Dossiê Edição Especial: Produção de Saber na África Contemporânea e na Diáspora
Intelectuais afrodiaspóricas e produção de conhecimento na América Latina e Caribe: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo-Pizarro
Aphrodiasporic intellectuals and knowledge production in Latin America and the Caribbean: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo-Pizarro
Intelectuales afrodiaspóricos y producción de conocimiento en América Latina y Caribe: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres y Yolanda Arroyo-Pizarro
Intelectuais afrodiaspóricas e produção de conhecimento na América Latina e Caribe: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo-Pizarro
Revista História : Debates e Tendências (Online), vol. 22, núm. 4, pp. 118-147, 2022
Universidade de Passo Fundo, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História
Recepção: 10 Setembro 2022
Aprovação: 31 Outubro 2022
Publicado: 30 Novembro 2022
Resumo: Este texto reflete acerca da produção de conhecimento de intelectuais afrodiaspóricas na América Latina e Caribe. Para essa discussão, reúne três vozes contemporâneas: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro. Nesse sentido, a par de suas especificidades, o trabalho destaca como essas pensadoras realizam um movimento de resistência/insurgência epistêmica aos modos de pensar/agir instituídos pelos cânones literário e historiográfico. Ao mesmo tempo, ressalta como a criatividade epistemológica de mulheres e escritoras negras brasileiras e porto-riquenhas opera a constituição de novos saberes, motivando outras maneiras de narrar o passado colonial. De tal modo, nessa criação, elas confrontam a colonialidade de poder, do saber e do ser (QUIJANO, 2000; MALDONADO-TORRES, 2016).
Palavras-chave: Escritoras afrodiaspóricas, Epistemologias negras, Intelectualidade negra feminina, Brasil, Caribe.
Abstract: This text reflects on the production of knowledge of Afro-diasporic intellectuals in Latin America and the Caribbean. For this discussion, together three contemporary voices: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres and Yolanda Arroyo Pizarro. In this sense, along with their specificities, the work highlights how these thinkers carry out a movement of epistemic resistance/insurgency to the ways of thinking/acting instituted by the literary and historiographical canons. At the same time, it highlights how the epistemological creativity of black Brazilian and Puerto Rican women and writers operates the constitution of new knowledge, motivating other ways of narrating the colonial past. In such a way, in this creation, they confront the coloniality of power, knowledge and being (QUIJANO, 2000; MALDONADO-TORRES, 2016).
Key words: Afro-diasporic female writers, black epistemologies, female black intelligentsia, Brazil, Caribbean.
Resumen: Este texto reflexiona sobre la producción de conocimiento de los intelectuales afrodiaspóricos en América Latina y el Caribe. Para esta discusión reúne a tres voces contemporáneas: Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres y Yolanda Arroyo Pizarro. En este sentido, junto con sus especificidades, el trabajo destaca cómo estas pensadoras realizan un movimiento de resistencia/insurgencia epistémica a las formas de pensar/actuar instituidas por los cánones literarios e historiográficos. Al mismo tiempo, destaca cómo la creatividad epistemológica de mujeres y escritoras negras brasileñas y puertorriqueñas opera la constitución de nuevos saberes, motivando otras formas de narrar el pasado colonial. De tal manera, en esta creación, confrontan la colonialidad del poder, el saber y el ser (QUIJANO, 2000; MALDONADO-TORRES, 2016).
Palabras clave: Escritoras afrodiaspóricas, Epistemologías negras, Mujeres intelectuales negras, Brasil, Caribe.
Produção de conhecimento de intelectuais afrodiaspóricas
[...] esse imaginário que se faz acessível a todos da mulher negra, que samba muito bem, dança, canta, cozinha, faz o sexo gostoso, cuida do corpo do outro, da casa da madame, dos filhos da madame... Mas reconhecer que as mulheres negras são intelectuais em vários campos do pensamento produzem artes em várias modalidades, o imaginário [...] pelo racismo não concebe. Para uma mulher negra ser escritora, é preciso fazer muito carnaval primeiro. [...]. (Conceição Evaristo, grifos nossos)2.
Partindo das críticas feitas pela escritora negra brasileira Conceição Evaristo (2017) acerca de um imaginário social latino-americano alimentado pelas relações de violência causadas pelo colonialismo, racismo e sexismo -, que atuaram e (ainda atuam juntos) no apagamento e na invisibilidade da produção de conhecimento afrodiaspórico, observamos como a intelectualidade de mulheres negras articula “[...] nuevas insurgencias epistêmicas”. (WALSH, 2008).
Esta abordagem evidencia a importância do trabalho intelectual de mulheres negras na América Latina e Caribe, apontando possibilidades de transformações para desmantelar estruturas de poder-saber. Segundo Catherine Walsh (2008, p. 131), são “[...] nuevas insurgencias - de transgredir, interrumpir, incidir e in-surgir [...] los patrones del poder colonial”.
A partir das trilhas abertas, de forma sucinta, o texto explora como escritoras e intelectuais afrodiaspóricas amplificam as formas de conhecer, de existir e de resistir à “colonialidade do poder, do saber e do ser”. (QUIJANO, 2000; MALDONADO-TORRES, 2016). À medida que se consolida, colaborando para designar outros imaginários e argumentos, o artigo destaca conhecimentos articulados à vivência e à experiência de mulheres negras no Brasil e em Porto Rico, que motivam lutas contemporâneas.
Em seus escritos, aglutinando questões fundamentais de raça e gênero, intelectuais afrodiaspóricas problematizam as relações de poder-saber e denunciam a continuidade das formas coloniais de dominação/exploração que afetaram grupos/povos nas Américas. Nessa linha de raciocínio, a reflexão coloca em evidência saberes epistêmicos que nos provocam a reconhecer as desigualdades e violências ainda existentes no cotidiano da população negra.
Desta forma, conjuntamente e de maneira articulada, essas vozes denunciam os processos de desumanização que estão presentes em diversos contextos globais. Citamos algumas delas: Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Emmelie Prophète, Georgina Herrera, Nancy Morejón, Lucrecia Panchano, Luz Argentina Chiriboga, Mayra Santos-Febres, Mary Grueso Romero, Miriam Alves, Shirley Campbell, Victoria Santa Cruz, Teresa Cárdenas, Yanick Lahens, Yolanda Arroyo-Pizarro, entre outras.
Conforme nos lembra Aníbal Quijano (2005, p.117), “[...] a América se constitui como o primeiro espaço/tempo de um padrão de poder de vocação mundial”. Nesse espaço/tempo, pautados pela ideia de raça, ocorreu “a codificação das diferenças entre conquistadores e conquistados”, ou seja, uma “supostamente distinta estrutura biológica” que hierarquizava uns aos outros. Por essa razão, escritoras e intelectuais afrodiaspóricas expressam as várias lutas e resistências que, em múltiplos contextos da América Latina e Caribe, provocam a necessidade de produção de contranarrativas e contradiscursos que nos coloquem distantes das formas coloniais de dominação e subjugação de corpos/mentes/saberes. Abrindo caminho a um possível novo horizonte, tensionam narrativas, conceitos, categorias, teorias e metodologias eurocentradas articuladoras de identidades e subjetividades alheias, as quais foram utilizadas para legitimar o processo de colonização e exploração.
Em diferentes países e línguas, tais como: Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Haiti, Uruguai, Venezuela, Panamá, Peru, Porto Rico, entre outros, o colonialismo e a colonialidade se propagou de diferentes formas de dominação e exploração, da exclusão e do silenciamento de povos e culturas. Conforme adverte Evaristo (2017), os colonizadores codificaram os corpos de mulheres negras e definiram os seus papeis sociais: sambar, dançar, cantar, cozinhar... mas, nunca o trabalho intelectual. E acrescentamos ao debate: historicamente “as mulheres negras são intelectuais em vários campos do pensamento produzem artes em várias modalidades”. (EVARISTO, 2017).
Por esse motivo, é necessário exercitar articulações e construções diferentes que incentivem uma mudança radical e descolonizadora do conhecimento nas imagens e discursos em circulação. Produzir um conhecimento alternativo e insurgente com perspectivas étnico-raciais oriundas de nossas vivências/experiências em comunidades, nos espaços de terreiros, nos coletivos, nas universidades e movimentos sociais, entre outros.
De acordo com Quijano (2005a, p. 107), a ideia de raça foi assumida pelos conquistadores como o principal elemento constitutivo, fundacional, das relações de dominação/hierarquização. Em outras palavras, “raça e identidade racial” foram estabelecidas como instrumentos de classificação/inferiorização nas Américas. No caso em concreto, não custa retomar: “a mulher negra samba muito bem, dança, canta, cozinha, faz o sexo gostoso, cuida do corpo do outro, da casa da madame, dos filhos da madame...”. (EVARISTO, 2017). Essa ideia de raça determinou um apagamento da mulher negra como produtora de conhecimento.
