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UM BEST-SELLER PARA A GUERRA FRIA: O USO POLÍTICO DO ROMANCE O DR. JIVAGO, DE BORIS PASTERNAK
A bestseller for the Cold War: the political use of the novel Dr. Zhivago, by Boris Pasternak
Un éxito de ventas para la Guerra Fría: el uso político de la novela Dr. Zhivago, de Boris Pasternak
HISTÓRIA DEBATES E TENDÊNCIAS, vol. 23, núm. 3, pp. 115-133, 2023
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo

Artigo


DOI: https://doi.org/10.5335/hdtv.23n.3.15068

Resumo: Nos anos iniciais da Guerra Fria, o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos elaborou um programa editorial antimarxista e contrarrevolucionário contendo títulos de variadas áreas do conhecimento, incluindo romances. Este artigo tem por objetivo analisar o uso da forma romance por esse programa editorial, e como exemplo, a publicação, no Ocidente, do romance O Dr. Jivago, do escritor soviético Boris Pasternak. O romance foi publicado, distribuído, alçado à categoria de best-seller e largamente utilizado como arma política pela ação das duas principais agências estadunidenses responsáveis pela execução do programa, a Central Intelligence Agency - CIA e a United States Information Agency- USIA.

Palavras-chave: Guerra Fria, Boris Pasternak, USIA.

Abstract: In the early years of the Cold War, the National Security Council of the United States developed an anti-Marxist and counterrevolutionary editorial program containing titles from various areas of knowledge, including novels. This article aims to analyze the use of the novel form by this editorial program, and as an example, the publication, in the West, of the novel Dr. Zhivago by Soviet writer Boris Pasternak. The novel was published, distributed, raised to the category of bestseller and widely used as a political weapon by the action of the two main US agencies responsible for executing the program, the Central Intelligence Agency - CIA and the United States Information Agency - USIA.

Keywords: Cold War, Boris Pasternak, USIA.

Resumen: En los primeros años de la Guerra Fría, el Consejo de Seguridad Nacional de los Estados Unidos desarrolló un programa editorial antimarxista y contrarrevolucionario que contenía títulos de diversas áreas del conocimiento, incluidas las novelas. Este artículo tiene como objetivo analizar el uso de la forma novela por parte de este programa editorial, y como ejemplo, la publicación, en Occidente, de la novela Dr. Zhivago del escritor soviético Boris Pasternak. La novela fue publicada, distribuida, elevada a la categoría de best-seller y ampliamente utilizada como arma política por la acción de las dos principales agencias estadounidenses encargadas de ejecutar el programa, la Agencia Central de Inteligencia - CIA y la Agencia de Información de los Estados Unidos - USIA.

Palabras clave: Guerra Fría, Boris Pasternak, USIA.

O ponto de partida da análise

Os estudos pioneiros da Escola de Wisconsin demonstraram que a Guerra Fria foi o efeito da etapa expansionista do capitalismo estadunidense no pós-Segunda Guerra Mundial2 (ANDERSON, 2015).Isto coloca a Guerra Fria não como uma consequência inevitável do pós-guerra, mas como uma estratégia estadunidense elaborada para conduzir o país à condição de país hegemônico (FONTANA, 2003)3.

A União Soviética, que retorna à categoria de inimiga após a aliança na luta contra o nazifascismo, oferecia ameaças aos propósitos estadunidenses não apenas por sua recém-conquista da condição de potência regional (VISENTINI et al, 2013), mas também por ser uma referência para os movimentos revolucionários mundo afora, potencializada pela existência de partidos comunistas em diferentes países. Estes fatos foram suficientes para aglutinar - num bloco disposto a utilizar diversos recursos contrarrevolucionários - os governos de países capitalistas sob a liderança estadunidense.

A Guerra Fria, em suas dimensões distintas e complementares (econômica, política, militar e cultural), exigiu uma reestruturação do aparato legal e institucional do Estado estadunidense, na qual surgiram a Lei de Segurança Nacional, o Conselho de Segurança Nacional, a CIA (Central Intelligence Agency), a USIA (United States Information Agency), além da readequação das funções de agências já existentes, como o Departamento de Estado.

Neste artigo, o foco é a dimensão cultural da Guerra Fria, que caracterizou a ação das agências que formataram um programa editorial específico e articulado com o objetivo de interferir na produção e circulação de ideias, e promoveu uma literatura que bloqueava o marxismo e os movimentos anti-imperialistas e anticapitalistas. Embora a produção literária do programa editorial em questão abarcasse títulos sobre diferentes áreas do conhecimento (economia, política, psicologia, arquitetura, artes, saúde, agricultura, etc.), tratarei, neste artigo,apenas da literatura de ficção, especificamente a edição de romances, oferecendo como exemplo O Dr. Jivago, romance do escritor soviético Boris Pasternak, publicado pela primeira vez em italiano, em 1957, e tornado, pelas mãos da CIA e da USIA, um best-seller com utilidade política para os objetivos na Guerra Fria.

Um programa editorial para a Guerra Fria

O Conselho de Segurança Nacional, criado em 1948 pela Lei de Segurança Nacional, tornou-se o órgão responsável pela articulação das ações pilares da política externa dos Estados Unidos. Sua principal função consistia em aconselhar o Presidente sobre a integração de políticas domésticas, estrangeiras e militares relacionadas à segurança nacional e facilitar a cooperação interinstitucional, podendo considerar riscos, avaliar políticas adotadas, preparar relatórios e fazer recomendações4. Dentre essas recomendações, estava a criação de uma diretoria que concentrasse as ações ideológicas. Surgiu assim a Psychological Strategy Board (PSB), em 1951, com a função de articular e coordenar as ações de agências de inteligência e informação no campo cultural5.

O Programa Doutrinal D-33, lançado em 05 de maio de 1953 pelo PSB, institucionalizou a política de intervenção na produção de ideias em prol da perspectiva da “América e do Mundo Livre”, e definiu claramente as armas e os alvos da campanha perene de sua guerra silenciosa de longa duração: o sistema educacional, as atividades artísticas, a imprensa escrita e seus principais veículos - livros, jornais e revistas -, os intelectuais, os artistas, os professores e os estudantes.

Em suas atividades médio-alcance o programa doutrinário buscará, fornecendo uma literatura permanente e fomentando um movimento intelectual de longo prazo, para:

(1) Quebrar padrões de pensamento doutrinário em todo o mundo que forneceram uma base intelectual fértil para comunistas e outras doutrinas hostis aos objetivos americanos.

