Uso de TIC no ensino superior de geografia à distância

USE OF TIC IN HIGHER EDUCATION OF GEOGRAPHY AT DISTANCE

USO DE TIC EM LA ENSEÑANZA SUPERIOR DE GEOGRAFÍA A DISTANCIA

MARILSE BEATRIZ LOSEKANN
Universidade Federal de Santa Maria, Brasil

Uso de TIC no ensino superior de geografia à distância

GEOSABERES: Revista de Estudos Geoeducacionais, vol. 9, núm. 18, pp. 1-11, 2018

Universidade Federal do Ceará

Todos os direitos reservados.

Recepção: 07 Outubro 2017

Aprovação: 10 Fevereiro 2018

Resumo: O trabalho apresenta o estudo acerca do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) pelos professores do Curso Superior de Licenciatura em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na modalidade à distância. A abordagem qualitativa embasou a pesquisa e os instrumentos utilizados foram a pesquisa documental e o questionário. Os resultados demonstram que 57,1% dos docentes possui formação específica para o uso de TIC e dentre as ferramentas mais utilizadas estão o editor de texto e o de apresentação de slides, o que evidencia a subutilização das TIC. Em relação às redes sociais, metade dos professores faz uso dessas, sendo o Facebook e o Whatsapp as mais empregadas. As TIC fazem parte do cotidiano pedagógico no curso de Geografia UAB/UFSM, contudo não são exploradas todas as suas potencialidades e nem a diversidade existente de tecnologias educacionais.

Palavras-chave: Tecnologia de Informação e Comunicação, Geografia, Formação de professores, Educação à distância.

Abstract: This work presents the study about the use of Information and Communication Technologies (TIC) by the professors of the Graduate Course in Geography of the Federal University of Santa Maria (UFSM), in the distance modality. The qualitative approach was based on research and the instruments used were documentary research and the questionnaire. The results show that 57.1% of the teachers have specific training for the use of TIC and among the most used tools are the text editor and the slide show, which shows the underutilization of TIC. In relation to social networks, half of the teachers make use of these, with Facebook and Whatsapp being the most employed. The TIC is part of the pedagogical daily life in the UAB/UFSM Geography course, however, its potential and the existing diversity of educational technologies are not explored.

Keywords: Information and Communication Technologies, Geography, Teacher training, Distance education.

Resumen: El trabajo presenta el estudio sobre el uso de las Tecnologías de Información y Comunicación (TIC) por los profesores del Curso Superior de Licenciatura en Geografía de la Universidad Federal de Santa Maria (UFSM), en la modalidad a distancia. El enfoque cualitativo basó la investigación y los instrumentos utilizados fueron la investigación documental y el cuestionario. Los resultados demuestran que el 57,1% de los docentes posee formación específica para el uso de TIC y entre las herramientas más utilizadas están el editor de texto y el de presentación de diapositivas, lo que evidencia la infrautilización de las TIC. En cuanto a las redes sociales, la mitad de los profesores hace uso de esas, siendo Facebook y el Whatsapp más empleadas. Las TIC forman parte del cotidiano pedagógico en el curso de Geografía UAB/UFSM, sin embargo no se explotan todas sus potencialidades ni la diversidad existente de tecnologías educativas.

Palabras clave: Tecnología de Información y Comunicación, Geografía, Formación de profesores, Educación a distancia.

INTRODUÇÃO

Uma das principais características da sociedade contemporânea é a “sociedade em rede” (CASTELLS, 1999) na qual as tecnologias de informação e comunicação (TIC) permeiam nosso cotidiano. E neste contexto, é inevitável a transposição destas tecnologias para a educação, o que vem aumentando mesmo que a maioria não tenha sido inicialmente criada para fins pedagógicos.

O processo de ensino e aprendizagem requer a adequação destas ferramentas à metodologia de ensino adotada pelo professor, pois conforme Demo (2007, p. 90), “a evolução tecnológica não significa necessariamente evolução pedagógica: sempre é possível usar a tecnologia mais avançada para continuar fazendo as mesmas velharias, em particular o velho instrucionismo”.

