Desafios da contemporaneidade: a (des) motivação de alunos de uma escola pública quanto ao processo de aprendizagem
Contemporary challenges: the (de) motivation of pupils from a public school as to the learning process
Desafíos de la contemporaneidad: la (des) motivación de alumnos de una escuela pública en cuanto al proceso de aprendizaje
Desafios da contemporaneidade: a (des) motivação de alunos de uma escola pública quanto ao processo de aprendizagem
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 1, pp. 01-13, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 21 Julho 2018
Aprovação: 11 Agosto 2018
Resumo: Este trabalho possui o objetivo de compartilhar algumas reflexões acerca da escola contemporânea em interface de uma vivência em sala de aula. Neste contexto, articula-se o referencial teórico embasado em uma experiência pedagógica com enfoque na Matemática Financeira, aplicada ao terceiro ano do Ensino Médio de uma Escola Estadual do Vale do Taquari/RS, no primeiro trimestre de 2015. A finalidade desta proposta foi vincular o conteúdo programado através do Plano de Estudos da escola, com um assunto relacionado com o cotidiano dos alunos. Através de atividades proporcionadas, foi possível oportunizar diversas reflexões, uma vez que era perceptível o desânimo e falta de motivação dos alunos em sala de aula. Para tanto, foram utilizados autores que tratam dessa temática, como Ó e Costa, Nóvoa, Ghedin e Pérez Goméz. Salienta-se que, faz-se necessário repensar o papel da escola e os desafios a serem superados, para que ela se torne sempre mais atrativa e proporcione ao aluno um ambiente mais envolvente. Salienta-se que a motivação se origina no desejo de se satisfazer uma necessidade, não havendo necessidade, não haverá motivação. Portanto, destaca-se que através da proposta pedagógica realizada, foi possível apontar meios para superar algumas dificuldades encontradas pelos alunos, promovendo de forma motivadora, interações entre o conteúdo em estudo e o cotidiano do aluno.
Palavras-chave: Escola, Ensino e Aprendizagem, Matemática Financeira.
Abstract: This work aims to share some reflections about the contemporary school in the interface of an experience in the classroom. In this context, the theoretical framework is based on a pedagogical experience focusing on Financial Mathematics, applied to the third year of high school in a State School of Vale do Taquari/RS, in the first quarter of 2015. The purpose of this proposal was to link the content programmed through the School Study Plan, with a subject related to the daily life of the students. Through provided activities, it was possible to offer several reflections, since it was noticeable the discouragement and lack of motivation of the students in the classroom. For that, authors dealing with this theme were used, such as Ó and Costa, Nóvoa, Ghedin and Pérez Goméz. It should be emphasized that it is necessary to rethink the role of the school and the challenges to be overcome, so that it becomes ever more attractive and provides the student with a more involving environment. It is emphasized that motivation originates in the desire to satisfy a need, if there is no need, there will be no motivation. Therefore, it is highlighted that through the pedagogical proposal, it was possible to point out ways to overcome some difficulties encountered by the students, promoting, in a motivating way, interactions between the content in study and the daily life of the student.
Keywords: School, Teaching and learning, Financial math.
Resumen: Este trabajo tiene el objetivo de compartir algunas reflexiones acerca de la escuela contemporánea en interfaz de una vivencia en el aula. En este contexto, se articula el referencial teórico basado en una experiencia pedagógica con enfoque en la Matemática Financiera, aplicada al tercer año de la Enseñanza Media de una Escuela Estadual del Valle del Taquari / RS, en el primer trimestre de 2015. La finalidad de esta propuesta fue vincular el contenido programado a través del Plan de Estudios de la escuela, con un asunto relacionado con el cotidiano de los alumnos. A través de actividades proporcionadas, fue posible oportunizar diversas reflexiones, ya que era perceptible el desánimo y falta de motivación de los alumnos en el aula. Para ello, se utilizaron autores que tratan esta temática, como Ó y Costa, Nóvoa, Ghedin y Pérez Goméz. Se destaca que, es necesario repensar el papel de la escuela y los desafíos a ser superados, para que ella se vuelva cada vez más atractiva y proporcione al alumno un ambiente más envolvente. Se subraya que la motivación se origina en el deseo de satisfacer una necesidad, no habiendo necesidad, no habrá motivación. Por lo tanto, se destaca que a través de la propuesta pedagógica realizada, fue posible apuntar medios para superar algunas dificultades encontradas por los alumnos, promoviendo de forma motivadora, interacciones entre el contenido en estudio y el cotidiano del alumno.
