Artigo
LITERATURA E EDUCAÇÃO: a importância das obras de Lima barreto no currículo da Educação Básica e na formação de identidades de estudantes negros
LITERATURE AND EDUCATION: the importance of Lima Barreto's works in the Basic Education curriculum and in the formation of black students' identities
LITERATURA Y EDUCACIÓN: la importancia de la obra de Lima Barreto en el currículo de la Educación Básica y en la formación de las identidades de los estudiantes negros
LITERATURA E EDUCAÇÃO: a importância das obras de Lima barreto no currículo da Educação Básica e na formação de identidades de estudantes negros
Revista Exitus, vol. 14, e024030, 2024
Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA
Recepción: 11 Septiembre 2023
Aprobación: 30 Mayo 2024
Publicación: 20 Agosto 2024
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo principal refletir sobre a relevância do estudo sobre a literatura afro-brasileira nas escolas, considerando que as reflexões sobre obras e autores negros possam contribuir não só na luta contra o racismo como também na construção da identidade de alunos e alunas negras. Para tanto, será apresentado o romancista Lima Barreto, que foi silenciado por mostrar uma literatura de combate ao preconceito e discriminação. Para este trabalho, escolhemos seu livro Cemitério dos vivos. Utilizamos como suporte teórico-metodológico Candido (1965; 2004); ao mesmo tempo, consultamos Pollak (1989) para compreender o motivo do silenciamento do autor dentro e fora da Academia Brasileira de Letras. Recorremos a Saviani (2008; 2015) para problematizar a pouca frequência de utilização das obras do autor e para compreender a importância da Literatura na Educação Básica, ressaltando seu caráter formativo dentro das disciplinas que formam a base do currículo das Ciências Humanas. Denunciamos que esse silenciamento descumpre a legislação educacional -Lei nº 10.639/2003 e a Lei nº 11.645/2008 -, que determina a obrigatoriedade do ensino da cultura dos afrodescentes e da História da África na Educação Básica. Como resultados do trabalho, esperamos que, a obra e o autor possam contribuir para a formação da identidade de crianças negras na Educação Básica, da mesma forma que Cruz e Sousa e outros escritores negros e afrodescentes, que não foram silenciados -entre eles o próprio Machado de Assis.
Palavras-chave: Literatura, Lima Barreto, Educação.
ABSTRACT: The main objective of this work is to reflect on the relevance of studying Afro-Brazilian Literature in schools. Considering that reflections on black works and authors can contribute not only to the fight against racism, but also to the construction of identity black male and female students. To this end, the novelist Lima Barreto will be presented, who was silenced for showing a Literature to combat prejudice and discrimination. For this work, we chose the book Cemitério dos Vivos, written by the author. We will use Candido (1965, 2004) as theoretical methodological support. At the same time, we will use Pollak (1989) to understand the reason for the author's silencing inside and outside the Academia Brasileira de Letras. To problematize the infrequent use of the author's works, we turned to Saviani (2008, 2015), to understand the importance of Literature in Basic Education, emphasizing its formative character, within the disciplines that form the basis of the Human Sciences curriculum. We denounce that, this silencing violates educational legislation - law 10639/2003 and law 11645/2008 - which make it mandatory to teach the culture of African descents and the history of Africa in Basic Education. As a result of the work, we hope that the work and the author can contribute to the formation of the identity of black children in Basic Education, in the same way as Cruz e Sousa and other black and Afrodescendant writers, who were not silenced. Among them was Machado de Assis himself.
Keywords: Literature, Lima Barreto, Education.
RESUMEN: El principal objetivo de este trabajo es reflexionar sobre la relevancia del estudio de la literatura afrobrasileña en las escuelas. Considerando que las reflexiones sobre obras y autores negros pueden contribuir no solo a la lucha contra el racismo, sino también a la construcción de la identidad de los estudiantes negros. Para ello se presentará a la novelista Lima Barreto, quien fue silenciada por mostrar una literatura para combatir los prejuicios y la discriminación. Para este trabajo elegimos el libro Cementerio de los vivos, escrito por el autor. Usaremos a Cándido (1965, 2004) como soporte teórico metodológico. También Pollak (1989) para comprender el motivo del silenciamiento del autor dentro y fuera de la Academia Brasileira de Letras. Para discutir el uso poco frecuente de las obras del autor, acudimos a Saviani (2008, 2015), para comprender la importancia de la Literatura en la Educación Básica, enfatizando su carácter formativo, dentro de las disciplinas que forman la base del currículo de Ciencias Humanas. Denunciamos que este silenciamiento viola la legislación educativa - ley 10639/2003 y ley 11645/2008 - que obligan a enseñar la cultura afrodescendiente y la historia de África en la Educación Básica. Como resultado del trabajo, esperamos que la obra y el autor puedan contribuir a la formación de la identidad de los niños negros en la Educación Básica, de la misma manera que Cruz e Sousa y otros escritores negros y afrodescendientes, que no fueron silenciado. Entre ellos se encontraba el propio Machado de Assis.
