A Caverna, de José Saramago: o impacto da globalização no mundo do trabalho e na educação

The Cave, by José Saramago: the impact of globalization in the world of work and education

La Cueva, de José Saramago: el impacto de la globalización en el mundo del trabajo y en la educación

Janete Alassia Drebes Wouters
Universidade Franciscana, Brasil
José Henrique Pires Locatelli
Universidade Franciscana, Brasil
Eliane Aparecida Galvão dos Santos
Universidade Franciscana, Brasil
Janaína Pereira Pretto Carlesso
Universidade Franciscana, Brasil

A Caverna, de José Saramago: o impacto da globalização no mundo do trabalho e na educação

Research, Society and Development, vol. 8, núm. 1, p. e2981596, 2019

Universidade Federal de Itajubá

Recepción: 24 Agosto 2018

Revisado: 10 Septiembre 2018

Aprobación: 21 Septiembre 2018

Resumo: O presente artigo tem por finalidade demonstrar a importância da leitura dos clássicos universais para facilitar a compreensão dos problemas atuais, em especial, àqueles relacionados ao mundo do trabalho e, em decorrência disso, da educação, impactados pelo processo mundial de globalização. A leitura de clássicos como A Caverna, de Saramago, possibilita o aprimoramento das habilidades leitoras e favorece a ampliação dos conhecimentos nas mais diversas áreas. A obra aborda o impacto da globalização na vida de um cidadão que se viu excluído do mercado de trabalho, pois estava despreparado para as exigências dos novos tempos. Utilizar-se-á como metodologia uma pesquisa bibliográfica. A partir do estudo de um clássico, buscar-se-á o resgate do ensino das humanidades, propiciando, assim, a abertura para o mágico, o poético e o lúdico como ferramentas de enriquecimento cultural e profissional. Nesse sentido, a literatura abre caminhos para a interdisciplinaridade, permitindo que cada professor explore os aspectos inerentes à sua área de atuação e contribua com uma atividade promotora do diálogo com as outras disciplinas, explorando o mesmo texto literário sob mais de um ponto de vista, contribuindo para um tipo de ensino em que se pretenda a formação integral dos cidadãos.

Palavras-chave: interdisciplinar, globalização, educação, docência.

Abstract: This paper aims to demonstrate the importance of reading the universal classics to facilitate the comprehension of nowadays problems, especially those related to the work realm and in consequence affecting the education, impacted by the globalization process. The reading of classics such as The Cave by José Saramago, enables the enhancing of the reading skills and favors knowledge widening in many diverse areas. The novel addresses the impact of globalization in the life of a citizen who was excluded from the labor market because he was unprepared for the demandings of the present time. A thorough bibliographic research will be performed as a methodology. From the studies of a classic, the teaching of humanities will be sought, enabling thus the opening for the magical, the poetic and the ludic as tools for personal and professional cultural enrichment. In this sense, Literature opens ways for the interdisciplinarity, allowing each teacher to explore the inherent aspects related to his or her field of expertise and contributing with a dialog promoting activity with other subjects, exploring the same literary text with more than one point of view, contributing to promote a kind of teaching where the integral development of the citizen is intended.

Keywords: interdisciplinary, globalization, education, teaching.

Resumen: El presente artículo tiene por finalidad demostrar la importancia de la lectura de los clásicos universales para facilitar la comprensión de los problemas actuales, en especial, a aquellos relacionados al mundo del trabajo y, en consecuencia, de la educación, impactados por el proceso mundial de globalización. La lectura de clásicos como La Cueva, de Saramago, posibilita el perfeccionamiento de las habilidades lectoras y favorece la ampliación de los conocimientos en las más diversas áreas. La obra aborda el impacto de la globalización en la vida de un ciudadano que se vio excluido del mercado de trabajo, pues estaba despreparado para las exigencias de los nuevos tiempos. Se utilizará como metodología una investigación bibliográfica. A partir del estudio de un clásico, se buscará el rescate de la enseñanza de las humanidades, propiciando así la apertura a lo mágico, lo poético y lo lúdico como herramientas de enriquecimiento cultural y profesional. En este sentido, la literatura abre caminos para la interdisciplinaridad, permitiendo que cada profesor explore los aspectos inherentes a su área de actuación y contribuya con una actividad promotora del diálogo con las otras disciplinas, explorando el mismo texto literario bajo más de un punto de vista, contribuyendo a un tipo de enseñanza en que se pretenda la formación integral de los ciudadanos.

