Número Temático

OS MEMES E O GOLPE

MEMES AND THE COUP D’ÉTAT

LOS MEMES Y EL GOLPE

Leonardo Nolasco-Silva[1] Universidade do Estado do Rio de Janeiro Maria da Conceição Silva Soares[2] Universidade do Estado do Rio de Janeiro Vittorio Lo Bianco[3] Fundação CECIERJ
Leonardo Nolasco-Silva[1] Universidade do Estado do Rio de Janeiro Maria da Conceição Silva Soares[2] Universidade do Estado do Rio de Janeiro Vittorio Lo Bianco[3] Fundação CECIERJ, Brasil

OS MEMES E O GOLPE

Periferia, vol. 11, núm. 2, pp. 111-130, 2019

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Resumo: O artigo sugere pensar os memes como discursos abertos e colaborativos, capazes de participar da narração da nossa história comum, sublinhando sua potência na criação do pensamento. Memes são discursos (imagens, vídeos, músicas e outras formas de comunicação) que viralizam na internet e despertam o desejo de atualização. Diferente do viral que se assenta basicamente no compartilhamento, o meme demanda ser modificado para se inserir em cada novo ato de compartilhar. Um meme é, pois, um discurso que se adequa aos contextos mais variados, exigindo de quem o compartilha um trabalho de atualização e ressignificação. O texto apresenta aspectos positivos e negativos da memética e aponta para o papel ativo dos usuários na manipulação da linguagem em tela. Reflete sobre a viabilidade de intercâmbios semânticos entre os memes e o fazer científico, indicando que, apesar da aparência de repetição os memes produzem diferença. Reconhece os memes como disparadores de práticas formativas e, para tanto, apresenta como recorte de pesquisa a produção de memes no bojo do golpe de 2016, no Brasil.

Palavras-chave: Memes, Autoria, Impeachment, Cibercultura.

Abstract: The articlesuggeststothinkof memes as open andcollaborativediscourses, capableofengaging in thenarrativeofour common history, underlining its power in thecreationofthought. Memes are speeches (images, videos, musicandotherformsof communication) that viralize onthe internet andawakenthedesireto update. Unlikethe viral thatreliesprimarilyonsharing, memes demandtobemodifiedtofitintoevery new actofsharing. A meme is, therefore, a discoursethatadaptstothemostvariedcontexts, demandingfromthosewhoshare it a workofupdatingandresignification. The textpresents positive and negative aspectsofmemeticsand points totheactive role ofusers in themanipulationofthelanguageonscreen. It reflectsontheviabilityofsemanticexchangesbetween memes andscientificpractice, indicatingthatdespitetheappearanceofrepetition, memes producedifference. It recognizes memes as triggers offormativepracticesand, for that, presents as a researchcuttheproductionof memes in thebulgeofthe 2016 coup d’état in Brazil.

Keywords: Memes, Authorship, Impeachment, Cyberculture.

Resumen: El artículo sugiere pensar los memes como discursos abiertos y colaborativos, capaces de participar enlanarración de nuestrahistoriacomún, subrayandosupotenciaenlacreacióndelpensamiento. Memes son discursos (imágenes, vídeos, música y otras formas de comunicación) que vendenen Internet y despiertaneldeseo de actualización. Diferente del viral que se asientabásicamenteenel compartir, el meme demanda ser modificado para insertarseen cada nuevoacto de compartir. Un meme es, pues, un discurso que se adecua a loscontextos más variados, exigiendo de quienlo comparte untrabajo de actualización y resignificación. El texto presenta aspectos positivos y negativos de lamemética y apunta al papel activo de losusuariosenlamanipulacióndellenguajeenpantalla. Refleja sobre laviabilidad de intercambiossemánticos entre los memes y elhacer científico, indicando que, a pesar de laapariencia de repeticiónlos memes producen diferencia. Reconocelos memes como disparadores de prácticas formativas y, para ello, presenta como recorte de investigaciónlaproducción de memes enel seno del golpe de 2016, en Brasil.

