Dossiê

A seção de plantas medicinais na Exposição Agrícola e Industrial de Goiás (1866)

The section of medicinal plants at the Agricultural and Industrial Exhibition of Goiás (1866)

La sección de plantas medicinales en la Exposición Agrícola e Industrial de Goiás (1866)

Mário Roberto Ferraro
Universidade Estadual de Goiás, Brazil

A seção de plantas medicinais na Exposição Agrícola e Industrial de Goiás (1866)

Revista História : Debates e Tendências (Online), vol. 21, núm. 1, pp. 59-78, 2021

Universidade de Passo Fundo, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História

Recepção: 20 Agosto 2020

Aprovação: 10 Outubro 2020

Publicado: 01 Janeiro 2021

Resumo: O objetivo deste artigo é fazer uma listagem as plantas medicinais plantadas ou consumidas em Goiás e exibidas na Exposição Agrícola e Industrial da província de Goiás realizada em 1866 e mostrar suas indicações terapêuticas. No evento, foram apresentadas 68 espécies diferentes de plantas provenientes de diversas regiões da província, mas nehuma delas era cultivada e comercializada em escala comercial, exceto da mamona (Rícino communis), mas não foram exibidos preparados farmacêuticos. Boticários, médicos e naturalistas não participaram da organização da exposição e nem da elaboração do catálogo. Assim, cabe perguntar: quais as fontes do saber médico que inspiraram a elaboração do catálogo? Várias matérias médicas foram consultadas e não foi possível identificar em qual delas os autores se inspiraram. Concluiu-se que, possivelmente, o uso dessas plantas era baseado em saberes tradicionais dos povos indígenas, dos padres e dos primeiros colonos europeus da região.

Palavras-chaves: Plantas medicinais, Goiás, Século XIX.

Abstract: The purpose of this article is to list the medicinal plants planted or commercialized in Goiás and exposed at the Agricultural and Industrial Exhibition of the province of Goiás, held in 1866, and to show their therapeutic indications. At the evento, 68 different species of plants from different regions of the province were presented. There were no large-scale crops and there was no trade in these vegetables, except castor bean (Ricino communis), but no pharmaceutical preparations were shown. Apothecaries, doctors and naturalists did not participate in the organization of the exhibition or in the elaboration of the catalog. What are the sources of medical knowledge that inspired the creation of the catalog? Several medical materials were consulted and it was not possible to identify which one the authors were inspired by. It was concluded that the use of these plants was based on traditional knowledge of the indigenous people, priests and the first European settlers in the region.

Keywords: medicinal plants, Goiás, 19th century.

Resumen: El propósito de este artículo es enumerar las plantas medicinales sembradas o consumidas en Goiás y expuestas en la Exposición Agrícola e Industrial de la provincia de Goiás celebrada en 1866 y mostrar sus indicaciones terapéuticas. En el evento se presentaron 68 especies diferentes de plantas de diferentes regiones de la provincia, pero ninguna de ellas fue cultivada y comercializada a escala comercial, excepto el ricino (Rícino communis), pero no se exhibieron preparados farmacéuticos.Boticarios, médicos y naturalistas no participaron en la organización de la exposición ni en la creación del catálogo ¿Cuáles fueron las fuentes de conocimiento médico que inspiraron la creación del catálogo? Se consultaron varios artículos médicos y no fue posible identificar en cuál se inspiraron los autores. Se concluyó que posiblemente el uso de estas plantas se basara en el conocimiento tradicional de los pueblos indígenas, los sacerdotes y los primeros colonos europeos en la región.

Palabras clave: plantas medicinales, Goiás, Siglo XIX.

O governo imperial, em 1866, determinou a realização da segunda grande exposição agrícola e industrial nacional no Rio de Janeiro. Para tanto criou no mesmo ano a Comissão Nacional Expositora, que tinha como finalidade organizar a Exposição e emitir instruções para que as províncias organizassem suas exposições regionais, as quais deveriam preceder à nacional. A meta era selecionar produtos a serem expostos na Exposição Universal de Paris “dando uma ideia aproximada de sua imensa riqueza natural, e força produtiva” (BRASIL, 1867, p. 3) As exposições ao longo século XIX eram vitrines para produtos industriais, agrícolas e matérias primas e para o culto ao progresso. No caso brasileiro, o governo imperial tinha também por objetivo atrair imigrantes: “Para que o Brasil seja uma das maiores nações do mundo não precisa senão de população, e para atraí-la, basta ser conhecido” (BRASIL, 1867, p. 3).

