CONFERÊNCIA

POSSIBILIDADES DE HUMANIZAÇÃO PELA EDUCAÇÃO: REFLEXÕES EM VOZES FILOSÓFICAS1

POSSIBILITIES OF HUMANIZATION THROUGH EDUCATION: REFLECTIONS IN PHILOSOPHICAL VOICES

POSIBILIDADES DE HUMANIZACIÓN A TRAVÉS DE LA EDUCACIÓN: REFLEXIONES EM VOCES FILOSÓFICAS

Tânia Rodrigues Palhano
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Hélcia Macedo de Carvalho Diniz e Silva
Centro Universitário de João Pessoa, Brasil

POSSIBILIDADES DE HUMANIZAÇÃO PELA EDUCAÇÃO: REFLEXÕES EM VOZES FILOSÓFICAS1

Revista Exitus, vol. 15, e025013, 2025

Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA

Recepción: 26 Noviembre 2024

Aprobación: 16 Diciembre 2024

Publicación: 01 Febrero 2025

RESUMO: Este trabalho tem por objetivo geral apresentar o conceito de formação humana pela educação com possibilidades para a humanização, e, de modo específico, apresentar as formas de educação, definir formação humana para a Filosofia e mostrar possibilidades de humanização pela educação. Esta é a delimitação do contexto, as bases teóricas que perpassam os processos em que ocorreram mudanças nas formas de pensar a educabilidade humana: do pensamento antigo, passando por Platão (2008), ao moderno, com base em Kant (1991). Do campo da educação ao campo da formação ético-política e da abertura para a pluralidade na contemporaneidade. A natureza da pesquisa é qualitativa. Trata-se de uma revisão de literatura, pesquisa exploratória e caráter interpretativo. Concentra-se na análise do discurso dos trechos dos textos dos pensadores citados diretamente com base no quadro teórico-metodológico bakhtiniano. Para tanto, utilizamos o conceito de polifonia de vozes apresentado na obra Problema da Poética de Dostoiévski (Bakhtin, 2010). Estabelecemos como pergunta problema a seguinte questão: até que ponto a educação ético-política pode formar para humanizar? Como resultados esperamos esclarecer perspectivas filosóficas para o processo educacional humanizador.

Palavras-chave: Filosofia, Formação humana, Educação, Análise do Discurso Bakhtiniana.

ABSTRACT: This work aims to present the concept of human formation through education with possibilities for humanization, specifically, to present education forms, define human formation to Philosophy, and show human formation possibilities through education. The context's delimitation is the theoretical bases which pass through the processes in which changes occurred in the ways of thinking about human educability: from the old thinking, passing through Plato (2008), to the modern, based on Kant (1991). From the field of education to the creation of ethical-political training and openness to plurality in contemporary times. The nature of the research is qualitative. It is a literature revision, exploratory research, and interpretative character. It focuses on the discourse analysis of excerpts from the texts of the thinkers cited directly based on the Bakhtinian theoretical-methodological framework. Therefore, we utilize the concept of polyphony of voices, which Bakhtin presented in Problems of Dostoevsky's Poetics (2010). The following problem question is established: to what extent can ethicalpolitical education form humanization? As a result, we expect to clarify philosophical perspectives for the humanizing educational process.

Keywords: Philosophy, Human formation, Education, Bakhtin’s Discourse Analysis.

RESUMEN: Este trabajo tiene como objetivo presentar el concepto de formación humana a través de la educación con posibilidades de humanización, específicamente, presentar formas de educación, definir la formación humana a la Filosofía y mostrar las posibilidades de la formación humana a través de la educación. La delimitación del contexto son las bases teóricas que atraviesan los procesos en los que se produjeron cambios en los modos de pensar sobre la educabilidad humana: desde el pensamiento antiguo, pasando por Platón (2008), hasta el moderno, a partir de Kant (1991). Del campo de la educación a la creación de una formación éticopolítica y la apertura a la pluralidad en la época contemporánea. La naturaleza de la investigación es cualitativa. Es una revisión de la literatura, una investigación exploratoria y de carácter interpretativo. Se centra en el análisis del discurso de extractos de los textos de los pensadores citados directamente con base en el marco teórico-metodológico bajtiniano. Por lo tanto, utilizamos el concepto de polifonía de voces, que Bajtín presentó en Problemas de la poética de Dostoievski (2010). Se establece la siguiente pregunta problemática: ¿en qué medida la educación éticopolítica puede formar humanización? Como resultado, esperamos aclarar perspectivas filosóficas para el proceso educativo humanizador.

Palabras clave: Filosofía, Formación humana, Educacón, El análisis del discurso de Bajtin.

INTRODUÇÃO

A educação e a formação humana são indissociáveis, uma é a interface da outra, uma vez que o processo de formar pessoas passa pelo exercício do aprendizado e do ensino. Na filosofia, trabalhamos o ser humano a partir de valores, conhecimentos e atitudes para a vida em todas as suas manifestações. Demarcando o Ocidente como delimitação investigativa, desde a época da magna Grécia, especificamente com o surgimento da Filosofia Antiga e o modo de pensar a civilização que se tem discutido sobre a humanização pela educação. Ressaltamos que existem outras civilizações antes deste marco histórico ocidental, a exemplo dos Sumérios, a primeira civilização que a história registra, surgida na Mesopotâmia por volta de 4 mil a.C., e dos Fenícios, organizada com base na troca de mercadorias (escambo) e responsável pelo desenvolvimento da escrita alfabética (Chauí, 2002). Não obstante, o lastro histórico recortado concentra-se no contexto com base na civilização grega como referência para o desenvolvimento do trabalho, devido ao limitado espaço de tempo e delimitação temática desta pesquisa.

