RESUMO: Atualmente, as experiências humanas com as tecnologias digitais (TD) tem se naturalizado, interferindo na rotina e transformando a maneira de pensar, sentir e agir dos sujeitos, principalmente, dos adolescentes. Este estudo tem por objetivo investigar pesquisas empíricas que tratam da percepção dos adolescentes acerca da forma como lidam com as TD nas suas relações sociais. A pesquisa é de natureza básica e de cunho qualitativo, tendo como modalidade principal a análise de conteúdo e como secundárias a bibliográfica e descritiva-análitica. Os dados foram organizados com base em sete textos científicos publicados entre 2017-2020, extraídos dos portais CAPES, Scielo e Google Acadêmico. A análise do conteúdo gerou três categorias temáticas: Uso Pessoal - revela o fácil acesso às tecnologias e à internet, sendo o smartphone com câmera o mais utilizado; Dinâmicas Familiares - mostra o distanciamento afetivo dos adolescentes com seus familiares; Instituição Educacional - salienta que os adolescentes incorporam as TD como ferramentas que contribuem no seu processo de aprendizagem, porém recebem pouca orientação dos docentes sobre o uso mais qualificado. Conclui-se que as TD fazem parte do cotidiano, implicando em ressignificações nas formas de relacionarem-se com a família, amigos e escolarização. Percebe-se a lacuna existente na orientação dada aos adolescentes por seus responsáveis e docentes sobre os riscos e cuidados no uso excessivo que realizam das TD, revelando a necessidade de mais estudos e propostas de intervenção em uma perspectiva de formação crítica e reflexiva em relação a este objeto de investigação.
Palavras-chave: Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), Tecnologias Digitais, Adolescência.
ABSTRACT: Currently, human experiences with digital technologies (DT) have become natural, interfering with routine and transforming the way of thinking, feeling and acting of individuals, especially teenagers. This study aims to investigate empirical research regarding the perception of adolescents about the way they deal with DT in their social relationships. This basic research uses qualitative analyses methods, with content analysis as the main method and bibliographic research and descriptive analytical approach as secondary methods. Data were organized based on seven scientific texts published between 2017-2020, extracted from the CAPES, Scielo and Google Scholar portals. Content analysis showed three categories: Personal Use - indicates easy access to DT and the internet, with smartphones with cameras being the most used; Family Dynamics - highlights an emotional distance between adolescents and family members; Educational Institution - it shows that adolescents incorporate DT as tools that contribute to their learning process but receive little guidance from teachers on the use of DT. In conclusion, DT are part of everyday life, contributing to new relationship pathways with family, friends and education. There is a gap in the guidance given to adolescents by their guardians and teachers about the risks and precautions in the excessive use they make of technologies, revealing the need for further studies and interventions that bring a critical and reflective perspective in regards to this object of investigation.
Keywords: Information and Communications Technology (ICT), Digital Technologies, Adolescence.
RESUMEN: Hoy, las experiencias humanas con las tecnologías digitales (TD) se han vuelto naturales, interfiriendo en la rutina y transformando la forma de pensar, sentir y actuar de los individuos, especialmente de los adolescentes. Este estudio busca investigar investigaciones empíricas que tratan sobre la percepción de los adolescentes sobre cómo manejan las TD en sus relaciones sociales. La investigación es de naturaleza básica y cualitativa, utilizando el análisis de contenido, así como las modalidades bibliográfica y descriptiva-analítica. Los datos se organizaron en base a siete textos científicos publicados entre 2017 y 2020, extraídos de los portales CAPES, Scielo y Google Académico. El análisis de contenido generó tres categorías temáticas: Uso Personal - revela el fácil acceso a las tecnologías y a Internet; Dinámicas Familiares - muestra la distancia afectiva de los adolescentes con sus familiares; Institución Educativa - destaca que los adolescentes incorporan las TD como herramientas de aprendizaje, pero con poca orientación de sus profesores, sobre un uso cualificado. Se concluye que las TD implican en la resignificación en las formas de relacionarse con la familia, amigos y educación. Se observa una brecha en la orientación proporcionada a los adolescentes por sus responsables y profesores sobre los riesgos y cuidados en el uso excesivo de las TD, así necesitase de más estudios y propuestas de intervención, una perspectiva de formación crítica y reflexiva sobre el objeto de investigación.
Palabras clave: Tecnologías de la Información y Comunicación (TIC), Tecnologías Digitales, Adolescencia.
Artigo
PERCEPÇÕES SOBRE O USO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS PELOS ADOLESCENTES
PERCEPTIONS ABOUT THE USE DIGITAL TECHNOLOGIES BY ADOLESCENTS
PERCEPCIONES SOBRE EL USO DE TECNOLOGÍAS DIGITALES POR PARTE DE LOS ADOLESCENTES
Recepción: 10 Julio 2023
Aprobación: 22 Mayo 2024
Publicación: 15 Julio 2024
Nos dias atuais tem se intensificado os debates sobre o processo de naturalização das tecnologias digitais nas experiências humanas, interferindo nas mais diversas atividades sociais, transformando a maneira de pensar, sentir e agir dos sujeitos e, principalmente, dos adolescentes. Nesse cenário, “os jovens abraçam essas novidades e se envolvem com elas de maneira mais visceral e naturalizada” (Sibila, 2012, p. 51). Os usos que os jovens realizam das tecnologias digitais são os mais variados, seja pela facilidade da comunicação instantânea, variedade de entretenimento digital, relacionamentos, buscar informações, realizar compras, estudar, jogos online.