Palabras clave: Escuela, Enseñanza y Aprendizaje, Matemática financiera.
1. Introdução
O presente artigo é resultado de reflexões em torno dos desafios da escola na contemporaneidade, o qual revelou a necessidade de refletir sobre a des (motivação) dos alunos quanto ao processo de aprendizagem, como uma das dificuldades do sistema educacional contemporâneo. Partindo dessas considerações, esse artigo assume um caráter reflexivo, uma vez que se propõem a analisar uma vivência em sala de aula, a partir de um projeto voltado para o conteúdo de Matemática Financeira, com alunos do terceiro ano do Ensino Médio, em alusão a aspectos como a (des) motivação na aprendizagem, ocorridos durante o primeiro trimestre de 2015. Neste contexto, o trabalho possui o objetivo de compartilhar algumas reflexões acerca da escola contemporânea em interface de uma vivência em sala de aula.
Nesse viés, destaca-se que professora envolvida é autora deste artigo. A escola onde este estudo foi realizado localiza-se em um bairro de periferia no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, com alunos de famílias de classe baixa. Neste bairro, altos índices de criminalidade são característicos, frequentemente, conflitos de violência física e verbal ocorrem no interior da escola. O desafio do dia a dia com a realidade encontrada no bairro, principalmente em relação a (des) motivação apresentada pelos alunos, no início do ano letivo, era preocupante. Por outro lado, contribuiu para que, gradativamente, a docente buscasse melhores formas de associar os conteúdos escolares com a realidade na qual os alunos estão inseridos, despertando o interesse para torná-los corresponsáveis por sua aprendizagem.
Acredita-se que se a motivação se origina nas perturbações de contemplar uma necessidade, se esta não houver, consequentemente não haverá motivação também. Assim sendo, se o aluno não tem interesse ou não consegue atribuir um sentido pelo conteúdo ensinado em sala de aula, irá afastar-se deste ambiente. Bzuneck (2001, p. 13) em suas enunciações sobre esse assunto, destaca que:
[...] a motivação tornou-se um problema de ponta em educação, pela simples constatação de que, em paridade de outras condições, sua ausência representa queda de investimento pessoal de qualidade nas tarefas de aprendizagem. Alunos desmotivados estudam muito pouco ou nada e, consequentemente aprende muito pouco.
Neste contexto, a motivação envolve um conjunto de fatores no âmbito educacional. Para abordar os aspectos relacionados a essa temática, na primeira seção denominada “Considerações sobre a Escola Contemporânea” faz-se uma abordagem da atual escola e também aspectos históricos, fundamentada principalmente em Veiga-Neto (2000-2007), Ó e Costa (2007) e Pérez Gómez (2015). Em seguida, situa-se a realidade local da escola, onde se vivenciou a proposta didática. Em “A Matemática Financeira e o cotidiano dos alunos” relata-se uma situação emergente a partir da vivência relacionada ao conteúdo de Matemática Financeira com a (des) motivação na aprendizagem dos alunos, como um desafio da contemporaneidade, em uma Escola Estadual do Vale do Taquari. Após, faz-se as Considerações Finais.
1.1 Considerações sobre a escola contemporânea
Na sociedade contemporânea, segundo Feijó (2009), a educação, considerada como fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade, reivindicada pela modernidade e por todos os seus projetos, torna-se ainda mais importante. Dessa maneira, principalmente no início do século XXI, momento em que a informação e o conhecimento passam a ocupar um espaço central nas diversas formas organizacionais e nos diferentes projetos desenvolvimentistas. Para Ó e Costa (2007), a escola é uma instituição secular que, apesar das mudanças ocorridas desde a sua criação, ainda mantém características bastante firmes e até mesmo intocadas. Nessa mesma perspectiva, Pérez Gómez (2015, p.36) evidencia que “[...] as escolas não mudaram significativamente nem sua estrutura, nem seu funcionamento desde a sua constituição como instituição de massa no final do século XIX”.