Palabras clave: Memes, autoría, impugnación, cibercultura.

OS MEMES E O GOLPE

A produção cotidiana de mensagens – atos comunicativos marcados pela imprevisibilidade[4] de emissores e receptores – tem nos memes um novíssimo modo de expressão. Memes são discursos (imagens, vídeos, músicas e outras formas de comunicação) que viralizamna internet e despertam o desejo de atualização. Diferente do viral que se assenta basicamente no compartilhamento, o meme demanda ser modificado para se inserir em cada novo ato de compartilhar. Um meme é, pois, um discurso que se adequa aos contextos mais variados, exigindo de quem o compartilha um trabalho de atualização e ressignificação. Originalmente, no grego, meme quer dizer imitação. Se concordarmos com BHABHA (1998) que imitação é sempre a criação do novo, podemos afirmar que produzir um meme é imitar um discurso para fazê-lo outro.

Na atualidade do ciberespaço, os memes – geralmente imagens acompanhadas de falas breves – são consumidos como fontes de informação: às vezes, discurso de verdade, outras, simples entretenimento. A separação entre uma e outra possibilidade, contudo, não é tarefa fácil. Memes podem ser veículos de propagação de ­fake news e instrumentos para a difusão de ódios e preconceitos.

Figura 1 A imagem, viralizada em 2015, não revela somente o descontentamento com a prática política da presidenta da República. Expressa o machismo e a misoginia entranhados na sociedade brasileira, promotores de uma cultura do estupro[5].

Mas, como indica Certeau (1994), nossas práticas cotidianas são marcadas pelos usos que empreendemos de tudo aquilo que produzimos e/ou consumimos. Para ele, os homens e mulheres comuns, em suas práticas de usuários do que não foi por eles fabricado e que lhes foi oferecido ou imposto pelo mercado ou pelo Estado, criam outros possíveis com suas operações, produzindo sempre diferença em uma combinação singular de artes de fazer a partir do repertório dominante. Tais artes de fazer, que também constituem modos de saber, implicam uma produção secundária informada pelos desejos e interesses dos praticantes da cultura. Dito de outra forma, se há memes que narram violências, há outros que comunicam resistências.

Figura 2 A apresentadora Bela Gil é fonte constante de memes. Cozinheira, ela costuma dar dicas de alimentação saudável, recomendando substituir determinados ingredientes nocivos (na concepção dela) por outros mais benéficos. Seu bordão é atualizado em múltiplos contextos.

Podemos dizer que os memes, em alguma medida, são “artes de dar golpes” (CERTEAU, 1994)[6] nas textualidades estabelecidas. Representariam a vitória dos mais “fracos” (no caso, as linguagens marginais) contra os mais “fortes” (os atos comunicativos convencionais), capturando no vôo (CERTEAU, 1994) oportunidades de fortalecimento, (re) aparição e permanência no hall das efemeridades discursivas.

Há quem acredite nos memes como banalidades do dia a dia, trivialidades sem importância a compor uma gigantesca lixeira virtual. Argumentamos, ao contrário disto, que memes constituem e fabulam os cotidianos, inventando formas outras de produzir comunicação. Assim, falaremos de memes como práticas formativas capazes de criar modos de narrar o mundo. Nossos processos formativos são constituídos de sentir,ser, pensar . fazer (ALVES, 2015), e a nossa formação é costurada nos/pelos/com os encontros que temos. Os encontros – entre pessoas e entre processos – constituem a base da nossa formação. Assim,

[...] ao pensarmos, especificamente, a formação no contexto das práticas da formação acadêmica, por exemplo, é preciso que saibamos que é nela que se dá a formalização de conhecimentos específicos, bem como a apropriação teórica de práticas - de todas as práticas que se dão em outros contextos - tanto como das teorias, criadas e acumuladas, especialmente, no contexto das práticas de pesquisas em educação. Assim sendo, ao discutirmos a formação no contexto das práticas da formação acadêmica, é preciso que pensemos os conhecimentos - teóricos e práticos -, bem como as significações capazes de nela articular tudo o que é criado e acumulado nos outros contextos. (ALVES, 1998, p. 63-64).