Em face das reflexões expostas, tomando o campo literário como exemplo, escritoras e afrodiaspóricas procuram desenvolver outros instrumentos teóricos e analíticos para disputar um lugar na produção de conhecimento. A partir de configurações de ser, pensar e conhecer diferentes, atentas a outras bases de pensamentos e práxis intelectual, elas introduzem formas críticas de conhecimento na luta pela descolonização epistêmica.
Da mesma forma, com o intuito de resgatar e reescrever narrativas, ultrapassam os limites entre o ficcional, o ensaístico e o documental, rasurando os estatutos da ficção e da historiografia. Com base nessa abordagem, tecendo aproximações possíveis, escolhemos dialogar com três autoras: Conceição Evaristo (Brasil), Mayra Santos-Febres (Porto Rico), Yolanda Arroyo-Pizarro (Porto Rico). Entendemos a partir de algumas leituras, a existência de outras formas de organização de conhecimento que implica em outros modos de viver, de poder e de saber operados por intelectuais afrodiaspóricas. Nesse caso, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres, Yolanda Arroyo-Pizarro reverberam experiências de luta e resistência que moldam os nossos tempos, traçando “nuevos caminhos” de insurgência negra político-epistêmica. (WALSH, 2008, p.131).
Na América Latina e Caribe notamos um movimento radical de construção de novos saberes, práticas e teorias feito por mulheres negras. Portanto, trata-se de uma produção de conhecimento de autoria afrodiaspórica que ultrapassa as relações de poder-saber - tensionando os mecanismos de controle e inferiorização do/a Outro/a, colocando em suspeição estruturas epistêmicas racistas/sexistas. A partir de novas linguagens, elas carregam consigo silenciamentos/ invisibilidades históricas, mas também urgências/emergências quanto ao reconhecimento destes sujeitos/as como produtores/as de saber.
Para tratar dessa questão, rompendo com o silenciamento imposto pelos cânones literário e historiográfico, enfatizamos que, em particular, intelectuais afrodiaspóricas atuam diretamente para reescrever as histórias de luta e os legados de resistência de mulheres africanas e negras na diáspora. Por isso, citamos algumas obras: Úrsula (1869) de Maria Firmina de Jesus (Brasil); Jonatás y Manuela (1994) de Luz Argentina Chiriboga (Uruguai); Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006) de Conceição Evaristo (Brasil); Rosalía, la infame (2003) Évelyne Troutillot (Haiti); Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves (2006/Brasil); Malambo (2001) Lucía Charún-Illescas (Peru); Echú y el viento (2006), Tatanene cimarrón (2006) e Cartas para a minha mãe (2010) de Teresa Cárdenas (Cuba); Fe en Disfraz de Mayra Santos-Febres (2009); Bará: na trilha do vento (2015) de Miriam Alves (Brasil); Afuera crece un mundo (2016) de Adelaida Fernández Ochoa (Colômbia); Água de Barrela (2016) e O crime do cais do Valongo (2018) de Eliana Alves Cruz (Brasil), las Negras de Yolanda Arroyo Pizarro (2012), entre outras.
Na montagem desse exercício crítico e reflexivo, incentivamos a emancipação, o reconhecimento da produção e a legitimação de conhecimentos de autoria afrodiaspórica. Não obstante, em perspectivas não-hegemônicas, essas vozes-escritas passam habitar um território existencial de cultivo epistêmico com sentidos e modos de expressão próprios3.
Particularmente, intelectuais afrodiaspóricas investem em um movimento de resistência ao cânone ocidental, convocando um levante crítico político/ético/epistémico capaz de transcender a forma de “paradigmas eurocêntricos hegemónicos”. (GROSFOGUEL, 2008).
Estilhando a máscara do colonialismo
A esse respeito, Grada Kilomba, em A Máscara, primeiro capítulo de Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism (2010, p. 171), traz a imagem da mulher negra escravizada Anastácia para simbolizar o processo de silenciamento histórico que pessoas negras foram/são submetidas desde o colonialismo. E acrescenta: “[...] Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos”.
Fazendo parte deste movimento, contrapondo-se a esse instrumento de dominação, intelectuais afrodiaspóricas rompem a máscara do colonialismo e da colonialidade: a máscara representa o colonialismo como um todo. Assim sendo, a máscara simboliza “políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento dos(as) chamados(as) ‘Outros(as)’: Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?. (KILOMBA, 2010, p.172).
Neste cenário específico, ressaltando a emergência dos saberes afrodiaspóricos, enfatizamos a produção de um conhecimento realizado por sujeitos/as que extrapolam os modelos hegemônicos de saber-poder, pois criam outras estratégias de interpretação para além da elaboração do norte global. Lendo a compreensão de Nilma Lino Gomes (2010), são intelectuais que buscam dar visibilidade a subjetividades, desigualdades, silenciamentos e apagamentos, experimentando o poder da fala insurgente e desafiadora. (HOOKS, 2019, p.25).
De acordo com Bárbara Christian (2002, p. 86), as intelectuais afrodiaspóricas “[...] teorizaram de forma bastante diferente do modelo ocidental de lógica abstrata”. Em suas estratégias narrativas, fazem ecoar conhecimentos invisibilizados e a emergência do pensamento negro feminino. De maneira radical, uma nova força epistêmica que orienta pensamentos, ações e práxis sempre tendo consciência de que as opressões de poder-saber não cessam. (MENESES, 2020).
Em termos de abrangência, reivindicando outros modos de narrar os fatos históricos, de maneira significativa, vozes e pensamentos críticos afetam e/ou alteram os registros da historiografia e do cânone literário latino-americano e caribenho. Ao serem insurgentes, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres, Yolanda Arroyo Pizarro carregam o poder de transformação social instalado na forma como mulheres negras pensam e percebem o mundo.
Sendo assim, num ponto de vista que privilegia impedir o soterramento de narrativas afrodiaspóricas, baseando-se em informações registradas pela história da escravidão transatlântica - produções literárias e ensaísticas de mulheres negras abrem caminhos para efetivar a reescrita do passado colonial -, o que impulsiona o surgimento e a circulação de novas autorias, gêneros e estilos.
Nessa multiplicidade de vozes e geografias, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro evidenciam que, para reconfigurar os cânones literário e historiográfico, é preciso narrar não só as brutalizações e violações de corpos e subjetividades de mulheres negras. De forma geral, elas evocam tradições, ancestralidades, espiritualidades, memórias, histórias, saberes, cosmovisões e identidades silenciadas para compor um novo repertório epistêmico. Por esse motivo, citamos algumas tramas literárias: Jonatás y Manuela (1994) de Luz Argentina Chiriboga (Uruguai); La amante de Gardel (2015) e Fe en Disfraz de Mayra Santo-Febres (2009); las Negras de Yolanda Arroyo Pizarro (2012); Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006) de Conceição Evaristo (Brasil); O crime do cais do Valongo (2018) de Eliana Alves Cruz (Brasil), entre outras.
Levando esse aspecto chave em conta, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo-Pizarro procuram ressaltar como mulheres africanas e negras foram protagonistas de seus destinos -, sujeitas ativas na história, e não apenas vítimas de um passado colonial. Mostram que, apesar das condições, as fugas, as revoltas e as estratégias de insurgência faziam parte do contexto colonial, a exemplo do romance Fe en Disfraz de Mayra Santo-Febres (2009) e da antologia de contos las Negras de Yolanda Arroyo-Pizarro (2012).
Frente a essa constatação, essas intelectuais afrodiaspóricas vocalizam insurgências negras femininas através de romances, contos, novelas, poesias e peças de teatro, além de artigos/ensaios críticos, entre outros. No tensionamento, propondo uma multiplicidade epistemológica, seus escritos ressaltam a presença da memória individual intimamente associada à memória coletiva, exaltando as heranças afrodiaspóricas deixadas por “las ancestras4.
Caminhando no sentido oposto, tanto a prosa quanto a poesia, elas recorrem a elementos estéticos mesclando estilos e gêneros literários variados (narrativo, lírico e dramático). Nas suas tramas, mobilizando um repertório epistêmico afrodiaspórico, também se destaca um diálogo produtivo entre história e ficção. Como insurgência mais ampla, por meio de depoimentos, memórias e textos ficcionais e ensaísticos, intelectuais afrodiaspóricas contemporâneas estão imbuídas do compromisso político e epistêmico operado por uma luta descolonizadora do conhecimento, o que permite resgatar vozes, textos e trajetórias esquecidas: Sojourner Truth (Estados Unidos), Maria Firmina dos Reis (Brasil), Julia de Burgos (Porto Rico), Auta de Souza (Brasil) etc.
