A GEOGRAFIA ESCOLAR FRENTE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: DESAFIOS E PROPOSIÇÕES

SCHOOL GEOGRAPHY IN FRONT OF RELIGIOUS INTOLERANCE: CHALLENGES AND PROPOSALS

LA GEOGRAFÍA ESCOLAR FRENTE A LA INTOLERANCIA RELIGIOSA: DESAFÍOS Y PROPOSICIONES

MARCOS DA SILVA ROCHA
Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará, Brasil

A GEOGRAFIA ESCOLAR FRENTE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: DESAFIOS E PROPOSIÇÕES

GEOSABERES: Revista de Estudos Geoeducacionais, vol. 9, núm. 18, 2018

Universidade Federal do Ceará

Todos os direitos reservados.

Recepção: 10 Novembro 2017

Aprovação: 10 Março 2018

Resumo: Conflitos envolvendo religião têm assumido cada vez mais visibilidade na agenda de discussão internacional. Diversos acontecimentos trágicos são motivados constantemente, também, por razões que tocam a intolerância religiosa. Não há como negar a relevância do fator religioso para a identidade da nação e do indivíduo, deste modo, é indispensável debater até que ponto o dogmatismo e o fundamentalismo religioso estão ferindo a dignidade humana. O foco deste artigo é pontuar os resultados do debate sobre intolerância religiosa em uma escola de ensino médio entendendo o estudante como um indivíduo religioso (ou não) que vive em um bairro aonde também irão existir casos de intolerância religiosa. Dialoga-se também com as diretrizes propostas pela escola sobre o tema. Por fim, uma atividade reflexiva e mediada é proposta para que sirva de base para as discussões e práticas de tolerância religiosa.

Palavras-chave: Geografia Escolar, Religião, Educação, Ensino Médio.

Abstract: Conflicts involving religion have become increasingly visible in the international discussion agenda. Several tragic events are constantly motivated, too, for reasons of religious intolerance. There is no denying the relevance of the religious factor to the identity of the nation and the individual, so it is essential to debate to what extent dogmatism and religious fundamentalism are hurting human dignity. The focus of this article is to score the results of the debate on religious intolerance in a secondary school by understanding the student as a religious person (or not) living in a neighborhood where there will also be cases of religious intolerance. It also discusses the guidelines proposed by the school on the subject. Finally, a reflexive and mediated activity is proposed to serve as a basis for discussions and practices of religious tolerance.

Keywords: School Geography, Religion, Education, High School.

Resumen: Conflictos que involucran la religión han asumido cada vez más visibilidad en la agenda de discusión internacional. Varios acontecimientos trágicos son motivados constantemente, también, por razones que tocan la intolerancia religiosa. No hay como negar la relevancia del factor religioso para la identidad de la nación y del individuo, de modo que es indispensable debatir hasta qué punto el dogmatismo y el fundamentalismo religioso están dañando la dignidad humana. El enfoque de este artículo es puntuar los resultados del debate sobre intolerancia religiosa en una escuela secundaria entendiendo al alumno como individuo religioso (o no) que vive en un barrio donde también existirán casos de intolerancia religiosa. Se discute con las directrices propuestas por la escuela sobre el tema. Por fin, una actividad reflexiva y mediada es propuesta para que sirva de base para las discusiones y prácticas de tolerancia religiosa.

Palabras clave: Geografía Escolar, Religión, Educación, Escuela Secundaria.

INTRODUÇÃO

Imagine que você sentou em seu sofá e acabou de ligar a televisão disposto a se informar sobre as últimas notícias. Acomodado, naturalmente, você vai sintonizar um canal para ver um noticiário. Não é caso raro ou acontecimento isolado ver no telejornal notícias que tratam direta ou indiretamente dos conflitos armados e violentos que envolvem o Oriente Médio, algumas regiões da Europa e também da África. Não é mais causa de surpresa deparar-se com o temário da guerra e do terrorismo nessas regiões. Partindo do histórico conflito entre Palestina e Israel até aos mais recentes atentados do autoproclamado Estado Islâmico – organização extremista islâmica não reconhecida pela comunidade internacional e que vem protagonizando verdadeiros atos de horror – já estão se tornando notícias corriqueiras.

Atentados no coração dos EUA em setembro de 2001, guerra no Iraque nos anos seguintes, em novembro de 2015 temos parisienses assassinados, terror generalizado. Encontramos ainda um cenário caótico na Síria, no Afeganistão e na Nigéria. Em muitos países aumenta a cada dia o número de refugiados. Essas pessoas ainda encontram uma Europa que fecha as portas diante, ao mesmo tempo o Boko Haram avança por mais regiões da África ao mesmo tempo em que a Rússia comanda uma ofensiva aérea contra o já citado Estado Islâmico fazendo com que este declare uma Guerra Santa, e tudo isso perante as mediações, em grande parte das vezes, sem sucesso da Organização das Nações Unidas -ONU. Os exemplos retromencionados servem para mostrar que não são escassos os acontecimentos que envolvem essa verdadeira geopolítica do terror. Todavia é importante destacar que todos esses acontecimentos possuem vieses religiosos envolvidos (direta ou indiretamente), mesmo questões político-econômicas e territoriais tendo peso substancial nos acontecimentos.

O desafio da tolerância perpassa também por questão de ordem étnica, socioeconômicas, genéticas, etc. Conviver com as diferenças não é tarefa fácil na sociedade atual. Existem múltiplas intolerâncias! Diante desses fatos, é impossível negar o peso de estudar o fenômeno religioso para a compreensão do mundo em sua totalidade, suas contradições e seus fluxos, pois as dificuldades de se lidar com as diferenças religiosas também se inserem nesse contexto, principalmente pelo fato de que tais tensões são geradas em sua grande maioria por conta da intolerância religiosa que vai estar presente muito fortemente nos grupos supracitados.

A intolerância religiosa consiste em ofensivas (físicas, verbais, materiais ou psicológicas) praticadas, via de regra, por adeptos radicais de determinadas religiões contra os de outra, em casos extremos pode se configurar como perseguição religiosa (FELDENS, 2013). É importante ressaltar que a intolerância religiosa é considerada um crime de ódio que fere a dignidade e a liberdade do ser humano, sendo as liberdades de expressão, crença, culto e organização religiosa asseguradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal Brasileira. De acordo com Alberto Santos (2002) a intolerância religiosa é também:

(...) a pretensão de dominação social. Ou seja, o preconceito ou a intolerância religiosa pode ser uma manifestação de poder de um grupo social sobre outro. Geralmente quando um grupo social pretende dominar a sociedade pela via religiosa, prega-se a satanização, o etnocentrismo, a intolerância em relação às outras religiões. (SANTOS, 2002, p. 22).