Nesse contexto, o objetivo geral desta investigação é o de apresentar o conceito de formação humana pela educação, com possibilidades para a humanização. De modo específico, objetivamos apresentar as formas de educação, concentrando-se em definir humanização para a Filosofia, e, por fim, mostrar possibilidades de humanização pela educação.

Sobre o ato de humanizar pessoas e tornar o ser humano mais integrado socialmente, podemos afirmar que esta é uma ação sumariamente humana, até que ponto a educação que se promova como não utilitária pode formar para humanizar? Nessa investigação perseguiremos esse questionamento como parte do problema da pesquisa, que aponta para a hipótese de que pela educação pode ocorrer a humanização do cidadão para a vida em sociedade, se e somente se, as bases da vida humana forem radicadas no modo ético-político de ser e de viver.

Para além desse questionamento faz-se necessário conceituar o termo humanização. Recorremos ao arcabouço teórico disponível na literatura a fim de saber os pressupostos cujas teorias visam tornar o humano digno de possibilidades e de condições essencialmente humanas, como os direitos humanos básicos satisfeitos. Ou seja, atendidos o direito à alimentação, saúde, educação, trabalho e lazer, como previsto no Art. nº 5, da Constituição Federal Brasileira (1998, p. 8), os denominados direitos fundamentais, que são frequentemente esquecidos de serem garantidos para todos. Entretanto, são esses direitos que formam o mínimo necessário para abrir possibilidades de pensar e o refletir a realidade.

Justificamos a escolha desse tema pela necessidade de se pensar a educação em tempos exigentes, quando a filosofia se torna inviabilizada ao ser retirada da condição de disciplina obrigatória na educação básica atual a partir da legislação vigente, fato que merece uma investigação própria. Para tanto, a metodologia desta revisão de literatura, de natureza qualitativa, caráter interpretativo e método exploratório, concentra-se na análise do discurso dos textos dos pensadores investigados à luz do quadro teóricometodológico bakhtiniano, do conceito de polifonia de vozes, a partir da obra Problema da poética de Dostoiévski (Bakhtin, 2010). Resumidamente, o termo polifonia foi tomado emprestado por Bakhtin (2010) de um uso desta palavra no período da Idade Média, muito usado no campo da música gregoriana, na qual o coral de muitas vozes se faz uníssono em uma única sonoridade, embora todas as vozes sejam independentes e distintas.

Para o filósofo russo da linguagem, o discurso contém uma multiplicidade de vozes ideologicamente distintas, o que torna autoral o discurso daquele que profere algo, assim "para Bakhtin a polifonia é parte essencial de toda enunciação, já que em um mesmo texto ocorrem diferentes vozes que se expressam" (Pires; Tamanini-Adames, 2010, p. 66) formando outro discurso. Com os excertos dos textos estudados, a tarefa metodológica concentra-se na análise do discurso dos autores, destacando as múltiplas vozes que compõem o texto e, assim, mostrar os argumentos cujos pressupostos filosóficos, possibilitam a humanização pela educação.

Na obra Dialogismo e construção do sentido, o filósofo russo afirma que a essência das múltiplas vozes permanecerem independentes e combinam entre si para compor outro discurso, assim se dá a presença do discurso do outro em nossa enunciação. As investigações desta pesquisa vão à direção de apresentar as vozes de pensadores que trataram sobre formação humana, investigando a multiplicidade de entendimentos sobre a humanização pela educação e percebendo um eixo comum sobre o educar para o pensar.

Ocorre que a bases teóricas desta investigação contribuem para compreender a essência do conteúdo filosófico no âmbito educacional, uma vez que está perpassada pela raiz grega até o pensamento moderno, o campo da ética educacional em Platão (2008), da formação política em Kant (1991) e da pluralidade na contemporaneidade. Para além da visão grega e de seu arcabouço teórico, adicionamos a perspectiva da ética para a formação humana, seguindo os passos do filósofo argentino, exilado em 1975 no México por conta da ditadura militar, Dussel, que faleceu aos 88 anos, em novembro de 2023. Na obra Ética da libertação, o filósofo nos ensina que a ética liberta o ser humano das amarras do colonizador (Dussel, 2012) e que isso ocorre por uma razão ético-crítica que cada um possui e que se lança a momentos futuros de realização a partir da sua realidade.

Neste diapasão, desenvolvemos a pesquisa com as seguintes subdivisões: apresentação do humano em processo de humanização; a educação em espaços formativos do humano pela reflexão filosófica; problemas ético-políticos na educação e na democracia social contemporânea. Os caminhos da pesquisa concentram-se no âmbito filosófico-educacional; problemas ético-políticos na educação e na democracia social contemporânea.