Em alusão a essas considerações, Veiga-Neto (2007), afirma que a escola foi fundamentada em práticas disciplinares, para manter uma sociedade disciplinar. Uma vez que a escola como instituição que tem/teve sua constituição alicerçada em princípios caros à tradição da modernidade, também se vê abalada pelo modo de viver contemporâneo, em que novas formas de poder entram em jogo, pois o poder disciplinar, cuja ênfase se dá na sociedade moderna, conforme o trecho:
Não é incompatível com outras formas de poder que, ao longo do século XXI, forma atuando e se organizando na escola. Pelo contrário, as práticas disciplinares espaço-temporais [...] até mesmo se articulam com as práticas que as novas pedagogias, principalmente as corretivas e as psicológicas, colocaram em movimento (VEIGA-NETO, 2000, p. 12-13).
Partindo desse pressuposto, Pérez Gómez (2015) evidencia que a escola contemporânea parece uma instituição mais acomodada às exigências do século XIX do que aos desafios do século XXI, sendo ela guiada pela uniformidade. Nesse mesmo sentido, Ó e Costa (2007, p. 110) afirma que:
Para mim o que é mais evidente como historiador é que a escola mudou, apesar de tudo, menos rapidamente do que mudou a população que a foi constituindo. O modelo secular que temos hoje é um modelo que foi criado no final do século XIX e que se baseia estruturalmente, digamos assim, na construção de grupos homogêneos de alunos que progridem por classes e onde existe sempre uma correlação entre a idade do aluno e o saber que lhe é fornecido.
Partindo dessas acepções, Sibilia (2012) ressalta que a escola está em crise, incompatível com os corpos e as subjetividades das crianças e jovens do século XXI. Uma pedagogia obsoleta, escolas segregadas, classes lotadas, alunos entediados e desinteressados e professores esgotados são características que definem a vida da maioria das escolas contemporâneas.
A autora ressalta que a insatisfação generalizada com relação à qualidade dos sistemas de ensino, para enfrentar os complexos e incertos cenários atuais, está gerando uma busca por alternativas e reformas que não parecem produzir os efeitos desejados. Quando os alunos contemporâneos abandonam a escola todos os dias, eles se introduzem em um cenário de aprendizagem organizado de uma maneira totalmente diferente, pois “[...] na era globalizada da informação, o acesso ao conhecimento é relativamente fácil, imediato, onipresente e acessível” (PÉREZ GÓMEZ, 2015, p. 14).
As exigências de formação dos cidadãos contemporâneos são de tal natureza que “[...] é preciso reinventar a escola” (PÉREZ GÓMEZ, 2015, p.29). Ademais, Ó e Costa (2007) acredita que historicamente o professor foi colocado fora do processo de construção da aprendizagem. O papel do professor teria de passar a definir-se cada vez menos como reprodutor de uma verdade estabelecida, quase sempre expressa no manual escolar, da verdade que está no programa.
Dessa forma, Ó e Costa (2007) ainda destaca que o professor deveria saber transformar-se num ator social, capaz de escutar como escuta as necessidades dos alunos, e basear todo seu trabalho na troca dessa prática da escrita na sala de aula. Muitos docentes parecem ignorar a extrema importância da nova exigência na sua tarefa profissional. Partindo desse pressuposto Pérez Gómez (2015), destaca que o desafio da escola contemporânea reside na dificuldade e na necessidade de transformar a enxurrada desorganizada e fragmentada de informações em conhecimento, uma vez que, a aprendizagem escolar contemporânea se configura como uma atividade desconectada, separada, com poucas conexões com a vida dos alunos.