Na sessão seguinte fixar-nos-emos numa discussão sobre o papel da religião e sua relação na sociedade globalizada bem como o papel da Geografia nesse contexto. Em seguida esboçamos uma discussão a respeito do conceito de tolerância, debatendo inclusive sobre sua mancha semântica e apresentando como órgãos internacionais tratam o tema no contexto de paz. Dialogamos também com textos clássicos do filósofo iluminista John Locke e sua obra clássica Carta Sobre a Tolerância (2010). Em seguida tratamos de como se relacionam a temática em questão e o ensino de Geografia, buscando quais foram as motivações de se inserir novas temáticas e abordagens dentro e fora da sala de aula e como a escola da atualidade poderá (ou não) estar preparada para isso. Na sessão posterior do presente artigo expomos como a educação é condição essencial para a prática da tolerância. Descrevemos também a atividade realizada na escola que foi campo para a pesquisa e os principais resultados obtidos, procurando fazer apontamentos relevantes de como tal temática pode ser trabalhada no âmbito escolar.

RELIGIÃO, GLOBALIZAÇÃO E ENSINO DE GEOGRAFIA

Imagine que você sentou em seu sofá e acabou de ligar a televisão disposto a se informar sobre as últimas notícias. Acomodado, naturalmente, você vai sintonizar um canal para ver um noticiário. Não é caso raro ou acontecimento isolado ver no telejornal notícias que tratam direta ou indiretamente dos conflitos armados e violentos que envolvem o Oriente Médio, algumas regiões da Europa e também da África. Não é mais causa de surpresa deparar-se com o temário da guerra e do terrorismo nessas regiões. Partindo do histórico conflito entre Palestina e Israel até aos mais recentes atentados do autoproclamado Estado Islâmico – organização extremista islâmica não reconhecida pela comunidade internacional e que vem protagonizando verdadeiros atos de horror – já estão se tornando notícias corriqueiras.

Atentados no coração dos EUA em setembro de 2001, guerra no Iraque nos anos seguintes, em novembro de 2015 temos parisienses assassinados, terror generalizado. Encontramos ainda um cenário caótico na Síria, no Afeganistão e na Nigéria. Em muitos países aumenta a cada dia o número de refugiados. Essas pessoas ainda encontram uma Europa que fecha as portas diante, ao mesmo tempo o Boko Haram avança por mais regiões da África ao mesmo tempo em que a Rússia comanda uma ofensiva aérea contra o já citado Estado Islâmico fazendo com que este declare uma Guerra Santa, e tudo isso perante as mediações, em grande parte das vezes, sem sucesso da Organização das Nações Unidas -ONU. Os exemplos retromencionados servem para mostrar que não são escassos os acontecimentos que envolvem essa verdadeira geopolítica do terror. Todavia é importante destacar que todos esses acontecimentos possuem vieses religiosos envolvidos (direta ou indiretamente), mesmo questões político-econômicas e territoriais tendo peso substancial nos acontecimentos.

O desafio da tolerância perpassa também por questão de ordem étnica, socioeconômicas, genéticas, etc. Conviver com as diferenças não é tarefa fácil na sociedade atual. Existem múltiplas intolerâncias! Diante desses fatos, é impossível negar o peso de estudar o fenômeno religioso para a compreensão do mundo em sua totalidade, suas contradições e seus fluxos, pois as dificuldades de se lidar com as diferenças religiosas também se inserem nesse contexto, principalmente pelo fato de que tais tensões são geradas em sua grande maioria por conta da intolerância religiosa que vai estar presente muito fortemente nos grupos supracitados.

A intolerância religiosa consiste em ofensivas (físicas, verbais, materiais ou psicológicas) praticadas, via de regra, por adeptos radicais de determinadas religiões contra os de outra, em casos extremos pode se configurar como perseguição religiosa (FELDENS, 2013). É importante ressaltar que a intolerância religiosa é considerada um crime de ódio que fere a dignidade e a liberdade do ser humano, sendo as liberdades de expressão, crença, culto e organização religiosa asseguradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal Brasileira. De acordo com Alberto Santos (2002) a intolerância religiosa é também:

a pretensão de dominação social. Ou seja, o preconceito ou a intolerância religiosa pode ser uma manifestação de poder de um grupo social sobre outro. Geralmente quando um grupo social pretende dominar a sociedade pela via religiosa, prega-se a satanização, o etnocentrismo, a intolerância em relação às outras religiões. (SANTOS, 2002, p. 22).

Na sessão seguinte fixar-nos-emos numa discussão sobre o papel da religião e sua relação na sociedade globalizada bem como o papel da Geografia nesse contexto. Em seguida esboçamos uma discussão a respeito do conceito de tolerância, debatendo inclusive sobre sua mancha semântica e apresentando como órgãos internacionais tratam o tema no contexto de paz. Dialogamos também com textos clássicos do filósofo iluminista John Locke e sua obra clássica Carta Sobre a Tolerância. Em seguida tratamos de como se relacionam a temática em questão e o ensino de Geografia, buscando quais foram as motivações de se inserir novas temáticas e abordagens dentro e fora da sala de aula e como a escola da atualidade poderá (ou não) estar preparada para isso. Na sessão posterior do presente artigo expomos como a educação é condição essencial para a prática da tolerância. Descrevemos também a atividade realizada na escola que foi campo para a pesquisa e os principais resultados obtidos, procurando fazer apontamentos relevantes de como tal temática pode ser trabalhada no âmbito escolar.