O HUMANO EM PROCESSO DE HUMANIZAÇÃO

A pergunta que justifica esta seção é a seguinte: o que é o humano? Sabemos que não há uma resposta pronta, definitiva, tampouco satisfatória para a indagação a propósito do que o homem é. Na realidade em que estamos inseridos, no atual contexto histórico e social, viver é desafiador, diante do uso das técnicas e tecnologias os quais aprisionam o humano ao trabalho produtivo e carente de ócio.

A educação em suas raízes utilitárias é um desafio para a formação humana, “do humano das carências ônticas na existência real às contingências ontológicas de ser” (Severino, 2006, p. 621). Nesta frase de Severino (2006) observamos dois termos técnicos da Filosofia, definidos por Abbagnano (2007, Online) “ôntico (vem do radical grego ontos) e ontológico (ramo da filosofia que analisa o ser em si mesmo, suas propriedades e categorias)”. Neste destaque encontramos a polifonia de vozes deste autor com os conceitos gregos.

Ressaltamos o conceito do termo filosófico, ôntico, que remete ao ser humano em toda a sua complexidade. Como complexo é o questionamento sobre o humano e as possibilidades de humanização por conta das problemáticas que a vida cotidiana impõe a cada um. Não há receita quando o assunto é o desenvolvimento da pessoa humana em sociedade.

Enquanto existirem, afirma Jaspers (2007, p. 54), os seres humanos serão “seres empenhados na conquista de si mesmos”. O desafio é: como pensar a humanidade sem torná-la objeto? Para este filósofo, a coragem engendra a esperança. O ser humano sem esperança, não vive a sua vida plenamente. Enquanto há vida, “há sempre um mínimo de esperança, que brota da coragem” (Jaspers, 2007, p. 53). A obra de Jaspers (2007), em sua primeira edição, Introdução ao pensamento filosófico, foi publicada na língua original alemã entre os anos 1950-1971, estando na 15ª edição brasileira, em 2007, pela editora Cultrix. Esse livro, de caráter filosófico, apresenta questões não respondidas pela ciência, e conforme Oliveira (2024, p. 5), “a ciência é uma ação humana”, porém, trata sobre o humano e seu conhecimento, a partir de indagações “de nós próprios acerca do sentido e missão de nossa existência” (Jaspers, 2007, p. 12). Nos trechos citados a polifonia de vozes ressoa nos conceitos: coragem e esperança. Na História da Filosofia esses conceitos aparecem de modo recorrente ecoando, por exemplo, Kierkegaard quando abordou o conceito de angústia e apontou para a esperança como combustível da manutenção da vida do ser humano, ao afirmar “A coragem e a esperança encaram o medo e o controla” (Kierkegaard, 2015, p. 71). A vida caminha na confiança, sem a certeza, mas com coragem.

Nessa perspectiva, com outro foco, mas refletindo sobre o ser humano, Freire (1996) afirma que o seu caráter inacabado e inconcluso é repleto de esperança, que não é suficiente, mas necessária para a luta diária da vida. A inconclusão do ser humano na busca da conquista de si, demonstra que o seu inacabamento fala mais de suas potencialidades, do que realmente é. Em Freire (1997, p. 5), “o humano se apresenta como inacabado e inconcluso, repleto de esperança como necessidade ontológica”. Ocorre que, ainda assim, a minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Complementa o pensador brasileiro, a esperança, isoladamente, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia.

O inacabamento, na verdade, foi tratado por muitos outros pensadores. O inacabamento do ser humano ou a sua inconclusão é próprio da experiência vital de cada um. Mas, apenas entre os seres humanos é que há consciência desse conhecimento, que segundo Freire (1996), em sua obra Pedagogia da Autonomia, é a consciência que constitui o ser humano inacabado que torna a humanização possível. Ao discorrer sobre a condição humana, na obra Pedagogia da Esperança, em retomada das reflexões dos escritos da obra Pedagogia do oprimidoFreire (1997) atribui a esperança na prática e na luta como o poder para transformar a realidade. O humano se humaniza, transformando a si mesmo e a realidade da qual faz parte. De acordo com Sérgio Haddad (2012, p. 08), em sua obra História e Filosofia da Educação, “Os pensadores que inspiraram o pensamento de Paulo Freire foram Amilcar Cabral e Frantz Fanon na criação da sua pedagogia”. As vozes destes pensadores ecoam quando o assunto é o ser humano oprimido que precisa de autonomia.

Como se dá a humanização? Entendemos que se dá como devir humanizador, como um processo de construção de uma personalidade integral, que é algo que deve ocorrer no processo de formação humana via Filosofia e reflexão. O humano, portanto, está no processo de desenvolvimento do seu ser, enquanto cada um vivencia o dia a dia inserido em processos sociais, que estão por sua vez, em movimento.

EDUCAÇÃO EM ESPAÇOS FORMATIVOS DO HUMANO PELA REFLEXÃO FILOSÓFICA

Nesta seção, objetivamos entender o humano em espaços formativos historicamente construídos, com base em reflexões filosóficas. Ao tratar a educação como processo de formação humana, recortando o campo da Filosofia, nesta revisão de literatura, observamos o legado filosófico, aproximadamente, 2.600 anos. Para tanto, fizemos um corte epistemológico nesta pesquisa à luz do filósofo brasileiro Antônio Joaquim Severino (2006), que ao tratar a educação como processo de formação humana na dimensão da educabilidade do ser humano, evidenciou as dimensões: ética, política e cultura. Entendemos pelos conceitos: ética, o aprimoramento ético-pessoal, política, a inserção ativa da pessoa na sociedade, e cultura, aquela abertura à contingência e à pluralidade, haja vista a vasta conceituação do que é cultural.

