Reflexões sobre Escolarização e Trabalho na Vida de Meninas e Mulheres Brasileiras a Partir do Curta - Metragem Vida Maria

Reflections on Schooling and Work in the Life of Brazilian Girls and Women from the Short Life Maria

Reflexiones sobre Escolarización y Trabajo en la Vida de niñas y mujeres brasileñas a partir del cortometraje Vida María

Rodrigo Ribeiro de Oliveira
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Brasil
Dagmar Silva Pinto de Castro
ADD UP Treinamento em Desenvolvimento Profissional e Gerencial, Brasil
Sueli Soares dos Santos Batista
Centro Paula Souza, Brasil

Reflexões sobre Escolarização e Trabalho na Vida de Meninas e Mulheres Brasileiras a Partir do Curta - Metragem Vida Maria

Research, Society and Development, vol. 8, núm. 1, pp. 01-12, 2019

Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 28 Julho 2018

Aprovação: 17 Agosto 2018

Resumo: Este estudo utiliza o curta-metragem Vida Maria (Ramos & Ramos, 2006), como uma importante oportunidade para aprofundar a discussão sobre escolaridade, trabalho e gênero nas histórias de vida de meninas e mulheres. Este estudo faz a reflexão sobre o filme na perspectiva da educação sempre negada e por isso das condições sempre renovadas da vida e do trabalho subalterno, busca-se estabelecer o contraponto com a realidade de mulheres estudantes de cursos técnicos que tiveram experiências similares às de Maria José em sua infância e que, de alguma forma, procuram superar esse círculo vicioso de miséria e submissão, entre outros fatores, por conta do acesso à formação profissional. Como modalidade de pesquisa optou-se por estudo exploratório e qualitativo realizado em uma escola técnica federal com discentes do curso técnico em administração. Os dados empíricos foram levantados por meio de grupo focal. A experiência vivida pelas alunas foi analisada buscando-se as convergências, divergências e ou idiossincrasias da aproximação entre ciência e arte por meio do curta-metragem “Vida Maria” em diálogo com a literatura. Os resultados apontam que a história de “Maria” está longe de ser apenas mais uma ficção, eles retratam a verdade, a realidade vivida por essas mulheres nos dias atuais.

Palavras-chave: Gênero, Escolarização, Curta-metragem Vida Maria.

Abstract: This study uses the short film Vida Maria (Ramos & Ramos, 2006) as an important opportunity to deepen the discussion about schooling, work and gender in the life histories of girls and women. This study makes the reflection about the film in the perspective of education always denied and therefore of the ever renewed conditions of life and subordinate work, we seek to establish the counterpoint with the reality of women students of technical courses who had experiences similar to those of Mary José in his childhood and who, somehow, seek to overcome this vicious circle of misery and submission, among other factors, due to access to vocational training. As a research modality we opted for an exploratory and qualitative study conducted at a federal technical school with students of the technical course in administration. Empirical data were collected through a focus group. The experience lived by the students was analyzed looking for the convergences, divergences and or idiosyncrasies of the approximation between science and art through the short film "Vida Maria" in dialogue with literature. The results point out that the story of "Mary" is far from just a fiction, they depict the truth, the reality lived by these women these days.

Keywords: Gender, Schooling, Short film Vida Maria.

Resumen: Este estudio utiliza el cortometraje Vida Maria (Ramos & Ramos, 2006), como una importante oportunidad para profundizar la discusión sobre escolaridad, trabajo y género en las historias de vida de niñas y mujeres. Este estudio hace la reflexión sobre la película en la perspectiva de la educación siempre negada y por ello de las condiciones siempre renovadas de la vida y del trabajo subalterno, se busca establecer el contrapunto con la realidad de mujeres estudiantes de cursos técnicos que tuvieron experiencias similares a las de María José en su infancia y que, de alguna forma, tratan de superar ese círculo vicioso de miseria y sumisión, entre otros factores, por el acceso a la formación profesional. Como modalidad de investigación se optó por estudio exploratorio y cualitativo realizado en una escuela técnica federal con discentes del curso técnico en administración. Los datos empíricos fueron levantados por medio de un grupo focal. La experiencia vivida por las alumnas fue analizada buscando las convergencias, divergencias e idiosincrasias del acercamiento entre ciencia y arte por medio del cortometraje "Vida María" en diálogo con la literatura. Los resultados apuntan que la historia de "María" está lejos de ser sólo una ficción, ellos retratan la verdad, la realidad vivida por esas mujeres en los días actuales.

