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A DISCURSIVIDADES DOS MEMES – MIMETIZANDO-SE NAS REDES EDUCATIVAS.
THE DISCURSIVITY OF THE MEMES - MIMETIZING ON THE EDUCATIONAL NETWORKS
LA DISCURSIVIDAD DE LOS MEMES - MIMETIZANDO EN LAS REDES EDUCATIVAS
Periferia, vol. 11, núm. 2, pp. 57-89, 2019
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Número Temático


Resumo: Este artigo surge a partir do levantamento dos achados de uma pesquisa-formação na cibercultura, onde buscamos compreender, como mobilizar Atos de Currículo que contemplassem a proposta de App-Learning. Nossa opção metodológica foi a pesquisa-formação na cibercultura (SANTOS), a multirreferencialidade (ARDOINO) e as pesquisas nos/dos/com os cotidianos (CERTEAU, ALVES). Essa pesquisa ocorreu no âmbito da disciplina Informática na Educação, do curso de Pedagogia a distância da UERJ, oferecida em parceria com a Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj) / Consórcio CEDERJ durante o segundo semestre do ano de 2017. Como achados apresento as narrativas e imagens que surgiram durante a pesquisa, verificando nelasa manifestação da autoria dos praticantes na produção crítica de memescontextuais com sua prática,revelando seus dilemase produzindo novos contextos de aprendizagem significativa.

Palavras-chave: Pesquisa-formação na cibercultura Docência Online. Cotidianos.

Abstract: This article arises from the survey of the findings of a research-training in cyberculture, where we seek to understand, how to mobilize Curriculum Acts that contemplate the App-Learning proposal. Our methodological option was the research-training in cyberculture (SANTOS), the multireferentiality (ARDOINO) and the researches in / with / to the daily ones (CERTEAU, ALVES). This research was carried out in the scope of the Computer Science in Education course, offered by the UERJ Distance Education course offered in partnership with the Center for Science and Higher Distance Education of the State of Rio de Janeiro (Cecierj) / CEDERJ Consortium during the second semester of the year 2017. As findings I present the narratives and images that emerged during the research, verifying in them the manifestation of the authors of the practitioners in the critical production of contextual memes with their practice, revealing their dilemmas and producing new contexts of meaningful learning.

Keywords: Research-training in cyberculture Teaching Online. Everyday..

Resumen: Este artículo surge a partir dellevantamiento de loshallazgos de una investigación-formaciónenla cibercultura, donde buscamos comprender, cómomovilizarActos de Currículo que contemplasenlapropuesta de App-Learning. Nuestraopción metodológica fuelainvestigación-formaciónenla cibercultura (SANTOS), lamultirreferencialidad (ARDOINO) y lasinvestigacionesenlos / as / conlos cotidianos (CERTEAU, ALVES). Enel curso de la disciplina Informática enlaEducación, del curso de Pedagogía a distancia de la UERJ, ofrecidaenasociaciónconlaFundación Centro de Ciencias y Educación Superior a Distancia del Estado de Río de Janeiro (Cecierj) / Consorcio CEDERJ durante el segundo semestre delaño 2017. Como hallazgos presento las narrativas e imágenes que surgieron durante lainvestigación, verificando enellaslamanifestación de laautoría de lospracticantesenlaproducción crítica de memorias contextualesconsupráctica, revelando sus dilemas y produciendonuevos contextos de aprendizaje significativos.

Palabras clave: Investigación-formaciónenla cibercultura Docenciaen línea. Todos losdías..

A DISCURSIVIDADES DOS MEMES – MIMETIZANDO-SE NAS REDES EDUCATIVAS

Introdução

Dentre as tecnologias desenvolvidas no século XX, foram o computador e a internet, algumas das invenções que mais causaram transformações políticas, econômicas e culturais na sociedade. Isso se deve pelo fato de que novas formas e possibilidades de pensar, agir, interagir, criar e compartilhar surgiram com o desenvolvimento do ciberespaço[4] e da cibercultura[5].

Esta realidade começa a mudar no final do século XX e início do século XXI quando é intensificada a produção e a comercialização de dispositivos digitais móveis como notebooks, palmtops, tablets e smartphones que agora conectadosa redes sem fio com o padrão Wi-Fi ou redes de telecomunicação3G ou 4G potencializaram a produção de informações, saberes, e conhecimentos em mobilidade. Esta junção dos dispositivos móveis com as redes de telecomunicação faz surgir o que Lemos (2007) chama de mídias locativas – “dispositivos informacionais digitais cujo conteúdo da informação está diretamente ligado a uma localidade”.Fazendo emergir o que Santaella (2008, p. 95) define como “novas espacialidades de acesso, presença e interação que reconstituem os modos como nossos encontros com lugares específicos, suas bordas e nossas respostas a eles estão fundadas social e culturalmente”.

O meme como manifestação cultural

Um meme é normalmente uma idéia. Uma espécie de tendência e forma que se dissemina entre indivíduos de uma mesma cultura. Um meme carrega significados que são difundidos de um indivíduo a outro através de dinâmicas replicadas, mixadas e compiladas que adaptam novas perspectivas ao seu contexto original. É também uma expressão geralmente utilizada para descrever uma imagem, vídeo e/ou GIF relacionado ao humor, sátira ou crítica social, que se espalha via internet.

Para (SANTOS, COLACIQUE E CARVALHO, 2016) os memes criados na internet podem ser entendidos como aspectos da realidade imagética e trazem com humor, elementos para a imaginação que recria e interpreta a realidade por ele representada. Uma página[6] da internet transformou memes em capas de livros clássicos. Outra criação interessante é o acervo que está na página www.museudememes.com.br[7], que reúne histórias que inspiraram memes, explicam a origem e fazem uma pequena análise do contexto que viralizou. A página também coleta artigos, entrevistas com donos de páginas famosas na internet e com pessoas que tiveram sua imagem envolvida em memes.

