Monumentalidade, conectividade e fluxo: O programa arquitetônico dos palácios neoassírios
Monumentality, connectivity and flow: The architectural program of neo-Assyrian palaces
Monumentalidade, conectividade e fluxo: O programa arquitetônico dos palácios neoassírios
Research, Society and Development, vol. 3, núm. 2, pp. 125-141, 2016
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 15 Outubro 2016
Aprovação: 04 Dezembro 2016
Resumo: No início do Iº Milênio a.C., um processo de reafirmação política e territorial culminou com a formação do Império Neoassírio. A construção de palácios monumentais foi uma das expressões físicas mais significativas de seu poder. Diante disso, pretendemos analisar a forma que tomou o espaço arquitetônico de palácios imperiais neoassírios a partir da relação entre monumentalidade, conectividade e fluxo. Para que possamos pensar a interação das pessoas com os ambientes, analisaremos plantas arquitetônicas dos palácios, mais precisamente da Sala do Trono. No interior dela, o desenvolvimento do programa decorativo tornou-se elemento estruturante da constituição do espaço arquitetônico. Assim, os relevos neoassírios são portadores de significados, que expressam imagens ideais acerca da sociedade, da realeza, do Império e do Cosmos Neoassírio. Logo, os palácios neoassírios expressam um arranjo de significados, interconectando múltiplas concepções, incorporando comportamentos sociais e práticas culturais..
Palavras-chave: Espaço arquitetônico, Palácios neoassírios, Relevos neoassírios.
Abstract: At the beginning of the 1st millennium BC, a process of political and territorial reaffirmation culminated in the formation of the Neo-Assyrian Empire. The construction of monumental palaces was one of the most significant physical expressions of his power. Thereby, we intend to analyze the form that took the architectural space of the neo-assyrian imperial palaces from the relation between monumentality, connectivity and flow. So that we can think the interaction of people with the environments, we’ll analyze architectural plans of the palaces, more precisely of the Throne Room. Within it, the development of the decorative program became a structuring element of the constitution of the architectural space. Thus, the Neo-Assyrian reliefs are bearers of meanings, which express ideal images of society, of royalty, of the Empire, and of the Neo-Assyrian Cosmos. Soon, neo-assyrian palaces express an arrangement of meanings, interconnecting multiple conceptions, incorporating social behaviors and cultural practices.
Keywords: Architectural space, Neo-Assyrian palaces, Neo-Assyrian reliefs.
1. Do fenômeno urbano à construção dos Palácios Imperiais
A história assíria esteve relacionada à invasão e conquista da Mesopotâmia Setentrional por tribos amoritas que fundaram o Período Antigo Assírio (c. 2000–1350 a.C.), no qual a Assíria desfrutou de uma posição política proeminente na região, embora tenha sido posteriormente submetida a sucessivos laços de dependência estrangeira. Com o avanço hitita para além da Anatólia, a Assíria recobrou a independência, estabelecendo o Período Médio Assírio (c. 1350–935 a.C.), marcado por uma rápida expansão territorial, assegurada pela crescente força política, econômica e militar. A política imperialista do século XIV a.C. serviu de base para, a partir do século XII a.C., a Assíria ter retomado a política de conquista territorial que acarretou o estabelecimento do Período Neoassírio (934–605 a.C.). Nesse processo de reafirmação territorial, as necessárias campanhas militares asseguraram o domínio sob os territórios conquistados e a manutenção da abertura das rotas de comércio, o que garantiu o enriquecimento do Império, por meio do qual foi possível o financiamento de grandes obras arquitetônicas e o desenvolvimento urbano das cidades (TAKLA, 2008, p. 60-64).
Para tanto, é imprescindível considerar que o espaço é uma construção dinâmica, que se efetiva como movimento, como transformação, como ação. E uma vez que as ações humanas participam de uma dinâmica espacial que se inscreve no tempo e, também, de um fluxo temporal que se registra no espaço material, são as relações humanas que fazem do espaço um produto de construção histórica.
Sendo o homem o ponto focal de seu próprio mundo, a atividade humana fez da construção do espaço urbano a marca de maior circunscrição da humana. Da junção de um corpo populacional relativamente denso e aglomerado formou-se um território delimitado e clarividente, marcado pela ideia de centralidade e sacralidade (TAKLA, 2008, p. 111): a cidade.