Como recorte, optamos por dialogar com memes produzidos em meio ao golpe de 2016, intentando sublinhar as possibilidades de registro e pensamento a partir desta recém-criada figura de linguagem.

BREVE ENSAIO IMAGÉTICO SOBRE O GOLPE

Foi golpe. Precisamos começar dizendo isto. Sem meias palavras, sem rodeios, anunciando o que quase todos nós sabemos nos tempos que correm. Uma presidenta legitimamente eleita, com mais de 54 milhões de votos, foi impichada sem ter cometido crime de responsabilidade[7], abrindo caminho para o saque do poder por um coletivo político-empresarial majoritariamente envolvido em esquemas de corrupção[8]. O golpe de 2016[9] foi urdido por múltiplos movimentos, tecido em meio a uma atmosfera de descontentamento frente “a tudo isso que está aí” – uma generalização que acirra ânimos e não explica coisa alguma.

Figura 3 Na composição de imagens, temos o meme oriundo de uma cena realizada pelo humorista Paulo Gustavo. O texto da personagem (apresentada ao público como despolitizada, influenciável e à procura de fama) repete os clichês contra a corrupção, muito comuns nas redes sociais online.

Palavras de ordem e frases de impacto marcaram as manifestações nas ruas e na Internet, reunindo uma plêiade de críticas sob o guarda-chuva do combate à corrupção. Entretanto, a vulgarização de um discurso padrão contra a “corrupção dos tolos”, conforme argumenta Souza (2017), serviria para ocultar a corrupção real, da elite do dinheiro, que teria como cúmplices a grande mídia e setores da casta jurídica.

Figura 4 Ao longo do golpe a parcialidade das Organizações Globo, bem como o seu envolvimento em questões juridicamente delicadas, foram ficando cada vez mais evidentes, gerando reações na Internet e nas entradas ao vivo dos telejornais.

[...] Esse é certamente um caso único nas sociedades modernas: um grupo de mídia se intromete seletivamente na política, se alia a juízes com agenda própria e corporações com interesses particularistas, como o MP e a Polícia Federal, chantageia e ameaça juízes de tribunais superiores e políticos, usando a turba protofascista da classe média como massa de manobra, e consegue destronar um governo eleito democraticamente. (SOUZA, 2017, p. 219).

O golpe, hoje já sabido, embora não assumido por todos, não nasceu da noite para o dia. Foi arquitetado a partir de alianças múltiplas, com a imprensa, com os empresários, com parte do poder judiciário – que, segundo Souza (2016, p. 15), “também assalta o país com salários nababescos e vantagens de todo tipo que o mortal comum sequer sonha” –, com muitos artistas inconformados trajando camisetas da seleção brasileira, uma ribanceira com um monte de gente a flertar com o precipício.

Figura 5 Artistas que participaram das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, admiradores do juiz Sérgio Moro, que comanda a Operação Lava Jato, viraram meme quando Michel Temer assumiua presidência e extinguiu o Ministério da Cultura.

O golpe fez parte, segundo interceptação telefônica do Senador Romero Jucá (MDB-RR), de um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo.

Figura 6 Meme criado a partir da conversa-confissão do Senador Romero Jucá (MDB-RR). Na ligação, interceptada pela Polícia Federal, o político conta detalhes do plano em curso para afastar Dilma Rousseff da presidência da república.

A confissão de Jucá – que não o levou para a cadeia, tampouco cassou seu mandato –revela a dimensão do golpe em curso. Não se trata apenas de uma disputa político-partidária, mas de um projeto de poder, ou melhor, da tentativa de retomada de um tempo histórico ameaçado – embora não superado, pelos treze anos de governos petistas – com forte marcador de classe.