Palabras clave: interdisciplinar, globalización, la educación, enseñanza.

1. Introdução

Atualmente com o advento de novas tecnologias, novas necessidades de formação, a educação precisa com urgência ultrapassar a visão comportamentalizada, disciplinar, única e isolada para um mundo de saberes integrados. Essa nova ótica para a educação leva a defender que, nos cursos como um todo, deve haver um esforço para reaproximar as disciplinas e estas devem se desencadear para se interconectar como uma rede, como uma teia interligada e interdependente (BEHRENS, p. 36. 2013).

A partir de um título meramente ilustrativo, tomemos a obra A Caverna, do escritor português José Saramago, a fim de fazermos uma breve análise das possibilidades que a mesma permite, de uma visão interdisciplinar de tópicos relacionados, em especial, a várias disciplinas dos cursos de Direito, Historia, Sociologia, Economia, etc. Nessa perspectiva, o que se pretende primeiramente é apresentar uma síntese da obra “A Caverna”, de Saramago, como ponto de partida para que se possa fazer uma análise interdisciplinar dos impactos da globalização no mundo do trabalho e do ensino.

Publicado no ano de 2000, Saramago, em sua obra A Caverna, disseca e desnuda; romanceando dá vida aos personagens de pessoas simples, que passam a sentir o impacto devastador da nova economia capitalista, em constante transformação nas economias tradicionais, locais e sobre a vida das pessoas comuns. O romance retrata a história de uma família de oleiros, que sucumbindo a entrada de produtos importados tem seu modo de vida destruído e, então, é forçada a migrar para um grande centro, em busca de uma nova ocupação e de um novo meio para sobreviver.

O antigo oleiro tornara-se um vigilante, empregado em um grande centro comercial, num grande centro urbano, cidade moderna, que reflete a frieza e superficialidade das relações humanas. Desse modo, o novo e grande shopping center passa a ocupar o espaço central da vida humana, agora despersonalizada, desumanizada, mas que antes levada e vivida em um ambiente de mais interação, de mais afeto.

Saramago não situa seus personagens nem no tempo e nem no espaço, mas podemos situá-los, facilmente, em qualquer lugar, pois não há rincão que não tenha sido afetado, nos últimos anos, pelo processo de globalização. Processo que tem levado o mundo a profundas transformações no modo de produção e nas relações sociais e de trabalho.

Cipriano Algor era um oleiro que vivia tranquilo, sem grandes preocupações, produzindo louças de barro e vivendo uma paixão por sua vizinha Isaura Estudiosa. Marta, filha de Cipriano Algor, ajudava-o na produção. Achado era o cão, o fiel amigo, mas tudo mudou de modo brusco, quando os produtos feitos de modo artesanal já não são mais aceitos, pois as pessoas passam a dar preferências a produtos e utensílios de plásticos, mais modernos, mais práticos, mais limpos.

Cipriano, então sem seu trabalho autônomo, abandona tudo e vai trabalhar como vigilante num centro comercial, onde já trabalhava o seu genro, Marçal Gacho. Assim como os produtos de Cipriano, neste centro tudo é descartável e de fácil substituição, até mesmo a mão de obra humana. O Centro não permite animais, dessa forma Achado também é deixado para trás e o romance com Isaura chega ao fim.