O desenvolvimento inicial das cidades mesopotâmicas por volta do IV milênio a.C. configurou uma nova ordem social para o mundo antigo, fazendo coexistir numerosos grupos e interesses dentro das mesmas amuradas urbanas (SMITH, 2003, p. 01-02). Nisso, uma das razões de ser das cidades foi ter funcionado como uma noção de locus de busca/conquista de identidade (SMITH, 2003, p. 11-15), pois se convertiam em unidades político-administrativas que se configuravam no território, passando a estabelecer significância por meio das relações humanas travadas no interior dele.
Vale ressaltar que os povos antigos consideravam a cidade como portadora de dimensões sagradas, como centro cósmico do mundo que habitavam. Para o caso mesopotâmico, como afirma Takla (2008, p. 111), as cidades eram consideradas o lugar de moradia da divindade tutelar da cidade que, outrora, teriam sido originalmente construídas pelos próprios deuses para servirem como suas moradas. Na Mesopotâmia, o interrelacionamento harmônico entre cidade e deus-tutelar garantia a prosperidade e a felicidade dos habitantes.
Diante da interpenetração das esferas cósmica/divina e terrena/humana, a atuação do rei desempenhou gradativamente um papel de maior preponderância: no cumprimento de seu exercício, o rei era justificado e auxiliado pelos desígnios dos deuses, garantindo a prosperidade de seus domínios, devendo atuar em consonância com os preceitos divinos.
O rei converte-se em figura de importância substancial nas cidades. E as cidades mesopotâmicas, por sua vez, apresentavam como característica funcional primordial a mediação de diversas dimensões permanentes e sazonais: econômica, ideológica, militar e política (WHEATLEY, 1971, p. 371-409 apudVAN DE MIEROOP, 2004, p. 11). O rei, inclusive, deveria estar ciente desses aspectos quando empreendia a construção/reconstrução de uma cidade e/ou o governo delas. O papel do rei enquanto grande construtor/reconstrutor de cidades e palácios manifestava-se como um elemento de grande simbolização ao reforço da imagem pessoal da realeza.
Assim, a transferência da capital assíria de Assur[1] para Calá[2] pode ser compreendida como uma expressão de identidade, um mecanismo para demonstrar a habilidade criativa do rei, que pretendeu fazer preservar seu nome pela eternidade (McCORMICK, 2002, p. 53-54). E mais: a construção de palácios imperiais fornecia a possibilidade de leitura de uma dinâmica de promoção de status no interior de uma tradição de visibilidade que teria funcionado como indicativo de atitudes culturais diante da autoridade e da pessoa mesma do soberano (WINTER, 1993, p. 31-32). Inclusive, o surgimento dos palácios coincide com o surgimento de evidências textuais que denotam o emprego de nomenclaturas de títulos de governança, o que conota os espaços arquitetônicos palacianos com dimensões de exercício de poder, em virtude de a estrutura política ter se construído assentada em um ideal de autoridade que deveria ser rapidamente ser reconhecido (WINTER, 1993, p. 28-29).
O surgimento dos palácios mesopotâmicos por volta do Primeiro Período Dinástico (c. 2600-2430) significou uma expressão visual e urbanística da formação permanente do poder político que se fortalecia nos centros urbanos (POLLOCK, 2008, p. 178; POZZER, 2003, p. 62-63; POSTGATE, 2004, p. 137). A construção de estruturas arquitetônicas em escala monumental implicava também em um demonstrativo de habilidade de planejamento em grande escala, alto grau de habilidades em engenharia, recrutamento e direcionamento de forças de trabalho substanciais, e o desenvolvimento de um alto grau de padrão artístico, o que reforçava a imagem do soberano que gerenciava a atividade de construção (TAKLA, 2008, p. 126). Assim, a construção de edifícios de tamanha significância pode ser compreendida como uma tentativa de estabelecimento e manutenção de uma ordem pretendida, alicerçando a construção de uma identidade nas bases da própria estrutura da arquitetura monumental.