Nesse contexto de grandes mudanças nas práticas individuais mediada pelas tecnologias, considerar como essas práticas reverberam no cotidiano, principalmente, dos adolescentes, estudantes da Educação Profissional Tecnológica (EPT), é um desafio, já que a perspectiva de formação humana está adotada nos documentos oficiais que norteiam a EPT, entre os quais está o Parecer n.º 11, de 9 de maio de 2012, do Conselho Nacional de Educação (CNE). A formação integral “promove a reflexão crítica sobre os padrões culturais que constituem normas de conduta de um grupo social, assim como a apropriação de referências e tendências que se manifestam” (Brasil, Par. 11, 2012). Esse parecer sinaliza a necessidade de organização de um ensino que vá além da inserção na vida econômica-produtiva, mas que as práticas pedagógicas “permitam a organização do pensamento e das formas de compreensão das relações sociais e produtivas, que articule trabalho, ciência, tecnologia e cultura na perspectiva da emancipação humana” (Brasil, Par. 11, 2012). Está posto que as instituições de ensino consigam fornecer uma formação integral em que os estudantes alcancem uma capacidade de compreensão crítica e reflexiva sobre os usos que os adolescentes vêm realizando das tecnologias.
Nesse contexto encontra-se o objeto desta pesquisa: a percepção dos adolescentes sobre as implicações do uso que fazem das tecnologias digitais3. A motivação para esta pesquisa surge da atuação do pesquisador na educação como psicólogo realizando atendimentos, atuando na orientação aos pais e docentes e vivenciar queixas sobre o uso frequente que os estudantes fazem das tecnologias. Os docentes e pais relatam perder a autoridade e não conseguem estabelecer uma rotina fora desses aparelhos. Com isso, objetiva-se investigar pesquisas produzidas entre 2017-2020 que tratam do objeto acima exposto. Isso porque depreender como essas questões vêm sendo investigadas no campo científico contribui para a seleção de procedimentos metodológicos adequados para novas pesquisas a fim de que se tenham melhores condições de intervir positivamente, especialmente, no contexto de escolarização.
Após a exposição dos elementos introdutórios deste artigo (1), apresenta-se, em (2), o referencial teórico, em (3), a metodologia, em (4), descrição e análise dos dados, e, em (5), a conclusão, retomando-se o objetivo geral da pesquisa para o fechamento.
Esta seção traz o referencial teórico que embasa esta pesquisa, assim, em (2.1), apresenta-se a Educação Profissional e Tecnológica, em (2.2), discorre-se sobre as implicações das Tecnologias digitais no cotidiano.
A Lei n.° 11.741, de 16 de julho de 2008 (Brasil, Lei n.° 11.741, 2008) implementou a EPT e, na sequência, pela lei n.° 11.892, de 29 de dezembro de 2008 (Brasil, Lei n.° 11.892, 2008) ocorreu a criação dos Institutos Federais (IFs). A concepção pedagógica para a EPT consta no Parecer n.° 11 de maio de 2012 do CNE (Brasil, Par. n.°11, 2012), em que aparecem conceitos como: dualidade educacional, indissociabilidade entre trabalho, tecnologia, ciência e cultura, o trabalho princípio educativo e a pesquisa como princípio pedagógico. Também são apresentados os conceitos de trabalho no sentido histórico e ontológico e a proposta educacional do Ensino Médio Integrado dos cursos dos IF que almejam uma formação integral dos estudantes trabalhadores na perspectiva da politecnia e da omnilateralidade.
Conforme Saviani (2003, p.136), com base nas obras marxianas, “A noção de politecnia se encaminha na direção da superação da dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre instrução profissional e instrução geral”. Em complemento, Ciavatta (2009, p.408) afirma que a politecnia “remete à relação entre o trabalho e a educação, no qual se afirma o caráter formativo do trabalho e da educação como ação humanizadora por meio do desenvolvimento de todas as potencialidades”.Nessa compreensão, é na mediação da ação educativa do trabalho que os sujeitos se tornam aptos para atuarem no processo produtivo e, também, constituir-se protagonista das transformações nas dimensões social, política e cultural da sua realidade. Diante disso, a formação integral,
Não somente possibilita o acesso a conhecimentos científicos, mas também promove a reflexão crítica sobre os padrões culturais que se constituem normas de conduta de um grupo social, assim como a apropriação de referências e tendências que se manifestam em tempos e espaços históricos, os quais expressam concepções, problemas, crises e potenciais de uma sociedade, que se vê traduzida e/ou questionada nas suas manifestações (Brasil, Par. n.°11, 2012).
Uma formação integral na perspectiva politécnica almeja fornecer um ensino que visa ao desenvolvimento e autonomia do sujeito em todas as suas potencialidades, sendo capaz de produzir a própria vida e compreender os aspectos intrínsecos do modo de produção atual, atrelando o trabalho intelectual com o saber produtivo.
A proposta do ensino médio integrado ofertado pelos institutos federais busca romper com essa dualidade histórica que separa trabalho manual e intelectual e segmenta os sujeitos trabalhadores, ofertando uma educação que esteja comprometida com a classe trabalhadora e avance no sentido de uma sociedade mais igualitária que compreenda a educação como um direito de todos. Para Ciavatta, Frigotto e Ramos (2005, p.45), o ensino médio integrado é estratégico para incluir os conhecimentos científicos e objetivos:
A possibilidade de integrar formação geral e formação técnica no Ensino Médio, visando à uma formação integral do ser humano é, por essas determinações concretas, condição necessária para a travessia em direção ao Ensino Médio politécnico e à superação da dualidade educacional pela superação da dualidade de classes.
Na defesa do currículo integrado, o Documento Base da Educação Profissional Técnica de Nível Médio integrado ao Ensino Médio (2007) prevê:
A integração de conhecimentos no currículo depende de uma postura epistemológica, cada qual de seu lugar, mas construindo permanentemente relações com o outro. O professor de Química, de Matemática, de História, etc. pode tentar pensar em sua atuação não somente como professores da formação geral, mas também da formação profissional, desde que se conceba o processo de produção das respectivas áreas profissionais na perspectiva da totalidade (Brasil, DBEPT, 2007, p.53).
Essa integração se faz necessária como alternativa para uma formação dos estudantes que lhes permita perceber o mundo em sua totalidade e estarem preparados para agir no mundo à sua volta de maneira crítica. Ou seja, demarca uma concepção de mundo e de educação comprometido com um projeto de sociedade a qual se pretende alcançar.