Na seção referente às plantas medicinais, a Comissão Nacional Expositora solicitava à província de Goiás que fossem enviados à capital imperial “tamarindos de S. Félix (poupa e frutos), amarelo (sic) leite, ipecacuanha, japecangas salsaparrilha quina, pau terra, caroba, malvas, guaximas, ruibarbo, senne, maná, maririçó e outras” (COMISSÃO..., 1866b, p. 1). Não se pode esquecer que não havia indústria farmacêutica na época e que a maioria dos medicamentos provinha dos reinos vegetal, animal e mineral, e que muitos deles tinham valor comercial, como a ipecacuanha, a salsaparrilha e a quina. Boa parte desses medicamentos, atualmente, ainda é vendida como fitoterápicos e alguns são manufaturados e comercializados em escala industrial, como por exemplo, a salsaparrilha, a quina, a mamona e outros.

A exposição foi organizada por uma comissão local nomeada pelo presidente da província, composta pelo Sr. André Augusto de Pádua Fleury, Dr. Evaristo d’Araújo Cintra, Bento José Martins de Menezes e pelos majores Dr. João Luiz d’Araújo Oliveira Lobo2 e Antônio Pereira de Abreu3. Essa comissão se pautou nas instruções provenientes da corte imperial. Ocorreu em cinco de agosto de 1866, numa tarde de domingo, “comparecendo o Exmº Presidente da Província e grande número de pessoas das principais jerarquias desta capital, entre as quais contavam-se algumas famílias” (EXPOSIÇÃO..., 1866, p. 1). Discursos foram proferidos pelo presidente da província e pelo presidente da comissão provincial. O evento foi avaliado positivamente pelo redator do jornal que, com entusiasmo, escreveu “quer nos reinos vegetal, animal e mineral, como na indústria manufatora, coisas dignas de toda apreciação foram oferecidas às vistas do público” (EXPOSIÇÃO..., 1866, p. 1). O papel civilizatório e o progresso foram enaltecidos, pois ele dizia que “ao Brasil está [va] reservado um brilhante e magnifico futuro, pois nenhuma outra parte do globo reúne tantos elementos de grandeza e prosperidade” (EXPOSIÇÃO..., 1866, p. 1), que o progresso da nação se faria atraindo seus filhos “às ciências e às artes” (EXPOSIÇÃO..., 1866, p. 1). A defesa da ciência estava a ser feita numa província que ainda não dispunha de nenhuma instituição científica. Esse discurso a favor do progresso e da civilização mostrava Goiás alinhado com o império. Todavia, Goiás não participou da exposição nacional porque seus produtos não chegaram a tempo (RAMOS, 1867, p. 30).

Nas edições seguintes, o jornal Correio Oficcial publicou em partes o “Catálogo dos objetos que figurarão na exposição realizada nessa província4”, sendo que esta era a fonte de informação mais segura do estado da arte da agricultura naquele período, descontando possíveis exageros que o ufanismo e a política produzem. A organização e a impressão de um catálogo da exposição era uma exigência do governo imperial, que definia as características que esse catálogo deveria ter (COMISSÃO..., 1866a, p. 1)

Os produtos químicos e farmacêuticos compunham a segunda classe ou categoria, que surpreendeu pela quantidade de produtos expostos, que foram em número de 69, dos quais somente um pertencia ao reino mineral (o nitrato de potassa5) e apenas um, o óleo de mamona, era objeto de comércio. Em seguida veremos quais eram essas plantas medicinais e seus usos indicados explicitados no catálogo e confrontados com as matérias médicas que circulavam na época.

As plantas medicinais

As plantas medicinais apresentadas ao público foram: pinhão paraguaio, (Jatropha curcas L); jalapão ou amaro leite (Jatropha lacert); velame branco (Macrosiphonia velame, St. - Hil.); poaia branca (Viola Ipecacuanha. L); poaia cabeluda (Richardsonia pilosa); mamona (Ricinus communis); sete sangrias (Cuphea carthagenensis); ruibarbo do mato ou maririçó (Sisyrinchium bermudiana Riedel); quina do campo (Strychnos pseudoquina); capeva branca (Piper umbellatum L); carobinha6 (Jacaranda decurrens); carobão (Jacaranda rufa); lixa miúda ou simbaíba (Davilla rugosa); tamarindo do campo (provavelmente Dimorphandra mollis); tamarindos de vagens grandes e pequenas (Tamarindos indica); douradinha (Waltheria douradinha); raiz de tiú (Jatropha elliptica, Polh); açafrão7 (Curcuma longa, L.); congonha ou mate (Ilex paraguariensis); erva tostão (Boerhavia diffusa); pau pereira (Platycyamus regnellii); vassourinha (Sida carpinifolia ); barbasco (Buddleja brasiliensis); bonina (Mirabilis jalapa); pé de perdiz (Croton antisyphiliticus); fava medicinal (Faba vulgaris Monch); guiné, (Petiveria alliacea L); quássia amara (Quassia amara L.); diversas salsasparrilhas (Smilax ssp); crista de galo (Heliotropium indicum L.); azeda (Hibiscus sabdariffa); erva curraleira (Croton antisyphiliticum Martius); bolsa de pastor (Capsella bursa-pastoris); centáuria (Callopisma perfoliatun); pau santo (Kielmeyera coriácea); betônica (Snuliys officinalis); chapada de cônego (não identificada); calumba (Atrorrhiza palmata, Lam.); alecrim do campo (Lantana microphilla); favas de sucupira (Sebipira major Martius); coração de jesus (Caladium bicolor); casadinha (Marsypianthes chamaedrys); cordão de frade (Leonotis nepetaefolia); arnica do monte (Lychnophora ericoides Mart); marmelinho (Tournefortia paniculata Cham); catinga de urubu (Tanacetum vulgare); gervão (Verbena cayennensis Rich.); carapiá (Dorstenia cayapia); araçá do mato (Psidium cattleianum); Pimenta de macaco (Xylopia aromática); simbaíba (Curatella americana); maná (Myrcia tomentosa); as favas e a resina de jatobá8 (Hymenaea corbaril) foram expostas em quatro estandes diferentes; folhas e frutos de pau santo (Bulnesia sarmientoi); gengibre (Zingiber officinalis); sassafrás (Ocotea odorífera); olhos de pombo (Abrus precatorius); raiz de toucaneiro (Citharexylum yrianthum); resina de bálsamo (Myroxylon peruiferum.