O palácio pode, com isso, ser entendido como uma manifestação física do poder do rei e de sua habilidade tão impressionante de construir, de gerenciar recursos, de impressionar e de estabelecer uma sede apropriada para seu governo (WINTER, 1993, p. 38). Os palácios mesopotâmicos, portanto, funcionavam como instrumentos retóricos de propaganda real, identificando-o às principais características do rei e de sua administração, procurando associá-lo a seu reino (RUSSELL, 1997; WINTER, 1995, p. 359-381; LIVERANI, 1995, p. 193-202; WINTER, 1993, p. 27; MARKUS, 1987; HARPER & PITTMAN, 1983, p. 15-31; WINTER, 1981, p. 2-38 apud McCORMICK, Op. Cit., p. 22, 66-67). Depreende-se daí que a construção de monumentos foi uma das estratégias comumente utilizadas pelos soberanos assírios para tentar estabelecer status, hierarquia, prestígio e poder.
Mesmo diante de tamanha significância que esses monumentos assírios assumem, ainda são largamente escassos os trabalhos em língua portuguesa que se pautem em analisá-los. Em virtude dessa lacuna, nos propomos a analisar as plantas arquitetônicas dos palácios imperiais, nos detendo mais precisamente à Sala do Trono. Com a demarcação das alas e cômodos que compuseram os palácios, pretendemos identificar como se deram as interações das pessoas com os ambientes e com o programa escultórico que decorava suas paredes. Os relevos neoassírios, entendidos como elementos estruturantes da constituição do espaço arquitetônico, serão fundamentais à identificação dos significados sociais e culturais manifestos pelo programa arquitetônico neoassírio.
Diante disso, nos é caro identificar a forma que tomou o espaço arquitetônico de palácios imperiais neoassírios a partir da análise da relação entre monumentalidade, conectividade e fluxo que os ambientes e os homens travaram entre si. Para tanto, mapearemos as formas como os significados são edificados no interior do espaço arquitetônico neoassírio, ressaltando a relação de estímulo e resposta que é estabelecida a partir da atuação de elementos comunicativos em estruturas não-verbais. Em seguida, demarcaremos como se deu o desenvolvimento do programa arquitetônico neoassírio, suas características principais e a organicidade interna que assumiu. No interior do programa arquitetônico, destacaremos como o ambiente arquitetônico das Salas do Trono foram capazes de corporificar metáforas imperiais neoassírias em suportes escultóricos e decorativos. Por fim, apresentaremos como os relevos neoassírios atuaram como elementos estruturantes do espaço arquitetônico neoassírio.
2. A edificação de significados no interior do espaço arquitetônico neoassírio
A compreensão da estrutura arquitetônica dos palácios imperiais neoassírios perpassa pela necessidade de analisar a relação que se estabelece entre os elementos físicos da construção do ambiente e as atividades sociais humanas que ocorrem no interior deles. Assim, segundo afirma Rapoport (1990), o comportamento social que ocorre no interior de um ambiente particular resulta da relação entre o que as pessoas percebem nesse ambiente e as associações que tais pessoas fazem com essa percepção, pois os ambientes manifestam estímulos de comportamento social, e as ações individuais funcionam como respostas aos estímulos.
Os estímulos que participam da construção dos ambientes estão relacionados diretamente à disposição dos elementos fixos, dos elementos semifixos e dos elementos não-fixos, por meio dos quais os significados são suscitados. Dessa forma, Rapoport (1990, p. 88-96) define que: os elementos fixos não mudam, ou mudam rara e lentamente, tais como as paredes, o teto e o chão; os elementos semifixos podem ser rápida e facilmente alterados, apresentam mudanças e inovações em um dado período de tempo, no que se enquadra a mobília, os elementos decorativos e jardins; e, por fim, os elementos não-fixos podem ser personificados pelos ocupantes humanos, suas relações espaciais, suas posições e posturas corporais, expressões faciais e comportamentos não-verbais.