Nesta nova conjuntura, flagramos a ação política insurgente de mulheres afrodiaspóricas que assumiram a tarefa de transformar sua realidade. Por sua vez, nesse gesto contra colonial, examinando fenômenos históricos complexos, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro arquitetam outros enunciados, concebendo ferramentas epistêmicas e teóricas assentadas em referencias afrodiaspóricos. Nesse movimento de resistência epistêmica, nos campos do poder, saber e ser ao extrapolar os limites de um território demarcado, elas “estilhaçam a máscara do silêncio”. (EVARISTO, 2017). Em uma ótica plural, escritoras negras fazem emergir as vozes e indagações, que instrumentalizam condições para o trabalho de intelectuais insurgentes.
Para cumprir tal tarefa, numa disputa ideológica, ética e cognitiva, intelectuais afrodiaspóricas se insurgem aos regimes de pensamento eurocêntrico e indagam os seus impactos na produção de conhecimento e na visão de mundo sobre os povos colonizados. Evidentemente, nas suas falas, o engajamento político e intelectual se tornam um instrumento radical e poderoso.
Conceição Evaristo: da âncora dos navios da memória afrodiaspórica
A lembrança do negreiro nos persegue. [...] apesar de uma memória em tormento velejando em nossa história... diferentes embarcações singram por nossos mares. O navio da impotência não é invenção nossa. O navio quilombola, sim. Aquele que navega nas águas da resistência (Conceição Evaristo)5.
Intelectual negra engajada, Conceição Evaristo transita entre os espaços dos movimentos sociais e o ambiente acadêmico6. Professora, poetisa, ensaísta, romancista, contista e ativista, é natural de Minas Gerais, reside no Rio de Janeiro desde 1973. Mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1996, e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, estreou na literatura em 1990, quando passou a publicar seus contos e poemas na série literáriaCadernos Negros (1978).
Tocando o mundo com as palavras, os temas ficcionais, ensaísticos e poéticos de Conceição Evaristo são diversos. Assim, escrever é uma maneira que a autora encontrou para “capturar, agarrar a fala e mantê-la por perto”. Desse modo, ela deixa escapar que, exercer o direito à voz, à autoridade, é um privilégio negado historicamente a mulheres negras. (HOOKS, 2019, p. 33). A partir disso, acredita que produzir conhecimento se torna um investimento epistemológico coletivo composto por vozes do presente e do passado.
Como consequência, Evaristo assevera que esse ato de “erguer a voz” é uma expressão de nossa transição de objeto para sujeito da escrita. (HOOKS, 2019, p. 39). Nesse sentido, fazer essa transição do silêncio à fala gesta uma produção de saberes anti-hegemônicos que podem ser inspiradores de estratégias para se transformar as realidades em que “a colonialidade do ser, do saber, do poder” se introjectam/se perpetuam.
Por conseguinte, em romances como Ponciá Vivêncio (2003) e Becos da Memória, nas antologias de contos Olhos d`água (2014) e Histórias de leves enganos e parecenças (2016), entre outros, a sua práxis intelectual de Conceição Evaristo instiga a operar mudanças epistemológicas que enfrentem o silenciamento e o apagamento de nossas falas e corpos.
Segundo este ponto de vista, Ramón Grosfoguel (2008, p.119) acredita que “perspectivas epistémicas subalternas são uma forma de conhecimento que, vindo de baixo, origina uma perspectiva crítica do conhecimento hegemónico nas relações de poder envolvidas”. Por exemplo, na escrita de Evaristo, notamos esse conhecimento epistêmico subalterno transbordar no ensaio África: âncora dos navios da nossa memória (2012).
Do seu lócus de enunciação, em âncora dos navios da nossa memória, Conceição sugere reconstruir outras narrativas, ao mesmo tempo em que investe em saberes esquecidos pela história colonial. De tal modo, a pensadora defende que podemos nos libertar do controle, das armaras, dos equívocos e das interpretações preconceituosas do eurocentrismo. Revisita o tráfico negreiro transatlântico sugerindo uma reinterpretação dos acontecimentos. Do mesmo modo, ao posicionar as mulheres negras como sujeitas/os produtoras/es de conhecimento, Evaristo (2012, p.160) aconselha a revistar os cânones literário e historiográfico embarcando “nas águas da memória, içando velas mar adentro, retomando o caminho, buscando “a história emaranhada em direção à volta”. Somado a este fator, a ensaísta acredita que a produção de conhecimento de intelectuais afrodiaspóricas deve oferecer novas possibilidades no campo analítico e teórico como uma forma de resistência epistêmica e de afirmação de nossa negritude.
De forma complementar, intelectuais afrodiaspóricas buscam compreender as formas coloniais de poder-saber e os efeitos da colonização na constituição/preservação/ produção de conhecimento: a exploração, a espoliação, a dependência, a inferiorização e a exclusão. Sob este viés, a escritora mineira defende uma produção de conhecimento afrodiaspórica que leve a cabo essa tomada de poder-saber pela palavra na forma de escrita e na reescrita dos episódios históricos silenciados pelo colonialismo e a colonialidade.
De dentro desse projeto intelectual, Evaristo enfatiza que é preciso “recordar” o processo de escravização dos africanos e africanas nas Américas. Imediatamente, em um sentido de afirmação, a escritora almeja, portanto, uma consciência intelectual que visa preencher “[...] a ficção o vácuo produzido não pelo esquecimento, mas pelo desconhecimento do evento histórico silenciado em sua profundeza”. (EVARISTO, 2012, p. 160). Com essa finalidade, Conceição Evaristo considera que, vozes negras dissonantes, no exercício de recordar o passado colonial, problematizando o eurocentrismo, a visão da história e do colonialismo, devem cultivar “as nossas molhadas lembranças, retirando o mofo do tempo”. Lembranças de um grupo que vem sendo historicamente marginalizado e excluído.
Na mesma direção, interessa desarquivar, portanto, as histórias e os legados de luta e resistência de mulheres africanas e negras. “E uma imagem há de persistir sempre. A do navio”. (EVARISTO, 2012, p. 160). No mesmo sentido, tomando como referências construções elaboradas no passado, inaugura-se uma nova dimensão da luta e resistência anti-hegemônica. No entanto, formulando uma espécie de saber crítico-epistêmico-político, Conceição Evaristo avalia que essa memória afro-atlântica resgata uma memória coletiva de povos colonizados - uma memória ancestral que se manifesta no trabalho intelectual de mulheres negras. Somado a isso, um trabalho intelectual que deve ser responsável por transformar e humanizar o/a colonizado/a arrancado de seus laços afetivos e espaciais.
É através dessa proposta epistêmica que intelectuais afrodiaspóricas desestabilizam o jogo do poder-saber colonial, pois reescrevem o período histórico que foi construído pela versão do colonizador. Nessa paisagem, Conceição Evaristo (2012, p. 160) toma os navios negreiros como “espaço de morte e ressureição” -, dos caminhos de escravatura até o reencontro da terra-mãe. Notadamente, a intelectual negra brasileira reverte à figura vitimizada da pessoa escravizada, transformando-a em personagem de uma nova narração:
[...] nesse mesmo barco gigante, onde muitos africanos (muitos e muitos) foram entregues ou tragados por Kalunga, outros, muitos e muitos também se salvaram. O mar, contudo, é também promessa. Ali se guarda a esperança, a possibilidade da volta... (EVARISTO, 2012, p. 162).
Compreende-se, então, que, trazendo à tona séculos de silenciamento, cujo eixo é o navio negreiro, a escravidão colonial aparece no centro da narrativa por meio de uma configuração que traz à tona o sequestro, a travessia e o cativeiro. Diante do cenário da escravidão, Evaristo evidencia os horrores da viagem, o aprisionamento de corpos/vozes. Mas, por outro lado, confrontando a colonialidade do saber e do poder, a sua escrita destaca a resistência negra como uma das potências/forças de nossos antepassados africanos.
Nestes termos, Evaristo busca reescrever a história da escravidão e a chegada das populações africanas ao Novo Mundo. Mais precisamente, no composto pelo entrelaçamento da história e da ficção, a autora corrobora que os nossos antepassados “souberam resistir à escravidão” colonial desde a sua captura em África. (EVARISTO, 2012, p. 160). Sequestrados/as de sua terra e enviado/as forçadamente a outra, a escritora enfatiza:
Enfrenta-se novamente a imensidão e os mistérios de Kalunga para reencontrar a Terra-mãe. Corpos jogados ao mar, corpos se jogam no mar, o mar guardando corpos. Mar, espaço de morte e de ressurreição. Hoje a travessia é feita pela memória. (EVARISTO, 2012, p. 162, grifos nossos).