Justifica-se a necessidade de maior entendimento acerca do uso das TIC uma vez que se corrobora com a premissa de que:

[...] as tecnologias possuem um potencial formativo que pode contribuir para ampliação dos espaços e dos tempos pedagógicos, para a flexibilização do currículo e para o aumento da interação entre os sujeitos tanto na educação presencial quanto na educação a distância (FELDKERCHER; MATHIAS, 2011, p. 84).

Conforme aponta a pesquisa TIC Educacao 2015, aplicadas a professores da educação básica pública e privada, a posse de dispositivos móveis tem se difundido entre a população. “Em 2015, 87% dos professores possuíam computador portátil no domicílio e 58%, tablet. Entre o total de professores, 46% deslocaram o computador portátil para a escola e 14%, o tablet” (TIC Educação, 2015, p. 149). A pesquisa também indica que 73% dos professores usuários de Internet afirmaram utilizar computador e/ou Internet com os alunos em alguma das atividades investigadas, sendo que 70% são professores de escolas públicas e 83% de escolas particulares. (p. 155)

Neste sentido, já é fato que as TIC fazem parte do cotidiano escolar, no entanto, a problemática aqui levantada é quanto a forma que essas tecnologias vem sendo utilizadas pelos professores. A formação inicial de professores é um espaço fundamental para desenvolver as competências pedagógicas necessárias para o uso das mais diversas ferramentas tecnológicas junto aos alunos. Como apontado por Martini e Bueno (2014, p. 386) “é importante que o professor vivencie a experiência de aprender com as tecnologias na graduação, para se sentir seguro ao incorporá-las à práxis”.

Assim, o objetivo da pesquisa é verificar o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) pelos professores do Curso Superior de Licenciatura em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no curso à distância/UAB (Universidade Aberta do Brasil) . Dentre os objetivos específicos visa-se realizar a caracterização acerca da formação profissional dos professores para o uso de TIC, e identificar quais TIC são utilizadas nos processos de ensino e aprendizagem, bem como a frequência e as atividades em que mais são utilizadas.

METODOLOGIA DA PESQUISA

A presente investigação se caracteriza pela abordagem qualitativa, a qual, conforme Gobbi e Pessôa (2009) têm suas raízes desenvolvidas pelos antropólogos, em seguida pelos sociólogos e posteriormente surgiu na pesquisa educacional. Os autores concluem ainda que veem a pesquisa qualitativa como “uma forma de maior aproximação da realidade” (GOBBI e PESSÔA, 2009, p. 487).

Quanto ao tipo ou nível da pesquisa, esta pode ser definida como exploratória, pois conforme Gil (2011), as pesquisas podem ser classificadas em explicativas, descritivas ou exploratórias, sendo que estas se caracterizam pela sua flexibilidade, objetivando a descoberta de ou delimitação de novos relacionamentos e/ou hipóteses.

Os participantes da pesquisa são professores vinculados ao curso de Licenciatura em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria, que atuam no curso EAD, e os instrumentos de coleta de dados utilizados foram o questionário e a pesquisa bibliográfica e documental.

De acordo com Gil (2010), a pesquisa bibliográfica e documental é a primeira a ser desenvolvida, com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos, entre outras fontes, os quais embasaram a discussão teórica desta pesquisa. Enquanto que a pesquisa documental vale-se de materiais que ainda não receberam um tratamento analítico ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa (GIL, 2010). O documento analisado foi o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Licenciatura em Geografia EAD/UAB da UFSM.

Já para realizar a coleta de informações junto aos professores foi utilizado um questionário online (Formulário do Google), o qual proporcionou mais agilidade ao acesso às informações e também facilidade no tratamento dos dados, visto que este recurso tecnológico propicia a geração de gráficos e tabelas de forma instantânea. O questionário foi enviado para os 20 professores que compõem o quadro docente do curso, e obteve-se um retorno de sete (7) questionários respondidos.