Na cidade, os habitantes passam a viver como numa bolha, fechados para os acontecimentos externos, num ambiente onde tudo é artificial como em uma caverna à semelhança da alegoria de Platão. Passados alguns anos, Cipriano ao perceber que as novas transformações e o crescimento do centro urbano, estavam trazendo mudanças que fariam com que as pessoas deixassem de ter sua individualidade e seus pensamentos próprios, resolve, junto à sua família, abandonar o local, resgatar seus amores Isaura e Achado juntamente com alguns utensílios de seu antigo ofício para então, sem rumo irem ao reencontro de suas vidas.

A partir de tais considerações esse estudo objetiva demonstrar a importância da leitura dos clássicos universais para facilitar a compreensão dos problemas atuais, em especial, àqueles relacionados ao mundo do trabalho e, em decorrência disso, da educação, impactados pelo processo mundial de globalização.

2. Os temas abordados na obra “A Caverna”

A leitura de obras clássicas, de um modo geral, pode ser abarcada sobre vários aspectos e pontos de vista, o que, em particular pode ser feito em “A Caverna”. Esta obra aborda algumas situações como as migrações do campo para as cidades, a tecnologia substituindo o trabalho manual, as relações sociais, os valores familiares, o crescimento desordenado dos centros urbanos.

Os temas tratados na obra, apesar da enorme relevância nos dias atuais não serão, aqui, objeto de qualquer consideração, visto que procuraremos delimitar nossas reflexões sobre questões jurídicas relacionadas ao mundo do trabalho num mundo em plena globalização.

2.1.O justo e o legal

Ao longo da obra fica implícita a abordagem do autor sobre o tema da justiça, o que nos obriga a uma busca histórica sobre o que entendemos por justo. No campo da hermenêutica jurídica há um aceso debate entre positivistas, os defensores da supremacia do texto e da limitação interpretativa dos juízes, e os não positivistas, estes advogando um maior ativismo judicial como forma de realização da justiça e de implementação efetiva de um estado de direito que privilegie o social. A dicotomia entre literalidade e equidade sobrevive desde os tempos dos filósofos gregos. A equidade como forma de temperança de lei está nas obras de Aristóteles.

Aristóteles, em sua obra Ética à Nicômaco, parte de um sistema cósmico organizado, harmonioso, no qual cada astro, cada pedra, cada árvore, tem uma razão de ser. A razão de ser é a sua finalidade, é o papel que cada um tem a cumprir. Essas finalidades, como pequenos riachos que vão convergindo para rios cada vez maiores, vão confluindo para uma finalidade maior, para um bem maior, para uma felicidade geral. O homem, na visão aristotélica, também tem uma razão de ser, tem uma finalidade, e essa finalidade, diferentemente de todos os demais componentes da natureza, se materializa no uso da razão e na busca da verdade.

Para bem cumprir seu papel, e viver bem, o homem é dotado de uma alma, estando esta dividida em três partes: 1) uma parte mais simples, relacionada ao controle de nossas necessidades básicas, como, por exemplo, o crescimento do corpo; 2) uma parte intermediária da alma humana que está relacionada ao controle de nossas paixões e de nossas emoções, como por exemplo, o medo, a coragem; 3) a parte nobre da alma, que é a sede da razão. Esta parte nobre, por sua vez, está também subdividida. Uma porção dela está relacionada às virtudes intelectuais, entendidas estas como a boa disposição para a investigação, para a busca da verdade. Uma outra parte da parte racional da alma está relacionada ao controle de nossas emoções, de nossas paixões.

Para viver bem, o homem precisa, pela prática cotidiana, pelo hábito, exercitar através da razão as suas virtudes morais. Por virtude, entendemos o hábito bom. Por vício, entendemos o hábito ruim. A virtude, para Aristóteles, é uma mediana, um meio termo, um ponto de equilíbrio, entre duas paixões opostas, entre dois vícios. A coragem, por exemplo, é uma mediana entre a covardia e a imprudência, tomadas a covardia e a imprudência como dois vícios opostos.