Diante disso, o caso arquitetural neoassírio pode ser analisado se associarmos os elementos fixos ao estilo de arranjo espacial das unidades arquitetônicas dos palácios; os elementos semifixos à altura, à redundância e ao uso de cores, que teriam funcionado como meio de estabelecer status e poder; e os elementos não-fixos aos comportamentos sociais que ocorriam no interior dos ambientes arquitetônicos palacianos. Nisso, os relevos parietais teriam funcionado em dois níveis: primeiramente, como parte dos elementos semifixos da arquitetura dos palácios, devido a sua função como elemento decorativo e evidência do desenvolvimento artístico dos programas escultóricos neoassírios; e, por fim, também atuaram como evidência dos elementos não-fixos da construção do ambiente arquitetônico de palácios neoassírios, pois apresentam imagens de posturas, movimentos e um protocolo geral das atividades coordenadas pelo rei ou na presença dele (McCORMICK, 2002, p. 17-19).
Nesses termos, Rapoport (1990, p. 178-179) demarca que o ambiente proporciona uma série de relações entre coisas e coisas; coisas e pessoas; e, pessoas e pessoas. Essas relações são ordenadas, possuem padrões e estruturas, além de serem guiadas por esquemas que atuam como modelos, organizando o modo como as pessoas vivem e se comportam. Logo, a organização do espaço – por diferentes propostas e de acordo com diferentes regras – reflete as atividades, valores e interesses individuais ou dos grupos que o ocupam, de modo que a forma como o espaço é ordenado reflete imagens ideais acerca deles, representando a congruência entre espaço físico e social.
Uma vez que a relação com o ambiente não é fixa, o tipo de relacionamento interno com os ambientes modifica o espaço. Se os usos do ambiente não são fixos, os significados que advém da relação homem-ambiente também não são, já que os significados podem ser distintos para sujeitos de grupos distintos. Cabe ressaltar que tais significados suscitados moldam ações, o que dota os ambientes arquitetônicos de agenciamento. E é por meio da ação que se estabelece a condição do sujeito. Este que, por sua vez, é definido na prática da ação. Logo, o significado está contido na relação que os homens estabelecem com os ambientes que os circundam, com o mundo que ocupam, pois uma das características cognitivas humanas é a de se relacionarem com o mundo atribuindo-lhes significados, classificando-o a partir de taxonomias cognitivas. Esse processo acaba por ser fundamental na percepção da construção do espaço.
Desse modo, os palácios imperiais neoassírios devem ser entendidos não apenas como um conjunto de materiais raros reunidos que tomam uma forma física no espaço; não são apenas paredes, portas, pisos e telhados em um traçado arquitetural definido; não são apenas materiais, físicos, espaciais. Esses palácios são portadores de dimensões imateriais; são produtos de recortes temporais bem delimitados; refletem um modo de composição arquitetural rico e bem definido tecnicamente; é, em suma, parte integrante de um conjunto de relações que se estabelecem entre a materialidade física do espaço e a materialidade visual das representações vinculadas a ele, o que acaba por construir relações que permitem dotá-lo de significados precisos a serem decodificados do ambiente, em situação.
A construção palaciana também é portadora de frações de memória inseridas na paisagem, o que revelava um modo intencional de fazer lembrar, um esforço dirigido de compor mecanismos que ativassem a memória coletiva para uma mensagem pretendida e manifesta na estrutura material durante o processo de composição de sentido. Estes monumentos teriam se constituído como centros de memória e de significado, que assumem sentido mediante a relação homem-ambiente. Por meio de uma linguagem que lhe é própria, a arquitetura identifica relações de hierarquia – seja ela entre os homens que participam da composição dos ambientes, seja entre as unidades espaciais que estruturam os ambientes –, e pode apresentar declarações ideológicas acerca das relações políticas e sociais. Uma vez que a construção de monumentos demanda o controle de grande mão de obra e da disponibilidade de recursos e material, a monumentalidade dos palácios assírios atuou como um discurso de força e grandeza, em reforço à figura do soberano que coordenava as atividades de construção e governava um Império de recursos inesgotáveis.
A arquitetura acaba por ser uma colcha de significados costurados pelo substrato imaginário dos homens em interação com o ambiente, uma trama de vivências que se inscreve no plano físico e que torna praticamente impossível o “esvaziamento” de algum dos elementos que a constitui. O homem, por sua simples presença, acaba por impor um esquema no espaço, organizando-o e conformando-o às suas necessidades e/ou interesses.