Os memes também podem ser usados em sala de aula para sintetizar a ideia de um conceito, um momento histórico ou experiência, desenvolver a criatividade e a colaboração e promover a autoria entre professores-alunos e alunos-alunos.

Figura 1 – Meme de Richard Dawkins sobre os memes

Fonte: Meme elaborado pelo autor no contexto da pesquisa[8]

O termo foi cunhado por Richard Dawkins, em 1976, no livro The Selfish Gene (O Gene Egoísta), e teve seu uso reapropriadopela internet que experimentava a WEB 2.0 e agora explodia em produção autoral e compartilhamento em massa de conteúdos e informações.

Com a Web 2.0, passamos a ter sites publicados e editados pelos próprios usuários da rede. [...] Com a apropriação da rede por grupos-sujeitos (mercado, mídia clássica e principalmente nativos digitais) criativos e antenados com a lógica da interatividade e da colaboração, novas e surpreendentes soluções informáticas foram criadas no contexto em que também fizeram emergir novas atitudes mais engajadas com a autoria e co-autoria de sentidos, significados e significantes. (SANTOS, 2010, p. 107-129)

Em um cenário onde a liberação do pólo de emissão permite a autoria dos praticantes culturais em uma verdadeira apropriação dos meios sociais de produção, surge um verdadeiro chamado às massas, aliciando-as a aquisição de novos conhecimentos. Esse movimento, por sua vez, incita o surgimento de novas soluções informacionais que, como novos habitats sintéticos, proporcionariam o engajamento de indivíduos em um movimento de colaboração mútua que viria a originar as primeiras comunidades virtuais.

Os conhecimentos vivos, os savoir-faire e competências dos seres humanos estão prestes a ser reconhecidos como a fonte de todas as outras riquezas. Assim, que finalidade conferir às novas ferramentas comunicacionais? Seu uso mais útil, em termos sociais, seria sem dúvida fornecer aos grupos humanos instrumentos para reunir suas forças mentais a fim de constituir intelectuais ou “imaginantes” coletivos. A informática comunicante se apresentaria então como a infra-estrutura técnica do cérebro coletivo ou do hipercórtex de comunidades vivas. O papel da informática e das técnicas de comunicação com base digital não seria “substituir o homem”, nem aproximar-se de uma hipotética “inteligência artificial”, mas promover a construção de coletivos inteligentes, nos quais as potencialidades sociais e cognitivas de cada um poderão desenvolver-se e ampliar-se de maneira recíproca. (LÉVY, 2007, p. 25)

Dessa construção de coletivos inteligentes, originam-se as Wikis, os Blogs, as comunidades sociais e os fóruns que permitem aos seres a disseminação dos saberes e sentidos com outros que, assim como eles, compartilham interesses em comum. É portanto a partir dessas relações, saberes e sentidos partilhados entre os todos que surge a necessidade de aplicação de uma idéia ou um conceito que permita o reconhecimento e a associação imediata de um símbolo por todos os membros que participam daquela comunidade.

Seriam portanto essas unidades sociais o cenário perfeito para que ocorresse a “incubação", assim como na metáfora genética de Dawkins, da viralização dos memes no cenário digital. Assim eles surgem, e ganham relevânciaprincipalmente devido ao seu potencial viral e replicativo. Demandando apenas que se tome uma idéia básica que esteja estabelecida no cenário cultural, apropriando-se de sua relevância, e da intervenção autora e criativa do praticante para bricolar a lógica e a mensagem na produção de um novo sentido contextualizado.

Figura 2– Meme do Capitão América, um dos memes mais conhecidos da internet

Fonte: Meme elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

É, portanto, nesse contexto que os memes passam a representar o conceito, forma e estética que conhecemos hoje de forma tão difundida nas comunidades virtuais. Retirados de imagens, desenhos, filmes e propagandas eles recriam e reproduzem situações e elementos da cultura popular em tom cômico, satírico, quebrando tabus e abrindo espaços de discussão e reflexão.

Essas imagens são expressões particulares, comunicam intencionalidade, são testemunhas de mudanças ocorridas, indicam compreensão e visões de mundo, registram momentos que ficam na memória como os antigos álbuns de família. Elas circulam contando e recontando histórias. São, portanto, também narrativas do cotidiano (SANTOS, COLACIQUE, CARVALHO, 2016, p.136)

Precisar quando foi que surgiu o primeiro meme é uma missão praticante impossível tendo em vista que o meme pode representar uma idéia, comportamento ou estilo que se espalha de pessoa para pessoa dentro de uma cultura. Sendo assim podemos destacar alguns dos principais memes que contribuíram para a popularização e definição do movimento, principalmente no cenário brasileiro, onde a internet começa a se popularizar na década de 90 e se consolida a partir dos anos 2000 com o surgimento do Orkut.

De certa forma podemos dizer que o fenômeno dos memes têm início no surgimento das primeiras "Rage Comics” (ou “quadrinhos” de raiva). As Rage Comics, por sua vez, surgem de uma série de quadrinhos na web com desenhos de rostos de personagens que demonstram expressões faciais fundamentais da naturaza humana. Criados com software de desenho simples, como o Paint da Microsoft, os quadrinhos são tipicamente usados ​​para contar histórias sobre experiências da vida real em um viés humorístico. Seu surgimento é atribuído a uma postagem em um dos fóruns do 4Chan com a face “FUUUUUUUU" em 2008 e a uma outra aparição posterior em 2009 em uma postagem do Reddit.