(2) Promover uma aceitação solidária mundial por homens livres da mente livre como uma solução para os problemas do mundo.

Como seu objetivo de longo prazo, o programa doutrinário dos EUA irá, com base nas realizações das atividades de curto e médio prazo, predispor mentes jovens, bem desenvolvidas, contra quaisquer novas versões do comunismo ou outras doutrinas totalitárias, e encorajar aceitação universal da filosofia e do espírito do Mundo Livre. (Programa Doutrinal D-33/2, 1953).

De acordo com as diretrizes formuladas no D-33, a CIA e a USIA foram mobilizadas para criar as condições de produção e circulação de conteúdo anticomunista e antinacionalista, sob diversos temas e áreas de conhecimento, incluindo as artes e a literatura (MOZER, 2020).

Entre as tarefas da CIA, estava a de recrutar intelectuais capazes de articular redes de financiamento e instâncias legitimadoras (revistas, jornais, galerias de arte, estúdios cinematográficos, editoras) para controle sobre a produção no campo das artes e da ciência6. À USIA cabia conectar a cultura estadunidense com as culturas dos países alvo por meio de uma rede de colaboradores capazes de difundir conteúdo anticomunista, antinacionalista e de defesa do liberalismo, elaborando táticas de interferência no debate público. Dentre as suas várias atividades, estava a publicação de livros previamente selecionados e colocados no mercado editorial por meio de editoras locais, que recebiam subsídios para a tradução e a compra de direitos autorais, além da compra, garantida pela Agência, de metade da tiragem acordada em contrato, podendo incluir, ainda, ajuda extra para a divulgação e distribuição dos títulos contratados7 (MOZER, 2020).

O indivíduo, a forma romance e a sua função ideológica na sociedade de classes

Numa sociedade de classes, indivíduo, sociedade e arte se conectam na arena da disputa por formas específicas de consciência social, nas quais o indivíduo é o elemento primordial.

Marx chama a atenção para o fato de que o indivíduo é um ser coletivo, não apenas por sua condição de ser social e político, mas por assim ser determinado pelas forças produtivas. Entretanto, na sociedade moderna - cujo estágio altamente avançado da produção não alterou a condição coletiva do indivíduo - foi realizada, pela mediação dos teóricos liberais, a ocultação da dimensão coletiva do indivíduo, transformando em natureza humana a sua condição atomizada (MARX, 2008).

Gramsci, a partir de Marx, compreendeu o ser coletivo como um

bloco histórico de elementos subjetivos e individuais, mas também de elementos de massa, com os quais está em relação ativa (...) e se a individualidade tem máxima importância, não deve ser o único elemento a ser considerado. A individualidade é, portanto, o efeito de uma série de relações, entre as quais a própria individualidade é somente uma parte (FROSINI, 2017, p. 419-423).

Em termos gramscianos, portanto, o ser coletivo é o resultado da função e da atitude de todo indivíduo, e se o fenômeno da ilusão do indivíduo isolado ganha expressão convincente nas relações sociais - como aponta Marx -, é porque sofre a predominância da mediação das classes dominantes. O indivíduo é, portanto, a base da composição do ser coletivo na sociedade de classes, o que equivale dizer que o indivíduo é a base da formação de consciência social.

Lukács, em suas formulações, conecta indivíduos à formação de consciência social destacando a importância da ideologia nas ações sociais concretas. Diz-nos ele que a ideologia existe enquanto função social, isto é, enquanto forma de elaboração ideal dos indivíduos para a sua ação concreta sobre o real. Em suas palavras: “a ideologia é sobretudo a forma de elaboração ideal da realidade que serve para tornar a práxis social humana consciente e capaz de agir” (LUKÁCS, 2013, p.465).

A política, a arte e a filosofia são, para Lukács, as formas ideológicas que agem diretamente na formação de consciência social.

...são formas mais puras de ideologia na medida em que elas não têm a intenção e nem a capacidade de exercer qualquer tipo de impacto imediato e real sobre a economia nem sobre as formações sociais a ela associadas, indispensáveis à sua reprodução social, sendo, contudo, insubstituíveis no que se refere à solução real dos problemas aqui propostos. (LUKÁCS, 2013, p.538).

São formas ideológicas, portanto, que agem na formação constante e contínua de formas de consciência social operando sobre a base dual que constitui o ser social (o indivíduo e o ser coletivo ou, nos termos de Lukács, a particularidade e generalidade do ser), mobilizadas pelas classes em disputa por projetos distintos de sociedade.

É possível, portanto, afirmar que a conexão entre indivíduo, arte e sociedade se expressa na conformação de formas de consciência social, e que essa conexão se manifesta na forma romance.

O romance, forma literária dominante na sociedade moderna e expressão estética da hegemonia burguesa, tem o indivíduo e a vida privada como centro narrativo, informando, em tons quase sempre niilistas, as características essenciais da forma social capitalista (LUKÁCS, 2009a; 2011). A tensão entre o ser e o vir a ser, no romance, é elevada ao ponto da não resolução, e o indivíduo sucumbe diante de uma realidade que não pode transformar, ainda que lute contra ela (LUKÁCS, 2009b).

Na sociedade que emergiu da Revolução Russa, a forma romance tornou-se, desde logo, uma questão central. Esteticamente, reproduzir a forma que o romance assumiu na sociedade burguesa entrava em colisão com a nova sociedade que se queria construir. Não interessava à nova sociedade uma literatura em que o indivíduo é representado como atomizado e oprimido. Era necessário uma literatura que retratasse a força transformadora do indivíduo coletivo e politizado na tarefa da construção dessa nova sociedade.

Lenin, já em 1905, chamava a atenção para a necessidade de se fomentar uma arte voltada para o povo e na valorização do povo e da revolução enquanto ação positiva e transformadora, sob a direção do Partido:

Abaixo os literatos apartidários! Abaixo os literatos super-homens! A actividade literária deve tornar-se uma parte da causa proletária geral, «um rodízio e um parafuso» de um só grande mecanismo social-democrata posto em movimento por toda a vanguarda consciente de toda a classe operária. (...) Ao trabalho, pois, camaradas! Temos perante nós uma tarefa difícil e nova, mas grande e gratificante - organizar uma actividade literária ampla, multilateral e multiforme em estreita e indissolúvel ligação com o movimento operário social-democrata. Toda a literatura social-democrata deve tornar-se partidária. Todos os jornais, revistas, editoras, etc., devem lançar-se imediatamente a um trabalho de reorganização, à preparação de uma situação em que eles sejam integrados, na base de uns ou outros princípios, numas ou noutras organizações do partido. Só então a literatura «social-democrata» se tornará de facto social-democrata, só então ela será capaz de cumprir o seu dever, só então ela será capaz, mesmo no quadro da sociedade burguesa, de escapar à escravatura da burguesia e de se fundir com o movimento da classe realmente avançada e revolucionária até ao fim. (LENIN, 1905).

