Reflexos da aplicação de um projeto de incentivo à leitura no cotidiano escolar na visão dos gestores e professores dos anos iniciais no ensino fundamental
Reflections of an incentive reading project application in daily school context by the vision of the managers and teachers of the primary years in fundamental teaching
Reflejos de la aplicación de un proyecto de incentivo a la lectura en el cotidiano escolar en la visión de los gestores y profesores de los años iniciales en la enseñanza fundamental
Reflexos da aplicação de um projeto de incentivo à leitura no cotidiano escolar na visão dos gestores e professores dos anos iniciais no ensino fundamental
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 2, pp. 01-27, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 02 Agosto 2018
Aprovação: 20 Agosto 2018
Resumo: O presente trabalho tem o objetivo verificar os reflexos da aplicação de um projeto de incentivo à leitura no contexto escolar sob a visão de gestores e professores dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental I de uma escola municipal localizada na cidade de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul. A pesquisa realizada é um estudo de caso, de cunho qualitativo. A amostra foi composta por sete participantes, sendo cinco professores regente de turmas e dois gestores. A coleta de dados foi realizada no ano de 2017. A técnica utilizada foi à entrevista estruturada. Os resultados do estudo apontam que é necessário explorar a leitura por meio de práticas reflexivas, exercitadas em sala de aula por meio de questionamentos, análises e discussões, estimulando a capacidade crítica e reflexiva dos estudantes, oportunizando-os a exposição de ideias, posicionamentos subjetivos, e especialmente, a construção de significados a partir do que foi introjetado, por meio da leitura. Conclui-se que os projetos de incentivo à leitura no cotidiano escolar podem ser considerados como agente potencializador pensando pelo viés da Neurociência, pois os mesmos possibilitam avanços no desenvolvimento cognitivo dos estudantes que são observados em sua postura crítica e reflexiva em sala de aula.
Palavras-chave: Neurociência, Leitura, Aprendizagem, Formação de professores, Práticas Pedagógicas.
Abstract: The present work has the objective to verify the reflexes of the application of an incentive project to the reading in the school context under the vision of managers and teachers of the Initial Years of Basic Education I of a municipal school located in the city of Santa Maria, in the state of Rio Grande do Sul. The research carried out is a case study of a qualitative nature. The sample consisted of seven participants, five of whom were class teachers and two managers. The data collection was carried out in 2017. The technique used was the structured interview. The results of the study point out that it is necessary to explore reading through reflexive practices, exercised in the classroom through questioning, analysis and discussion, stimulating the students' critical and reflective capacity, giving them exposure of ideas, subjective positions , and especially, the construction of meanings from what was introjected through reading. It is concluded that the projects to encourage reading in the daily school life can be considered as a potential agent thinking about the bias of Neuroscience, because they allow advances in the cognitive development of students who are observed in their critical and reflective posture in the classroom.
Keywords: Neuroscience, Reading, Literacy, Teacher training, Pedagogical practices.
Resumen: El presente trabajo tiene el objetivo de verificar los reflejos de la aplicación de un proyecto de incentivo a la lectura en el contexto escolar bajo la visión de gestores y profesores de los Años iniciales de la Enseñanza Fundamental I de una escuela municipal ubicada en la ciudad de Santa María, en el estado de Río Grande del Sur. La investigación realizada es un estudio de caso, de cuño cualitativo. La muestra fue compuesta por siete participantes, siendo cinco profesores regentes de clases y dos gestores. La recolección de datos fue realizada en el año 2017. La técnica utilizada fue a la entrevista estructurada. Los resultados del estudio apuntan que es necesario explorar la lectura por medio de prácticas reflexivas, ejercitadas en el aula por medio de cuestionamientos, análisis y discusiones, estimulando la capacidad crítica y reflexiva de los estudiantes, oportunizando la exposición de ideas, posicionamientos subjetivos , y especialmente, la construcción de significados a partir de lo que fue introyectado, por medio de la lectura. Se concluye que los proyectos de incentivo a la lectura en el cotidiano escolar pueden ser considerados como agente potencializador pensando por el sesgo de la Neurociencia, pues los mismos posibilitan avances en el desarrollo cognitivo de los estudiantes que se observan en su postura crítica y reflexiva en el aula.
Palabras clave: Neurociencia, La lectura, el aprendizaje, Formación de profesores, Prácticas pedagógicas.
1. Introdução
Hoje é possível acompanhar os conhecimentos da Neurociência, que são produzidos numa velocidade vertiginosa e lança luz na docência, a possibilidade de produção de novos conhecimentos, que por sua vez se configuram primordiais para a atuação pedagógica e consequentemente para o êxito da aprendizagem dos estudantes. Lima (2013) destaca que é um momento muito interessante da evolução da ciência, pois temos mais condições de encaminhar à docência para a aprendizagem de todos e melhor compreender os processos de quem ensina e de como se aprende. A aprendizagem, nessa nova perspectiva de possibilidades a partir do aporte da Neurociência, abre as portas para a discussão sobre como se processam os conhecimentos sobre o cérebro, e como o funcionamento desse órgão se relaciona com o processo de aprender.
Segundo Bartoszeck (2006), essa nova possibilidade de abordagem neurocientífica, pode permitir tanto ao professor, quanto ao estudante desenvolverem um ensino bem-sucedidocom estímulos capazes de promover uma alteração significativa na taxa de conexão sináptica que afeta a função cerebral. Por certo, isto também depende da natureza do currículo, da capacidade do professor, do método de ensino, do contexto da sala de aula, da família e comunidade.
