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O PORQUÊ É PRECISO ALTERIDADE: a subjetivação do neoliberalismo sobre os sujeitos
Deysi Maia Clair Kosvoski[1] Sara Farias da Silva[2]
Deysi Maia Clair Kosvoski[1] Sara Farias da Silva[2]
O PORQUÊ É PRECISO ALTERIDADE: a subjetivação do neoliberalismo sobre os sujeitos
WHY NEED ALTERITY: the subjectivation of neoliberalism on the subjects
POR QUÉ SE NECESITA ALTERIDAD: la subjetivación del neoliberalismo sobre los sujetos
Periferia, vol. 12, núm. 1, pp. 177-191, 2020
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
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Resumo: Este artigo apresenta uma abordagem crítica, política e filosófica com conceitos importantes para a análise da alteridade sobre a subjetividade e subjetivação do sujeito, em contexto neoliberal. O objetivo é problematizar o contexto atual e analisar a responsabilidade docente quanto a evolução dos sujeitos no aspecto humano no processo educacional, perspectivando relações de alteridade em um mundo comum, o espaço físico ou teórico ocupado por sujeitos em interação.A partir da realidade sócio histórica presente,faz-se necessário discutir a questão problemática: Como provocar o sujeito a educar-se para a alteridade em contexto neoliberal no qual o sujeito está subjetivado à competição e ao empresariamento de si?Os estudos contribuem à medida que fazem questionamentos em relação ao humano e ao futuro da humanidade para que sejam proporcionados aprendizados sobre e com alteridade e que com isso se possa reconhecer o outro como semelhante, mas não só o próximo, o desconhecido, aquele que está longe dos olhos e que só a alteridade pode desencadear a percepção dos sentidos a respeito e reconhecimento desse outro.

Palavras-chave:AlteridadeAlteridade,Educação brasileiraEducação brasileira,NeoliberalismoNeoliberalismo.

Abstract: This article presents a critical, political, and philosophical approach with essential concepts for the analysis of alterity about the subjectivity and subjectivation of the subject, in a neoliberal context. The aim is to problematize the current context and to analyze the teaching responsibility, regarding the evolution of the subjects in the human aspect in the educational process, looking for otherness relations in an ordinary world, the physical or theoretical space occupied by interacting subjects. From the present socio-historical reality, it is necessary to discuss a problematic question: How to provoke the subject to educate himself to otherness in a neoliberal context in which the subject is subjected to competition and self-entrepreneurship? The studies contribute to questioning the human and the humanity future, to provide the learning concerning otherness. Therefore, one can recognize the other as a fellow, but not only the fellow man, the unknown, the one who is far from the eyes, and that only alterity can trigger the perception of the senses regarding the recognition of this other.

Keywords: Alterity, Brazilian Education, Neoliberalism.

Resumen: Este artículo presenta un abordaje crítico, político y filosófico con conceptos importantes para el análisis de la alteridad acerca de la subjetividad y subjetivación del sujeto, en contexto neoliberal. El objetivo es problematizar el contexto actual y analizar la responsabilidad docente en lo que toca a la evolución de los sujetos en el aspecto humano en el proceso educacional, vislumbrando relaciones de alteridad en un mundo común, el espacio físico o teórico ocupado por sujetos en interacción.Desde la realidad socio-histórica presente, se hace necesario discutir la cuestión problemática: ¿cómo inducir el sujeto a educarse para la alteridad en contexto neoliberal en el que el sujeto está subjetivado a la competición y al empresariamento de sí? Los estudios contribuyen a medida que hacen cuestionamentos en relación con el humano y con el futuro de la humanidad para que sean proporcionados aprendizajes sobre y con alteridad y que, con eso, se pueda reconocer al otro como semejante, pero no solamente el próximo, el desconocido, aquél que está lejos de los ojos y que solo la alteridad puede desencadenar la percepción de los sentidos al respecto y reconocimiento de ese otro.

Palabras clave: Alteridad, Educación brasilera, Neoliberalismo.

