Resumo: Este texto explora a forma como os memes podem constituir-se enquanto potentes estratégias contemporâneas de subversão e resistência às normas que regulam/governam corpos, gêneros e sexualidades. A infraestrutura técnica do ciberespaço possibilita que uma quantidade significativa de usuárias/oshojepossa (co)criar, “curtir” e compartilhar amplamente informações dos mais variados tipos (imagens, vídeos, sons etc) para outras pessoas geograficamente dispersas. Muitas dessas informações desenvolvidas colaborativamente evidenciam a força política dos usos feitos das redes sociais onlinena criação de estratégias de resistência direcionadas no combate ao regime (cis)heterocentrado, responsável pela desqualificação de corpos, gêneros e sexualidades dissidentes, comumente designados de anormais e estranhos.Se por um lado as redes sociais online caracterizam-se enquanto um terreno fértil para a viralização de discursos preconceituosos/discriminatórios, por outro lado é através dessas mesmas redes que muitos usuários vêm encontrando brechas e formulando caminhos no combate às mais perversas formas de desqualificação de determinados grupos sociais de sujeitos que integram as chamadas “minorias” sexuais, de gênero e étnico-raciais.O trabalho apresenta algumas dessas experimentações nos/com os cotidianos, acompanhando analiticamente seus modos de produção e algo daquilo que pode se constituir como enunciações coletivas.
Palavras-chave:redes sociais onlineredes sociais online,“minorias” sociais“minorias” sociais,memesmemes,educaçãoeducação.
Abstract: This article shows that memes can be powerful contemporary strategies of subversion and resistance to (hetero)norms that regulate/govern bodies, genders and sexualities. The technical infrastructure of cyberspace enables a significant number of users to (co)create, “like” and share information of all kinds (images, videos, sounds, links, etc) to geographically dispersed people. Much of this information developed collaboratively evidences the political power to combat (hetero)norms, responsible for the disqualification of bodies, gender and sexualities commonly designated as abnormal and strange. On the one hand, online social networks are a means for the viralization of prejudiced/discriminatory discourses, on the other hand, through these same networks that many users are finding ways to combat the most perverse forms of disqualification of certain social groups, so-called “minorities” (ethnic-racial, gender and sexual minorities). The work presents some of these experiments in/with the daily quotidian, accompanying analytically its modes of production and something of what can be constituted as collective statements.
Keywords: online social networks, social “minorities”, memes, education.
Resumen: Este texto explora la forma como los memes pueden constituirse como potentes estrategias contemporáneas de subversión y resistencia a las normas que regulan/gobiernan cuerpos, géneros y sexualidades. La infraestructura técnica del ciberespacio posibilita que una cuantidad significativa de usuarias/os hoy pueda (co)crear, “me gusta” y compartir ampliamente información de los más variados tipos (imágenes, videos, sonidos etc) para otras personas geográficamente dispersas. Muchas de estas informaciones desarrolladas colaborativamente evidencian a la fuerza política de los usos hechos de las redes sociales en línea en la creación de las estrategias de resistencia direccionadas en el combate al régimen (cis)heterocentrado, responsable por la descualificación de los cuerpos, géneros y sexualidades disidentes, comúnmente designados de anormales y extraños. Si por un lado las redes sociales en línea se caracterizan como un terreno fértil para la viralización de discursos preconceptos/discriminatorios, por otro lado es a través de esas mismas redes que muchos usuarios vienen encontrando brechas y formulando caminos en el combate a las más perversas formas de descualificación de determinados grupos sociales de sujetos que integran las llamadas “minorías” sexuales, de género y étnico-raciales. El trabajo presenta algunas de esas experimentaciones en/con los cotidianos, acompañando analíticamente sus modos de producción y algo de aquello que puede constituirse como enunciaciones colectivas.
Palabras clave: redes socialesonline, “minorías” sociales, memes, educación.
