Estudos recentes sobre alfabetização e letramento para o aluno com deficiência intelectual
Recent studies on literacy and letters for the student with intellectual disability
Estudos recentes sobre alfabetização e letramento para o aluno com deficiência intelectual
Research, Society and Development, vol. 7, núm. 7, pp. 01-13, 2018
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 18 Fevereiro 2018
Aprovação: 21 Fevereiro 2018
Resumo: Com a ampliação das políticas educacionais o processo de alfabetização foi complementado pelo conceito de letramento e, em particular, nos contextos que envolvem a Educação Especial. Por ser relevante e fazer parte do processo de ensino e aprendizagem do aluno, o presente estudo teve como objetivo investigar o que vem sendo pesquisado em revistas brasileiras de educação especial sobre essa temática de alfabetização e letramento para alunos com deficiência intelectual nos últimos dez anos. A pesquisa traz uma revisão bibliográfica utilizando como fonte de dados duas revistas de grande potencial na área da Educação Especial sendo elas: Revista Brasileira de Educação Especial – Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial (ABPEE) e Revista Educação Especial (UFSM) nas versões on-line. Foram selecionados um total de 12 artigos, sendo 3 na Revista de Educação Especial e 9 na Revista Brasileira de Educação Especial. Os resultados apontaram lacunas importantes a serem pesquisadas na área e espera-se contribuir para a área de alfabetização e letramento de pessoas com deficiência intelectual. Concluímos, que por se tratar de uma temática relevante e atual no contexto brasileiro, seria sugestivo futuros estudos de revisão sistemática dessa literatura para complementação dos resultados aqui encontrados.
Palavras-chave: Educação Especial, Alfabetização, Letramento.
Abstract: With the expansion of educational policies, the literacy process was complemented by the literacy concept and, in particular, in the contexts surrounding Special Education. Since it is relevant and part of teaching and the student learning process, the present study aimed to investigate what has been researched in the main special education periodicals on this theme of literacy and literacy for students with intellectual disabilities in the last ten years. The research brings a bibliographic review using as data source two periodicals of great potential in the area of Special Education being: Brazilian Journal of Special Education - Brazilian Association of Special Education Researchers (ABPEE) and Special Education Journal (UFSM) -line. A total of 12 articles were selected, 3 in the Special Education Journal and 9 in the Brazilian Journal of Special Education. The results pointed out important gaps to be researched in the area and it is hoped to contribute to the area of literacy and literacy of students with intellectual disabilities. We conclude that, because it is a relevant and current topic in the Brazilian context, future studies of a systematic review of this literature to complement the results found here would be suggestive.
Keywords: Special Education, Literacy, Literature.
1. Introdução
Os avanços nos estudos acerca do processo de alfabetização e letramento trazem a relevância sobre estudos que abordem a presente temática. Segundo Lopes, Abreu e Matos (2010) a alfabetização pode ser definida como um processo de aquisição do código da escrita e leitura e, esta, faz-se, segundo os mesmos autores, pelo domínio das técnicas de grafar e reconhecer letras, usar o papel, entender a direcionalidade da escrita, pegar no lápis, codificar, estabelecer relações entre sons e letras, de fonemas e grafemas e pela percepção da criança nas unidades menores que compõem o sistema de escrita (palavras, sílabas, letras).
Porém, vale ressaltar que ao entrar no ambiente escolar as crianças já possuem contato com práticas de leitura e escrita, de várias formas diferentes como, por exemplo, quando a mãe faz a lista de compras para ir ao supermercado, alguém escreve um recado, ou uma receita de bolo, entre outros. Assim, além dessas utilizações citadas, é importante salientar que com a expansão de meios tecnológicos de comunicação, como TV, celular, computador, as crianças são expostas desde muito cedo a diversos estímulos relativos à leitura e escrita e, aos poucos, percebem que tais são um dos mecanismos fundamentais de comunicação entre os seres humanos.