Carátula del artículo

Dossiê

O PORQUÊ É PRECISO ALTERIDADE: a subjetivação do neoliberalismo sobre os sujeitos

WHY NEED ALTERITY: the subjectivation of neoliberalism on the subjects

POR QUÉ SE NECESITA ALTERIDAD: la subjetivación del neoliberalismo sobre los sujetos

Deysi Maia Clair Kosvoski[1] Sara Farias da Silva[2]
Deysi Maia Clair Kosvoski[1] Universidade do Oeste de Santa Catarina Sara Farias da Silva[2] Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Periferia, vol. 12, núm. 1, pp. 177-191, 2020
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

EDITORIAL

O PORQUÊ É PRECISO ALTERIDADE:

a subjetivação do neoliberalismo sobre os sujeitos

Deysi Maia Clair Kosvoski[1]

Universidade do Oeste de Santa Catarina

Sara Farias da Silva[2]

Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Este artigo apresenta uma abordagem crítica, política e filosófica com conceitos importantes para a análise da alteridade sobre a subjetividade e subjetivação do sujeito, em contexto neoliberal. O objetivo é problematizar o contexto atual e analisar a responsabilidade docente quanto a evolução dos sujeitos no aspecto humano no processo educacional, perspectivando relações de alteridade em um mundo comum, o espaço físico ou teórico ocupado por sujeitos em interação.A partir da realidade sócio histórica presente,faz-se necessário discutir a questão problemática: Como provocar o sujeito a educar-se para a alteridade em contexto neoliberal no qual o sujeito está subjetivado à competição e ao empresariamento de si?Os estudos contribuem à medida que fazem questionamentos em relação ao humano e ao futuro da humanidade para que sejam proporcionados aprendizados sobre e com alteridade e que com isso se possa reconhecer o outro como semelhante, mas não só o próximo, o desconhecido, aquele que está longe dos olhos e que só a alteridade pode desencadear a percepção dos sentidos a respeito e reconhecimento desse outro.

Palavras-chave:Alteridade; Educação brasileira; Neoliberalismo.

WHY NEED ALTERITY:

the subjectivation of neoliberalism on the subjects

Abstract

This article presents a critical, political, and philosophical approach with essential concepts for the analysis of alterity about the subjectivity and subjectivation of the subject, in a neoliberal context. The aim is to problematize the current context and to analyze the teaching responsibility, regarding the evolution of the subjects in the human aspect in the educational process, looking for otherness relations in an ordinary world, the physical or theoretical space occupied by interacting subjects. From the present socio-historical reality, it is necessary to discuss a problematic question: How to provoke the subject to educate himself to otherness in a neoliberal context in which the subject is subjected to competition and self-entrepreneurship? The studies contribute to questioning the human and the humanity future, to provide the learning concerning otherness. Therefore, one can recognize the other as a fellow, but not only the fellow man, the unknown, the one who is far from the eyes, and that only alterity can trigger the perception of the senses regarding the recognition of this other.

Keywords: Alterity; Brazilian Education; Neoliberalism.

POR QUÉ SE NECESITA ALTERIDAD:

la subjetivación del neoliberalismo sobre los sujetos

Resumen

Este artículo presenta un abordaje crítico, político y filosófico con conceptos importantes para el análisis de la alteridad acerca de la subjetividad y subjetivación del sujeto, en contexto neoliberal. El objetivo es problematizar el contexto actual y analizar la responsabilidad docente en lo que toca a la evolución de los sujetos en el aspecto humano en el proceso educacional, vislumbrando relaciones de alteridad en un mundo común, el espacio físico o teórico ocupado por sujetos en interacción.Desde la realidad socio-histórica presente, se hace necesario discutir la cuestión problemática: ¿cómo inducir el sujeto a educarse para la alteridad en contexto neoliberal en el que el sujeto está subjetivado a la competición y al empresariamento de sí? Los estudios contribuyen a medida que hacen cuestionamentos en relación con el humano y con el futuro de la humanidad para que sean proporcionados aprendizajes sobre y con alteridad y que, con eso, se pueda reconocer al otro como semejante, pero no solamente el próximo, el desconocido, aquél que está lejos de los ojos y que solo la alteridad puede desencadenar la percepción de los sentidos al respecto y reconocimiento de ese otro.

Palabras clave: Alteridad; Educación brasilera; Neoliberalismo.