Muitas das plantas apresentadas no catálogo são acompanhadas de nome científico, com indicação de algumas de suas propriedades terapêuticas, o que não causa surpresa, pois havia médicos9 e boticários atuando na província e o Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, na capital goiana, gozava de grande prestígio. Analisar as classificações taxinômicas do catálogo foge ao escopo dessa pesquisa, mas pode-se constatar que há imprecisões, como a mamona (Ricinus comunnis) que é classificada como palma christe, que é um sinônimo pelo qual ela também é conhecida

As orientações no Catálogo da exposição mostra que, em Goiás, o consumo dessas ervas era quase que exclusivamente na forma de chás e não como componentes de preparados farmacêuticos com formulações mais complexas, o que pode indicar que as boticas eram poucas e nem sempre acessíveis10. Essa pesquisa não encontrou informações seguras sobre o preparo de produtos farmacêuticos manipulados em maior escala, exceto sobre o sulfato de quinina. Em 1867, o governo provincial emitiu uma ordem de pagamento de “23$120 reis [em] importância de pílulas de sulfato de quinina fornecidas pela botica do hospital de caridade para o destacamento do depósito dos Bahús” (GOIÁS, 1867d, p. 2), sendo que este era uma base militar que servia de apoio para o deslocamento de tropas para o Paraguai na época da guerra.

Ao cotejar a pequena lista das catorze plantas medicinais sugeridas inicialmente pela Comissão Imperial para fazer parte da exposição, com a imensa listagem depois apresentada no catálogo, constata-se que a quantidade de plantas mostrada na exposição superou em muito as expectativas iniciais. Foram exibidas 68 plantas diferentes e elas eram provenientes de quase todas as comarcas da província, embora muitas delas não fossem nativas11.

Quais dessas plantas medicinais eram cultivadas em hortas e quintais? Saint-Hilaire, cerca de cinquenta anos antes, observara que era “justo espantar-se com o fato de que, com exceção de algumas raízes, os habitantes do Brasil meridional não cultivem plantas hortaliças que pertencem realmente a seu país” (SAINT-HILAIRE, 2009, p. 63). Com efeito, causa assombro o fato de no Catálogo haver poucas menções às plantas medicinais cultivadas. Os produtos expostos, em sua maioria, eram frutos do extrativismo e geralmente eram abundantes, mesmo os exóticos, como a mamona e o tamarindo, por exemplo, que passaram a crescer espontaneamente junto aos caminhos e em solo degradado por sucessivas queimadas e abandonados em pousio. Os pés de tamarindo, que não eram plantados nos quintais e nas praças, mas nos pastos, onde serviam de sombra para o gado, nasciam espontaneamente e eram preservados devido à sua utilidade. A goiabeira brava, na verdade um araçá, também estava presente nos quintais12. A bonina é uma planta exótica cultivada nos jardins e quintais, considerada ornamental devido a sua grande beleza. O açafrão (Curcuma longa) era, provavelmente, plantado e, além de ser medicinal, tinha, e ainda tem, largo uso como condimento na culinária goiana. Deveria ser consumido in natura, pois é uma raiz que se conserva por bastante tempo, ou em pó, depois de processado em manufaturas domésticas. Ele também era usado também na tinturaria.

É provável que os boticários mantivessem jardins de plantas medicinais para tê-las em mãos para facilitar a manipulação de seus medicamentos. Também nas casas, mesmo nas mais humildes, devia haver uma ou outra planta medicinal. Aliás, a manutenção de uma botica doméstica, seja no formato de preparados ou de plantas vivas, era uma recomendação do manual de Chernoviz de Chernoviz, inclusive para facilitar o trabalho do médico em suas visitas às fazendas. O cultivo de plantas medicinais indica um comércio de medicamentos pouco evoluído.