A arquitetura é, em suma, uma forma socialmente elaborada de organizar o espaço, tornando conhecidos quaisquer conceitos espaciais que fazem das estruturas arquiteturais um constructo intelectual, no qual os elementos da produção do espaço são respostas afetivas e cognitivas de necessidades humanas fundamentais, ao ocupar e reagir aos ambientes. O espaço da arquitetura é, portanto, manifestação de um mundo ordenado, um cosmos fundado ontologicamente no mundo, uma irrupção manifesta no universo social, fazendo coexistir dimensões míticas e sociais, construindo manifestações de uma realidade pretendida. Particularmente, a organização do espaço arquitetônico assírio repetia a obra exemplar dos deuses: um empreendimento de ordem.
3. O desenvolvimento do programa arquitetônico de Palácios Neoassírios
Diante do conjunto bem delimitado de funções que os palácios desempenharam[3], é possível afirmar que a forma física que assumiram teria servido para a elucidação de uma mensagem singular do rei endereçada a seus subordinados e aos dignitários estrangeiros: o soberano mantém o controle de todas as periferias do reino, além de embelezar e desenvolver o centro do Império para o prazer e admiração de todos (RUSSELL, 1991, p. 260-262 apudMcCORMICK, 2002, p. 22-23). Winter (1993, p. 39) reforça que tais posicionamentos resultam da necessidade de estabelecimento de autoridade e domínio, motivo pelo qual o palácio deve ser compreendido como o locus de governança, pois o palácio é tanto físico como uma construção mental, ambos construídos e interpretados: concomitantemente, o palácio é a sede da realeza e converte-se na expressão mais concreta da própria realeza.

Mesmo diante do escasso o cabedal de informações acerca dos programas arquitetônicos dos reis assírios, é possível definir os palácios principais assírios como um conjunto de cômodos organizados de modo a externar a função arquitetônica de demarcar a particularidade de um palácio real, com focalização direta à administração real (KERTAI, 2011, p. 83). De forma mais precisa, o Palácio Noroeste de Assurnasirpal II[4] pode ser definido como uma combinação de suítes independentes que formaram uma organização em forma linear, contendo uma entrada principal localizada na parte norte do palácio, e constituída por grandes apartamentos de estado, com destaque para o conjunto que reunia a Sala do Trono (KERTAI, 2013b, p. 701-702).
O Palácio Noroeste de Assurnasirpal II era dividido em três zonas principais: Ala dos Apartamentos de Estado, um complexo de cômodos de caráter administrativo, incluindo a Sala do Trono; o Pátio Central, que conectava seis suítes monumentais do palácio, agrupadas por trás da Sala do Trono; e, por fim, ao sul do Pátio Central é possível identificar a área de uso residencial do rei, o que incluía a área de serviço (KERTAI, 2012, p. 340). A Ala dos Apartamentos de Estado (ver Imagem 1) era um conjunto bem delimitado de suítes autônomas, sendo espaços de caráter diplomáticos interligados por corredores que articulavam o acesso ao interior do palácio (KERTAI, 2011, p. 75).
Considerando a existência de uma dualidade básica entre o bābānu e o bētānu no interior dos palácios, Kertai (2014, p. 196; 2013a, p. 14) sugere que pensar a organização arquitetônica dos palácios assírios a partir das dimensões de público e privado é um equívoco historiográfico, pois os palácios não foram organizados principalmente para criar privacidade, mas para organizar o acesso.
O acesso deve ser entendido como sendo mais fluído e complexo, existindo em muitos níveis, de modo temporal e situacional. Nisso, as partes internas do palácio fornecem algumas das melhores oportunidades para se aproximar do rei e de acessar os diversos elementos sociais movimentados pelas relações ambientais vivenciadas no interior da comunidade palaciana (KERTAI, 2014, p. 196).