Dentre as disputas entre literatos para definir as bases da nova literatura socialista, capaz de, a um só tempo, aniquilar os resíduos da sociedade arcaica czarista e os valores burgueses e dar forma a uma nova consciência social, foi ganhando corpo, ao longo da década de 1920, as bases que, na década posterior, consolidaram o realismo socialista como a estética oficial do regime soviético sob Stalin (ANDRADE, H.F., 2010; DOBRENKO, E., 2017; GARCÉS MARRERO, R., 2019).

Andrei Zhdanov, em discurso proferido no Primeiro Congresso de Escritores Soviéticos, em 1934, oficializava o realismo socialista como estética soviética.

Em nosso país, os principais heróis das obras literárias são os construtores de uma nova vida: homens e mulheres operários, e homens e mulheres das fazendas coletivas, membros do Partido, comerciantes, engenheiros, membros da Liga Comunista de Jovens, Pioneiros. Tais são os principais tipos e heróis de nossa literatura Soviética. Nossa literatura está impregnada com entusiasmo e espírito de tarefas heroicas. É otimista, mas otimista no sentido que sua essência é otimista por ser a literatura da classe do proletariado que vem se alçando, a única classe avançada e progressista. Nossa literatura soviética é forte pela virtude do fato que vem servindo a uma nova causa, a causa da construção do socialismo. (...) A literatura soviética deve ser capaz de retratar nossos heróis; deve ser capaz em vislumbrar o nosso amanhã (ZHDANOV, 1934).

O realismo socialista, como estética oficial, afastou do cenário literário soviético aqueles escritores que não quiseram ou não puderam adotar os seus preceitos. Acusados, em geral, de serem antissoviéticos, esses escritores não encontraram espaço para publicar.

Na disputa por formas de consciência social no contexto da Guerra Fria, a forma romance, pelas mãos do programa editorial estadunidense conduzido pela CIA e pela USIA, duelou com o realismo socialista soviético, pela conquista de “mentes e corações”.

O Dr. Jivago, o romance

O Dr. Jivago, romance de Boris Pasternak, suscitou interesse imediato nos círculos de agentes estadunidenses dedicados a produzir e divulgar conteúdo anticomunista.

Os motivos que fizeram a obra ter valor para as agências de inteligência estadunidenses foram os mesmos que fizeram o governo soviético rechaçá-la: o enfoque sobre o indivíduo, seu sofrimento e sua solidão diante de um processo revolucionário resumido a um amontoado de violência.

Yuri Jivago, personagem principal que dá título ao romance, tem sua vida atravessada por acontecimentos políticos que modificaram os seus planos pessoais e o levaram a uma vida de extremo sofrimento. Filho de um industrial falido e de uma jovem burguesa, fica órfão aos 6 anos de idade. É adotado por um casal de classe média, intelectuais, e com eles vive até formar-se médico. Tem como paixão a poesia, e enquanto estudante de medicina, dedica-se a publicar poemas, que são bem acolhidos pela crítica e o tornam figura literária conhecida. Por gratidão, ao formar-se, casa-se com a filha do casal que o adotou, Tônia. Durante a Primeira Guerra Mundial é obrigado a prestar serviços ao exército russo como médico. Lá reencontra Lara, que conhecera menina, de passagem, anos atrás e por quem nutriu imediata simpatia, mesmo sem trocar com ela uma única palavra. Agora enfermeira, Lara trabalha com Jivago no hospital de campanha. Eles se apaixonam, ainda que não se permitam viver um relacionamento, o que só irá acontecer muitos capítulos depois. O foco do romance não é a relação entre Jivago e Lara, embora seja a passagem mais importante da vida de Jivago. Tampouco os acontecimentos políticos, descritos apenas como catástrofes que modificam a vida privada do personagem. O mote é a biografia de Jivago, sua individualidade, seus valores, seu sofrimento.

Jivago é o personagem da burguesia russa, retratado como o indivíduo que, embora deseje a revolução burguesa, aceita passivamente a revolução proletária, resignando-se a ela; Lara, por sua vez, representa aqueles que, não sendo nem operários e nem camponeses, mas pobres e destituídos de privilégios, contam apenas com o próprio esforço para sobreviver, se equilibrando numa distância relativamente segura das contradições da sociedade, evitando aderir a qualquer um dos lados e sem apresentar qualquer identificação com a causa revolucionária. Nem Jivago nem Lara rechaçam abertamente a Revolução, mas ambos se consideram vítimas das consequências de sua eclosão e não nutrem por ela qualquer admiração ou identificação. A partir de suas individualidades, buscam sobreviver a um ambiente hostil.

Por meio da relação que Yuri e Lara estabelecem entre si e com os outros personagens, Pasternak constrói a sua crítica à história da Rússia/URSS na primeira metade do século 20. Não o faz de uma maneira inteiramente negativa e nem adota um tom explicitamente anticomunista, mas relativiza a importância da Revolução ao considerar a sociedade por ela construída aquém dos propósitos que lhe deram origem.

A maneira como os acontecimentos revolucionários de 1917 e o período da Guerra Civil são retratados no romance, provocam no leitor a ideia de que o impacto de uma revolução sobre a vida cotidiana dos indivíduos é negativo, e por isso não vale a pena o esforço em fazê-la. A mensagem é que revoluções prometem um novo mundo que não podem entregar: a teoria revolucionária é falaciosa, a violência empregada fecha-se em si mesma e o indivíduo é aniquilado.

Era a revolução, não a revolução idealizada pelos estudantes, como em 1905, mas a revolução presente, sangrenta, a revolução militar, que desprezava tudo e que os bolcheviques dirigiam, como únicos a apreender o sentido da tempestade8.

As revoluções produzem homens de ação, fanáticos, munidos de orelheiras[sic], gênios limitados. Em algumas horas, em alguns dias, derrubam a velha ordem das coisas. As revoluções duram semanas, anos, depois, durante dezenas e centenas de anos, adora-se como algo sagrado aquele espírito de mediocridade que as suscitou9.