Palabras clave: Literatura, Lima Barreto, Educación.
INTRODUÇÃO
Este trabalho intenciona unir dois campos do conhecimento: a Literatura e a Educação. No campo da Literatura, o autor escolhido foi Lima Barreto. Escolher uma única obra do autor não foi fácil, pois seus livros são importantes para pensarmos a virada dos oitocentos e a Proclamação da República.Negro, pobre, morador do subúrbio do Rio de Janeiro, sua produção literária reflete a falta de projetos do Estado republicano. Ouvindo a sua voz através da voz das personagens, conseguimos ver o projeto de branqueamento e eugenia em curso na sociedade brasileira, a chegada dos imigrantes e a exclusão da população negra.
Seus contos encontravam espaço nas páginas dos periódicos e na noite do Rio de Janeiro - na Belle Époque - junto com João do Rio e outros escritos proscritos. O círculo literário que ele frequentava era bem diferente do de Machado de Assis, agora não mais jovem, já avançado em idade e estabelecido. Lima Barreto acompanhou de perto a cena da fundação da Academia Brasileira de Letras, mas dela não fez parte como autor. Machado de Assis continuava a manejar sua pena, já reconhecido, enquanto Lima Barreto seguia sua lida de funcionário público. Com sua crítica à República dos Bacharéis, foi colocado no ostracismo. Vamos ao encontro dele emCemitério dos Vivos, livro escolhido para denunciar o silenciamento imposto ao autor e a rarefeita frequência de suas obras na Educação Básica.
1. O poder da Literatura
Antônio Cândido apresenta o texto Direito à Literatura, que nos leva a refletir sobre a relação entre direitos humanos e literatura. O autor assegura que ela está tão presente em nossas vidas que não é possível passar um dia sequer sem consumi-la, seja “por via oral ou visual; sob formas curtas ou elementares, ou sob complexas formas extensas, a necessidade de ficção se manifesta a cada instante” (Candido, 2011, p. 83).
O consumo não é o da superficialidade dos shoppings centers, que transformaram tudo em mercadoria. A relação que o autor deseja que estabeleçamos com a Literatura é de algo vital, sem o qual não podemos viver, sem consumir, correndo o risco de não suprir nossa necessidade existencial.
Candido (2011) recorda que vivemos em épocas de barbaridades e injustiças. Esse pensamento encontra paralelo em Adorno (2015) e em Arendt (1999), que denuncia a banalidade do mal instaurado em nossa sociedade, com a ascensão do nazismo e do fascismo. Um mal banal, que não se questiona, que nos torna incapazes de discernir entre os valores civilizatórios e as forças que operam a injustiça, a pilhagem e o desvio de verbas do Estado por burocratas.
Em 1988, Candido registrava que já não mais se falavam coisas que ouvia quando era menino, isto é, que haver pobres é a vontade de Deus “que os empregados domésticos não precisam descansar, que só morre de fome quem for vadio” (Candido, 2011, p. 176).
Contra essas crueldades, Cândido argumentava que se deve considerar que tudo que nos é indispensável é também ao próximo. Dessa forma definiu os direitos humanos e é esse o ponto de partida de um direito à Literatura.
Segundo o autor, a literatura está presente em todas as civilizações. Ela se manifesta nas mais primitivas até nas mais avançadas; dessa forma, é uma necessidade vital de todo ser humano, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito (Candido, 2011, p. 177). A Literatura constitui um direito, pois se encontra entre os valores civilizatórios,
conferindo sentido à vida, ou seja, humaniza à medida que nos liberta do caos, dando forma aos nossos sentimentos e emoções. O conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere (CANDIDO, 2011, p. 180).