Mas o homem, para ser feliz, não basta viver bem consigo mesmo, pois precisa, como ser de natureza social, conviver com outras pessoas, e mais do que conviver, precisa conviver bem. Para conviver bem, o homem precisa praticar a justiça, a virtude moral por excelência. Ao abordar a virtude da justiça, Aristóteles fala da necessidade da equidade, que devemos entender como o abrandamento dos rigores da lei escrita, da lei objetiva, da lei genérica, quando aplicada às particularidades de um caso concreto envolvendo pessoas reais. A equidade seria, portanto, segundo o grande pensador grego, como a régua flexível que os construtores de Lesbos usavam para tomar as medidas das pedras de modo mais simples e mais racional, mas com os resultados mais corretos possíveis.

3. A globalização e as relações de trabalho

Saramago, de modo magistral, através de um romance, nos mostra o drama vivido por pequenos artesãos e trabalhadores braçais que têm seus modos de vida impactados pela tecnologia - que facilita a produção de produtos mais modernos, mais sofisticados, descartáveis - e pela globalização – que facilita a concorrência de produtos estrangeiros, mais baratos. Essa combinação de novas tecnologias e globalização tem provocado a extinção de milhares de postos de trabalho, afetando de modo mais intenso as pessoas com menos escolaridade, que enfrentam enormes dificuldades para obter um novo posto de trabalho.

Nesse sentido os processos tecnológicos aqui referidos diferem de produtos da ciência aplicada, prontos e acabados, como é o caso do conjunto de máquinas e aparelhos elétricos e eletro-eletrônicos da atualidade. Portanto, são considerados no sentido de apreender a interferência que exercem em tais processos. De tal forma que as tecnologias na área das Ciências Humanas e suas Tecnologias são compreendidas para além de resultados das ciências, como também dinamizadoras dos campos científicos à medida em que geram novas questões a serem desvendadas por pesquisas científicas de produção do conhecimento (BRASIL, 2007, p. 4).

Os novos postos de trabalho, quando obtidos, se revelam sempre precários, instáveis, o que ocasiona uma vida também com muitas incertezas, num mundo em transformação que se reconfigura a cada dia.

Saramago nos adverte para o advento, que na verdade já vivenciamos, de uma sociedade profundamente ligada às novas mídias e ao consumismo como modelo de vida. Mergulhados em novas tecnologias e absortos em milhares de informações, nos tornamos simulacros de humanos em redes sociais, numa constante tentativa de mostrarmos aos outros o que gostaríamos que os outros pensassem que fôssemos, o ethos, mas não necessariamente o que somos, presos que estamos, ainda, em nossas modernas cavernas.

4. Contextualização do Ensino no Brasil

Nos últimos anos de nossa história, em especial a partir da década de 90, o nosso supremo tribunal, passou de uma figura que, até então somente era conhecida nos meios jurídicos, para um ator de grande papel de destaque em todos os campos da vida nacional.

Decisões históricas, tais como pesquisas com transgênicos e com células tronco; reprodução e morte assistida; uso de símbolos religiosos em espaços públicos; cumprimento de pena antes da decisão final de um processo penal; escutas telefônicas, são exemplos que revolucionaram o mundo jurídico, abalando dogmas há muito estabelecidos, gerando perplexidade em muitos meios, enfrentando, dessa forma fortes críticas de setores conservadores.

Em sala de aula, além da necessidade de atualização permanente do professor, com consultas e pesquisas relacionadas às mais recentes decisões judiciais das cortes supremas, enfrentam-se problemas relacionados aos métodos de ensino, com o uso intensivo das novas tecnologias de mídias sociais por parte dos alunos, ora simplificando suas pesquisas ora optando por respostas prontas com pouco dispêndio de raciocínio, ora demonstrando desinteresse por temas pouco ou não explorados pelas mídias.