Incapaz de produzir as mudanças prometidas, a revolução produziria austeridade e alienação:

Então, também ouviste dizer que o futuro não nos reserva nada de bom? Dificuldades, perigo, o imprevisível...10

Mas, desde que se haviam levantado os humildes, desde que haviam sido abolidos os privilégios da alta sociedade, todos se descoloriram; cada qual renunciara sem pesar a uma originalidade de pensamento que realmente nunca tivera.11

A violência é um elemento importante na narrativa, um quase personagem, assumindo formas distintas. Ora resultado das disputas entre Brancos e Vermelhos, ora como política de controle do Estado socialista sobre o conjunto da sociedade.

O doutor pensou no derradeiro outono: a execução dos conjurados, a morte da mulher e dos filhos de Palynkh, os massacres sangrentos, aquela matança cujo fim não se previa. Os Brancos e os Vermelhos rivalizavam então em crueldade: graças a um jogo de represálias, de sobrelanço [sic], suas atrocidades não cessavam de crescer. Tinha-se náusea do sangue. Refluía ele à garganta, subia à cabeça, afogava os olhos. E Livéri chamava a isso ‘lamentar-se’. Ah, era bem outra coisa! Mas como explicar-lha? 12.

Deves absolutamente voltar para junto dos teus. Não te guardarei comigo um dia mais. Mas vês bem o que se passa. Assim que fomos reunidos à União Soviética, sua miséria passou a devorar-nos. Tapam-se os buracos graças à Sibéria e ao Extremo Oriente. Porque tu não sabes de nada. Durante tua doença, houve tantas modificações na cidade! Enviam-se as reservas de nossos armazéns para o centro, para Moscou. Para ela, é uma gota d’água no oceano, os carregamentos de provisões desaparecem nela como num tonel furado e nós, nós ficamos sem abastecimento.13

A teoria revolucionária, falaciosa, não poderia dar origem a uma verdadeira revolução:

O marxismo e a ciência? Discutir-lhe a respeito com alguém que mal se conhece é pelo menos imprudente. Mas tanto pior! O marxismo domina a si mesmo demasiado mal para ser uma ciência. As ciências, em geral, são mais equilibradas. O marxismo e a objetividade? Não conheço corrente mais concentrada em si mesma e mais afastada dos fatos que o marxismo. Cada qual se preocupa em verificar suas ideias pela experiência, ao passo que os homens do poder, esses, fazem o que podem para dar as costas à verdade em nome dessa fábula que forjara, sobre a sua própria infalibilidade. A política nada me diz. Não gosto das pessoas que são indiferentes à verdade14.

Mas não foram apenas o enfoque no indivíduo, as posições críticas à Revolução e uma construção narrativa à margem do realismo socialista que tornaram o romance tão atraente aos propósitos políticos dos Estados Unidos e demais potências capitalistas, mas também todo o contexto que envolveu a sua criação. Os percursos do escritor e do romance se entrelaçaram no ambiente da Guerra Fria.

Boris Pasternak era um poeta que não encontrava espaço para publicar por não aderir ao realismo socialista, embora tivesse prestígio entre estudantes e literatos e fosse conhecido no exterior como um talentoso poeta russo. Para sobreviver, abdicou de sua produção autoral e tornou-se tradutor das obras de Shakespeare, Goethe, Schiller. Em 1954, após a morte de Stalin e a relativa flexibilização política daí decorrida, a revista literária Znamya publicou alguns de seus poemas inéditos, e anunciou que faziam parte de um romance no qual o autor trabalhava há 10 anos15, e cuja edição poderia acontecer em breve. Aos olhos de Pasternak, abria-se a possibilidade para a publicação de O Dr. Jivago.

O livro chegou às mãos do editor italiano Gian Giacomo Feltrinelli por suas ligações com o Partido Comunista Italiano. Um camarada, Sergio D’Angelo, que na ocasião ocupava um posto na Rádio Moscou, comprometeu-se com Feltrinelli a buscar uma obra literária soviética para a sua recém-criada editora instalada em Milão. Ao tomar conhecimento da existência do romance inédito de Pasternak anunciado pela revista, pareceu, a D’Angelo, uma boa oportunidade comercial a oferecer a Feltrinelli, que o autorizou a fazer a negociação para a publicação do romance.

Pasternak considerou seu romance concluído em finais de 1955 e o enviou à casa editora soviética para avaliação. A visita de D’Angelo à sua casa, ocorrida em maio de 1956, coincidia com os cinco meses de silêncio da casa editorial acerca do seu pedido de publicação. Pasternak já não considerava possível editar seu romance na URSS, e aceitou a proposta de D’Angelo e os riscos que a publicação do romance no exterior representava.

Com o interesse demonstrado pelo editor italiano e usando o silêncio das autoridades soviéticas a seu favor, Pasternak, longe de ser um mero autor enredado nas tramas da Guerra Fria - assim sugerem as cartas trocadas entre o autor e Feltrinelli - construiu habilmente a viabilidade da publicação do romance: no acordo com Feltrinelli, exigiu que este se comprometesse a enviar os manuscritos a editores importantes de outros países europeus, especialmente França e Inglaterra. Como veremos, a articulação de Pasternak para que o romance ganhasse visibilidade coincidiu com os planos da CIA16.

Importante frisar, neste ponto, que Pasternak construiu uma rede de contatos com intelectuais europeus, principalmente ingleses, ao se estabelecer como o principal tradutor soviético das obras de Shakespeare ao longo das décadas de 1930 e 1940. Acadêmicos de Oxford estavam entre os principais divulgadores do poeta na Inglaterra, editando suas obras e, por algumas vezes, indicando-o ao Prêmio Nobel de Literatura, aspecto essencial para a boa receptividade de O Dr. Jivago na Europa17.

O Dr. Jivago chegou às livrarias italianas em 23 de novembro de 1957 e rapidamente tornou-se um sucesso de vendas na Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos. Poucos meses depois da primeira edição em italiano, em 1958, Pasternak foi indicado e agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra, concorrendo com os escritores Alberto Moravia, italiano, e Ezra Pound, estadunidense.

Uma ampla cobertura da imprensa ocidental acompanhou em pormenores o lançamento do livro, a premiação e a reação negativa da URSS, pautando o debate e moldando a opinião pública de forma a consolidar o romance como uma grande obra literária, e a reação negativa da URSS à publicação e ao prêmio, como censura18.