Interessante o poder da Literatura: ela possui um remédio, o livro. Para cada doença - estado emocional -em que nos encontramos a cada momento da vida. Recorremos a Agualusa (2017) para nos auxiliar na compreensão do poder de cura da Literatura. Segundo o autor, não se recita poesia, se receita.
Para que serve a poesia?
Esta é uma daquelas questões que, cedo ou tarde, todos os poetas enfrentam. A resposta mais frequente, mais falha de imaginação e de verdade, assegura que a poesia não serve para nada. Alguns poetas, em especial os portugueses, acrescentam a seguir que também a vida não serve para nada etc. Na origem, a poesia era uma disciplina da magia. Servia para encantar. Continua a ser assim, embora, no sentido literal, poucas pessoas ainda exercitem essa antiquíssima arte. Uma tarde, em Benguela, conheci uma das derradeiras praticantes. Almoçava com amigos, e amigos de amigos, num desses quintalões antigos, carregados de frutos e de boa sombra, da cidade das acácias rubras. A determinada altura escutei um sujeito que se referiu a uma tal Dona Aurora:
- A velha receita poesias.
- Recita - corrigi.
O homem, um oficial do exército, encarou-me, irritado:
- Não, senhor! Receita! Dona Aurora receita poesias. Resolve problemas de amor, amarrações, mau-olhado, tudo com versinhos (Agualusa, 2017, p. 1).
Por isso, não existe um livro certo para cada idade. O que existe é uma janela que se abre com infinitas possibilidades, considerando o direito como algo que não pode ser retirado dos indivíduos e o encantamento produzido pela Literatura, curando males do corpo e da alma.
Na Literatura, o mundo que a alma apreende é inquestionavelmente semelhante ao do leitor. Muitas vezes trata-se de um mundo familiar, porém reproduzido por uma inteligência criadora dotada de conhecimento e criatividade.
A linguagem literária deve estar no campo da criação artística. Deve, portanto, afastar-se de quem escreve. O escritor e a obra se fundem para dar vida à arte, e para isso ele precisa de uma consciência honesta, como afirmou Blanchot (2011).
O escritor não pode se retirar nele mesmo, ou deve renunciar a escrever. Não pode, escrevendo, sacrificar a pura noite de suas próprias possibilidades, pois a obra só é viva se essa noite - e nenhuma outra - tornar-se dia, se o que ele tem de mais singular e de mais afastado da existência já revelada se revela na existência comum (Blanchot, 2011, p. 317).
A Literatura é capaz de desenvolver nossa humanidade, uma vez que tem o poder de nos tornar mais compreensivos com nossos semelhantes. Isso acontece justamente porque a literatura é capaz de aguçar sentimentos e emoções, além de despertar pensamentos criativos e circundar pensamentos criativos no leitor.
Gabriel García Márquez conta de maneira fantástica a história latinoamericana e convida à reflexão da própria condição humana, mas aqui o autor sussurra que o tempo e o futuro não existem, e a única coisa que importa é o momento presente. Belo aprendizado!
A linguagem literária tem essas contradições, porque ela é inquieta e instável. O que o livro quis dizer? Que pergunta terrível! Quanta destruição pode haver quando alguém por ventura tenta a todo custo interpretar aquilo que sugere, que encosta na superfície e não afunda, pois pode tratarse de um símbolo, e um símbolo é sempre genérico: não existe tradução literal. Não é possível que todas aquelas pessoas tenham repentinamente perdido a visão de fato, em Ensaio sobre a cegueira. A cegueira de Saramago pode sugerir a degradação da condição humana; mostra a linha tênue que separa a civilização da barbárie, apresentando o homem contemporâneo como uma mistura de crueldade e indiferença.
2. Literatura e Educação: a importância da Literatura no currículo da Educação Básica
Nesta seção intencionamos cruzar os campos de conhecimento de Literatura, Educação e História. O conhecimento é divido para ser explicado aos estudantes da Educação Básica; contudo, eles não possuem espaço equivalente no currículo escolar. Recorremos a Moreira e Tadeu (2013) para apresentar uma definição de currículo.
O currículo é considerado um artefato social e cultural. Isso significa que ele é colocado na moldura mais ampla de suas determinações sociais, de sua história, de sua produção contextual. O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento[...]; o currículo produz identidades individuais e sociais particulares (Moreira; Tadeu, 2013, p. 14).