Figura 3 – Algumas das rage faces mais conhecidas no universo dos memes.

Fonte: Imagem adaptada de http://bit.ly/xahartsragefaces

Uma das primeiras adaptações dos Rage Comics em um contexto educativo pode ser encontrada no relato do professor de inglês, Scott Stillar[9], que em outubro de 2011, postou no Reddit um relato de sua experiência ao trabalhar os Rage Comics como referência grafica de estados das emocões ao ensinar estudantes japoneses da Universidade de Tsukuba, no Japão, o que lhe rendeu até mesmo uma entrevista ao jornal Daily Dot. Com o título: Making rage comics? Just fine withthisEnglishteacher, a matéria relata como a abordagem não convencional de um professor transformam as Rage Comics de um passatempo em um valioso dispositivo de aprendizagem.

Apesar de ter sido um movimento muito importante no cenário virtual, é importante ressaltar que, na época, o termo Rage Comic nunca chegou a se popularizar no Brasil, e com o seu aparecimento no cenário nacional,o termo meme foi apropriado para caracterizar esse novo universo de imagens que passaram a inundar os blogs de conteúdo humorístico que disseminavam esse conteúdo diáriamente.

Contexto nacional

Inaugurado então pelas suas primeiras aparições no cenário nacional, a cultura dos memes iria ainda incorporar outros elementos visuais típicos da cultura brasileira, tais como fotos de celebridades, personagens de novelas, conteúdos de propagandas e principalmente personalidades e contextos políticos.

Figura 4 – Um dos memes mais populares de 2018 em uma nova adaptação

Fonte: Imagem adaptada de http://bit.ly/museudememesbilete

Em 2014, pela primeira vez na história do país, mais da metade da população estava conectada à internet durante um período de eleição presidencial. Até então, nas eleições anteriores, a internet ainda era um campo de novidade na crítica social política, um cenário que veio a ser completamente modificado principalmente nas manifestações sociais que ocorream em todo o território nacional em Junho de 2013.

Ainda podemos destacar um outro fator que influenciou de forma decisiva a interação e a moviventação das massas em um cotidiano digital, sendo esse a popularização dos smartphones e da política da disseminação dos pacotes de internet popular e acessível por R$ 0,50 pelas operadoras de telefonia móvel.

Segundo uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil[10], cerca de 4% da população tinha acesso à internet pelo celular em 2010. No fim de 2013, já eram 31% dos brasileiros, ou 52,5 milhões de pessoas conectadas.

Assim sendo, na eleição de maior participação das mídias sociais, os debates que eram transmitidos para grande audiência pela televisão, eram acompanhados simultanêamente por um público ainda maior nos feeds do Twitter e o no Facebook. Cada proposta e cada resposta se materializavam em novos memes, que de forma quase instantâneana populavam astimelines e as hashtags que ascendiam aos assuntos mais comentados do momento.

Figura 5 – Alguns dos memes das eleições de 2014

Fonte: Meme elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Os candidatos, por sua vez, também viveram esse fenômeno e precisaram aprender e colocar em prática essa nova forma de expressão que eram os memes. Candidato à presidência em 2014, Eduardo Jorge do Partido Verde criou uma conta no Twitter em março de 2014 para interagir com os seus eleitores e apoiadores e foi surpreendido pela avalanche dos memes que lotavam sua timeline logo após o termino do primeiro debate entre os presidenciáveisna Bandno fim de agosto.

Figura 6 – Eduardo Jorge tuíta sua descoberta

Fonte: Captura da postagem de Eduardo Jorge, disponível emhttp://bit.ly/posteduardojorge

Sua descoberta gerou uma postagem no Twitter a qual foi retweetada (compartilhada) mais de 19.000 de vezes e recebeu mais de 7.000 curtidas.“As campanhas viram nisso uma oportunidade para, durante o debate, complementar informações ou reproduzir citações de candidatos para ter certeza que alcançariam mais pessoas”. Afirmou na época Bruno Magrani[11], diretor de relações institucionais do Facebook Brasil.

A militância do PT adotou durante a candidatura o personagem “Dilma Bolada”, que até então possuía um milhão e meio de seguidores na sua fanpage no Facebook (atualmente aproximadamente 1.748.386 seguidores) onde, segundo Carlos Affonso Pereira de Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), esses memes produzidos em apoio a candidatura de Dilma Rousseff tiveram um papel importante em sua vitória.

Pesquisar as imagens e refletir sobre elas nos permite compreender o momento em que vivemos na medida que entendemos que pesquisar na cibercultura é dialogar com o momento em que vivemos criando a todo tempo novas táticas no fazer aprender e ensinar. Buscando sempre mergulhar com todos os sentidos em nossos estudos e práticas, virando de ponta cabeça à medida que compreendemos que é limite aquilo que nos habituamos a ver como apoio. Bebendo em todas as fontes, mesmo aquelas vistas anteriormente como dispensáveis e mesmo suspeitas sem deixar de narrar a vida e literaturizar a ciência para comunicar de forma acessível a todos os públicos e garantir a presença necessária dos praticantes, em imagens e narrativas (ALVES, 2008).

Pensando no potencial discursivo e educativo dos memes e concebendo cada praticante cultural como um potencial “meme machine” (ou “máquina de meme”) (BLACMORE, 1999) decidimos produzir pesquisa utilizando memesvisando produzir sentido em nosso processo de autoria em redes educativas na cibercultura.Assim intencionamos criar memes garantindo, por meio da produção de narrativas e imagens, a fala, o lugar e o espaço do educador em formação, revelando a partir de sua própria itinerância e prática, os desafios e incertezas que encerram o ser professor em um cenário tão conturbado como o da educação brasileira.