Com base nessa proposição, intelectuais afrodiaspóricas encadeiam e desencadeiam uma rede de significações que nos conecta e reconecta a uma memória ancestral afro-atlântica. Nesse caso, existe uma produção de conhecimento que retoma uma memória coletiva -, um sentimento de pertença inevitável que emerge das águas-recordações de intelectuais afrodiaspóricas. De maneira singular, “[...] ao lado da memória dolorida há também, graças a Olorum, a Zâmbi”, evocar levantes e insurgências negras. (EVARISTO, 2012, p. 163).
De acordo com Evaristo, “[...] o navio negreiro, signo comum de ruptura, para os povos da diáspora africana, marca o início da história dramática dos povos descendentes de africanos na América”. (EVARISTO, 2012, p. 160). Assim, sobreviveram à travessia forçada pelo Atlântico em condições extremamente degradantes e insalubres, desvinculando-se do cotidiano de suas comunidades e do contato com tudo o que lhes era afetivo e familiar.
Por outro lado, a escritora negra caribenha Yolanda Arroyo Pizarro (2013) afirma que o navio (a barca) marca o início da tormenta de mulheres africanas e negras nas Américas e Caribe. Ainda em território africano, homens, mulheres e crianças de diferentes comunidades - e, frequentemente amarrados uns aos outros - passaram a conviver e partilhar das duras condições do cativeiro. Apesar disso, desenvolveram estratégias de sobrevivência.
Desse ponto de vista, Evaristo avalia que “atravessar tantas águas”, para muitos de nossos antepassados submetidos ao escravismo colonial, “causava-lhes a sensação de terem sido transformados em “mortos-vivos”, uma vez que “haviam cruzado o mar, espaço guardador do espírito da morte”. (EVARISTO, 2012, p. 160, grifos da autora). De maneira um tanto peculiar, a pensadora assevera que as poetas, escritoras e intelectuais negras brasileiras abundam os seus escritos de elementos simbólicos em que sujeito, corpo e voz retoma a memória da experiência dolorosa de suas antepassadas/os africanos/as.
Da âncora dos navios, a produção de conhecimento de autoria afrodiaspórica cria uma sintaxe afro-atlântica que realça significados em termos linguísticos e atualizam discursos históricos. Como resultado, converte-se em uma gramática afrodiaspórica que resguarda acontecimentos a despeito das lembranças amargas e tristes do colonialismo.
Na dupla inscrição ensaística e literária, as intelectuais afrodiaspóricas vivem o transe de memórias ancestrais. Nas entrelinhas, o corpo da escrita, corpo-transe, da escrita-transe, do transe ritualístico que incorpora, dramatiza, traduz e se multiplicam em corpus, corpos e assenta histórias de resistência.
Em vista disso, ao subir a bordo da embarcação, a travessia oceânica é sempre “um destino incógnito”. (EVARISTO, 2012, p. 160). A partir do cais, quando sobe para bordo, o modo de encontrar a memória é navegar. “É recordar!” É recriar a pressão intensa do Mar profundo. De qualquer maneira, esta velha máxima é seguida à risca, porque, no vai e vem das correntezas, “[...] o mistério subsiste além das águas”. (EVARISTO, 2012, p. 160). Isso posto, nos porões do navio, a intelectual negra brasileira encontra as lacunas e ausências que marcam “[...] o início da história dramática dos povos descendentes de africanos” nas Américas. Dos ventos que sopram e acenam com as redescobertas, experimenta os solavancos das memórias afrodiaspóricas (povos, línguas, saberes, cosmovisões, devoções etc.).
Como se observa, o Mar é o testemunho vivo das memórias da escravização colonial. Ao abrir caminho, a mesma incerteza que gera angústia, “o mar, contudo, é também promessa”. Nas entranhas do mar aberto, de alto a baixo, imagina-se o ventre da Terra-mãe. (EVARISTO, 2012, p. 160). Nesse espaço, na articulação entre presente e passado, podemos ver/sentir “corpos jogados ao mar, corpos se jogam no mar, o mar guardando corpos”. Pelas lentes de uma mulher negra, presenciar a recriação de episódios históricos do escravismo.
Com efeito, “de ambos os lados da barca desapareceram as margens do rio”. Glissant lembra que nesse “atravessar assim a terra-mar que não se sabe ser o planeta-terra”. (GLISSANT, 2013, p. 2). Por essas razões, Evaristo assevera que os vários espaços em que a África é revivida no solo brasileiro, “há um em que ela se torna o centro de gravidade”. “É o espaço do terreiro”. No terreiro, “em um dado momento histórico”, a autora negra brasileira considera que “funde o presente do africano escravizado ao seu passado imediato, assim como ao longínquo e ao tempo ancestral”. (EVARISTO, 2012, p. 162).
Para Evaristo, a “lembrança do negreiro nos persegue”. (EVARISTO, 2012, p. 163). O oceano-mar guarda “nas tuas cristas o barco” secreto dos nossos nascimentos, os teus abismos são o nosso próprio inconsciente, povoados de fugidias memórias, assim como “[...] o cheiro persistente da terra ocre e das savanas”. (GLISSANT, 1990, p. 2). Nesse caso, o mar ganha um sentido poético, uma vez que passa a significar uma imensidão de sentimentos que se espraiam e se interligam simbolicamente. Nessa dimensão, o mar expressa a ideia de contaminação, mistura, interferências, movimento de rotas e de fluxos contínuos. O mar e suas marés! Afirmação da vida! Uma conjunção de forças que podem orbitar uns nos outros diminuindo distâncias entre gritos que se desesperam para voltar a terra. É o lugar de partida e o de chegada. Nele, misturam-se saudade, cheiros, gostos, gritos e esperanças à espuma marinha formada pela agitação das águas no branco-sangue.
Sob esta ótica Evaristiana, acreditamos que “os navios, águas, passagens, desterro, dores, assim como formas diversas de reterritorialização” compõem a produção de conhecimento de intelectuais afrodiaspóricas na América Latina. (EVARISTO, 2012, p. 163). Nessa produção de conhecimento, estão gestos, discursos, desejos identificados e constituídos de saberes afrodiaspóricos com consequências epistêmicas.
Por fim, considerando o pensamento crítico de Evaristo acerca da importância do trabalho intelectual de mulheres negras na diáspora, e ainda, como conforto e fé, desde os tempos da escravidão, entre muitas feridas e cicatrizes, identidades mutiladas e reconstruídas com o auxílio de uma memória mítica, temos produzido conhecimento. (EVARISTO, 2013, p. 162).
Mayra Santos-Febres: la negrura a flor de piel
[...] En la literatura puertorriqueña, desde los inicios de estabelecimento de su canon, lo negro siempre ha representado lo irracional. Es el cuerpo, es lo animal, el origen antes de la palavra. A veces, com suerte, los personajes negros y negras que aparecen en las obras de la mayoría de nuestros escritores, cumpren un papel de víctimas, de depositários de una posición ideológica, pero nada más. (SANTOS-FEBRES, 2010, p. 144, grifos nossos).
Em escritos jornalísticos, entrevistas, ensaios, contos e romances, Mayra Santos-Febres deixa marcas quanto ao seu posicionamento epistêmico, artístico e crítico. Poeta, romancista, ensaísta e professora de literatura, nascida em 26 de fevereiro de 1966, em Porto Rico (Carolina), filha de professores, inicia contato com os livros desde a infância e começa a escrever com apenas cinco anos de idade, tornando-se uma das mais proeminentes e aclamadas escritoras e intelectuais negras contemporâneas. Com livros traduzidos para várias línguas (o francês, inglês, alemão e italiano), pode-se dizer que atua sem submissão às normas definidas pelo cânone nacional, critérios e parâmetros idealizados do que deva ser o texto literário.
Ainda nesta senda de criação, publicando poesias desde 1984, em revistas e jornais internacionais como Casa de las Amèricas de Cuba, Página doce de Argentina, Revue Noir da França e Latin American Revue of Arts and Literature de Nova Iorque, entre outros, os textos da autora porto-riquenha, sobretudo a sua ficção, de uma maneira geral, realizam uma retomada de acontecimentos históricos acerca da presença negro-africana nas Américas e Caribe. Em muitos aspectos, a sua voz desencadeia um campo de reflexão bastante variado, afetando os planos temático e formal de sua literatura, “haciendo contrapesso al tradicional rechazo e invisiblización para abogar a favor de un reconocimiento de lo negro”. (SANTOS-FEBRES, 2010, p. 67).