Nesse sentido,
se concebermos a aprendizagem a partir de um enfoque sócio- construtivista, entendemos que a leitura resulta de um processo de interação. Por isso, todas as pessoas com quem a criança convive passam a ter um papel fundamental em seu desempenho de leitor. À professora particularmente, cabe descobrir e orientar os interesses da criança, oferecendo-lhe textos significativos que favoreçam a aprendizagem (SCOZ, 2008, p.52).
Frente a tais aspectos, ressalta-se a importância de definir o que se chama de Letramento e de Alfabetização.
De acordo com Soares (2000, p.3), o Letramento pode ser entendido como um
estado em que vive o indivíduo que não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: sabe ler e lê jornais, revistas, livros; sabe ler e interpretar tabelas, sabe escrever e escreve cartas, bilhetes, telegramas sem dificuldades, sabe preencher um formulário, sabe redigir um oficio, um requerimento.
Nesse sentido, corrobora-se com a ideia de que alfabetização e letramento são processos que se complementam pois fazem parte de algo mais amplo que envolve a aquisição de conhecimentos por parte dos alunos. Conforme aponta Soares (2004), a dissociação desses dois processos é um equívoco uma vez que a entrada no universo da escrita ocorre de maneira simultânea pelos processos de aquisição convencional de escrita (alfabetização) e pelo desenvolvimento de habilidades do uso desse sistema de leitura e escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita (letramento).
Ademais é importante destacar que, conforme destacam Leal, Albuquerque e Morais (2007), as crianças sempre estão em contato ou observando palavras escritas em diferentes ocasiões do seu dia-a-dia como, por exemplo, em placas de trânsito, supermercado, entre outros e, além disso, “escutam historias lidas por outras pessoas e a partir dessas experiências, as vezes mediadas, indivíduos vão se tornando sujeitos letrados’’ (LEAL; ALBUQUERQUE; MORAIS, 2007, p. 70).
Da mesma forma, tais processos ocorrem com as crianças com algum tipo de deficiência, ou seja, aquelas que cujo processo de escolarização faz parte da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Segundo tal política, a Educação Especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis e etapas escolares, realiza o Atendimento Educacional Especializado, disponibiliza os serviços e os recursos próprios desse atendimento e orienta os alunos e seus professores quanto à sua utilização nas turmas comuns do ensino regular, definindo assim, como seu público-alvo, os alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
Destaca-se dentro dessa política e, para o presente trabalho, os alunos com deficiência intelectual e, esse tipo de deficiência pode ser definido, conforme Shogren et al (2010, p. 6), como “uma incapacidade caracterizada por limitações significativas tanto no funcionamento intelectual (raciocínio, aprendizado, resolução de problemas) quando no comportamento adaptativo, que cobre uma gama de habilidades sociais e práticas do dia a dia”.
Essa incapacidade, segundo Almeida (2012) deve levar em conta o comportamento adaptativo dessas pessoas acometidas por essa deficiência. O termo comportamento adaptativo surgiu pela primeira vez em 1961 e, em 1992 definiu-se dez áreas relativas a condutas adaptativas que devem ser levadas em consideração para o diagnóstico e intervenção das pessoas com deficiência intelectual. As dez áreas a serem cuidadosamente observadas são: comunicação, autocuidado, vida no lar, habilidades sociais, desempenho na comunidade, auto direção, saúde e segurança, habilidades acadêmicas funcionais, lazer e trabalho (ALMEIDA, 2012).
Para o presente trabalho, será focalizada as áreas acadêmicas funcionais uma vez que essas irão se relacionar diretamente ao ler e escrever. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de um esforço conjunto entre os profissionais e familiares envolvidos na tentativa de garantir um processo de ensino-aprendizagem à pessoa com deficiência intelectual trabalhando, de maneira conjunta, a alfabetização e o letramento.