Autorias em rede

Os memes, assim como as charges, nascem a partir de uma conotação simbólica que permeia seu estado de produção, transportam esses significados em sua própria constituição e entregam um propósito significativo de conclusão. Desse modo é preciso que o leitor faça uma associação lógica interpretativa entre o contexto associativo que o meme deseja representar e o conteúdo narrativo da mensagem que o meme deseja transmitir. Uma relação associativa-interpretativa que a primeira vista pode parecer complexa e penosa, mas desenvolve-se com naturalidade nos ambientes sociais da atualidade.

Partindo da função prática dos memes na cibercultura, nos preparamos para proporcionar na “Aula 2 – Autoria em rede: memes!”, uma ambiência formativa com a experiência de acionarmos o meme como dispositivo disparador de autoria crítica. Propondo que os praticantes vivenciassem a experiência da produção coletiva de um meme, através de um aplicativo (Meme Generator), para transmitir, através dele, uma mensagem que suportasse a existência de um contexto educativo.

Figura 7 – Aula 2 - Autoria em rede: memes!

Fonte: Captura da postagem da aula 2 no ambiente do Moodle da disciplina.

Essa atividade se daria na culminância da proposta concebida, intencionando primeiramente, trabalhar e situar o contexto social do surgimento do fenômeno, suas facetas, implicações, e principalmente seu potencial de ação em tempos de cibercultura.

Produzimos então um desenho didático queparte da premissa que a mecânica prática do meme é popular e já pertence ao cotidiano dos praticantes, dispensando sua apresentação estrutural para concentrar os esforços no aprofundamento teórico e prático da autoria visual do meme na cibercultura.

Desse modo elaboramos uma sugestão de aula que deveria ocorrer simultaneamente na cidade e no ciberespaço, articulando teoria e prática, contemplando o desenvolvimento didático de cada praticante, atendendo os recursos acionados no desenho didático disposto na imagem a seguir:

Figura 8 – Visão geral dos recursos acionados na aula

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Na intenção de reconfigurar o paradigma de frivolidade, que geralmente é atribuido aos movimentos que surgem na internet, trazemos uma nova concepção, estruturada em implicação, intencionalidade e sinergia que surgem das experiências formativas em contextos de educação online, entendendo que argumento dos memes se torna relevante à medida em que percebemos que sua linguagem é efetivamente capaz de transmitir sentidos de forma singular e prática sendo raramente verificada em outras formas de expressão cultural conhecidas e praticadas pela humanidade.

Assim como os primeiros pictogramas registrados nas paredes das cavernas supriam o desejo do homem primitivo de manisfestar os seus sentimentos, anseios, crenças e mitos para a sua comunidade temporal e para gerações futuras, os memes vem hoje satisfazer a necessidade do Homo zappiens[12]de registrar, criticar e compartilhar os acontecimentos do nosso cotidiano para uma multidão de indivíduos conectados.

Figura 9 – Pictogramas encontrados na caverna de Lascaux, um complexo de cavernas ao sudoeste da França e um meme utilizando-se dos mesmos conceitos representados na imagem original.

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Se os nossos ancestrais possuiam a capacidade de perceber e representar o mundo ao seu redor de uma maneira tão simples, registrando ali suas técnicas de caça, sistemas de agricultura e pecuária, muito mais somos nós hoje também de demarcamos e registramos as situações intrigantes e instigantes do nosso cotidiano escolar, profissional e social demarcando esse percurso em multiplicidade de memes. Sejam estes de cunho cômico ou repletos de crítica da nossa sociedade, produzindo e reproduzindo a cultura; influenciando e sendo influenciados por ela, vivemos em movimento cíclico que varia apenas de suporte, do que antes era demarcado nas paredes e agora é vivido nas telas de nossos celulares.

Ainda acerca do suporte, é importante destacar que esse sempre esteve restrito a atender a agenda de seus proprietários, ainda mais quando tratamos de meios de comunicação já estabelecidos, a saber, o jornal, o rádio e a televisão.

Mesmo em tempos modernos, já com a efetiva presença da internet em nosso meio, é certo afirmar que os meios de criação, publicação e compartilhamento de conteúdo não era acessível à grande maioria daqueles que se aventuravam a desbravar os primórdios da Web.

Em tempos de Web 1.0, a publicação e o compartilhamento das informações eram dificultados por interfaces não amigáveis, havendo a necessidade de se conhecerem linguagens próprias de programação, como a linguagem HTML. Os conteúdos eram “estáticos” e não interativos. Uma vez disponibilizado, o material servia para consulta dos usuários, que não poderiam interferir no conteúdo, nem cocriar a mensagem. Nesse cenário, a internet era predominantemente composta por textos. Mesmo os principais recursos para interação, como chats e e-mails, tinham como foco o uso de formas textuais de comunicação. Já o advento da Web 2.0 é marcado pela possibilidade de veiculação de conteúdos criados, editados e publicados pelos praticantes das redes. Interatividade, hipertexto, mobilidade e ubiquidade são potencializados; dispositivos móveis e conectados permitem que usuários troquem, criem, divulguem e contestem informações, em qualquer lugar do mundo, em tempo real (SANTOS, 2011). É nesse contexto que imagens e vídeos ganham mais espaço e vêm dominando o cenário de softwares sociais como o Facebook, por exemplo. (SANTOS, COLACIQUE, CARVALHO, 2016, p. 136, grifo nosso)

O Facebook, um desses softwares sociais que recebeu notoriedade após o surgimento da Web 2.0, tornou-se o grande expoente desses novos espaços digitais desenvolvidos em busca de agrupar as ideias e interesses de milhões de pessoas em uma interface repleta de visibilidade, disponibilidade e conectividade.