Assim sendo, o professor não preparado para lidar adequadamente com essas situações novas, também poderá se sentir um pouco perdido, desnorteado em relação a como proceder para desenvolver seu trabalho de uma forma mais produtiva, despertando mais interesse junto aos seus alunos. Daí a importância da abordagem conjunta destes dois temas de alta relevância para o ensino.

Esses problemas são potencializados pelo fato, levantado por Ventura (2004), relativo à falta de formação pedagógica dos professores de cursos de ensino superior, como por exemplo, nos cursos de bacharelado, como no de Direito, que se limitam a ensinar como aprenderam, sem terem tido no currículo dos cursos as disciplinas das licenciaturas que lhes proporcionariam a possibilidade de aprender o como ensinar. Assim, com reduzido número de professores buscando alguma titulação na área de educação, com dificuldades que começam a partir de “quando se busca trazer ao ensino jurídico o acervo de conhecimento reflexivo e aplicado da Pedagogia”, Ventura (2004) também constata que para enfrentarem os problemas encontrados pela falta de preparação para a docência, os professores optam pelo uso das tecnologias como metodologia.

No entanto, a prática docente, a par do uso de todo o cabedal tecnológico, não pode se limitar, simplesmente, à transmissão do conhecimento, mas sim, privilegiar, sempre, a autonomia do aluno como sujeito de sua própria aprendizagem, conforme defende Freire (2016), devendo, portanto, conciliar, entre outros atributos, o rigor metodológico, a criticidade, o comprometimento.

Por um lado, temos a ameaça atual à humanidade, constituída, entre outros elementos perversos, pela falta de democracia, pela ameaça de autodestruição, pela falta de uma noção de comunidade de destino e de uma comunidade de vida, pela opressão, pela barbárie, etc. Por outro lado, temos um sistema educacional que, ao que aparenta não está preparando os jovens para o exercício pleno de sua condição de cidadãos autônomos e dignos e nem tão pouco os prepara para o mercado de trabalho cada vez mais exigente.

As ameaças acima citadas precisam ser neutralizadas, para tanto, um poderoso instrumento para se conseguir sucesso neste quesito, seria uma educação voltada para uma formação humanista. Uma educação que não dispensasse o ensino das humanidades que Rouanet (1987) define em sua obra As Razões do Iluminismo, como:

[...]as disciplinas que contribuam para a formação (Bildung) do homem, independentemente de qualquer finalidade utilitária imediata, isto é, que não tenham necessariamente como objetivo transmitir um saber científico ou uma competência prática, mas estruturar uma personalidade segundo uma certa paideia, vale dizer, um ideal civilizatório e uma normatividade inscrita na tradição, ou simplesmente proporcionar um prazer lúdico. (p. 309)

As disciplinas das humanidades permitem, portanto, que os alunos tenham mais contato com a cultura em geral. A interdisciplinaridade, como prática pedagógica, proporciona um desenvolvimento integral entre saberes e valores. Segundo Behrens (2013, p. 17): um dos grandes méritos deste século, sem dúvida, é o fato de os homens terem despertado para a consciência da importância da educação como necessidade preeminente para viver com plenitude como pessoa e como cidadão envolvido na sociedade. E assim, também Morin(2002):

A missão desse ensino é transmitir não o mero saber, mas uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre. (p.11)

Dessa forma, as humanidades têm um papel marcante em nossa sociedade, portanto a presença do professor na formação do educando torna-se ainda mais pertinente para que o aluno se perceba como um ser humano que desenvolve juntamente a ética, a autonomia pessoal, a participação social, suas responsabilidades e assim o conhecimento seja usado de maneira adequada na sociedade.

Para Behrens (2013), no entanto, a educação do século XX, tomando por base o método cartesiano, de mera transmissão do conhecimento, levou-a a uma formação especializada, com uma visão reducionista e fragmentada, ressaltando que o paradigma de então, não pode ser visto como um erro histórico, mas como uma etapa necessária à evolução do pensamento humano.

