Análise da parceria família e escola numa perspectiva de ressignificação do processo de ensino e aprendizagem
Analysis of family and school partnership in the teaching and learning process resignification
Análise da parceria família e escola numa perspectiva de ressignificação do processo de ensino e aprendizagem
Research, Society and Development, vol. 5, núm. 3, pp. 209-224, 2017
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 11 Maio 2017
Aprovação: 16 Julho 2017
Resumo: Este estudo objetiva analisar a relação família e escola na literatura científica e suas implicações para os processos de ensino e aprendizagem. Suscita a inquietação dos agentes escolar no tangente à criação de meios para estabelecer uma relação significativa entre os pares a fim de que se restabeleça a valorização da educação sistematizada para o crescimento sócio intelectual do sujeito. Sob a luz teórica de Evangelista, Gomes (2003), Parolin (2005), Petrine (2008), Cortella (2016) e outros estudiosos do tema, busca analisar os entraves que dificultam tal parceria e, por conseguinte, o baixo rendimento na formação escolar. Trata-se de uma pesquisa exploratória descritiva com abordagem qualitativa que utiliza como procedimento de coleta de dados um estudo bibliográfico acerca da referida temática. A revisão bibliográfica aponta que a dificuldade de interação entre família e escola se dá por vários fatores, entre eles, a falta de consciência crítica acerca dos diferentes e correlatos papéis, bem como, da interdependência de ambas para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem. Por razões diversas os pais e/ou responsáveis não cumprem com sua responsabilidade no que tange a educação dos filhos, situação que ocasiona a fragilidade dos valores éticos e morais e que em alguns casos, se constitui indisciplina escolar. A escola, por sua vez, se sobrecarrega e, consequentemente, não consegue sobressair na sua verdadeira função. Uma realidade preocupante que compromete o desenvolvimento do indivíduo na sociedade. Nesse contexto, o estudo do tema requer prioridade nas pautas de discussões do âmbito educacional, com vistas na potencialidade desses dois importantes agentes de transformação do sujeito.
Palavras-chave: Parceria, Família, Escola, Ensino e Aprendizagem.
Abstract: This essay objective thus, is to analyze the relation among family and school in the scientific literature and its implications to the learning and teaching process. It evokes the concern of the school agents, in the tangent to the creation of means to establish a significant relationship between the peers, in order to reestablish the appreciation of a systematized education for the socio-intellectual growth of the subject. Under the theoretical light of Evangelista, Gomes (2003), Parolin (2005), Petrine (2008), Cortella (2016) and other scholars of the theme, it seeks to analyze the barriers that hamper such partnership and, consequently, the low productivity in the scholar formation. This is a descriptive exploratory research with a qualitative approach that uses as data acquisition procedures a bibliographic study about the previous mentioned thematic. The bibliographic review indicates that the difficulty of interaction between family and school is due to several factors, among them the lack of critical awareness about different and related roles, as well as the interdependence of both for the development of the teaching and learning process. For various reasons parents and / or guardians do not fulfill their responsibility regarding the education of their children, a situation that causes frailty of ethical and moral values and in some cases, constitutes indiscipline at school. The school, on the other hand, is overloaded and is not able to excel its true role. A worrisome reality that compromises the development of the individual in the society. In this context, the study of this issue requires priority in the ruling of discussions of the educational sphere, with views on the potentiality of these two important agents of transformation of the subject.
Keywords: Partnership, Family, School, Teaching and Learning.
1. Introdução
A ação de educar deve ser entendida como exercício contínuo e diretamente relacionada ao âmbito familiar, escolar e social. O desempenho do aluno depende significativamente do apoio, credibilidade e compromisso dos seus responsáveis, pois pensar educação é, automaticamente, se reportar a um conjunto de atores, e, por conseguinte, ao papel de cada um e na interação desses para o sucesso da aprendizagem. Primordialmente a família está para educar e a escola para formar. Nessa premissa, o referido artigo visa à discussão em torno da parceria família e escola, numa perspectiva de ressignificação do ensino e da aprendizagem.