Palabras clave: Género, la educación, El cortometraje de la vida de María.

1. Introdução

O curta-metragem de animação Vida Maria, com pouco mais de oito minutos, mostra ciclos de vida aos quais muitas vezes as meninas e as mulheres pobres vivem. Em sua sinopse, o enredo é apresentado como a história de uma menina de cinco anos de idade, num contexto rural representando o nordeste brasileiro. Ela se diverte e deixa o tempo passar aprendendo a escrever o nome. Interrompida em seu sonho de criança, é obrigada pela mãe a abandonar o caderno, começar a cuidar dos afazeres domésticos, trabalhar na roça e cuidar dos animais. Na fala da mãe se traduz e se reproduz a determinação às meninas que conhecem cedo a realidade do trabalho: “Vê se tu me ajuda, Maria José! ”

O curta-metragem venceu inúmeros festivais nacionais e internacionais no ano de seu lançamento. É uma produção cearense de Joelma Ramos e Marcio Ramos. A narrativa faz entender que Maria José é apenas mais uma Maria que deixou de lado os estudos e os brinquedos, sendo levada pelas circunstâncias, dedicando-se aos afazeres da casa e da subsistência familiar, para depois dedicar-se, ainda muito jovem ao marido e a inúmeros filhos.

Vivendo em estado de subordinação aos lugares que lhe foram determinados, sua vontade e seus sonhos não ultrapassam a cerca da casa onde vive. São muitas Marias que a antecedem e que, do mesmo modo, a ela se sucederão. No seu caderninho, como um registro da memória familiar e coletiva, aparecem os nomes escritos de Maria da Conceição, Maria do Carmo, Maria de Fátima, Maria das Dores, da própria Maria José e sua filha Maria de Lurdes que também precisará abandonar o sonho da escola pela realidade do trabalho doméstico e do campo, pelo romance que chega tão cedo na presença dos Antônio, dos José e tantos outros jovens homens com trajetórias sertanejas similares. Desses sonhos e amores o curta-metragem mostra que se espera somente o fim precoce da infância, uma prole grande, a perpetuação da miséria, e a condição de trabalho precário dos homens, das mulheres, das famílias e das crianças condenadas a seguir essa trajetória.

Os diretores e roteiristas da animação afirmaram que a motivação para concebê-la veio da percepção da própria trajetória familiar e individual vivendo no estado da Paraíba em que:

Nascer mulher no interior nordestino limitava a vida daquelas pessoas ainda mais. Porque o homem podia trabalhar além da cerca, mas era papel da mulher ficar em casa, cuidando dos filhos, das tarefas domésticas e esperando o marido chegar. Resolvi unir minha experiência pessoal com a visão sobre aquela mulher e surgiu o Vida Maria (Ramos & Ramos, 2006).

A cerca é uma marca importante em toda a animação. Maria José só sai de casa para ir ao quintal e é como toda sua vida se passasse nos limites marcados entre este quintal e o mundo externo. A dimensão lúdica e educacional são dimensões ausentes na vida de Maria José que nunca chega ao portão. Chegar ao portão, como mencionado na música de Nonato Buzar e Paulinho Tapajós é, em grande parte, contemplar o que está fora, perceber os limites e ouvir outros convites da vida. O convite para brincar, para entrar na roda, girar e talvez fazer uma outra história extramuros, extra cercas do que se esperou dela até então.

Vida Maria explora as limitações e a falta de perspectiva que essas meninas e mulheres enfrentam durante toda a sua vida, algo que se repete por diversas gerações, submetidas ao trabalho precoce, ininterrupto e invisível. Neste sentido, a temática do curta-metragem transborda os limites do sertão, aproximando-se também das meninas e mulheres pobres urbanas.

Este estudo se vale do curta-metragem Vida Maria, como uma importante oportunidade de aprofundar a discussão sobre escolarização, trabalho e gênero nas histórias de vida de meninas e mulheres. Nos limites deste estudo, além da reflexão sobre o curta-metragem na perspectiva da educação sempre negada e por isso mesmo das sempre renovadas condições de vida e de trabalho subalternas, busca-se estabelecer o contraponto com a realidade de mulheres estudantes de cursos técnicos que tiveram experiências similares às de Maria José em sua infância e que, de alguma forma, procuram superar esse círculo vicioso de miséria e submissão, entre outros fatores, por conta do acesso à formação profissional.