Nesse contexto, o professor precisa deixar de ser um transmissor de conhecimentos e assumir a função de um facilitador, um incentivador, um mediador, pois: ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo (FREIRE, p. 120, 2016).

O conhecimento, até então transmitido pelo professor, precisa ser produzido em sala de aula, com incentivo ao trabalho em equipe e à pesquisa, fazendo com que o aluno, e também o professor, aprenda a aprender para continuar aprendendo ao longo da vida, e devendo o professor estimular os alunos a buscar e acessar as informações nas mais variadas fontes. (BEHRENS, p. 101, 2013).

A educação e a consequente formação fragmentada precisam dar lugar a uma prática interdisciplinar. A interdisciplinaridade, entendida como a necessidade de superar a visão segmentada da produção do conhecimento e de articular as inúmeras partes que compõem os conhecimentos da humanidade (GARRUTI, SANTOS, 2004), surgiu na Itália e na França, na década de 1960 passando a ser objeto de estudos, no Brasil, a partir dos anos 70. Segundo Fazenda (1992), a interdisciplinaridade, no entanto:

[...] não se ensina, nem se aprende, apenas vive-se, exerce-se. Todo o indivíduo engajado nesse processo será não o aprendiz, mas, na medida em que se familiarizar com as técnicas e quesitos básicos, o criador de novas estruturas, novos conteúdos, novos métodos, e será o motor de transformação.(p.56)

Dentro dessa proposta, uma disciplina passa a ser o aporte para outra e todos os conteúdos se interligam, assim a literatura clássica pode vir a colaborar com um ensino lúdico, integral e crítico, contribuindo para a formação intelectual dos jovens, ensinando, nos bancos escolares de hoje, os cidadãos e os dirigentes de nosso amanhã a pensarem, refletirem sobre si mesmos, sobre os acontecimentos da vida, permitindo a abertura para o mágico e o poético.

A literatura, portanto, poderá ser uma ferramenta de enriquecimento cultural e profissional, sem abrir mão da técnica, assim como forma de resgate do ensino das humanidades, contrariando as tendências do ensino, preocupado com a formação, apenas, de mão-de-obra para o trabalho. Platão (2014), em seu livro A República, imagina uma sociedade “incorruptível”. Questionado, em um de seus diálogos, dando voz a Sócrates, a respeito da possibilidade de a corrupção se infiltrar nessa sociedade, admite essa possibilidade, dizendo que para tal bastaria uma leve mudança na educação.

É preciso saber, que a narrativa da caverna é uma das três “imagens” construídas teoricamente por Platão no Livro VII de A República, como meio didático para que o pensador grego pudesse explicar sua concepção sobre a educação dos filósofos, que, na opinião dele, seriam as pessoas indicadas para governar uma República. Para Platão, o principal objetivo dessa formação seria a busca pela compreensão acerca do mundo das Ideias, no qual estariam os modelos dos quais os objetos do mundo físico seriam apenas cópias imperfeitas. Essa busca deveria ser feita por meio de anos de estudos que incluiriam diversas áreas da matemática e também da dialética (PLATÃO, 1990).

O popularmente chamado “mito” da caverna é uma ilustração desse argumento. O Sócrates platônico descreve para seu interlocutor, Gláucon, uma gruta profunda, com acesso por uma descida íngreme, onde se encontra primeiro uma fogueira e depois um muro perpendicular ao caminho que leva até ao fundo. Lá, sentados em frente a uma espécie de parede natural, estão os prisioneiros, atados pelos pés e pescoços, impossibilitados de se levantarem ou de se virarem para a direção da entrada da caverna. Por trás do muro que fica a meio caminho da descida, pessoas passam com objetos de diversas formas, e a luz da fogueira projeta as sombras dos objetos na parede do fundo da caverna. Os prisioneiros, que enxergam apenas essas imagens desde a infância, tomam-nas por realidade. Na alegoria platônica, a gruta significa o mundo material das aparências em que vivemos e tudo aquilo que podemos perceber com nossos sentidos. O mundo fora da caverna é a representação do mundo das Ideias, que só pode ser compreendido por meio da filosofia e do pensamento abstrato. O árduo caminho desde o momento da libertação de um prisioneiro no fundo da caverna até sua chegada ao mundo exterior é a representação do exercício da filosofia e da dialética platônica (PLATÃO, 1990).

