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Daniel: Hegemonia e educação: padre Zaccaria e sua obra
Revista Exitus, vol. 14, e024046, 2024
Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA

RESENHA

. . . .

Received: 21 August 2024

Accepted: 30 September 2024

Published: 04 November 2024

DOI: https://doi.org/10.24065/re.v14i1.2701

Escrito por Daniel Longhini Vicençoni3, o livro retoma as discussões realizadas em sua pesquisa de mestrado, defendida em 2021, com o título Espiritualidade e Educação nos Escritos de Santo Antônio Maria Zaccaria (1502-1539), a qual teve incentivo financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O interesse pela temática surgiu no período da graduação, em estudos realizados por meio da orientação do Professor Doutor Alessandro Santos da Rocha, sobre Antônio Maria Zaccaria e os Barnabitas, como importantes agentes no processo de constituição da Educação Moderna, sobretudo, pelo impulso às novas práticas espirituais e à subjetividade. A pesquisa foi aprofundada no mestrado, no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá, entre os anos de 2019 e 2021, sob a orientação do professor Doutor Cézar de Alencar Arnaut de Toledo.

O livro apresenta cinco seções. A primeira seção é a introdução e inicia na página 13, possuindo 4 páginas; a segunda seção é subdividida em outras 5 menores; a terceira está organizada em 5; a quarta tem apenas 2; a quinta seção é a conclusão do livro.

A temática da obra está inserida na área de história da educação. A partir da leitura do livro, observamos a importância da categoria de intelectual para o desenvolvimento da obra. Numa perspectiva gramsciana, o intelectual tradicional é aquele que pode ser oriundo de uma antiga organização e que atua de forma independente numa nova organização hegemônica. No caso desse livro, a categoria é utilizada para evidenciar a questão da espiritualidade e a educação no pensamento e obra de Santo Antônio Maria Zaccaria, a partir de um procedimento de pesquisa bibliográfica, documental e histórica. Na introdução, Antônio Maria Zaccaria é apresentado como um intelectual ativo de seu contexto, com o objetivo de impulsionar a reforma católica. Nela, também se indica a finalidade do livro: “é analisar o roteiro pedagógico elaborado por Antônio Maria Zaccaria para os Barnabitas, na busca de analisar a sua contribuição para a constituição da educação moderna” (Vicençoni, 2023, p. 15).

A segunda seção da obra tem como título Antônio Maria Zaccaria e os Barnabitas (entre as páginas 17 e 72). Nela, apresenta-se a transição da Idade Média para a Idade Moderna, período que, segundo o autor, foi marcado por diversas transformações no campo político, cultural e religioso: Queda de Constantinopla no ano de 1453; aprimoramento da técnica naval e a criação dos instrumentos que auxiliavam os marinheiros; a chegada dos europeus às Américas e o Renascimento. Na página 18, destaca-se que as práticas religiosas do período medieval foram modificadas em um novo caminho ditado pelos ideais do Renascimento e dos intelectuais humanistas. O interesse voltou-se para o homem e para a vida civil; da concepção teocêntrica passou-se ao antropocentrismo. Por fim, apresenta-se o papel da imprensa do século XVI, importante para disseminar tais valores.

Das páginas 21 a 25, são apresentados alguns fatos importantes do período, como o nascimento do capitalismo, o advento do humanismo, reformas religiosas e a gênese da escola moderna. O livro apresenta os humanistas como os primeiros a difundir a ideia de que a educação era uma necessidade social. O argumento centrava-se na premissa de que somente por meio da aprendizagem e da educação seria possível formar bons cidadãos, portanto, seria necessária uma formação abrangente, que fosse além de meras instruções em disciplinas.

Essa seção nos apresenta que as discussões sobre a educação foram fecundas porque havia uma necessidade de formar um novo cidadão, para um novo mundo. Dessa forma, a religião, a educação e a política se entrelaçaram a fim de garantir uma nova face ao ser humano moderno. A Igreja Católica promoveu as práticas educativas, sobretudo pela criação de escolas dirigidas pelos padres e freiras das novas ordens e congregações que nasceram no período, a exemplo dos Teatinos, dos Barnabitas, dos Camilianos, dos Somascos, das Ursulinas e da mais famosa de todas elas, os Jesuítas.

Foi neste contexto de modificações sociais que Santo Antônio Maria Zaccaria atuou. Ele foi responsável por levar a diante a Reforma Católica, especialmente pelo seu trabalho educativo e pela criação de duas Ordens religiosas, uma masculina, denominada Clérigos Regulares de São Paulo, mais conhecidos como Barnabitas, e a outra feminina, chamada Irmãs Angélicas de São Paulo e um grupo de leigos, nomeado de Casados de São Paulo.

Assim, a partir da página 26, o livro apresenta de forma detalhada a biografia de Antônio Maria Zaccaria, os primeiros passos dos Barnabitas, a criação das ordens religiosas, os desafios enfrentados no contexto econômico, político e religioso do século XVI, permeando a análise com a bibliografia referente aos temas.

A terceira seção, intitulada Os Escritos de Antônio Maria Zaccaria, estende-se entre as páginas 73 e 115. O autor explora a obra Escritos, compilação das diversas cartas, sermões e as constituições do Antônio Maria Zaccaria. Entre as informações sobre a fonte, indica-se que a primeira tradução publicada no Brasil data de 1975, pelo barnabita José Meireles Sisnando com o título Noções de ascética e mística.