O conhecimento acerca da Neurociência por parte dos docentes de todas as áreas, mas principalmente àqueles ligados à educação nos primeiros anos de escolarização, pode ser de grande benefício se esse, reforçar a compreensão de como pequenas ações impactam grandemente o aprendizado, e por consequência, melhoram a capacidade da criança ao longo de sua jornada educacional. Nesse sentido, Gómez (2015) sinaliza que a finalidade da escola não pode se esgotar no ensino e na aprendizagem dos conteúdos disciplinares estabelecidos no currículo e organizados nos livros didáticos. A função da escola é estimular o desenvolvimento de competências ou qualidades humanas fundamentais para que o cidadão contemporâneo possa viver em complexos contextos da era da informação. Não se trata apenas de formar bons estudantes ou bons leitores, mas desenvolver por meio da leitura, consciência crítica e cidadania.
A Neurociência apresentaum grande potencial para orientar a pesquisa educacional e aplicá-la no contexto de sala de aula. Pouco ainda se publicou para análise retrospectiva. Contudo, é necessário construir pontes entre a Neurociência e a prática educacional. Para este fim, a Neurociência Cognitiva pode estabelecer elos entre os saberes e contribuir fortemente para um ensino de qualidade que alcance a todos os estudantes indistintamente. Acerca disso, Bartoszeck (2009) evidencia a necessidade de que a formação continuada do docente contemple o saber neurocientífico, a fim de que, dotado desse conhecimento, o professor em sala de aula possa ampliar sua visão acerca das possibilidades diante dos indivíduos a quem está ensinando
A partir de tais considerações iniciais, o objetivo desse estudo é verificar os reflexos da aplicação de um projeto de incentivo à leitura no contexto escolar sob a visão de gestores e professores dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental I de uma escola municipal localizada na cidade de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul. Também objetiva-se identificar se o estudo da Neurociência apresenta considerações relevantes para se pensar à formação de professores.
2. A neurociência na formação de professores e as práticas pedagógicas no contexto escolar: um mundo novo de possibilidades a partir da leitura
Muito se tem discutido hoje, a cerca de como se aprende e como é possível qualificar o ensino. Para, Izquierdo (2002), Lent (2001), Ratey (2001), a aprendizagem no ser humano se dá por meio do desenvolvimento dos processos de fortalecimento ou enfraquecimento das conexões neurais, as quais têm seus padrões conectivos alterados a todo o momento em resposta às percepções, pensamentos e ações.
Atualmente, o emprego de práticas de leitura no contexto escolar pode ser considerado um agente potencializador na aprendizagem dos estudantes segundo estudos na área da Neurociência. Acerca disso, ressalta-se a necessidade da qualificação dos professores com enfoque nessa abordagem, contribuindo para que o educador possa ter conhecimento do funcionamento do cérebro humano. Para Relvas (2011), quando se compreende a profundidade da Neurociência e sua aplicação no contexto escolar desde a Educação Infantil, o professor torna-se um agente capaz de minimizar as diferenças entre as distintas realidades, ou seja, mesmo que a criança não seja estimulada em casa, sofra algum tipo de debilidade que possa impactar a aprendizagem, o professor detentor do conhecimento neurocientífico, é capaz de conduzir a aprendizagem e reconhecer a diversidade da estrutura cerebral, pois, a sala de aula é um coletivo, e nesse processo do coletivo, se tem o singular no múltiplo, e o múltiplo no singular.
Quanto à importância do ambiente, ainda segundo Relvas (2011), é preciso compor um ambiente propício a complementar as ações teóricas em aprendizagem com ações práticas, que englobam todos os sentidos do ser, capaz de tornar a aprendizagem uma experiência holística e útil, memorizada por todo o corpo, por meio do cérebro e dos sentidos, todos interlaçados no ato de apreender. Ou seja, não apenas as práticas desenvolvidas em sala de aula mediando à aprendizagem, mas também o ambiente e as relações em curso influenciam a aprendizagem.
Ao professor, em formação inicial ou continuada, a aquisição de conhecimentos de Neurociência o habilita a motivar, a ensinar e a avaliar o seu estudante num formato compatível com o funcionamento cerebral. Acerca disso, Consenza e Guerra (2011) apontam que a inclusão dos fundamentos neurobiológicos do processo ensino-aprendizagem na formação do professor proporcionará nova e diferente perspectiva da educação e de suas estratégias pedagógicas, influenciando também a compreensão dos aspectos sociais, psicológicos, culturais e antropológicos tradicionalmente estudados pelos pedagogos.
Tardif (2010) lembra que o objeto de trabalho do docente é o humano e que isso tem consequências relevantes para a prática profissional dos professores, o que merece maior discussão. Conforme o autor, num dado grupo de estudantes existem particularidades individuais e, compete ao docente atingir cada um dos estudantes, nesse sentido, a real necessidade de o educador compreender os inúmeros saberes da Neurociência para desenvolver uma ação docente capaz de contemplar a todos no contexto de sala de aula. Dessa forma, o que é relevante para a memorização, compreensão e aprendizagem de uma criança não necessariamente vai ser para outra.