Usando a mesma lógica platônica-aristotélica, se uma leve mudança na educação, desviando-a de sua finalidade, teria esse potencial devastador, que a educação voltada para a formação do cidadão em sua plenitude viria a ter o potencial construtor de uma sociedade mais justa, que possa permitir o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas.

5. A interdisciplinaridade nas obras clássicas

A partir de uma abordagem interdisciplinar e contextualizada, além da técnica, chegaremos aos valores fundantes para um convívio saudável: a ética, a democracia, a solidariedade, a compaixão, a cidadania, o valor social do trabalho e o respeito aos direitos humanos. Segundo Couvre: “Ser cidadão é ser sujeito que, tendo direito à vida no sentido pleno, procura constituí-la coletivamente, não só atendendo às necessidades básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, inclusive o mais abrangente, o papel do homem no universo”.

Uma obra literária perpassa todos os campos do conhecimento e saberes. Ela percorre os mais diversos caminhos e se faz conhecer pela relação com o leitor. Mesmo não sendo uma dimensão definida, não significa que seja incompreensiva até porque tem valor na vida das pessoas. Por ela ser carregada de saberes e por conter diversas forças e funções, é que ela pode ser utilizada como uma das muitas formas de mudarmos a forma como ensinamos a cidadania, ou seja, de suma importância para a formação da humanidade.

Sabemos que a literatura abre caminhos a todas as áreas disciplinares e possibilita um trabalho conjunto com os mais diversos campos de conhecimento por conter também em seu eixo, a força do saber e do diálogo com as novas maneiras de ver as coisas. Pensando nessa realidade, que o trabalho com o texto literário envolve uma dinâmica onde o conhecimento se une com o prazer e o sabor de conceber a verdade numa outra dimensão da leitura.

No processo de ensino aprendizagem, a postura em relação à leitura e literatura deve considerar algumas situações para que não ocorra um desvio do verdadeiro sentido da obra literária. Rildo Cosson apresenta três eventos que o educador deve refletir diante da leitura da obra literária:

[...] reclama-se, particularmente, da artificializacão do ato de ler transformado em exercício, ou seja, uma preparação para a verdadeira leitura que teria realização em um futuro fora da escola. Também denuncia a ênfase sobre os conteúdos e o deslocamento do centro das disciplinas na busca deles, como acontece com a história da literatura que substitui a leitura literária, fazendo da leitura uma cronologia de nomes de autores, títulos de obras e características de um estilo de época. Há ainda, as metodologias de exploração dos textos que ora os toma como pretexto, ora adota perspectivas pouco adequadas para a sua especificidade literária, como resumos, os questionários e as fichas de leitura (COSSON, 2004, p. 96).

Cosson (2004) cita os principais fatores que contribuem com a desconstrução do objetivo de fazer com que o educando encontre prazer no que lê e preserve o hábito de leitura. Dentre outras coisas, cabe aos professores fazer com que essa realidade mude e faça acontecer, na realidade, um trabalho mais significativo e atuante.

A partir da perspectiva interdisciplinar, cada professor, juntamente com os alunos, identificaria e discutiria os saberes inerentes a sua disciplina. O objetivo não é conceber os eventos apenas com olhar científico, mas como conhecimento para a vida. Nesse ponto, o professor de matemática, por exemplo, estaria discutindo questões valiosas para a formação do educando, e se partiria da ideia de que o ensino da matemática não condiz apenas com a atividade de cálculos no quadro ou livro didático, mas é uma ciência presente no seu dia a dia.