Nos dias atuais são notórios os desafios nas relações interpessoais entre professor e aluno, principalmente na esfera pública. Não se consegue executar satisfatoriamente o planejamento pedagógico. A escola clama pela colaboração dos pais no acompanhamento da escolaridade dos filhos e não tem o retorno desejado. Nesse excerto, a pesquisa busca responder à seguinte indagação: a escola está aberta à colaboração da família?
Posto isso, o objetivo deste estudo é analisar a relação família e escola na literatura científica e suas implicações para o processo de ensino e aprendizagem. Para tanto, os objetivos específicos se constituem em estudar o referencial teórico relacionado ao tema, analisar como as famílias podem contribuir com a escola e reconhecer as razões que dificultam tal parceria.
Considerando a relevância dessa reflexão para o campo acadêmico, compreende-se que o professor é mediador da construção de conhecimento. Concebe-se que se trata de uma questão que envolve vários ambientes, e que a escola, por ser tida como promotora da inserção social passa a ter também a responsabilidade de buscar a família como parceira principal. Nesse excerto, a escola poderia utilizar o Projeto Político Pedagógico (PPP) como elemento desencadeador dessa relação, já que se trata de um documento que rege toda atuação administrativa e pedagógica. A partir desse parâmetro, são muitas as iniciativas a serem tomadas, basta que a escola se organize e exercite gradativamente todas as possibilidades.
Para atender o objetivo proposto por este estudo, fez-se necessária a realização de uma pesquisa exploratória descritiva com abordagem qualitativa. Gil (2008, p. 26) define a pesquisa como “processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico”. Complementa que “o objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de procedimentos científicos.” No caso desse estudo, utilizou-se como procedimento de coleta de dados a pesquisa bibliográfica.
2. O significado da família na formação do sujeito
“A família é o primeiro e principal contexto de socialização dos seres humanos, é um contexto constante na vida das pessoas, e mesmo que ao longo do ciclo vital se cruze com outros contextos como, por exemplo, o trabalho, esta será sempre preponderante no que diz respeito à segurança do indivíduo”, destaca os autores Evangelista e Gomes (2003, p. 203). Esse é um aspecto para ser cuidadosamente considerado dentro do âmbito escolar. Seus agentes devem ter a sensibilidade de buscar compreender o contexto familiar nos quais as crianças se inserem.
Desse modo, as configurações atuais de família têm intrínseca relação com o passado, desde o início dos tempos, a partir da história de antecessores. E mesmo com inovação na constituição de família nos dias de hoje, essa continua a ser a primeira instituição que acolhe o indivíduo. Para Paro (2007), a fragilidade emocional da criança constitui a dependência absoluta a ponto de essa não se reconhecer enquanto sujeito humano e social.
Para Parolin (2005), a criança sabe que faz parte de uma organização familiar não somente por compartilhar o mesmo sobrenome e costumes, mas também pela singularidade dentro dessa conjuntura. Portanto, a família é primordialmente, o segmento que acumula diversas experiências desde a organização de valores e conduta até as diferenças que a compõem. É no seio familiar que o sujeito vivencia uma diversidade de emoções e comportamentos refletidos tanto entre si quanto na sociedade.
Mesmo pertencente de uma família, com uma história já constituída, todo sujeito tem suas peculiaridades. Segundo Parolin (2005), cada sujeito, mesmo sendo único, faz parte de um grupo social, está inserido num universo particular convivendo simultaneamente num cenário natural e cultural de múltiplas participações. Em outras palavras, o sujeito está constantemente aprendendo, se redescobrindo e, portanto, reconstruindo sua história a partir da qualidade das relações que ela estabelece. A família permite a circulação do saber e das informações e o indivíduo vai se constituindo dentro desse contexto e preparando-se para outras vivências.