Figura 7 A complexidade da luta de classes deu lugar, no Brasil, a uma divisão simplória, mas de grande apelo ideológico: coxinhas x mortadelas. Tal polarização, inspirada no antagonismo entre direita e esquerda, sintetizou práticas veladas (às vezes nem tanto) de inúmeros preconceitos.

De acordo com Frigotto (2017) o ambiente que geriu o golpe é marcado pelo desejo de interromper duas conquistas dos movimentos sociais: a Constituição de 1988 e a eleição de Luís Inácio Lula da Silva, em 2002. Se a Constituição Cidadã ampliou direitos sociais e subjetivos de forma significativa, garantindo o direito universal à educação básica, a eleição de Lula da Silva representou a possibilidade de consolidação dos avanços constitucionais – quase vinte universidades públicas foram criadas, além de centenas de Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia; aumento real do salário mínimo; política de cotas; bolsa família; liberdade de organização para os movimentos sociais e culturais; mudanças substanciais nas relações exteriores, incluindo a participação do Brasil no BRICS[10].

Figura 8 Alguns memes são capazes de sintetizar capítulos muito complexos da nossa história. A frase em tela, por exemplo, oferece pistas sobre a densa discussão acerca do racismo realizada por Souza (2017). A imagem do ex-presidente Lula alude ao argumento promovido por Frigotto (2017).

Este conjunto de ações e de mudanças, na visão do autor, tornou-se insuportável para a classe dominante brasileira e desdobrou-se nos procedimentos do golpe de 31 de agosto de 2016 – um golpe mais profundo e letal que o golpe empresarial-militar de 1964, estando a classe dominante, no cenário atual, organizada como tal no coração do Estado e na sociedade civil.

Figura 9 A imagem registra o momento em que Aécio Neves, cercado por apoiadores de sua campanha presidencial, recebe o resultado de sua derrota para Dilma Rousseff. Aécio promete fazer de tudo para não deixar Dilma governar.

A produção de ‘verdades’, fundamental para se costurar o golpe, ganhou respaldos jurídicos com a Operação Lava-Jato[11] que, entre muitos artifícios, elege uma visão moralista da corrupção para montar um constante Estado Policial, onde tudo é permitido para se garantir a ordem. Nos últimos anos, cenas de conduções coercitivas e práticas de busca e apreensão em casas de políticos e empresários, tornaram-se corriqueiras na televisão brasileira. Tornou-se comum, por volta das cinco ou seis horas da manhã, a deflagração de alguma fase da Operação Lava Jato, sempre com nomes estranhos, distantes do vocabulário corrente.

Figura 10 A rotina das prisões e conduções coercitivas virou piada na Internet, destacando a previsibilidade das ações "coincidentemente" concomitantes à programação matutina das emissoras de televisão (faixa marcada por programas jornalísticos e de variedades, geralmente ao vivo).

Faz parte da cena jurídica a adoção de termos pouco familiares aos não iniciados no Direito, o que acaba gerando incompreensões que dificilmente serão sanadas nosatropelos dos dias. Talvez, por essa razão, parte dos discursos sobre a Lava Jato tenha tomado a forma de imagens (memes) e não de palavras.

Figura 11 O "Japonês da Federal" tornou-se um símbolo das conduções coercitivas e das prisões de políticos e empresários. Um dia, ele mesmo foi preso. Os memes, então, informaram que o “Japonês da Federal” foi preso pelo “Japonês da Federal”.

Diante do “juridiquês” outras escrituras – bricolagens de imagens, palavras e sons – tomaram conta das narrativas cotidianas compartilhadas e ressignificadas na Internet. Um novo modelo de conversação se estabelece, pautado em ideias que se replicam sem muito esforço – no gesto de um clique; mensagens constituídas por textualidades dadas à abertura[12], mais afeitas a imagens que a palavras. São ideias ou fragmentos de ideias “materializados” em pequenos discursos visuais. Mensagens com alto potencial de remixagem, de transmissão, de personalização. Trata-se de unidades comunicativas que nascem e morrem de repente, mas que também ressuscitam quando já eram esquecimento. Em suma, os memes atualizaram as conversações na cibercultura e, como praticamos nas páginas acima, podem nos ajudar a contar uma história do tempo presente.