Na parte final do artigo é apresentada uma pesquisa empírica com alunas de uma escola técnica pública em São Paulo. São filhas de mulheres trabalhadoras do campo ou da cidade, nordestinas ou não, de mães quase sempre analfabetas que as inspiraram a buscar trajetórias de mulheres escolarizadas e, espera-se, com melhores perspectivas.

2. Fundamentação teórica

Toda mulher, independente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais, sendo-lhe asseguradas oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social (Lei nº 11.340, 2006).

O curta-metragem Vida Maria retrata a realidade brasileira que vem demarcada secularmente pela desigualdade social-política-econômica e cultural Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] (2014a) (IBGE, 2014b, IBGE, 2015, IBGE, 2018). Tornar-se mulher e ter uma vida digna tem sido um desafio para muitas meninas que precisam ter garantida em seu horizonte a eliminação de práticas danosas como trabalho infantil, baixa escolaridade, casamento forçado e precoce e todas as formas de violência contra meninas e mulheres.

Não se nasce mulher, torna-se mulher Beauvoir (1980). É possível afirmar que nesse processo, as meninas devem romper os limites da cerca e atravessar o portão de suas existências, assinalando que não ficarão à mercê dos papéis previamente impostos pela sociedade. A construção de uma educação emancipatória e de uma sociedade mais justa depende disso.

Mas é evidente que não basta apenas a pessoa reconhecer a sua condição e querer transformá-la. De alguma forma, o curta-metragem Vida Maria aponta para a necessidade de soluções coletivamente engendradas e de enfrentamentos que extrapolam a dimensão individual. O que falta na vida das Marias que se sucedem são as ações na esfera pública, por meio de escolas, creches, espaços de convivência, de trabalho associado. Isso significa não só o esforço individual, mas maior suporte econômico, político e cultural para que seja possível romper com o ciclo de encarceramentos historicamente construídos para meninas e mulheres.

O curta-metragem Vida Maria mostra a importância e a influência do papel da família no processo da socialização primária (Berger & Luckman, 1974), que configura os papéis sociais e as possibilidades de se ver em determinado grupo social e realidade. A família representada no curta-metragem é a que encontramos em diferentes locais, seja da zona rural ou urbana no Brasil em que as meninas foram designadas a serem mães e a postergarem o estudo. A educação é vista nessas situações como algo de segundo plano, um luxo para poucos diante das demandas da sobrevivência. A mãe de Maria José assinala constrição quando percebe que a filha está repetindo sua própria história, mas isso não passa de um rápido segundo em que seu olhar se turva rememorando sua trajetória, para na sequência repetir o discurso mais forte da impossibilidade face a uma realidade que se pensa natural e irreversível.

No Brasil, que ainda sofre com os resquícios de uma sociedade patriarcal e escravocrata, as mulheres participam menos do mercado de trabalho que os homens em função de barreiras culturais que persistem. Na verdade, o trabalho feminino é em grande parte invisível para a sociedade.

Na síntese de indicadores sociais brasileiros, divulgados pelo IBGE em 2013, foi identificado que em 2012, 9 milhões e 600 mil jovens brasileiros não estudavam nem trabalhavam. Isso permite diagnosticar que um em cada cinco jovens estão nessa situação, sendo a maioria mulheres. Essa é uma realidade já observada nas pesquisas relativas a 2005-2009. Os dados revelaram que 74,1% das mulheres de 25 a 29 anos que não estudam nem trabalham têm ao menos um filho (IBGE, 2014b).

Esses números são significativos e podem ser parcialmente entendidos quando verificamos que o Brasil é um dos países com mais trabalhadores domésticos do mundo. De fato, o Brasil lidera a lista de países com o maior número de trabalhadores domésticos, como empregadas, babás e caseiros, na frente de Índia, Indonésia, Filipinas e México. Segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho [OIT] divulgado em 2013, essas nações têm 17,5 milhões de pessoas que prestam serviços domésticos, sendo o Brasil responsável por 41% desse total, com 7,2 milhões de trabalhadores. A pesquisa aponta o desemprego e a baixa qualificação de mulheres como um dos principais motivos para o aumento global desse setor. Certamente, esse indicador eleva os índices do trabalho informal, já que muito recentemente a legalização do trabalhador doméstico passou a ser uma preocupação. As meninas começam neste tipo de trabalho muito precocemente como pôde mostrar o curta-metragem Vida Maria.