A EDUCAÇÃO É CONDITIO SINE QUA NON PARA A INTOLERÂNCIA

No décimo sexto dia do décimo primeiro mês do ano de mil novecentos e noventa e seis a cúpula da UNESCO estava reunida e discutindo a respeito da tolerância, na ocasião foi elaborada a Declaração de Princípios Sobre a Tolerância, documento importante que versa desde o conceito do termo até os caminhos para a paz através da construção de uma sociedade mais justa e tolerante. O texto da Declaração traz em seu primeiro artigo a definição de tolerância, conforme a UNESCO (1995) podemos definir tolerância da seguinte forma:

A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de consciência e de crença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. (UNESCO, 1995, p. 11)

O texto traz também nos artigos seguintes o papel do Estado no exercício da tolerância e defende que este deve exigir justiça e imparcialidade na legislação e na aplicação da lei. Exige também que todos possam usufruir de oportunidades econômicas e sociais sem nenhuma discriminação. Segundo a Declaração é dever do Estado “instaurar uma sociedade mais tolerante” e completa dizendo que os Estados devem ratificar as convenções internacionais relativas aos direitos humanos e, caso necessário, “elaborar uma nova legislação a fim de garantir igualdade de tratamento e de oportunidade aos diferentes grupos e indivíduos da sociedade” (UNESCO, 1995, p. 12-13).

No tocante à Educação, o texto da Declaração traz questões muito relevantes para o debate, pois é penetrante ao afirmar que “A Educação é o caminho mais eficaz de prevenir a intolerância”. A educação para a tolerância deve ser considerada como um imperativo prioritário. As políticas e programas de uma educação voltada para a tolerância devem contribuir para o desenvolvimento da compreensão, da solidariedade e da tolerância entre os indivíduos, entre os grupos étnicos, sociais, culturais, religiosos, linguísticos e as nações. O artigo sobre a Educação fala também da formação do docente, da melhoria dos programas de ensino, do conteúdo dos manuais e cursos e de outros tipos de material pedagógico, inclusive as novas tecnologias educacionais, objetivando formar cidadãos responsáveis e solidários e que também estejam abertos a novas culturas, capazes de apreciar o valor da liberdade, respeitadores da dignidade dos seres humanos e de suas diferenças e capazes de prevenir os conflitos ou de resolvê-los por meios que não sejam violentos (UNESCO, 1995, p. 15-16).

A Declaração encerra-se então com a proclamação da data em que esta foi assinada como o Dia Internacional da Tolerância atribuindo assim ao dia 16 de novembro de cada ano um significado importante como marco do combate a intolerância, incentivando assim entre os diversos povos do mundo a prática da cultura de paz. É válido ressaltar que no dia 21 de janeiro temos o Dia Mundial das Religiões e do combate à intolerância religiosa.

No contexto teológico cristão temos um autor que vai debater sobre o papel da sociedade política no contexto da tolerância: Debiasi (2011) é incisivo ao afirmar que a natureza não nos fez tolerantes e que estaremos envolvidos em episódios de intolerância do começo ao final da vida. Em sua dissertação de mestrado ele aponta os elementos essenciais para uma Teologia da Tolerância fazendo o diálogo entre a obra do filósofo John Locke, Carta Sobre a Tolerância (2010) e os textos sagrados. O autor irá debater a respeito da

[...] separação entre política e religião, do direito à liberdade de consciência, de culto, da privacidade religiosa e das diferenças. Sem impor uma resposta única à conduta cristã, demonstra-se, por uma hermenêutica sistemática, que a tolerância cristã supera limites histórico-culturais e circunstâncias político-religiosas e que em Jesus Cristo é possível a melhor resposta para o modus vivendi cristão em tempo de sociedade plural. (DEBIASI, 2011, p. 4)

É fundamental ressaltar, no entanto, que ao tratar de tolerância e intolerância o debate não deve se restringir à esfera religiosa, ou seja, questões como o racismo, homofobia, xenofobia e o preconceito em geral também perpassam por questões relativas à tolerância. No entanto, o trabalho de Debiasi (2011) sobre a Teologia da tolerância tem como ponto central do trato da tolerância dentro da perspectiva religiosa buscando uma melhor resposta da conduta cristã na superação da intolerância religiosa.

Locke ao escrever a Carta talvez já imaginasse que suas ideias iriam contribuir demasiadamente para o futuro da humanidade e para os caminhos do religioso. Pois conforme Debiasi (2011, p. 8) “intui-se que praticar a tolerância é reafirmar as contribuições de John Locke não se restringem à sua época do amanhecer do secularismo, mas também são imprescindíveis na sociedade contemporânea marcada por um forte espírito de intolerância”.

A obra de Locke foi escrita num período conturbado de instabilidade política e forte espírito de intolerância, pois não havia entendimento dos papeis das comunidades religiosas e políticas. O idealismo lockiano é marcado pela autonomia das instituições públicas e privadas, o respeito à vontade do indivíduo, à liberdade política do cidadão e religiosa daquele que crê, objetivando a paz (DEBIASI, 2011).

Locke (2010), neste caso, vai afirmar que uma das atribuições da sociedade política é assegurar os direitos naturais do indivíduo e, pela lei natural [1], há condições de aceitação do outro e do diferente, tais considerações se dão no âmbito filosófico-político, onde a presente obra é um verdadeiro marco.

No âmbito filosófico-religioso Locke vai enfatizar a liberdade do indivíduo como elemento do novo tempo: liberdade religiosa. A busca pela superação do fanatismo faz parte do seu sistema religioso, pois ele acredita que este leva à intolerância. O que Locke pretende é ultrapassar o fanatismo e atingir o uso precioso da razão, usufruindo dos benefícios da tolerância e dos direitos. A análise das ideias epistêmico-político-religiosas de Locke pode ser sintetizada no seguinte fragmento da dissertação de Debiasi:

A liberdade é o antídoto à intolerância. Sua eficácia de assertiva validade universal para todos os povos e tempos revela um caráter inequívoco de um direito de matriz internacional. Sua recepção contrapõe-se aos regimes intolerantes e constitui-se no nascedouro de um sistema internacional de proteção aos direitos humanos. Seu valor é incontroverso para o bem de toda a humanidade. (DEBIASI, 2011, p. 54)

Por conseguinte, podemos concluir que a tolerância religiosa é admitir e respeitar o outro, possibilitando a convivência pacífica entre as pessoas de diferentes religiões em um mesmo espaço social. É possível aqui lembrar uma máxima atribuída a Tallentyre (1906) pseudônimo de Evelin Beatrice Hall, sintetizando o pensamento de Voltaire sobre tolerância: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

A tolerância religiosa é também respeitar com sinceridade as convicções diversas e alheias, mesmo que estas pareçam pouco coerentes, sendo fundamental não violar as consciências de culto e de crença. (SANTOS, 2002). Apesar disso, surgem questionamentos: há hoje na Educação espaço e oportunidade para se aprender, ensinar, debater e praticar a tolerância? Aliás, de que modo o professor de Geografia (e das mais diversas áreas) e os estudantes podem promover esse debate de forma qualitativa dentro da escola?