Essa perspectiva aplicada ao ensino médio integrado permite aos estudantes compreenderem as contradições subjacentes à forma como as práticas sociais se constituem, entre as quais está o mundo do trabalho, mediadas pelas diferentes tecnologias. Em especial, sobre as tecnologias digitais, a prática pedagógica deve levar os estudantes a refletirem de forma crítica sobre os padrões culturais estabelecidos na realidade posta. O fenômeno social e cultural do uso das tecnologias deve ser compreendido e problematizado em relação às implicações afetivas e cognitivas que esse uso está gerando, especialmente, entre os usuários mais jovens, em período de escolarização.
Apresentados alguns conceitos base da EPT, na próxima seção, segue a discussão do tema das implicações das tecnologias digitais no cotidiano.
Conforme prevê o Parecer n.° 11 de maio de 2012, norteador para a EPT de Nível Médio, uma das dimensões da formação integral compreende o acesso dos estudantes aos conhecimentos historicamente acumulados. Ao acessar esses saberes é possível promover uma reflexão crítica sobre os fenômenos culturais de cada geração, contextualizando-os e percebendo os campos em disputa e a forma como as ideologias organizam a realidade para poder, assim, agir sobre ela. Um desses fenômenos nos quais se está imerso na contemporaneidade são as TIC e as Tecnologias Digitais.
Nas últimas décadas (Barros; Roldão, 2016), o conceito de TIC vem sendo atrelado a toda a gama de novas tecnologias que são desenvolvidas a partir da popularização da internet e seus canais de comunicação tais como redes sociais, aplicativos e plataformas digitais. Nesse sentido, para este trabalho, se assumirá o conceito de Tecnologias Digitais para se referir a este conjunto de tecnologias interligadas em rede, como smartphones, tablets, televisões inteligentes etc. de ampla utilização e interferência direta no cotidiano dos adolescentes. O aperfeiçoamento dessas novas tecnologias permitiu e permite uma comunicação instantânea, suprimindo o fator da distância, lapidando novas formas de lazer e recreação e desenvolvendo a sociedade em rede.
A autora Paula Sibilia discute o uso das tecnologias como ferramentas de época, em uma perspectiva sócio-histórica, e como esses artefatos tecnológicos supõem, propõem e estimulam certos modos de ser e de viver, carregando implicitamente em si um conjunto de valores e ideologias, resultando em formas de se relacionar consigo e com o mundo que acabam moldando as subjetividades dos sujeitos, principalmente, dos adolescentes.
A autora tece sua análise sobre as transformações nos últimos séculos a partir do olhar da antropologia e da genealogia da subjetividade, compreendendo que os sentidos dos modos de ser como sendo históricos, se transformam em contato com cada ambiente cultural, em cada época e as tecnologias fazendo parte dessas transformações:
Tornamo-nos compatíveis com certas tecnologias, com os artefatos culturais próprios de nossa época. Ao mesmo tempo, nos tornamos compatíveis com os modos de vida que esses artefatos supõem, propõem e estimulam. Certos modos de ser e de viver estão implícitos nesses aparelhos. Estão supostos, propostos e estimulados por esses aparelhos. Ou seja, as tecnologias não são neutras, como se costuma dizer, uma ferramenta não pode ser utilizada para qualquer coisa. As tecnologias não são neutras e isso não significa que sejam boas ou ruins, elas são históricas, carregam valores, crenças (Sibila, 2018).
Para essa autora, os corpos e as subjetividades não são fixos, estáveis e universais, eles mudam e se adaptam às diferentes culturas e nos tornamos compatíveis com os artefatos tecnológicos de cada época histórica e por consequência nos tornamos compatíveis com os modos de vida propostos por elas. Os sujeitos são envolvidos nessas práticas e, sem que haja um debate crítico e reflexivo, são incorporados um contingente de hábitos e costumes os quais são naturalizados.
Uma dessas transformações que Sibilia (2016) chama a atenção é em relação ao fenômeno “extimidade”, que se revela principalmente mediante as tecnologias digitais mais acentuadamente nas últimas décadas, diferentemente da era da intimidade preservada de outrora. Esse termo cunhado pela autora busca dar visibilidade sobre a intimidade e exterioridade, sendo que na sua compreensão, a união desses dois conceitos gera a extimidade, que seria “uma entidade para cuja configuração foi necessário deslocar o eixo das subjetividades: do magma causal da interioridade psicológica para a capacidade de produzir efeitos no olhar alheio” (Sibila, 2016, p.163). A extimidade é então relacionada ao incessante comportamento de expor a intimidade nas redes sociais, incorporando tal aspecto no cotidiano, buscando a confirmação e aceitação do olhar alheio a partir da espetacularização do espaço íntimo:
espetacularizar o eu consiste precisamente nisso: transformar as nossas personalidades e vidas (já nem tão) privadas em realidades ficcionalizadas com recursos midiáticos. É isso que se procura fazer ao performar a própria extimidade nas telas cada vez mais onipresentes e interconectadas (Sibila, 2016, p. 249).
Essa mudança da noção da intimidade para a performance da exposição do cotidiano tem estimulado modos inéditos de ser e estar no mundo.
A autora ainda afirma que as formas tradicionais de construção de si, como a escrita do diário, as trocas de cartas, a leitura constante de romances, amadureciam uma forma de identidade que preservava o eu-íntimo. Essas estão sendo substituídas pelas tecnologias digitais de comunicação em rede, selfies em instagram, vídeos em youtube, posts em facebook etc., resultando na ressignificação das subjetividades. Sibilia (2018) sinaliza duas características marcantes da contemporaneidade e pode-se dizer que os jovens/adolescentes estão mais expostos e envolvidos que são é a Visibilidade e a Conectividade:
Aprendemos a viver desse modo, visíveis e conectados. Vivemos performando, aprendemos a performar na visibilidade. Nossa vida cotidiana, cada vez mais os âmbitos da nossa vida se pretende que sejam expostos. Há um ideal de transparência e visibilidade. Não é lei, não é obrigatório, no entanto nós aprendemos, há um estímulo de viver assim, uma generalização e uma aceitação de viver assim. Alguns com mais entusiasmo e outros mais resistentes, mas isso está se generalizando. E não apenas entre os mais novos (Sibila, 2018).