O estudo do IBGE (2014a) revelou as diferenças na jornada de trabalho entre homens e mulheres. A dos homens é mais longa: 42 horas semanais, contra 36 das mulheres. Dentro de casa, porém, elas dedicam o dobro do tempo às tarefas domésticas que se iniciam muito antes que meninas possam ser consideradas mulheres.

Em 2014, a OIT divulgou relatório intitulado Lucros e Pobreza: Aspectos Econômicos do Trabalho Forçado revelando que dois terços do total estimado de 150 bilhões de dólares gerados pelo trabalho forçado, ou seja, 99 bilhões, originam-se da exploração sexual comercial, enquanto 51 bilhões são resultantes da exploração com fins econômicos, que abarcam o trabalho doméstico, a agricultura e outras atividades econômicas (OIT, 2014).

Segundo a Pesquisa Nacional de Demográfico e Saúde da Criança e da Mulher – do Ministério da Saúde, 35,6% das mulheres de 20 a 24 anos de idade responderam que estiveram casadas ou em união antes dos 18 anos (IBGE, 2018). Isso porque no Brasil, o casamento civil só é permitido para as pessoas a partir de 16 anos de idade, sendo que, para os jovens com 16 e 17 anos não emancipados, exige-se autorização de ambos os pais ou representantes legais.

Segundo Castro e Silva (2014) são lugares e papéis diferentes que demarcam os espaços de circulação, interação e poder nas relações sociais de gênero. Esses lugares e papéis diferenciados inscrevem-se no corpo biológico e em nome da diferença instauram-se as desigualdades de gênero e isso ocorre antes mesmo do nascimento.

A matriz dessa concepção atribuí o poder ao homem, reforçado pela religião, que por sua vez legitima atitudes de submissão e obediência por parte das mulheres. O processo de socialização vai pautando o que é ser menina e o que é ser menino e desde os primeiros anos de vida são reproduzidos scripts em que a mulher nasceu para ser mãe, cuidadora, submissa, obediente. A produção da subjetividade da mulher desde a mais tenra idade impõe um status de dependência que não se vê em relação ao homem.

Para Bourdieu (1974), nas religiões a hierarquia sexual encontra seu lócus privilegiado de produção e reprodução, face ao seu poder de legitimação do arbitrário. Nesse contexto em que a produção da subjetividade historicamente ocorre na tensão das relações de poder é que a autora Beauvoir (1980) afirma que ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Aí se encontra a força e fragilidade dos processos de retroalimentação das relações assimétricas de poder. A síntese da produção de uma subjetividade, que ao longo dos séculos naturalizou os papéis de homem e mulher, pode ser subvertida ao estabelecer a tradição de que gênero enquanto uma construção social que vai além das características genotípicas.

A desnaturalização dos processos que remetem à ordem da natureza e justificam as desigualdades implica em desmitificar as máximas de que é da natureza da mulher ser submissa, rompendo com o imutável papel social da dependência feminina. Enquanto sociedade, definimos padrões de comportamento, hábitos e características para os sexos. Para Scott (1995) as diferenças entre os corpos são constantemente solicitadas a testemunhar e legitimar as relações sociais. A escola como uma das instituições básicas presentes no primeiro nível da realidade social (Lapassade, 1984) possui lugar privilegiado para potencializar experiências que permitam desnaturalizar a desigualdade de gênero.

A baixa escolaridade dificulta o ingresso no mundo do trabalho levando muitos a procurarem essa escolarização em diferentes etapas da vida. Quanto mais cedo se inicia nas atividades laborais com mais dificuldade se entra no que se convencionou chamar “mundo do trabalho” já que essa expressão implica uma diferenciação com o mundo da escola. Quem nunca ou tardiamente foi à escola não tem ou não teve o direito de perceber essa diferenciação e é comum ter se dedicado ao trabalho como único caminho possível. A inserção precoce no trabalho implica numa exclusão do direito a um trabalho decente que para existir exige o acesso à escolarização. O trabalho doméstico atribuído essencialmente às meninas e às mulheres é um fator importante para a dificuldade em superar esse tipo de trajetória.

A escola tem assumido cada vez mais o dever de educar para o mundo do trabalho e, principalmente, para a inserção do educando na realidade social. Preparar para o mundo do trabalho também é construir visões críticas sobre a exploração do trabalho ou a dificuldade em ter acesso à ele de maneira digna. Especificamente, é necessário enfatizar a importância da alfabetização e da formação profissional das mulheres que foram excluídas do sistema educacional por décadas.