Além disso, os cômodos palacianos neoassírios possuíam a capacidade de serem autossuficientes; fechados, porém sem deixar de possibilitar a circulação; independentemente acessível a partir de pátios abertos de recepção ou, ocasionalmente, um corredor, sem a necessidade de passar por outra suíte, o que os integrava a uma única estrutura palaciana. Ou seja, manifestaram um processo de integração claro a um programa arquitetônico que, no caso do Palácio Noroeste de Assurnasirpal II, se caracterizou pela continuidade (KERTAI, 2011, p. 76-78). Assim, a organização espacial neoassíria pode ser caracterizada pela conexão e pelo fluxo – realizado de forma direta e concentrada através do palácio –, que eram dependentes de corredores e pátios, o que facilitou o controle e possibilitou às áreas serem fechadas, se assim o desejassem. Consequentemente, a organização espacial do palácio por meio da concentração de rotas de acesso por corredores e pátios ocasionou a ausência de vias alternativas no interior do palácio (KERTAI, 2012, p. 340).
Analisando a organização do espaço dos palácios neoassírios podemos constatar que tanto os pátios quanto os corredores foram largamente decorados por relevos fixados às paredes, representando cenas de caráter militar e de caça, além de figuras de cunho apotropaico. Além disso, o programa decorativo foi desenvolvido com a pretensão de ordenar o fluxo interno, pois as cenas narrativas acompanharam e direcionaram as pessoas, guiaram o movimento, controlaram o acesso, comunicaram significados aos visitantes, e forneceram estímulos ambientais que nos permite conhecer acerca do uso e protocolo de controle dos espaços arquitetônicos de palácios imperiais neoassírios (KERTAI, 2013b, p. 704; KERTAI, 2012, p. 341-346).
O fluxo no interior da estrutura arquitetural insere o homem no interior do ambiente, dota-o de movimento e faz emanar uma comunicação entre os diversos estímulos ambientais e as respostas afetivas pretensamente esperadas. É daí que surgem os significados, em situação.
4. O ambiente arquitetônico das Salas do Trono e as metáforas imperiais neoassírias
Mesmo organizado para permitir o acesso, o interior dos palácios assírios foi provavelmente limitado à uma audiência precisa, possivelmente parte da elite política e religiosa (POLLOCK, 2008, p. 178). De tal modo, a permissão de acesso ao interior do palácio teria refletido a proporcional importância que os visitantes desempenhavam perante os olhos do soberano assírio (POSTGATE, 1994, p. 144).
E, inclusive, o programa decorativo interno dos palácios reflete uma forma de comunicação entre a elite, o qual reforçava uma autoimagem da elite mesma: a repetição de expressões de grandiosidade e poder teriam ajudado a criar um senso de unidade entre a elite política e a elite religiosa, exaltando a hierarquia e o status que cada uma desempenhava. Isso demonstra a significativa capacidade técnica que os assírios possuíam de criar espaços capazes de comunicar significados precisos à audiência diversa que percorria os cômodos palacianos: no interior deles, os sujeitos deveriam ter uma ideia minimamente definida acerca do funcionamento dos ambientes e dos comportamentos esperados deles no interior de tamanha estrutura arquitetônica (POLLOCK, 2008, p. 178-194).
No interior do espaço arquitetônico dos palácios imperiais neoassírios, o cômodo que possuía a maior força impressiva era a Sala do Trono[5]. A Sala do Trono (ver Imagem 2) conectava e restringia o acesso aos pátios relativamente abertos, possuía decoração em suas dimensões materiais e, por fim, atuava como principal suíte de recepção de residências privadas (TURNER, 1970, p.178-179). Este cômodo pode ser genericamente definido como um espaço da arquitetura delimitado materialmente por limites; fechado, mas acessível; capaz de conter certo número de pessoas, com uma eventual focalização sobre um ponto particular, sobretudo onde estava localizado o trono, o móvel que define a especificidade da Sala (MARGUERON, 2007, p. 70-73).

Estando no centro do palácio, este cômodo comportava o Trono que, por extensão, assumia uma dimensão metaforizada de coração do palácio. O palácio, por sua vez, metaforizava o coração do Estado assírio (WINTER, 1993, p. 36). Do mesmo modo, a Sala do Trono representava não só o rei, mas o reino como um todo; e, por esse motivo, exercia a função de proporcionar um ambiente adequado para o rei receber visitantes e/ou gerenciar os assuntos competentes à realeza, estejam eles conectados aos assuntos de Estado ou a seus interesses privados (TURNER, 1970, p.183).