De acordo com Chizzotti (1991) o questionário é um conjunto de questões pré-elaboradas, sistemática e sequencialmente dispostas em itens que constituem o tema da pesquisa, com o objetivo de suscitar dos informantes respostas por escrito ou verbalmente sobre o assunto que os informantes saibam opinar ou informar.

Portanto, o questionário respondido contêm oito perguntas, sendo a maioria de múltipla escolha e, algumas de resposta descritiva. Através do questionário buscou-se averiguar dados acerca da formação dos professores para o uso de TIC, bem como informações quanto ao uso do computador, smartphone, Internet e redes sociais nas suas atividades didáticas e pedagógicas.

Quanto aos procedimentos de análise de dados utilizou-se a técnica da análise de conteúdo. Segundo Bardin (1977, p. 42), ela representa um conjunto de técnicas de análise das comunicações que visam a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção dessas mensagens.

TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA FORMAÇÃO DOCENTE

Para Castells (1996), as novas tecnologias de informação e comunicação estão criando novas formas de interação e comunicação. A interação propiciada pelas tecnologias pode e deve, num processo educativo, servir como elemento de ensino e de aprendizagem.

O uso da tecnologia na educação iniciou em meados de 1950, caracterizadas como "máquinas de ensinar, nas quais os alunos deveriam seguir ativamente determinados passos no processo de aprender" (TOSCHI, 2005, p.38), sendo que a tecnologia era vista como um recurso na "transmissão de conhecimento".

Na década de 1960, acreditava-se que a inclusão das tecnologias seria a solução para os problemas educacionais, sendo usadas como apoio e/ou recurso ao ensino, porém não havia uma postura de contextualização do que era ensinado.

Na década de 70 se concebe a ideia de que a tecnologia pode ser um mediador da estrutura cognitiva dos sujeitos, dentro de uma visão tecnicista "propunham a interação homem-máquina, numa perspectiva cognitivista para conseguir a mudança educativa" (TOSCHI, 2005, p.38).

Os anos 80 foram marcados pela inserção dos "novos" meios na escola, com o surgimento do retroprojetor, do gravador de som portátil, da filmadora, da fotocopiadora, da televisão, do vídeo e do computador. A passagem dos anos 80 para os 90 representou a disseminação do uso do computador e de suas múltiplas funcionalidades, em que aqui se destacam os chamados Kit Multimídia, o CD-Rom e a Internet.

A partir da década de 90, e ainda nos dias atuais, aumenta a valorização de um ensino aproximado com as experiências dos educandos, com a mediação do professor e das tecnologias. Passa-se a entender que "é preciso que a utilização destas tecnologias incorporem as dimensões ética, política, cultural, social, pedagógica e didática, de forma a que professores não se submetam às imposições políticas de organismos centrais" (TOSCHI, 2005, p.39).

No Brasil, em 1996, a modalidade do Ensino a Distância – EaD – foi normatizada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB. E de acordo com o Decreto 5.622/2005, a educação a distância é:

[...] a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos (BRASIL, 2005).

O crescente uso das tecnologias digitais e das redes de comunicação interativa tem acompanhado e ampliado uma profunda mutação da nossa relação com o saber. O mundo digital, marcado pelo ciberespaço, abre novas possibilidades de comunicação que vêm modificando as relações entre professores, alunos e o processo educativo como um todo. Nesse contexto, a sala de aula tradicional também tem passado por mudanças, segundo Moran (2007):

A sala de aula perde o caráter de espaço permanente de ensino para o de ambiente onde se iniciam e se concluem os processos de aprendizagem. Permanecemos menos tempo nela, mas a intensidade, a qualidade e a importância desse período serão incrementadas. Estaremos menos tempo juntos fisicamente, mas serão momentos intensos e também importantes de organização de atividades de aprendizagem (MORAN, 2007, p. 95).