[...] a sociedade impele a família para o espaço privado, mesmo que depois atribua a ela um conjunto de responsabilidades e tarefas públicas ou coletivas. [...]. À medida que a família se privatiza, ela suscita instâncias de controle social; ao contrário, quanto mais a sociedade procura controlá-la, tanto mais se torna “autopoética” no sentido de tornar-se norma para si mesma [...] como um luar crescente de isolamento e subjetivação [...] (PETRINE, 2008, p. 61).
Nesse excerto, convém afirmar a continuidade nas modificações da cultura familiar, mesmo porque é um segmento que participa ativamente do dinamismo social vigente. Nessa premissa, ela se propõe a redimensionar fatores da sua realidade frente à alteração do ambiente sociocultural. “A família está integrada em um arranjo social e cultural que atende aos interesses de uma dada sociedade. Qualquer mudança nessa instituição de base acaba por atingir as demais instituições” (SZYMANSKI, 2000, p. 17).
Conforme Kaulostian (2008), em meio a tantas mudanças a busca pela sobrevivência é um ponto em comum, sua permanência se justifica por ser unidade socializadora que está em constante movimento numa perspectiva de tolerância e divisão de tarefas a serem cumpridas. Aries (1981) salienta que a composição familiar foi submetida a profundas transformações, entre elas a modificação das relações com os filhos. Na concepção de Freire (2006), a criança ao chegar ao mundo é desprovida de saberes, mas aconchega-se num contexto repleto de expectativas e um conjunto de aspectos culturais, e esses contribuirão na formação do sujeito. Para Bem e Wagner (2006), a família é absoluta no contexto de socialização. Contudo, a relação intrafamiliar tem sido notoriamente afetada pelas influências extras familiares, tais como: amizades, redes sociais, grupos sociais, a mídia, entre outras variáveis. Essa é uma espécie de interferência na cultura da família e em muitos casos os pais perdem o controle da situação.
Muitos fatores externos à família entram em jogo para redefinir os valores e os critérios, os modelos de comportamento de cada membro. Influência significativa é exercida pela escola que os filhos frequentam, nas diversas etapas de seu desenvolvimento, pelo ambiente de trabalho do homem e da mulher, por outras instancias formativas [...] (PETRINE, 2008, p. 44).
Até aqui se discutiu acerca da influência familiar na perspectiva de socialização entre família e escola, segmentos preponderantes na formação integral do indivíduo. Contudo, a primeira ocupa espaço bem mais amplo e suas funções vão além da primeira acolhida. Portanto, é uma instituição que se encontra em constantes desafios de naturezas distintas. Uma entre as outras atribuições concerne à garantia de condições materiais de sobrevivência de seus componentes. Para as famílias mais carentes, esse é, talvez, um dos maiores desafios.
Frente à demanda de responsabilidades da família na luta pela sobrevivência, homens e mulheres superam os respectivos papéis. A mulher se emancipa e busca espaço no mercado do trabalho, ficando mais tempo fora do que dentro de casa. Sem dúvidas esse processo emancipatório da classe feminina desequilibrou os arranjos familiares estabelecidos anteriormente. O índice elevado de mulheres atuando no mercado de trabalho acabou por interferir nos padrões de educação dos filhos.
Estudos desenvolvidos por Moreira e Biasoli-Alves (2008) sinalizam que em meio às dificuldades dos responsáveis para contribuir com a formação escolar, destacam-se as influências externas, mais precisamente, a substituição dos genitores por terceiros. Trata-se, em outras palavras, do educar a distância. Sarti (2005) assegura que nas classes populares, enquanto os contextos familiares se atualizam, a figura feminina passa a assumir o papel central. Levando em conta o poder das inter relações, considera-se a escola como ambiente fundamental para acolher, ampliar a socialização e, então, sistematizar a formação dos sujeitos.
Partindo do pressuposto, ressalta-se que o modelo de família que por ora se apresenta não foi absolutamente estabelecido, e, também não é definitivo, pois a contemporaneidade tem presenciado a dinâmica de permanentes mudanças no contexto familiar. Porém, há de se compreender que tais transformações são reflexos de um processo histórico que iniciou num passado distante.