PRIMEIRAS PALAVRAS

O tema desse dossiê nos remete aos nossosestudos realizados no decorrer de nossa (contínua) formação e prática docente. Nesse trilhar enquanto professoras e educadoras, nossa postura em sala de aula sempre foi direcionada ao diálogo para a alteridade.Estas vivências que transformamos em experiências, muito nos envolvem em reflexões mais aprofundadas no que diz respeito à alteridade eà educação brasileira. Portanto, este artigo apresenta uma abordagem crítica, política e filosófica com conceitos importantes para a análise da alteridade sobre a subjetividade do sujeito, justamente, nesse momento de observação cautelosada condução das políticas derivadas da governança neoliberalista;nós professoras, voltamos nosso olharpara a educação do sujeito em constituição intelectual e nosso objetivo é problematizar o contexto atual e analisar a responsabilidade docente quanto a evolução dos sujeitos no aspecto humano no processo educacional, perspectivando relações de alteridade em um mundo comum, o espaço físico ou teórico ocupado por sujeitosem interação.

A contextualização em nosso estudo está a cargo dos pensadores: Pierre Dardot, nascido em 1952,filósofo, pesquisador, especialista no pensamento de Marx e Hegel; Christian Laval, professor, doutor em sociologia, nascido em 1953 que com Dardot coordena o grupo de estudos e pesquisas “Question Marx” que procura contribuir com a renovação do pensamento crítico. Escreveram juntos “La Nouvelle raison du Monde” (2009), e a partir dessa publicação esses autores nos levam a repensar a questão neoliberal no mundo e olhar para o “comum” como um espaço político. Contamos também com o pensamento do britânico Nikolas Rose, nascido em 1947, considerado um proeminente sociólogo, teórico social, professor de Sociologia no Departamento de Saúde Global e Medicina Social emKing's College de Londres. Rose contribui conosco a respeito da subjetivação dos sujeitos no neoliberalismo. Nos orientamos, da mesma forma,por intermédio do pensamento da filósofa política, a alemã de origem judaica (Johanna) Hannah Arendt, nascida em 1906; especialmente sobre sua cobertura no julgamento de Eichmann em Jerusalem em 1961, e toda sua elaboração subjetiva que a fez transformar suas vivências da guerra em experiências as quais durante o julgamento se elevaram ao campo da alteridade.

Com esse pensamento surge a problematização da alteridade que envolve o papel da educação na formação, principalmente na formação do caráter humano nos sujeitos, a qual não é o caráter empresarial na educação, e sim a educação humanizada (Freire, 1987, 2002 e 2013). A sensibilidade que a alteridade traz como um de seus principais componentes, pode nos levar a reconhecer que os genocídios ocorridos no passado,(ARENDT, 1999), ainda acontecem em paísesde menor visibilidade neoliberal, e que só por meio da educação de um povo é possível agir com alteridade e excluir as atitudes de violência contra nossos semelhantes.

A abordagem da Alteridade em Bakhtin (1997a, b), Buber (2001) e Freire (1987, 2002 e 2013) percorrerá o estudo do aspecto interacional subjetivo da linguagem subjetivados no outro em sentidos agregadores de fatores humanizadores.A partir da realidade sócio histórica na qual estamos inseridas, e apósa apresentação dos autores que se utilizaram da alteridade em suas vidas, queremos discutir nossa questão problemática: Como provocar o sujeito a educar-se para a alteridade em contexto neoliberal no qual o sujeito está subjetivado à competição e ao empresariamento de si?

Nossos estudos contribuem à medida que fazem questionamentos em relação ao humano e ao futuro da humanidade para que sejam proporcionados aprendizados sobre e com alteridade e que com isso, possamos reconhecer o outro como nosso semelhante, mas não só o próximo, o desconhecido, aquele que está longe dos olhos e só a alteridade pode desencadear a percepção dos sentidos a respeito e reconhecimento desse outro.

A educação em contexto neoliberal

O ambiente educacional escolar no neoliberalismo tem sido construído como uma empresa, à serviço da economia, atende mais alunos ao mesmo tempo em espaço físico menor, dispõe de infraestrutura básica e precária em sua maioria, possui um currículo comum básico para aprendizagens mínimas e aligeiradas próprias aos testes avaliativos nacionais e internacionais padronizados, rápida formação continuada de professoresquesofrem com a desvalorização social. O mercado, por sua vez, espera os recursos humanos advindos da escola, como sendo sujeitos proativos, polivalentes, criativos, que saibam se inter-relacionar, intelectualizados academicamente, em cultura e mídias digitais. O fato é que a concepção de educação neoliberal está associada às demandas do mercado empresarial, proletário para a grande massa, do social e das políticas de igualdade, equidade e de inclusão, e assim, compor índices de desempenho satisfatórios, com o objetivo de que sejam mantidos os investimentosde organismos internacionais. Estes sãoresponsáveis por seu controle e para que as alianças entre as esferas educação, saúde e assistência socialalcancem o que fora determinado ao país em acordo mais financeiro que humano.