É indispensável destacar que a Geografia, enquanto ciência e disciplina que estuda o espaço e os processos e agentes que o produzem, transformam e vivem neste espaço, assume muitas vezes a função, dentro da escola, de ajudar a localizar onde se dão os acontecimentos – aonde fica isto ou aquilo, aonde ocorre aquilo ou isto – e deste modo é necessário destacar os silêncios traduzidos em padrões parciais de uma ciência que se diz humana e, na Educação Escolar, também humanista: o silêncio sobre os espaços da intolerância. Eles tornam templos católicos ou evangélicos, pelo sistema cristão hegemônico, sempre mais “centrais” que tendas, terreiros, matas ou encruzilhadas.

NOVOS TEMAS NO ENSINO OU NOVOS ENSINOS DO TEMA?

Não é raro encontramos pairando sobre (ou sobrevoando) as discussões no cerne do ensino de Geografia autores que versam sobre a necessária revolução/renovação do mesmo e as crises que motivam tais mudanças. É sabido que o ensino de Geografia passa por substanciais mudanças desde a década de 1970, entretanto a globalização e a mudanças socioeconômicas constantes exigem dos professores e das escolas que os processos de ensino e aprendizagem de Geografia continuem mudando.

Moraes (2010) ao tratar do plano de fundo dessas discussões aponta uma série de questões relevantes que embasam a presente discussão, conforme o autor a Geografia é uma:

[...] disciplina envolvida em profundo questionamento quanto a seu objeto e método, já a cerca de três décadas; uma disciplina que buscar se livrar de paradigmas forjados em mais de cem anos de domínio absoluto do positivismo clássico; uma disciplina que vem tentando, nos últimos anos, repensar sua prática à luz de encaminhamentos metodológicos anteriormente ignorados, como o marxismo, a fenomenologia, e mesmo o neopositivismo; uma disciplina que tem como memória incômoda uma certa ambiguidade em se aceitar como ciência natural ou social. Enfim, um quadro de crise dos postulados tradicionais e de renovação radical. (MORARES, 2010, p. 118)

Para as razões da crise ou mal-estar em que a Geografia escolar se encontrava antes da renovação das décadas de 1970 e 1980 Brabant (2010) traz uma contribuição muito importante no seu trabalho [2] ao afirmar que há um bloqueio na Geografia enquanto disciplina, pois havia contradições evidentes entre discurso e práticas. A argumentação do autor elenca três pontos principais para o surgimento e desenvolvimento dessas contradições: a importância da Geografia física, o enciclopedismo e a despolitização. Vale lembrar que apesar do autor trabalhar diretamente com a realidade da Geografia escolar francesa, podemos fazer o diálogo direto com a Geografia escolar brasileira, pois esta foi fortemente influenciada por aquela durante sua formação e consolidação.

Mas o que tem a Geografia física a ver com a crise na Geografia escolar? Conforme nos aponta o autor, o peso desmedido que as descrições físicas tinham nos discursos geográficos escolares é a chave para esse primeiro ponto de argumentação. A Geografia através da descrição das regiões passa a ter uma função de delimitar e explicar para os estudantes os locais onde se passaram os grandes eventos históricos, a Geografia se encontra subordinada à história para a construção de um patriotismo reforçado por um discurso nacionalista (BRABANT, 2010).

Porém essa preferência pela Geografia física na escola também se respalda em uma herança militarizada da Geografia que encontra no conhecimento da hidrografia, do relevo e das barreiras naturais o pensar estratégico, sendo impossível negar a importância do viés descritivo para os militares, o que acaba sendo reproduzido na escola. Ainda em consonância com Brabant (2010) podemos destacar “o lugar da geografia militar como ancestral da geografia escolar”. Existe uma clara defasagem ou silenciamento, como chamamos, nos discursos da Geografia escolar que dão ênfase aos problemas confessionais dos sistemas de crenças, como a intolerância religiosa, evidenciados no espaço socioambiental.

Não será exclusividade da Geografia o caráter enciclopedista que a ciência e a disciplina escolar terão desde suas consolidações nos séculos passados. Diversas áreas do conhecimento também possuem uma série de conhecimentos indispensáveis. Entretanto essa inflação de conhecimentos pode levar a apoplexia (BRABANT, 2010). O enciclopedismo abarrota os estudantes de informação e isso não se dá apenas ao nível escolar, os professores que estão na escola, muitas vezes, são reflexos dos professores da academia onde eram formados. Quanto mais informações eram lançadas sobre os estudantes, mais tediosa se torna a Geografia e cada vez mais o discurso se distanciava da realidade, caminhando à abstração total – ao tédio total (BRABANT, 2010). A questão religiosa – tomando como apoio inicial a própria religiosidade do estudante – quando trabalhada na aula de Geografia pode fornecer uma narrativa mítica e cheia de significados. Significados estes que o enciclopedismo não fornece.

Fatos estes resultam numa despolitização dos discursos geográficos. Uma despolitização que podemos chamar de paradoxal. Afinal as motivações para tal em sua grande maioria possuem um caráter nacionalista, pois o argumento nacionalista é eficaz através da evidência, o autor afirma que seu grau de eficácia se mede pelo grau de despolitização, por quanto mais o discurso se torna objetivo frente à realidade. Caminha-se então da demonstração à descrição. Quando tratamos do viés conflitivo da intolerância religiosa, a despolitização pode ajudar a explicar, isto é, a dessacralização do discurso e prática de representações dos lugares pesa na incapacidade de negociar o convívio das coletividades com os territórios.

E como foram resolvidos tais problemas na Geografia escolar? Aliás, uma questão precede: estes problemas na disciplina de Geografia foram resolvidos? A renovação crítica que ocorreu na perspectiva do ensino e aprendizagem de Geografia não conseguiu romper com o conteudismo da Geografia tradicional. Nesse contexto surge um novo movimento paradoxal, a Geografia é cada vez mais anunciada como a disciplina que ajudará os estudantes a compreender este mundo de transformações constantes em que vivem e é ao mesmo tempo bombardeada com o desinteresse crescente nas escolas.