A grande maioria das matérias que abasteceram a imprensa mundial provinha das principais agências de notícias europeias e estadunidenses (UPI, AP, AFP, Reuters)19e, nos bastidores, do suporte das agências de inteligência e informação dos Estados Unidos e Grã-Bretanha (CIA, USIA, MI6), que viam no romance potencial de uso como arma ideológica anticomunista.

A edição brasileira de O Dr. Jivago saiu pela Editora Itatiaia em dezembro de 195820, e logo surgiram as notícias sobre tiragem e volume de vendas. O Jornal do Brasil informava que os 50 mil exemplares em preparo pela Itatiaia já estavam vendidos antes mesmo de chegarem às livrarias 21.Três dias depois, O Globo noticiava que a primeira edição em português teria uma tiragem de 40 mil exemplares, dos quais trinta e sete mil já haviam sido vendidos, e que diante da alta procura, a tiragem poderia chegar a 100 mil exemplares22.Com apenas uma semana de lançamento, a venda ultrapassava os 5 mil exemplares em São Paulo23.

A coluna Porta de Livraria anunciava O Dr. Jivago como primeiro lugar em vendas na categoria livros estrangeiros, posição que vai ocupar até a segunda quinzena de julho de 1959, segundo a coluna. Informava, ainda, que as tiragens haviam se esgotado em livrarias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, e que leitores pagavam adiantado na espera de nova remessa.24

O destaque para o sucesso de vendas incluiu a comparação com o mercado estadunidense: ali, em dois meses, foram vendidos 50 mil exemplares antes do Prêmio Nobel, passando aos 365 mil exemplares vendidos em um único mês após a premiação. No fechamento do ano, em dezembro, a editora Pantheon afirmava ter vendido meio milhão de exemplares desde o lançamento do livro. No Brasil, “em menos de um mês, a Itatiaia vendeu 50.000 exemplares e está, no momento, preparando nova edição, também de 50.000, que julga poderá estar esgotada em fins de fevereiro próximo.” (O Globo, 1959)25.

Em 1960 a Coluna Porta de Livraria comemorava seus 4 anos de existência e relembrava os livros mais vendidos desde que iniciou o levantamento desses dados. O Dr. Jivago vendeu, entre dezembro de 1958 e 14 de dezembro de 1960, 80 mil exemplares, ocupando o segundo lugar de livro mais vendido no Brasil, no período (o primeiro lugar pertencia a Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado)26.

Em 1965, a Porta de Livraria trazia mais um ranking: foi o romance estrangeiro que maior quantidade de exemplares vendeu em menor tempo no Brasil: 30 mil exemplares em menos de um mês, o que obrigou a Itatiaia a imprimir às pressas novos exemplares27.

O Dr. Jivago, uma arma política para a Guerra Fria

A Operations Coordinating Board, OCB, destinou à CIA a responsabilidade sobre as operações sigilosas relacionadas ao romance, sob a recomendação expressa de explorá-lo “como literatura, não como propaganda da Guerra Fria” (FINN, P; COUVÉE, P., 2014, s. p). O objetivo maior era a garantia da circulação mundial do livro e, se possível, torná-lo um best-seller agraciado com o Prêmio Nobel.

O manuscrito em russo do romance chegou às mãos da CIA em janeiro de 1958, fornecido pela agência de inteligência britânica, e ficou a cargo da Divisão da Rússia Soviética da Agência28.

A mensagem humanista de Pasternak - que toda pessoa tem direito a uma vida privada e merece respeito como ser humano, independentemente da extensão de sua lealdade política ou contribuição ao Estado - representa um desafio fundamental à ética soviética de sacrifício do indivíduo para o sistema comunista. Não há apelo à revolta contra o regime no romance, mas a heresia que o Dr. Jivago prega - passividade política - é fundamental. Pasternak sugere que as pequenas pessoas sem importância que permanecem passivas às demandas do regime por participação ativa e envolvimento emocional em campanhas oficiais são superiores aos “ativistas” políticos favorecidos pelo sistema. Além disso, ele ousa sugerir que a sociedade pode funcionar melhor sem esses fanáticos29.

As linhas de atuação foram então desenhadas: a publicação do livro em inglês, com edição simultânea em Nova York e Londres, a negociação da compra dos direitos de tradução para diversos idiomas, a garantia de publicação em diversos países, ampla cobertura jornalística especializada e o contrabando de uma quantidade significativa de exemplares do livro em russo para dentro da URSS e países socialistas. Dadas as características altamente sigilosas do conjunto das operações envolvendo a publicação do romance, a participação da USIA foi cautelosa.

A publicação do livro em inglês já estava acordada com a Pantheon Books, de Nova York, tornando-a, segundo as leis estadunidenses, apta a ser inserida nas atividades da Agência. Enquanto a cópia em inglês era aguardada, o Voice of America, VOA, programa de rádio da USIA, fez uso do livro editado em italiano, selecionando partes específicas para os programas.

Do posto USIS Roma30 chegavam informações sobre o impacto da publicação na Itália: o livro rapidamente se tornou um fenômeno de vendas. Apenas quatro meses após seu lançamento, a obra havia alcançado seis edições e aproximadamente 30 mil cópias, “um número fenomenalmente alto para a Itália”31.

Para balizar suas decisões sobre a inserção ou não do livro no programa de traduções, a USIA encomendou dois estudos sobre a obra: um datado de 7 de janeiro e outro de 16 de setembro de 195832.

Ambos os estudos coincidem na recomendação para a inserção do livro no programa, mas alertam para os limites de atuação da Agência.

O romance não pode ser considerado um romance totalmente antissoviético, mas viola todos os clichês da linha do partido. (...) as características que o tornam interessante são pelo menos três: primeiro, o romance lida com pessoas burguesas; não há nada no antigo romance russo branco apresentando uma visão lacrimosa da velha aristocracia reduzida à miséria, degradação ou exílio. Em segundo lugar, o romance apresenta a Revolução como algo que acabou de acontecer e apresenta-a como um mal, assim como a guerra ou a fome são más. Terceiro, mostra que o amor e a poesia não têm direito de asilo em uma revolução e no regime que a segue. (...) A afirmação básica do romance, de que o amor e a poesia não têm chance em uma revolução marxista, é em si mesma de suma importância, especialmente quando pensamos que a afirmação é feita pelo maior dos poetas comunistas33.