Número Temático
ENSINAR-APRENDER COM OS MEMES: QUANDO AS ESTRATÉGIAS DE SUBVERSÃO E RESISTÊNCIA VIRALIZAM NA INTERNET
TEACHING AND LEARNING WITH MEMES: WHEN SUBVERSION AND RESISTANCE STRATEGIES VIRALIZE ON THE INTERNET
ENSEÑAR-APRENDER CON MEMES: CUANDO LAS ESTRATEGIAS DE SUBVERSIÓN Y RESISTÊNCIA VIRALIZAN EN INTERNET

1. Viralizando imagens/ideias através das redes sociais da internet: iniciando o debate
Produzir informação e conhecimento passa a ser, portanto, a condição para transformar a atual ordem social. Produzir de forma descentralizada e de maneira não-formatada ou preconcebida. Produzir e ocupar os espaços, todos os espaços, através das redes. Nesse contexto, a apropriação da cultura digital passa a ser fundamental, uma vez que ela já indica intrinsecamente um processo crescente de reorganização das relações sociais mediadas pelas tecnologias digitais, afetando em maior ou menor escala todos os aspectos da ação humana[4].
Nelson Pretto e Alessandra Assis
A emergência dos dispositivos móveis com acesso à internet (aparelhos telefônicos do tipo smartphone, tabletsetc) vêm permitindo às/aos usuárias/os usufruir de uma gigantesca rede de dados a qualquer hora e em praticamente qualquer lugar, favorecendo o intercâmbio de experiências sociais mediadas pelas tecnologias digitais em rede (SANTAELLA, 2013). Não mais permanecemos somente na posição de meras/os receptoras/es de informações, pois com as possibilidades sócio-técnicas da internet hoje temos a chance de produzir e compartilhar variados tipos de arquivos (imagens, vídeos, sons etc)com outras pessoas geograficamente dispersas (LEMOS; LÉVY, 2010). O consumo cultural das mídias de massa não permite aos sujeitos interferir/modificar o conteúdo da mensagem, no entanto, a popularização do digital em redevem abrindo amplas possibilidades para que possamos experimentar uma dinamicidade comunicacional que prevê a interação com outras/os internautas para além da palavra escrita. Em uma perspectiva cotidianista, os praticantes culturais apropriam-se dessas produções digitais ativamente, com a cibercultura oportunizando a (co)criação colaborativa entre sujeitos, fazendo com que as ideias sejam “debatidas, confrontadas, tecidas e aprimoradas, com vistas a ir além da condição de consumidor de conteúdos, passando também a criar, disponibilizar, discutir e compartilhar suas autorias em rede” (SANTOS; CARVALHO, 2018, p. 34).
As experiências sociais contemporâneas, principalmente daquelas pessoas que se movimentam pelos grandes centros urbanos, são constituídas da presença abundante de imagens. Diariamente interagimos “com grandes outdoors, pinturas, desenhos, imagens capturadas pelas lentes das câmeras fotográficas digitais e dos smartphones, imagens em movimento produzidas pela indústria cinematográfica, além de inúmeras outras” (COUTO JUNIOR, 2015, p. 40, grifos do autor). O acesso à internet somado ao custo cada vez mais baixo dos equipamentos digitais permitem que a produção e o compartilhamento de imagens deixassem de ser restritos às grandes empresas e passassem a ser mais popularizados(PRETTO, 2013). Com a emergência das redes sociais onlinecomo Facebook e Instagram, a proliferação de imagens digitais constitui hoje parte do cenário das práticas sociais mediadas pelo digital. As imagens produzidas e compartilhadas revelam “expressões particulares, comunicam intencionalidade, são testemunhas de mudanças ocorridas, indicam compreensão e visões de mundo, registram momentos que ficam na memória como os antigos álbuns de família. Elas circulam contando e recontando histórias” (SANTOS; COLACIQUE;CARVALHO, 2016, p. 136).Afinal, por que(m) as histórias são (re)contadas e compartilhadas na rede?