Saviani (2015) fez uma reflexão importante para a Educação em Sobre a natureza e a especificidade da Educação. Nesse texto, o autor aponta na mesma direção da citação anterior, sobre o currículo, ao discutir o saber espontâneo e o conhecimento sistematizado pela humanidade. Ele diz que a escola deve privilegiar o ensino do segundo, alertando que ali há pouco tempo para atividades pedagógicas, pois as datas comemorativas e outros eventos acabaram ocupando o tempo que deveria ser usado para a transmissão do conhecimento.
Há disciplinas que possuem maior carga horária; outras, menor. As disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática possuem carga horária grande e conteúdos extensos. Esses conhecimentos possuem pré-requisitos, ou seja, não se pode avançar no ensino-aprendizagem se os estudantes não dominarem conhecimentos elementares. A pergunta que fazemos é: por que existe ênfase maior no ensino da gramática do que da Literatura? O estamos propondo é que a Literatura contextualize a gramática, pois ela por si mesma apresenta um conjunto de regras que norteiam a produção textual.
Não vamos tocar nas discussões recentes sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nem sobre a reforma do Novo Ensino Médio, pois entendemos que elas encobrem mais uma vez o que Saviani (2008) chama de “ensino dual”. Haverá uma escola para os ricos, com conteúdos densos e articulados, com bons equipamentos e instalações e haverá também uma escola para os filhos da classe trabalhadora, com conteúdos e ensino aligeirados, com falta de professores e instalações pouco adequadas. O que os pensadores desse campo chamam de direito à diferença, Theodoro (2022) afirma que é o germe da desigualdade social.
Sabemos da importância da literatura na vida de crianças e adolescentes. Agora devemos explicar o motivo pelo qual a literatura afrobrasileira é essencial na construção da identidade dos jovens alunos negros e das jovens alunas negras, apresentando-lhes a pluralidade cultural brasileira e a religiosidade, rompendo o silêncio das complexas relações raciais presentes na sociedade brasileira; utilizandouma linguagem lúdica e informativa, de ilustrações significativas, essa literatura permite trazer para sala de aula as questões do mundo multicultural contemporâneo.
Não se trata somente de cumprir a Lei nº 10.639/2003, mas de dar voz a tantos escritores negros que fizeram parte da nossa história e que por tantos anos foram silenciados ou simplesmente abandonados e esquecidos. Algunsficaram sempre à sombra dos grandes escritores brasileiros; Lima Barreto era visto quase sempre como um romancista menor. Outros, no entanto, ficaram simplesmente esquecidos, como foi o caso de Maria Firmino do Reis, que foi ignorada por mais de dois séculos; seu arquivo pessoal ficou perdido no baú dos esquecidos. No que tange à imagem que circula na internet, é compartilhado o retrato da escritora gaúcha Maria Benedita Borman, de pseudônimo "Délia", como se fosse da autora maranhense.
Reiteradamente acontece de ocultarem o trabalho de alguns escritores negros cujo tema é racismo, preconceito ou o sofrimento do povo negro durante o período da escravidão, e sobrelevar outros romances mais “esbranquiçados”. Foi o que aconteceu com o Cruz e Sousa, muitas vezes reconhecido como um “negro de alma branca”.
Algo semelhante acontece na literatura de Afonso Henriques de Lima Barreto, um escritor que não esquecia sua condição de negro. Mais do que isso, ele denunciou e trouxe sua experiência pessoal acerca do preconceito racial para os seus textos.
Pollak (1980) apresenta algumas pistas para o silenciamento da produção literária de Lima Barreto. Segundo aquele autor, existe uma disputa pela memória, ou seja, pelo que vai ser lembrado, e pelo que vai ser silenciado, relegado ao esquecimento. Esse movimento não é inocente, tampouco sem interesse social e político, pois lembrar as obras de um autor afrodescendente pode trazer à baila memórias emergentes e atuar como elemento de formação de identidades nos estudantes afrodescendentes, de que eles podem produzir conhecimento científico para além da contribuição no campo das artes e do esporte.
Até hoje, nos colégios e cursos pré-vestibularesLima Barreto é um escritor pré-modernista, escreveu sobre a realidade social, foi internado várias vezes porque tinha problemas com álcool e sua obra mais importante é Triste fim de Policarpo Quaresma; de modo geral, sua apresentação termina por aí. Frequentemente, esse é o livro lido, discutido e analisado em sala de aula. As provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) quase nunca citam os livros de Lima Barreto, mesmo considerando a relevante importância da discussão sobre exclusão social, preconceito, discriminação e racismo no Brasil. Os livros de Lima que abordam as teorias racistas do século XIX, tanto quanto a democracia racial construída a partir dos anos de 1930, não encontraram eco entre os leitores de sua época.