Como se observa, adota-se e incorpora-se às tecnologias digitais, tornando-se reféns dessas práticas. Manter-se conectado ao dispositivo do aparelho smartphone ligado à rede de internet se tornou algo usual, nele procuram-se informações, lazer, entretenimento, apoio aos estudos e como uma ferramenta de trabalho.
Nesse processo, percebe-se que os jovens possuem o celular como uma extensão da própria vida para se manterem a maior parte do tempo conectados e buscam performar seu cotidiano nas redes sociais, e esse fenômeno vem aumentando o grau de visibilidade e conectividade. A autora reforça que
As redes sociais, por exemplo, são um fenômeno muito recente, assim como os celulares inteligentes, tem pouco mais de uma década e a sua generalização é mais recente ainda. É um fenômeno do século XXI, bem recente. E está se consumando e se cristalizando. Não é por acaso que as redes sociais fazem parte desse fenômeno, elas são vitrines nas quais se facilita essa forma de viver, de estar em contato com os outros, com muitos outros o tempo todo e na visibilidade. Com telas, exposição. Mostrando aos outros e monitorando também o que os outros fazem (Sibila, 2018).
Essas transformações vivenciadas mais acentuadamente na virada do século XX e intensificadas nas últimas décadas precisam ser compreendidas à luz de uma percepção crítica e reflexiva. Isso para se buscar compreender os sistemas de valores atrelados à proposta de desenvolvimento tecnológico que inevitavelmente existem em cada artefato tecnológico, uma vez que se parte da noção da não neutralidade de valores.
Abordou-se, neste item, sobre o conceito de TIC e as formas como elas têm implicado no cotidiano dos adolescentes. No próximo item, apresenta-se a metodologia desta pesquisa.
Em busca de ampliar a compreensão sobre como o objeto deste estudo tem sido investigado, procedeu-se uma revisão de pesquisas empíricas desenvolvidas entre os anos de 2017 e 2020 nas plataformas de busca do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Scielo e no Google Acadêmico. Para tanto, foram utilizados os seguintes descritores: Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC); Tecnologias Digitais; Adolescência; Ensino Médio Integrado. A busca resultou em vinte e três (23) investigações empíricas, dos quais se recortou uma amostra de uma tese, uma dissertação e cinco artigos que mais se aproximam do objeto desta pesquisa, ou seja, as percepções dos adolescentes sobre o uso que fazem das tecnologias digitais.
O método de procedimento utilizado é o qualitativo, por compreender “que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números” (Prodanov; Freitas, 2013, p.70). Neste estudo, busca-se compreender melhor como se dá a relação existente entre os usos que os adolescentes realizam das tecnologias digitais e as implicações para a relação deles, com o outro e com o mundo.
Assume-se como modalidade principal a análise de conteúdo, pois esta “aparece com um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” (Bardin, 2011, p.38). A metodologia de análise busca uma aproximação entre as intuições do pesquisador com as interpretações sobre o objeto investigado. Em termos de pesquisas secundárias (Severino, 2017) que tratam da natureza e organização dos dados para a constituição do corpus, seleciona-se a bibliográfica que, segundo Fonseca (2002, p.32), “feita a partir do levantamento de referências já analisadas e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web e sites”. Permite ao investigador conhecer o que já foi estudado sobre seu tema, observando em especial os procedimentos metodológicos empregados e os resultados encontrados.
Entre as pesquisas secundárias relativas ao objetivo da pesquisa, conforme propõe Severino (2017), selecionou-se a modalidade descritiva que, para Gil (2002, p.42), “Tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relações entre variáveis”. Tem-se também a pesquisa explicativa, cuja proposta é ir além da identificação entre as variáveis e, por isso, “tem-se uma pesquisa descritiva que se aproxima da explicativa” (Gil, 2002, p. 42). Para este autor, as pesquisas descritivas que almejam compreender a natureza da relação entre as variáveis, além da simples identificação da relação entre as variáveis se enquadram em uma pesquisa descritiva-explicativa, sendo que, nesta pesquisa, focaliza-se os pressupostos teóricos relativos às tecnologias digitais com interseção com as implicações do uso no cotidiano dos adolescentes estudantes.
Ao se tratar de procedimentos metodológicos e instrumentos geradores do corpus de análise, estes dizem respeito aos diferentes textos científicos selecionados, os quais são apresentados por ordem de data de publicação. Foram analisados segundo as variáveis de pesquisa: título, objetivo, natureza, métodos-modalidades de pesquisa, sujeitos pesquisados e resultados. A pesquisa envolveu a leitura, descrição e análise do material bibliográfico para analisar e discutir os dados obtidos e, por fim, desenvolver uma compreensão mais aprofundada sobre o tema em questão.
A seguir, apresenta-se a descrição das variáveis de busca de cada texto e na sequência, é realizada a análise e discussão dos dados.
A dissertação de Silva (2017)Percepção dos discentes de uma escola pública estadual a respeito da abordagem e a utilização de TICs no ensino, traz como objetivo geral avaliar como as TICs são abordadas no ensino, a partir das percepções dos discentes. Pesquisa qualitativa, pela metodologia fenomenológica de estudo de caso e para análise dos dados, o método descritivo. Envolveu 26 alunos do sexto ao primeiro ano do ensino médio. Foram realizadas cinco oficinas, após, foi aplicado um questionário com 23 perguntas. Os resultados: a) fácil acesso a computadores com internet e têm presença on-line como algo incorporado a sua rotina; b) 53,8% aprenderam a usar o computador sozinho, revelando autodidatismo; c) 45% concordam que as TICs auxiliam no processo de aprendizado pelo uso de computadores e internet na escola; d) concordam que o uso das TICs nas aulas contribuiu para se concentrarem mais. O autor ressalta que, embora os alunos tenham habilidades para o uso das TICs, eles não demonstraram iniciativa de usá-las para o aprendizado qualificado, preferindo usar as mídias para fins meramente recreativos. Silva (2017) conclui que a dificuldade não está em promover o uso da tecnologia, pois os alunos já fazem cotidianamente, mas o desafio é fazê-los utilizar para fins de aprendizagem direcionada e não meramente para fins recreativos.