Por conseguinte, as obras ficcionais arrebatam a crítica e teoria literária, tanto nacional como internacional conferindo a Santos-Febres um reconhecimento irrestrito por seu projeto estético, político e crítico. Assim sendo, situadas em uma determinada ótica, os elementos organizados revelam a força poética de uma autoria negra feminina que cria uma gramática própria com as ações políticas ancoradas numa linguagem antirracista e antissexista. Nessa perspectiva descolonizadora e emancipatória, propõe uma gramática afrodiaspórica para “[...] hablar de la raza, identidad de género y la negritud en Puerto Rico”. (SANTOS-FEBRES, 2010, p. 68-69).
De maneira destacada, Mayra entrecruza as formas narrativas híbridas, esgarçando os limites entre o ficcional, o ensaístico e o documental, rasurando os estatutos da ficção e da historiografia, assim como as estratégias narrativas contemporâneas para referenciar e visibilizar “los saberes afrodescendientes, caribeños, de género y puertorriqueños.... y diásporas”, visando contestar as matrizes epistêmicas hegemônicas de produção de conhecimento. (SANTOS FEBRES, 2020, fonte eletrônica). Dentre estes pilares, a escritora assevera:
[...] 99% de mi narrativa está basada en investigación. También 99% de mis olvidos están basados en la invisibilización de los saberes afrodescendientes, caribeños, de género y puertorriqueños. [...] Soy una escritora afrodescendiente puertorriqueña. He publicado veintiocho libros que consistentemente trabajan los temas que me apasionan: raza, pluralidades en identidad de género, Caribe, diásporas, modernidad. En poesía, cuento, ensayo, performance, novela, teatro, guion de cine. Y me falta todavía. Veremos a ver con qué salgo en el futuro. (SANTOS FEBRES, 2020, fonte eletrônica)7.
Em grande parte, a autora alimenta-se da palavra aguerrida, da radicalidade analítica, de uma sintaxe afro-atlântica - portanto, da persistência e “insurgência negra político-epistêmica” (SALES, 2020), demonstrando vigor dentro de seus domínios de pensamento e práxis intelectual. Podemos discorrer, inclusive, que cada palavra carrega em si um significado cultural e, historicamente, refeito dentro de uma tradição literária e epistêmica. Essa tradição que ainda insiste em representar mulheres afro-latino-americanas e caribenhas para destituir a existência humana. Isso implica repercussões políticas enormes para superar as armadilhas do colonialismo.
Considerando esses pontos, nas palavras de Catharine Walsh (2008, p. 131), movida por “esfuerzos históricos, insurgentes y trascendentales”, Santos-Febres exercita “[...] articulaciones y construcciones distintas que alienten un cambio radical e descolonizador do pensamento” para balançar as estruturas. (WALSH, 2008, p. 134). Sob uma perspectiva feminina negra e anticapitalista, de modo a garantir reparação e justiça, a autora demonstra os obstáculos de que necessita transpor para “[...] nombrar el negro o a la negra, al mulato... de la discusión sobre prejuicio racial? [...] La gente se pone inquieta”. (SANTOS-FEBRES, 2010, p. 67).
Nesse processo de descolonização, desempenha uma função importante como intelectual negra, uma vez que a sua produção de conhecimento desmantela “as formas de racismo epistêmico que fazem parte das humanidades e das ciências”. Acrescido a isso, desarquiva narrativas de “las ancestras” (ARROYO-PIZARRO, 2013), apontando outras possibilidades epistemológicas que consideram diferentes tipos de saberes, novas alternativas de vida e pensamento8. Sendo assim, a radicalidade desse empreendimento se expressa através de transformações na escrita para reescrita e, consequentemente, reinterpretação da historiografia, teoria e crítica literárias latino-americanas e caribenhas. (MALDONADO-TORRES, 2016, p. 75) . Diante dessas observações, reitera que essas formas hegemônicas de conhecimento ganharam intensa projeção nos textos literários e historiográficos. (GROSFOGUEL, 2007, p. 178).
Recordemos que racismo no es sino la transposición de los sistemas valorativos de la esclavitud a la sociedade post-esclavista, una manera de mantener a las poblaciones negras al margen de la sociedade sin la evidencia legal y econômica de dicha marginación. (SANTOS-FEBRES, 2010, p. 69).
Nesses termos, Santos-Febres é uma intelectual negra diaspórica que assume a tarefa de “[...] estimular, proporcionar e permitir percepções alternativas e práticas que desloquem discursos e poderes prevalecentes” em Porto Rico. (WEST, 1999, p. 13). Em outras palavras, assenta uma práxis negra intelectual para dar voz a saberes que sempre existiram, contudo, permaneceram historicamente silenciados por “epistemologias eurocentradas”. (SANTOS; MENESES, 2010).
De certa forma, manifestando-se em diferentes veículos de comunicação, essa práxis negra feminista resiste, questiona e busca “mudar padrões coloniais do ser, do saber e do poder” infligidos por discursos literários na América Latina e Caribe. (MALDONADO-TORRES, 2016, p. 88). Por esse motivo, em um contraponto a produção de conhecimento vinculada à colonialidade do ser, do saber e do poder, a autora prima pelo reconhecimento da diversidade de conhecimentos e modos de existência presentes nos contextos latino-americano e caribenho.
Diante deste quadro, na tarefa de produzir conhecimento, expressa um ponto de vista caracterizado “por uma prática insurgente e engajada” perturbadora do status quo, a qual está muito bem articulada aos planos da teoria e prática, interrogando e criticando explicitamente os legados coloniais. (WEST, 1999, p. 13, grifos do autor). Por meio dessas concepções, discursivamente coerente e, por isso mesmo, fascinante, através da intersecção entre gênero, raça, classe e sexualidade, Santos-Febres captura as frequências político-sociais e as tensões histórico-culturais nos mais diferentes contextos. Nesse sentido, podemos demonstrar essa assertiva com um fragmento de uma entrevista:
[...] investigo [...] sobre diversos temas de raza, racialización, caribeñidad, nuevas formas de la escritura creativa. [...] La colonización es el ejercicio continuo de olvidar. Hay que olvidar quién eres para que quieras convertirte en el “otro”. El “otro” blanco, varón, europeo o estadounidense, el otro rico, primermundista, el otro que no eres tú. (SANTOS FEBRES, 2020, fonte eletrônica).
Como estratégia de resistência à colonialidade e às epistemologias dominantes, argumenta: “[...] Ser negra es la razón primordial por la cual soy escritora. [...] Son 3 desde que tengo conciencia: el Caribe, las sensaciones de estar viva en el Caribe (raza, género), las historias de mis ancestros”. (SANTOS-FEBRES, 2015) 9. Sob os prismas de raça, gênero e Caribe, podemos observar que a autora revigora os campos de produção artística e epistêmica com a grande abertura que traz, propicia - e pede - o debate em torno da história de “las ancestras”.
Não obstante, Santos-Febres fornece os elementos constitutivos a partir da epistemologia dos assentamentos de resistência10. Os “assentamentos de resistência” (SALES, 2020) são um tipo de pensamento, prática e perspectiva decolonial, que atua fortemente nos textos de autoria negra feminina latino-americana e caribenha para questionar, rasurar e se insurgir “a colonialidade do saber, do poder e do ser”. (QUIJANO, 2005; MALDONADO-TORRES, 2007).
No ensaio Raza en la cultura puertorriqueña, Mayra Santos-Febres (2010) reflete que a literatura porto-riquenha canônica produziu e disseminou representações ficcionais depreciativas da população negra (homens e mulheres) procedentes da colonialidade do saber, do poder e do ser, as quais foram perpetuadas nos imaginários social e coletivo latino-americano e caribenho. Ainda sob essa ótica, elabora um exame à base do pensamento ocidental europeu que se enraizou na produção epistêmica em Porto Rico. Em seguida, investe na radicalização do argumento ao rever uma tradição literária, crítica e teórica, oferecendo releituras de obras, imagens e discursos de autores/autoras. Sendo assim, Santos-Febres elabora uma perspectiva crítica capaz de transcender e desmitificar preconceitos e produção de sentidos, os quais seguem os pressupostos ocidentais do mundo moderno/colonial. Ao construir caminhos para encenar uma pluralidade de vozes, a sua postura epistêmica funciona para desnaturalizar processos de dominação relacionados a uma pressuposta de relação superioridade/inferioridade entre dominantes e dominados. (QUIJANO, 2005).