Na página 73, consta que a fonte é composta de um total de 12 cartas, 07 Sermões resultantes de suas pregações na Igreja de São Vital e 18 Constituições destinadas aos barnabitas. Esses documentos, segundo o livro, são fonte rica de informações sobre o contexto da Reforma Católica. Vicençoni indica que o objetivo desta seção é analisar a obra do Santo por meio de temáticas, como “As Constituições de Antônio Maria Zaccaria para os Barnabitas”, “O apóstolo Paulo como centro da espiritualidade zaccariana”, “Ascese e mística de Antônio Maria Zaccaria: o caminho pedagógico para a perfeição espiritual”, “A espiritualidade Zaccariana e a luta contra a tibieza” e “O homem interior: a espiritualidade da Devotio Moderna”.

O primeiro capítulo da constituição está presente na página 75, denomina-se A oração da Igreja e foi destinada a orientar os barnabitas a respeito de quantas vezes devem rezar ao dia; o número de missas que deveriam frequentar e a quantidade de vezes que os padres deveriam se confessar. Há uma descrição detalhada dos capítulos desses documentos. A Qualidade do reformador dos costumes e os seus colaboradores é o 18º capítulo de suas Constituições, onde são apontadas oito soluções para reerguer os bons costumes das Congregações.

Apresenta-se a influência do apóstolo Paulo, patrono das duas ordens e do grupo de leigos, sobre o Padre Zaccaria. A relação dele com o apóstolo teria ido além de uma apreciação teologal, ou devoção; foi um exemplo de vida, um modelo e um professor do apostolado. Zaccaria teria se esforçado para ser um verdadeiro discípulo paulino, acreditando que assim teria mais chances de alcançar a perfeição espiritual.

Na página 104, indica-se que o método de ensino utilizado por Zaccaria não era novidade no contexto. Tratava-se, na verdade, da lectio divina, maneira particular de ler e orar, da lectio bíblica, por meio da leitura, meditação e contemplação, processos que estavam presentes na tradição da Devotio Moderna. Na página 106, trata-se do fio condutor do pensamento e da espiritualidade de Antônio Maria Zaccaria: a luta contra a tibieza. Influenciado por Tomás de Kempis e pela teologia Paulina, Zaccaria entendia o homem como dividido entre exterior e interior. O primeiro era marcado pela finitude e pela corrupção, enquanto o segundo seria regido pela lei divina, guiado pelo Espírito Santo, e passível de renovação diária e transformação espiritual.

A quarta seção intitula-se Os Barnabitas no Brasil, estendendo-se entre as páginas 117 e 124. Trata-se da chegada dos Clérigos Regulares de São Paulo no Brasil, em 21 de agosto de 1903, no Pará e em Pernambuco, com o objetivo de educar a população local a partir dos ensinamentos do tradicionalismo católico, através de atividades educativas, catequeses, instituições educativas e atividades missionárias. Entre as páginas 120 e 124, contextualiza e apresenta-se como se estabeleceram no Brasil, tendo dois pontos centrais de atuação: missionário e educativo.

A conclusão é a quinta seção do livro. A seção inicia na página 125 e finaliza na página 128. O livro apresenta Santo Antônio Maria como um reformador, em um contexto de agitações econômicas, políticas e religiosas. Segundo o autor, a educação foi adotada como estratégia para disseminar a doutrina católica. Na página 125, temos que a catequese se tornou um meio de educar a população local. Não se tratava de uma educação formal, mas sim, como um processo de transmissão de saberes, algo que foi fundamental no movimento da reforma católica. Com a morte de Antônio Maria Zaccaria em 1539, os barnabitas continuaram exercendo suas práticas missionárias e educacionais.

Entre os séculos XVI e XVII, a ordem foi responsável pela fundação e administração de colégios. Ao fundarem colégios, buscavam retomar o estudo dos clássicos da antiguidade, a partir da perspectiva humanista cristã, os estudos de filosofia, teologia e dos padres da igreja. Portanto, educação foi um dos meios de garantir a hegemonia e manter o poder. Neste sentido, o livro nos apresenta que o trabalho educacional dos barnabitas deve ser observado a partir do panorama da luta pela hegemonia cultural e religiosa.

A obra pode ser apresentada em duas partes, na primeira, o autor apresenta de forma clara a contextualização do século XVI, levando em consideração a questão cultural, política e religiosa; na segunda, Vicençoni, explora a documentação. O livro tem uma linguagem de fácil compreensão, mas apresenta muitas informações, onde o personagem principal é o intelectual tradicional Antônio Maria Zaccaria, além do quadro teórico da história da educação, que evidencia a capacidade intelectual da igreja de se reorganizar no momento histórico e de lançar estratégias - a educação é uma delas - para lutar pela manutenção e aquisição de novos fiéis para sua hegemonia. Neste sentido, Daniel consegue apresentar de forma clara a importância da obra do ponto de vista histórico, intelectual, religioso e educacional. A obra é um convite a todas as pessoas que acreditam na importância da história e da educação para a atualidade. Por fim, muitas estratégias elencadas no livro ainda estão presentes na sociedade contemporânea.

REFERÊNCIAS

VICENÇONI, D. L. Espiritualidade e Educação nos escritos de Santo Antônio Maria Zaccaria (1502-1539). São Carlos: Pedro e João Editores, 2023. 133 p. ISBN 978-65-265-0798-8.

Notes

VICENÇONI, D. L. Espiritualidade e Educação nos escritos de Santo Antônio Maria Zaccaria (1502-1539). São Carlos: Pedro e João Editores, 2023. 133 p. ISBN 978-65-265-0798-8.
3 Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá, licenciado em História (2018) pela mesma instituição e em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER - 2022). Tem experiência em docência na modalidade presencial e participa dos Grupos de Pesquisas sobre Política, Religião e Educação na Modernidade (UEM) e do GEPHEELE - Grupo de Estudo e Pesquisa em História da Educação e do Ensino de Leitura e Escrita (UEM). Atua como professor no curso de Pedagogia na Universidade Estadual de Maringá, campus Cianorte.


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