De acordo com Petrine (2005) as transformações na esfera econômica, política e cultural ocorrem sob a dinâmica de modernização da sociedade, e esses perpassam por todos os fatores da existência pessoal e social. Trata-se de modificações relevantes e de uma permanência que influencia no lar e permeia as tarefas produtivas, promovendo o redimensionamento do trabalho e, sobretudo, dos processos educativos e socializadores das novas gerações.
Segundo Sarti (2005) pesquisas brasileiras sinalizam novas configurações. Para o autor, a decadência econômica é fator que origina a ruptura conjugal. Sendo assim, os modelos tradicionais que dotavam o marido de poder para liderar a família, são superados. Conforme Petrine (2005, p. 43) “não emergem novos modelos familiares que tenham uma validade universalmente conhecida e aceita”.
Entretanto, alguns estudiosos asseguram a família como segmento universal. Primeiro ambiente de socialização do sujeito. Afirmam que esta instituição tem sofrido relevantes transformações e por meio dessas, manifestado capacidade de readequação. Contudo, readequar-se exige quebra de paradigmas, portanto, é uma dinâmica de perdas e ganhos.
Conforme Sarti (2005), a pobreza é um aspecto que incide na diminuição da autoridade do pai. O patriarca não é capaz de determinar os valores morais para que os filhos os obedeçam, fato que abala paulatinamente o equilíbrio familiar. Todavia, a autora coloca que os últimos estudos revelam que essa situação tem sido gradativamente superada e que já é possível sinalizar que entre os pobres urbanos a autoridade masculina recobra o poder em detrimento da mediação dos sujeitos com o mundo.
Compreende-se então, que o segmento familiar não é absoluto para oportunizar experiências e alargar as possibilidades de formação integral da criança, mas é a âncora, e, deve ser primordialmente a primeira escola do indivíduo, principalmente na consolidação dos valores morais, do amor e da união. Sendo assim, a escola carece do apoio da família para que juntas possam garantir a formação humana e social do indivíduo.
3. A relação família e escola: a ressignificação do processo de ensino e aprendizagem
O seio familiar é preponderante para a formação integral do indivíduo, pois o prepara para conviver em sociedade. O universo escolar por sua vez, sistematiza o convívio social numa perspectiva de ampliação das possibilidades de uma vida digna e equilibrada. Para Dassen e Polonia (2007, p. 63) “a família e a escola constituem os dois principais ambientes de desenvolvimento humano nas sociedades contemporâneas”. Desta forma, é primordial que a escola invista nessa relação, buscando não somente a colaboração da família, mas a participação ativa desta nas tomadas de decisões administrativas e monitoramento do fazer pedagógico e administrativo.
Para tanto, não se pode descartar a minúcia dessa relação, pois o estreitamento de laços entre os dois contextos requer o entendimento das adversidades implícitas e explícitas de ambas as partes para que se perceba desenvolvimento e aprendizado de todos os atores envolvidos. Corrobora-se que tratar de família é um tanto complexo, não somente pelas diferentes características que a compõem, mas pela abrangência do termo. Verificamos que não é aleatória a atração de pesquisadores de áreas distintas do conhecimento em estudar o tema. O termo família, analisado por estudiosos de diferentes áreas, ganha conceitos diversos e, portanto, definições multifacetadas. Para Orsi (2008), a família, como conjuntura humana, é uma instituição que existe desde os primórdios, atualmente sob distintas configurações, mas, considerada em todos os tempos o principal agente formador. Espaço que viabiliza o encontro individual com o social, preparando o sujeito para a individualidade e para a coletividade.
Paralelo à evolução dos tempos ampliam-se as exigências por parte da sociedade. O momento contemporâneo requer interação entre os campos educacional e familiar. Fazem-se necessárias novas leituras do entorno teórico e social, para então, ressignificar o desenvolvimento de ensino e aprendizagem com vistas na autonomia do indivíduo.