2. Materiais e métodos
Este relato parte de vivências que aconteceram no segundo semestre de 2015, quando a docente foi nomeada como professora da rede estadual do RS. A Escola pertence ao Vale do Taquari e é localizada em um bairro cuja população é considerada de classe baixa, onde o índice de violência e criminalidade é bastante elevado. A experiência sobre Matemática Financeira foi realizada em uma turma do terceiro ano do Ensino Médio noturno, composta por dezessete alunos, com idade entre dezesseis e quarenta e oito anos, sendo dez meninos e sete meninas. Todos trabalhadores, a maioria na área do comércio e na construção civil.
As informações discutidas nesse artigo são oriundas do diário de campo da professora, sendo que durante e após as atividades, algumas anotações foram realizadas com base em fatos e falas significativas. Trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo, utilizando-se de uma abordagem teórica preconizada por Ludke e Andre (2013). Buscando preservar a identidade dos alunos, as menções individuais serão nominadas pelo codinome “Aluno”, seguido de letras sorteadas aleatoriamente. Para este estudo observou-se também os critérios éticos preconizados pela Resolução 466/12, a qual contempla a área de pesquisas com seres humanos.
3. Contextualizando a experiência
Inicialmente, muitos dos alunos não participavam de forma significativa das aulas, pois se diziam cansados, devido ao dia de trabalho; outros, relatavam não se interessar pelos conteúdos propostos na escola. Para Barbosa (2005, p. 21-23) a origem da motivação é “[...] o desejo de satisfação de necessidades e um conjunto de fatores que determinam a conduta de um indivíduo”.
Neste mesmo sentido, Fita (1999, p.77)“[...] a motivação é um conjunto de variáveis que ativam a conduta e a orientam em determinado sentido para poder alcançar um objetivo”, dessa forma, estabelecendo ações que levam as pessoas a alcançarem seus objetivos. Nessa mesma perspectiva, Barbosa (2005) destaca que, ao observar-se o porquê das pessoas serem motivadas, há que se notar dois fatores: o fator intrínseco, que é a vontade da própria pessoa, e a fator extrínseco, que é ocasionada por fatos externos principalmente do ambiente de trabalho. À vista disso, verifica-se que a motivação é um comportamento causado por necessidades, direcionado aos objetivos de satisfação dessas necessidades.
Partindo dessas considerações acredita-se que a escola gerou progressivamente um “currículo monstruoso” (PÉREZ GÓMEZ, 2015, p. 32). Esse currículo fragmentado, desconectado, sem relação com o cotidiano onde estão inseridos, não pode provocar entusiasmo nos aprendizes contemporâneos. Conforme verificado pelos alunos conforme os relatos abaixo:
Aluno A: Professora! Não entendo o porquê a senhora se preocupa tanto em fazer atividades diferenciadas e querer ensinar a matemática, se a gente mora aqui na vila e não vai sair daqui, por isso, nem se preocupe em passar conteúdo e tentar querer ensinar alguma coisa.
Aluno B: Aqui ninguém vai fazer faculdade, por que a gente mora na vila.
Aluno C: Quem mora na vila, não sai da vila!
Aluno D: A gente está aqui só para ter o papel, não precisa ensinar nada!
No início do ano letivo era perceptível que muitos estudantes não se envolviam nas atividades que eram propostas e se rotulavam pelo fato de residirem em um bairro menos favorecido economicamente. Também se percebeu através dos comentários, a falta de expectativas para o futuro, alunos desacreditados em seu potencial. Pérez Gómez (2015, p. 35) reflete sobre esse aspecto e destaca que “[...] os ambientes menos favorecidos do ponto de vista econômico, social e cultural incentivam atitudes e expectativas menores com relação à escola e ao estudo.” Assim sendo, cabe ao professor à tarefa de refletir sobre a sua prática, precisa identificar as necessidades, os desafios da sociedade contemporânea, às inquietações vindas dos alunos e a partir disso, criar estratégias de ensino para os conteúdos que realmente atribuam significado na vida dos alunos.
Frente a essa problemática, Nóvoa (2009) salienta que a contemporaneidade exige dos professores grande capacidade de contextualizar a escola para que ela assuma seu papel social e, assim, valorizar aquilo que é de sua competência, o saber e a formação humana. Assim sendo, cabe ao professor à tarefa de refletir sobre a sua prática, precisa identificar as necessidades e os desafios da sociedade contemporânea e a partir disso, criar estratégias de ensino para os conteúdos que realmente atribuam significado na vida dos alunos.