No que se refere à produção para o mercado, muitas dessas plantas medicinais deviam fazer parte das formulações fitoterápicas dos boticários e também das tradições populares - as chamadas garrafadas - transmitidas de forma oral de geração em geração. Mas, explicitamente, são mencionadas apenas duas plantas que serviam de matéria prima: a mamona e a quina do campo.

As sementes da mamona, na Província, eram vendidas “em alqueires e suas subdivisões [e] o óleo que dela se extrai [vendia-se] de quatrocentos a quinhentos réis a garrafa” (GOIÁS, 1867a, p. 3), ou seja, seu consumo não era exclusivamente para uso medicinal, mas sim era como combustível nas lamparinas, o que era comum na época.

A quina do campo, por sua vez, era de largo uso em todo mundo ocidental contra as febres, e na província de Goiás, afirmava o catálogo, “antigamente foi objeto de comércio ativo, que cessou porque começaram a falsificá-la” (GOIÁS, 1867a, p. 4), ou seja, em outras épocas a quina do campo era extraída e vendida mas seu comércio estava decadente por conta das falsificações, que comprometia a qualidade do produto.

No catálogo, portanto há apenas menção ao comércio de sementes de mamona e indícios de vendas de quina do campo em um passado remoto.

Entretanto, há sinais de produção de medicamentos na botica do Hospital São Pedro, pois esta enviava aos presídios, como eram chamados os quartéis na época, frascos com medicamentos por ela produzidos. Todavia, não se tem registro de quais remédios eram remetidos. Em 1871, o diretor do Presídio de Jurupessém expediu à botica do hospital de caridade frascos para o acondicionamento dos medicamentos, “exigindo do mesmo boticário [a devolução] dos vidros que não forem ocupados” (GOIÁS, 1871, p. 2), ou seja, o quartel enviou ao hospital um montante de frascos vazios para retornarem cheios, mas precisou da intervenção do governador para aqueles que não foram utilizados. O envio de medicamentos da botica do hospital para os quartéis devia ser uma prática regular.

Na imprensa, eram raros e esparsos os anúncios de medicamentos e não eram as boticas que os anunciavam, mas sim os armazéns de secos e molhados13. De acordo com Fernandes (2004, p. 30), havia leis que tentavam coibir essa prática desde o século XVIII, mas que não eram cumpridas. Em 1866, a loja de J. F. A. Amorim anunciava “três medicamentos, já aprovados em alguns pontos do Império” (AMORIM, 1866, p. 4), ou seja, o referido estabelecimento vendia medicamento importado da capital imperial ou de outras províncias. Outro anúncio, em 1867, oferecia “bálsamos homogêneos; pastilhas para crianças; pílulas depurativas” (SÁ, 1867, p. 4). Em 1874, o armazém de secos e molhados de J. J. C. de Moraes vendia “sulfato de quinino verdadeiro e muitas outras drogas” (MORAES, 1874, p. 4). Entende-se que esse preparado devia ser feito com a Chincona oficcinalis, pois a quina do campo (Strychnos pseudoquina) não tem quinina. Todavia, esta podia ser também uma estratégia de marketing do lojista para desqualificar os produtos similares dos concorrentes.

A pergunta que se coloca é: qual é a matéria médica ou o manual de plantas medicinais que serviu de orientação à confecção do Catálogo da exposição goiana de 1866?

Primeiramente, foi aventado que os organizadores da seção química e farmacêutica da exposição se pautavam pelo Dicionário de Chernoviz, cuja primeira edição é de 1842, por ser este um manual bastante difundido por sucessivas edições e que desfrutava de grande popularidade e prestigio na segunda metade do século XIX.

Guimarães constatou o uso do Chernoviz em Goiás, no século XIX

Cora Coralina [...] se remete ao manual como uma enciclopédia, na qual o que está escrito possui valor de verdade. Num conto também recheado de humor, “O Lampião da Rua do Fogo”, a caminho do cemitério, o caixão cai com o corpo de Seu Maia. O morto se levanta e seu Foggia14 diagnostica um ataque de catalepsia. Assim, “os letrados”, com medo de serem enterrados vivos, “foram até o Chernoviz15 e o Langard16. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente” (GUIMARÃES, 2005, p. 502).

Ferraro (2016) mostrou que o boticário diplomado e proprietário do Hospital de Santa Luzia, na atual Luziânia (GO), Josef de Mello Alvares seguia os preceitos de higiene preconizados por Chernoviz na construção das edificações da Colônia Blasiana e no tratamento das águas usadas para consumo e irrigação de seu jardim, que na época era um misto de jardim ornamental, horta e pomar.