Porém, é preciso ressaltar que o meme não é fruto de uma criação pessoal, mas consequência de uma rede de agenciamentos. Se for verdade que o objeto técnico traz algo do praticante que o inventou, também é verdade que tal objeto é suporte e símbolo de uma relação transindividual. A relação transindividual é aquela que se dá entre realidades pré-individuais e não entre indivíduos constituídos. A invenção técnica é consequência de agenciamentos coletivos, isto é, move-se a partir da relação das pessoas com o mundo e difere-se de uma operação intelectual projetada fora de qualquer relação com o meio. O indivíduo participa de uma rede de conexões e é essa rede que produz uma realidade transindividual. Trata-se de uma relação de prolongamento e não de oposição; é um fora interior, mais vasto e mais rico que o indivíduo (ESCÓSSIA, 2010). Nessa perspectiva, o sujeito não é um dado, um ponto de partida, mas o resultado de um processo no qual emergem indivíduo psíquico e meio.

MEMES, AUTORIA E DIFERENÇA

Chico Buarque, na canção Rubato, fala de uma prática comum no meio musical: o roubo de letras e melodias que, bricoladas, se transformam noutras canções, ainda que mantenham certo diálogo com o texto original[13]. Tomo de Chico essa ideia de “Rubato” para falar de nossos ‘roubos’ cotidianos, das releituras que fazemos do postado, do curtido, do compartilhado. Os memes são roubos perdoados já que ladrão que rouba ladrão...

Para Derrida (1991) a autoria é uma ilusão e uma arbitrariedade. Nossas criações estão contaminadas de referências intertextuais, são produtos de uma promiscuidade semântica, costuras pontilhadas com linhas que nos escapam, enroladas no mesmo carretel, mas vindas de armarinhos variados. Contrário à ideia de autoria individualizada, Derrida (1991) destaca que em tudo o que fazemos há diálogos tecidos com interlocutores variados e se assinamos uma obra é por conveniência e não por propriedade intelectual meritória. Se na Academia temos alguma dificuldade de assumir isso, nos memes a co-autoria é um pressuposto positivamente cultivado.

Ao assumirmos nossa posição constante de co-autores de invenções cotidianas – das aulas que damos, dos textos que produzimos, dos projetos que elaboramos – rompemos com a ilusão da autoria individualizada e apostamos no pensamento como constructo coletivo, fomentado por encontros que nos afetam e nos agenciam.O agenciamento, para Deleuze e Parnet (1998), é o cofuncionamento, é a "simpatia", a simbiose.Os agenciamentos atualizam os modos como vemos o mundo, pois os nossos territórios existenciais são temporários, precários, inconclusos.

É possível dizer que praticamos a abertura para a co-autoria a partir dos memes. Ao contrário de boa parte das práticas acadêmicas, criamos com os memes uma relação de colaboração entre desconhecidos. Não se trata de disputa, mas de solidariedade, de fazer com, de se deixar afetar pela imagem proposta pelo outro. E mais: os memes nos inspiram a debater possibilidades de alteração das ideias neles contidas.

Com os memes, deixamo-nos contaminar pelos sentidos criados por quem nos cerca, vamos fabricando nossos próprios sentidos e no final das operações já não sabemos mais o que nos pertence e o que foi inspirado pela prática de outro fruidor. Porque “O escritor inventa agenciamentos a partir de agenciamentos que o inventaram, ele faz passar uma multiplicidade para a outra” (DELEUZE; PARNET, 1998, P. 43). O produtor/fruidor de memes também. Para Bentes (2015), por meio da memética criamos uma “conversa infinita”, experimentamos práticas dialógicas onde a conversação entre muitos cria pensamentos. O criador (ou co-criador/fruidor) dos memes seria um pós-expectador, um sujeito acostumado a interferir na informação “ao vivo”, no calor dos acontecimentos. Ele vai deixando rastros imagéticos e/ou sonoros de suas ideias e opiniões no ciberespaço, comunicando mais por afetação do que buscando uma verdade sobre algo.