Para desenvolver uma reflexão sobre como a educação, na qualidade de processo de formação humana, como foi concebida, investigamos quais sentidos o conceito de formação recebeu ao longo de tradição filosófica. Com efeito, a delimitação observou o ponto de mudanças que ocorreram ao longo da história, nas concepções que os seres humanos fizeram do ideal de sua humanização.

No tocante à educação na dimensão da ética e ao conceito de ética como aprimoramento ético-pessoal, o testemunho da História da Filosofia autoriza a afirmar que a educação foi primeiramente pensada como formação ética. De fato, “o discurso filosófico da Antiguidade e da Medievalidade concebeu a educação como proposta de transformação aprimoradora do sujeito humano” (Severino, 2006, p. 623). É uma sugestão que para o autor se consolida pela via da compreensão de natureza humana de caráter universal e a educação é mirada em uma formação ética.

A ética e a moral são essenciais como partes do terreno humano. O significado etimológico de ambos se situa “no terreno especificamente humano no qual se torna possível e se funda o comportamento moral” (Vázquez, 1978, p. 8). De acordo com Vázquez (1978, p. 14), “Ética tem origem no grego ethos, ‘modo de ser’ ou caráter. Forma de vida adquirida ou conquistada pelo homem. Moral do latim mores, ‘costume’, comportamento regulado ou adquirido por hábito”. Percebemos, com essas definições, que é tênue a linha que separa o conceito de ética e de moral. A voz de Aristóteles (2015) é ouvida quando tratamos da ética. Na obra Ética a Nicômaco encontra-se a primeira sistematização acerca da moral e do convívio que ficou conhecida como a ética.

Desse modo, na sociedade encontram-se regras e normas morais que são refletidas eticamente pelos sujeitos morais na sua prática social. Na esteira do pensamento de Severino (2006), no “categorial filosófico, a ética é uma qualidade do sujeito humano como ser sensível aos valores, com um agir cuja configuração se deixa marcar por esses valores a que sua consciência subjetiva está sempre se referindo”. Esta afirmação do filósofo encontra-se nas suas reflexões sobre formação política, quando mostra as possibilidades de humanização pela educação. Ao se referir ao “ser sensível”, nos desperta um ponto que abre possibilidades de humanização pela educação, pois não podemos ignorar os sentimentos dos sujeitos humanos que estão envolvidos no processo do aprendizado.

A educação foi pensada como formação ética e do “processo de constituição do sujeito ético, não estão ausentes, na Filosofia Antiga e Medieval, as alusões às dimensões social, política e comunitária da existência histórica dos seres humanos” (Severino, 2006, p. 623). Dessa forma, a educação tem a tarefa de firmar na ética a formação do homem virtuoso e que escolhe o caminho do bem.

É a Paidéia proposta no quadro da cultura clássica grega e latina, a educação, de acordo com uma forma na busca do ideal do humano, o sujeito humano individual em que se almeja desenvolver o seu melhor. E na constituição do sujeito ético, Severino (2006) não se isenta às dimensões sociais e políticas, como também comunitárias da história dos seres humanos. Porém, a referência ao político está direcionada à ação do indivíduo em sociedade e há polifonia de vozes quando observamos na Filosofia Antiga. Para Sócrates, em diálogos platônicos com O primeiro Alcebíades, no Fedro (Platão, 1973), quando se questiona sobre o ser humano, se expõe a alma humana e sua ligação com o conhecimento e reflexão, o que passa a possibilitar o “Conhece-te a ti mesmo” (Platão, 1973, p. s/n).

Nas obras A República, de Platão (2008) e Política de Aristóteles (2007) encontramos a menção da formação do político, ambos se afastam do aspecto da formação utilitária dos sofistas e condicionam a política à ética pelas ações morais individuais. De acordo com Severino (2006, p. 623), “a política fica como que condicionada à ética, ou seja, à qualidade e à intensidade do aprimoramento da postura e das ações morais das pessoas individuais”. Essa evolução do pensamento filosófico traduz-se no essencialmente humano, que são atos ético-políticos, no decorrer da vida em sociedade.

Recordando a realidade da vivência do ser humano na pólis grega, reside na dependência direta da vida individual dos seus habitantes que participam de discussões e decisões políticas (Severino, 2006). Sobre as cidades-estados gregas, vale ressaltar as assembleias na ágora, onde participavam os cidadãos que debatiam sobre o bem comum e praticavam o ser ético e político, como exercício da democracia da época. Destacamos que na democracia grega eram considerados cidadãos os filhos de pais e mães atenienses, nascidos em Atenas, homens de idade compatível à iniciação na vida pública. Deste regime político estavam excluídos escravos, estrangeiros e mulheres.

Severino (2006, p. 624) aponta que Platão, ao construir seu modelo da cidade ideal na obra A República, “desenvolveu uma proposta filosófica de uma pedagogia ético-política, na qual o conhecimento e a prática da virtude vão garantir a viabilidade e a legitimidade do Estado”. A educação revela uma proposta em que se promove a humanização do ser inconcluso elaborada nos princípios da ética, embalado em um ideal universal do humano pela forma do ser virtuoso.