Para Soares (2000, p.3)
se alfabetizar significa orientar a própria criança para o domínio da tecnologia da escrita, letrar significa levá-la ao exercício das práticas sociais de leitura e escrita. Uma criança alfabetizada é uma criança que sabe ler e escrever, uma criança letrada [...] é uma criança que tem o hábito, as habilidades e até mesmo o prazer da leitura e da escrita de diferentes gêneros de textos, em diferentes suportes ou portadores, em diferentes contextos e circunstâncias [...] Alfabetizar letrando significa orientar a criança para que aprenda a ler e a escrever levando-a a conviver com práticas reais de leitura e de escrita.
Nesse sentido, é de fundamental importância pensar nas ações do professor para a elaboração de atividades para alunos com Deficiência Intelectual pois é necessário, na maioria dos casos, a adaptação curricular ao conteúdo proposto. E, sabe-se que tal adaptação é fundamental aos avanços de aquisição de conhecimento por quaisquer alunos, bem como a mediação efetiva e ativa do professor nesse processo pois, na maioria das vezes, essa influenciará em todo processo de ensino e aprendizagem.
Diante disso, o trabalho do professor, na perspectiva de alfabetizar letrando, configura-se como um desafio para os casos de alunos com deficiência intelectual e, nesse sentido, destaca-se a necessidade de um amplo conhecimento, das possibilidades e desafios que se é trabalhar nessa perspectiva com alunos com deficiência intelectual.
Portanto, torna-se fundamental verificar o que se tem pesquisado em relação a presente temática e, assim, o objetivo deste estudo é investigar o que vem sendo pesquisado em revistas brasileiras de educação especial sobre a temática de alfabetização e letramento para alunos com deficiência intelectual nos últimos dez anos.
2. Metodologia
O presente artigo traz uma revisão bibliográfica utilizando como fonte de dados duas revistas brasileiras de Educação Especial sendo elas: Revista Brasileira de Educação Especial (ABPEE) e Revista Educação Especial (UFSM) nas versões on-line. Para isso, foram utilizados três critérios: 1) ser um artigo publicado em uma das duas revistas selecionadas para a pesquisa; 2). Ter como tema Alfabetização e letramento na Educação Especial e; 3) compreender o período de 2007 a 2017.
Foi utilizado na pesquisa um Notebook da marca Positivo e internet para busca de dados. Para a seleção dos artigos realizou-se a busca no site das revistas selecionadas conforme número e volume da publicação por meio dos descritores: Alfabetização, letramento, Educação Especial, Deficiência Intelectual. Essas palavras eram buscadas no título e resumo dos artigos, e seguindo os critérios os artigos eram selecionados para a leitura na íntegra.
Após a etapa de seleção os artigos foram lidos na íntegra e realizou-se uma síntese dos seguintes tópicos: Autor, ano, nome do artigo, local da publicação, objetivo, metodologia, resultados e conclusão conforme será demonstrado na sessão de resultados.
Resultados e Discussão
Na verificação realizada foram selecionados um total de 12 artigos, sendo 3 na Revista de Educação Especial e 9 na Revista Brasileira de Educação Especial. O total de artigos publicados nessas revistas são variáveis de acordo com o número da publicação, mas, em sua maioria, compreendem ao menos 8 artigos em cada número variando de duas a quatro revistas anuais.
No Quadro 1 encontra-se os 12 artigos selecionados para a leitura na íntegra. Esses foram sintetizados conforme ano, título, autores e revista publicada.