Straforini (2004) procura trazer uma explicação em três caminhos principais. O primeiro caminho que ele nos traz para explicar a crise que a Geografia se encontra traz à tona o contexto político educacional brasileiro com sua estrutura arbitrária e verticalizada. Todavia não devemos centrar o debate somente no mensurável, como se a crise da Geografia estivesse ligada somente à infraestrutura e às condições de trabalho docente, mesmo que o autor defenda que o professor deve assumir um posicionamento teórico-metodológico que dê rumo a sua prática. O autor vai trazer também o contexto da ditadura militar brasileira e as construções curriculares que não romperam satisfatoriamente com a lógica conteudista da Geografia Tradicional.

Tais explicações possuem vieses explicativos abusivamente pautados na questão política e econômica – como boa da Geografia crítica – e ignoram em grande parte as funções explicativas que os sistemas simbólico-culturais também possuem, ou seja, através da Geografia dos valores religiosos encontraremos um espaço geográfico mais próximo dos espaços vividos e o debate da tolerância religiosa é um triunfante aliado nesse processo.

É dentro desse cenário que se busca cada vez mais o sentido de ensinar e aprender Geografia. Justamente nessa busca de sentido que vão surgir as necessidades de renovação do ensino, das filosofias, dos métodos, conteúdos, procedimentos e técnicas avaliativas, de atitudes, valores e saberes escolares. Desse modo, é papel do professor explorar temas antes negligenciados dentro do quadro escolar e ir além, deve-se não somente trazer novos temas para o ensino, mas ter novas abordagens das temáticas, maneiras de abordar que possam desenvolver diversas habilidades dos estudantes e nos professores, pois infelizmente, a prática professoral, muitas vezes, apresenta-se de forma ordenada e racionalizada pelas instâncias técnicas e administrativas dos sistemas de ensino, e conforme Pontuschka et al. (2009) “o professor dispõe de pouca autonomia diante das decisões sobre o que ensinar, como ensinar e como avaliar o que se ensina e o que se aprende.”.

Trabalhar conteúdos atitudinais (ZABALA, 1998), que incluem valores e atitudes de tolerância e respeito, articulam-se assim ações formativas afim de desenvolver o senso crítico, valores e atitudes dos estudantes. Deste modo, é dever da Geografia, dentro da escola, aliada ao corpo das ciências humanas, desempenhar um papel fundamental no tratamento desse tipo conteúdo. A temática da intolerância religiosa é campo fértil para discutir questões relacionadas ao racismo, preconceito, violência, raízes históricas da população brasileira, convívio entre povos, pluralismo cultural, etc.

No caso específico da intolerância religiosa, o êxito do processo é o próprio exercício da tolerância, a formação de verdadeiros cidadãos, no sentido amplo da palavra. Procura-se ir além dos conhecimentos banais e assim conseguir um debate que faça com que os estudantes e a própria comunidade escolar respeitem e convivam com e nas diferenças.

DEBATENDO A (IN)TOLERÂNCIA: DO DISCURSO À ROTINA

“Vamos tentar demonstrar como a Geografia responde às exigências de um ensino que mais procura formar a mente do que entulhar cérebros.” (MONBEIGapudOLIVEIRA, 2010, p. 25). Assim como as discussões das sessões anteriores o trecho acima remete novamente a uma ideia “nova” do fazer geográfico na escola. O uso das aspas se deve ao fato de que a fala de Monbeig acima data da década de 1950 e já fazer alusão ao entulhamento exacerbado de informações.

Os resultados da pesquisa partem da análise e interpretação da triangulação de informações obtidas em três momentos distintos da pesquisa na EEEP Ícaro de Sousa Moreira: a análise do Projeto Político Pedagógico, o questionário realizado com os estudantes e a atividade mediada sobre a temática em questão.

Indispensável ressaltar que a escola está inserida em um dos bairros da periferia de Fortaleza que possui diversos problemas sociais – desde a violência urbana até moradias inapropriadas. O bairro surge com pouca ou nenhuma ação de planejamento urbano e só nas últimas décadas começa a melhorar no que se refere à infraestrutura básica e serviços.

A escola que foi campo para a presente pesquisa é de tempo integral e possui o ensino médio associado ao profissionalizante, proposta que no Estado do Ceará começou no ano de 2008. Conforme a Secretaria de Educação do Estado (SEDUC, 2015) essas escolas desenham a possibilidade de “um futuro mais justo, mais equânime e com mais oportunidades para os jovens cearenses, acenando para a materialidade da experiência de um maior exercício de cidadania.”.

Apesar da afirmação da Secretaria de Educação do Estado, a tal proposta de exercício de cidadania vai aparecer de forma muito árida dentro do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola em questão. Como citado anteriormente, a escola é de ensino profissional e a leitura do PPP torna evidente que os objetivos da escola estão muito voltados para o mercado de trabalho, pois é incontável a quantidade de vezes que termos como mercado de trabalho, mundo do trabalho, mundo produtivo, mundo profissional, empregabilidade, formação para o mercado, inserção no mercado, arranjos produtivos, etc. irão aparecer no texto do documento. Não que tais questões não sejam relevantes, dada a situação de muitos estudantes da escola que têm na educação profissional a única alternativa para melhorar a situação socioeconômica pessoal familiar.

Alguns trechos do PPP fazem alusão ao exercício da cidadania, contudo sequer sugerem os caminhos para tal. O diálogo mais presente que se deu entre o PPP e a prática da tolerância pôde ser apreendido no seguinte fragmento do documento: “Sabemos que o foco na educação, além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação, a ter uma visão da totalidade. ”. Contudo, de que modo a escola pode ajudar a integrar o ensino e a vida? A resposta para tal questionamento não é simples, porém deveria ser tarefa constante do docente levantar o presente questionamento e procurar respostas.

Os estudantes, em sua grande maioria, de acordo com suas respostas nos questionários, moram no mesmo bairro da escola. E como pode ser visto na imagem abaixo (Figura 1), estão rodeados de instituições religiosas de confissões cristãs. O levantamento dos dados não localizou nenhum centro de umbanda ou candomblé, terreiro ou tenda a partir dos bancos de dados disponíveis na internet. Mais uma vez o silenciamento que essas religiões são submetidas se torna evidente, isto é, ao pesquisar por instituições religiosas no bairro os resultados centram-se em instituições católicas e evangélicas que possuem seus endereços cadastrados de forma pública o que não contempla casos de localização de comunidades religiosas apenas reunidas eventualmente, como centros de oração (domésticos), terreiros ou locais para encontros litúrgicos multifuncionais.