Sendo assim, Freire (2002, p. 13) propagava que o professor deveria ensinar os alunos a “ler o mundo”. Acreditava que para isso era indispensável respeitar o contexto cultural e familiar dos estudantes, dando a eles a possibilidade de melhorar e de participar do processo de ensino-aprendizagem, vislumbrando algo novo que traga benefícios, tendo voz ativa e enxergando realidades de ensino nos conteúdos trabalhados que tivessem relação direta com o mundo em que estavam inseridos.
Ao passo que as novas configurações sociais exigem pensamento e criticidade oferta informações rasas e rápidas. A internet propicia a praticidade ao tempo que compromete ou deflagra os instrumentos do pensar. Apesar da agilidade, ela não é absoluta, apenas contribui para a leitura. Nesse contexto, no dizer de Parolin (2005, p. 16) o consumidor, “vira massa de manobra: compra para pertencer, usa para ser, faz para ter”. A autora nos remete a uma reflexão da relação professor e aluno nessa dimensão tecnológica que evoluiu tão rapidamente, suscitando certa inquietação por parte da escola que notoriamente não está preparada para utilizar tais atributos de forma contextualizada.
A escola passa a ser um espaço de interação de conhecimentos mediado por professores e alunos em um processo comunitário de ensinar e aprender, buscando atender às necessidades de cada grupo, exercendo um papel social importante na formação de crianças, jovens e adultos. E nessa perspectiva, colaborando na construção de uma sociedade que possibilite a interação dos indivíduos como sujeitos de direitos ativos na realidade a qual estão inseridos, pois a origem da escola teve como propósito servir à sociedade e, portanto, deve prestar conta de seu trabalho na sua totalidade.
É papel da família e da escola estruturar o sujeito nos contextos pessoal e social, desde a identidade até a autonomia. Esse processo ocorre diariamente por meio da promoção de carinho e adequação nas diferentes situações de convivência dentro e fora do seio familiar. Cortella (2016) comunga com o pensamento de Parolin (2005) quando salienta que a complementaridade do âmbito familiar e escolar é elemento essencial na motivação do indivíduo. Ambas se diferenciam e se assemelham pela correlação das funções e se intercalam no que se refere ao objetivo comum: o desenvolvimento do estudante.
Então, quando se trata de educação, é primordial que esses dois segmentos socializadores e educativos estejam integrados, e tenham consciência da relevância e responsabilidade de cada um na educação das crianças, para que essas possam evoluir em todas as áreas de conhecimento e solidificar a base para o aproveitamento das fases, seja no campo pessoal, profissional ou intelectual.
Uma ligação estreita e continuada entre os professores e os pais, leva, pois a muita coisa que a uma informação mútua: esse intercâmbio acaba resultando em ajuda recíproca e, frequentemente, em aperfeiçoamento real dos métodos. Ao aproximar a escola da vida ou das preocupações profissional dos pais e, ao proporcionar, reciprocamente, aos pais um interesse pelas coisas da escola chega-se até mesmo a uma divisão de responsabilidades [...] (PIAGET, 2007, p. 50).
Segundo Piaget (2007), a escola é eixo motivador da parceria família e escola, levando em conta que um número considerável de pais ignora o processo de desenvolvimento psíquico e cognitivo e não tem noção lógica de como ocorre à aprendizagem, fazendo com que surja a dificuldade de acompanhar a rotina escolar dos filhos. Assim, a complexidade da educação requer a parceira família e escola, bem como a colaboração de outras instituições. Não se resolve situações educativas num passe de mágica. Trata-se de um trabalho conjunto, minucioso e, portanto, colaborativo. “A escola nunca educará sozinha, de modo que a responsabilidade educacional da família jamais cessará. Uma vez escolhida à escola, a relação com ela apenas começa. É preciso o diálogo entre escola, pais e filhos,” afirma Reis (2007, p.06).