| ANO | TÍTULO | AUTOR(ES) | REVISTA |
| 2010 | Avaliação da eficácia do software "Alfabetização Fônica" para alunos com deficiência mental | Julia Margarida Hein; Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira; Alessandra Gotuzo Seabra; Elizeu Coutinho de Macedo | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2011 | Atividades linguísticas e cognitivas para alunos com deficiência intelectual: proposta metodológica na inclusão escolar | Giovani Ferreira Bezerra; Doracina Aparecida De Castro Araujo | Revista de Educação Especial |
| 2011 | Escolarização da pessoa com deficiência intelectual: terminalidade específica e expectativas familiares. | Solange Rodovalho Lima; Enicéia Gonçalves Mendes | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2012 | Um estudo sobre as relações de ensino na educação inclusiva: indícios das possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem. | Ana Paula de Freitas | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2013 | Softwares educativos para alunos com Deficiência Intelectual: estratégias utilizadas. | Ketilin Mayra Pedro; Miguel Claudio Moriel Chacon | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2013 | Deficiência intelectual na perspectiva histórico-cultural: contribuições ao estudo do desenvolvimento adulto. | Sueli de Souza Dias; Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2014 | Concepções de professores da educação especial (APAEs) sobre a aprendizagem e desenvolvimento do aluno com deficiência intelectual: um estudo a partir da teoria vigotskiana | Waléria Henrique dos Santos Leonel; Nilza Sanches Tessaro Leonardo | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2015 | Práticas de Professores Frente ao Aluno com Deficiência Intelectual em Classe Regular. | Teresa Cristina Coelho dos Santos; Lúcia de Araújo Ramos Martins | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2015 | Estratégias pedagógicas empregadas por professores de educação especial aos seus alunos com deficiência intelectual severa: um estudo descritivo da prática docente. | Maria Júlia Canazza Dall'Acqua; Patricia Moralis Caramori | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2015 | A Formação de Conceitos em Alunos com Deficiência Intelectual: o Caso de Ian. | Patricia Braun; Leila Regina d'Oliveira de Paula Nunes | Revista Brasileira de Educação Especial |
| 2016 | O ensino da Matemática ao deficiente intelectual: projetos de trabalho em uma perspectiva contextualizada e interdisciplinar. | Amanda Drzewinski de Miranda; Nilcéia Aparecida Maciel Pinheiro | Revista de Educação Especial |
| 2017 | A produção escrita de pessoas com deficiência intelectual na interação com as tecnologias digitais da informação e comunicação. | Flávia Roldan Viana; Adriana Leite Limaverde Gomes | Revista de Educação Especial |
Conforme apresentado no Quadro 1 foram encontrados 12 artigos relativos à temática e os mesmos serão descritos a seguir focalizando o título, objetivo, método e principais resultados encontrados pelos autores.
O artigo de Hein et al. (2010) denominado Avaliação da eficácia do software "Alfabetização Fônica" para alunos com deficiência mental na revista Brasileira de Educação Especial. Esse trabalho teve como objetivo verificar a eficácia da intervenção com o software Alfabetização Fônica Computadorizada em alunos com deficiência mental. Segundo os autores, esse software possibilita a realização de atividades que desenvolvem a consciência fonológica e a compreensão das relações grafofonêmicas. Os autores realizaram como procedimento metodológico a avaliação inicial do nível intelectual com a Escala de Maturidade Mental Columbia e a Escala de Inteligência Weschsler para Crianças. Também utilizaram a Bateria de Avaliação de Leitura e Escrita e a Prova de Consciência Fonológica por Produção Oral sendo aplicadas no início e término do estudo. Realizaram dezesseis sessões individuais com o software “Alfabetização Fônica Computadorizada nos participantes do grupo experimental e, como resultados foram evidenciadas, para esse grupo, a melhora nas habilidades de escrita e leitura e nos indicadores de consciência fonológica. Os autores concluíram que o desenvolvimento da rota fonológica, com decodificação e conversão de grafemas em fonemas, pode ser um ponto de partida essencial para a alfabetização de crianças com deficiência mental e, ainda, que o software pode apresentar outros benefícios como, por exemplo, de tipo lúdico, interativo e dinâmico.
O trabalho de Bezerra e Araújo (2011) intitulado Atividades linguísticas e cognitivas para alunos com deficiência intelectual: proposta metodológica na inclusão escolar. Esse artigo teve como objetivo apresentar possibilidades didáticas para a promoção do desenvolvimento linguístico e cognitivo de crianças com Deficiência Intelectual. Os autores utilizaram atividades estratégicas para o desenvolvimento verbal e cognitivo dos alunos com e sem Deficiência Intelectual. Essas atividades foram denominadas pelos autores de Atividades Integradas denominadas sendo compostas por Atividade Prática, Atividade Lúdica, Atividade Gráfico-Pictórica, Atividade Virtual e Atividade Verbal. Os resultados evidenciaram que tal proposta pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento intelectual das crianças com Deficiência Intelectual se associada, na escola, a outras formas de atividade.