A focalização do trono – e da figura do rei que o ocupava eventualmente – é de fundamental importância para compreender a significância assumida por esse cômodo: é o trono que definiu a especificidade dessa sala e, consequentemente, que suscitou representações ideais acerca da realeza assíria. O trono é um signo da majestade, personifica a realeza, manifesta a hierarquia que deve ser respeitada, e constituiu-se como elemento honorífico no interior da estrutura arquitetônica (MARGUERON, 2007, p. 70-72). Desse modo, somos levados a considerar que os significados contidos na arquitetura são agenciados via mediação simbólica, uma vez que as imagens e os esquemas escultóricos manifestaram-se por meio de tecnologia simbólica no interior da composição do ambiente, comunicando significados, manifestando funcionalidade e exercendo estímulos ambientais diante do homem que o ocupava (RAPOPORT, 1990).
Por conta disso, somos levados a considerar que a composição arquitetural neoassíria reforçava a instituição da realeza e a figura do soberano por meio de mecanismos simbólicos, construindo dimensões que estão em processo de interação, interpenetrando-se. O soberano entronado na Sala do Trono manifesta a soberania do Império e a consagração divina de Assur à realeza, capaz de vencer as guerras nos campos de batalha terreno e cósmico, garantindo a manutenção da ordem e do equilíbrio cósmico neoassírio, que não deveria ser perturbado.
Nesse sentido, o espaço assume dimensões de suporte mnemônico, impregnado com a presença do ausente, e sendo sentido e vivenciado como uma porção de sagrado contido na arquitetura. Tendo em vista que o palácio funcionou como um microcosmo ordenado e equilibrado mediante uma quantidade específica de ações empreendidas – pois a ação do homem afeta diretamente o cosmos –, Postgate (1994, p. 144) aponta que a Sala do Trono deve ser entendida como a proclamação dos luxuriosos estandartes de Estado por meio de uma mensagem iconográfica convencionada que apresentava a legitimação religiosa e, mediante as cenas que retrataram suas proezas militares, a justificação política do soberano assírio, devendo ser facilmente compreendida para a audiência que acessasse o cômodo.
5. Os relevos neoassírios como elementos estruturantes do espaço arquitetônico
Os relevos parietais vinculados às estruturas arquitetônicas dos palácios neoassírios são portadoras de ação, se movimentam, atuam como propriedades de estímulo do ambiente, fazendo com que, nas palavras de Rapoport (1990, p. 14-19), as pessoas reagissem aos ambientes através de respostas afetivas globais baseadas no sentido que os ambientes (e aspectos particulares deles, como os próprios relevos) tinham para as pessoas. Os significados agenciados com esses ambientes estiveram expressos fisicamente em esquemas e domínios construídos em tantos outros aspectos da cultura material.
Os relevos neoassírios são, portanto, evidências das atividades sociais que ocorriam no interior do ambiente arquitetônico palaciano, e serviram como testemunho da significância que os palácios possuíam na sociedade assíria. E mais precisamente, a interação entre os relevos e o arranjo espacial neoassírio criou um domínio em que o processo de construção foi estabelecido na pedra e no espaço (McCORMICK, 2002, p. 20-72), sobretudo no interior das Salas do Trono de palácios imperiais neoassírios.

No interior da estrutura arquitetural da Sala do Trono do Palácio Noroeste de Assurnasirpal II, o Relevo 23 (ver Imagem 3) desempenhou um papel de grande significância. Nele, Assurnasirpal II aparece duplamente representado: à direita, o rei faz um gesto de adoração em direção a uma figura divina, contida em um disco solar alado na parte superior central do relevo; à esquerda, o rei faz um gesto votivo em direção a Árvore Sagrada, que domina o centro do relevo. Atrás de ambas as figuras do rei encontra-se um espírito protetor alado que abençoa e purifica Assurnasirpal II usando um objeto cônico para borrifar o líquido contido num balde ritual.