Na esteira de Severino (2006), a Grécia Antiga deixa como legado ensinamentos para a vida, a exemplo do pensamento de Aristóteles (2007, p.146), que pontua “o homem como animal político por natureza, e a necessidade de formar o ser virtuoso para o bem da comunidade”. Na obra Política, Aristóteles (2007) aponta reflexões sobre a atividade humana, o que nos ensina uma ação humana que não esteja restrita às ações utilitárias. De acordo com Aristóteles (2007), a formação tem por objetivo uma cultura geral, menos voltada à capacitação de ofícios. O estagirita entende a formação ética do indivíduo, o caminho e que “a finalidade de todo conhecimento e de toda atividade é a virtude” (Aristóteles, 2007, p. 234). De acordo com Zatti e Pagotto-Euzebio (2021, p. 202), “para essa finalidade se realizar a educação não deve se restringir ao útil e ao necessário, como os ofícios formadores de um bom artífice, mas se estender aos ensinamentos que tornem o educando um bom cidadão e bom homem”. Compreendemos, portanto, que para além do modo de fazer a ser aprendido, o ser humano compreende-se a partir de suas ações, tanto no coletivo como na vida privada.

A inserção do ser humano na sociedade, isto é, na cidade-estado (Pólis, em grego) é o que assegura o perfil da virtude, “cujo desenvolvimento das estruturas político-administrativas devem fornecer as condições objetivas, e a educação, as subjetivas”, esclarece Severino (2006, p. 624). Na educação, do antigo (gregos) ao medievo, pela tradição filosófica permanece o pensamento de que formar é educar o humano, e a humanização é direcionada a construção do sujeito individual.

Aponta Severino (2006, p. 624), o aprendiz deve “incorporar uma típica atitude espiritual, dar-lhe consistência e permanência de modo que possa tornar-se fonte reguladora de seu agir, que passará a qualificar-se como agir moralmente bem”. O sujeito atua como indivíduo e pessoa em sua liberdade de ação, enquanto “a pólis, como cidade justa e democrática, será resultante das ações, eticamente respaldadas, postas pelos indivíduos transformados” (Severino, 2006, p. 625). Desde a filosofia socrática, a ética envolve os indivíduos e a ação moral na pólis como uma comunidade justa e o agir moralmente bem. Desse modo, a pólis se configura na Grécia Antiga igualmente uma comunidade justa para aquele que nela vive, o político decorre do ético, nele encontrando seu fundamento.

A educação como humanização, com base na formação ética, desenvolvida pelos gregos, não se perdeu com o tempo. Quando Roma se estabeleceu como a vigorosa potência do mundo antigo e conquistou, entre outros povos, a Grécia com sua ideia democrático-filosófica e cultura próprias foi assimilada ao poderio romano, porém, não subestimada em suas concepções filosóficas.

São Tomás de Aquino (2004) reforça as posições de Aristóteles no corpo da Teologia cristã, em que o pensamento lógico-filosófico aristotélico trata do bem no alcance da felicidade humana. Santo Agostinho, por sua vez, retoma o pensamento de Platão, por meio do qual é permitido ao ser humano conhecer a ideia e a verdade. A partir desses filósofos do período Medieval, o cristianismo promove um modelo de perfeição humana em uma caminhada de perfeição moral radicado na formação grega com vistas ao processo educacional da época. Analisamos a literatura filosófica e percebemos a polifonia de vozes nos textos dos pensadores do medievo ao retomarem as concepções dos clássicos, de modo que ecoam as vozes e surgem novos conceitos.

O projeto formativo do humano na tradição da filosofia grega e medieval indica pela dimensão da ética, a garantia da construção do sujeito nos valores da verdade e bondade. Na pólis, na busca do bem comum e no conhecimento da alma cristã, enquanto conciliação da fé e razão, o processo de humanização tem na ética o domínio sobre o político.

A partir do contexto da Idade Moderna é inaugurada a educação como formação política. O ser humano revela a sua ação como força criadora, na intenção de formar a si mesmo, inserido na sociedade e na realidade da vida política. De acordo com Severino (2006, p. 625), “o pensamento iluminista se instaura sob o crescente impacto da formação dos estados como entidades políticas autônomas”. Entende-se por formação, o alcance a maioridade e a liberdade, temas entrelaçados com a autonomia do sujeito em sociedade no pensamento iluminista.

O iluminismo tem em suas bases a cultura humanista do Renascimento, encontramos no pensamento de Bacon (1979) a crítica do saber da fixidez e estagnação de conhecimentos, e aponta no método empírico resultados práticos para a vida humana. Locke (1991) se apresenta como representante característico da cultura inglesa de seu tempo, como um filósofo da experiência, a sua filosofia parte de preocupações práticas. Como homem ligado aos problemas de sua realidade, objetivou a solução de problemas práticos ao apontar os limites do conhecimento humano na relação com a metafísica.

A mudança humanista iniciada no Renascimento é firmada em seu início, no âmbito da experiência sensorial e atividade da prática humana e difusão dessas ideias ocorrida no século XVIII. Toma a forma do projeto iluminista da vida humana em suas potencialidades, atravessada por uma formação no campo social e político. Dois pensadores destacam-se nessa abordagem, Jean-Jacques Rousseau (1968) e Immanuel Kant (2006).