3. Metodologia

Em 2016, foi realizado um estudo em uma escola técnica federal no município de Sorocaba – SP, com cinco mulheres que naquele ano estavam concluindo o curso técnico subsequente, ou pós-médio, curso este voltado aos estudantes que já concluíram o Ensino Médio e buscam uma formação técnica. Este tipo de curso tem duração de um ano e meio e confere ao formando o diploma de técnico em administração de nível médio. A opção por essas mulheres se deu por apresentarem trajetórias familiares aproximadas ao tema do curta-metragem, possibilitando a análise no campo empírico do tema que a animação trata em relação ao trabalho, gênero e educação.

Os dados foram coletados a partir da realização de grupo focal com cinco alunas do curso técnico em administração. Para interpretar e avaliar suas falas foi utilizada a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 1995).

Foram convidadas, para participar desta pesquisa, estudantes que estavam concluindo o curso e que fossem mães. Após o aceite, foi agendado dia e horário para a realização do grupo focal (Cruz Neto, Moreira, & Sucena, 2002; Duarte, 2004). O grupo focal foi realizado em uma sala de aula e o encontro durou 73 minutos, havendo gravação em vídeo e posterior transcrição das falas. Inicialmente as cinco participantes da experiência assistiram ao curta-metragem Vida Maria e foram questionadas a respeito das suas percepções em relação a ele.

O objetivo ao assistir ao curta-metragem de maneira compartilhada e depois, coletivamente, refletir sobre ele, não teve um caráter informativo ou de entretenimento. Concordamos com Xavier (2008) quando afirma que a experiência com o cinema que educa é aquela que faz pensar não só em relação à linguagem cinematográfica, mas quanto às variadas experiências e questões dos indivíduos e dos grupos. Ou seja, “a questão não é “passar conteúdos”, mas provocar a reflexão, questionar o que, sendo um constructo que tem história, é tomado como natureza, dado inquestionável (Xavier, 2008, p.15).

4. Análise e discussão dos resultados

As mulheres brasileiras hoje, como na maior parte do mundo, continuam enfrentando restrições impostas pela visão machista e patriarcal, seja no espaço público, seja no privado. Isso significa que elas têm seus direitos sonegados no trabalho, na educação, na atenção à saúde, na política e em casa. As mulheres que fazem parte de populações que também sofrem discriminação, como as mulheres negras, indígenas, homossexuais, sofrem ainda mais violações de seus direitos e têm bandeiras de luta específicas (Choueri & Vieira, 2015, p. 22).

Foi notória a associação que as mulheres fizeram com a sua própria infância, tendo como imagem central dessa associação a experiência com as mães:

[...] eu lembrei da minha mãe porque ela foi criada desse jeito e ela passou isso para mim que a mulher não precisava estudar. O pai dela falava que a caneta de pobre era enxada, ela foi criada na roça [...]E ela me criou assim [...] não estudava, só cuidava da casa e do marido e dos filhos [...] (S. A. 51 anos)

A minha história é a mesma. Eu lembro da minha mãe também, ela trabalhava na roça, trabalhava cortando cana. (J. A. 50 anos)

Com a minha mãe foi a mesma coisa também. A minha mãe foi criada na roça em Minas Gerais. [...] E o pai da minha mãe nunca deixou ela estudar também, ela não sabia nem assinar o nome dela[...] teve 5 filhos com meu pai e nunca estudou, nunca foi para escola [...] (C. P. 36 anos)

As mães dessas mulheres, em sua maioria, como abordado no curta-metragem eram analfabetas e em alguns casos conseguiram estudar quando adultas:

[...] ela era analfabeta, ela desenhava o nome, pois ela não conhecia as letras. [...]tanto é que aprendeu a ler e escrever quando eu era criança, estava na 5ª série quando ela foi aprendendo a ler e escrever mais ou menos. (A. M. 32)

Ela não concluiu os estudos, mas ela aprendeu a ler e escrever, não muito bem mas conseguiu e ela passou para todos os filhos que o estudo é tudo (J. A. 51 anos)

[...] aí ela separou do meu pai e voltou a estudar. Eu tinha 19 anos, estava me formando no 2° grau e a minha mãe foi para a escola. (C. P. 36 anos)