A educação ao passo que é um tema complexo por sua amplitude dimensional da constituição humana, é simples, pois acontece principalmente pela interação e pela relação com a linguagem, em todos os espaços ambientais, incluindo o espaço da escolarização da escola. Para aprender a educar-seé preciso estar predisposto a isso e estar atento em contemplação e observação ao mundo a seu redor. Entretanto, no espaço escolar a função da escolarização conhecimentos historicamente produzidos e contextualizados de acordo com as culturas e problematizações atuais, cedeu às aprendizagens mínimas que mesmo assim, não são contextualizadas e nem fazem com que os escolares se eduquem. As práticas neoliberalistas direcionam esses problemas educacionais aos próprios escolares e na sequência aos professores, à família e assim por diante, nunca é o sistema. Entretanto, se faz necessário um olhar para esse sujeito em constituição, sendo escolarizado e assim nos questionamos: e sua educação?

O sujeitoem contexto neoliberal se encontra em situação de subjetivação, isto é, interiorizadocom as formas, normas e condutas absorvidasao longo de sua vivência,de acordo com a racionalidade neoliberalista. A racionalidade neoliberalista atua na constituição da subjetividade do sujeito, produz funcionamentos psíquicos instigadores do egoísmo, fragmentando a subjetividade,devido às práticas de subjetivação. Como bem diz, Pierre Dardot e Christian Laval (2016, p. 395) tais práticas de subjetivação consistem em produzir o sujeito neoliberal ou neossujeito, por intermédio do empresariamento de si a forma-empresa de moralização e responsabilização do sujeito. Esse sujeito neoliberal é o sujeito competitivo (DARDOT e LAVAL, 2016) inteiramente imerso na competição mundial. O sujeito constituído como neoliberalista, sofre a fragmentação de sua subjetividade e nesse sentido Dardot e Laval, citam que o homem moderno

se dividiu em dois: o cidadão dotado de direitos inalienáveis e o homem econômico guiado por seus interesses, o homem como ‘fim’ e o homem como ‘instrumento’. A história dessa ‘modernidade’ consagrou um desequilíbrio a favor do segundo polo (DARDOT e LAVAL, 2016, p. 323).

Da mesma forma reconhecemos a divisão da subjetividade do sujeito em duas partes: em sujeito em sua humanidade e em sujeito desprendido dessa humanidade, prevalecendo o sujeito capitalista desprendido de sua humanidade e comprometendo assim, as suas relações intersubjetivas, transformando-as em relações superficiais de interesse. O interesse comercial do lucro máximo nas relações intersubjetivas excluiu quase que completamente as relações sociais humanizadas.Até aqui procuramos adentrar no contexto econômico-social,no qual emerge o sujeito de nosso tempo. Nota-se sujeitos que quando em suas linguagens tentam retornar às suas humanidades, como um equilíbrio necessário à saúde de sua psiquê.

A alteridade

Com essa percepção da realidade, mergulhamos no conceito de alteridade reconhecido no pensamento de Bakhtin, na relação eu-tu concebida por Buber e na concepção de educação em Paulo Freire. A alteridade em princípio é composta por um conjunto de fatores, inter-relações, reconhecimentos, elaboração do espírito, desprendimentos, estranhamentos, aceitações e completude entre outros. Trata-se de um movimento do eu ao outro, que transcende o corpo físico com a abertura ao que me é estranho, em aceitação do outro que está perto e principalmente aceitação do outro que está longe, do qual não percebo a face, mas que deveria em humanidade. Aceitar o outro à primeira vista requer o pensamento antecipado de aceitação na face, no corpo, pois este é o primeiro a ser visto antes mesmo da linguagem. Mas há casos em que a relação intersubjetiva ocorre à distância por meio digital, e nesse momento a alteridade se manifesta na linguagem, na palavra, no tom da voz. A alteridade manifestada tem o poder de construir relações embasadas em princípios e condutas morais, seja pelo teor da sinceridade e transparência exibida ou pela linguagem escolhida.