Enquanto educadoras/es, cabe colocarmos em debate os efeitos discursivos de imagens digitais que vêm se proliferando através das redes online e que são responsáveis pela desqualificação de corpos, gêneros e sexualidades comumente designados de anormais e estranhos. Cabe desconstruirmos esses enunciados discursivos veiculados pelas imagens-memes na tentativa de produzir pedagogias que sejam capazes de colocar em prática o argumento central de que todos os corpos importam – e isso significa tornar visível as experiências sociais daquelas pessoas colocadas na condição de seres abjetos com o objetivo de nos posicionarmos “político e eticamente na celebração dos modos periféricos de ser e viver” (COUTO JUNIOR; SILVA, 2018, p. 33). O sujeito abjeto também é designado como sendo aquela pessoa cujo corpo “‘improdutivo’, ‘precário’, ‘bizarro’, ‘monstruoso’ e ‘desqualificado’” (POCAHY, 2012a, p. 370) apresenta inúmeros desafios em todas as esferas da sociedade paraocupar um lugar social digno de ser-viver.Não somos ingênuas/os ao acreditar que a “culpa” do aumento de toda violência de gênero ou de qualquer forma de preconceito e discriminação seja das redes sociais da internet. As redes são constituídas por pessoas de carne e osso que pensam, escrevem, opinam e participam ativamente dediscussões envolvendo inúmeras questões sociais. Por detrás de cada comentário “raivoso” envolvendo questões racistas, misóginas, gordofóbicas e LGBTfóbicas existe uma pessoa que estáproduzindo e compartilhando ideias por meio do uso de algum artefato cultural com acesso à internet. Dito isso, se por um lado as redes sociais da internet podem ser consideradas enquanto um terreno fértil para a viralização de discursos preconceituosos/discriminatórios (RECUERO, 2013), por outro lado é através dessas mesmas redes que muitos usuários vêm encontrando brechas e formulando caminhos no combate às mais perversas formas de desqualificação de determinados grupos de sujeitos que integram as chamadas “minorias” sexuais, de gênero e étnico-raciais (COUTO JUNIOR; OSWALD, 2017).
Dentro do contexto acima mencionado, o presente texto busca lançar um olhar atento e crítico para os arquivos imagéticos produzidos e compartilhados pelas/os usuárias/os na Web, buscando refletir sobre a forma como os memes podem constituir-se enquanto potentes estratégias contemporâneas de subversão e resistência às normas regulatórias de gênero. Com esse texto assumimos o compromisso ético de nos engajarmos “no enfrentamento ao heterossexismo, ao racismo e outras formas arbitrárias e hierarquias sociais” (POCAHY, 2016, p. 292). Reconhecemos a força política das redes sociais online na criação de estratégias de subversão e resistência direcionadas no combate ao regime (cis)heterocentrado[5], com muitosmemesauxiliando na promoção de práticas desconstrucionistas intermediadas pelo humor.
No contexto político contemporâneo, precisamos reconhecer “a força dos movimentos espontâneos em rede, cujos efeitos antes não eram possíveis em uma sociedade caracterizada pela mídia de massa. As próprias práticas de ciberativismocomprovam a força dos meios digitais para a articulação, mobilização e ações políticas” (PRIMO, 2013, p. 17).Acreditamos que essas práticas sociais mediadas pelas redes online potencializam a construção de novas perspectivas de vida que sejam promotoras de profundos questionamentos em torno das formas com as quais corpos, gêneros e sexualidades vêm sendo governados pelo regime (cis)heterocentrado. Esse regime busca manter intacta a supremacia das (cishetero)normas ao operar incessantemente com a tentativa de “inscrever corpos, gêneros e sexualidades dentro de modelos binários, restritos e universalizantes” (COUTO JUNIOR; OSWALD; POCAHY, 2018, p. 134). Na tentativa de apontar as fragilidades e contingências das (cis)heteronormas, colocando em xeque o pensamento hegemônico que opera através da desqualificação de todos os corpos que se distanciam das convenções culturais hegemônicas, as/os internautas da era digital, ao engajarem-se em mobilizações políticas mediadas pelas redes sociaisonline, têm o potencial de se tornarem “capazes de inventar novos programas para suas vidas com as matérias-primas de seu sofrimento, suas lágrimas, seus sonhos e esperanças” (CASTELLS, 2013, p. 14).