O artigo O desempenho em tecnologias digitais para aprendizagem: um estudo com universitários de Nascimento, Salviato-Silva e Dell’Agli (2018), tem como objetivo analisar a percepção que os universitários têm sobre a utilização de recursos TICs para sua aprendizagem. Estudo de campo, não experimental, descritivo, abordagem quantitativa e como procedimento técnico foi aplicado um questionário, contando com 308 participantes. Os resultados: a) há uma forte percepção que as TIC são facilitadoras do processo de aprendizagem; b) o desempenho em “ferramentas básicas e comunicação” são mais comuns, como o uso de redes sociais, aplicativos de comunicação, editores de textos, e-mail, e navegação da internet; c) solução de problemas e produtividade são menos utilizados. Nascimento, Salviato-Silva e Dell’Agli (2018) consideram que os universitários consideram as tecnologias como aliadas no processo de aprendizagem, porém não são muito incentivadas a sua utilização e a aprendizagem depende de iniciativas extracurriculares, como cursos externos à instituição.
A tese de Medeiros (2018)Os adolescentes e os aparelhos celulares: visualidades contemporâneas têm como objetivo compreender a forma como os estudantes interagem com o aparelho celular e o uso que fazem desse dispositivo em rede. Metodologia qualitativa de abordagem interpretativista com inspiração etnográfica, mediante estudo exploratório, de observação. Foi aplicado questionário com 147 alunos do 7° ao 9° e entrevistados três estudantes. Os resultados foram: a) 91% possuem celular com câmera e com acesso à internet; b) 71% celular é o que mais utilizam; c) para 65% o celular faria falta caso fosse estragado; d) 62,5% utilizam o WhatsApp; 47% site Facebook; 17% jogos; 12% música; 11% fazem ou recebem ligações; 9% vídeos pelo youtube; 5,4% google; 4,7% pesquisas; e) 71% deixam o celular ligado 24 horas por dia; e) 86% relataram tirar fotos e utilizam editores de imagem para publicá-las, sendo o Facebook destino de muitas delas; f) 89% têm perfil na rede social e 50% acessam facebook “24 horas por dia”. Ao concluir, Medeiros (2018) revela a forma de expor a intimidade desses através das tecnologias digitais, algo que se tornou comum no cotidiano dos adolescentes e os registros visuais produzidos torna-se uma nova forma de se relacionarem. Sendo que as edições das imagens produzidas buscam mostrálos mais bonitos, ficando evidente a vaidade dos alunos e o desejo de conquistar olhares mesmo que pela rede virtual e mediado por curtidas nas fotos publicadas.
No artigo de Zancan e Tono (2018) “Hábitos dos adolescentes quanto ao uso das mídias digitais”, traz o objetivo de investigar os hábitos dos adolescentes quanto ao uso das mídias digitais, os impactos deste uso e a percepção que os adolescentes têm sobre esse assunto. Pesquisa qualitativa e quantitativa, descritiva e bibliográfica. Participam 336 adolescentes e 17 professores mediante aplicação de questionário. Os resultados: a) 34% dos alunos nos colégios de IDEB abaixo da média do Paraná e 70% dos com IDEB acima da média do Paraná, afirmam que lêem conteúdos na internet, seguido de leituras obrigatórias da escola; b) 50% já discutiram com os pais em função do tempo, do momento e do que fazem conectados; c) 30% preferem o acesso à internet a estarem em convívio social; d) 50% perdem a noção do tempo quando usam o celular, possuem dificuldade de parar de usar a internet e chegam a perder o sono por causa dela; e) 60% acessam a internet quando não estão se sentindo bem e que fazem para escapar de tristezas ou obter alívio de sentimentos negativos. f) admitem ser difícil controlar o desejo de permanecer jogando ou na internet; g) 28% dos professores discutem com os alunos sobre o uso da internet, celulares, da participação deles em jogos eletrônicos on-line, 59% deles conversam com os alunos esporadicamente, alegando falta de tempo ou devido à dificuldade do assunto e 16% nunca fazem. Zancan e Tono (2018) concluem frisando a falta de orientação da família e da escola para o uso saudável e responsável das tecnologias e a necessidade de mudanças na prática pedagógica e na formação dos professores para assumirem o papel de orientadores desse uso saudável, responsável e seguro das tecnologias pelos adolescentes, de forma a contribuir com a família para a proteção integral das crianças e adolescentes.
Neumann e Missel (2019) no artigo Família digital: a influência da tecnologia nas relações entre pais e filhos adolescentes, onde investigam a influência da tecnologia nas relações entre pais e filhos adolescentes. Método qualitativo, exploratória e como procedimento técnico a aplicação de entrevista com quatro famílias, Os resultados: a) para 57,14% dos pais, os filhos preferem ficar conectados a tecnologias ao invés de estar com a família; b) 50% dos filhos afirmam que os pais optam pela tecnologia ao invés de ficar com a família, resultando em um distanciamento afetivo, afastamento do compartilhar, do dialogar o que modifica os padrões de convívio e de comunicação; c) o tempo de uso da tecnologia acaba sendo motivo de conflito familiar; d) a tecnologia promove a troca de saberes entre as gerações, uma vez que os filhos acabam ensinando os pais na utilização das tecnologias; e) 57,14% dos pais percebem que seus filhos ficam conectados sozinhos; f) Estabelecer regras claras e concordantes sobre o uso de computadores, internet e celulares fazem parte da rotina familiar; g) administrar o uso das tecnologias nas famílias mediante orientação através do diálogo e a solução não é proibir o acesso nem liberar totalmente. Neumann e Missel (2019) concluem que as tecnologias são um processo que não retrocede e surgem conflitos e desafios para o ambiente familiar. Como negativo o afastamento afetivo do convívio familiar e como positivo o compartilhamento de informações entre as gerações, pela facilidade de comunicar-se em qualquer hora e lugar e pela sensação de segurança e de controle, dando a impressão de estar presente mesmo quando distante.