Mesmo assim é importante notar que esse último aspecto, o da conectividade, só vem se tornar particularmente efetivo com o advento da mobilidade, dos smartphones e principalmente das lojas de aplicativos, que terminaram por “usurpar” o holofote das páginas e sites que eram concebidos para serem apreciadas pelas várias polegadas de um monitor de desktop, e decide encapsular em pequenos pacotes de aplicações diversas os mesmos recursos e funções, se não maiores e melhores, acessíveis em telas touch disponíveis na palma da mão.

O próprio Facebook, nascido antes da perspectiva da mobilidade, precisou se adaptar em formato de aplicativo para alcançar a atual marca de dois bilhões de pessoas conectadas todos os meses. Vale lebrar que, desde 2016, mais da metade desse número de usuários acessa o Facebook exclusivamente por dispositivos móveis.

Esse cenário móvel de oportunidades proporciona também o surgimento de empreendimentos que são concebidos para existir de forma única e exclusiva na interface de aplicativo, como é o caso do Nubank, do Uber e do Instagram.

O Instagram chama aqui nossa atenção, não somente por ser um software social de compartilhamento, mas por ter como foco a partilha de imagens. Lançado exclusivamente para iPhone em 2010, hoje está disponível em quase todas as plataformas móveis e aceita não somente o compartilhamento de imagens, como também gifs e vídeos.

É reduto de celebridades, modelos e atletas, funcionando como galeria do “padrão” de vida imposto pela elite da sociedade, mas, por outro lado, abriga também contribuições e movimentos de artistas, ativistas, políticos e pessoas comuns que retratam e divulgam suas experiências do cotidiano de forma muito singular e transformadora. Espaços da cidade que muitas vezes se perdem na vida agitada dos grandes centros urbanos se tornam experiências transformadoras ao serem remixados em novos contextos em publicações implicadas.

Figura 10 – Captura de imagens significativas postadas no Instagram

Fonte: Montagem de capturas de elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Imagens que revelam, retratam e comovem, que ensinam, corrigem e resolvem finalmente denunciar a injustiça, o ódio e a miséria que assola as vidas das massas que se espremem nos casebres das comunidades e daqueles que um dia ousaram se interpor entre estes e o frio toque da realidade.

Optamos, portanto, por reconhecer e valorizar todas essas experiências visuais formativas que podem ser concebidas pelas imagens obtidas nos espaços da cidade e do ciberespaço, em diversos contextos sociais, buscando inferir nessa prática uma reflexão inspiradora capaz de modificar nossa prática docente.

Utilizando-nos do potencial marcante das imagens, tomando emprestada a dinâmica e a discursividade dos memes em associção com os aplicativos de produção e publicação de conteúdo para redes sociais de comunicação, visamos produzir conceitos para serem publicados nos grupos de interação da disciplina e para a criação de um espaço de memória para a posteridade.

Aqui a opção pelo aplicativo Meme Generator como dispositivo de geração de narrativas está fundamentada na sua particularidade de proporcionar aos seus usuários a possibilidade de, não somente acessar um banco de imagens com os principais memes organizados por categoria, como também criar um meme a partir de uma imagem original que pode ser capturada pela camera do smartphone ou escolhida a partir da biblioteca de imagens do aparelho.

Figura 11 – Capturas de telas do aplicativo na produção de um meme

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Mais uma vez, para tornar acessível o conteúdo em contexto de mobilidade, disponibilizamos o material em forma de texto e em vídeo para abranger os mais diversos cenários e perfis de estudo. Assim ao iniciarmos Aula 2 com o grupo de praticantes liberamos os conteúdo dos tutoriais, visando suprimir qualquer dúvida que pudesse surgir na utilização do aplicativo. Dessa vez o aplicativo estava em português, o que atendia um pedido feito por diversas vezes nos fóruns da disciplina e no grupo do Facebook.

Figura 12 – Reprodução de parte do tutorial [13] em pdf produzido para a compreensão e utilização do aplicativo.

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Figura 13 – Reprodução de parte do tutorial [14] em vídeo produzido para a compreensão e utilização do aplicativo.

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Ressaltamos em ambos a importância de nos utilizarmos da capacidade de utilizarmos imagens de nossa autoria para melhor contextualização dos memes que iríamos produzir, pois essa possibilidade cativa nossa atenção ao viabilizar um suporte capaz de produção de nossas próprias ideias: permitindo a captura de lugares, contextos e situações diversas em nosso movimento cotidiano pela cidade, como também pelo que nos acomete através de nossa vivência no ciberespaço.

Por trabalhar nossa autoria nesses contextos tão diversos, exercitamos nossa reflexão crítica ao relacionarmos esses contextos na produção de memes que confrontam e problematizam questões que não seriam tão facilmente abordadas de outra forma.

Nossa proposta se resumia portanto na criação um ou mais memes por cada grupo de alunos, buscando revelar neles alguma realidade, contexto ou discurso que seja interessante problematizar com o coletivo de praticantes, expondo seus próprios questionamentos e participando nas discussões geradas sobre o assunto. Para isso pedimos que suas criações fossem postadas no grupo do Facebook para que, além de contemplarmos o espaço de interação de mais um ambiente formativo da disciplina, pudéssemos tembém compartilhar nossas criações com familiares e amigos, ampliando o alcance da discussão. Posteriormente criamos também um perfil no Instagram onde as imagens produzidas pelos praticantes fossem registradas para conservação da memória dos memes postados na disciplina.