Todavia, as pesquisas revelaram não ser possível afirmar que a construção do catálogo das plantas medicinais foi inspirada no dicionário de Chernoviz, pois muitas plantas do Catálogo goiano não constam nele e algumas possuem indicações terapêuticas diferentes das indicadas pelo médico polonês, conforme se verá. Por exemplo, no verbete maririçó, Chernoviz diz que a fécula da batata de maririçó “não possui propriedades terapêuticas” (CHERNOVIZ, 1851, p. 21) e que na fórmula como era vendida nas boticas constava na sua composição “açúcar, escammonea, resina de jalapa e resina de batata, substâncias sem as quais a farinha de maririçó não produziria efeitos purgativos” (CHERNOVIZ, 1851, p. 21), ou seja, maririçó era apenas um veículo na composição da fórmula. A resina de batata é extraída da raiz da bonina, que Chernoviz indica como purgante também na forma de chá.

Entretanto, no Catálogo da exposição provincial, o maririçó é recomendado como catártico17, emético e antipsórico. Então, pode-se concluir que as indicações terapêuticas do maririçó não foram baseadas em Chernoviz, uma vez que ele contraindica essa planta como purgante. Com relação à bonina, no catálogo goiano, ela é indicada como chá para afecções do estomago (GOIÁS, 1867a, p. 4) e seu efeito purgativo não é mencionado e nem seu uso como farinha.

Pensou-se, então, no livro Plantas Usuais dos Brasileiros, de August de Saint-Hilaire, publicado na França em 1827. Foi consultada a tradução para o português que é de - pasmem! - 2009. O cotejamento foi meticuloso, pois esse autor é mencionado no Catálogo goiano, mas há poucas correspondências e elas foram anotadas nas notas de rodapé, dado a sua exiguidade, não foi necessário abrir coluna específica na tabela abaixo:

Tabela I
Quadro comparativo das indicações terapêuticas das plantas medicinais no catálogo Exposição Agrícola e Industrial de Goiás de 1866 e no Diccionario de Chernoviz
Quadro comparativo das indicações terapêuticas das plantas medicinais no catálogo Exposição Agrícola e Industrial de Goiás de 1866 e no Diccionario de Chernoviz

Saint-Hilaire foi incisivo ao falar sobre o uso de plantas medicinais no Brasil: “sente-se que a matéria médica dos brasileiros, baseada unicamente no empirismo, deve ser muito imperfeita” (SAINT-HILAIRE, 1938, p. 85). Refere-se ao fato de não haver precisão nas prescrições das plantas medicinais, pois muitas delas não curavam as moléstias que as indicações diziam curar e algumas, embora parecessem ter efeito benéfico, não ftinham sido ainda suficientemente estudadas, de modo que não havia indicações a respeito da dosagem adequada, mesmo quando a indicação era correta, pois quando inferidas em excesso, poderiam se tornar um veneno, e usadas em dose menor que recomendada, não trariam os efeitos desejados. Saint-Hilaire mostrava que o uso de determinadas plantas se devia mais ao acaso que a estudos médicos ou farmacêuticos e como exemplo mencionava uso da simbaíba na cura das feridas48. Ele aconselhava que a flora nacional fosse estudada. De fato, a opinião de Saint-Hilaire procede, pois há fortes indícios de que a utilização dessas plantas estava mais ligada ao empirismo, aos saberes dos indígenas e das populações de origem europeia e africana que viviam isoladas na colônia. De todo modo, o cientificismo e eurocentrismo do viajante europeu parecem prevalecer ao não considerar esses saberes das condições socioculturais da colônia e posteriormente do império. Os europeus que aqui viviam se adaptavam às condições existentes e aprendiam ao observar os americanos nativos nos usos que faziam das plantas medicinais, da mesma forma que plantas de outros continentes se espalhavam pelo Brasil49.

Mas, a qual matéria médica Saint-Hilaire se referia? Uma possibilidade é matéria médica “Mappa das plantas do Brazil, suas virtudes e lugares em que florescem. Estrahido de ofícios de vários Médicos e Cirurgioens”, publicada no O Patriota, em 1814.

A matéria médica de O Patriota, embora diminuta, é importante porque reúne saberes empíricos consagrados pelo uso. Portanto, apresenta uma sistematização de saberes tradicionais, feita por médicos, cirurgiões e boticários com formação científica e prática hospitalar e não é apenas obra do acaso. Embora incompleta e imperfeita, não é totalmente baseada no empirismo.

Na verdade, tentativas de sistematização dos saberes locais a respeito do uso das plantas medicinais que sempre despertaram interesse. Como exemplo, podem-se mencionar a viagem da Comissão Demarcadora de Limites e da Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira, “que trazia plantas do sertão [brasileiro] para serem domesticadas e cultivadas nos centros urbanos criados ou reformados durante a administração pombalina” (PATACA, 2016, p. 104). Ermelinda Pataca cita um horto de plantas coletadas no sertão. Diz que na vila Barcelos, capital de São José do Rio Negro,

há indicações de um horto nos fundos do quartel general onde eram cultivadas plantas coletadas no sertão e transplantadas para lá. Como centro de experimentação, esses hortos eram essenciais para a disseminação de plantas para outras regiões e para o fomento ao cultivo da agricultura de subsistência. O horto era cultivado pelo cirurgião Antônio José de Araújo Braga (PATACA, 2016, p. 104).