Representantes do projeto iluminista da modernidade contribuíram, por exemplo, com a perspectiva de pedagogia, de acordo com a qual, a formação humana reside na capacidade de aperfeiçoar-se na vida social, visada pela educação, passa, necessariamente, pela consideração da condição natural do sujeito humano como ser social, ético e político. Em Rousseau (1968), a formação pedagógica do homem se alia às teorias políticas, para que a sociedade seja conduzida em harmonia envolta em um pensamento ético. A proposta educativa de Kant (2006) não reside só no indivíduo, mas no destino da civilização humana, para a humanidade se realizar, e ocorre como tarefa política e com base na lei moral. Ao citar diretamente o pensamento de Rousseau, ora concordando ora discordando, a polifonia de vozes torna-se mais evidente, mostrando o quão é polifônica a sua filosofia.

Na França do século XIX, surgiu o Positivismo, perspectiva positivista, inaugurada por Auguste Comte (1798-1857). Esta corrente filosófica foi bastante influenciada pelo Iluminismo e pautou-se na concepção do conhecimento válido, defendendo o positivo como passível de comprovação científica por meio da ordem e da ciência. Severino (2006, p. 627) expressa que nesta perspectiva está o pensamento de “Émile Durkheim, (que) dedicou todo o seu engenho em mostrar a consistência e a centralidade do social como elemento explicativo do modo de existir humano”. Em todo Iluminismo e segmento na modernidade, o conhecimento está formatado no antropocentrismo, e situa o humano no caminho do desencantamento enquanto sujeito ético, enquanto individualidade e não atender a orientações metafísicas. O sentido da educação enquanto formação muda e a inserção na sociedade se torna a realidade da educação como formação política.

PROBLEMAS ÉTICO-POLÍTICOS NA EDUCAÇÃO E NA DEMOCRACIA SOCIAL CONTEMPORÂNEA

As reflexões sobre o legado filosófico e a tradição da Filosofia, quanto à humanização e à educação, despertam para questionamentos sobre a realidade da qual fazemos parte. Nesta esteira, a presente seção tem por objetivo apresentar os conceitos de Filosofia Política e Democracia contemporâneas, apontando alguns problemas ético-políticos. Para tanto, a pergunta norteadora é, quais são as contribuições da Filosofia Política para a educação na democracia, a fim de mitigar problemas ético-políticos?

Observamos a teoria política na área da Filosofia que se dedica a questionar e problematizar questões políticas relativas à realidade, como educação, democracia e ética. A ética na política, por sua vez, aborda os valores filosóficos fundamentados na moral, pois no âmbito da Ciência Política, o embasamento teórico e crítico são fundamentais para compreensão da realidade.

Em linhas gerais, a ética e a política estabelecem o que é moralmente indicado a um indivíduo isoladamente ou a um grupo de pessoas. As abordagens do campo ético-político na contemporaneidade exploram problemas como: guerras, terrorismo, fechamento de fronteiras, polarização de posicionamentos e projetos de sociedade para a vida comum, apenas para citar algumas questões que precisam da atenção da educação, pois esbarram nos valores de justiça, igualdade, imparcialidade, cidadania e liberdade (Marcondes, 2010). O recorte é necessário devido à amplitude do tema.

Na obra Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos à Wittgenstein, Marcondes (2010, p. 205) afirma, “Rousseau nos ensina que ‘O homem nasce bom, a sociedade o corrompe’, no livro I, cap. I, da obra Do contrato social”. Eis uma constatação que encaminha as reflexões para os interesses econômicos, as divergências culturais e os embates ideológicos. Na Filosofia da Educação, os diálogos sobre o conceito de Política compreendem a necessidade de um contexto histórico, no qual os seres humanos precisam estabelecer em relações como as questões de produção e a própria existência humana.

A educação não é um processo neutro, está comprometida e necessita das bases político-econômicas, isso pode ser visto ao se analisar os fins da educação que se adaptam, quando possível, à realidade. Por exemplo, na Grécia antiga, em Atenas se queria formar o cidadão e em Esparta, o guerreiro. No Medievo, a educação era para formar monges e padres e ensinar aos príncipes e fidalgos. No Renascimento, preocupavam-se com a preparação para a artífice. Na modernidade, racionalismo e empirismo lutavam por espaço na formação humana. Na contemporaneidade, para citar algumas tendências, preocupavam-se no ensino técnico, especialidades e tecnologia. Assim, a educação não deve ser considerada como simples transmissora de valores, mas também é um instrumento transformador para a preparação do ser humano, trabalhando a sua capacidade de crítica, de reconhecimento dos valores herdados e novos, para a atuação na vida e na sociedade.

Ao analisar o posicionamento de Marx (2004), na obra Manuscritos econômico-filosóficos, por exemplo, a educação tinha como fundamento relacionado às questões da desigualdade social, a ideologia e o poder econômico, que ainda existem na sociedade atual. A teoria do Materialismo Histórico e a constatação da luta de classes são conteúdos que interessam na educabilidade do ser humano. De acordo com Marx (2004), as condições materiais e econômicas de uma sociedade (Infraestrutura) determinam sua organização social, política e ideologia (Superestrutura). O ser humano vive em sociedade e a história é marcada pela luta entre as classes, onde cada etapa do desenvolvimento educacional e social é moldada por conflitos entre dominantes e explorados. Os posicionamentos do filósofo Marx apresentam outras vozes, principalmente, quando textualmente refuta o pensamento de Hegel, que em princípio o inspirou e serviu para a crítica filosófica e criação de sua própria teoria. Nesse discurso marxista ecoou o que Hegel propôs, a saber, a ideia de dialética.