Argumentamos, a partir de Derrida (1991), que há uma explosão de vozes em nossos pensamentos e que a autoria, como prática individualizada, é uma arbitrariedade que nos acostumamos a não enxergar. O texto, para este autor, precisa supor a liberdade do leitor, demanda ser hospitaleiro, sensível à alteridade:

O primeiro leitor é já um herdeiro. Vou ser lido? Escrevo para ser lido? E para ser lido aqui, agora, amanhã ou depois de amanhã? Esta pergunta é inevitável, mas se coloca como pergunta a partir do momento em que eu não a posso controlar. A condição para que possa haver herança é que a coisa que se herda, aqui, o texto, o discurso, o sistema ou a doutrina, já não depende de mim, como se eu estivesse morto ao final da minha frase (...) A questão da herança deve ser a pergunta que se lhe deixa ao outro: a resposta é do outro. (DERRIDA, 2001, p. 46).

Estamos, pois, mortos ao final de cada meme compartilhado. Nossas redes herdam diariamente os nossos memes(também criados em rede) e com eles bricolam (ou ignoram) mundos possíveis. O outro é um praticantepensante (OLIVEIRA, 2012), um fruidor. Ele faz e desfaz com os nossos fazimentos. É impossível aprisioná-lo nas teias dos sentidos que queremos conferir a tudo o que produzimos.

Deleuze (1991), nesse sentido, irá criticar a ideia de generalização. Cônscio da diversidade de nossos atos e das inúmeras possibilidades de nossas lógicas operatórias, ele sublinha o caráter singular da repetição:

A repetição não é generalidade. A repetição deve ser distinguida da generalidade de várias maneiras. Toda a fórmula que implique a sua confusão é deplorável, como quando dizemos que duas coisas se assemelham como duas gotas de água ou quando concluímos que “só há ciência do geral” e “só há ciência do que se repete”. Entre a repetição e a semelhança, mesmo extrema, a diferença é de natureza. (DELEUZE, 1991; p.11).

Um meme é, pois, repetição que produz diferença; está sob rasura. Será sempre da ordem do provisório, do caos, da abertura e nunca da estabilidade. Não explicam o mundo definitivamente, mas inventam mundos de modo provisório.

Explicações generalizantes sobre o mundo, das quais derivam prescrições sobre o que a realidade deveria ser se obedecesse àquilo que a teoria construiu já fracassaram, e continuam fracassando em quase todos os campos do conhecimento, mas para os amantes da norma, a realidade não importa; importa é aprisiona-la em modelos explicativos e teorias a serem aplicados na prática. (OLIVEIRA, 2014; 55).

Sem compromisso com a permanência, o meme é algo que está sendo, transitando constantemente. De algum modo, tal instabilidade positivamente assumida configura um dos princípios das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, onde estamos filiados. Atentas aos perigos e limitações da forma tradicional de fazer ciência, as pesquisas nos/dos/com os cotidianos optam por uma criação compartilhada, onde os sujeitos da pesquisa são aqueles que a produzem em atos de vida, em encontros complexos e repletos de sentidos múltiplos. Um elogio à diferença que vem antes; um compreender a repetição como criação constante e única; um praticar ciência como obra aberta, sempre incompleta e fadada ao movimento. A ciência, acreditamos, ganharia muito se prestasse mais atenção no potencial comunicativo e criador dos memes.