Ainda segundo Pataca50 (2016, p. 96), os cientistas da expedição procuravam “conhecimento acumulado pela população local sobre as propriedades, os usos e o cultivo dos vegetais”. Ou seja, cientistas já se interessavam por saberes locais havia muito tempo. Aliás, o próprio Saint-Hilaire era curioso a respeito do uso que os habitantes do país faziam das plantas medicinais.

Apesar de conhecidas de longa data, poucas plantas da matéria médica de O Patriota são mencionadas no Catálogo da exposição e há raras equivalências entre as recomendações de uso coincidentespara uma mesma planta. Um exemplo de afinidade é a utilização indicada para a caroba, que em ambas publicações e indicada contra a bouba e sífilis

No andamento da sua pesquisa também foi consultado o Diccionario de plantas medicinaes brasileiras, de 1862, de Nicolau Joaquim Moreira (1862), que seria uma possibilidade bastante plausível, pois Moreira além de ser um botânico de prestigio, era um entusiasta da exposição nacional e escrevia a respeito dela no Auxiliador da Indústria Nacional em uma série de artigos publicados em 1867, mas há poucas correspondências entre as indicações do Catálogo e do dicionário à respeito do uso das plantas medicinais. As outras possibilidades aventadas sobre pesquisas científicas de naturalistas usadas na elaboração do Catálogo foram as obras de Martius51 e Silva Manso52. Estas também foram consultadas e ficou constatado que não há alusões a elas no Catálogo.

Na verdade, havia muito de empirismo na confecção do Catálogo. Não está assinalada a autoria literária e nem há naturalistas envolvidos, de modo que não era de se esperar que houvesse uma elaboração mais cuidadosa. Parecia não haver botânicos, farmacêuticos ou boticários mais qualificados na província e não se teve a preocupação de se contratar alguém de fora. O Catálogo não explicita se houve mostra de plantas vivas ou não, nem de derivados processados, exceto o óleo de rícino. Cabe também observar que o único naturalista mencionado é August de Saint-Hilaire, embora médicos estrangeiros como Johann Baptist Emanuel Pohl, George Gardner e Hugh Algernon Weddell (REZENDE, 2017) tivessem passado por Goiás e deixado relatos importantes, embora tais registros não tenham sido publicados no Brasil.

Considerações finais

Embora, mas mesmo fazendo um esmiuçador cotejamento entre o catálogo e as diversas matérias médicas disponíveis não foi possível identificar qual matéria médica serviu de orientação para a confecção do catálogo da Exposição Agrícola e Industrial de Goiás de 1866. Nem qual era a fundamentação das práticas de cura na província

A exposição de plantas medicinais na secção de produtos químicos e farmacêuticos, bem como seu catálogo revelam as dificuldades que a província se encontrava. Mostram principalmente a escassez de botânicos, médicos e boticários que não tomaram parte na organização do evento. Os motivos não para a não participação desses profissionais não foram apresentados n a época e ausência deles ocasiona problemas, tais como, a falta de nomenclatura científica adequada na maioria das plantas expostas; em duas delas, a bolsa de pastor e a raiz de toucaneiro, não se mencionava suas indicações terapêuticas; não havia indicação de dosagem ou efeitos colaterais e também havia indicações de como cultivar essas plantas.

Não foram exibidos preparados farmacêuticos de origem vegetal, embora a botica do hospital São Pedro produzisse medicamentos que eram enviados aos quartéis distantes e o sulfato de quinina para tropas na guerra do Paraguai, e a botica do hospital, por motivo ignorado, não participou como expositora. Outros boticários também não participaram e os expositores, em sua maioria, eram padres, coletores de impostos, militares e professores. A exposição durou apenas uma tarde, o que indica que não houve negócios, ao menos nessa área. Não havia produtores expondo, sobretudo produtos de largo consumo, como açafrão e óleo de rícino, o que indica que as atividades ou eram extrativistas ou plantadas próximo às residências com poucos cuidados, ou seja, esse comércio era raro, mesmo junto às elites. Mesmo assim, um aspecto positivo foi a veiculação de um discurso em prol das ciências, do progresso. Houve também uma importante mobilização das comarcas, mesmo algumas distantes, como Natividade, para que o evento fosse representativo. A mostra revelou quais eram as plantas medicinais e os locais onde eram produzidas e coletadas, permitindo uma visão geral de toda a região nesse aspecto. E, se tomada como um todo, para além da seção de plantas medicinais, mapeou a riqueza goiana.