O livro deve ser amplamente utilizado em todos os programas da Agência. A posição do autor na literatura soviética, o brilhantismo do livro, o fato de não ser um livro assumidamente político, o fato de ainda não ter sido publicado na Rússia porque o regime teme entregá-lo aos leitores russos (...), tudo o torna um item de programa mais eficaz. (...) Todo esforço deve ser feito para colocar cópias dos livros nas mãos [das] pessoas em todo o mundo34.

O livro foi incluído no programa de tradução sob uma série de cuidados para ocultar a participação das agências estadunidenses. A publicação do livro em inglês, primeiro passo para inclusão no programa de tradução, ficou sob responsabilidade da CIA, e saiu simultaneamente pela Pantheon Books, Nova York, e Collins and Harvill Press, Londres, em 1958. À Pantheon Books coube intermediar a venda dos direitos de tradução subsidiados pela CIA/USIA, o que resultou na publicação do livro em diversas línguas (português, francês, alemão, finlandês, hebreu, espanhol, iugoslavo, dinamarquês, norueguês, sueco, holandês)35. Todas as ações para contratar resenhas, direitos de tradução e pedidos de publicação, resumos para periódicos e etc. ficaram a cargo da CIA36.

Em 13 de outubro de 1958 a USIA enviou a todos os postos USIS aí incluso o USIS Rio de Janeiro, as recomendações para divulgar o livro e frisava a importância d’O Dr. Jivago ser equivalente às grandes obras russas como Guerra e Paz. Não era um livro político, mas um apelo à liberdade individual37.

Entretanto, o anúncio da concessão do Prêmio Nobel de Literatura a Pasternak em 23 de outubro de 1958, provocou modificações nas recomendações da USIA. O apoio, mais do que nunca, deveria ser discreto e ocultar qualquer participação da Agência em ações de promoção ou subsídios para publicação no exterior. Recomendava, a Agência, facilitar para que a imprensa local escrevesse sobre o livro, seu autor e o Prêmio Nobel numa perspectiva pró-estadunidense, mas de maneira a evitar que a URSS sustentasse a sua acusação de que o Prêmio fora uma manipulação dos EUA38.

À medida que as acusações de que os Estados Unidos haviam interferido na premiação de Boris Pasternak ganhavam força, orientações recomendando discrição no envolvimento em publicações e promoções do livro no exterior, dadas pela Agência aos seus postos, evoluíram para a proibição de qualquer envolvimento que deixasse pistas ou motivos para alimentar as acusações. Em boletim interno da Agência datado de 4 de novembro de 1958 há uma notificação explícita: “todas as missões foram lembradas da necessidade de se abster de atividades atribuídas ao lidar com a história de Pasternak que possam contribuir para os objetivos da propaganda soviética”39. As orientações eram trabalhar apenas os aspectos literários da obra, ou, como estava fazendo o VOA, apenas “noticiar” sem gerar comentários. “Sugere-se que, se alguma ação for necessária, ela deve ser apenas um incentivo discreto aos escritores ocidentais e outros intelectuais para manter a história viva”40.

Uma circular dirigida a todos os postos USIS era enfática: a Agência tomou a decisão de não se envolver na publicação ou promoção da obra Dr. Jivago no exterior e, portanto, os postos não estavam mais autorizados a proceder nesse sentido41. As recomendações, importante frisar, não significavam a saída da Agência do trabalho de divulgação de O Dr. Jivago, mas, tão somente, ocultar a sua participação.

A ação discreta da USIA se exerceu na imprensa. “O desejo da Agência é que os postos garantam a mais ampla disseminação de dados (...) para complementar as informações que alcançam grupos-alvo por meio de outras fontes...”, dizia a circular enviada ao posto USIS Rio de Janeiro em 28 de outubro de 1958.42

Num curto espaço de tempo, graças às notícias enviadas pelas agências de notícias estadunidenses e europeias, e com a discreta e encoberta participação da USIA, a imprensa brasileira abasteceu seus leitores com farto material envolvendo o romance e seu autor. Os títulos das matérias eram cuidadosamente criados para chamar a atenção do público: “Pasternak no ‘index’ soviético”, Correio da Manhã, 21 de dezembro de 1957; “Declarações (ousadas) de Pasternak: Não sou um ideólogo, sou um poeta e um homem de letras. Não acredito no materialismo dialético, creio em Deus. Os séculos são degraus para os passos de Deus. A bíblia é meu livro de cabeceira”, Correio da Manhã, 15 de março de 1958; “Pasternak e a censura soviética”, O Estado de S. Paulo, 10 de agosto de 1958; “Pasternak, ovelha negra de um rebanho vermelho”, O Estado de S. Paulo, 16 de novembro de 1958. Estes são alguns dos muitos exemplos coletados na pesquisa43.

Não por acaso, o material disseminado pela imprensa coincidiu com as orientações fornecidas pela USIA: frisar a importância do livro como obra equivalente às grandes obras russas, em especial o romance de Tolstói, Guerra e Paz; dar ênfase às perseguições sofridas pelo autor e tratá-lo como um mártir do “Estado Totalitário”; e destacar que o livro valoriza o amor e a liberdade, valores tratados como incompatíveis com o regime soviético44.

Os intelectuais orgânicos das classes dominantes, nos termos de Gramsci, não deixaram de notar a utilidade política do romance, produzindo discursos ou artigos que vinculavam Pasternak e a política soviética ao cenário político brasileiro de então. O Senador Mem de Sá45 fez um pronunciamento na casa legislativa “contra a brutalidade do materialismo soviético”: o caso Pasternak “revela a substância do regime que a propaganda apresenta aos povos fracos, como ideal para o desenvolvimento e a libertação das nações vítimas dos trustes”46. Na Câmara dos Deputados, o deputado Lincoln Feliciano47 declarava: o romance O Dr. Jivago era um romance anticomunista, “um grito de dor contra os governos de força”, e recomendava a sua leitura “aos desconsolados políticos do Brasil”48.

Gustavo Corção, porta voz dos segmentos conservadores ligados à igreja católica, em artigo denunciando a perseguição de intelectuais pelo regime fascista de Salazar, lembra Pasternak e a perseguição por ele sofrida, igualando o regime soviético ao fascismo português, sem perder a oportunidade de incluir a “ameaça interna”: “imagine um general Lott a mandar nas consciências, a pontificar em filosofia, em ciência, em literatura. Imagine o chicote como símbolo de governo, e na mão desses homens que respeitam os símbolos, mas esquecem-se de respeitar as coisas significativas.49

A importância de Boris Pasternak estava “não como ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1958; não como autor de Dr. Jivago [sic]; não como um dos grandes escritores da época, mas, por simbolizar um mártir da liberdade do pensamento e mostrar, aos que ainda não crêem, o que realmente existe atrás da Cortina de Ferro”50.