Figura 1 - Distribuição dos templos religiosos nas proximidades da EEEP
Icaro de Sousa Moreira
Figura 1 - Distribuição dos templos religiosos nas proximidades da EEEP Icaro de Sousa Moreira
Fonte: Elaboração do autor, 2015.

Não é raro ao caminhar pelas ruas do bairro se deparar com terreiros de matriz africana ou centros espíritas – mesmo que as bases de dados oficias não os localizem. A título de exemplo, é importante citar a Associação Espírita de Umbanda São Miguel [3] (AEUSM) que existe no bairro e realiza importantes trabalhos sociais para a comunidade em geral – esportes, cursos, assistência jurídica, etc. No bairro existe também o Movimento de Saúde Mental Comunitária (MSMC), instituição fundada na década de 1990 por Missionários Combonianos [4] e tem como objetivo promover atividades de “inclusão social, cidadania e resgate de valores fundamentais”, conforme a instituição. Este panorama sobre as igrejas e instituições religiosas que promovem ações no bairro serve para mostrar como os estudantes da EEPP Ícaro de Sousa Moreira estão inseridos num bairro onde o fator religioso é bastante presente.

Nesse contexto surgem os casos de intolerância religiosa entre os praticantes das mais diversas confissões, e a atividade a seguir descrita surge num movimento de fortalecimento da base de uma discussão sobre a ação virtuosa e básica, mas nem por isso tão praticada que é a tolerância.

A atividade proposta sobre tolerância religiosa (Quadro 1) partiu de um conhecimento um prévio sobre os estudantes. Conhecimento este que foi obtido através da aplicação de questionário onde a identificação dos mesmos era opcional e eles deveriam indicar a sua religião pessoal e a de seus pais, também eram indagadas suas concepções preliminares sobre a definição de intolerância religiosa – era necessário indicar quatro palavras ou termos principais. Ao final do questionário os estudantes deveriam relatar algum caso de intolerância religiosa no bairro que os mesmos tivessem conhecimento, que estivessem envolvidos diretamente ou não. O questionário foi aplicado com 112 estudantes, divididos nos três anos do ensino médio e de cursos distintos, a saber: 1º ano do curso de Enfermagem, 2º ano do curso de Eventos e 3º ano do curso de Informática.

A grande maioria dos estudantes, cerca de 90%, se declarou cristão – entre católicos e protestantes. Uma pequena parcela se declara sem religião definida seguida dos que se declararam ateus ou agnósticos. Apenas um estudante se declarou espírita e nenhum se afirmou enquanto praticante de religiões afrobrasileiras. É importante ressaltar que nos questionários ficou evidente a correspondência direta entre a religião professada pelos pais e a do estudante. Salvo exceções onde os pais são católicos e o estudante é protestante, ateu, agnóstico ou sem religião definida e vice-versa. Em muitos casos, também era possível identificar estudantes cujos pais não possuíam religião definida e eles eram de alguma religião, demonstrando que os pais podem influenciar fortemente na religião dos seus filhos, no entanto, o fazer religioso também pode ser uma escolha individual que tem motivações para além do convívio domiciliar.

A respeito das concepções dos estudantes sobre intolerância religiosa, quatro palavras em especial apareçam em quase todos os questionários: discriminação, desrespeito ignorância e preconceito. A predominância dessas palavras evidencia assim as representações que os estudantes possuem do assunto. Entre as religiões ou ausência destas não houve diretamente discrepância relevante entre as palavras apresentadas. Porém as outras palavras ou termos citados pelos estudantes foram muito variados, como por exemplo: falta de deus, idiotice, hipocrisia, fanatismo, repugnância, cultura, arrogância, violência, vandalismo, blasfêmia, opressão, guerra, falta de fé, morte, exclusão, egoísmo, individualismo, dogmas, alienação, influências, etc. Expondo também diferentes pensamentos sobre um mesmo tema.

Nem todos os estudantes relataram casos de intolerância religiosa, mas nos relatos existentes ficou claro que a grande maioria dos casos relatados as vítimas do preconceito eram de religiões de matriz africana, desde agressões verbais até intimidação por parte de grupos religiosos mais hegemônicos. Os casos que envolviam diretamente os estudantes geralmente se davam pelo fato destes estarem realizando algum tipo de atividade relacionada às igrejas e terem sido hostilizados por praticantes de outra religião. Como o caso da estudante que relatou que estava entregando panfletos da sua igreja católica e quase foi agredida fisicamente na rua por uma pessoa de religião evangélica.

A atividade (Quadro 1) foi realizada na turma do 2º ano do curso de Eventos. A escolha por essa turma se deu pelo fato de que ela é a turma mais mista na distribuição de meninas e meninos. A atividade tinha como objetivo ir além das definições de tolerância e intolerância religiosa, objetivava trabalhar os conteúdos atitudinais e valorativos (ZABALA, 1998) que se relacionam com a formação de valores e convicções que vão além dos conteúdos referentes a conceitos, fatos e processos. São conteúdos que auxiliam os estudantes a agir no espaço e influir na sua construção de forma ética, cidadã e tolerante (CAVALCANTI, 2012). Nesse contexto é importante reiterar que o trato com o tema em questão no ensino médio vai além da mera renovação de conteúdos ou inserção de novos. Nesse sentido Azevedo e Morais (2014) trazem uma contribuição indispensável para ao debate ao afirmar que

a inserção do estudo das religiões no ensino de geografia não se limita a uma mera renovação ou inserção de conteúdos, mas também – e principalmente – no desenvolvimento de competências que através de determinadas habilidades específicas da disciplina, promovam o desenvolvimento integral da pessoa, valorizando atitudes em três níveis, a saber: intrapessoal, interpessoal e de inserção e atuação social. (AZEVEDO, MORAIS, 2014, p. 38)

Na primeira etapa de aplicação da atividade com o objetivo de aproximar os estudantes do tema com a utilização do vídeo pôde ser percebido o seu posicionamento frente aos conflitos. Muitos estudantes caem de fato na gargalhada ao ver no vídeo a inquietação de religiosos fundamentalistas tentando defender suas visões arbitrárias, enquanto outros apenas demonstram olhares de indignação e reprovação ao comportamento visto no vídeo.