Apresentamos em sequência os três autores por linha de nascimento, e não por outro motivo, com nosso pensamento voltado à alteridade em reconhecimento de seus legados e de suas importâncias e colaborações em nossa discussão sobre a humanidade em nós, ou seja, pela linguagem, fala, ideologia, assim compreendemos que os referidos autores (Bakhtin (1997a, b), Buber (2001) e Freire (1987, 2002 e 2013) são os teóricos da alteridade.

Martin Buber nasceu em Viena, em 1878 e esteve entre nós até 1965,sua linha de raciocínio se desenvolvia mediante a concretude existencial do sujeito experenciando a vivência no mundo. Desenvolveu a compreensão para além da linguística muito provavelmente por ser poliglota e prezar as relações intersubjetivas. De maneira filosófica Martin Buber (2001) confere à linguagem o ultrapassar a palavra nas relações durante o diálogo, ao desenvolver com profundidade reflexiva a relação ontológica eu-tu. Relação essa em que a palavra se apresenta como diálogo, no entanto, a dialogicidade não está no eu e nem no tu, está na inter-relação, justamenteentre o eu e tu. Esta compreensão que Buber nos deixou de que o principal no diálogo é relação e essa contribuição de se prezar o que vem do outro, seu dizer, e estar preparado para contemplar, receber e devolver e se completar com as palavras do outro é um exercício de alteridade.

Alguns anos depois do nascimento de Buber nasce em 1895, no Império Russo, Mikhail Mikhailovitch Bakhtin, filósofo estudioso da cultura e da linguagem humana, em seus estudos tinha como alvo o sujeito dialógico na literatura, porém transcende à linguagem, passa a analisar o que está além do que foi expressado. A análise que Bakhtin escrevia foi denominada de translinguística pelo caráter da investigação do contexto no qual se dava o diálogo e nesse sentido, sua percepção pode revelar palavras proferidas conforme as ideologias dos interlocutores. Assim, seus estudos se estenderam ao campo do dialogismo, em reuniões conhecidas pelo nome de “Círculo de Bakhtin” nas quais os participantes filósofos, teóricos amigos, faziam leituras e debates acerca de obras literárias como as de Dostoievski e de Rabelais, entre outras questões ideológicas da época. Estes debates eram fonte de pesquisa dialógica interacional; Bakhtin nos deixou em 1975.

O educador, professor Paulo Reglus Neves Freire, nasceu no Brasil, em 1921, vivenciou aos 8 anos a crise de 1929, internalizou esta vivência que o marcou profundamente, subjetivada como experiência o tornou sensível às questões humanas. Preocupou-se com aqueles que ninguém se preocupava, as classes mais baixas e foi nesse momento que pode exercitar a alteridade, ao incluir em sua vida uma forma de ajuda humanitária. Paulo Freire acreditava que se os adultos sem escolarização aprendessem a ler e escrever poderiam sair da linha de pobreza. Foi quando juntou um grupo de pessoas no sertão para ensinar a língua portuguesa, a partir dessa experiência desenvolveu um método de alfabetização baseado na realidade do aluno. Premiado e reconhecido mundialmente, Freire é o patrono da educação brasileira. Paulo Freire precisou se desprender dos padrões e do estereótipo social e olhar o outro como seu semelhante, e foi o que ele fez ao estender a mão, o sorriso, e brotar a esperança nos necessitados de um olhar diferenciado. Paulo Freire se eternizou em 1997.

A partir da apresentação desses autores, queremos situar a nossa questão: Como provocar o sujeito a educar-se para a alteridade em contexto neoliberal no qual esse sujeito está subjetivado à competição e ao empresariamento de si?

A subjetivação humana

Nós achamos que tomamos conta de nossos sentimentos mais íntimos, mas ao pensar nisso entramos em uma área denominada subjetividade, a subjetividade carrega nossa personalidade, nossa memória afetiva internalizada, boa ou má, está guardada com as emoções experenciadas desde a mais tenra idade, nela contém a força da estrutura, e da cultura familiar, assim como nossas relações intersubjetivas de todas as ordens. Rose (1988, p.1) nos lembra que “Pode parecer que pensamentos,sentimentos e ações constituem o próprio tecido e constituição do mais íntimo eu, mas elessão socialmente organizados e administrados nos mínimos detalhes”. Somos subjetivados e administrados de forma a sermos classificados por conta de nossa subjetividade: quanto às capacidadescom estratégias de regulação, quanto competências na administração das subjetividades e quanto a ser especialista a favor de um bem-estar social.