4. A matemática financeira e o contexto dos alunos
Após uma sondagem inicial, originária de conversas informais e reflexões em sala de aula, com o intuito de conhecer a realidade dos alunos encontrada naquela turma, constatou-se que a maioria deles trabalhava no comércio ou na construção civil. Em função disso, desenvolveu-se um projeto de Matemática Financeira, pois capitalização simples e composta emergiu através de seus relatos, como um tema pertencente do cotidiano deles, este por sua vez está relacionado nos conteúdos pré-estabelecidos do Ensino Médio.
Partiu-se de uma conversa inicial sobre os conhecimentos prévios referente as compras à vista e à prazo. Em seguida, instiguei os alunos a pensar se em uma compra a prazo, eles calculavam o adicional do juro cobrado. Após, baseado na análise e investigação de folhetos de lojas da cidade, criou-se uma reflexão em grupos, sobre as diferenças de valores nas duas condições de pagamentos. Em consonância com o exposto, destaca-se que “[...] nas comunidades de aprendizagem, locais e globais, que cercam a vida dos cidadãos contemporâneos devemos celebrar a inovação, a resolução de problemas, a experimentação, a criatividade, a auto experimentação e o trabalho em equipe” (PÉREZ GÓMEZ, 2015, p. 143). Nesta mesma perspectiva, Ghedin (2009, p.7) complementa que “[...] o professor, para que seja um profissional qualificado deve dominar um conjunto de saberes que se constitui de práticas e de experiências da própria atuação profissional”.
Ao findarem as primeiras atividades propostas e observar a diferença de valores pagos na compra à vista e no crediário, muitos deles relataram que, nunca tinham parado para fazer esse cálculo. Afirmaram que, a partir daquela data, iriam observar e analisar criteriosamente quando fossem comprar algum produto à prazo ou quando fossem realizar uma operação financeira, que estivesse relacionada à cobrança de juros. Percebeu-se também que os alunos, através de suas falas, evidenciaram a importância de observar e analisar as diferentes oportunidades que tinham ao comprar determinado produto, no que se refere à vista ou a prazo. Também se levantou a questão por um aluno de qual seria a urgência dessa aquisição, uma vez que, conforme comentário do aluno: Se não tem urgência, melhor guardar o dinheiro na poupança e depois adquirir o produto, além de conseguir o preço à vista, conseguimos juntar uns reais de juros (Aluno A). Através da fala deste aluno, foi possível constatar que o conteúdo em estudo gerou um significado e aplicabilidade na sua vida, desenvolvendo a capacidade de optar pelos juros e taxas nas compras futuras.
Nessa perspectiva, Pérez Gómez (2015), salienta que o conhecimento significa o envolvimento ativo no mundo, e é essa relação e interação que aconteceu durante as atividades. Os alunos demonstraram motivação e conseguiram relacionar o conteúdo estudado em sala de aula com o seu cotidiano, conforme analisado em seus relatos. Na concepção de Demo (2001), “[...] o professor contemporâneo busca, em suas práticas, ensinar a pensar. É aquele que motiva seus alunos, chama a atenção e critica quando necessário, aponta caminhos e não dá respostas prontas e, assim, abre oportunidades [...]”.
Gradativamente, foram proporcionadas atividades que oportunizaram a busca de soluções de problemas reais, fazendo assim com que eles se envolvessem e motivassem cada vez mais, no sentido de construir o conhecimento matemático e saber onde aplicá-lo na vida. De acordo com Lima (2000), o professor é a figura responsável por organizar o ambiente, despertador da motivação do aluno para a aprendizagem de algo. Sendo assim, a prática do professor é um fator importante no processo de motivação para a aprendizagem. Em consonância a este aspecto Pérez Gómez (2015), destaca que o através de suas reflexões que conhecimento cotidiano deve estar presente no currículo escolar como expressão das ferramentas habituais. Estas, o cidadão precisa utilizar para compreender a atuar, não para reproduzi-las e consolidá-las, mas para entender a sua lógica, as suas limitações e suas possibilidades à luz do conhecimento mais rigoroso oferecido pelo conhecimento disciplinado, crítico e criativo.