Partimos dos conflitos que existem na realidade para serem os fios condutores da atividade que se propunha. As experiências dos estudantes foram aproveitadas para dar prosseguimento com a atividade onde foram levantados conceitos e indagações indispensáveis como expostos no quadro abaixo. Neste momento da atividade foram ouvidas as impressões sobre o vídeo, contribuições e relatos pessoais sobre casos de intolerância religiosa que os envolvessem ou que eles tivessem conhecimento. Um fato interessante percebido é que nenhum se declarou praticante das religiões de matriz africana, porém durante os relatos duas meninas se sentiram a vontade o suficiente para relatar que tinham aproximação com cultos afrobrasileiros e que familiares eram praticantes dessas religiões.

O debate final para consolidação da discussão exposto no quadro a frente ocorreu de forma significativa. Os estudantes participaram da atividade em sua totalidade e a discussão ocorreu de forma calorosa em alguns momentos, isto é, a turma foi dividida em dois grandes grupos e deveriam defender pontos de vistas completamente contrários. Muitos estudantes argumentaram contra e a favor no caso de um caso onde uma pessoa praticante de candomblé sofrera agressões verbais – metade dos estudantes defendia a liberdade de expressão enquanto o outro advogava em favor da liberdade religiosa. As mediações necessárias foram realizadas e o debate se encerrou com a inversão dos papeis, o choque dos estudantes foi tremendo, pois nesse momento eles tiveram que desconstruir toda sua argumentação e flexibilizarem-se para defender o ponto de vista que ora estavam atacando. O caso se encerrou com a elucidação do caso e a correta procedência jurídica do problema em questão. Os estudantes se mostraram muito satisfeitos com a realização e o desfecho da atividade.

Quadro 1 – Proposta de atividade realizada na EEEP Icaro de Sousa Moreira
DISCUTINDO A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NO ENSINO MÉDIO
ESCOLA: EEEP Ícaro de Sousa Moreira
TURMA: 2º ano (Curso Eventos)
TEMPO DE Duração: duas horas/aula (100 minutos)
DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE
A proposta de atividade mediada com estudantes de ensino médio procurando promover um debate que caminhe no sentido de elucidar os estudantes sobre temas importantes relativos à intolerância religiosa e outras questões que envolvem religiosidade. Tais como: a) liberdade de expressão e liberdade de religião; b) Estado Laico e Ateísmo de Estado; c) democracia e teocracia; d) tolerar é somente suportar?; e) a intolerância é produto da ignorância? Pretende-se ir além dos conceitos e definições e promover entre os estudantes e na própria comunidade escolar o espírito da tolerância. Para tal, um dos fundamentos da atividade é fazer com que os estudantes se enxerguem como parte do projeto de uma sociedade mais tolerante e o caminho para tal encontra aporte inicial nas atividades a seguir descritas.
RECURSOS A SEREM UTILIZADOS
Quadro branco e pincel; Mapas sobre os movimentos migratórios africanos; Computador e projetor de vídeo; Vídeo de um debate sobre intolerância religiosa no Brasil;
OBJETIVOS DA ATIVIDADE
· Propiciar aos estudantes do ensino médio um debate de cunho qualitativo-formativo a respeito da intolerância religiosa fornecendo as bases necessárias para uma cultura de paz. · Promover nos estudantes , professores e na comunidade escolar o despertar para o trabalho com a questão da tolerância, tendo em vista o pluralismo cultural que existe na sociedade.
ETAPAS DE REALIZAÇÃO
Aproximação da temática · Apresentar para os estudantes um vídeo do programa da Rede Globo Na Moral onde diversos líderes religiosos (e não religiosos) confrontam opiniões sobre o tema da intolerância religiosa. · Após a exibição do vídeo cujo objetivo é gerar reflexões iniciais e noções sobre o que trata o tema será aberto para a exposição de impressões sobre o que foi assistido. Tratamento do tema · Abordagem expositiva das principais religiões brasileiras fazendo um breve histórico de cada uma delas e sua importância na formação da população brasileira. · Indagar os estudantes sobre suas religiões e como eles vêm a questão da intolerância religiosa. · Expor nesse momento também os marcos legais para questões relativas ao combate à intolerância religiosa no Brasil e no mundo. Apresenta-se também nesse momento as notícias veiculadas pela mídia sobre o Dia Internacional da Tolerância (16 de novembro). Consolidação da discussão através do debate · Dividir a turma dividida em duas equipes (números ímpares e pares de acordo com a chamada) e cada uma dessas equipes defenderá pontos de vistas contrários em relação a um caso de intolerância religiosa. · Expor o caso que trata de agressões verbais sofridas por uma praticante de candomblé por jovens cristãos. Na situação-problema uma senhora praticante de candomblé estava fazendo uma oferenda em um espaço público e foi agredida verbalmente pelos jovens da outra religião. · Instruir um dos grupos a defender a Liberdade Religiosa enquanto um direito assegurado enquanto o outro grupo irá defender a Liberdade de Expressão enquanto, também, um direito de todos. · Concluir a atividade, após o debate devidamente mediado, e apresentar a maneira correta de proceder com o caso de acordo com a Constituição Federal Brasileira e o Código Penal Brasileiro.
Elaborado pelo autor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Abrimos então as considerações finais do presente artigo com a seguinte provocação: Até que ponto uma canção, um filme, um anúncio publicitário, etc. podem incomodar os cristãos ao trazer deus e o diabo dialogando como compadres? A liberdade de expressão – nesse caso a artística, cultural e social – está isenta de críticas? Como lidar com as representações da fé do outro? E quando o outro somos nós? Quando a religião em xeque não é hegemônica a opinião pública dá atenção? Questões provocativas, no entanto, necessárias.

Não é pretensão do presente artigo trazer respostas prontas que esgotem as possibilidades no tratamento do tema, mas sim nortear (ou sulear) o docente que busca inspiração para trabalhar uma questão tão vital como a tolerância religiosa e o diálogo inter-religioso em nossa sociedade conflituosa e intolerante. A atividade descrita trata um tema por muito tempo negligenciado e hoje, mais do que nunca, merece a devida atenção, seja na escola, seja na academia.

A dimensão política da religiosidade do Homem é pano de fundo de muitos acontecimentos importantes na atualidade. Política e religião estão estritamente ligadas na nossa sociedade. Portanto, um tema como esse se torna indispensável para o ensino médio, visto que ele vem para descortinar muitos preconceitos existentes, pois um dos objetivos da atividade realizada é chegar juntos com os estudantes à conclusão de que a intolerância é produto da ignorância, da falta de conhecimento ou de conhecimentos deturpados por parte da religião alheia. Deve-se conhecer para aceitar, entender antes de criticar e saber apreciar a maior dádiva de ser viver em uma democracia: conviver com e nas diferenças.