No artigo de Costa e Piva (2020)O uso do smartphone por adolescentes: a percepção dos pais, o objetivo geral foi identificar a percepção de pais diante da utilização do smartphone por seus filhos. Pesquisa descritiva e qualitativa, mediante pesquisa de campo. Participaram da entrevista 5 responsáveis. Os resultados: a) pais e filhos fazem uso diário, frequente e contínuo e os pais têm compreensão de que não conseguem cobrar sobre o uso dos filhos, pois também fazem um uso frequente; b) o uso de smartphone influência no contexto escolar negativamente; c) o contato com os filhos acaba sendo mais virtuais que presenciais; d) as tecnologias afetam a rotina familiar; e) utilização da tecnologia nos estudos, na convivência e em saber a localização de onde o filho está, realização de pesquisa, rapidez na execução de tarefas, redes sociais, lazer; f) à falta de filtro no acesso a informações; g) os pais relatam orientar seus filhos sobre o uso das tecnologias e, principalmente, sobre o limite de horário para o acesso, porém os próprios pais demonstram dificuldades em seguir as próprias orientações. Costa e Piva (2020) concluem que tanto os pais como seus filhos fazem uso diário e frequente das tecnologias. Na percepção dos pais, a utilização dos smartphones influencia negativamente no contexto escolar de seus filhos, apesar de contribuir para fins de pesquisa.
Went, Appel e Koller (2020) em seu artigo “Tecnologias da Informação e comunicação em adolescentes, práticas parentais e percepção de clima escolar: uma abordagem multinível” apresenta como objetivo analisar o perfil de uso de tecnologias de informação e comunicação (TIC) entre adolescentes escolares. Pesquisa quantitativa, transversal, de levantamento e correlacional. Participaram 367 adolescentes com idade variando de 13 até 17 anos, estudantes de escolas públicas e privadas. Foi aplicado instrumento questionário, respondido individualmente, em sala de aula. Os dados foram tabulados e analisados. Os resultados são: a) 84,5% da amostra possuíam computador em casa e 56,6% dispõem de um equipamento exclusivo; b) 95,1% possuem aparelho de celular próprio; c) 67,2% relatam acessar a internet todos os dias, sendo que a média de tempo utilizando a internet foi de 2,96 horas ao dia. d) acessam à rede de internet: 62,5% do quarto; 50,4% em casa, fora do quarto; 44,7% via aparelho de celular; e) 73,3% trabalhos escolares; 69,5% programas de conversas instantâneas; 66,1% downloads; 44,6% jogos online e 17,6% compras; f) as meninas recebem mais conselhos do que em relação aos meninos; g) é mais frequente a atitude dos pais sobre estabelecer regras, monitoramento de páginas visualizadas e conselho com os adolescentes mais jovens (13 a 15 anos), do que com os adolescentes participantes da investigação mais velhos (15 a 17 anos); h) quando há maior presença dos pais em relação a estabelecimento de regras, monitoração de páginas e fornecimento de conselhos, menor foi o uso semanal de internet por parte dos adolescentes. Went, Appel e Koller (2020) discutem que os adolescentes mais velhos das amostras em comparação com a faixa etária de 14 a 15 anos, fazem um uso maior das tecnologias. Em relação ao recorte de gênero, observa-se que as meninas relataram utilizar mais as tecnologias para fins educacionais, enquanto que os meninos demonstram uma utilização maior para jogos online. Constatou-se que as meninas recebem maior orientação e supervisão do que os meninos em relação ao uso que fazem das tecnologias. Os autores concluem ser válido realizar promoção de práticas educativas voltadas aos pais em relação às suas condutas de supervisão parental para o uso da internet e TIC por parte dos adolescentes.
Após a descrição das pesquisas empíricas, organizam-se os resultados em três categorias para análise: 4.1 Tecnologias digitais e uso pessoal; 4.2 Tecnologias digitais e dinâmicas familiares e; 4.3 Tecnologias digitais e instituição educacional.
4.1 Tecnologias digitais e uso pessoal: Nessa categoria, destaca-se primeiramente o fácil acesso pelos adolescentes às tecnologias digitais e com isso à internet, sendo o computador e o smartphone os aparelhos mais utilizados. Estes dados estão em acordo com os resultados do módulo suplementar “Acesso à internet e à televisão e posse de telefone móvel para uso pessoal”, relativos ao ano de 2021, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que aponta que 90% dos lares brasileiros têm acesso a internet e o aparelho celular é usado em 99,5% desse público para acessar a internet. Em relação ao uso que fazem da internet, os dados empíricos apontam que os adolescentes acessam para realizar trabalhos escolares, utilização de programas de conversas instantâneas (whatsApp), redes sociais (instagram, facebook), downloads, jogos online, escutar músicas, realizarem compras, assistir vídeos pelo youtube, acessar o google, entre outro. Esses dados também dialogam com o mesmo relatório do IBGE (2021), ao apontar que os usuários da internet são de 82,2% na faixa entre 10 a 13 anos e 91,8% entre 14 a 19 anos.
Em relação ao uso do aparelho celular, as pesquisas empíricas revelam um uso diário e constante das tecnologias digitais e que grande parte desses adolescentes possui aparelho de celular com câmera. Essa inovação que se qualifica cada vez mais a cada nova versão dos aparelhos celulares parece ser a alavanca para outro aspecto evidenciado nos dados, ou seja, o hábito de os adolescentes tirarem fotografias com o aparelho celular, editarem as fotos para, em seguida, publicarem em redes sociais. Em especial, Medeiros (2018) afirma que a maior parte dos adolescentes investigados possui perfil nas redes sociais e a busca por registros fotográficos que os retratam mais bonitos e felizes, compartilhando experiências, são as mais procuradas, evidenciando a vaidade dos adolescentes e o desejo de atrair olhares via as redes sociais, mediante curtidas e comentários em fotos publicadas. Esses comportamentos são problematizados nos estudos de Sibilia (2016) e (2018), quando afirma que os adolescentes são convidados a performar mediante as redes sociais, expondo seu cotidiano e intimidade como forma de atrair curtidas e se sentirem aceitos nesta nova forma de se relacionarem que surge com as tecnologias digitais.