Sujeitos colocados constantemente na mira dos olhares (cishetero)normativos organizam-se em comunidades online dedicadas ao fortalecimento de suas/seus integrantes, buscando implicarem-se em questões sociais voltadas para a luta contra o preconceito e a discriminação(COUTO JUNIOR; OSWALD, 2017). Os memes apresentados e discutidos neste texto evidenciam “imageticamente aspectos da realidade, trazem em seu viés cômico elementos para que a imaginação recrie/reinterprete a realidade por ele representada” (SANTOS; COLACIQUE; CARVALHO, 2016, p. 138).Diante do exposto, como os memesda internet auxiliam na construção de estratégias de subversão e resistência às (cishetero)normas que regulam/governam corpos, gêneros e sexualidades?Como os memes nos convidam a pensar sob novos pontos de vista os acontecimentos sociais, virando de ponta a cabeça a ordem vigente que desqualifica determinados grupos de sujeitos? Nossa intenção com esse texto é fomentar reflexõesquesejam convidativas no questionamento às diferentes “formas de dominação e hierarquização social, acionando argumentos políticos, sociais e culturais que se articulam na definição da episteme do mundo – na definição complexa das relações saber-poder” (POCAHY, 2011, p. 20, grifo do autor).
2. Memes: definição e breve panorama histórico
Passei por uns meninos que jogavam bola, e eles: “Olha lá aquela mulher dos memes”. Tô com 50 anos de carreira, trabalhei a vida toda para virar a “mulher dos memes”[6].
Renata Sorrah
O termo meme foi cunhado pelo zoólogo Richard Dawkins ao fazer uma comparação entre meme e gene na obra de sua autoria O Gene Egoísta (1976). Torres (2016, p. 60) mostra que, na visão de Dawkins, meme seria a repetição de hábitos e costumes no contexto de “uma determinada cultura. Adaptado para a internet, especialmente para as redes sociais, o conceito de meme passa a ser uma ‘unidade’ propagada ou transmitida através da repetição e imitação, de usuário para usuário ou de grupo para grupo”. Os termos viralização/viral, emprestados do campo biológico, também foram res-significados no contexto da cibercultura, remetendo tudo àquilo que se espalha rapidamente através da internet (TORRES, 2016). A infraestrutura técnica da rede é bastante promissora para que os memes sejam compartilhados rapidamente pelas/os internautas através das redes sociais online.
Nossa intençãoaqui não é discutir o valor sociocultural dos memesno contexto brasileiro. Nos interessa perceber o fato de que mesmo a atriz Renata Sorrah tendo investido 50 anos em sua carreira, ser reconhecida na rua como a“mulher dos memes” indica o quanto as práticas sociais mediadas pelo digital em rede vêm reconfigurando os processos de interação com o outro na vida cotidiana. Interagir com as informações que circulam nas redes online é um verdadeiro convite para o que outras/os usuários/as têm a (re)contar, com os memes apresentando “muitas formas de intertextos, dialogando permanentemente com a realidade tanto ‘dentro’ da internet, quanto ‘fora’ dela”[7] (SANTOS; COLACIQUE; CARVALHO, 2016, p. 154).