Essa atividade recebeu um maior engajamento dos praticantes da disciplina, principalmente pelo fato de que muitos já tinham vivenciado experiências anteriores de contato com memes. Com essa competência já estabelecida, perceber as funcionalidades disponíveis pelo aplicativo para produção de memes e como elas poderiam potencializar sua criação, se torna apenas mais uma etapa em um processo de assimilação que ocorre naturalmente.

Autoria criativa emredes educativas

Eliminando a barreira técnica, verificamos o surgimento da autoria, na medida em que os praticantes iam se apropriando do aplicativo para emitir narrativas e imagens revelando a percepção não somente da sua realidade vivenciada no cotidiano na cidade e no ciberespaço, como também a crítica do próprio “microverso” em que eles mesmos estavam inseridos, como cursistas de uma graduação online em pedagogia.

Desafios que surgiram durante a realização da atividade da Aula 1, foram problematizados com uma série de memes que surgiam em quantidade e atraiam um volume de comentários muito maior que aquele que costumávamos encontrar em qualquer outra postagem disponibilizada no grupo. Nessas postagens os praticantes sentiam-se livres para expor suas dificuldades acerca da proposta do aplicativo, suas frustrações ao tentar manusear o mesmo, os problemas que encontravam ao trabalhar em grupo, suas percepções acerca de como os aplicativos poderiam ter um fim educativo e até mesmo algumas discussões a respeito do uso de smatphones em sala de aula.

A inclusão prática dos memes inaugura na disciplina um espaço de livre colaboração onde cada um pode participar sem sentir que precisa estar totalmente fundamentado em tudo o que diz, ou mesmo julga estar sendo avaliado por um professor ao dar sua opinião. Esse espaço de trocas garante a democratização do pólo de emissão, elevando todos os praticantes a condição de interlocutor de suas práticas, de seus saberes e de sua formação na medida em que troca e aprende com o semelhante.

Nesse sentido, devemos considerar que o professor na cibercultura precisa ser mais um interlocutor do que um tutor, ou mesmo um professor no seu sentido mais tradicional[...] O professor/tutor é apenas alguém que executa e administra formas e conteúdos estáticos que partem de um pólo emissor para uma comunicação de massa, unidirecional, onde o estudante é apenas um receptor, e como tal, não constrói o conhecimento. (SANTOS, 2003, p. 38)

É da pluralidade de vozes desse lugar que partem as narrativas que nos interessam pesquisar, pretendendo resgatar nelas o sentido de nossa própria prática docente, apreendendo em cada fala o lugar de onde ela parte, os anseios de quem narra, e a percepção do meu fazer docente, sem esquecer que a essência daquilo que foi partilhado é também reflexo da minha implicação, não somente com a pesquisa, mas também com todos os indivíduos acionados.

Destacamos, portanto, as narrativas e imagens que se seguem no intuito de compreender como a discussão com os memes podem empreender um contexto formativo, não somente para os praticantes da disciplina Informática na Educação, como também para minha própria formação como educador online. Principalmente no questionamento acerca da escolha dos dispositivos, da abordagem conceitual, das suposições que fiz e finalmente de um olhar atento a tudo aquilo que ficou, com eles e comigo, quando as luzes se apagaram e eu me pus a refletir.

Figura 14 – Meme de Bruna sobre o Aurasma

Fonte: Captura de postagem da praticante no grupo do Facebook da disciplina.

Encontramos um pouco de tudo isso na postagem da praticante Bruna, uma das diversas narrativas que emergem da experiência relacionada a utilização do Aurasma. Em seu relato, ela revela que a inspiração do grupo para a concepção dos memes, parte da ideia de criar um clima de descontração sobre o assunto, aliviando a tensão proporcionada pelo desafio de trabalhar com o aplicativo. Ao partilhar sua produção, ela encontra conforto nas respostas de diversos outros cursistas que, assim como ela, estavam passando pela mesma situação.

Analisando individualmente o meme que acompanha a postagem, podemos perceber, o surgimento de uma série de relatos interessantes que vem corroborar com o contexto de nossa proposta. Mesmo não utilizando uma imagem autoral para produzir seu meme, ela consegue retratar sua realidade de forma original e criativa sintetizando em uma imagem todo um contexto de desafios e problemas vivenciados por grande parte dos cursistas daquela disciplina.

Mais uma vez a movimentação de reações e comentários se deu de forma acentuada, conforme pode ser observado pela quantidade de visualização da postagem (75 pessoas) e do volume de comentários e reações (24 e 36 respectivamente), obtendo uma proporção de engajamento variável entre 32% e 48%.

Percebendo que a postagem havia chamado a atenção dos praticantes, intervenho com a pergunta: o que vocês acharam de trabalhar com os memes como parte da avalição? A primeira resposta vem da própria Bruna quando diz que em sua opinião foi a melhor parte, “tendo em vista que foram tantas pequenas, grandes e trabalhosas etapas para compor apenas a nota da AD 1... Os memes vieram pra aliviar a tensão…” Solange confirma: “foi um momento para relaxar perto do que passamos com o aurasma!!”

Encontramos a seguir, na reprodução de uma postagem do grupo do Facebook, um meme criado pela praticante Caroline Brandão que revela sua visão acerca da utilização prática do aplicativo Aurasma. Em seu meme bem humorado, ela ilustra perfeitamente a sua opinião do que deveria ser feito com o aplicativo ao desejar sua completa destruição.

Figura 15 – Meme de Caroline Brandão sobre o Aurasma.