Ao pensar a educação, a partir das metas do Plano Nacional da Educação (PNE) referente a formação de professores da Educação Básica, que deve ser o resultado da ação conjunta entre união, estados e municípios (BRASIL, 2015), fornecendo formação inicial contemplando: professores sem formação adequada à Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDB); professores já formados, mas que lecionam em área diferente daquela em que se formaram (segunda licenciatura); e bacharéis sem licenciatura, que necessitam de estudos complementares que os habilitem ao exercício do magistério, posteriormente, o Plano ainda prevê formação continuada, em uma segunda etapa. Nesse contexto, destaca-se dentro do Plano Nacional da Educação (PNE) a seguinte meta que corrobora para a compreensão da formação dos docentes
Meta 16: formar, em nível de pós-graduação, 50% (cinquenta por cento) dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos (as) os (as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino. (BRASIL, 2015)
Como é possível observar, o Plano Nacional de Educação, normatiza uma política pública para a educação brasileira e, sobretudo, para a formação e valorização do professor da Educação Básica. Constitui-se a partir da meta dezesseis do plano, a formação continuada, como um direito dos professores da Educação Básica e apresenta-se como uma exigência para o exercício profissional, como reitera a Nota Técnica ao PNE emitida pelo Ministério da Educação
[...] para que se tenha uma educação de qualidade e se atenda plenamente o direito à educação de cada estudante é importante que o profissional responsável pela promoção da aprendizagem tenha formação adequada [...] (Brasil, 2014 p. 93)
A exemplo de muitos bons planos, o Plano Nacional da Educação, esbarra muitas vezes nas dificuldades de implementação, por diferentes fatores, fato que, por sua vez, dificulta ainda mais a garantia da qualidade da educação brasileira. Assim, entende-se que se faz necessário a implementação de políticas de formação profissional com foco na abordagem da Neurociência, para que, os professores, em formação inicial ou continuada, a partir desse viés, possam estar qualificados para ensinar e, além disso, compreender o funcionamento cognitivo do estudante no processo de ensino-aprendizagem.
Em consonância, Noronha (2008) evidencia que a Neurociência é um saber necessário à formação de professores contribuindo para a compreensão do funcionamento do complexo cérebro. O autor cita que entender a importância do cérebro no processo de aprendizagem, é de fundamental importância as contribuições da Neurociência para a formação de professores, visando oferecer aos educadores um aprofundamento destes conhecimentos, para que se obtenha melhores resultados no processo ensino aprendizagem, principalmente na Educação Básica.
Em sua maioria, os currículos das licenciaturas, e especialmente os de Pedagogia, não possuem disciplinas que envolvam conhecimentos sobre Neurociência e sobre seus aspectos quanto ao conhecimento da estrutura e demais funções relacionadas à aprendizagem, Consenza e Guerra (2011). Quando esse conhecimento puder ser abordado em disciplinas e inserido em currículos de Pedagogia e, quem sabe até em demais cursos de graduação, uma vez que a formação continuada está prevista e normatizada no Plano Nacional de Educação em todas as modalidades de ensino da Educação Básica ao Ensino Superior, teremos profissionais diferenciados no que tange o tratamento humano diante das diversas formas de aprender e até mesmo de dificuldades simples de aprendizado, expressas não somente em crianças e adolescentes, mas também em adultos.
Consenza e Guerra (2011) apresentam
[...] as estratégias pedagógicas promovidas pelo processo ensino-aprendizagem aliadas às experiências de vida às quais o indivíduo é exposto, desencadeiam processos como a neuroplasticidade, modificando a estrutura cerebral de quem aprende. Tais modificações possibilitam o aparecimento de novos comportamentos, adquiridos pelo processo de aprendizagem (CONSENZA, 2011, p. 141)
Izquierdo (2011) elucida que o processo de aprendizado se dá conforme etapas, como aquisição, formação, conservação e evocação de informações. Essas etapas podem e devem ser exploradas pelo mediador do conhecimento, pois só se memoriza, ou se mantém aquilo que é adquirido, ou seja, que ficou retido. O aprender que não passar por estas etapas de forma coerente fica incompleto ou não se consolida. Para o professor dos primeiros anos de escolarização compreender estas etapas e explorá-las em suas práticas pedagógicas, vai possibilitar que o estudante aprenda e desenvolva diferentes habilidades cognitivas. Tal evolução no ato de ensinar e aprender oportuniza pensar o humano sob o prisma de uma educação e por sua vez, de um ensino globalizante, em que a leitura possa ocupa lugar central, bem como a abrangência dessa em uma prática contextualizada e coerente com os propósitos da educação.
3. O professor como mediador da leitura e formação de leitores
No passado, as práticas de leitura, não eram exclusividade apenas das escolas, nem uma incumbência restrita aos professores. A história mostra que as famílias ocuparam por séculos o lugar e espaço de difundir contos, histórias mágicas e aventuras infindáveis aos seus filhos. Todavia com a acelerada vida nas sociedades contemporâneas, a leitura e a literatura, em especial, se configuram em práticas que são de certa forma, responsabilidade da escola.
A escola é a instituição em que as práticas de leitura são sistematizadas, em que os textos circulam no contexto escolar. Contudo, isso não deve se pautar apenas pelo caráter didático e sim estar em consonância com a vida familiar e social, tornando mais significativa, mais viva e dinâmica a ação pedagógica, como um todo. As práticas de leitura desenvolvidas por um leitor, por uma comunidade de leitores, são sempre ações históricas e culturais, aprendidas no seio da comunidade de origem, ou seja, na família, na vizinhança, no contexto educacional, nos centros culturais e qualquer lugar em que se desenvolvam processos de leitura.
Nesse sentido, Lajolo (2005), ao tratar do gosto literário, faz uma proposta de educação do gosto revelando que não cabe somente à escola está tarefa, mas que compete a ela a tarefa de iniciar seus estudantes nos protocolos, nos critérios e nos valores da leitura. Entretanto, cabe à escola, cuidar para que seus estudantes tenham acesso aos diferentes gêneros discursivos, entre eles, o gênero literário, ao longo dos anos de escolarização, podendo o estudante apropriar-se da extensa heterogeneidade dos gêneros (orais e escritos), suas variações estilísticas e suas possiblidades de dialogar com eles. Em decorrência, os estudantes poderão se constituir gradativamente como leitores e leitores literários, conforme as especificidades da literatura.