Considerações finais: e assim a subjetividade entrou na guerra

A Guerra Fria, compreendida como uma etapa da expansão do capitalismo estadunidense e defesa do sistema capitalista em si, leva-nos a defini-la como um fenômeno histórico composto de múltiplas dimensões que se amalgamam e se expressam em ações políticas, econômicas, militares e culturais. A separação das dimensões na análise do fenômeno indica, apenas, um recurso metodológico para o esforço de compreendê-lo sem, no entanto, apartá-lo da noção do todo que o constitui.

O programa editorial aqui analisado, concebido pelo Conselho de Segurança Nacional e executado, entre outras, pela CIA e USIA, insere-se nesse objetivo: demonstrar como a dimensão cultural da Guerra Fria foi articulada às demais dimensões do fenômeno na estratégia elaborada pelos EUA após o término da Segunda Guerra Mundial.

A forma romance tem, por suas características, a possibilidade de tocar a subjetividade e moldar visões de mundo. É na perspectiva da conformação de formas específicas de consciência social que o programa editorial foi concebido e executado.

O programa editorial teria alcançado seus objetivos utilizando romances? Se analisada de forma isolada, a pergunta pode suscitar dúvidas. Entretanto, o romance representou uma tática de ingerência sobre a subjetividade. Junto aos romances de caráter anticomunista havia coleções de títulos sobre economia e política que apresentavam o sistema capitalista como a melhor forma de organização social. Esses títulos, assim como de outras áreas do conhecimento, entravam nos circuitos universitários, eram resenhados em revistas especializadas, comentados e anunciados na imprensa, objeto de palestras públicas, enfim, no circuito da circulação de ideias, de maneira a alcançar o indivíduo em todas as esferas de sua existência. Entre elas não podemos deixar de citar, como recurso complementar ao programa editorial, a ingerência sobre a produção audiovisual, contando com a poderosa indústria de Hollywood, e sobre a produção e circulação de notícias em geral, pela imprensa.

Atentar para o fato de que o programa editorial aqui apresentado foi pensado em articulação com outras ações culturais e com ações coercitivas nos campos da política, economia e militar, potencializa a sua importância para a compreensão do que foi a Guerra Fria em sua totalidade.