Em sua obra, Kenski (2007, p.45-46) afirma que “as TIC provocaram mudanças na educação, possibilitando mediações entre o professor, o aluno e o conteúdo”. Para isso, elas precisam ser compreendidas e incorporadas pedagogicamente. Ao encontro desse entendimento o Curso de Geografia/Licenciatura a Distância enfatiza como diferencial a utilização dos recursos digitais, sobretudo aqueles que privilegiam a interação proporcionada pela Internet. Também objetiva sua inserção na utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) direcionadas ao saber pedagógico (PPP do Curso de Geografia). Além de o curso ser a distância e, por isso toda a mediação ser feita por computador, o curso também oferta disciplinas específicas para o uso de TIC no ensino como a EAD 1114 - instrumentalização para acesso à informação/EAD e EAD 1146 - Ensino e aprendizagem de geografia e a produção de mídias.

Conforme Moran (1993) é essencial que o professor conheça e tenha experiência com os meios de comunicação para poder utilizá-los no ensino. Neste processo, o educador conecta os assuntos da sala de aula com os meios – softwares, programas de TV ou outro meio de comunicação do interesse e do cotidiano do aluno. Moran, Masetto e Behrens (2000, p.23) evidenciam que um dos grandes desafios para o educador ao ensinar com uso de tecnologias e/ou meios de comunicação é ajudar a tornar a informação significativa, a escolher informações verdadeiramente importantes e entre tantas possibilidades, compreendê-las de forma cada vez mais abrangente e profunda, tornando-as parte do referencial de ensino. Diante do exposto, fica evidenciada a importância da capacitação técnica e pedagógica dos profissionais que atuam na educação:

A capacitação técnica os torna mais competentes no uso de cada programa. A capacitação pedagógica os ajuda a encontrar pontes entre as áreas do conhecimento em que atuam e as diversas ferramentas disponíveis, tanto presenciais como virtuais. Esta capacitação não pode ser pontual, tem que ser contínua, realizada semipresencialmente, para que se aprenda, na prática, a utilizar os recursos a distância (MORAN, 2007, p. 90).

Kenski (2007) evidencia a importância da formação contínua do professor em um mundo em rede, quando explica que:

[...] a formação do professor para atender às novas exigências originárias da ‘cultura informática’ na educação precisa refletir sobre a percepção de que a atualização permanente é a condição fundamental para o bom exercício da profissão docente (2007, p. 88).

Acerca da importância que o futuro professor tenha vivenciado em sua formação inicial experiências de aprendizagem envolvendo tais tecnologias, Mello (2004, p.178) afirma que:

[...] a aceitação e o uso pertinente das TIC devem passar primeiro pela experiência que o professor deverá ter como aluno que aprende com elas. É nessa situação de aprendizagem que o professor poderá perceber a riqueza e a facilidade que as mídias interativas permitem, como também as amplas possibilidades de construção coletiva de conhecimento e de aprendizagens colaboradas.

Portanto, é neste contexto que o presente estudo visa entender como os professores do curso de Geografia (UFSM/UAB) vêm se atualizando quanto ao uso das TIC em suas atividades pedagógicas e, assim, preparando os futuros professores de Geografia quanto a incorporação dessas tecnologias em sua futura atividade docente.

A maior parte dos professores que atuam no Curso Geografia EAD ingressou como docente no curso presencial da UFSM há bastante tempo e, portanto, não possuíam formação para o uso de TIC. Assim, tornou-se necessário a criação de espaços que ofertassem essa formação.

A Universidade Federal de Santa Maria oferece espaço para formação docente em TIC por meio do Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE), que visa incentivar a utilização de tecnologia educacional livre em rede nas disciplinas de cursos dessa Instituição. O NTE foi criado pela Resolução nº 021/2011 da UFSM, devido, entre outros, a necessidade de implementar-se capacitação e formação continuada de coordenadores, docentes, tutores, profissionais multidisciplinares e técnicos envolvidos em projetos/cursos no âmbito do Sistema UAB, segundo orientação expressa na Chamada Nacional do Plano Anual de Capacitação da DED/Capes, de 31 de agosto de 2010 (UFSM, 2011).