Para um ambiente favorável à constituição de leitores, é necessário que os professores tenham domínio de estratégias didáticas para abordar diferentes gêneros textuais, dentre eles, os gêneros literários, pois é essencial que o livro de literatura infantil, ao entrar na escola, seja adequadamente escolarizado (SOARES, 1999). A escolarização do texto literário, de acordo com a autora, ocorre muitas vezes de maneira inadequada. O mesmo, não se relaciona às práticas de leitura literária que ocorrem no contexto social e terminam por desenvolver, no estudante, uma aversão ou resistência à leitura. O despreparo por parte do professor quando da escolha de uma temática ou a forma de introduzir uma temática no contexto infantil desencadeiam o sentimento favorável ou desfavorável em relação ao que está envolvido no ensino e na aprendizagem.
Sabe-se que as primeiras experiências de leitura da criança são marcantes e determinantes para o futuro leitor, não só pela compreensão dos significados do texto, mas, também pela forma de ler, pela entonação de voz do leitor, pela interação afetiva entre leitor-mediador e com o ambiente que a leitura se desenvolve por tudo aquilo que circunda o texto e com ele estabelece relações. O fato de contextualizar e pensar as especificidades dos estudantes que participam de práticas de leitura faz com que o texto lido passe a ser vivenciado. Essa vivência vai se fixar na mente infantil, por meio da emoção e da afetividade de forma prazerosa. Logo, a promoção de práticas de leitura, no contexto escolar, gera uma rotina de prazer e uma maneira dinâmica de apresentar o conhecimento e gerar a integração de novos conhecimentos, fundamental para que as aprendizagens sejam significativas.
As crianças se encantam com o possível e o impossível ao ler histórias e os adultos se encanta ao vislumbrar um caminho que lhes devolva o sonho. A ênfase na imaginação e na capacidade de pensar o que se lê, ou seja, a leitura como elemento para exercitar o pensamento humano, ler para fazer pensar, ler para ampliar novas aprendizagens, produzem efeitos incalculáveis no desenvolvimento cognitivo e emocional do estudante. Um bom narrador precisa ler muito, os livros, as placas, os gestos, as pessoas, a vida inserida em cada coisa. Para Sisto (2001), o bom narrador também precisa ter paixão pela palavra pronunciada e contar ou ler história pelo prazer do dizer. A palavra, com seu poder de evocar imagens, vai instaurando uma ordem mágico-poética que resulta do gesto sonoro e do gesto corporal, capaz de envolver o ouvinte pela suspensão temporal, pela emoção.
Oliveira e Spíndola (2008) ressaltam que o professor precisa favorecer o desenvolvimento pelo gosto de histórias, poesias, e inserir o maior número possível de gêneros textuais e literários no contexto escolar. Isso remete a concepção de que todo professor deve ser professor de leitura, visto que ler faz parte da aprendizagem, devendo, por isso, fazer parte de todas as atividades educativas. O professor é o mediador entre a realidade dos estudantes e aquilo que está escrito e narrado, compete a ele imprimir emoções na sua fala para atrair a atenção da criança.
O professor é agente cultural quando estabelece o processo de mediador na formação do estudante leitor, quando planeja práticas de leitura em que os estudantes entram em contato com o texto literário e com suas peculiaridades estéticas, linguísticas, artísticas, de modo que aprenda a dialogar com o texto, valorizar e ativar os intertextos e assim, produzir sentido. Ao oferecer diferentes práticas de leitura, está proporcionando que os estudantes vivam o livro literário, que ampliem as linguagens para dar vivacidade à prática pedagógica e para compreender o mundo e as múltiplas linguagens e diferentes tipos de narrativas que o explicam. Transformar um livro em um veículo condutor de experiências mentais faz com que, além do prazer pela leitura o indivíduo desenvolva habilidades cognitivas de associação, imaginação, memorização atreladas a um conjunto de emoções, envolvidas na relação entre leitor e ouvinte de uma história.
4. Leitura como prática social para formação do cidadão
Em termos estruturais, inicialmente após a consolidação da prática de leitura no indivíduo, inicia um momento de reflexão crítica acerca do tema lido, sua pertinência e busca de significados. Soares (1998, p. 47) define que ler envolve diálogos “a leitura é interação verbal entre indivíduos, socialmente determinados: o leitor, seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e os outros; entre os dois: enunciação e diálogo”. A leitura possui então múltiplos valores em nossa cultura.
Segundo Ximenes (2000, p. 170), “cidadania é a condição de cidadão” e “cidadão é o indivíduo no pleno gozo de seus direitos políticos e civis”. Ao referir a palavra cidadania, a conotação dada, é de construção da consciência crítica, política e social do indivíduo. Dessa forma, a leitura possibilita à formação do cidadão e consequentemente a construção da cidadania. Por meio da leitura o ser humano terá a possibilidade de construir novas relações com as informações presentes no espaço global de uma forma dinâmica, crítica e autônoma.
Mesmo na contemporaneidade, afirma Rosa (2005), a sociedade continua a difundir de maneira escrita os conhecimentos, sejam pela internet, televisão, impressos ou qualquer veículo de informações, as palavras, escritas ou lidas, ainda determinam os rumos do desenvolvimento do ser humano, enquanto sociedades e acervo histórico cultural. Assim, o processo de apropriação da informação e da construção de novos conhecimentos se configura como um processo ativo que está intimamente ligado à leitura. Por isso, o uso social da leitura é algo contextualizado que acontece em diferentes espaços. A apropriação ativa das informações é precursora da cidadania.