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Notas

2 Os historiadores ligados à Escola de Wisconsin foram William Appleman Williams, Lloyd Gardner, Walter LaFeber, Thomas McCormick e Patrick Hearden.
3 Gramsci utiliza o conceito de hegemonia também para pensar as relações de poder entre Estados: a supremacia de um Estado sobre outros numa dada estrutura global se dá pela combinação dos poderes econômico, militar e ideológico. Ver FONTANA in COUTINHO, 2003.
4 History of the NSC, 1947-1997. National Archives Record Administration, NARA II, RG 273.
5 A PSB foi substituída, em 1953, pela Operations Coordenating Board - OCB, que manteve as mesmas funções de sua antecessora.
6 Dentre as suas ações no campo cultural, todos encobertos e realizados através de instituições que serviam de fachada, o Congresso pela Liberdade da Cultura e as suas inúmeras revistas é o mais conhecido, mas a atuação da Agência não foi menos significativa na edição e distribuição de livros. Ver SAUNDERS, F.S., 2008; WILFORD, H., 2008.
7 De acordo com os números oficiais da USIA, disponibilizados noscatálogosBooks Published Abroad, e os diversos relatórios avulsos produzidos pela Agência ao longo do período de 1953 a 1968, foram subsidiados aproximadamente 12.661 títulos de livros e 97 milhões de cópias ao todo, incluindo países de todos os continentes. Apenas no Brasil, neste mesmo período, a USIA subsidiou aproximadamente 1.400 títulos e 8 milhões de cópias.
8 O narrador em O Dr. Jivago, 5ª ed. Itatiaia, 1968, p. 152.
9 O narrador, ibidem, p. 431.
10 Tônia para Jivago, ibidem, p. 161.
11 O narrador, ibidem, p. 165.
12 Pensamentos de Jivago sobre a Guerra Civil, ibidem, p. 353.
13 Lara explica para Jivago a política de abastecimento da recém-criada URSS. Ibidem, p. 376.
14 Jivago em diálogo com Samdeviadov, ibidem, p.246-247.
15 Os poemas foram elaborados para serem parte da produção poética do personagem principal do romance em construção, O Dr. Jivago.
16 O trabalho investigativo de Finn e Couvée (2014) sugere que Pasternak não só tinha consciência dos riscos que implicava enviar seu romance para publicação no exterior, como soube jogar o jogo da Guerra Fria. Primeiro, a morte de Stálin e a abertura política que se seguiu, tornaram possível a presença de estrangeiros no país; segundo, a URSS redobrava cuidados para melhorar a sua imagem após as revelações dos crimes de Stálin; terceiro, sendo Pasternak conhecedor ou não do interesse dos EUA em publicar livros de soviéticos descontentes com a Revolução, é absolutamente plausível que soubesse que o tom de seu livro despertaria o interesse político das potências capitalistas. Ao saber-se conhecido no mundo literário europeu, ainda que circunscrito à academia, e que esse círculo acadêmico se empenhava em torná-lo a voz da poesia não socialista, Pasternak, ao oferecer sua obra a Feltrinelli e, através dele, às editoras da França e Inglaterra, conseguiu o salvo-conduto necessário para resistir à desaprovação e às pressões do governo soviético. Em sua pesquisa, Finn e Couvée (2014) investigam todo o processo de publicação da obra na Europa.
17 Pasternak foi indicado ao Prêmio Nobel em 1946 e em 1947 por sua obra poética. Entre 1946 e 1950, seu nome aparecia entre os considerados para indicação. Voltou a ser indicado em 1957 e em 1958, ano em que finalmente ganhou. Ver FINN, P., COUVÉE, P., 2014. Não há, ainda, documentação comprobatória do envolvimento da CIA na escolha de Pasternak ao Prêmio Nobel, mas há fortes indícios nesse sentido, o que torna a questão uma hipótese de trabalho plausível.
18 Para alguns estudiosos e críticos ocidentais, o romance era uma obra de arte, um exemplo da tradição literária russa, resgatada pelo “corajoso” escritor, ainda que sob ameaças do governo soviético. Para os dirigentes soviéticos, o romance não representava o povo e nem a Revolução, sendo peça literária de baixa qualidade, servindo apenas à propaganda ideológica do ocidente, e Pasternak não passaria de um autor ressentido e inconformado com sua mediocridade literária. O Prêmio Nobel dado a Pasternak também foi rechaçado pela URSS como recurso ideológico, concedido a um escritor russo menor e a uma obra de qualidade literária diminuta, cuja premiação atendia aos interesses políticos dos Estados Unidos. Ver FINN, P., COUVÉE, P., 2014. Um levantamento na imprensa brasileira e a documentação estadunidense confirmam o amplo trabalho de valorização do romance via imprensa.
19 Respectivamente: United Press International, Associated Press e Agence France-Press.
20 Não foi encontrada documentação sobre o envolvimento do posto USIS Rio de Janeiro nas negociações para a publicação, mas no memorando de 28 de outubro de 1958 há a afirmação de que a editora Pantheon, parceira das agências USIA e CIA, cuidava da tradução para o português. A editora Itatiaia, por sua vez, já era parceira ativa do posto USIS Rio de Janeiro no programa de traduções naquela ocasião. Language editions of Dr. Zhivago, October 28, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
21 DR. JIVAGO vai chegar às livrarias com a edição já esgotada. Jornal do Brasil, 18 dez. 1958, p.8.
22 AMANHÃ, Dr. Jivago. Porta de Livraria. O Globo, 19 dez. 1958, matutina, geral, p. 10.
23 VENDIDOS 5000 exemplares do Dr. Jivago em São Paulo. O Globo, 29 dez. 1958, vespertina, geral, p. 8.
24 OSBEST-SELLERS da quinzena. Porta de Livraria. O Globo, 31 dez. 1958, matutina, geral, p. 2.
25 A CARREIRA de Jivago. Porta de Livraria, O Globo, 18 jan. 1959, matutina, geral, p.7.
26 QUATRO anos de best-sellers. Porta de Livraria, O Globo, 14 dez. 1960, matutina, geral, p. 16.
27 O MAIS vendido. Porta de Livraria, O Globo, 14 dez. 1965, matutina, geral, p. 18.
28 FINN, P.; COUVÉE, P., 2014. Informam ainda que a Divisão da Rússia Soviética era formada por russo-americanos cujas famílias haviam fugido da Revolução.
29 John Maury, chefe da Divisão da Rússia Soviética da CIA, em memorando de janeiro de 1958, apud FINN, P.; COUVÉE, P.
30 United States Information Service, USIS, eram postos de serviço da USIA no exterior.
31 Il Dottor Zivago by Boris Pasternak, March 4, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
32 Não há menção à autoria dos estudos, e a semelhança entre eles é enorme, podendo tratar-se da mesma autoria. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. ARC 4700237. Box 2.
33 Contract Review, January 7, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. Box 2.
34 Contract Review, September 16, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
35 Language editions of Dr. Zhivago, October 28, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. ARC 4700237.Box 2.
36 Documento de 28 de outubro de 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
37 Outgoing Message, October 13, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. ARC 4700237.Box 2.
38 Circular, October 28, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
39 “Missões” diz respeito às missões diplomáticas. “Atividades atribuídas” são aquelas que permitem identificar a participação dos EUA. Daily Summary, November 4, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. ARC 4700237.Box 2.
40 Daily Summary, November 4, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237. Box 2.
41 Book Translation Program. Documento endereçado a todos os postos USIS, November 13, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27. ARC 4700237. Box 2.
42 Circular, October 28, 1958. In: NARA II, RG 306. Entry P 27.ARC 4700237.Box 2.
43 Entre novembro de 1957 e dezembro de 1968, a imprensa brasileira publicou, aproximadamente, 2.450 textos (entre notas, notícias, artigos e matérias) sobre Boris Pasternak e seu romance, sendo a grande maioria entre os meses finais do ano de 1958 e meses iniciais do ano de 1959, devido ao Prêmio Nobel. Foram consultados os acervos de O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Última Hora.
44 A imprensa brasileira deu enorme destaque à reação da URSS frente à publicação do livro e à sua premiação. Às notícias que informavam as acusações feitas pelo governo soviético ao “caso” Pasternak, como manipulação política da CIA, o material jornalístico ocidental rebatia como sendo mais uma das falácias do “Estado Totalitário”. Ver, por exemplo: JORNALISMO reacionário o livro de Pasternak, diz o Pravda. O Globo, 27 out., 1958, vespertina, geral, p. 8. A RÚSSIA protesta contra Prêmio Nobel dado a Pasternak. O Globo, 25 out., 1958, matutina, geral, p. 16. FRUSTRADOS os esforços de Moscou para impedir a publicação de O Dr. Jivago. O Globo, 14 nov., 1958, matutina, geral, p. 3. ATAQUE da imprensa soviética. OEstado de S. Paulo, 25 out., 1958, p.8. LIBELO da imprensa russa contra Boris Pasternak. O Estado de S. Paulo, 26 de out., 1958, p. 12. EHRENBURG qualifica Pasternak de romancista medíocre. O Globo, 25 nov., 1959. SHOLOKHOV fala do Prêmio Nobel e critica Pasternak. O Globo, 1 dez., 1965, matutina, geral, p. 9.
45 Senador pelo Rio Grande do Sul, eleito em 1954 na legenda da Frente Democrática, coligação organizada pelo Partido Social Democrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN) e o PL. Fonte: CPDOC. Disponível em: https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/dicionarios/verbete-biografico/sa-mem-de. Acesso em 10 jul. 2023.
46 Coluna O Legislativo em Ação. Críticas à URSS pela perseguição contra Pasternak. O Estado de S. Paulo, 07 de nov., 1958, p. 4. No mesmo dia, a mesma coluna publica o mesmo pronunciamento em O Globo.
47 Deputado Federal por São Paulo de 1946 a 1953 e 1959 a 1971.Fonte: CPDOC. Disponível em: https://www18.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/silva-lincoln-feliciano-da. Acesso em 10 jul. 2023.
48 Coluna O Legislativo em Ação. O Globo, 15 de jan., 1959, matutina, geral, p. 12.
49 CORSÃO, G. A prisão de ilustres portugueses. O Estado de S. Paulo, 30 nov., 1958, s.p.
50 A MORTE de Pio XII, o maior dos grandes acontecimentos de 1958. O Globo, 02 de jan., 1959, matutina, geral, p. 5.


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