O que conhecemos como meme da internet hoje surgiu no final da década de 1990 (TORRES, 2016). Ainda que seja bastante recente a emergência dos memes no contexto das redes sociais online, trabalhos de diversas áreas do conhecimento vêm centralizando seus esforços investigativos em torno da análise dos memes nas experiências comunicacionais das/os internautas. Neste contexto, vale destacar estudos que já se dedicaram a: a) investigar os usos dos memes na criação publicitária (SILVA; TOMÉ; SILVA, 2013); b) discutir a criação de uma tipologia inicial dos gêneros mais recorrentes na memesfera brasileira (OLIVEIRA NETA, 2017); c) pesquisar os usos dos memes na comunicação mediada por computadores nas redes sociais online (SANTOS; COLACIQUE; CARVALHO, 2016; VOLCAN, 2014), incluindo esses usos em práticas sociais online contra questões relacionadas à desigualdade de gênero (PIÑEIRO-OTERO; MARTÍNEZ-ROLÁN, 2016) e; d) fornecer um panorama da produção acadêmica brasileira que focalizou a análise dos memes na comunicação online (DIAS et alii, 2015).
Os memes geralmente são constituídos com base em uma linguagem informal e humorística, comumente viralizando informações produzidas por suas/seus autoras/es (VOLCAN, 2014). Promovendo o fortalecimento dos vínculos sociais e afetivos, os “memes funcionam como modos de sentir coletivos que geram, principalmente, humores e afetividades” (OLIVEIRA NETA, 2017, s/p, grifos da autora). Investigar os usos dos memes nas dinâmicas comunicacionais na/da internet é um convite para que possamos colocar em prática “processos de leitura dessas imagens envolvem concepções estéticas, ideológicas, culturais, nossos conhecimentos, modos de ver e compreender o mundo” (SANTOS; COLACIQUE; CARVALHO, 2016, p. 142-143). Frente a isso, cabe refletirmos sobre as possibilidades comunicacionais que emergem com o uso dos memes nas dinâmicas interativos entre usuárias/os geograficamente dispersas/os.
Um dos casos mais notórios de viralização de memes no Brasil é o da personagem Nazaré Tedesco na novela Senhora do Destino (2004-2005). Interpretada pela atriz Renata Sorrah, imagens de Nazaré foram e vêm sendo ainda muito utilizadas para a confecção de memes, revelando o potencial criativo e humorístico das/osusuárias/os brasileiras/os (figura 1). Tamanha popularidade da personagem fez com que as/os usuárias/os criassem diversas páginas em redes sociais como o Facebook dedicadas à elaboração e ao compartilhamento de memes de Nazaré.Uma dessas páginas é a “Nazareth – a orientadora”, com mais de 100 mil seguidoras/es, e que apresenta “Uma dose de humor para aqueles que fazem pesquisa! Sou Professora, Doutora, Pós Doutora, Pós-Pós Doutora e tenho vagas abertas para orientar TCC,M.A e Ph.D”[8]. A página revela a (re)apropriação da vilã da telenovela no campo acadêmico, evidenciando o quanto os memes produzidos e compartilhados na comunidade produz uma forma de pedagogia que coloca em prática um certo modo de conduzir o trabalho das/os estudantes.
O aspecto viral dos memes evidencia o processo colaborativo das/os usuárias/osna (re)criação de legendas e (re)edição de imagens (figura 2). Caminhando com esse pensamento, não há como negar que devido ao “caráter ‘amador’ em termos de recursos tecnológicos envolvidos em sua produção, os memes viabilizam a autoria dos/as usuários/as da internet, que podem, eles próprios, criar e compartilhar sua versão do meme” (SANTOS; COLACIQUE; CARVALHO, 2016, p. 154).
Fonte da imagem 1: Estadão /<goo.gl/iXweMZ>
Fonte da imagem 2: Facebook / <https://www.facebook.com/OficialNazareTedesco/>
AUniversidade Federal Fluminense (UFF), instituição localizada no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo o projeto #MUSEUdeMEMES no curso de Estudos de Mídia. O museu de memes (figura 3), fruto deste projeto, foi criado em 2015 com a intenção de preservar a memesfera brasileira. O webmuseu, o primeiro deste tipo no país focalizado no acervo imagético de memes, é constituído de uma ampla e rica produção cultural visual, de referências bibliográficas (livros, artigos etc) importantes para uma melhor compreensão/leitura de mundo do fenômeno dos memes, além de ofertar propostas educativas que incentivam as atividades de pesquisa e extensão ligadas à universidade fluminense[9].