Os três pontos abordados aparecem na aliança educação, saúde e assistência social e nítidos em relação à ocorrência, conforme assevera Nikolas Rose, sobre asmanifestações mais óbvias têm sido o complexo dirigido à criança:

o sistema de bem-estar infantil, a escola, o sistema jurídico juvenil e a educação e vigilância dos pais. Mas a regulação das capacidades subjetivas tem-se infiltrado de forma ampla e profunda em nossa existência social. Quando ministros, altos funcionários e relatórios oficiais se preocupam com a eficiência militar e pensam em ajustar o homem ao posto de trabalho, quando constroem a produtividade industrial em termos da motivação e satisfações do trabalhador, ou quando definem como um problema o crescimento do divórcio, formulando-o em termos das tensões psicológicas do casamento, significa que a "alma" do cidadão entrou de forma direta no discurso político e na prática do governo (ROSE, 1988, p. 2).

As relações neoliberalistas de saúde, trabalho e educação afetam aalma, a subjetividade e, não se pode externar tais sentimentos da alma, a regulação conferida pelos especialistas é que, se o sujeito está sentindo, seja alegria ou tristeza, é sinal de desestabilizador emocional, assim é preciso indicar - e aqui entra o expertise - medicamentos controlados para normalizar e controlar seu o comportamento do sujeito, não importando a idade.

A subjetivação como um meio de governar uma nação ,– governo no sentido de ação calculada, – uma nação, se utiliza da subjetividade e intersubjetividade de sua população, para fazer o perfil dos sujeitos para identificação de natureza pessoal e familiar, de características de nível instrucional, de poder aquisitivo, de doenças genéticas e hereditária, entre outros assuntos pertinentes às esferas da educação, saúde e assistência social. Esclarecemos que este assunto é bem mais extenso, mas neste excerto queremos problematizar a subjetivação do neoliberalismo nos sujeitos, para podermos adentrar na nossa causa, a alteridade.

A partir dos dados estatísticos (OCDE, 2018) adquiridos com a pesquisa, a população se torna números e, estratégias surgem para fazer girar a máquina do capitalismo sobre os números. Enfatizamos que é mais fácil agir sobre números que sobre seres humanos. No entanto, tais estratégias causam a dependência do sujeito que acaba por esquecer de sua humanidade em prol de uma falsa liberdade lucrativa, apresentada como uma forma de cada sujeito conduzir a sua vida. Os números brasileiros (OCDE, 2018), nesse sentido, não devem ser muito bons, visto o que a nós é destinado internacionalmente, como a comparação do intelectual dos nossos alunos da escolarização pública brasileira com a de países muito diferentes do Brasil, como a Finlândia, nos índices das provas de desempenho da educação mundial.

Em se tratando de números, subjetivações e educação, podemos perceber o papel da escolarização pública brasileira, o papel da educação, a modesta pedagogia para a professoralidade docente, direcionadas à um nível de baixos números. Tem-se exceções sim, mas esses sujeitos que fogem aos números e estragam os gráficos, são achatados em seus conhecimentos, pois o sistema os nivela por baixo para entrar no molde e no formato da subjetivação esperada. Para esses que persistente existem programas internacionais ligados ao empresariamento de si que premiam o sujeito por iniciativas individuais, mas que ao voltar a si, percebem a descontinuidade de importância desses méritos, desmotivando-os.

A subjetivação desses sujeitos se torna clara de acordo com o modo de agir, de se portar, de viver, de condução de mesmos.Considerar que o sujeito é subjetivado por uma racionalidade eque ele demonstra isso em sua forma de conduzir sua vida, é então, um modo de dizer que ele demonstra essa subjetivação também pela linguagem carregada de ideologia (BAKHTIN, 1997b). O ser humano se constitui sujeito na linguagem e por meio da linguagem (porque só a linguagem) fundamenta sua consciência de se fazer humano. Sobre a conduta do sujeito Buber (2001) cita que no EU-TU, existe a reciprocidade e no EU o princípio de tudo, enquanto no EU-ISSO não há total reciprocidade na relação entre os sujeitos. Caracteriza o modo de existir no mundo, e em nossa percepção, esse existir do EU é interno e elaborado a partir das vivências transformadas em experiências quecompõe a subjetividade do sujeito.