O artigo de Lima e Mendes (2011) intitulado Escolarização da pessoa com deficiência intelectual: terminalidade específica e expectativas familiares, teve como objetivo analisar a coerência entre a finalidade legal da escolarização da pessoa com deficiência intelectual e os sentidos atribuídos pela família a essa escolarização na classe comum da escola regular. A pesquisa foi classificada pelos autores como estudo de campo e baseou-se em consultas nos documentos sobre a Educação Especial e a proposta de terminalidade específica do MEC, da Secretaria Estadual de Educação de MG, da rede municipal de ensino de Uberlândia e no histórico escolar dos alunos. Também, utilizou como procedimento metodológico fonte de dados os relatos dos familiares de alunos diagnosticados com deficiência intelectual e que estavam matriculados em classes comuns de escolas municipais de Uberlândia. Os resultados, segundo as autoras, possibilitaram conhecer as percepções e expectativas das famílias sobre a escolarização dos filhos com deficiência intelectual e sua opinião sobre a terminalidade específica de escolaridade do ensino fundamental. E, como conclusão, foi mencionado que apesar dos avanços, a escolarização do aluno com deficiência intelectual deve ser repensada e, nesse processo, a terminalidade específica deve ser superada uma vez que, como instrumento legal, não se encontra de acordo com a expectativa das famílias, além de apresentar riscos desfavoráveis ao percurso de escolarização de alunos com deficiência intelectual no Brasil.
Freitas (2012) em seu artigo intitulado Um estudo sobre as relações de ensino na educação inclusiva: indícios das possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem objetivou analisar os indícios das possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem de um aluno com deficiência intelectual, que frequentava o primeiro ano do ensino fundamental em uma escola comum. Para registrar os acontecimentos ocorridos em sala de aula usou como procedimento metodológico, foram realizadas filmagens entre os meses de novembro de 2009 e novembro de 2010, considerando-se o período letivo. Ao todo foram realizadas 15 observações, perfazendo um total de 30 horas de filmagens. Após as filmagens, os dados foram minuciosamente transcritos e organizados em unidades temáticas. As análises focalizaram a dinâmica interativa entre Gil, a professora e os pares, procurando revelar indícios das relações intersubjetivas e das condições de produção dos acontecimentos em curso. Os resultados demonstraram, segundo a autora, a necessidade de compreensão sobre o desenvolvimento e aprendizagem do aluno em questão por meio da observação de seus gestos e palavras durante a leitura. Nota-se com a observação que os gestos significativos e as repetições de palavras e frases revelam que o caminho alternativo de aprendizagem foi significativo. A partir das análises realizadas pode-se afirmar que as relações concretas de aprendizagem ocorrem quando se estabelecem relações de ensino significativas que devem ser compreendidas considerando-se as possibilidades de mediação sígnica instauradas nas relações entre os sujeitos.