Podemos, com Derrida (1991), pensar o texto científico enquanto movimento incessante, livre da obsessão metafísica ocidental, contrário aos binarismos e afeito à hospitalidade. Um texto comprometido com um devir outro; uma escrita que se constitui como um pensamento da diferença e da alteridade, vivida no campo e traduzida parcialmente pelas palavras que arrumamos diante do computador. Para completar as palavras, talvez, pudéssemos usar alguns memes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao pensarmos os memes como discursos abertos e colaborativos, capazes de participar da narração da nossa história comum, sublinhamos sua potência na criação do pensamento. Argumentamos que os memes informam e divertem, podendo ser veículos de boas ou más ações, visto o papel ativo dos usuários, conforme indica Certeau (1994). Destacamos a coerência entre o princípio do inacabamento dos memes e os pilares das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, afeitas à instabilidade dos encontros e dos agenciamentos. Defendemos que os memes, enquanto tentativas de representação do vivo e/ou do vivido, sempre produzem diferença, ainda que os pensemos enquanto práticas de repetição (vide os exaustivos compartilhamentos de imagens aparentemente iguais). Em suma, inserimos a memética no amplo leque das práticas formativas, destacando seu potencial de criação com o outro, com as tecnologias, com a história que acontece agora. O golpe de 2016, ainda que nos tenha tirado muitas coisas, provavelmente ampliou nossos repertórios de produção de pensamentos com os memes que foram gerados. Estes, por sua vez, nos distraíram e/ou nos provocaram a fabular possibilidades de resistência, indignação e mobilização. Em meio às turbulências, resta-nos perguntar:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ALVES, Nilda. Nilda Alves: praticantepensante de cotidianos/ organização e introdução Alexandra Garcia, Inês Barbosa de Oliveira; textos selecionados de Nilda Alves. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

BENTES, Ivana. Mídia-multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

BHABHA, HomiK..O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano:1. Artes de Fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1991.

DERRIDA, Jacques. Limited Inc. Campinas: Papirus, 1991.

DERRIDA, Jacques. ¡Palabra! Instantâneas filosóficas. Madri: Editorial Trotta, 2001.

ECO, Umberto. Obra Aberta. São Paulo: Perspectiva, 2005.

DERRIDA, Jacques. Seis passeios pelo bosque da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ESCÓSSIA, Liliana da. A invenção técnica: transindividualidade e agenciamento coletivo. In: Informática na Educação: teoria & prática. Porto Alegre, v. 13, nº 2, jul/dez. 2010, pp. 16-25.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A gênese das teses do Escola sem Partido: esfinge e ovo de serpente que ameaçam a sociedade e a educação. In: FRIGOTTO, Gaudêncio (ORG.). Escola “sem” Partido. Esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, LPP, 2017, p. 17-34.

OLIVEIRA, Inês Barbosa de. O currículo como criação cotidiana. Petrópolis, RJ: DP etAlli, 2012.

OLIVEIRA, Inês Barbosa de. “Isto não é um artigo científico: a hegemonia contestada e os novos modos de pesquisar”. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; GARCIA, Alexandra (Orgs.). Aventuras de Conhecimento: utopias vivenciadas nas pesquisas em educação. Petrópolis, RJ: De Petrus; Rio de Janeiro, RJ: FAPERJ, 2014, p. 53-80.

RUBIN, Linda; ARGOLO, Fernanda (Org.). O golpe na perspectiva de gênero. Salvador: Edufba, 2018.

SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro: Le Ya, 2016

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Le Ya, 2017.

[1] Doutor em Literatura Comparada (UFF) e em Educação (UERJ). Professor adjunto da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: leonolascosilva@gmail.com

[2] Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação - PROPED. Graduada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1978) e em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985). Doutora (2008) e Mestre (2003) em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pós-doutora em Educação e Imagem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

[3] Técnico em Ensino a Distância e Divulgação Científica na Fundação CECIERJ. Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Rio, Mestre em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ, especialista em Políticas Públicas (UFRJ) e em Gênero e Sexualidade (Instituto de Medicina Social/UERJ). Doutorando em Educação na Faculdade de Educação da UERJ.