O EU-ISSO (BUBER, 2001) está para o sujeito como modo de existência objetivante, reside antes do ENTRE, na relação dia-lógica-pessoal com a consciência de si,porém a consciência de si mesmo, para Bakhtin (1997b) acontece mediante a presença do outro. A compreensão de que Buber (2001) ao se referir ao EU-ISSO, e ISSO como objetivante do eu, nos remete ao entendimento do problema da subjetivação advinda do neoliberalismo, e de todo o mal que a individuação traz para o EU. O mal, do ISSO (BUBER, 2001), pode ser a falta da alteridade, da sensibilidade, do amor. Paulo Freire cita que “não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens” (FREIRE, 1987, p.44). Esse profundo amor é a manifestação da alteridade.

Para a alteridade na educação, a existência do sugere um diálogo em que cada locutor respeita o outro e apareça como sujeito, na relação EU-TU de Buber (2001). Na relação EU-TU, o hífen, significa o ENTRE, interação, é o local das palavras. Os sujeitos em interação verbal empreendem um processo ativo e responsivo em torno do diálogo, no entanto, os sujeitos são passíveis de discordâncias e podem, também, apresentar dificuldades em relacionamentos estabelecidos em grupos de aprendizagens.A dialogicidade para Paulo Freire (1987) está na ação-reflexão “o diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu” (FREIRE, 1987, p.45).

Os autores Bakhtin (1997a,b), Buber (2001) e Freire (1987, 2002, 2013) consideram que a interação dialógica entre os sujeitos é um fator de reconhecimento do outro, de consciência de si pelo outro, de aprendizagem e de experiência, de amor, de alteridade. O sujeito, para Bakhtin (1997a), é aquele “enunciador ou interlocutor” assim como para Buber (2001) é EU-TU e para Freire (1987) sujeito cognoscente, ativamente compreensivo na atividade dialógica do processo de comunicação, em que a resposta que vem do outro, opera como algo novo. Para Dardot e Laval (2016) o sujeito neoliberal é o homem-competitivo, reportado à racionalidade neoliberal. Trata-se agora

de governar um ser cuja subjetividade deve estar inteiramente envolvida na atividade que se exige que ele cumpra. Para isso, deve-se reconhecer nele a parte irredutível do desejo que o constitui. As grandes proclamações a respeito da importância do “fator humano” [...] devem ser lidas à luz de um novo tipo de poder, [...] trata-se de ver nele o sujeito ativo que deve participar inteiramente, engajar-se plenamente, entregar-se por completo a sua vida profissional. O sujeito unitário é o sujeito do envolvimento total de si mesmo (DARDOT e LAVAL, 2016, p.327).

Nesse sentido, o sujeito unitário não percebe a subjetivação como algo negativo no começo de carreira profissional, porém ao longo do tempo, vai percebendo o esvaziar de sua humanidade. O fato de individualizar o sujeito em sujeito-empresa, e assim, um sujeito EU-ISSO só em ISSO (BUBER, 2001), cria um distanciamento de si, um mal para o sujeito, o sujeito-egoísta, é incapaz de relações de alteridade, segundo Paulo Freire “não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade” (FREIRE, 1987, p. 46) para ele “a pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante” (FREIRE, 1987, p. 46) como ocorre nas práticas neoliberalistas.