Pedro e Chacon (2013), no artigo com título Softwares educativos para alunos com Deficiência Intelectual: estratégias utilizadas tiveram o objetivo de propor atividades específicas de informática para alunos com DI, por meio de softwares educativos, além de quantificar e analisar as estratégias técnicas e pedagógicas utilizadas. Utilizando como procedimento metodológico um levantamento de alunos com DI e uma pesquisa em sites procurando softwares que contivessem atividades de associação, correspondência, alfabetização e introdução à matemática. As professoras envolvidas na pesquisa informavam semanalmente os conteúdos que estavam sendo desenvolvidos com os alunos com DI, os quais nem sempre acompanhavam tais conteúdos com o restante da turma. A partir desse conteúdo e baseando-nos nas observações realizadas a respeito do desempenho dos alunos, buscávamos nos softwares selecionados algumas atividades que contemplassem o conteúdo tratado em sala de aula e as indicávamos às professoras. Após ouvir a opinião da professora e a troca de experiências com a pesquisadora, finalizávamos o planejamento. Durante as intervenções, a pesquisadora fazia o papel de mediadora das atividades, sendo que os alunos participantes precisavam de atenção constante, enquanto a professora da sala orientava os demais alunos, na realização da atividade. Em alguns momentos, a professora se aproximava e observava como acontecia o desenvolvimento das atividades. Os resultados indicaram que se os conteúdos trabalhados nas aulas de informática convergirem com as atividades propostas em sala de aula, os alunos com DI têm oportunidades de experienciar atividades diferenciadas que lhes possibilitem o sucesso. Os autores salientaram que as estratégias de ensino utilizadas na pesquisa possibilitaram aos alunos participantes compreender e realizar corretamente as atividades propostas. Dessa forma, os autores concluem sobre a necessidade de o professor estar atento às habilidades e dificuldades dos alunos e, ainda, que recorram a estratégias que possibilitem o entendimento das atividades e a compreensão do conteúdo juntamente com outros profissionais como os de informática e demais professores.
Dias e Oliveira (2013), no artigo Deficiência intelectual na perspectiva histórico-cultural: contribuições ao estudo do desenvolvimento adulto, tiveram como objetivo oferecer argumentos geradores de reflexões críticas sobre a condição a que se tem denominado deficiência intelectual. Utilizando como metodologia uma revisão da construção histórica e social das concepções e práticas relativas à deficiência intelectual, ressaltando a força do modelo médico na caracterização das deficiências e destacando a contribuição da perspectiva histórico-cultural para a compreensão crítica do fenômeno. Também foram analisados pelos autores as condições de desenvolvimento associadas à transição para a vida adulta das pessoas com deficiência intelectual. As investigações apresentadas pelos autores sugeriram a necessidade de sistemas que possibilitem o desenvolvimento de percepção favorável de si e a busca de uma vida autônoma à pessoa com deficiência intelectual. Conclui-se, por meio da pesquisa, que os contextos, em sua maioria, configuram a escola como uma importante instância mediadora na construção dos significados sobre si e sobre o mundo e, assim como nos aspectos formativos necessários na transição para a vida adulta e inclusão social dessas pessoas, faz-se necessário o acesso ao emprego ou trabalho como importante conquista no processo de cidadania e de participação ativa na sociedade.
O artigo de Leonel e Leonardo (2014) intitulado Concepções de professores da educação especial (APAEs) sobre a aprendizagem e desenvolvimento do aluno com deficiência intelectual: um estudo a partir da teoria vigotskiana teve como objetivo identificar concepções de professores, que atuam na educação especial, sobre a aprendizagem e desenvolvimento de alunos com deficiência intelectual. Também, averiguar como os professores compreendem esse processo e as suas percepções sobre o papel da mediação na aprendizagem. Como metodologia foi feita uma coleta de dados por meio de entrevistas semiestruturada e os resultados permitiram compreender que, para os participantes da pesquisa, a aprendizagem e desenvolvimento do aluno com deficiência ocorre de forma lenta, justificado pela limitação deste. Também que a mediação docente não é vista como de fundamental importância para o aprendizado e desenvolvimento desses alunos. Estes dados, segundo os autores, apontaram que esses professores desenvolvem sua prática pedagógica, normalmente, ancorada numa visão segregacionista do aluno com deficiência, com concepções reducionistas, enfatizando as limitações em detrimento das potencialidades. Conclui-se, segundo os autores, que as escolas precisam, então, oportunizar reais condições de aprendizagem dos conteúdos e, para tal, os autores salientam a melhora nas condições de acesso ao ensino, da eliminação de barreiras, dos recursos necessários e materiais pedagógicos adequados para atender estes alunos e, ainda, o repensar sobre a formação do professor.