Ao analisar algumas obras literárias consideradas canônicas, Santos-Febres enfatiza que solapam representações estereotipadas e depreciativas que vão desde a mulata trágica (“un mito y un hito de la literatura racial”) até mãe preta/ama de leite. Associada a essa visão, a imagem da mulata trágica aparece como uma filha bastarda, fruto de uma relação incestuosa, “desvalorizada moral y sexualmente”, considerada uma figura perigosa aos valores disseminados pela família branca e escravocrata. (RIVERA-CASELLAS, 2011, p. 100).
Partindo desse contexto, Mayra problematiza a incidência de um modelo articulado de pensamento colonial disseminado pelo cânone literário latino-americano e caribenho, as maneiras de definir as formas literárias que resultaram em um processo de inferiorização /desumanização de mulheres africanas e negras. Como consequência disso, partindo do “espelho eurocêntrico” onde a imagem do/a colonizado/a surge sempre distorcida (QUIJANO, 2005), a pensadora confronta as diferentes dimensões da colonialidade associadas ao racismo/sexismo:
El cuento de Rosarito aparecen dos Isabeles, la esposa (obviamente blanca) y chilla (negra, Isabel Luberza) [...] la afamada duenã del prostíbulo más poderoso de Ponce. [...] El mundo de la mujer blanca es descrito com precisión y nos resulta plenamente reconocible. Pero el de la mujer negra brilla por su ausencia. Está representada tan sólo por su cuerpo, la sexualidade, lo erótico. No tiene ni cultura ni costumbres, ni sentido mayor que el de cuerpo. (SANTOS-FEBRES, 2011, p. 146).
De outro lado, intensificando saberes encruzilhados no diálogo com Santos-Febres, Arroyo Pizarro sugere questionar e desconstruir o que foi construído pela colonialidade do saber, do poder e do ser, especialmente nos textos em que as mulheres africanas e negras aparecem como sujeitos passivos e somente como vítimas da dominação colonial. (MIGNOLO, 2003; MALDONADO-TORRES, 2008). Contudo, isso vai muito além da descolonização do pensamento, porque a pensadora supõe também a construção e a concepção de “[...] una nueva Literatura insurgente de la Afrodescendencia”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 27).
Desta maneira, Yolanda assevera que a reconstrução e desconstrução radical do ser, do poder e do saber, por escritoras e intelectuais negras caribenhas, implica em um fazer literário para que as antepassadas sejam narradas “[...] desde el único lugar ideológico y correcto: desde la Resistencia”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 33). Nesse des-a-fio epistêmico-político, trata-se de um posicionamento para dar a voz aos corpos negros marcados por múltiplas violências. Apesar de trazer à tona memórias traumáticas, revelam-se processos históricos intencionalmente apagados.
Assim proposto, Zaira Rivera-Casellas (2011, p. 99) analisa que a literatura negra porto-riquenha contemporânea tem contribuído para modificar a crítica, a teoria e “[...] la historia de la literatura puertorriqueña”, uma que vez busca tornar audíveis e visíveis narrativas produzidas “por cimarrones o esclavos durante el siglo XIX”. Assim exposto, não há dúvida de que obras literárias como Fe en Disfraz de Mayra Santos Febres (2009) e a antologia de conto las Negras de Yolanda Arroyo Pizarro (2012), colaboram para desvelar por completo “interpretaciones de la literatura y la identidad nacional caribenha”.
A partir dessa diversidade epistêmica, textos de autoria negra feminina constituem um novo corpus literário “en el que las voces de los esclavos y las esclavas” reconstroem o passado nas Américas e Caribe. Assumindo posição antagônica ao cânone ocidental, as obras literárias de Mayra Santos Febres e Yolanda Arroyo Pizarro se abastecem dos relatos de “mujeres y hombres africanos y sus descendientes”, com vivências e experiências centradas “en las esclavitud”. Ambas as escritoras caribenhas rasuram uma tradição literária entrecruzando “[...] análisis histórico y literario para deconstruir los significados de la esclavitud y la emancipación”. (RIVERA-CASELLAS, 2011, p. 99).
Concordando com Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro, Rivera-Casellas garante que existe uma posição conservadora adotada pela história, crítica e literatura latino-americana e caribenha - que naturaliza e alicerça as ideias eurocêntricas, sexistas e racistas no interior de uma tradição forjada pela colonialidade do saber/do poder. Mais especificamente, essas ideias circulam como heranças coloniais nos textos de autores/autoras representantes do cânone nacional, os quais classificam e inferiorizam diferenças culturais com propósito de manter a dominação, hierarquização, subjugação e exploração de seus corpos/mentes. A partir dessas premissas, é, nesse sentido, que Rivera-Casellas também propõe repensar as referências canônicas e eurocêntricas, visando novas composições epistêmicas para descolonizar o conhecimento:
Sin embargo, en la literatura puertorriqueña contemporánea percibo textos que nos permiten acceder, desde la ficción, a ese silencio para repensar la arbitrariedad de imágenes y valores que comparten las representaciones culturales de los miembros de la diáspora africana en las Américas y el Caribe. (RIVERA- CASELLAS, 2011, p. 99).
Desse modo, Zaira Rivera-Casellas (2011, p. 99) analisa que a literatura negra porto-riquenha contemporânea tem contribuído para modificar a crítica, a teoria e “la historia de la literatura puertorriqueña”, uma que vez busca tornar audíveis e visíveis narrativas produzidas “por cimarrones o esclavos durante el siglo XIX”. Assim exposto, não há dúvida de que obras literárias como Fe en Disfraz de Mayra Santos Febres (2009) e a antologia de conto las Negras de Yolanda Arroyo Pizarro (2012), colaboram para desvelar por completo “interpretaciones de la literatura y la identidad nacional caribenha”.
Concordando com Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro, Rivera-Casellas garante que existe uma posição conservadora adotada pela história, crítica e literatura latino-americana e caribenha - que naturaliza e alicerça as ideias eurocêntricas, sexistas e racistas no interior de uma tradição forjada pela colonialidade do saber/do poder. Mais especificamente, essas ideias circulam como heranças coloniais nos textos de autores/autoras representantes do cânone nacional, os quais classificam e inferiorizam diferenças culturais com propósito de manter a dominação, hierarquização, subjugação e exploração de seus corpos/mentes.
No âmbito da literatura porto-riquenha, há que se ressaltar um tipo de narrativa ficcional marcada por um discurso que possui suas singularidades e, assim, pode se distinguir de outras produções contemporâneas. Por isso mesmo, considerando-se a importância do lugar da enunciação, com a multiplicidade de vozes, textos e assuntos, escritoras negras caribenhas impuseram o reconhecimento das múltiplas expressões culturais dos grupos considerados subalternos. Como resultado disso, dentre os inúmeros projetos em pauta, essas vozes femininas reconfiguram acontecimentos históricos com um objetivo particular: “presentar una versión propria de la historia y elaborar nuevas imágenes” associadas as mulheres africanas e negras em diáspora. Segundo Zaira, descortinando um projeto de dominação, “la escritura antiesclavista” e/ou “la poética de la esclavitud” permite desconstruir as representações “de las mujeres negras en Puerto Rico”. (RIVERA-CASELLAS, 2011, p. 100).
Por essa razão, Santos-Febres assenta “los conocimientos y saberes, la memoria ancestral, con la cosmologia” negro-africana. (WALSH, 2008, p. 140). Dessa maneira, a escritora porto-riquenha provoca uma reação imediata que incide numa ótica de superação a colonialidade epistemológica em oposição a uma epistemologia eurocêntrica em novos modos de produção:
Recompongo (e ilustro) fragmentos del pasado. Los ofrezco al presente en tiempo hiperreal, un tiempo que pretende burlar la muerte de lo orgánico, la quietud del papel, la lentitud de los hechos […] Vivo (como un monje) suspendido en el tiempo […] Vivo callado, embebido en los mudos designios de la Historia. (SANTOS-FEBRES, 2009, p. 17, grifos nossos).
Nesse campo de disputa epistemológica, potencializando questionamentos e ações anti-hegemônicas, a autora revitaliza a tradição crítica de pensamento latino-americano e caribenho. Ao alinhavarmos os argumentos, Santos-Febres reconstitui um imaginário, transcendendo a relação de dominação e subordinação, retirando do cânone literário e historiográfico o privilégio epistêmico de narrar e contar as histórias de suas antepassadas.
O que de acordo com Marie Ramos Rosado (2012, p. 185), escritoras e intelectuais negras como Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro tratam “la temática raza-género-diversidad en su literatura, de alguna manera, tienen la negrura a flor de piel”.