Fonte da imagem 3: #MUSEUdeMEMES / <http://www.museudememes.com.br/>
Essa estreita relação do museu com atividades de pesquisa e extensão revelam o quão fecundas são as possibilidades de ensinar-aprender que emergem dos usos dos memesnos processos interativos/afetivos/comunicacionais das/os usuárias/os. Os memes vêm modificando nossa relação com o mundo, afetando significativamente a constituição dos processos de subjetivação das/os usuários de redes sociais. A forma como vimos utilizando as tecnologias digitais estão favorecendo a construção de novas estratégias de interação com outras pessoas e, com isso, promovendo “um certo modo de ver as coisas, interpretando e recriando o mundo de muitas e diferentes maneiras” (JOBIM E SOUZA, 2002, p. 77). Conforme analisamos a seguir, muitos memes podem se constituir enquanto estratégiassubversivas de normas regulatórias responsáveis pela desqualificação de corpos, gêneros e sexualidades, evidenciando a criatividade e o humor enquanto aspectos que favorecem a contestação das normas e convenções culturais.
3.Práticas de resistência e subversão mediadas por memes: corpo, gênero e sexualidade em debate
Partimos das contribuições foucaultianas e reconhecemos que a liberdade existe onde existe poder (FOUCAULT, 2004). As (cishetero)normas que regulam/governam corpos, gêneros e sexualidadesnecessitam de constante repetição para se atualizarem, uma vez que “a (hetero)sexualidade, longe de surgir espontaneamente de cada corpo recém-nascido, deve se reinscrever ou se reinstruir através de operações constantes de repetição e de recitação dos códigos (masculino e feminino) socialmente investidos como naturais” (PRECIADO, 2014, p. 26, grifo nosso). Dessa forma, a partir das diversas brechas que se abrem cotidianamente temos a oportunidade criar estratégias de resistência com o objetivo de colocar em suspensão as normas vigentes, desnaturalizando práticas historicamente tidas como “naturais”.Algumas dessas estratégias incluem a confecção de memes por internautas de todos os cantos do globo, cuja criatividade e anseio político por mudanças através do questionamento do tempo presente são motivadores para que essas informações digitais sejam produzidas e compartilhadas através de páginas do Facebook e de outras redes sociais.
O memes discutidos nesta seção do texto colocam em debate “o indivíduo/corpo ‘planejado’, desenhado, calculado, medido, sujeito a prescrição, tutela, correções, adaptações” (POCAHY, 2011).A análise interpretativa realizada sobre esses memes não se esgota aqui, até porque acreditamos no quanto as imagens são capazes de “falar por si” e o quanto elas são potentes na produção de sentidos de quem as lê. A seguir discutimos alguns memesretirados das páginas “Cartazes & Tirinhas LGBT” (aproximadamente 700 mil seguidoras/es), “Cartazes & Tirinhas LGBT – Reserva” (aproximadamente 20 mil seguidoras/es), “Desanimado” (aproximadamente 75 mil seguidoras/es) e “que me transborde” (mais de 3 milhões de seguidoras/es). A escolha desses memesocorreu devido à popularização das comunidades no Facebook nas quais essas imagens foram compartilhadas, além do fato de que tais imagens promovem reflexões sociais ligadas aos corpos, gêneros e sexualidades, com ênfase na crítica à normatização da vida através do questionamento ao patriarcado, machismo, sexismo, misoginia.