No entanto, Machado de Assis - igualmente negro - é o escritor mais estudado, lido e discutido nas escolas e um dos mais citados em todos os vestibulares. A diferença é que Machado de Assis, assim como Cruz e Sousa, são escritores que não trataram, em suas obras, do racismo, tampouco se trataram como negros.
Houve no Brasil um esforço considerável pelo “embranquecimento” de Machado de Assis. Embora ele fosse contra a escravidão, não havia essa discussão nem esse reconhecimento em sua literatura. Certa ocasião, em comemoração aos 150 anos de existência da Caixa Econômica Federal, a instituição homenageou Machado de Assis como seu mais antigo correntista, em um comercial em que o escritor aparece fazendo uma transação bancária. Repercutiu muito mal o fato de o ator ser um homem branco, o que resultou numa chuva de críticas e a manifestação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir). A Caixa pediu desculpas e retirou o anúncio.
A Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, tem mudado esse tipo de visão nas escolas, mas de forma muito vagarosa. Em geral, essas questões são tratadas em forma de projetos com datas específicas, como 13 de maio e 20 de novembro.
3. Lima Barreto e o sonho de se tornar doutor
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, uma estanha simultaneidade para aquele que seria a voz dissonante na luta contra o racismo e as injustiças na sociedade. Nasceu no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro; estava com exatos sete anos no momento da Abolição da Escravidão no Brasil.
Sua mãe era professora e já atuava no magistério quando ele nasceu. Seu pai era João Henriques de Lima Barreto, tipógrafo da Imprensa Nacional. Possuíam, portanto, bom nível educacional para a sua época, considerando o alto nível de analfabetismo do período e o fato de que geração anterior havia vivido a experiência da escravidão.
Lima Barreto estudou no Liceu Niterói e no Ginásio Nacional, instituições consideradas ótimas na época. Foi no ano de 1897 que Lima parecia realizar o antigo sonho de seu pai: ver seu filho doutor. Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica, também considerada uma tradicional instituição de Ensino Superior, para cursar Engenharia Civil.
Entretanto, Lima não conseguiu concluir o curso. Além das sucessivas frustrações e dificuldades com algumas disciplinas e com professores, seurelacionamento com os estudantes ricos da Politécnica rendeu muitos constrangimentos. Conforme afirma Shawarcz (2017),
ao que parece, se no período da escola e do colégio Lima não demonstrava sentir o impacto de diferenças sociais ou “de origem”, como escrevia, a partir de então o fato de ser pobre e neto de escravizados passava a pesar no relacionamento que ia estabelecendo com alguns de seus colegas. Estes podiam comprar livros à vontade, iam ao teatro sem ter que fazer contas, assim como frequentavam locais requintados da capital. Já Lima se queixaria do menosprezo que sentiu da parte desses alunos, os quais, vindos de diversos estados do Brasil, muitas vezes pertenciam à extinta nobreza do Império e faziam pouco da descendência africana do colega (Schwarcz, 2017, p.156).
A alegria de Lima Barreto na Escola Politécnica não durou muito. Em pouco tempo nosso escritor percebeu, com tristeza, o abismo que o separava dos seus colegas de classe. Como se não bastasse sua origem social humilde, o fato de ser mulato também dificultava bastante seu acesso a alguns lugares. A forma como era lido socialmente marca trajetória de Lima Barreto, tornando-o mais triste e recluso durante sua vida. Segundo seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa em A vida de Lima Barreto, na ocasião da inscrição no primeiro ano do curso, um aluno veterano, ao tomar conhecimento do nome do colega - Afonso Henriques de Lima Barreto -, faz o seguinte comentário para o secretário da escola: “Vejam só! Um mulato ter a audácia de usar o nome do rei de Portugal” (Barbosa, 1956, p. 117).
A doença de seu pai talvez tenha colaborado para sua decisão de abandonar o curso de Engenharia. Perdera a última esperança de prosseguir com o sonho de seu pai: tornar-se doutor. Como registra o próprio escritor em seus relatos,
vivia eu nesse conflito moral desde os meus dezenove anos, quando, aos vinte e um, meu pai adoeceu sem remédio, até hoje. Estava livre, mas por que preço, meu Deus! […] Não seria mais doutor em cousa alguma. […] Ia me fazer por mim mesmo, em campo muito mais vasto e mais geral (Barreto, 1956, p. 36).
