DOSSIÊ TEMÁTICO
Apresentação
Este dossiê reúne seis artigos com análises voltadas para o debate em torno do componente curricular “Projeto de Vida”, obrigatório para e o ensino médio brasileiro, a partir da aprovação da Lei nº 13.415/2017 que, entre as diversas consequências para as escolas básicas e redes de ensino, destaca a desresponsabilização do Estado pela educação em detrimento da culpabilização dos jovens por suas escolhas e os professores como coautores das decisões que irão balizar sua ideia de vida no futuro, o que coaduna com uma das dimensões dos processos de privatização da educação, que é fazer com que os jovens que frequentam o ensino médio sejam responsabilizados pelo seu insucesso.
A investigação dos Projetos de Vida se destaca, atualmente, em um cenário de rápidas mudanças sociais, culturais e tecnológicas, permitindo analisar como os sujeitos e a sociedade desenvolvem uma compreensão mais profunda de si mesmos. Nessa linha, o estudo dos Projetos de Vida transcendem o âmbito individual, tocando na maneira como nos relacionamos com os outros e construímos as realidades sociais. Ao estudar Projetos de Vida, pesquisadores são incentivados a refletir sobre como podem contribuir para a sociedade, promovendo uma cidadania consciente e engajada.
Destacamos, ainda, a necessidade de considerar a educação como um ente social fundamental na construção dos Projetos de Vida dos jovens, promovendo não apenas a formação acadêmica, mas também o desenvolvimento da emancipação social. Estudar o Projeto de Vida pressupõe, portanto, um olhar atento sobre o passado, o presente e o futuro, reconhecendo a educação como um elemento chave nesse processo de construção individual e societal.
Nesse viés, o dossiê reúne artigos das diversas regiões do Brasil, sob distintas metodologias teórico-metodológicos e instrumentos de pesquisa, como o materialismo histórico-dialético, a Teoria das Representações Sociais (TRS) e a Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP), que analisam o fenômeno do Projeto de Vida na sua relação com a mercantilização da educação, financeirização, neoliberalismo e outras questões.
O coletivo de instituições envolvidas é variado, compreendendo Universidade Federal do Pará, Universidade do Estado do Pará, Universidade Federal do Paraná e Université de Tunis El Manar- Tunísia, além de outras, que nos trazem elementos atuais em torno do debate central deste dossiê, proposto a partir de pesquisas sobre o ensino médio e a educação como direito humano no âmbito do Grupo de Estudos em Educação em Direitos Humanos (GEEDH/UFPA), sob a coordenação da Profa. Dra. Émina Santos.
O primeiro texto, de Maria do Socorro Vasconcelos Pereira, Émina Santos e Dorra Ben Alaya destaca como os contextos de duas escolas do Pará interferem nas concepções de vidas dos jovens do ensino médio, considerando que as condições reais são pouco favoráveis para a materialização de um projeto de emancipação humana.
Cassio Vale e Terezinha Fátima Andrade Monteiro dos Santos, por sua vez, apresentam um debate relevante sobre os negócios sociais executados por meio do emergente “Setor Dois e Meio”, que utiliza elementos da filantropia para impulsionar negócios em uma nova roupagem de privatização da educação. No caso do Pará, a organização da Secretaria Estadual de Educação por meio de unidades formativas induz o fortalecimento de elementos mercantis para os alunos do ensino médio, como a meritocracia e a autorresponsabilização pelo seu êxito de vida.
Daniela de Oliveira Pires e Renata Peres Barbosa, a partir da realidade do estado do Paraná, demonstram como vem ocorrendo o alinhamento da Reforma do Ensino Médio com as novas capilaridades da privatização, mercantilização e financeirização da educação, o que submete a escola pública aos ditames mercantis.
Já Anamérica Prado Marcondes, Simone de Oliveira Andrade Silva e Ângela Maria Baltieri Souza investigaram as representações sociais de jovens do ensino médio em situação de vulnerabilidade sobre os seus Projetos de Vida, indicando um alinhamento com as questões pragmáticas de subsistência - dinheiro, trabalho, sucesso, faculdade.
Leonor M. Santana, Edna Maria Querido de Oliveira Chamon e Gladis Camarini, por meio de pesquisa de campo, analisaram as representações sociais de Projeto de Vida de estudantes do ensino médio de escolas públicas nos estados de São Paulo e Minas Gerais, cujos resultados revelaram a ênfase do Projeto de Vida em aspectos materiais e de ascensão social, e uma forte aproximação entre educação e mundo do trabalho, sem espaço para aspectos políticos, sociais e pessoais.
O último texto, de Margareth Braz Ramos, Patrícia Ortiz Monteiro e André
Felipe Costa Santos investigou as representações sociais de Projeto de Vida por jovens aprendizes em inserção profissional no contexto pandêmico, com idade entre 14 e 24 anos, moradores no estado do Rio de Janeiro, ingressantes e concluintes do Programa Jovem Aprendiz. Apesar de possuírem incertezas sobre seus objetivos, esses jovens sonham, planejam e desejam investir em educação superior, seja ingressando na universidade ou em cursos técnicos, visando alcançar mobilidade social em suas vidas. Representam o Projeto de Vida em ordem de importância substancial, capaz de melhorar a sua própria qualidade de vida, assim como de seus familiares.
Desejamos, portanto, uma ótima leitura, e que o dossiê possa contribuir academicamente com os debates sobre as políticas de ensino médio, com destaque para o componente Projeto de Vida, que fortalece ideais no mercado na vida de alunos por meio da educação.