Nesse sentido, a relação dialógica entre família e escola se faz necessária. E sendo a escola ambiente formador, capaz de transformar a realidade, cabe a ela criar situações em que os dois segmentos dialoguem constantemente. Para Piaget (2007), se a família não tem estrutura educacional para participar ativamente da vida escolar dos filhos, cabe à escola criar mecanismos para que a relação com esta seja ao máximo, estreitada. “[...] se toda pessoa tem direito à educação, é evidente que os pais também possuam o direito de serem, senão, educados, ao menos informados no tocante à melhor educação a ser proporcionada aos seus filhos” Piaget (2007, p. 50).
Por assim dizer, é fundamental que os responsáveis pelas crianças/adolescentes estejam inteirados sobre a situação de aprendizagem dos mesmos. O aluno traz consigo uma bagagem adquirida no entorno familiar, além do mais, o convívio do aluno com seus familiares é bem mais extenso do que o tempo que fica na escola. Partindo dessa premissa, essa parceria não é uma questão que pode ser projetada em prazo predeterminado. Trata-se de um projeto diário e infinito. A comunicação entre família e escola deve ser constante. Não se limita apenas a simples informações ou cordialidades. Tal relação deve ser consolidada a partir do Projeto Político Pedagógico (PPP) e se disseminar na prática administrativa e pedagógica. Para Paro (2009), a eficácia da comunicação produz o entendimento entre ambas e o sucesso do aluno. O diálogo é fator imprescindível na consolidação da aproximação família escola.
Então, o contexto escolar, na condição de formador de sujeitos críticos e reflexivos, deve acolher e valorizar a família de tal maneira que ela se reconheça útil no desenvolvimento da aprendizagem, buscando a participação dos pais nas tomadas de decisões para que possam sistematicamente acompanhar os acontecimentos sob um olhar crítico e, portanto, colaborativo. Segundo os autores Romanelli, Nogueira e Zago (2011) o movimento de interdependência e influências recíprocas entre família e escola tem origem nas transformações pelas quais passam as estruturas e modos de vida familiar e as instituições e processo escolares em um mesmo momento. Conforme os autores, a origem das famílias e a forma como essas se relacionam com a escola é determinada pelas condições sociais que a origina. Adicionalmente Neves, Ristum e Dazzani (2013), confirmam que a família tem se empenhado em inserir seus filhos na sociedade escolarizada e dar mais atenção aos processos escolares.
Conforme o que se discutiu até aqui, não se deve negar o fato de que os pais ou responsáveis manifestam interesse em manter os filhos na escola. Em contrapartida, não se pode fechar os olhos para a realidade com a qual o cenário educacional se depara: pais que simplesmente matriculam os filhos e nem sequer aparecem no final de cada unidade letiva para acompanhar os rendimentos escolares desses. Esse comportamento indevido por parte dos pais ou responsáveis é resultado de uma ideologia errônea e ultrapassada sobre o papel da escola. Como coloca Cortella (2016), a família confunde educação com formação. Tal confusão implica no distanciamento dos dois segmentos mais importantes para o desenvolvimento humano e social do indivíduo. A escola por sua vez, propaga a gestão democrática, mas conserva-se na condição de protagonista em toda e qualquer situação.
4. O papel da escola na implementação da parceria com a família
A escola é tida como instituição formadora de cidadãos críticos e reflexivos, espaço onde atuam profissionais da educação, logo, cabe a ela a capacidade de construir uma relação dialógica com os responsáveis pelos estudantes, considerando a interatividade da relação, a partir da comunicação entre as partes. Para tanto, é imprescindível que a voz do outro seja escutada, compreendendo que as ideias distintas são complementares.
Até o momento a escola clama pela participação da família, e conforme Gomes (2003), ainda não compreendeu que é preciso criar meios para que isso aconteça. A família parece não compreender o que a escola transmite sobre estreitar as relações. Os agentes escolares, por sua vez, não promovem a comunicação acessível à família.