Fonte: Captura de postagem da praticante no grupo do Facebook da disciplina.

Podemos perceber pelos comentários da postagem que a opinião de Caroline não é compartilhada por todos os praticantes da disciplina. No comentário de William Scaldini: “Que isso? Ele é tão legal!” inicia-se inclusive um debate interessante a respeito da utilização de smarphones em sala de aula.

No relato de Kelly Cristina acerca de sua preocupação com a utilização prática do celular em sala de aula, inicio um debate questionando: “como vocês vêem essa proibição do uso dos celulares em sala de aula?” As respostas se tornam interessantes para compreender como podemos empreender um contexto formativo a partir de um meme.

Em sua resposta, Kelly deixa bem claro o seu posicionamento: “No geral, se for como um aliado no processo ensino-aprendizagem é válido. Mas, as crianças no geral usam o celular para jogar e conversar, pelo menos vejo isso nos meus alunos de 7 e 8 anos. Se fizermos um pedido formal aos alunos para trazerem o celular para a escola a responsabilidade passa a ser da instituição, e o índice de assalto onde trabalho é alto. Em alguns aspectos concordo com a proibição.” logo a seguir, complementa: “Minha filha tem 10 anos e não leva o celular para a escola, mas faz uso dele quando precisa fazer pesquisa.”

William ressalta: “Wallace, é uma linha muito tênue, porque ao passo que o professor pode utilizá-lo como recurso no processo de aprendizagem, o mesmo pode se tornar um empecilho para que haja eficácia em sua aplicação em sala de aula. Como a Kelly mencionou, há uma série de riscos que se corre. Principalmente quando se trata de crianças menores.” Esses relatos se tornam extremamente significativos quando entendemos que a noção de docência precisa admitir diversas outras competências, dentre as quais se encontra a perspectiva do contexto sociocultural, onde a violência, a desigualdade social e a realidade dificultam a prática daquilo que se deseja vivenciar.

Em contrapartida, quando penso acerca da minha própria realidade como professor de uma escola municipal em Ramos lembro que, mesmo situado em um contexto de violência que resultou no furto de três celulares de professoras que estavam em sala por um assaltante munido por facão, tento mobilizar atividades e contextos formativos com o uso de smartphones, por acreditar e perceber que mesmo nesse cenário de abandono efetiva-se a prática da mobilidade entre aqueles que ainda arriscam em levar seu smartphone.

Acerca da afirmativa de que os smartphones só são utilizados pelas crianças “para jogar e conversar” coloco que muitas vezes “ a forma como os alunos utilizam o aparelho demonstra a visão que eles têm do mesmo.” e explico dizendo que enquanto não ensinarmos que os celulares podem ser muito mais do que dispositivos de consumo, não podemos esperar que as crianças façam deles outro uso.

O mais interessante é que a mesma praticante que postou o meme desejando a destruição do Aurasma, que até então acompanhava o debate sem se pronunciar, admite após a leitura dos comentários que “se conseguirmos focar o lado do aparelho celular + internet direcionados na educação teremos ótimos resultados!” e conclui com a noção que buscavamos transmitir: “Até os memes podem ser educativos!” O debate foi ainda útil, conforme relato do praticante William Scaldini, para a resolução de uma das questões da AP1 que eles mesmos tiveram que responder para serem aprovados na disciplina.

Essa descoberta levantada no relato de Caroline não pode ser encontrada se apenas nos preocupássemos em garantir a interação emissor-receptor encontrada na grande parte dos modelos de EAD aplicados atualmente. Foi preciso abrir um espaço oficial, dentro do desenho didático da disciplina, onde eles se sentissem seguros para relatar, transmitir e até mesmo reclamar sobre aquilo que eles estavam vivenciando em individualidade. É da partilha dessas incertezas e frustrações que eles podem finalmente conceber um sentido para a sua prática.

O que importa nessa complexa rede de relações é a garantia da produção de sentidos, da autoria dos sujeitos/coletivos. O conhecimento deve ser concebido como fios que vão sendo puxados e tecidos criando novas significações, onde alguns irão conectar-se a novos, outros serão refutados ou serão ignorados pelos sujeitos, “nós”, até que outros fios sejam tecidos a qualquer tempo/espaço na grande rede que é o próprio mundo. Daí a aprendizagem acontece quando o professor propõe o conhecimento, não o distribui, não oferece informações a distância. O estudante não estará mais reduzido à passividade de um receptor que olha, copia, repete. Ele é co-autor da comunicação e da rede de conhecimentos, criando, modificando e tecendo novas e complexas redes. (SANTOS, 2002, pg. 118)

É no sentido de proporcionar uma experiência formativa baseada em redes de relações que buscamos demonstrar, de forma prática, como podemos trabalhar aspectos de tensão a partir de um contexto de informalidade. Entendemos que esse aspecto pode ser a única forma efetiva de estabelecer uma conexão presencial ativa entre cursistas e docentes situados em contexto de dispersão geográfica, tornando-se impraticável qualquer outra abordagem que não seja mediada pela perspectiva da educação online.

Essa postura de atuação torna-se ainda mais interessante quando levamos em conta a enormidade de desafios e obstáculos encontrados pela realidade do educador brasileiro, um fato relevante que não passou despercebido pelos docentes ou mesmo pelos cursistas na tessitura de suas críticas, principalmente em tempos de insegurança e corrupção política elém do descaso e sucateamento da educação da universidade em que estudam.

Figura 16 – Reprodução de parte do tutorial de utilização de um dos aplicativos.

