013000300013

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S. Copo meio cheio ou copo meio vazio? Estágio pós-doutoral, face exposta, revisão crítica e agenda de pesquisa. Educação em Revista, v. 32, n. 1, p. 159-184, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-4698140410

CASTRO, P. M. R.; PORTO, G. S. Ensino e pesquisa e nada mais? Uma análise com base em currículos lattes de pós-doutores egressos da capes. Administração: Ensino e Pesquisa, v. 17, n. 1, p. 111-146. 2016b. DOI: http://dx.doi.org/10.13058/raep.2016.v17n1.355

CASTRO, P. M. R. Influência do pós-doutorado sobre produção científica da pós-graduação: O caso da USP. Saarbrücken: Editora Omniscriptum/Novas Edições Acadêmicas. ٢٠١٧.

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