Na democracia capitalista, a condição de alienação do trabalhador ocorre quando se separa o ser humano do seu processo produtivo e do produto feito, que é fruto do seu trabalho. A relação entre os trabalhadores distancia a própria humanidade, “pois o trabalho alienado transforma os trabalhadores em meros instrumentos de produção” (Marx, 2004, 19), continuando as reflexões, em O Capital, o filósofo explica que “O fetichismo da mercadoria torna aparente as relações sociais” (Marx, 2013, p. 71). A mercadoria que o ser humano produz esconde a relação de exploração, inerentes ao trabalhador e ao capital.

Marx (2013) critica as formas de democracia liberal demonstrando que o Estado capitalista não é neutro. Ou seja, a classe dominante assume a posição de poder para controlar as classes dominadas por meio do capital, que é um instrumento econômico. Nesse sentido, a transformação radical da sociedade é necessária para superar o capitalismo. O filósofo entende que cabe ao proletariado a tomada de consciência de sua situação de explorado. Ao grupo de proletários é dada a possibilidade de organizar e realizar uma revolução que supere o sistema capitalista para a tomada do poder. Ao conquistar o poder, o grupo deve impor a ditadura do proletariado (Marx, 2004), como uma fase de transição para a reorganização social rumo à sociedade comunista, sem classes e sem Estado.

Como a ideologia (Marx; Engels, 2007) é um sistema de crenças e de valores, que legitima e perpetua o poder da classe dominante, então a proposta dos filósofos está perpassada pelo entendimento como os discursos e as instituições, a exemplo da educação, reforçando o Status quo e desmobilizando a classe trabalhadora. As ideias de alienação pela educação e o fetichismo da mercadoria afetam diretamente o ser humano nas relações de trabalho e consumo. O trabalhador deixa e submete a sua condição precária, aceitando realizar o trabalho por salário menor, abaixo do esperado.

Marx (2013) critica a democracia liberal por ser baseada no consumo. Essa base beneficia a classe dominante e explora o trabalhador, que fica cada vez mais pobre e com menos condições de vida digna. A sociedade atual vivencia uma ideologia a mais, que é a imposição da era da comunicação, os meios digitais favorecem uma cultura de massa que não abre espaço para a reflexão-ação-reflexão devido à celeridade da veiculação de dados. Na educação, o mundo virtual se faz presente e não é favorável ao exercício filosófico por conta da agilidade e falta de liberdade de atuação crítica e efetiva objetivando transformar a realidade do ser humano.

O papel da educação quando das discussões sobre a teoria marxista influencia o processo formativo. O neomarxismo e a crítica ao capitalismo global surgiram no mundo contemporâneo, a partir de diálogos filosóficos refletindo as questões sociais, comprovando a atualidade do pensamento de Marx (2004, 2013), teoria-base para analisar ético-político frente às desigualdades econômico-sociais e às várias formas de alienação do ser humano, ainda presente na sociedade atual. Para os filósofos neomarxistas Herbet Marcuse e Antônio Neri, que expandiram as ideias de Marx ao desenvolverem temas complexos aplicando a teoria marxista, como a ética e a política o mundo e o sujeito voltam-se para o consumismo, a exploração digital na contemporaneidade embevece o sujeito, sem que ele mesmo perceba. Nessa expansão, a polifonia de vozes é evidente, haja vista a continuidade do pensamento e ampliação das ideias.

Ao final das Teses contra Feuerbach, 1845, Marx (2000) escreveu sua célebre frase: os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diferentes maneiras, mas o importante é transformá-lo. Os problemas ético-políticos formam o conjunto de conteúdos que favoreceram a transformação do mundo. No campo da educação, portanto, para alcançar a transformação é preciso de democracia. Com a desigualdade estrutural do ser humano, carecendo da educabilidade para superar esses e outros desafios, a Filosofia é imprescindível.

Na contemporaneidade é preciso analisar que mudanças surgem no processo formativo. Na educação é preciso compreendê-las para além da base ética e das questões políticas. No sentido econômico, se o ensino se baseia em técnicas e formação de individualidades, o conhecimento se compreende na dimensão de valores econômicos e ao utilitarismo, a partir da utilidade como meios, e se afasta do papel formativo e crítico da educação.

O estudo sobre problemas ético-políticos na educação é salutar para o avanço de que a educação se promova não só como útil do ponto de vista econômico, mas como útil social e não utilitária, enquanto formar para humanizar. O distanciamento dessa questão encontra-se na ausência da dimensão sociocultural dessas abordagens, enquanto ancoradas numa filosofia de cunho pós-moderno, inclui na educação a abertura para a pluralidade, diversidade e diferença.

Na perspectiva da Teoria Crítica explicada por Severino (2006, p. 632) nos ensina que “o papel da educação é o de assegurar a sobrevivência da formação cultural numa sociedade que a privou de suas bases”. Da racionalidade técnica à razão emancipatória em que não se ressalte a totalidade como identidade, a educação utilitária e não seja situada em redutos de pensamentos eurocêntricos e antropocêntricos.