Fonte da imagem 4: página do Facebook “que me transborde” / <goo.gl/Sb7YZ4>
Fonte da imagem 5: página do Facebook “Cartazes & Tirinhas LGBT - Reserva” / <goo.gl/ja82nj>
Os movimentos sociais em redeno Brasil situam-se num contexto político complexo, repleto de retrocessos sociais que vêm mobilizando pessoas de diversas localidades do país a se engajarem na luta contra as injustiças sociais[10]. Não existe uma “causa única” de luta através das redes sociais, no entanto, precisamos concordar com Castells (2013, p. 8), para quem argumenta que os movimentos emrede são motivados pela “humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político ou cultural, que uniu aqueles que transformaram medo em indignação, e indignação em esperança de uma humanidade melhor”. Inspirando-nos em Foucault, acreditamos que esses movimentossociais agem diante de uma determinada correlação de forças, uma determinada forma de governamentalidade que é, constantemente, colocada em questão e disputa. Parece-nos importante uma reflexão sobre o processo de transformação/questionamento da atual conjuntura sócio-política através de imagens que são produzidas e colocadas em movimento/circulação. Essas imagens-ideias, ao serem difundidas na internet, convidam usuárias/os a questionar regimes de verdade que, historicamente, vêmdesqualificando modos de ser/estar no mundo.
Fonte da imagem 6: página do Facebook “Cartazes & Tirinhas LGBT” / <goo.gl/NSAMjX>
A liberação da palavra, ou seja, a possibilidade técnica da rede que possibilita a produção e o compartilhamento de informações entre usuárias/os (LEMOS, 2010) evidencia o quanto os memes nos fazem (re)lembrar diariamente a potência das micropolíticas cotidianas mediadas pelo digital em rede.Cabe um olhar sobre a “mobilização política que nos conduz à possibilidade de circulação das posições sobre o discurso das normas de gênero e do exercício da sexualidade, como possibilidades heterogêneas, não naturais e tampouco culturalmente universais” (POCAHY, 2011, p. 27). Dito isso, que possamos aprender-ensinar com os memesas possibilidades de (re)criação engendradas pelo digital em rede para desarmar discursos preconceituosos e discriminatórios que desqualificam os grupos de sujeitos que constituem as chamadas“minorias” sexuais, de gênero e étnico-raciais.
O enfrentamento às (cishetero)normas regulatórias vem ocorrendo através de intensos embates/discussões que se difundem/viralizam pela internet. Os discursos de ódio que se propagampelo intenso compartilhamento de ideias que defendem o aniquilamento/silenciamento de determinados grupos sociais não permanecem livres para reinarem supremos, pois se deparam com movimentos de resistência que lutam a favor de novas estéticas de existência. Os regimes de verdade colocam em funcionamento discursos normativos “que se organizam através da gestão da vida, controle, ‘deciframento’, incitação do corpo, organização espacial e institucional, toma particularmente a sexualidade como dispositivo eficaz nos jogos de prescrição e de controle” (POCAHY, 2012b, p. 52). Questionar regimes de verdade que regulam/governam corpos, gêneros e sexualidades vêm sendo o papel de muitos memes, elaborados com a intenção de alertar as/os usuárias/osdas inúmeras situações cotidianas que se constituem enquanto graves problemas sociais (homofobia, racismo, misoginia, para citar alguns), não só no Brasil.
Fonte da imagem 7: página do Facebook “Cartazes & Tirinhas LGBT – Reserva” / <goo.gl/zNATcS>
Fonte da imagem 8: página do Facebook “Desanimado” / <https://www.facebook.com/des4nimado/>
No que se refere à representação e a forma como ela funciona em relação à humanização e à desumanização, Butler (2011, p. 27-28) destaca que “há imagens triunfalistas que nos dão a ideia do humano com que devemos nos identificar, como por exemplo o herói patriótico que expande as fronteiras de nosso ego euforicamente até que se encontre com aquela da própria nação”. Frente aos dizeres de Butler, cabe reiterar no contexto deste trabalho que nem todas as imagens-ideias que circulam amplamente-livremente através das redes sociais online vão ao encontro de uma perspectiva “humanizadora”, por isso a necessidade encontrada por tantas/os usuárias/osde (re)criar memes capazes de nos inspirar a refletir sobre o tempo presente através da criação de estratégias de subversão e resistência mais “humanizadoras”. Que essas estratégias imagéticas possam denunciar os discursosde ódio responsáveis pelo esfacelamento e esvaziamento de nossa humanidade ao naturalizar a ideia de que nem todo corpo importa e nem toda “morte [é] passível de ser lamentada” (BUTLER, 2011, p. 28).