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Notas

2 Doutor em Ciências Matemáticas (1849) pela Escola Militar do Rio de Janeiro. Atuava como engenheiro.
3 Fundador do Jornal Alto Araguaia (1866-1873) (BARRA e FABIANO, 2011, p. 4).
4 Este catálogo foi publicado em partes entre fevereiro e maio de 1867.
5 O nitrato de potassa era usado para fazer pólvora. No século XVIII havia uma fábrica de salitre em Goiás, a Real Fábrica de Salitre de Sua Majestade, mas foi “paralisada por excessivo prejuízo” (SALLES, 1992, p. 321).
6 Trata-se da Bignonia brasiliana.
7 Na verdade, trata-se da Curcuma longa L.
8 O uso do jatobá era bastante diversificado e parece não haver entendimento entre os expositores segundo a comissão diretora, a resina éra extraída da árvore “em pedaços ou grandes massas brancas: a mesma fraturada é vítrea e brilhante de cheiro aromático bem sensível: queimada assemelha-se ao melhor incenso” (GOYAZ, 1867c, p. 3). Já para segundo o expositor, o tenente Hilário Alves do Amorim, o jatóbá era empregada em “beberagens, pinturas, substituindo a cola, e em cordas para servir de archote e etc.” (GOYAZ, 1867c, p. 4) e segundo ambos, eram usadas como peitoral
9 Segundo Magalhães (2007), eram três: Vicente Moretti Foggia, Theodoro Rodrigues de Moraes e Francisco Antônio de Azeredo. Havia também o Dr. Thomaz Cardoso d’Almeida, que atuou no Hospital Militar e deixou um artigo sobre o tratamento da varíola em parceria com o Dr. Foggia (FOGGIA E ALMEIDA, 1867, p. 3).
10 “No julgado de Pilar, norte do território, Castelnau contabilizou três boticas por volta do ano de 1843” (MAGALHÃES, 2004, p. 215).
11 A região de Jaraguá foi a que apresentou maior quantidade plantas exibidas, totalizando 34.
12 Tanto o tamarindo quanto o araçá são mostrados pelo botânico William J. Burchell nas suas ilustrações da cidade de Goiás (FERREZ, 1981).
13 Também ocorria o inverso, pois “nas boticas, costumeiramente, comerciavam gêneros mercantis diversos, como miudezas, víveres, remédios e afins” (MAGALHÃES, 2004, p. 215).
14 Vicente Moretti Foggia nasceu em Mântua, na Lombardia, e chegou a Goiás em 1831 com a intenção de tornar-se minerador, fugindo de perseguições políticas na Itália, onde era estudante de medicina. Decepcionado com a mineração “Foggia garantiu a sua sobrevivência no exercício das artes de curar, apesar de não ter concluído o curso de medicina. Em 1836, foi nomeado Boticário do Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara (...). Três anos mais tarde, (...) foi também encarregado do curativo dos doentes do hospital e dos presos da cadeia. Em 1839, foi designado, pelo Ministro do Exército, Cirurgião-Ajudante da Companhia de Montanha” (MAGALHÃES, 2007, p. 2).
15 Trata-se do médico polonês Piotr Czerniewicz, que viveu no Brasil entre 1840-1855, cujo empreendimento editorial o tornou famoso e reconhecido nos meios científicos e entre os leigos (GUIMARÃES, 2004, p. 1).
16 Refere-se a Theodoro Langgaard, autor do Dicionário de medicina doméstica e popular. Rio de Janeiro, Tipografia Laemmert, 1873.
17 "Catártico": substância que tem propriedades purgativas mais enérgicas que o laxante e menos que o drástico.
18 Infecções hemorroidais e reumáticas (MAPPA das., 1814, p. 8).
19 “Temperantes. Nome que se dá aos medicamentos que moderam os movimentos em extremo rápidos do sistema circulatório, e diminuem o calor do corpo. Os temperantes são todos de um gosto acidulo. Estes medicamentos chamam-se também refrigerantes, e empregam-se nas febres, escorbuto, icterícia, urinas de sangue, etc.” Não confundir com temperos de alimentos e nem com refrigerantes na atual acepção do termo.
20 Moreira a identifica como Solanum Cernum (1862, p. 24).
21 Purgante e cura a leucorréia (MAPPA das..., 1814, p. 10).
22 Estimulante; um poderoso urinário; purgante drástico (MAPPA das..., 1814, p. 5).
23 Opilação é o amarelão, doença da personagem Jeca Tatú, de Monteiro Lobato.
24 Aponta que seus usos são bem conhecidos (MAPPA das..., 1814, p. 11).
25 “Dá-se este nome a alimentos geralmente excitantes, que estimulam fortemente a economia, aceleram a circulação, e podem irritar o estomago se são ingeridos em mui grande quantidade” (CHERNOVIZ, 1851, p. 331).
26 Cura o vírus venéreo bobático (MAPPA das..., 1814, p. 6). Talvez fosse confundido com a sífilis ou condiloma