Santos e Martins (2015) publicaram o artigo Práticas de Professores Frente ao Aluno com Deficiência Intelectual em Classe Regular. Tal artigo como objetivo investigar as práticas pedagógicas de professores em uma escola pública municipal de Natal/RN, frente a alunos com Deficiência Intelectual (DI), matriculados em anos iniciais do Ensino Fundamental. Para isso, utilizou-se como metodologia a observação e entrevista semiestruturada e, os resultados apontaram práticas de docentes pautadas no fazer pedagógico tradicional, utilizando poucas estratégias que possibilitassem avanços na aprendizagem dos alunos em questão. Os autores salientaram muitas das dificuldades encontradas pelos docentes no cotidiano escolar e sugeriram que tais têm origem nas lacunas presentes na formação desse profissional.
Dall'Acqua e Caramori (2015), no artigo intitulado Estratégias pedagógicas empregadas por professores de educação especial aos seus alunos com deficiência intelectual severa: um estudo descritivo da prática docente, objetivaram a descrição e análise da implementação do processo educacional de alunos com deficiência intelectual severa, utilizando como foco as estratégias pedagógicas de professoras de Educação Especial na cidade de Araraquara. Para tal, utilizaram a entrevista semiestruturada realizada com as professoras, observação registrada em protocolo e diário de campo. Os resultados apresentam uma descrição do trabalho das quatro professoras participantes: Relacionando as estratégias identificadas com os critérios de mediação algumas considerações podem ser feitas. Todas as professoras ao fornecerem ajuda física aos seus alunos durante a realização das atividades caracterizam o emprego do critério intencionalidade e reciprocidade, pois demonstram suas intenções aos alunos deixando claro que estão dispostas a ajudá-los, a dar-lhes o suporte necessário para que consigam realizar aquela tarefa. As autoras concluíram que a maioria das professoras participantes não pratica de maneira efetiva a mediação com seus alunos, assim como não lhes era exigido que o fizessem. Assim, as autoras sugeriram que os programas de formação de professores, tanto inicial quanto continuada, poderiam ser beneficiados com a introdução da temática das estratégias pedagógicas associadas à experiência de aprendizagem mediada.
Braun e Nunes (2015), publicaram o artigo: A Formação de Conceitos em Alunos com Deficiência Intelectual: o Caso de Ian cujo objetivo foi investigar a elaboração dos processos de ensino e aprendizagem e a formação de conceitos por um aluno com deficiência intelectual. Para realização do estudo utilizou como procedimento metodológico filmagens, diário de campo, documentos coletados sobre as atividades, planejamentos de ensino, provas, testes, atas de reuniões e fichas de avaliação. Os episódios da interação professor aluno, filmados na sala de aula e na sala de recursos, indicaram possibilidades de ações pedagógicas importantes voltadas para situações de ensino com foco nos conceitos elaborados pelo aluno. As autoras concluíram que o desafio diante da deficiência intelectual e da formação de conceitos está em conhecer as possibilidades para o aluno conservar as informações e conhecimentos adquiridos. Identificaram, também, que a ação colaborativa entre as professoras se apresentou como condição importante no processo de ensino e aprendizagem do aluno.
Miranda e Pinheiro (2016), no artigo intitulado O ensino da Matemática ao deficiente intelectual: projetos de trabalho em uma perspectiva contextualizada e interdisciplinar objetivaram discutir a ressignificação do processo de ensino e aprendizagem de Matemática e Ciências para alunos com deficiência intelectual por meio de um projeto contextualizado e interdisciplinar. Assim, como metodologia foram aplicadas intervenções pedagógicas e, durante a aplicação do projeto de trabalho, observou-se que os alunos se mostraram motivados em aprender, assumindo a posição ativa no processo de conhecimento. Além disso, verificou-se em todas as etapas do desenvolvimento do projeto, os educandos demonstravam confiança em expor suas ideias, propiciando um clima encorajador para o aprender. Os resultados demostram que a proposta favoreceu a construção de conceitos de Matemática e Ciências alicerçados em situações do cotidiano, bem como a acessibilidade desses conhecimentos para alunos deficientes intelectuais. Os autores concluíram que a aprendizagem, por meio de projetos de trabalho na perspectiva interdisciplinar e contextualizada, tornou as aulas atrativas despertando o interesse dos alunos para o conhecimento matemático. Além disso, foi evidenciada a necessidade da escola oportunizar experiências que promovam a participação e a integração social desse aluno, como princípios norteadores para o ensino e aprendizagem e desenvolvimento de cidadania.