A pesquisa realizada na EEEP Ícaro de Sousa Moreira trouxe resposta e questionamentos necessários à prática social da tolerância, demonstrando principalmente que tolerar é bem mais do que apenas suportar o diferente, a tolerância é saber apreciar a diversas formas de cultuar as divindades e valorizar o fazer social das instituições religiosas em um bairro tão marcado pela religião.

Estudantes, professores e gestores – religiosos ou não – devem compreender que a intolerância religiosa é apenas mais um dos muitos empecilhos à cultura de paz na nossa sociedade, pois existem múltiplas intolerâncias no convívio social e a escola é e deve continuar sendo o palco para esses debates e ações que provoquem reflexões necessárias e práticas indispensáveis para um convívio social que não seja marcado pela agressão e pela a violência, onde a banalização do mal não exista. Uma sociedade onde possamos reconhecer a pluralidade sociocultural que existe é e pulsante.

Portanto, torna-se evidente que nossa tarefa, enquanto professores, é trazer temas antes não discutidos para a sala de aula como religião, sexualidade, política, corrupção, o papel da mulher na sociedade e o machismo, levantes e movimentos sociais, legalização e proibição do uso e porte de drogas, entre muitos outros, pois no projeto global de uma sociedade mais justa, o professor deverá ter uma postura crítica, reflexiva, autônoma e dialogável que desmonte sensos comuns e possa firmar um compromisso na Educação e perante a sociedade que, assim como muitos outros temas, religião se discute sim!

Referências

AZEVEDO, Daniel Abreu de; MORAIS, Marcelo Alonso. Ensino de geografia: novos temas para a geografia escolar. Rio de Janeiro: Consequência, 2014.

BRABANT, Jean-Michel. CRISE DA GEOGRAFIA, CRISE DA ESCOLA. In: OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Para onde vai o ensino de geografia?. 9. ed. 3ª reimpressão – São Paulo: Contexto, 2010. (Repensando o Ensino).

CAVALCANTI, Lana de Souza. O ensino de geografia na escola. Campinas, SP: Papirus, 2012. (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico)

DEBIASI, Miguel. Teologia da Tolerância: Um modus vivendi cristão. Porto Alegre: PUCRS, 2011. Disponível em: . Acesso em: 20 de outubro de 2015.

FELDENS, Priscila Formigheri. Preconceito religioso: um desafio à liberdade religiosa, inclusive expressiva. Disponível em: . Acesso em: 14 de outubro de 2015.

LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. São Paulo: Hedra, 2010.

MONBEIG, P. Papel e valor do ensino de geografia e sua pesquisa. Rio de Janeiro: CNG/IBGE, 1956.

MORAES, Antônio Carlos Robert. RENOVAÇÃO DA GEOGRAFIA E FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO. In: OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Para onde vai o ensino de geografia?. 9. ed. 3ª reimpressão – São Paulo: Contexto, 2010. (Repensando o Ensino).

OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Sentidos da Geografia Escolar.2. ed. Fortaleza: Edições UFC, 2010.

PONTUSCHKA, N. N.; PAGANELLI, T. I; CACETE, N. H. Para Ensinar e Aprender Geografia. ed. 3. São Paulo: Cortez 2009

SANTOS, Aberto Pereira dos. Introdução à geografia das religiões. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 11, pp.21-33, 2002. Disponível em: . Acesso em: 22 de outubro de 2015.

SEDUC. Governo do Estado do ceará. Escolas Estaduais de Educação Profissional no Ceará. Disponível em: . Acesso em: 07 de novembro de 2015.

STRAFORINI, Rafael. Ensinar Geografia: o desafio da totalidade-mundo nas séries iniciais. São Paulo: Annablume, 2004.

TALLENTYRE, S. G. [HALL, Evelyn Beatrice]. The friends of Voltaire. London: Smith, Elder & Co., 1906.

UNESCO. Declaração de Princípios Sobre a Tolerância. Brasília: UNESCO, 1995

ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda., 1998.

Notas

[1] Por Lei Natural (Ou Estado da Razão) presente na obra Locke compreende-se o conjunto de direitos inalienáveis que servem de regra e de elo comum na unidade de uma comunidade e de uma sociedade. Assim como o Direito Natural que conforme Locke: “Todo homem nasce com um direito duplo: primeiro, um direito de liberdade sobre sua pessoa, sobre o qual nenhum outro homem tem poder e só ele próprio pode dispor livremente a ela; segundo, o direito, de preferência a qualquer outro homem, de dividir com seus irmãos os bens de seu pai.”.
[2] Trabalho traduzido de Hérodote – nº 2 – abril/junho de 1976 – pág. 94/102 – Paris – Maspero, por Raquel Maria Fontes de Amaral Pereira e revisado por Walter Carlos Costa e publicado na revista Geosul – nº 2 – Ano I – 2º semestre/1986 – Ed. UFSC – Florianópolis-SC e republicado na 9º edição, 2010, da obra PARA ONDE VAI O ENSINO DE GEOGRAFIA? organizada por Ariovaldo Umbelino de Oliveira.
[3] A associação em seu blog afirma que tem como Missão defender as comunidades de terreiro, e esta, inclusive aceita associados para fazer parte da “família espiritual”, conforme a própria instituição. Disponível em: http://umbandasaomiguel.blogspot.com.br. Acesso em: 03 de dezembro de 2015.
[4] "A congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus - MCCJ - foi fundada por S. Daniel Comboni a 1 de Junho de 1867, em Verona. No início era constituída por sacerdotes e leigos de diversas nacionalidades, sem votos religiosos. Em 1885, o instituto foi transformado em congregação religiosa, tendo recebido o nome de Filhos do Sagrado Coração de Jesus. A 1 de Janeiro de 2011, os Missionários Combonianos no mundo eram 1639, dos quais 20 são bispos, cerca de 1236 padres, 255 irmãos e 128 professos com votos temporários. Estes membros são oriundos de 33 nações, estando presentes em 30 países de quatro continentes". Disponível em: http:www.combonianos.pt. Acesso em: 04 de dezembro de 2015.
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