Portanto, ao trazer a negrura a flor da pele, as personagens femininas são mulheres marginalizadas e invisibilizadas “por la historia oficial en la sociedad puertorriqueña”. Em seus escritos, as pensadoras deixam de encarnar “papeles sumisos y domesticados, nunca protagónicos y liberadores” que circulam no imaginário latino-americano e caribenho para oferecer novas epistemologias.
Yolanda Arroyo Pizarro: epistemologias desde las ancestras
Homenaje a la resistencia, a la rebeldia, a la entrega amorosa, al recuerdo de la tierra para siempre perdida en medio de la nada inconmensurable, tanto como la inmensidad de la travessia oceânica no perdida, sí impuesta, sí obligada, aceptar como viaje de placer agónico, sin boleto de vuelta. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 108).
Intelectual negra insurgente, lésbica e defensora da negritude, Yolanda Pizarro acompanha as dinâmicas sócio-históricas e políticas em Porto Rico. Em outros termos, a escritora articula em torno de si diferentes causas/pautas, tornando-se uma presença marcante em vários movimentos contemporâneos de insurgência negra e direitos humanos. Em particular, a ativista atua contra os discursos que pretendem “anular cosmovisões, princípios, religiosidades e sistemas de vida” das comunidades afrodescendentes, um problema enraizado pelo racismo na ilha caribenha. (WALSH, 2009, p. 15).
Poeta, novelista, romancista, professora, contista e ensaísta, Yolanda Arroyo Pizarro (Guaynabo, Porto Rico, 1970) é considerada uma das mais importantes vozes da literatura negra porto-riquenha/caribenha contemporânea. Premiada escritora, sua produção intelectual é consideravelmente extensa, uma vez que as suas obras circulam em diferentes países e línguas: Gana, México, Argentina, Panamá, Equador, Guatemala, Colômbia, Venezuela, Brasil, Chile, Bolívia, Espanha, Dinamarca, Hungria, França e Reino Unido, entre outros.
Dessa maneira, Yolanda Pizarro publicou o seu primeiro livro de contos Origami de Letras em 2004. Criada por seus avós, ela começou a escrever ainda jovem em boletins e jornais da escola, ganhou competições de desenho e ensaios. Em 1990, dirigiu uma peça chamada ¿A dónde va el amor? (Para onde vai o amor?) baseada em seu próprio roteiro, cuja história se passava em Barrio Amelia, uma região pobre de Guaynabo (Porto Rico), onde viveu a infância. Escreveu seu primeiro romance Los documentados em 2005, o qual reflete acerca da questão da migração no Caribe hispânico. Em 2007, lançou o livro de contos curtos Ojos de Luna11.
Ademais, Yolanda Arroyo Pizarro é diretora dos estudos afro-portoriquenhos la Universidad de Puerto Rico Recinto de Río Piedras e coordena La Catedra de Mujeres Negras Ancestrales de San Germán que pesquisa, organiza e publica alguns textos literários que destacam as lutas feministas negras e seu importante papel nas cimarrajones, tongas, palenques e quilombos.
La Catedra de Mujeres Negras Ancestrales é um projeto composto por pesquisadores/as, professores/as, artistas, ilustradores/as que realiza investigações históricas, organizam e editam obras literárias. As publicações têm por objetivo resgatar informações sobre o sequestro, o cativeiro, a luta e a resistência de las ancestras, assim como enfatizar a presença das mulheres negras na sociedade porto-riquenha. Desde a sua criação, o coletivo já publicou inúmeros textos entre biografias históricas, contos, poemas etc. Alguns combinam gêneros híbridos (ficção e história), nutrem-se de narrativas históricas e recriam personagens.
A partir de investigações biográficas, as histórias de mulheres negras são recuperadas e reescritas na ficção. Como resultado e para responder a uma iniciativa da UNESCO para comemorar o Decenio International of Afrodescendientes (2015-2024), La Catedra de Mujeres Negras Ancestrales, publicou Cuando se fugo Catalina em 2017. O livro é inspirado na trajetória da escravizada Catalina, de trinta anos, cujas fontes foram localizadas no periódico La Gaceta de Puerto Rico (1806-1902).
De título sugestivo, Tongas, palenques y quilombo: ensayos y columnas de afroresistencia (2013) reúne ensaios, conferências, um poema, bem como duas entrevistas concedidas por Yolanda Pizarro em momentos variados de sua trajetória intelectual. O poema Carne negra, os ensaios e as entrevistas estão submetidos ao crivo da indagação mais profunda acerca de temas ligados à presença negro-africana no Caribe e América Latina.
Os ensaios, entrevistas, conferências e epígrafes registram pesquisas históricas sobre o Caribe Hispânico e América Latina, assim como as aspirações, influências e inspirações para o assentamento do projeto intelectual de Yolanda Arroyo Pizarro. Ao mesmo tempo, são notas teórico-reflexivas acerca de sua leitura crítica de mundo, desejo de intervir na reinvenção da sociedade porto-riquenha, provocando uma desordem epistêmica absoluta e radical.
Em diálogo, os textos da coletânea propõem outros campos de significação e reafirmam que “la mujer ha sido invisibilizada por la historia patriarcal, más aún la mujer negra. Duplamente invisibilizada, “como negra he tenido que enfrentar el discrimen verbal y el ostracismo social”. (ARROYO PIZARRO, 2018, fonte eletrônica). As reflexões se inscrevem numa chave decolonial radicalmente poderosa chamada de “insurgencia política-epistémica” como parte “de las estrategias de acción y lucha de los movimientos ancestrales”. (WALSH, 2008, p. 131).
Assim sendo, Arroyo Pizarro assenta “los conocimientos y saberes, la memoria ancestral, con la cosmologia” negro-africana caribenha. (WALSH, 2008, p. 140). A escritora porto-riquenha provoca uma reação imediata que incide numa ótica de superação da colonialidade epistemológica em oposição a uma epistemologia eurocêntrica.
Em Hablar de las ancestras, a escritora opera outros repertórios epistêmicos que impactam fortemente a colonialidade do saber. Da insurgência estético-política, efetivamente, ressaltamos que as epistemologias negras caribenhas contemporâneas nos ensinam como “devolver el golpe en la lucha”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p.29).
No livro, ainda encontramos as seguintes publicações: Poema: carne negra; Sin raza, una historia de bullying en el colegio; Hablar de las ancestras; Reunidos por la Negritud; La creación de la ficción desde el mito del Caribe; De cuando Hipólita y Matea se reencontraron en Caracas e Rio das Pedras, 2013; Women of the Afro-Latina Diaspora, entre outros. Dentro desse processo, nos textos da coletânea Tongas, palenques y quilombos: ensayos y columnas de afroresistencia, a autora caribenha destaca sempre a resistência como uma das principais características de nossas antepassadas na luta por sua emancipação. Quanto ao título, Palenques, tongas e maniguas eram espaços de resistência negra feminina.
Nesses levantes, nossas ancestras encarnavam a típica atitude de resistência à escravidão colonial no espaço caribenho. Eram territórios de atuação política em que se vicejava a liberdade e a emancipação dos escravizados. Nas palavras de Yolanda Pizarro (2013, p. 29), eram comunidades de negros “cimarrones y cimarronas, esclavos revoltosos y esclavas revolucionarias que se negavan a continuar su situación”. Assim, nossas ancestrais (homens e mulheres) poderiam “se relocalizarse en comunidade y desde allí resistir”.
Nesse compasso, a tarefa política desempenhada por intelectuais negras diaspóricas é promover a disputa no campo epistêmico, fixando um conjunto de ideias que desafiem e extrapolem tendências dominantes “que vê o resto do mundo como menor”. (CHRISTIAN, 2002, p.88). Prestar atenção ao ataque, ao jogo do outro e aos discursos eloquentes (às vezes, quanto mais eloquentes, mais racistas e sexistas). Por causa disso, precisamos “usar da força e a linguagem” para reivindicar um espaço de enunciação negro assentado. (CHRISTIAN, 2002, p.89). Reconhecer a potência de nossas teorias e epistemes negras, assim como repensar a crença nos estudos ocidentais como únicos donos da verdade.