É que a industrialização cultural comprometeu essa formação cultural. Para Severino (2006, p. 632), “cabe aos processos educativos investir na transformação da razão instrumental em razão emancipatória”. A fecundidade formativa vai garantir, pela educação, constituir-se como exercício da autorreflexão crítica do sujeito. Ao analisar todo o legado de Severino (2006), constamos a polifonia de vozes deste pensador brasileiro em relação aos pensamentos filosóficos, profícua é a sua contribuição, que além de apresentar, de modo polifônico, os pensamentos daqueles que o antecederam, fez a sua contribuição. O texto A contribuição da Filosofia para a educação, Severino (1990), considera que as atividades teóricas que realmente envolvem historicamente incorporam o posicionamento de cada sujeito.

Na esteira da polifonia de vozes do pensamento de Severino, nossa resposta segue na direção promoção da formação pela educação que humaniza o sujeito humano nos processos de interatividade. Severino (1990) aponta para a contribuição da história e da filosofia que envolvem e exigem o posicionamento de cada um, acrescentamos o aspecto afetivo na relação entre os sujeitos humanos. Na escola, por exemplo, como educação formal, há um público heterogêneo e distinto, sendo cada pessoa singular parte de um todo. A afetividade no processo de ensino e de aprendizagem, duas faces da mesma moeda, contribui para a inclusão na contemporaneidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DESTA REFLEXÃO

As palavras finais desta pesquisa não são conclusivas devido à profundidade e amplitude da temática. Não obstante, ao perguntar até que ponto a educação que se promova como ético-política pode formar para humanizar. Entendemos que as reflexões de Severino (1990, 2006) servem de apoio para essa investigação. A partir do aporte teórico-metodológico bakhtiniano, especificamente do conceito de polifonia, observamos que ao longo dos anos o Ocidente assistiu ao desenvolvimento da Filosofia e, aqui, apresentamos as vozes que ecoaram nos discursos filosóficos citados.

Sendo a polifonia um conceito, que significa as mais diversas vozes juntas e, embora distintas, com um resultado uníssono, os resultados encontrados para a pergunta problema, mesmo que inacabados, apontam para a diversidade de posicionamentos filosóficos que foram feitos em tempos históricos distintos, observando as questões de cada época. Desse modo, a contemporaneidade conta com contribuições pontuais que favorecem as reflexões, tal como a do filósofo Severino (2006), que inspirou essa pesquisa.

O ponto de partida da educabilidade filosófica encaminhou as reflexões para incluir a afetividade nesse processo educativo do ensino e da aprendizagem na escola. Nas reflexões sobre O humano em processo de humanização, a questão o que o humano é norteou o debate. Mesmo que não haja definição acabada para se compreender o todo, é certo que o humano está sempre em processo, inacabado e em formação. Como aponta Freire (1996), o caráter inacabado e inconcluso é repleto de esperança, que não é suficiente, mas necessária para a luta diária da vida.

Quando observamos o ser humano na Educação em espaços formativos pela reflexão filosófica, compreendemos que a Filosofia é por excelência o âmbito do pensar a realidade e do questionar o que está posto pelo sistema em que vivemos. A formação pela reflexão favorece a criatividade e a capacidade de se ter novas ideias e propostas para solucionar os problemas do cotidiano.

Problemas como a guerra e a polaridade do posicionamento, entre outros, foram apontados quando discutimos sobre Problemas ético-políticos na educação e na democracia social contemporânea. O que está no centro desse debate é o posicionamento do ser humano enquanto ser político, social e cultural, que deve buscar ser ético na vida em sociedade, no caso, na democracia social em que vivemos. As questões da atualidade tornam ainda mais complexas pelo fato de que estamos submersos nos problemas que analisamos e, por conseguinte, nem sempre conseguimos nos distanciar o suficiente para refletir sobre eles.

Com efeito, há possibilidades de humanização pela educação desde que sejam feitas das palavras de Severino (1990), quando mostrou a contribuição da filosofia para a educação e acenou para a práxis, o sujeito da educação com o seu agir, observando o fim e os valores, prestigiando a consciência filosófica. Acrescentamos a afetividade, diversidade no processo formativo escolar, na dimensão sociocultural, especificamente. Compreendemos que o dia a dia, na dinâmica do ensino e da aprendizagem é desafiador por demais para que se ignorem as emoções, sentimentos e diferenças dos sujeitos humanos envolvidos nesse processo.

Diante do exposto, a pesquisa revela a necessidade de aprofundamentos sobre o as possibilidades de afetividade e diversidade para a humanização pela educação. Na história da filosofia e nas temáticas filosóficas, certamente, o desenvolvimento do assunto poderá revelar as vozes que já dialogaram sobre educação, afeto, diversidade e humanização. Resta, portanto, o empenho para o avanço dessa proposta embrionária, em possibilidades de análises polifônicas.

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Notas

1 Conferência ministrada em junho de 2024, no evento de lançamento do livro Direito, Educação e Princípios, do Grupo de Pesquisa, Linguagem, Educação, Filosofia e Direito (GPLEFD), do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ), uma ação conjunta com o Grupo de Estudos e Pesquisa em Filosofia e Psicologia da Educação (ÁGORA), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
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