Segundo Kleiman (1998), ao lermos um texto, colocamos em ação todo o nosso sistema de valores, crenças e atitudes que refletem o grupo social em que se deu nossa socialização primária, isto é, o contexto em que nascemos e fomos educados. Por isso, podemos afirmar que a leitura enquanto prática social é bastante complexa, pois está intimamente ligado às nossas raízes socioculturais e consequentemente à formação da nossa cidadania.
A literatura tem uma capacidade extraordinária de emancipar o indivíduo e dar a ele a autonomia necessária para viver a sua vida. Pode-se afirmar que o conhecimento adquirido com a leitura e construção com as reflexões da leitura são ferramentas que lhe conferem liberdade e autonomia de pensamento. Acerca disso, Amorim (2007) aponta que a literatura é o que conduz o sujeito leitor para muito além da mera informação ou mesmo do conhecimento. Por meio dela o estudante estabelece contato e vivência as mais diferentes e inesperadas situações pelas quais passa o ser humano. E é assim, com a experiência do outro, que é possível estabelecer conexões, desenvolver a capacidade de pensar, articular ideias, planejar, alçar vôos e agir.
De acordo com Brito (2010) a leitura ocupa uma dimensão bastante ampla na aprendizagem, não pode apenas ser considerada como uma interpretação dos signos do alfabeto e sua ação de decodificar. Interpretar envolve questões da semântica, do universo da produção de sentido, ou seja, surge da vivência de cada um, é posta como prática na compreensão do mundo na qual o sujeito está inserido. Tal aprendizagem está ligada ao processo de formação geral de um indivíduo e sua qualificação dentro da sociedade, na atuação política, econômica e cultural, no convívio com a sociedade, seja na família ou no trabalho.
Ler é uma ferramenta primordial para que o ser humano saiba posicionar-se, ter opiniões próprias e ser crítico. Acerca disso, Foucambert (1994), busca elucidar que a leitura acentua e oportuniza inúmeras bagagens e essas por sua vez, elevam a condição de pessoa:
Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é (FOUCAMBERT, 1994, p.5).
Em concordância, Kuenzer (2002, p. 101), ler significa em primeiro lugar a capacidade de: “ler criticamente, o que quer dizer perder a ingenuidade diante do texto dos outros, percebendo que atrás de cada texto há um sujeito, com uma prática histórica, uma visão de mundo (um universo de valores), uma intenção”. A leitura, por si só é uma prática que envolve o pensamento, a interpretação também e a relação de significados envolvida em ambas, assume uma dimensão social e política no diálogo entre contexto e significado.
A leitura crítica é geradora de significados, em que ao ler, o leitor concorda ou discorda da ideia principal. Isto faz com que seja diferenciada da decodificação de sinais, reprodução mecânica de informações que por muito tempo foi considerada como interpretação textual. “[…] como atividade constitutiva de sujeitos capazes de interligar o mundo e nele atuar como cidadãos” (Brandão; Michelitti, 1998, p. 22).
Segundo Freire (1989, p. 13) “a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através da práticaconsciente”. Entendemos, então, que a leitura crítica desestabiliza o mundo interior do indivíduo, fato que por sua vez, traz para as mesmo, dúvidas e anseios por mudanças. Em um primeiro momento, ocorre a inquietação, depois, alguns ajustes são feitos no mundo interior do leitor por meio da reflexão para, finalmente, ocorrer a prática consciente, que consiste no resultado do novo sujeito transformado, porém não concluído. Pois no decorrer da vida, outras leituras de mundo serão lidas e relidas.
Nesse sentido, Freire (1989) aponta que para formar um leitor crítico e capaz de exercer sua criticidade e democracia, é importante que, desde o processo de aquisição da linguagem escrita e no ato de ler, estejam envolvidos a compreensão por parte daqueles que ensinam que o processo de alfabetização se dará na medida em que a leitura da palavra esteja inserida, contextualizada e dialogando com a leitura do mundo e estimule a continuidade da leitura dele e sua real transformação.
Pode-se, então, observar que a prática da leitura crítica caminha de mãos dadas com a autonomia. Afinal, um sujeito autônomo e crítico não se contentarão com leituras que não lhe forneçam novas relações, associações ou combinações de ideias, alçará vôos em suas próprias conclusões.
De acordo com (Silva, 2002, p. 29) “todas essas ações subjacentes ao trabalho de interlocução do leitor crítico podem ser amalgamadas num único conceito, qual seja o de posicionamento”. Enfim, ler liberta impulsiona as possibilidades de conhecimento a níveis inimagináveis, transforma a consciência do ser humano perante o mundo em que vive, dota o leitor a ser capaz de abrir inúmeras portas do desconhecido, instiga ao infinito.
5. Metodologia
O tipo de pesquisa realizada é classificado como um estudo de caso. O estudo de caso pode ser realizado com um ou poucos sujeitos, com o objetivo de aprofundar-se e detalhar as características do objeto estudado, sendo utilizada com diferentes propósitos, entre eles, a formulação de hipóteses (GIL, 2009). A abordagem metodológica da pesquisa é de cunho qualitativo.
A amostra deste estudo foi composta por sete participantes, sendo sete professores e dois gestores, de uma escola municipal da Rede Pública de ensino localizada na cidade de Santa Maria, RS. As entrevistadas atuam a mais de dez (10) anos na Rede de Ensino Municipal, encontram-se numa faixa etária de trinta (30) a cinquenta (50) anos de idade.