6. Considerações finais

A obra de Saramago, de modo lúdico, nos permite fazer as mesmas reflexões trazidas pelos textos e obras estudados no presente semestre em nosso mestrado, nas disciplinas de Linguagens e Tecnologias Aplicadas ao Ensino, Seminário Integrado I e Formação e Práticas Docentes: a necessidade da contextualização, a interdisciplinaridade, a visão do ser humano como um todo e não fragmentado, isolado, segmentado, a influência da mídia e as transformações com o uso das tecnologias.

A nosso ver, parece evidente que a leitura de uma obra clássica não contribui somente para o enriquecimento cultural de quem a lê, mas também para o aprimoramento técnico do profissional, que se pode fazer através do lúdico e do poético.

A identidade deixou de ser uma propriedade individual para se moldar a uma construção social com implicações políticas, econômicas, culturais, éticas, entre outras, ou seja, a modernidade deslocou o conceito de identidade enquanto identificação individual para uma leitura mais vasta de âmbito social e global. A compreensão deste fenômeno implica a análise sociológica e uma focalização teórica de diferentes dimensões da identidade através de uma leitura multicultural e multidisciplinar que se inicia com a definição do período correspondente à modernidade e o enquadramento social da designação teórica. É sabido que um mesmo fato, por exemplo: um desastre ambiental, gera demandas que envolvem questões ambientais, trabalhistas, criminais, etc. Questões que envolvem sonegação fiscal não dizem respeito tão somente ao enriquecimento ilícito de algumas pessoas, mas comprometem os já parcos recursos destinados aos orçamentos da saúde, da educação. A leitura dos clássicos alavanca o valor das humanidades, e estas se tornam instrumentos para a formação de um cidadão autônomo, livre e crítico.

É preciso lutar contra a correnteza e a força daqueles que querem transformar o ensino numa escola de fábrica, Não apregoamos, por óbvio, a transformação de todo técnico num humanista, mas, sim, o encontro de um ponto de equilíbrio entre o ensino da técnica e o ensino das humanidades, fazendo com que o técnico possa agir, no seu dia, com espírito aberto e crítico, colocando a sua técnica a serviço do bem e da evolução da espécie humana, e não levando a mesma aos precipícios da própria extinção.

Nós como espécie, homo sapiens, superamos, em nossa caminhada evolutiva, todas as espécies humanas que nos precederam, e fizemos isso, ao usar os recursos da linguagem elaborada, da abstração, da previsão de um futuro, da imaginação, da poesia e de todas as formas de arte.

Poderia o ensino do novo milênio querer transformar o homem, apenas, no velho homo faber, o fabricador de ferramentas que sumiu no pó de sua própria história? Precisamos fazer com que o reencontro do homem com sua humanidade perdida aconteça, parafraseando Marx, substitua o indivíduo fragmentado, dolorido, de uma função produtiva de retalho pelo indivíduo integral, e que do reino da produção o homem seja levado, através da educação e da conscientização, para o reino da liberdade da plena cidadania.

E de novo parafraseando Marx, não queremos que o espírito crítico, advindo de uma formação educacional completa e de uma prática docente adequada aos novos tempos, simplesmente arranque as flores imaginárias que enfeitam os nossos grilhões e nos deixem sem consolos e fantasias, mas para que possamos nos ver livres dos grilhões que nos acorrentam e, então, sem correntes e grilhões, possamos apanhar as flores vivas.

Sugere-se que os professores de diferentes níveis de ensino invistam nesse tipo de proposta interdisciplinar apresentada nesse estudo, utilizando livros clássicos universais para a compreensão da problemática atual como dispositivo de análise em sala de aula, que possam auxiliar o aprimoramento das habilidades leitoras dos estudantes e a ampliação dos conhecimentos nas mais diversas áreas do ensino.

Referências

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