Ver a história familiar e em particular da mãe, fez com que as mulheres participantes, agora estudantes, pudessem perceber que a sua história em grande parte foi engendrada nos mesmos moldes e que tiveram de resistir e perseverar para que fizessem algo distinto:

Eu fui criada para casar, ter filhos, cuidar da casa, do marido e dos filhos [...] a primeira vez que vi esse filme, na hora lembrei da minha mãe, porque você não tem oportunidades, não tem chances e vai passando de mãe para filha e assim vai indo [...] (S. A. 51 anos)

Aprender a ler e a escrever já adultas foi apontado pelas entrevistas como uma grande vitória para as suas mães que se viram superando a clausura a qual foram submetidas desde a infância:

Ela escreveu o nome dela e chorava de emoção [...] (J. A. 51 anos)

Eu lembro que quando ela aprendeu a ler, ela foi para a cidade (centro de Sorocaba) aí chorou quando conseguiu ler no ônibus escrito "laranjeiras" ela chegou chorando em casa dizendo: - Filha, agora eu sei ler porque eu li o ônibus “Laranjeiras” (C. P. 36 anos)

5. Considerações finais

A experiência vivida pelas alunas foi analisada buscando-se as convergências, divergências e ou idiossincrasias da aproximação entre ciência e arte por meio do curta-metragem “Vida Maria” em diálogo com a literatura.

O papel das escolas técnicas é também ter um olhar para essa questão em relação às alunas e compreender o quão difícil foi para elas ultrapassarem os limites e chegarem até a sala de aula. Estudar, quando é possível fazer essa escolha, ainda não se faz sem sacrifícios:

[...] para a gente que é mãe é difícil, pois é como se tivesse tirado um pedaço da gente né. A gente não está com a criança durante o dia, e na hora que vai dormir, você olha para criança e pensa "nossa parece que não fiz nada para a criança hoje" e você acaba chorando sozinha a noite [...] você trabalha, estuda, então você pensa “Nossa a menina ficou o dia inteiro sem mim, parece que está faltando alguma coisa, não consigo explicar isso”. Ás vezes está dormindo e não brinquei com ela, acabou o dia e o dia já foi, então é difícil, a gente tem que segurar com isso para conseguir vir outro dia aqui [...] “Mãe vamos andar de bicicleta lá na calçada” e eu digo: “Não dá, tenho que ir para o curso”. (C. P. 36 anos)

Faz-se necessário atentar ao papel da escola e das políticas educacionais, criando condições de romper essa cerca invisível e poderosa buscando condições para que seja ultrapassada, incentivando que essas mulheres estudem e se profissionalizem.

A escola é um dos espaços do saber e da emancipação. Um espaço que precisa ser potencializado na busca por autonomia dessas mulheres que tiveram suas mães cerceadas e que se vêm, ainda de alguma forma, amuralhadas, impedidas de atravessar satisfatoriamente as barreiras que são históricas.

Os resultados apontam que a história de “Maria” está longe de ser apenas mais uma ficção, eles retratam a verdade, a realidade vivida por essas mulheres nos dias atuais.

Referências

Bardin, L. (1995). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.

Beauvoir, S. (1980). O segundo sexo: a experiência vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Berger, P. L., & Luckmann, T. (1974). A Construção Social da Realidade. Petrópolis: Vozes.

Bourdieu, P. (1974). Gênese estruturante do campo religioso. In: Miceli, S. (Org.) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva.

Castro, D. S. P., & Silva, I. (2014). Políticas Públicas Integradas, gênero e religião: mais, mas não do mesmo In Souza, S. D., & Santos, N. P. (Org.) Estudos Feministas e Religião – Tendências e Debates, Curitiba: Prismas.

Choueri, M., & Vieira, M. (2015). Coleção Caravana de Educação em Direitos Humanos Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - SDH/PR e Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais - Flacso Brasil.

Cruz Neto, O., Moreira, M. R., & Sucena, L. F. M. (2002). Grupos focais e pesquisa social qualitativa: o debate orientado como técnica de investigação. Anais do Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, Ouro Preto, MG, Brasil, 13.

Duarte, R. (2004). Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar, Curitiba, 24, 213-225.

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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2018). Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Recuperado em 10 agosto, 2018, de https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_informativo.pdf

Lapassade, G. (1984). Grupos, Organizações e Instituições. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006 (2006). Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Brasília, DF. Recuperado em 10 agosto, 2018, de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm

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Scott, J. W. (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, (20) 2, 72-99.

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