As participantes da pesquisa são graduadas e todas com especialização na área da Educação, duas delas possuem título de Mestre, o que confere um grupo heterogêneo enquanto formação. No Quadro 1 é apresentado o perfil da amostra estudada.
| Participantes | Sexo | Formação acadêmica | Tempo de Docência | |
| Regente da turma do 1 º ano | F | Pedagogia, Especialização Educação Infantil. | 19 anos | |
| Regente da turma do 2º ano | F | Letras/especialização. | 31 anos | |
| Regente da turma do 3º ano | F | Pedagogia e Ciências Sociais/mestrado. | 29 anos | |
| Regente da turma do 4º ano | F | Pedagogia e especialista em Mídias. | 13 anos | |
| Regente da turma do 5º ano | F | Formada em Pedagogia | 11 anos | |
| Diretora | F | Pedagogia Anos Iniciais, Especialização Administração e Supervisão Escolar, Especialização em Orientação Educacional e mestrado em Geomática. | 29 anos e 23 anos numa outra matrícula | |
| Coordenadora Pedagógica | F | Pedagogia Anos Iniciais/ Especialização em Psicopedagogia/FIC e Clínica. | 25 anos de docência numa matrícula e na outra 10 anos. | |
A relevância do estudo, e a sua natureza por envolver seres humanos, fez com que o mesmo fosse apreciado, avaliado e autorizado pelo Comitê de ética em Pesquisa. Assim, a presente pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comitê de Ética (CEP) em Pesquisa da Universidade Franciscanasob nº de CAEE 71641717.6.0000.5306.
Para realizar a coleta de dados foi elaborado pela pesquisadora um cronograma de aplicação de entrevistas estruturadas, com o propósito de investigar os reflexos da aplicação das práticas de incentivo a leitura desenvolvidas na escola na aprendizagem e comportamento dos estudantes, sob o ponto de vista das gestoras e professoras do Ensino Fundamental I. A técnica utilizada para a coleta de dados foi à entrevista estruturada, que segundo Marconi e Lakatos (2011), na entrevista padronizada ou estruturada, o entrevistador segue um roteiro e as perguntas são prefixadas.
O primeiro contato com os professores envolvidos na amostra em estudo foi realizado conjuntamente com a diretora e coordenadora pedagógica e objetivou expor a dinâmica para operacionalização das entrevistas e a entrega do TCLE para concordância de participação no estudo. As entrevistas foram agendadas de acordo com a disponibilidade dos professores em diferentes dias, num período de sete (7) dias. O instrumento utilizado para a coleta de dados nas entrevistas foium aparelho celular. As entrevistas duraram em média quarenta (40) minutos, num ambiente descontraído e de compartilhamento de experiências. As transcrições das entrevistas foram realizadas pela pesquisadora manualmente.
Para realização das entrevistas, optou-se por seguir os passos de um roteiro de perguntas que envolveram elementos das práticas pedagógicas no contexto escolar, buscando investigar as seguintes categorias: Fatores fundamentais para aprendizagem dos estudantes; A leitura e suas contribuições para a aprendizagem dos estudantes; Práticas de Leitura com temáticas que envolvem as práticas sociais da vida dos estudantes.
A partir dos dados coletados nas entrevistas, foram elaboradas categorias para analisar os resultados obtidos por meio do método de Análise de Conteúdo, que segundo Bardin (2006), consiste em um conjunto de técnicas, dividida em três etapas básicas: a primeira é a pré-análise, a segunda é a exploração do material e a terceira o tratamento dos resultados, inferência e interpretação. As categorias de análise, são apresentadas no Quadro 2.
Para o tratamento dos resultados e análise das entrevistas foi utilizado a Análise Crítica do Discurso (ACD), que é uma abordagem metodológica utilizada na pesquisa social científica que considera a "linguagem como uma forma de prática social" (Fairclough, 1989,p. 20).
| CATEGORIAS |
| Fatores fundamentais para aprendizagem dos alunos. |
| A leitura e suas contribuições para a aprendizagem dos alunos. |
| Práticas de Leitura com temáticas que envolvem as práticas sociais da vida dos alunos. |
6. Resultados e Discussão
Nessa secção serão discutidos os resultados obtidos nesse estudo, apresentando a ótica da gestão escolar e dos professores em relação às práticas de incentivo a leitura aplicadas no cotidiano educacional, como também as implicações da Neurociência como agente potencializador da aprendizagem e ferramenta primordial na formação do professor.
Os reflexos da aplicação de um projeto de incentivo à leitura no contexto escolar podem ser verificados nos fragmentos das falas dos gestores e professores que apontam os “fatores fundamentais para aprendizagem dos alunos”:
“Primeiro lugar a afetividade, tem que ter um vínculo bem grande com eles, tem que saber chegar nele, principalmente no primeiro ano é uma quebra, é o início deles, eles vem da Educação Infantil, entender como eles aprendem, como funciona esse processo, trabalho muito com as testagem, ontem mesmo estava calculando na ordem, vejo todo o desenvolvimento deles, desde o no início, no final se vê como eles evoluíram, faço com as mesmas palavras e uma frase, vou fazendo no início, depois no final dos trimestres, fiz quatro testagens, acho que é muito importante acompanhamento sempre com eles. Principalmente para mostrar aos pais o desenvolvimento dos filhos”. (PROFESSORA REGENTE - 1º ANO ENSINO FUNDAMENTAL I).
O relato acima mostra que, mais do que repetir as técnicas ao longo dos trimestres com a finalidade de comparar a evolução da criança, é preciso e necessário ter afetividade para com os estudantes, a fim de diminuir o impacto da transição escolar de um nível para outro. Acerca disso, Relvas (2005) evidencia que a emoção tem um papel crucial para a memória, e por consequência no aprendizado, não estando a memória em uma parte isolada do cérebro, sendo resultado de fenômenos biológicos e psicológicos. Dessa interação afetiva o professor pode extrair melhores resultados educacionais, uma vez, que por meio da afetividade se tem um bom acesso à memória.