O NTE disponibiliza serviços como cursos de capacitação, desenvolvimento de material didático, suporte ao uso do moodle, gravação de vídeo-aulas, além de laboratórios para uso com os alunos. A equipe de “capacitação” é responsável por promover ações de capacitação em torno de conteúdos, de práticas e de metodologias que abordam tecnologias educacionais, além de familiarizar a comunidade com o ambiente virtual de ensino­-aprendizagem (AVEA) Moodle.

De acordo com o seu Regimento Interno em seu Art. 6o, compete ao NTE, dentre outras, “coordenar a equipe encarregada da capacitação de professores, tutores, estudantes e funcionários no processo de utilização crítica e criativa de recursos tecnologias de informação e comunicação aplicados à educação” (NTE, 2011).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A necessidade de expandir e interiorizar a oferta do ensino superior no Brasil e, especialmente dos cursos de formação de professores propicia a criação de novas universidades e expansão das já existentes. Dentro deste projeto de governo ganha espaço a Educação à distância, a qual já estava prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996) e que se concretiza por via do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB/2005). Neste contexto, é criado o curso de Licenciatura em Geografia à Distância na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), objetivando a formação de professores para atuar no ensino de Geografia na educação básica.

O Projeto Pedagógico do Curso de Geografia – Licenciatura (a distância) parte da experiência acumulada com o ensino a distância através da oferta do Curso de Graduação de Licenciatura em Geografia a Distância através do edital PROLIC II/MEC, do qual resultou na Rede Gaúcha de Ensino Superior a Distância (REGESD). Este curso teve início em outubro de 2007 e o término em dezembro de 2012 e se inseriu em uma proposta maior de qualificação de professores em serviço, ou seja, que já eram docentes no ensino básico, mas possuíam a Licenciatura curta ou formação em outra área que não a Geografia.

Assim, o Projeto Pedagógico do Curso de Geografia Licenciatura à Distância UFSM/UAB busca a formação de profissionais voltados para o ensino de Geografia na Educação Básica. Também objetiva sua inserção na utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) direcionadas ao saber pedagógico, que incentiva a produção do conhecimento mais consoante ao atual período técnico-científico-informacional que vivemos.

O objetivo geral visa promover a formação de professores de Geografia para o exercício do magistério nos anos/séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, alicerçada em uma base teórica-metodológica-técnica, direcionada para a pesquisa e a práxis pedagógica, considerando a interface natureza/sociedade (elementos intrínsecos à ciência geográfica) desenvolvendo aspectos éticos, sociais e econômicos.

O curso tem como público-alvo qualquer cidadão que conclua a Educação Básica e seja aprovado em processo seletivo, atendendo aos requisitos exigidos pela Universidade Federal de Santa Maria, instituição pública, vinculada à Universidade Aberta do Brasil.

Na primeira turma, que teve inicio no primeiro semestre de 2014, foram disponibilizadas 25 vagas por Polo, sendo os polos de apoio presencial: Palmeira das Missões, Quarai, Santa Maria, Santa Vitoria do Palmar e Santo Antônio da Patrulha (todos localizados na UF/RS). Já a segunda turma inicia no primeiro semestre de 2017, com Polos nas cidades gaúchas de Tapejara, Três Passos, Sapiranga e Serafina Correa.

Cada um destes Polos disponibiliza aos estudantes um espaço físico com computadores, Internet, livros e um tutor presencial para auxiliar os estudantes nas suas atividades. Também existe um tutor a distância responsável por cada disciplina que auxilia o professor na elaboração de material didático, planejamento das atividades, alimentação da plataforma Moodle, mantendo um canal de comunicação direto com os estudantes visando sanar as dúvidas referentes aos conteúdos e atividades. O Moodle é a plataforma de ensino utilizada na educação à distância (UAB), configurando‐se como o AVA (Ambiente de Aprendizagem Virtual) de software livre.

O questionário utilizado como instrumento de coleta de dados junto aos professores, objetivou buscar dados acerca da formação profissional destes para o uso de TIC, assim como saber quais TIC são utilizadas nos processos de ensino e aprendizagem, sua frequência e, as principais atividades por elas intermediadas.