Nesse momento fazemos uma reflexão sobre a educação e o sujeito, Como entender esse sujeito unitário? Como foi a sua educação?, trazemos ao diálogo Hannah Arendt[3], lembramos que são épocas distintas entre os fatos e sujeitos, mas não podemos negar a relevância dessa menção. O sujeito Eichmann acusado de crimes contra a humanidade e crimes de guerra em todo regime nazista durante o período da Segunda Guerra Mundial, ao ouvir cada acusação se declarava “inocente, no sentido da acusação” (ARENDT, 1999, p.18). Essas palavras causavam indignação na plateia, nos jornalistas presentes e a todos que acompanhavam pelo rádio e pela televisão. Mas Arendt, também presente, no entanto, calada. O sujeito respondia como se fosse algo aquém dele, não tinha compreensão da dimensão de seus atos, como por exemplo, o fato de ele ser o responsável por lotar ao máximo cada vagão de trem para encaminhar aquelas pessoas aos fornos dos campos de concentração. O não ter compreensão, no caso de Eichmann, não quer dizer que possuía algum tipo de demência ou deficiência, e sim a falta do humano, da alteridade. Quando questionado, respondia que estava fazendo o que lhe foi mandado, e ele como cumpridor de seus deveres, o fez com a intenção de ser reconhecido para uma promoção, um novo cargo. Em momento algum de seu trabalho pensou nas pessoas naquele trem, em seus gritos, em suas lamentações. Não eram seus parentes ou amigos, eram pessoas, ele era incapaz de sentir algo por elas, mas Arendt (1999) concluiu que Eichmann era incapaz de pensar.

Com o pensamento voltado a nossa questão e após a passagem pelo relato de Hannah Arendt (1999), nos lembramosdo sujeito neoliberal em Dardot e Laval (2016) como sendo, o sujeito que cumpre o que se exige dele. Logo, como provocar o sujeito a educar-se para a alteridade no processo subjetivação?

PENÚLTIMAS PALAVRAS

A problematização trazida para esta discussão nos leva à compreensão de que existem aspectos urgentes no âmbito da educação:no momento em que despertamos para a alteridade, nos lembramos a todo momento dela, em vivências de educação do dia a dia como: no trânsito, no supermercado, no trabalho, na escola/universidade, nos encontros sociais, religiosos e políticos, com os próximos e com os estranhos, basta fazer valer de seus princípios. Pensar em questões sociais como: na saúde e na doença, no amor e no ódio, nos ajuda a internalizar caminhos para se chegar à compreensão da alteridade. Se nós professoresao abordarmosos conhecimentos políticos, históricos e sociais com sensibilidade, durante a escolarização ou mesmo a graduação, se deixarmos o sujeito proferir palavras em diálogo, mas ajudarmos na palavra, na interação com os pares, com respeito em relações intersubjetivas de aceitação; se ajudarmos esse sujeito a pensar, mas não de qualquer jeito, pensar sentindo o passado, analisar as questões do presente de forma sensível e asseverar objetivos para o futuro da humanidade.; se as questões-problema das atualidades, sejam elas, dos alunos, da comunidade, brasileiras ou mundiais, forem discutidas por diferentes vieses, e que um deles seja pela sensibilidade humana em com-sentir a dor do outro; e se ao projetar a visão ao futuro possam imaginar uma sociedade na qual a palavra tenha em sua expressão a certeza de que afeta o outro e, que estas mesmas palavras sejam proferidas derivadas de reflexões e carregadas de sensibilidades, assim, os professores estarão ensinando (e aprendendo) a alteridade com e aos alunos. Paraa alteridade fazer parte da subjetividade dos sujeitos, faz-se necessário refletir, valorizar o pensar com sensibilidade nos processos educativos para desviar a subjetivação do empresariamento de si, do egoísmo e nos remetermos à outras formas de subjetivação mais altruístas, sensíveis e interacionais. Hoje em dia é desafiador pensar à educação brasileira, mas seguimos na premissa de que a alteridade é o caminho para uma possível transformação social.

Material suplementar
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. 14 ed. São Paulo: Companhia das letras, 1999.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997a.
________. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do Método Sociológico na Ciência da Linguagem. 8 ed. São Paulo: Hucitec, 1997b.
BUBER, Martin. Eu e Tu. 10 ed. São Paulo: Centauro, 2001.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2016.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
______.Educação como prática da liberdade.Rio de Janeiro: Paz e Terra,2002.
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[1]Mestranda em Educação (UNOESC), Especialização Linguagens e Educação a Distância (UFSC), Especialização em Psicopedagogia (FSP), Graduação em Educação Especial (UNC), Graduação Pedagogia (FAPI), Professora da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-3435-4283. E-mail: deysimck@gmail.com.
[2] Professora de Metodologia de francês (MEN-UFSC). Doutora em Linguística (UFSC). Pesquisadora convidada da Université de Montréal (UDEM). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-9508-6059. E-mail: foliesara@gmail.com
[3]Em referência ao seu livro “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal” escrito por ela em 1962, publicado em 1963.
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