Fonte: Elaborado pelo autor no contexto da pesquisa

Figura 17 – Memes de Diego Leonardo e Luciana Peres

Fonte: Captura de postagem dxs praticantes no grupo do Facebook da disciplina.

Na fala do praticante Diego percebemos que o trabalho com o meme produziu nele um sentimento de animação e inovação, quando diz que ficou animado em produzir algo que fosse “um pouco diferente da realidade dos trabalhos acadêmicos”, revelando uma relação de identificação do praticante com a prática em um contexto formativo.

Além disso, ele se autoriza em sua prática ao buscar em sua própria realidade, como aluno de graduação em pedagogia, um referencial para estabelecer um diálogo de igualdade de potência e valor entre o discurso de Wallon, a afirmativa de Temer e assentindo sua opinião com a resposta do povo.

Movimento semelhante pode ser verificado na fala da praticante Luciana Pires, que denuncia sua revolta ao retratar no meme sua frustração ao relatar que por falta de verbas no setor, vários colegas de curso ficaram sem receber o material didático necessário para sua formação e solidariza-se ainda com funcionários e aposentados da UERJ que sofrem com a falta de pagamento de seus salários.

Considerações finais

São experiencias como essas que nos apontam em direção a compreender como o empoderamento dos praticantes pelos meios de produção e emissão, potencializado pelo recurso discursivo dos memes, pode proporcionar e compreender experiências formativas que levem não somente a exposição de um problema e disposição do mesmo diante de uma realidade comum a todos, mas também de proprocionar uma profunda reflexão a respeito de si próprio e do universo que nos constitui enquanto seres críticos e conscientes.

Assim como os praticantes estavam se descobrindo capazes de divulgar, denunciar e revelar atores e cenários através de suas próprias narrativas e imagens produzidas em contexto de mobilidade, eu como pesquisador recortava o surgimento sincero de movimentos permeados de autoria de praticantes ativos e conscientes de sua realidade e pertinência na construção de papel de futuro formador na cibercultura.

Entendendo que todos nós, somos frutos dela constituídos, é preciso que entender que é preciso lancar mão dessa intima relação com a cibercultura e da vivência de suas práticas se quisermos encerrar com as práticas transmissivas de um discurso unidirecional, fechado e constituído, para a semelhança de uma vivência como as verificas em comunidades online nos ambientes virtuais de aprendizagem difundidos.

Referências

ALVES, Nilda. Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas: sobre rede de saberes.Petrópolis, RJ: DP et Alii, 2008

BLACKMORE, Susan. The Meme Machine. Oxford: Oxford University Press, 1999

LEMOS, André. Mídia locativa e territórios informacionais. 2007.

LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço. São Paulo: Loyola, 2007

SANTAELLA, Lucia. Mídias locativas: a internet móvel de lugares e coisas. Revista FAMECOS. Porto Alegre. nº 35, 2008

SANTOS,Edmea. Formação de professores e cibercultura: novas práticas curriculares na educação presencial e a distância.In: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 17, p. 113-122, jan./jun., 2002

SANTOS,Edmea. Novas práticas curriculares na educação a distância. In: Comunicação & Educação, São Paulo, (26): 35 a 42, jan./abr. 2003.

SANTOS,Edmea. A informática na educação antes e depois da Web 2.0: relatos de uma docente-pesquisadora. 2010.

SANTOS, Edmea; COLACIQUE, Rachel. CARVALHO, Felipe. A autoria visual na

[1] Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, ContextosContemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc/UFRRJ) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ). Membro do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC). Professor de Anos Iniciais da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Áreas de atuação: App-Learning, Formação de professores, Cibercultura, Práticas pedagógicas, Educação online e Informática na Educação. E-mail: wallace.almeida@me.com

[2] Doutora e Mestre em Educação pela UERJ. Professora Adjunta do Departamento de Formação de Professores da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF-UERJ). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (PPGECC) na Linha de Pesquisa:Educação, Comunicação e Cultura.

[3] Professora Titular-Livre da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Atua no Instituto de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDUC), na linha de pesquisa "Linha 1: Estudos Contemporâneos e Práticas Educativas".

[4] O ciberespaço é entendido com o espaço que interconecta pessoas e computadores

[5] A cibercultura é a cultura contemporânea estruturada pelas tecnologias digitais em redes na cidade

[6] Disponível em

[7]A equipe do #MUSEUdeMEMES congrega docentes e discentes em caráter permanente ou honorário. São pesquisadores da pós-graduação em Comunicação (PPGCOM-UFF), da graduação em Estudos de Mídia/UFF, e também de outras áreas e instituições.

[8]O símbolo disposto ao lado da imagem é um QR Code. O QR Code (sigla do inglês Quick Response) é um código de barras bidimensional que pode ser facilmente escaneado usando a maioria dos telefones celulares equipados com câmera. Esse código é convertido em texto (interativo), um endereço URL, um número de telefone, uma localização georreferenciada, um e-mail, um contato ou um SMS. Neste texto todas as imagens que dispõem de um QR Code apontam para um link com mais informações. Para obter um leitor de QR Code para o seu smartphone acesse o link http://bit.ly/leitordeqrcode

[9] Fonte: http://bit.ly/memeteacher

[10] Fonte: http://bit.ly/folhainternet

[11]Fonte: http://bit.ly/bbceleicao

[12] Homo zappiens é como é denominada a nova geração, que aprendeu a lidar com novas tecnologias, que cresceu usando múltiplos recursos tecnológicos desde a infância segundo Wim Veen e Ben Vrakking.

[13] o tutorial completo pode ser acessado escaneando o qr code disponível na última imagem

[14] o tutorial completo pode ser acessado escaneando o qr code disponível no final da imagem



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