O ensino não é um fato isolado, em alusão a isso, este relato apresenta uma proposta e tenta mostrar que é possível contextualizá-lo socialmente. Nesse sentido, a cultura de comprar em várias prestações está muito enraizada na população, principalmente das classes sociais menos favorecidas. Quando a aprendizagem escolar se distancia dos problemas reais da vida e deixa de interessar ao aprendiz, converte-se na aprendizagem “da” escola e “para” a escola, criando um desenvolvimento paralelo e justaposto, sem valor de uso para a vida cotidiana e apenas com valor de troca por nota, certificações ou titulações no mercado escolar (PÉREZ GÓMEZ, 2015). Foi possível constatar que para os alunos da turma, as atividades proporcionaram a chance de vislumbrar que a Matemática é importante para o cidadão e que ela pode estar diretamente relacionada ao nosso cotidiano.
Conforme Ghedin (2005 p. 147), “[...] a informação transmite-se, o conhecimento adquire-se através da reflexão”, partindo das discussões realizadas durante as atividades propostas, foi possível verificar que houve uma melhoria na compreensão na capitalização simples e composta, tornando possível a tomada de decisões frente às ofertas e condições de pagamento no comércio e em estabelecimentos bancários. Um fator decisivo para essa mudança de postura dos alunos foi as reflexões realizadas no decorrer das aulas, momento este em que foi oportunizado espaço para discussões e investigações sobre o assunto em estudo. Nesses momentos, oportunizados através deste projeto, os alunos tiveram a chance de fazer uma troca de experiências entre eles, explicando o que sabiam e relatando fatos do cotidiano deles.
A convivência e a sociabilização deveriam fazer parte do ambiente de aprendizagem, pois as estruturas internas de aprendizagem dos estudantes desenvolvem-se e modificam-se por meio das experiências pessoais. Nessa perspectiva, ratifica-se a ideia de que as práticas pedagógicas devem proporcionar o maior número possível de experiências positivas no ambiente escolar, incluindo muita reflexão e investigações, e este por sua vez “[...] deve ser acolhedor, nutridor” (LUCKESI, 2005, p.63).
5. Considerações finais
Acredita-se que a proposta pedagógica realizada, aponta subsídios para a superação de dificuldades encontradas pelos alunos, para realizar interações entre os conteúdos curriculares da escola e o seu viver cotidiano, promovendo a motivação e interesse pelo conteúdo de Matemática Financeira. As reflexões realizadas a partir deste tema proporcionaram momentos de aprendizagem, que atribuíram significado a ações diárias de muitos dos alunos envolvidos, alcançando assim os objetivos propostos.
Partindo desse pressuposto, concluiu-se que, para as escolas passarem de modernas para contemporâneas, se faz necessário aprender a trabalhar com a diferença. Assim sendo, cabe ao professor também, esforçar-se a fim de compreender de que modo os sujeitos compreendem o meio que estão inseridos, bem como criar estratégias para que eles evidenciem seu entendimento de si mesmo enquanto sujeitos.
Portanto, a motivação escolar envolve um conjunto de fatores no âmbito escolar, e estes podem alterar as situações de aprendizagem. Nesse contexto, faz-se necessário repensar o papel da escola e os desafios a serem superados para que ela se torne sempre mais atrativa e proporcione ao estudante um ambiente mais envolvente, no qual ele possa desenvolver suas habilidades cognitivas e aprender de maneira diferente os conhecimentos que são pertinentes à sua vida.
Considera-se importante realizar estudos futuros que busquem reafirmar os achados tendo como sujeitos outros grupos escolares e propostas pedagógicas e metodológicas diferenciadas, como forma de qualificar ainda mais os achados. Compreende-se que estudos desta natureza são importantes ao contexto educacional, haja vista a escassez de abordagens metodológicas na área.
Referências
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