Assim, Lima Barreto ingressou no serviço público e tornou-se o arrimo da família. Em 1903, constatou-se que seu pai João Henriques estava completamente insano. Nesse mesmo ano, ele fora morar no subúrbio do Rio de Janeiro e trabalhava como amanuense; no entanto, já estava dedicado à Literatura. O trabalho possibilitava o sustento de sua família, e a Literatura lhe dava alegria para suportar os tempos difíceis. As letras, porém, não serão sua única companheira na vida. Estará tão presente até o fim dos seus dias também o álcool.
Como consequência do uso abusivo do álcool, Lima será internado duas vezes: a primeira, em 1914, no Hospício de Alienados, na Praia Vermelha. O caos que se apresenta na vida do escritor pode ter diversas explicações: a doença do pai, ter que abandonar seu sonho de ser doutor porque precisava ser o mantenedor de sua família, a frustração de não ter podido se dedicar mais a literatura e sua condição de pobre e negro, considerando todas as impossibilidades pelas quais ele passou em função disso.
4. A lucidez no Cemitério dos Vivos
Durante a segunda internação, em 1919, no dia de Natal, Lima Barreto deu início ao livro Cemitério dos Vivos, o qual permanecerá inacabado. Esse livro é um relato autobiográfico de sua triste passagem no hospício. Contudo, é de profunda lucidez - tanto de suas impressões como pertencimento e identidade quanto dos problemas sociais de sua época.
Lima Barreto, ficcionalizou sua própria vida. Há três personagens (Isaías Caminha, Gonzaga de Sá e Vicente Mascarenhas) que, além de serem funcionários públicos como ele, também sofrem racismo e preconceito e vivenciam muitas formas de discriminação, tanto quanto sofreu o escritor. Ele descreveu com discernimento o motivo pelo qual foi conduzido à instituição de reclusão de alienados:
Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro (Barreto, 1956, p. 2).
No Capítulo II, o autor reclamou seu lugar no mundo. Angustiado, lamentou as coisas que sonhou realizar, mas não conseguiu, pela doença do seu pai, sua origem e as humilhações que sofrera. Segue então fazendo uma análise dos motivos que o levaram a se entregar ao alcoolismo:
Muitas causas influíram para que viesse a beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele (Barreto, 1956, p. 18).
Logo a seguir, Lima Barreto descreve sua casa como um lugar triste, consequência das constantes crises de loucura do seu pai, que frequentemente o atormentavam, oscilando entre gritos alucinantes pelas ruas e períodos de apatia total, quando permanecia por longo tempo sentado na poltrona de sua casa, ocasião em que não comia, não falava, tampouco fazia sua higiene. O autor chegou a dizer que às vezes o hospício parecia mais tranquilo.
A origem pobre e o peso da cor colaboraram para tanta angústia e sofrimento durante a breve vida de Afonso Henriques Lima Barreto. Inteligente e motivado, parecia que nada poderia deter seu futuro brilhante. O jovem estudante negro sonhara ser doutor e muito cedo ingressara na Escola Politécnica, no curso de Engenharia Civil. Mas não foi possível realizar seu sonho.
Os muitos infortúnios que a vida lhe apresentou fizeram-no desistir definitivamente do seu grande sonho. Apesar de todos os abusos que cometera contra si mesmo, escreveu várias vezes a mesma frase: “Não quero morrer, não; quero outra vida” (Barreto, 1956, p. 7).
O motivo principal teria sido a doença precoce de seu pai. Como foi dito antes, lamentavelmente esse não foi o único obstáculo para que Lima Barreto não se tornasse doutor. Havia um abismo que parecia muito maior: o preconceito racial e social, que impedia sua caminhada, porque ela era, definitivamente, uma trajetória típica dos brancos.
Faremos aqui uma pausa da vida do nosso escritor e daremos voz e luz àqueles que sofreram e sofrem as mesmas impossibilidades que Lima Barreto viveu em sua trajetória. Para tanto, teremos o apoio de Mário Theodoro, em seu livro A sociedade desiguale no livro As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a Abolição.