[4]A imprevisibilidade da comunicação, segundo Umberto Eco (2005), tem a ver com os processos de fruição que marcam a nossa experiência enquanto leitores de mensagens alheias. A comunicação, para este autor, é movimento incessante que pode nos levar para muitos lugares, sem mapas prévios. Há um meme que diz assim: “Eu sou responsável por aquilo que eu falo e não pelo que você entende”. Obviamente há uma simplificação nesta frase, mas ela nos serve aqui, pois alude à liberdade de interpretação e de uso daquilo que é dito, ouvido ou lido.

[5] É praticamente impossível identificar o ponto de partida de um meme. Por isso, as imagens utilizadas neste texto não serão referenciadas, pois encontradas nos fluxos de navegação pelo ciberespaço, compartilhadas por inúmeros usuários e, por eles, ressignificadas. Sempre que possível, todavia, indicaremos a inspiração inicial dos memes.

[6]Pensamos as astúcias como derivações das táticas, conforme nos diz Certeau: “Determinada pela ausência de poder, a tática é a arte do fraco, por isso as opera golpe por golpe. A tática tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Cria, ali, surpresas. Consegue estar onde ninguém espera; é astúcia. (CERTEAU, 1994, p.101).

[7] No Brasil, de acordo com a lei, o impeachment (impedimento, impugnação) de um presidente da república deve advir de crimes de responsabilidade, abuso de poder ou quaisquer outras infrações que violem à Constituição.No caso de Dilma Rousseff, após inúmeras diligências legais e políticas, ficou provada a total inadequação da medida, bem como se tornaram claros os interesses escusos por trás do término do seu mandado. Cf. Rubin, Linda; Argolo, Fernanda (Org.). O golpe na perspectiva de gênero. Salvador: Edufba, 2018.

[8] Cf. Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Le Ya, 2017.

[9] Cf. Souza, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro: Le Ya, 2016.

[10] Abreviatura do bloco econômico formado por países economicamente emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

[11] Nome dado a uma operação de investigação iniciada em 2014 pelo Ministério Público Federal que investiga desvio e lavagem de dinheiro. Cf.: http://lavajato.mpf.mp.br/ Acesso em 29/08/18.

[12]Eco (2004) defende que quando adentramos em um texto literário o fazemos com todas as nossas bagagens (e com as nossas redes) e, dependendo de como estivermos naquele momento, podemos seguir a rota traçada pelo autor ou trilhamos um caminho só nosso, instigados por uma memória desperta por um fato narrado no livro que estamos lendo. Nesses casos, saímos do mapa desenhado pelo autor do texto e fazemos passeios inferenciais, costurando sentidos prévios e adquiridos, fabulando reviravoltas, antecipando desfechos ou simplesmente saindo do bosque para nunca mais voltar. Assim, se ao ler um livro de romance pensamos em uma antiga namorada e fantasiamos o que poderia ter sido do nosso amor interrompido, quando voltarmos à leitura podemos desejar encontrar na narrativa os caminhos que nós mesmos desenhamos na imaginação. Se não os vemos, nos desinteressamos, fechamos o livro e saímos falando mal dele. Ou ligamos pra nossa ex e tentamos escrever outra história. Ou nada disso, porque a obra aberta é um eterno atualizar de sentidos...

[13] A canção, nesse sentido, deixa de pertencer ao compositor quando é executada diante do público; corre o risco da descaracterização, sendo alterada, por exemplo, no song book que, a pretexto de homenagem, muda os arranjos originais, descaracterizando a produção primeira do artista homenageado. O próprio Chico teve sua obra musical revisitada em um Song Book de oito volumes, lançados em 2004 pela Lumiar Editora. Por isso, suplica o poeta: “Venha, Aurora, ouvir agora/ A nossa música/ Depressa, antes que um outro compositor/ Me roube e toque e troque as notas no song book/ E estrague tudo e exponha na televisão”.

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