“A leitura, técnicas diferenciadas, o apoio do professor, a estrutura familiar, a empatia com o professor (entender o aluno), as diferentes oportunidades e estratégias de aprendizagem” (PROFESSORA REGENTE - 5º ANO ENSINO FUNDAMENTAL I).
“O que mais considero importante é a relação que os alunos tenham confiança no professor, porque os alunos têm pouco respaldo em casa. A relação entre aluno e professor é importante” (PROFESSORA REGENTE - 2º ANO ENSINO FUNDAMENTAL I).
É possível observar nas falas acima que além da leitura como estratégia de ensinagem, a empatia e o apoio são fatores importantes e que contribuem significativamente para a aprendizagem dos estudantes. O ambiente familiar apontado nos relatos, também é um fator relevantenesse processo, pois confere grande suporte a qualquer prática educacional. Santos (2006) evidencia também que a escola integrada à vida do aluno, tendo diversos fatores em comum ao cotidiano é ponto crucial.
O próximo depoimento, de uma docente do 5º ano do Ensino Fundamental mostra elementos interessantes para o estudo:
“Clima em sala de aula (constrói a relação desde os primeiros dias de aula/contato com a família), relação de confiança, diálogo constante, instigar a curiosidade, estimular a assiduidade, buscar formas de estimular a aprendizagem, conhecer a história dos alunos, propor coisas diferentes, buscar diferentes formas de abordar os conteúdos, manter o clima harmonioso na sala de aula (que seja bom de estar ai), proporcionar projetos/atividades diferenciadas para que os alunos consigam de forma efetiva possam manifestar o que os alunos aprenderam, revisar o que eles aprenderam, construir de o saber de diferentes formas, realizar relações entre os conteúdos e a vida cotidiana dos alunos.” (PROFESSORA REGENTE DO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I).
Segundo Relvas (2011), encontrar exemplos vivos na escola, práticas de mundo e do cotidiano nas interações e assuntos, por sua vez, valorizam aqueles momentos como mais que uma repetição de práticas escolares, mas realmente um aprendizado para a vida, pois o ato de aprender é uma prática social, logo um ambiente tranquilo incentiva o indivíduo a expor ideias e sentimentos
Na sequência são apresentados os relatos da diretora e da coordenadora pedagógica da escola estudada, referente aos fatores fundamentais para aprendizagem dos estudantes:
“Olha eu acho que tudo, eu sempre digo, o que tu aprende nunca esquece, a gente aprende muito visualizando; eu acredito que a criança aprende visualizando, pegando, eu acredito num trabalho mais lúdico, principalmente com criança, e o que ela interage, o que ela vive na realidade, essas coisas ela aprende mais, por isso que desde a educação infantil até o quinto ano, até nos anos finais, tem que ter trabalho mais prático, não só teoria, teoria, a coisa mais pratica; é como adulto, se tu tiver a prática tu aprende mais, tu guarda muito mais aquilo, do que só o livro, a exposição da professora. Os fatores mais importantes, lá no chão da sala de aula, o ambiente mais lúdico, tem que ter coisas mais palpáveis, eu acho que a escola neste ponto deixa muito a desejar, o professor tem que trazer coisas mais práticas, mais concretas, mais do mundo das crianças, eu acho que ainda nós precisamos”. (DIRETORA)
A fala da diretora é composta por elementos fundamentais referentes à eficácia da prática pedagógica no contexto escolar e que são referenciados pelo viés da Neurociência. Na perspectiva dos conhecimentos neurocientifícos é preciso que o ensino com crianças menores considere seus conhecimentos prévios, de modo a ampliar suas competências ao proporcionar estruturas de apoio para o seu desempenho. É a partir desse conhecimento prévio que novas redes neurais são articuladas e armazenadas em memórias. De acordo, Carvalho (2011), oferecer situações de aprendizagem fundamentadas em experiências ricas em estímulos e fomentar atividades intelectuais pode promover a ativação de novas sinapses. As informações do meio, uma vez selecionadas, não são apenas armazenadas na memória, mas geram e integram um novo sistema funcional, caracterizando com isso a complexificação da aprendizagem.
Em consonância com os autores Consenza e Guerra (2011) que apontam que a Neurociência revela para o professor que a prática pedagógica pode ser mais significativa e eficiente se ele conhece o funcionamento cerebral, o que lhe possibilita o desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais adequadas. A posição teórica dos autores refere à fundamental importância dos conhecimentos da Neurociência pelos gestores e professores para o desenvolvimento de práticas pedagógicas dinâmicas capazes de fornecer estímulos que promovam transformações em circuitos neurais levando ao desenvolvimento e reorganização da estrutura cerebral, cuja função resulta em novos comportamentos e, consequentemente, em aprendizado.
“Eu acho muito importante e fundamental a sistematização, depois de toda essa prática, às vezes a gente se perde muito, na questão só o lúdico, mas é a sistematização? O aluno realmente não grava se não tiver uma sistematização bem-feita, precisa complementar essa prática a professora fazendo esse fechamento, o aluno tem que ter o registro. A sistematização e o registro são muito importantes porque podemos ver o que funcionou, e o que se tem que retomar. E para o aluno, falando da faixa etária especificamente dos nossos alunos dos pequenos isso é essencial, sem o registro, pode ser feito desde a Pré-Escola através de um desenho ou da forma que eles acham que é a escrita, os primeiros rabiscos, isso é essencial, a aprendizagem se tem consistente nesse momento”. (COORDENADORA PEDAGÓGICA)
Corrobora com o que pensam a diretora e a coordenadora pedagógica da escola em estudo, enfatizam que além da prática que permita a evolução do aprendizado da criança, é preciso registrar essas práticas de modo que quando colocados lado a lado, esses registros permitam mensurar a evolução da mesma, e delimitar em que o avanço não está ocorrendo, caso seja necessário interferir e modificar alguma prática.