Tendo sido originalmente posicionado atrás do trono real, há de se supor que este relevo desempenhara uma impressão visual significativa nos antigos visitantes: ao se aproximarem do rei entronizado é possível que os visitantes pudessem ter tido a impressão de estar vendo três figuras reais – o rei vivo de frente para eles, e, de cada lado dele, duas imagens esculpidas – que mostram a relação de Assurnasirpal II com os deuses. Em virtude disso, exigia-se retidão e reconhecimento da autoridade do soberano assírio, personificação da realeza e do poderio de Assur, pois a autoridade do soberano assírio deveria ser reconhecida não somente pelos próprios súditos assírios, como também por povos estrangeiros. Investido das prerrogativas de chefe militar, soberano político e sumo-sacerdote de Assur, o rei assírio exerce sua destacada autoridade imperial pondo sob seu jugo toda a extensão do Império que governa em nome de Assur, incumbindo-se, também, de estabelecer a Ordem Imperial por meio do poder e força do exército que chefia, quando fosse necessário.
Diante disso, é possível apontar que os relevos estruturam mensagens visuais nas paredes do principal cômodo palaciano neoassírio, transcendendo dimensões decorativas: a comunicação arquitetural não-verbal apresenta a pessoa do rei como criativamente dotado e completamente protegido, pois ele recebera sua habilidade criativa como uma benesse dos deuses, como era expresso na dimensão religiosa. Sugere-se, com isso, que o rei e sua administração estabeleceram uma conexão retórica entre atividades militares e de construção, colocando-as nas paredes da mesma sala: o soberano assírio, que controlava um vasto território, adquiria grande força de trabalho por meio de seu poderio militar, acumulando cativos como mão de obra operária necessária à construção de seus empreendimentos arquitetônicos monumentais (McCORMICK, 2002, p. 71-73).
Na medida em que os relevos parietais em sua praticidade escultórica buscaram fazer lembrar ao público que os acessavam do poderio do Império e das prerrogativas da figura do rei referendado pelo deus Assur, somos levados a considerar que esses suportes materiais são, também, portadores de finalidades mnemônicas. Tais imagens escreveram diretamente na memória, legitimando o poder e a soberania neoassíria por meio do suporte visual, em um corpus imagético-escultórico, que narra a memória política oficial do Império, “arquivado” em lajes de alabastro fixadas nas paredes dos palácios imperiais, abertos aos olhos do público que os acessavam e, assim, serviam como manifestação visual da conduta que lhes era exigida. Em virtude disso, a combinação do arranjo espacial e o programa escultórico dos relevos produzia um efeito sobre a audiência, criando um domínio único na arquitetura assíria (McCORMICK, 2002, p. 80).
Em suma, concordamos com as palavras de McCormick (2002, p. 194), pois a mente humana é um labirinto de estruturas com a habilidade de interconectar múltiplas concepções em um complexo arranjo de significados, que devem ser apresentados como parte de uma fábrica de realidade e não uma construção mecânica e facilmente apreensível. Nesses termos, os palácios neoassírios podem ser encarados como construções que apresentam o relacionamento entre as esferas humana e divina da existência, funcionando por meio de ícones que corporificam o comportamento social humano e as concepções desejadas por seus criadores.
6. Conclusão
A análise do programa arquitetônico neoassírio permite afirmar que os palácios neoassírios expressaram um arranjo de significados, interconectando múltiplas concepções, incorporando comportamentos sociais e práticas culturais. O meio de expressão significativo foi o desenvolvimento do programa decorativo, em relevos parietais que são portadores de significados, que expressam imagens ideais acerca da sociedade, da realeza, do Império e do Cosmos Neoassírio.
A escassez de fontes materiais disponíveis e de bibliografia especializada em língua portuguesa dificulta o aprofundamento de estudos acerca do tema. Porém, o crescimento de grupos de pesquisa e o desenvolvimento de recentes pesquisas[6] tem contribuído para diminuir os abismos e lacunas no interior da Assiriologia, além de lançar o convite acadêmico à produção de conhecimento acerca do pensamento mesopotâmico, imprescindível à reconstrução de elementos históricos e artísticos da sociedade Assíria, a revalorizando e colaborando para reconstituir a dignidade do patrimônio cultural assírio que se encontra sujeito às ameaças de degradação do tempo e, sobretudo, do homem.
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Notas