Dividido em três argumentos, organizados de forma estratégica, Por qué hablar de las Ancestras, Cómo hablar de las Ancestras e Desde dónde hablar de las Ancestras, o ensaio de Yolanda Pizarro questiona a produção historiográfica referente à escravização colonial no Caribe; o processo de invisibilização de registros acerca das mulheres africanas na diáspora caribenha. Como sintoma dessa ausência, Yolanda Pizarro observa que “los historiadores (as) han centrado sus investigaciones en las rebeliones realizadas por los esclavos y hombres negros”: “[...] artículos, ensayos... capítulos completos”. Quanto às nossas ancestras, “se han invisibilizado todas las gestiones realizadas por las mujeres negras”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 31). Dessa forma, numa perspectiva de resgate e reparação, reivindica visibilidade histórica:
[...] de manera autodidacta, me di a la tarea de estudiar las obras: ‘Historias al margen de la historia’ de Nelly Vázquez Sotillo; ‘Por la encendida calle antillana: las culturas étnicas de los africanos esclavizados que fueron traídos al Caribe en Siglo XVI’de Mirta I. Nieves Mejías; ‘Esclavos Prófugos Y Cimarrones: Puerto Rico, 1770-1870’ de Benjamin Nistal Moret; ‘The Slave Ship: A Human History’ de Marcus Rediker e ‘Incidents in the Life of a Slave Girl’ de Harriet A. Jacobs. Todo ello para poder hablar de mis propias Ancestras desde la ficción narrativa. (ARROYO PIZARRO, 2013, p.28, grifos nossos).
Em Por qué hablar de las Ancestras, Arroyo Pizarro explica que, dentro de sua proposta epistêmica, não utiliza o termo masculino Ancestro, uma vez que este se refere a “antepassado ou antecessor”. Por isso, pretende-se destacar a condição particular e específica das mulheres: “no es lo mismo que decir ‘Ancestra’, un neologismo feminino al que me amarro para narrar mis carencias y obsesiones. (ARROYO PIZARRO, 2013, 31, grifos nossos). Neste contexto, se sobressai um fragmento que funciona como um dos principais argumentos do ensaio de Arroyo Pizarro:
[...] Siento que Ancestra es más adecuado, llena el vacío de la historicidad y de la responsabilidad poética que me obliga a contar la vida de mis antepasadas y antecesoras, seres humanas que son las que deseo resaltar porque entiendo que ellas mismas me lo piden en un trance literario. Lo correcto, dado el machismo y racismo rampante que se vive en mi país hoy, es hablar de mis Ancestras negras provenientes de África. Al menos así me siento yo, con la necesidad de escudriñar y plasmar en literatura ese arrebato mental que me alborota los sentidos hasta que pongo manos a la obra. (ARROYO PIZARRO, 2013, p.29, grifos nossos).
Já no tópico II, Cómo hablar de las Ancestras, a intelectual negra caribenha percorre as estratégias de resistência, emancipação e as maneiras como a mulher africana escravizada buscava a sua liberdade. Baseada em fontes primárias, Arroyo Pizarro reafirma que “[...] todo el tiempo intuí que a pesar de la opresión y los abusos, estas fueron mujeres hábiles, astutas, muy dispuestas para la batalla, muy orientadas a devolver el golpe en la lucha”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 29). Ela destaca a “valentia e a coragem de las mujeres negras” mayoría en las revueltas. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 31).
Por sua vez, no tópico III, Desde dónde hablar de las Ancestras, Arroyo Pizarro ressalta que a importância dos quilombos o manigua. Estas eram comunidades de negros que fugiam, pois se negavam ao cativeiro. Ao contrário das informações pela história oficial e canônica, os escravizados se fugaban “de los puertos de desembarque de navios, de los ingênios, de las haciendas, de las minas.... Eram chamados de “cimarrones y cimarronas, esclavos y esclavas revolucionarias”. Os quilombos ou manigua eram lugares de reconstituição de laços afetivos e reconexão ancestral. (ARROYO PIZARRO, 2013, pp. 32-33).
Las ancestras Wiwa, Agustina, Polonia, Hipólita, Matea, Nanny, entre outras invisibilizadas pela historiografia oficial no Caribe e nas Américas, são evocadas para reviver e reescrever suas histórias de luta e insurgência. Elas ressurgem como protagonistas em romances, contos, poemas, ensaios, artigos. Mujeres insurretas, cimarronas “subversivas, transcorpóreas que piedieron voz, cuerpo, armas y venganza”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 35). Elas se re-encontram, reconectam-se e reencenam narrativas de “actos de rebeldia”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 41). Carlota era uma cimarrona de “origen Yoruba” que viveu em Cuba. Companheiras inseparáveis, as ancestras Matea (1773-1886) e Hipólita (1763-1835) também são citadas por Yolanda:
Cuando viajé a Caraca... conocí também allí la inspiradora historia de dos negras africanas importantes: la negra Hipólita y esclava Matea que fueron maestras, nodrizas, cuidadoras, cocineras y hasta soldadas en el ejército del libertador Simón Bolivar. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 37).
Diante de um histórico de invisibilidade e silenciamento, Hablar de las ancestras potencializa o resgate de conexões ancestrais e o contato entre histórias de mulheres negras diaspóricas. Por outro lado, evidencia que “el racismo histórico institucional”, assim como a existência de uma diáspora “afro-femenina de la dignidad”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p.39).
Conforme Arroyo Pizarro, nossas ancestras demonstram que estavam “[...] cansadas de la institución de la esclavitud y todo tipo de otras restricciones a la libertad, transgredieron, infringieron y quebrantaron el orden”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 25). Em Porto Rico, há relatos de la ancestra Juana Agripina que fugiu inúmeras vezes e reclamou a sua liberdade através do Sindíco Procurador de Esclavos: “[...] Soy Libre, Soy Libre, Demme mi liberdad”. Ainda que suas reinvidicações não tenham sido atendidas, Juana continuou se rebelando e constantemente escapava. “Se cree que luego de esto fue muerta”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 41).
Em Hablar de las ancestras, Yolanda Pizarro argumenta que nossas ancestras “[...] se resistieron de manera activa y respondieron frontalmente contra el sistema esclavista y todas suas formas de opresión”, utilizaram estratégias de resistencia variadas e múltiplas. Elas lutaram para “obtener la libertad y por mejorar sus condiciones de vida estuvo presente aunque no se narre em la historia ni se nombre a las mujeres negras”. (ARROYO PIZARRO, 2013, p. 36).
Intelectuais afrodiaspóricas insurgentes: considerações finais
Em Intelectuais Negras, bell hooks (1995), ao discorrer acerca da produção de conhecimento de mulheres negras nos Estados Unidos, observa que, desde o início, os “líderes negros do século XIX” bem sabiam - “o trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela libertação”, sendo extremamente fundamental para “os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas que passariam de objeto a sujeito que descolonizariam e libertariam suas mentes”. (HOOKS, 1995, p. 466).
Construindo um horizonte de intervenção fortemente crítico, questionando/ rasurando uma tradição intelectual que representava os/as afrodescendentes a partir de imagens estereotipadas/depreciadoras, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro, por sua vez, oferecerem numerosas fontes de inspiração para entender questões/temas importantes: gênero, raça, negritude, classe, sexualidade, afetividade, identidade, corpo, feminismo negro; bem como em relação ao passado histórico de mulheres africanas e negras (heroínas e guerreiras cimarronas), entre outras12.
Em seus textos narrativos, tanto em seus romances, contos e ensaios críticos, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro buscam recuperar, reeditar e descolonizar a história das mulheres africanas e negras nas Américas e Caribe. Mas, mais importante, ali se guarda a esperança, a possibilidade da volta”. (EVARISTO, 2013, p. 162).
Fazendo um recorte em relação às autoras em estudo, as vozes de mulheres afrodiaspóricas reunidas, estrategicamente, em todos os campos, lutam, resistem e se insurgem frente ao epistemicídio (SANTOS, 1995, CARNEIRO, 2005) e o racismo epistêmico (GROSFOGUEL, 2008/2016), impostos pela “colonialidade do poder, do saber e do ser”. (QUIJANO, 2000; MALDONADO-TORRES, 2016). Essas escritoras e intelectuais afrodiaspóricas se rebelam contra as tentativas de aniquilação física, psíquica, moral, epistêmica frente a processos coloniais. Por esse motivo, além de intelectuais, Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro atuam como romancistas, contistas, tradutoras, teóricas e críticas literárias e oferecem uma visão mais ampliada do ser/estar mulher e negra no mundo.
Por meio de seus pontos de vista - assinalados, como não poderia deixar de ser, pela experiência e vivência de ser mulher negra nos respectivos contextos sócio-históricos e culturais - Conceição Evaristo, Mayra Santos-Febres e Yolanda Arroyo Pizarro interferem na estrutura da historiografia, crítica e teoria literária latino-americana, combatendo o aniquilamento de saberes afrodiaspóricos. Sob uma perspectiva feminina e feminista negra, as tramas, as dimensões formais e estéticas marcam uma nova etapa na/da produção intelectual afrodiaspórica de autoria feminina.
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Notas