A primeira questão abordou a formação dos professores para o uso pedagógico em TIC, e de acordo com as respostas 57,1% dos professores possuem formação específica. Conforme Gráfico 1, a maioria adquiriu nos cursos de capacitação ofertados pelo NTE da UFSM e dois possuem Especialização em TIC. Contudo, percebe-se que uma grande parcela dos professores não possui formação, 42,9%, o que se apresenta como um dado preocupante, visto que estes professores estão atuando em um curso à distância, no qual todo o processo de ensino-aprendizagem é mediado pelas TIC. Destaca-se a grande parcela que não possui capacitação, pois como aponta Moran (2007) é fundamental que o professor busque a capacitação contínua, tanto técnica como pedagógica para o uso de TIC.

Gráfico 1 – Formação para uso de TIC
Gráfico 1 – Formação para uso de TIC
Fonte: Elaborado pela autora (2017).

Quanto à segunda pergunta: Qual a motivação para o uso de TIC em suas atividades pedagógicas? A motivação para 57,1% dos docentes partiu da demanda para atuar no Curso de Geografia EAD, enquanto que para 42,9% foi demanda pessoal e, nenhum afirmou que a demanda partiu dos estudantes. A busca por formação para o uso de TIC, para a maior parte dos docentes, só começa a partir da criação do curso à distância, o que pressupõem a não utilização, ou muito pouca, antes disso, no curso presencial de Geografia.

Em relação ao uso de computador para ações de ensino e aprendizagem, todos os entrevistados dizem utilizá-lo (Gráfico 2), sendo que na maior parte das vezes (57,1%) o computador utilizado é pessoal. Estes dados vão ao encontro do panorama apontado pela pesquisa TIC e Educação (2015), a qual aponta o aumento considerável de uso de computadores pelos professores da educação básica no Brasil.

Gráfico 2 – Uso de computador
Gráfico 2 – Uso de computador
Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

A quarta questão se refere ao uso de ferramentas do computador nas práticas pedagógicas (editor de texto, editor de planilha, apresentação de slides, reprodutor de vídeo/áudio, jogos educativos, software específico). A ferramenta mais utilizada pelos docentes é o editor de textos e em segundo lugar o editor de apresentações (Power Point, LibreOffice Impress); já os reprodutores de vídeos ou áudios aparecem como a terceira ferramenta mais utilizada (ver Tabela 1).

Tabela 1 – Ferramentas de computador utilizadas
Ferramentas mais utilizadas do computador para atividade de ensino e aprendizagem
10 Editor de texto
20 Editor de apresentações
30 Reprodutor de vídeo/áudio
40 Software específico
50 Editor de planilhas
60 Jogos educacionais
Fonte: Respostas ao questionário.

O uso de algum software específico está como a quarta ferramenta mais utilizada, sendo essencialmente os SIGs (Sistemas de Informações Geográficas) e/ou Webgis (Sistemas de Informações Geográficas na Web/Internet). Estas ferramentas propiciam inúmeras possibilidades para o ensino de Geografia, e Cosme (2012, p. 19), informa que os WebGIS são:

[...] soluções que permitem o acesso aos dados espaciais e alguma análise espacial simples. Possuem interfaces muito intuitivas que facilitam a sua utilização e ferramenta de produção rápida e direta de mapas. O acesso é feito remotamente a servidores que possuem a informação. São exemplos: o Google Earth, o Live Maps, o GeoSapo, apenas para citar alguns. Alguns destes servem objetivos muito simples, como a apresentação de espaços e seus pontos notáveis, fundamentais para o quotidiano dos seus habitantes (COSME, 2012, p. 19).

O editor de planilhas aparece como uma ferramenta muito pouco utilizada, e nenhum professor diz utilizar jogos educacionais. Estes últimos são um recurso didático que contém características que podem trazer uma série de benefícios para as práticas de ensino e aprendizagem (SAVI, 2008).

O uso de celular e Internet em sala de aula vem aumentando, conforme apontado na pesquisa TIC Educação (2015), e possibilitam, além de usos de SIGs, o uso de redes sociais para atividades pedagógicas. Essa realidade se reflete no curso de Geografia EAD da UFSM, pois de acordo com o gráfico 3, 85,7% dos professores fazem uso do celular e Internet e, apenas 14,3% dizem nunca utilizar.