Esse distanciamento nem sempre implica na falta de interesse dos pais. Por vezes muitos deles não podem aproveitar as oportunidades de visitar a escola com certa frequência, por distintas razões, sendo preponderante o trabalho para sustento do lar. Em outros casos, o espaço escolar não é atrativo. Nesse contexto, a oferta de opções de horários dentro do tempo de funcionamento da escola para atendimento aos pais seria um dos meios convenientes, bem como, as anotações na agenda dos filhos, numa espécie de feedback entre professor e pais para auxiliar na comunicação contínua e necessária.
Parece contraditório, mas a metodologia de ensino pode ser também uma forma de atrair os pais. Como já dizia Vasconcelos (1989, p. 80) “uma das melhores formas de se atingir a família é através dos próprios filhos; daí a relevância da escola desenvolver um trabalho participativo, significativo, em que realmente o aluno se envolva e entenda o que está sendo proposto para ele”. Para tanto, a escola precisa ter uma proposta de trabalho compreensível a ponto de o próprio aluno argumentar com os pais sobre a importância de sua presença.
Uma situação bem comum, e que talvez revele que a escola ignora as peculiaridades na composição familiar, é a comemoração do dia das mães e dos pais. Como não há mais um padrão de família estabelecido, muito provavelmente, ao invés de agradar, vai submeter à criança a uma condição delicada, e, por conseguinte, afastar aqueles que se dizem responsáveis por aquelas crianças que não são cuidadas especificamente pelos pais biológicos. Para Romanelli, Nogueira e Zago (2011), a escola não deve perpetuar uma tradição que contrarie a realidade atual. Comemorar o dia das mães e dos pais é omitir para os alunos a existência de diferentes tipos de famílias, é não preparar o indivíduo para as mudanças, é não formá-lo para a vida.
Sendo assim, é primordial que a escola busque conhecer o tipo de família dos alunos, no intuito de adaptar-se à realidade dos estudantes, visando promover a inclusão de todos os modelos familiares, sem que para isso precise apontar erros ou acertos, mas, propiciar condições para que os responsáveis pelas crianças se comprometam com a vida escolar, de modo a contribuir com a formação, não somente nas reuniões, mas no seu cotidiano, sob intervenções, se necessárias forem.
E por falar em reuniões, este é outro ponto a ser redimensionado. Gestão escolar e professores queixam-se da baixa frequência dos pais nas reuniões, mas não se atentam à preponderância do aspecto informativo, quando deveria ser um momento de formação para ambos com relação aos anseios das duas partes: a escola pelo acompanhamento da família, e esta, por sua vez, por entender, no mínimo, a proposta pedagógica da escola. Nessa premissa, Falcão (1986) sugere que a pauta da primeira reunião do ano letivo seja de informações necessárias às famílias, com assuntos inerentes ao desenvolvimento do trabalho administrativo e pedagógico, tais como,
Parâmetros Curriculares Nacionais, o Plano Curricular, que visa ao desenvolvimento dos processos educacionais, a filosofia da escola, a metodologia de ensino adotada e as fases de desenvolvimento que os alunos estão vivenciando, bem como suas implicações (FALCÃO 1986, p. 56).
O autor nos remete a pensar sobre a importância da escola colocar a família a par do que realmente acontece no seu interior. Os pais e/ou responsáveis, por menores condições educacionais que possuem, precisam ter ciência de como se pensa o processo de ensino. Entender, ainda que parcialmente, qual a proposta de trabalho administrativo e pedagógico. A escola precisa enfatizar as informações necessárias a fim de que a família se sinta motivada a participar da vida escolar dos filhos.
Uma boa reunião escolar com as famílias no início do ano letivo, sob a discussão de uma pauta inerente a toda proposta de trabalho da equipe escolar, é uma tentativa de interação, visto que os pais já ficarão cientes de como está desenhado o ano escolar dos filhos. As informações extras que vão surgindo ao longo do ano são apenas complementos e/ou adequações necessárias. Esse modo de atrair os pais evidencia naturalmente para eles a importância da parceria entre escola e família em prol do desenvolvimento integral do indivíduo.