Viana e Gomes (2017) no artigo intitulado A produção escrita de pessoas com deficiência intelectual na interação com as tecnologias digitais da informação e comunicação, objetivaram investigar se a mediação em contexto digital, exerce influência sobre a qualidade das produções textuais, sob os aspectos semânticos e ortográficos da escrita de pessoas com deficiência intelectual. Para tal, realizou-se como metodologia sessões de intervenção, nas quais as pessoas com Deficiência Intelectual produziam textos, sob a mediação dos mediadores voluntários, no contexto digital. Os resultados indicam que as estratégias de mediação estabelecidas pelos mediadores exerceram influência positiva sobre as competências de escrita dos participantes com Deficiência Intelectual, visto a alteração qualitativa dos textos produzidos. Os autores concluíram que pessoas com Deficiência Intelectual se beneficiaram das tecnologias digitais de informação e comunicação e demonstraram competência para utilizar os recursos disponíveis no meio digital, quando suas ações são mediadas de forma clara, contextualizada, objetiva e adequada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao final do levantamento realizado para a presente pesquisa, nota-se uma lacuna decorrente da temática proposta e, portanto, um importante impacto no cenário educacional uma vez que, na maioria das vezes, os trabalhos científicos são bons norteadores dos caminhos propostos para a educação como um todo e, em especial para as pessoas com deficiência.
Nesse sentido, alguns questionamentos são levantados a partir da análise do trabalho proposto: Por quê o tema escolhido não vem sendo contemplado pelas pesquisas realizadas nos contextos universitários? Como ampliara tais pesquisas e, dessa forma, auxiliar os professores em sua prática profissional?
Obviamente, tais questionamentos são amplos e complexos para serem respondidos aqui mas, uma hipótese possível seria uma maior divulgação dos trabalhos realizados com esse público a fim de verificar quais técnicas vem demonstrando potencial importante para o ensino de alfabetização e letramento para pessoas com deficiência intelectual pois parece haver um hiato importante entre a prática profissional e as pesquisas científicas nessa área.
Vale ressaltar que o presente estudo demonstra, ainda, um baixo rigor científico e metodológico uma vez que analisa apenas duas revistas focadas na educação especial e que, portanto, seria sugestivo futuros estudos de revisão sistemática dessa literatura para complementação ou refutamento dos resultados aqui encontrados.
Ressalta-se, portanto, a importância do alfabetizar letrando na Educação especial uma vez que as crianças já nascem num ambiente letrado e ao valorizar essa bagagem cultural, o educador pode contribuir tanto na valorização dos conhecimentos de seus alunos como na probabilidade de um maior sucesso em todo processo de ensino e aprendizagem. Percebe-se, dessa forma, que atividades pedagógicas que refletem a perspectiva do letramento assumem papel fundamental para a aprendizagem e no processo de formação de conceitos construídos ao longo do processo de aquisição de escrita do aluno com deficiência intelectual.
Assim, destacamos que o papel da escola é uma importante ligação para a socialização dos aprendizados do mundo letrado e daí, advém a necessidade de entender os processos de alfabetização/letramentos das crianças, mostrando o quanto a linguagem influencia na criação e constituição dos sujeitos. Outro aspecto importante a ser considerado é o modo de atuação do professor para o planejamento das atividades a serem realizadas focalizando diversas formas que respeitem as especificidades e limitações de todos os seus alunos e, em especial, aqueles com algum tipo de deficiência.
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