Theodoro começa oCapítulo 3 do livro citado dizendo que no Brasil há um verdadeiro apartheid educacional, que alunos de classe alta e média não se relacionam com colegas vindo de famílias pobres e com estudantes negros.
O autor vai falar que, mesmo em 1850, quando havia discussão acerca da abolição, os escravizados e libertos, que eram a maioria da população, viviam em estado deplorável de submissão e indigência. E que, mesmo com a chegada da República, pouca coisa muda. O que havia de fato era um projeto de branqueamento promovida pelo Estado, sobretudo com a vinda de imigrantes europeus.
Em 1930, ainda não existia obrigatoriedade de escola pública para todos, consolidando, dessa forma, as desigualdades. A inserção do aluno negro nas escolas era muito difícil, principalmente porque a negritude era associada à inaptidão e, consequentemente, ao baixo desempenho. Crianças pobres e afrodescendentes continuavam excluídas do sistema escolar.
Somente na Constituição Brasileira de 1988 o direito à Educação foi ampliado, assegurando, assim, o Ensino Fundamental e Médio obrigatórios e gratuitos. Recorremos a Florestan Fernandes, que, emO negro no mundo dos brancos, trata das relações raciais no Brasil sob vários aspectos; o tema central é a situação do afrodescendente na sociedade brasileira. Sobre a relação inter-racial, o autor esclarece:
na área, o contato com o branco onde o negro não aparece despojado dos valores de seu mundo social próprio, suas identificações morais ou culturais não possuem nenhuma eficácia e não contam para nada na determinação do ciclo de ajustamento inter-racial. Nessa área, o negro vive nos limites de sua segunda natureza humana e tem de aceitar submeter-se às regras do jogo, elaboradas para os brancos, pelos brancos e com vistas à felicidade dos brancos (Fernandes; 1972, p.12).
Nesse sentido, a condição da criança negra inferiorizada é reforçada na escola, sobretudo quando não se vê representada nos livros literários. É na infância que é construída sua identidade e terá na escola, na família, no mundo e na relação consigo mesma suas principais referências. Nas histórias, é notória a total ausência da figura do negro, ou seja, a raça negra é constantemente negada não somente pela presença de estereótipos negativos, mas também pela constante afirmação do ideal de raça branca. Assim sendo, o processo de construção da identidade da criança negra se dá sem as referências cultural ecorporal de sua raça. Ao longo da vida, assim como Lima Barreto, muitas crianças e adolescentes podem ter sentido o mesmo desalento e desesperança. Sentir inicialmente, por exemplo, que toda aquela energia e o encantamento da infância e adolescência que pareciam naturais e inerentesà idade podem esbarrar no preconceito imposto durante a vida, mas especialmente na escola e no contato como o outro, como sentiu Barreto (1983):
Não sei que hostilidade encontrei, não sei que estúpida má vontade me veio ao encontro, que me fui abatendo, decaindo de mim mesmo, sentindo fugir-me toda aquela soma de ideias e crenças que me alentaram na minha adolescência e puerícia (Barreto, 1983, p. 44).
Por conseguinte, consideramos importante uma intervenção política pública que objetive a superação da exclusão social da população negra e viabilize a (re)construção desses sujeitos, entendendo toda sua caminhada e história de luta e resistência, consumando assim não somente seu acesso aos espaços de educação, mas também sua efetiva permanência.
Considerações finais
Existe uma formação que instrumentaliza o educador para tratar das questões étnicas de maneira adequada a garantir o respeito à nossa realidade multirracial: livros destinados aos estudantes que trazem negros não como pano de fundo, mas como sujeitos de suas histórias, por mais reduzidos que sejam em número, nas mãos de professores engajados em uma educação multicultural podem se constituir em brechas para que as mudanças aconteçam de forma significativa.
Para tanto, além de identificar e valorizar as diferenças corporais, como cor da pele, cabelo e traços morfológicos, a escola deve conhecer e reconhecer a história e a cultura da população negra e, com isso, promover a afirmação da identidade afrodescendente.
As reformas curriculares em curso na sociedade brasileira só serão efetivadas quando rompermos com o currículo anacrônico, monocultural, machista, sexista, racista, do qual a literatura infantojuvenil representa apenas uma de suas inúmeras facetas. Apresentar a literatura afro-brasileira nas escolas é uma ótima oportunidade de colocar nosso discurso em prática, porque sabemos bem que a Literatura que a escola prioriza é majoritariamente europeia.
REFERÊNCIAS:
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