Nessa perspectiva, os pais vão gradativamente tomando consciência da relevância de sua colaboração para o desenvolvimento da aprendizagem do filho. A escola, por sua vez, sente-se apoiada e se motiva a realizar um bom trabalho em prol da formação do indivíduo. Efetua-se uma parceria significativa, principalmente para o aluno. Essa reciprocidade favorece um clima harmônico e produtivo. Tiba (2002, p.182) coloca que “A escola percebe facilidades, dificuldades e outras facetas na criança que em casa não são observadas, muito menos avaliadas”. E com a legitimação da parceria família e escola, os problemas serão superados mais facilmente, sejam eles de natureza emotiva, social ou intelectual.
Nesse contexto, se consolidam os papéis da família e da escola numa dinâmica particular e conjunta. A família com a missão de educar, a escola com o compromisso de formar e ambas com o propósito de preparar o indivíduo para a vida social. Evidencia-se então, a importância de aproximar os dois segmentos, a fim de reduzir as diferenças entre si, ampliando as possibilidades de ressignificação do processo ensino e aprendizagem.
5. Considerações Finais
As discussões sobre a relação família e escola realçam a necessidade de aprimoramento e/ou sistematização desta, por entender que o vínculo estabelecido entre educação e formação depende dessa parceria. Constata-se que não há uma consciência crítica sobre os diferentes e correlacionados papéis. Nem tampouco da interdependência de ambos. O fato é que uma vez que os responsáveis pelos filhos/estudantes deixam de cumprir com a sua responsabilidade de educar sob os preceitos dos valores éticos e morais, sobrecarregado, o profissional da educação não consegue exercitar a formação intelectual. Essa realidade compromete o desenvolvimento do indivíduo na sociedade.
Sendo assim, constatamos que os autores consultados defendem a importância da junção família e escola numa perspectiva de desenvolvimento da aprendizagem. Considera-se, portanto, que a família permanece como instituição fundamental para proteger e socializar o indivíduo. A escola por sua vez, é um universo de ampliação da socialização e disseminação de saberes. É imperativo observar que a educação ofertada no âmbito escolar é diferente, mas não significa dizer com isso que o espaço escolar é o único educativo. Em todas as situações de convívio social se exercita a educação. A escola se difere pela sistematização e intencionalidade das tarefas na perpetuação do conhecimento científico. Cabe à família, portanto, buscar aproximar-se ao máximo da escola do filho, a fim de não somente conhecer a realidade no tangente ao desenvolvimento do trabalho interno, mas também para intervir, se assim, se fizer necessário. É justamente nesta dinâmica de interação que se consolida a parceria família e escola e, consequentemente, se desenvolve a formação consistente do indivíduo.
Partindo do exposto, sugere-se que a discussão acerca do tema em questão tenha como pressuposto a necessidade da escola tomar para si a responsabilidade de buscar estreitar a relação com a família, não isentando o âmbito familiar de sua importante parcela de contribuição e do compromisso de se aproximar da escola, mas levando em consideração a bagagem de experiências e condições de sistematizar tal parceria de maneira realmente significativa.
Conclui-se que é preciso que os agentes escolares tomem consciência do seu papel enquanto formadores de opinião e comecem a considerar o contexto familiar numa perspectiva de contribuição para a transformação da realidade, convertam as opiniões, na maioria das vezes depreciativas, por supostas sugestões para superação da realidade vigente. A gestão escolar, juntamente com os docentes, deve pensar e executar sistematicamente estratégias para relatar a família sobre a importância de sua participação na vida do filho em todas as vertentes, mais precisamente na formação intelectual.
Contudo, as reflexões acerca do tema continuam em aberto, pois essa pesquisa não termina por aqui, razão pela qual recomendamos a sua continuidade e aprofundamento por meio de uma pesquisa de campo contribuindo com maior intensidade para a compreensão da relação família e escola nos dias atuais.
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