Fonte da imagem 9: página do Facebook “Cartazes & Tirinhas LGBT” / <goo.gl/YPgKFM>
Os memestêm nos sugerido que é possível “abrir brechas para novos planos de experimentação e produção de subjetividade que tem paixão pelo devir e não temem o caos e aquilo que é estranho” (COUTO JUNIOR; OSWALD; POCAHY, 2018, p. 136), especialmente quando eles denunciamos discursos de ódio e as “personagens” da vida cotidiana que colocam em funcionamento o ato irresponsável de hierarquizar/desqualificar grupos de sujeitos. Que o regime (cis)heterocentradopossa ser desestabilizado pelas imagens irônicas, sarcásticas e cômicas dos memes através do questionamento das premissas regulatórias que fundamentam/atualizam o patriarcado, machismo, racismo e a misoginia na cultura nacional. Nesse sentido, acompanhamos com entusiasmo a profusão e potência dos memespara subverter as dinâmicas sociais, fomentando amplas e criativas práticas educativas mediadas pelo digital em rede que formam e fazem circular noções mesmas de rede e de autoria (em/na/ com rede).
4.O que podemos aprender-ensinar com os memes? Algumas palavras inconclusivas
Acompanhar a produção e o compartilhamento de memes na internet significa acompanharalguns fluxos das tramas discursivas da vida onlineenvolvendo tópicos variados. Ao retratar momentos cotidianos de vidas/personagens que representam as chamadas “minorias” sexuais, de gênero e étnico-raciais, os memes apresentados neste texto possibilitam perceber algumas estratégias de resistência que denunciam o processo de desumanização dos gruposcolocados na condição de precariedade/vulnerabilidade. O pensamento de Butler (2011) nos convida a refletir sobre uma quantidade significativa de vidas cuja humanidade são constantemente ameaçadas. Essas vidas, ao ganharem destaque nos processos comunicacionais em/na rede através dos memes, trazem à tona a necessidade de, enquanto educadoras/es, colocarmos em prática uma reflexão atenta sobre o planejamento de estratégias de resistência no enfrentamento à onda conservadora crescente no Brasil e no mundo que busca desqualificar/normatizar corpos, gêneros e sexualidades.
O humor e o caráter irônico dos memessó podem ser analisados tendo em vista a necessidade de situar essas imagens-ideias num determinado tempo e espaço. Conforme nos lembra Fischer (2003, p. 373) a partir do pensamento foucaultiano, palavras e coisas “têm uma relação extremamente complexa, justamente porque são históricas, são construções, interpretações; jamais fogem a relações de poder; palavras e coisas produzem sujeitos, subjetividades, modos de subjetivação”.Dessa forma, a recente popularização do digital em rede nas interações sociais vêm apontando para o quanto a história mediada por imagens/dizeres digitais que vimos construindo necessitam de maiores reflexões para auxiliar no desafio de (re)pensar a complexa conjuntura sociocultural de um determinado tempo e espaço. Que essa análise do porvir seja capaz de nos fornecer instrumentos analíticos potentes para melhor compreender a proliferação de discursos sintonizados com o regime (cis)heterocentrado e, ao mesmo tempo, seja capaz de mapear/traçar estratégias de enfrentamento e subversão a esse mesmo regime.