Gráfico 3 – Uso de celular
Gráfico 3 – Uso de celular
Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

Acerca do uso de redes sociais com os alunos, metade dos entrevistados diz não utilizar, sendo a plataforma Moodle a única forma de interação e mediação. Dentre os que fazem uso, o Facebook e o Whatsapp aparecem como as mais usuais, enquanto que o Twitter e o Snapchat os menos.

Ainda em relação às redes sociais a sétima pergunta indagou quais atividades são realizadas, e de acordo com as respostas: os professores usam as redes sociais para fazer contato, dar recados, realizar compartilhamento de vídeos, leitura e compartilhamento de textos através do Google Docs, trabalhos em grupos, aplicar questionários, disponibilizar materiais e fazer orientações (ver Gráfico 4).

Gráfico 4 – Uso de redes sociais
Gráfico 4 – Uso de redes sociais
Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

Já a oitava pergunta visou saber acerca da interatividade dos alunos em atividades mediadas por TIC. Para 71,4% a interatividade é maior quando mediada por TIC; para 14,3% não há diferença com ou sem uso de TIC; e ainda 14,3% avaliam que é menor do que em atividades sem o uso de TIC (ver Gráfico 5).

Gráfico 5 – Interatividade
Gráfico 5 – Interatividade
Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

Autores como Kenski (2007) e Moran (1993) afirmam que a interatividade é maior em atividades mediadas por TIC, e grande parte dos docentes do curso de Geografia à distância concordam, 71,4% de acordo com o Gráfico 5. Porém, uma parcela significativa, 28,6%, avalia que não há mudança e até mesmo que a interatividade é menor com o uso de TIC. Talvez essa pouca interatividade ocorra devido a forma como as atividades estão sendo propostas, pois para que haja interatividade é necessário realizar trabalhos em grupos, promovendo estratégias de interação e dinâmicas pelas quais os alunos possam colaborar com iniciativas próprias que não sejam impostas, e também que o professor esteja apto a utilizar todos os recursos tecnológicos disponíveis nos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Torna-se impressindível formar professores para o contexto educacional atual, no qual as TIC permeiam o cotidiano dos alunos e oferecem inúmeras ferramentas e possibilidades para um ensino cada vez mais dinâmico. Na educação à distância, como no caso aqui estudado do curso de Geografia UAB/UFSM, é essencial o uso das mais diversas ferramentas educacionais, visto que toda a interação didática é mediada por computador. E quanto mais os alunos vivenciarem experiências de aprendizagem com as tecnologias, mais fácil será a sua aplicação enquanto professores.

Os resultados mostram que pouco mais da metade dos docentes (57,1%) possui formação específica para o uso de TIC, enquanto que uma parcela considerável, mais 40% não tem, embora o NTE ofereça cursos continuamente. Em relação às redes sociais, apenas metade dos docentes faz uso dessas, sendo o Facebook e o Whatsapp as mais empregadas. Mesmo percebendo que a interatividade é maior em atividades mediadas por TIC, e embora todos digam fazer uso do computador para atividades de ensino e aprendizagem, segundo os sujeitos pesquisados, as ferramentas mais utilizadas são o editor de texto e o de apresentação de slides, o que evidencia a subutilização das TIC, pois não são exploradas todas as suas potencialidades e nem a diversidade existente de tecnologias educacionais, em especial as inúmeras ferramentas que a geografia oferece com os SIG.

Formar docentes para as novas tecnologias não se restringe a competências e habilidades de domínio de técnicas e ferramentas tecnológicas, mas também exige que se alinhe essas à metodologia pedagógica utilizada pelo professor e ao contexto do aluno. É essencial que esse processo seja vivenciado pelos alunos do Curso de Geografia/Licenciatura a distância, pois assim terão subsídios práticos e metodológicos para incorporarem as TIC de forma crítica quando se tornarem professores.

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