27 A bouba “é uma doença tropical contagiosa causada pela espiroqueta Treponema pertenue, caracterizada por lesões cutâneas seguidas de erupção granulomatosa generalizada e, por vezes, lesões destrutivas tardias da pele e dos ossos; framboesia” (MAGALHÃES, 2004, p. 37).
28 Triaga: “Massa composta de um grande número de substâncias estimulantes, adstringentes, tônicas, antiespasmódicas, e de opio. Uma oitava contém quase meio grão de extrato de ópio” (CHERNOVIZ, 1851, p. 516). Eram ao todo 71 substâncias. Existia também a triaga brasílica, com plantas brasileiras.
29 Inflamações na garganta, inclusive a difteria.
30 Cura das chagas (MAPPA das..., 1814, p. 8).
31 Saint-Hilaire a recomenda “nas afecções catarrais e no tratamento das feridas” (2009, p. 3.). Também como anti-inflamatório.
32 Cura gonorreia (MAPPA das..., 1814, p. 13).
33 De acordo com Saint-Hilaire (2009, p. 232), era usada como estimulante, febrífuga, aplicada em feridas, etc., e é recomendada para aqueles que receberam fortes contusões, razão para se acreditar em tantas virtudes do que aquelas que se atribuíam outrora na Europa à Verbena officinale.
34 Dizem ter as raízes as mesmas virtudes da quina; com as folhas curam-se chagas sórdidas e indigestas (MAPPA das..., 1814, p. 12).
35 Moléstias de pele, como impingem e herpes.
36 Sudorífica e antivenérea (MAPPA das..., 1814, p. 9).
37 Segundo Saint-Hilaire (2009, p. 145), a simbaíba era usada para lavar feridas, pois é adstringente. Essa planta podia ser confundida com a Dalila rugosa, que é a lixa miúda.
38 Os brasileiros empregam “curar inchaço das pernas e dos testículos, doença tão comum nas partes quentes e úmidas de seu país” (SAINT-HILAIRE, 2009, p. 133).
39 “Antiperiódicos são aqueles medicamentos que exercem uma ação específica contra as febres intermitentes e outras afecções que têm o caráter de voltar em certos períodos de tempo, tais como enxaquecas, nevralgias faciais e outras moléstias nervosas” (CHERNOVIZ II, 1851, p. 283).
40 É servida em decocção para preparar banhos emolientes (SAINT-HILAIRE, 2009, p. 326).
41 Saint-Hilaire (2009, p. 331) constatou que ela era usada como diurético, antissifilítico, sudorífero, emético e para curar mordidas de cobra.
42 Saint-Hilaire (2009, p. 195) diz que era muito usada para fazer cordas, protesta contra a destruição das árvores, e diz que suas casacas deveriam ser usadas como especiaria.
43 Segundo Saint-Hilaire (2009, p. 42), a Ipecacuanha é usada como emético; para promover a transpiração da pele; e é útil em catarro crônico e na coqueluche; exerce uma ação tônica sobre os órgãos digestivos e pode ser utilizada com maior sucesso na cura de disenterias.
44 Segundo Saint-Hilaire (2009, p. 54) pode ser substituta da poaia se houver necessidade.
45 De acordo com Saint-Hilaire (2009, p. 14) tem as mesmas propriedades da quina Chincona officinalis, mas estranhamente, não contém quinina. Seria a quina do campo a quina do sertão mencionada na matéria médica do O Patriota?
46 Saint-Hilaire registrou que ela era usada contra as picadas de vespas, pois age como emoliente.
47 Diurética e depurante (MAPPA das..., 1814, p. 14).
48 Todavia ele recomendava o uso da simbaíba como “a continuação de uma prática que unicamente o acaso introduziu entre eles” (SAINT- HILAIRE, 1938, p. 145). Ou seja apesar se sua descoberta se dever ao acaso, ele recomendava o uso dessa planta.
49 Segundo Fernandes “os padres mantinham boticas anexas aos colégios, atendendo aos membros das companhias jesuíticas, aos estudantes e à população do interior, utilizando medicamentos vindos da metrópole como preparados a partir de plantas nativas” (1994, p. 29).
50 De acordo com Domingos Vandelli: “Os índios, como são os mais inteligentes práticos daquele continente [América], são também os melhores mestres para nos ensinar os nomes das plantas e o seu uso, principalmente das que se pode extrair cores e das que servem nas doenças próprias daquela parte da América onde eles morarem” (VANDELLI, apud, PATACA, 2016, p. 96).
51 MARTIUS, K.F.P. Systema de materia medica vegetal brasileira.. Rio de Janeiro: Laemmert, 1854.
52 SILVA MANSO, Antônio Luís Patrício da. Enumerac̜ao das substancias Brazileiras: que podem promover a catarze. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1836.
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