Além disso, relatam dificuldade em parar de utilizar a internet, chegando a perderem a noção do tempo usando o celular, o que acarreta em prejuízos como o perder o sono. Ao mesmo tempo, relatam que o aparelho celular faria muita falta em caso de estrago do aparelho. Esses resultados vão ao encontro dos estudos de Sibilia (2018), para quem os jovens abraçam as tecnologias digitais e convivem com elas de forma mais visceral e acabam moldando sua forma de se relacionar com o mundo de acordo com a interação que estabelecem com essas tecnologias.
Dentro desses excessos de uso frequente e diário das tecnologias digitais muitos jovens chegam a afirmar que preferem estar acessados pela internet em vez de estarem em convívio social ou pessoalmente com alguém. Paradoxalmente, relatam procurar nas tecnologias digitais um alívio para sentimentos negativos, quando não estão se sentindo bem. Esses dados reforçam um novo hábito que Cardoso (2015) denomina de “cultura do quarto”, uma vez que o uso excessivo desses novos aparatos tecnológicos pode implicar em um afastamento das vivências concretas das relações sociais, empurrando os adolescentes para esse espaço, isolados dos demais membros da família, mas em socialização virtual com outros jovens e toda a gama de possibilidades de lazer e entretenimento.
4.2 Tecnologias digitais e dinâmicas familiares: Sobre essa categoria, destaca-se o fato da interação dos adolescentes com as tecnologias digitais implicarem em um distanciamento afetivo com os demais membros da família. A análise das pesquisas empíricas revela que na percepção dos responsáveis, o uso diário, frequente e contínuo das tecnologias digitais realizadas pelos adolescentes interfere nas interações do dia a dia, reduzindo o tempo de convívio e afetando a rotina familiar, como quando o contato com os filhos acaba sendo mais virtual do que presencial. Além disso, o uso das tecnologias é causador de conflitos familiares devido ao tempo, do momento e do que fazem conectados. Destaca-se desses dados, a dificuldade de os responsáveis de interferirem sobre o uso abusivo que os filhos realizam das tecnologias digitais, uma vez que eles também o fazem. Sobre essa problemática, os autores Pedroso e Bonfim (2018) afirmam que o uso excessivo das tecnologias digitais vem causando prejuízos à dinâmica familiar, em termos de distanciamento entre os membros e a falta de diálogo nos espaços de convivência. Em acréscimo, Costa, Duqueviz e Pedroza (2015) afirmam que não é qualquer tecnologia ou instrumento que vem afetando as relações sociais e familiares, apontam que o computador, a internet, o tablet e o smartphone são os artefatos que mais geram modificações nas relações familiares.
Sobre as orientações acerca do uso das tecnologias, percebe-se que os pais estabelecem tempo de uso e limite de horário para o acesso, porém os responsáveis demonstram dificuldades em seguir essas mesmas orientações, conforme apontado por Costa e Piva (2020). Observa-se também que as meninas recebem mais orientações e conselhos dos responsáveis do que os meninos. Um aspecto interessante revelado por Went, Appel e Koller (2020) é que nos casos em que os pais estabelecem regras, monitoram as páginas visualizadas e aconselham sobre o uso, essas práticas resultam em um uso semanal menor de internet por parte dos adolescentes. De modo geral, esses resultados fornecem indícios sobre caminhos possíveis para se construir intervenções no grupo familiar em relação ao uso excessivo das tecnologias digitais.
Os responsáveis salientam aspectos positivos do uso das tecnologias pelos adolescentes, como saber a localização dos filhos, a possibilidade de realizar pesquisas, rapidez na execução de tarefas e como forma de lazer. Além da possibilidade de trocas de saberes entre as gerações, quando os filhos dominam as tecnologias e ensinam seus responsáveis. Como um dos malefícios apontados pelos responsáveis, eles salientam a falta de filtro no acesso às informações.
4.3 Tecnologias digitais e instituição educacional: nesta categoria, destaca-se o fato de os adolescentes incorporarem as tecnologias digitais como ferramentas que contribuem no seu processo de aprendizagem, complementando os conteúdos discutidos em sala de aula pelos professores, com leituras de materiais externos encontrados na internet, facilitando a realização de trabalhos escolares. Ao mesmo tempo, na percepção dos adolescentes, a utilização de tecnologias em sala de aula pelos docentes, contribui para manterem a sua concentração, principalmente, quando os professores apresentam novos softwares que possam ser úteis para eles. Sobre o uso de tecnologias na prática pedagógica, os autores Moran, Masetto e Behrens (2013, p. 12) apontam que
A Internet está se tornando uma mídia fundamental para a pesquisa. O acesso instantâneo a portais de busca, a disponibilização de artigos ordenados por palavras-chave facilitaram em muito o acesso às informações necessárias. Nunca como até agora professores, alunos e todos os cidadãos possuíram a riqueza, variedade e acessibilidade de milhões de páginas WEB de qualquer lugar, a qualquer momento e, em geral, de forma gratuita.
Compreende-se que diante do contexto no qual se vive a contemporaneidade o uso das tecnologias pode trazer contribuições significativas ao processo de ensino-aprendizagem e colaborar para uma melhoria na relação professor-aluno.
Entende-se que os adolescentes estudantes chegam à instituição educacional fazendo amplo uso dessas novas ferramentas. Por isso, a necessidade que se impõe aos docentes e à instituição educacional como um todo é a inclusão das tecnologias em sala, buscando sua utilização com o objetivo de estabelecer novas oportunidades de aprendizado, aproveitando o repertório de conhecimento que os alunos possuem. Ao mesmo tempo em que discutem os limites e os cuidados necessários na sua utilização, uma vez que somente o acesso fácil ao conhecimento historicamente acumulado (Saviani, 2003) não basta, é necessário estimular a capacidade crítica de compreensão e contextualizar essas informações com a realidade concreta que cada sujeito-estudante vive.
Por outro lado, a partir da análise das pesquisas empíricas, depreendese que o uso que a maior parte dos adolescentes realiza das tecnologias digitais acaba sendo em um nível mais superficial da totalidade de possibilidades disponíveis, indicando um desvio da função primordial das tecnologias para a contribuição para uma formação integral. Isso porque o repertório de conhecimento que os adolescentes possuem é reduzido a redes sociais, aplicativos de trocas de mensagens instantâneas, streaming de vídeos, plataformas que são elaboradas para serem o mais intuitivo possível e de fácil aprendizado. Nesse sentido, Nascimento, Salviato-Silva e Dell’Agli (2018) apontam que o desafio das instituições sociais é fomentar com os adolescentes estudantes um uso das tecnologias que envolvam a solução de problemas, o que envolve um letramento digital mais elaborado, exigindo conhecimentos mais complexos das tecnologias.
Outro aspecto observado entre os dados descritos aponta para a pouca orientação dada pelos docentes aos discentes sobre o uso das tecnologias digitais, justificada pela falta de tempo, dificuldade com o assunto e até mesmo, a não realização de nenhuma orientação. Esses resultados contradizem o papel dos docentes e da escola, conforme as discussões de Ciavatta (2005) e Kuenzer (2010) quando discutem o papel da instituição escolar para uma formação integral. Isso significa dizer que há a necessidade de desenvolver com os estudantes práticas pedagógicas que envolvam as suas múltiplas dimensões, articulando os conhecimentos que já dominam com os novos de forma a adquirirem habilidades de analisar, sintetizar, diagnosticar e solucionar problemas em uma perspectiva de perceber a totalidade dos fatores que constituem a realidade,
De maneira complementar a discussão da formação dos estudantes na perspectiva da formação integral, está posto para a EPT, uma concepção de ensino que “promova a reflexão crítica sobre os padrões culturais que constituem normas de conduta de um grupo social, assim como a apropriação de referências e tendências que se manifestam em tempos e espaços históricos” (Brasil, PAR 11, 2012). Assim, a inclusão em sala pelos docentes do debate sobre os usos que os adolescentes estudantes realizam das tecnologias digitais se faz uma necessidade, orientando-os sobre os benefícios e riscos existentes no uso excessivo.
Para alcançar o propósito desta pesquisa, após a organização do referencial teórico, o qual trouxe as bases conceituais da EPT e as implicações das tecnologias digitais no cotidiano dos adolescentes, estruturou-se a pesquisa, de cunho qualitativo, análise de conteúdo e bibliográfica. Pela aplicação da metodologia, selecionou-se 7 pesquisas empíricas desenvolvidas entre 2017 e 2020 para análise, sendo que, após a descrição dos dados encontrados, elegeram-se três categorias para análise.
Na primeira, Tecnologias digitais e uso pessoal, discutiu-se, especialmente, sobre o fácil acesso pelos adolescentes às tecnologias digitais e com isso à internet, sendo o computador e o smartphone os aparelhos mais utilizados. O fácil acesso à tecnologia digital do smartphone com câmera, atrelado ao uso diário e constante, revela como os algoritmos induzem os adolescentes a práticas de exposição a de sua intimidade nas redes sociais, dentro das novas formas de se relacionarem virtualmente, resultando em um novo hábito de afastamento das vivências reais e um certo isolamento dentro de seus quartos.
Na segunda categoria, Tecnologias digitais e dinâmicas familiares, discutiu-se que o uso frequente e contínuo das tecnologias interfere nas interações familiares, reduzindo o tempo de convívio e afetando a rotina familiar, sendo, também, causadora de conflitos em virtude do tempo, do momento e do que fazem conectados. O papel dos responsáveis em orientar os filhos sobre o uso excessivo que realizam acaba sendo afetado uma vez que os responsáveis também fazem um uso excessivo e não seguem as regras previstas para os seus filhos.
Na terceira categoria, Tecnologias digitais e instituição educacional, colocou-se sobre o fato de os adolescentes incorporarem as tecnologias digitais como ferramentas que contribuem no seu processo de aprendizagem, ao mesmo tempo em que a utilização das tecnologias pelos docentes em sala de aula auxilia os adolescentes a se manterem concentrados nas aulas. Entretanto, percebe-se que a incorporação das tecnologias digitais pelos adolescentes acaba por se reduzir a redes sociais e lazer, carecendo de um letramento digital mais elaborado para aproveitarem positivamente esses recursos tecnológicos. Observa-se, também, a lacuna existente sobre o papel dos docentes em incluir nas discussões pedagógicas, debates sobre os riscos e cuidados que os adolescentes precisam ter ao utilizar as tecnologias digitais e, principalmente, que tenha um norte de promover reflexões críticas sobre o uso excessivo e a forma de lidar com os conteúdos que estão na rede.
Com base nesses resultados, em termos da problemática apontada para esta pesquisa, conclui-se que as tecnologias digitais fazem parte do cotidiano dos adolescentes, implicando em ressignificações nas formas de se relacionarem com os membros familiares, amigos e processo de escolarização. Nesse contexto de grandes transformações, percebe-se a lacuna existente na orientação dada aos adolescentes por seus responsáveis e docentes sobre os riscos e cuidados existentes no uso excessivo que realizam das tecnologias digitais. Observa-se que os adolescentes fazem um uso superficial de toda a gama de possibilidades existentes na internet, focalizando redes sociais e entretenimento. Dessa forma, fica evidente a necessidade de se ampliar as investigações sobre a relação dos adolescentes com as tecnologias digitais com o intuito de se pensar em condições de diálogo com os três grupos de sujeitos envolvidos nessas relações: responsáveis sobre as implicações sociais, afetivas e cognitivas do uso excessivo e aos docentes para contribuírem com debates em sala de aula sobre o uso crítico e reflexivo dessas tecnologias.