Em relação à categoria “a leitura e suas contribuições para a aprendizagem dos estudantes”, são apresentados os seguintes relatos:
“Para os pequenos é a base de contar histórias, deixar manipular os livros, olhar as figuras, a gente tem aquela ideia de não saber ler a leitura, eles estão em contato, estão olhando as figuras, a leitura é isso. Incentiva contando histórias, a interpretação oral é bastante significativa que vai ajudar depois para poder interpretar. Estão na fase de despertar, a leitura é muito importante para eles, começam a ver o mundo diferente, os pais dizem que eles estão lendo tudo, começam a se dar conta das letras e tudo que eles podem ler”. (PROFESSORA REGENTE 1º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
É notório no relato da professora regente que a leitura é um importante instrumento social e cognitivo para inserir os estudantes no mundo letrado. Na escola aprender a ler e escrever, deve ser muito mais do que a apropriação de uma norma ou o domínio de uma tecnologia, aprender a ler e escrever na escola é dispor de conhecimentos que possam ser usados para participar e intervir na sociedade. Do ponto de vista da formação de uma criança e do papel que a leitura representa neste processo, evidenciamos que as experiências ricas em vivências moldam o cérebro da criança e influenciam o seu futuro. Acerca disso, Diamond (2000), a imaginação e a criatividade dos estudantes precisam ser estimuladas e as histórias infantis fornecem subsídios para as crianças que vão além do aumento do vocabulário e a compreensão favorece o crescimento emocional e de valores.
“Leitura é fundamental, só não sei se a carga grande (é necessário oferecer, oportunizar) de leitura vá dar resultados esperados. Hoje é mais funcional, tudo tem a internet. Considero importante como pessoa a leitura. A leitura é importante porque tudo vem dali, a interpretação vem dali, se não consegue ler e interpretar, não se consegue relacionar no mundo letrado. A leitura é muito importante para se inserir no mundo letrado. Em nossa sociedade que tudo é a escrita, a história é escrita, é extremamente importante. Não só a leitura mínima que eles saem da escola, tão pouco aprofundada, que não conseguem ir além”. (PROFESSORA REGENTE DO 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
Na fala da professora regente do 3º ano, há uma conjugação de ideias relacionadas ao posicionamento da professora do 1º ano no que refere à relevância da leitura na inserção da criança no mundo letrado. Tal depoimento reforça a tese de que não é apenas oferecer bons textos, é preciso explorar a leitura ativando os conhecimentos prévios, interpretando com questões objetivas, subjetivas, dentre outras. Ainda se faz necessário ressaltar, a importância de o professor realizar atividades constantes, planejadas em que os estudantes tenham acesso a diferentes gêneros textuais, incluindo os literários, e que estes possam estimular a escrita de outros textos. Além disso, é fundamental ao professor, proporcionar experiências significativas de leitura e que possam contribuir para que os estudantes despertem o gosto pela leitura e desenvolvam a capacidade leitora. Nesse sentido, é preciso que o professores se reconheçam leitores, não apenas tenham bons livros, mas, percebam-se importantes mediadores entre leitura e estudantes.
“A leitura permeia todo o processo de aprendizagem, tanto na educação infantil quanto nos Anos Iniciais, na Educação Infantil insere no mundo letrado, desenvolve prática de leitura, nos anos iniciais efetiva aprendizagem da leitura, na minha concepção permeia todo o processo. Não é um conteúdo isolado e nem uma prática isolada. Inclusive os conteúdos passam a leitura e consequentemente a escrita”. (PROFESSORA REGENTE DO 4º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
“Leitura a gente trabalha com vários alunos inclusos, a leitura não é só a decodificação das letras, das palavras mas é conseguir fazer essa leitura maior, mais ampla, dos fatos, do significado dos acontecimentos do entorno dos alunos nem sempre é decodificar, então isso tem uma importância muito grande para a vida das crianças, esse estímulo para a leitura faz uma diferença incrível, o aluno que é estimulado as vezes eles dizem que eles não gostam de ler, eles não gostam porque não tiveram esse estímulo, não tiveram esse contato primeiro, e o professor tem que gostar de ler, o fato do professor gostar de ler eles sentem isso, isso é uma diferença muito grande. Mostrar para eles através dos fatos das atividades diferenciadas que a leitura traz conhecimentos novos, amplia o que já se sabe, te faz buscar coisas novas, a gente desenvolveu sempre atividades nesse sentido, então ela te dá uma visão diferenciada e mais ampla das coisas que acontecem vida próximo deles distante deles, aí que os conteúdos estudados tomam sentido”. (PROFESSORA REGENTE DO 5 º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
É possível inferir, na perspectiva da análise que nos relatos das professoras regentes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da escola estudada, a importância das práticas de leitura no cotidiano escolar para a aprendizagem dos alunos. Acerca dessas considerações, é de relevância retomar os conhecimentos da Neurociência abordados nesse estudo no que tange ao processo de aprender. É imprescindível uma pedagogia contemporânea, que se mostre atuante e voltada às exigências do aprendizado num mundo globalizado. Cotidianamente em sala de aula é fundamental valorizar o ser individual, respeitar suas particularidades e garantir o direito de aprender, ofertando estratégias de ensino que atendam as expectativas de cada estudante, sem perder o olhar coletivo. Nas palavras de Nóvoa (2014) entendemos a urgência de se repensara escola e as práticas pedagógicas, “hoje, todos os alunos estão na escola, mas nem todos têm acesso ao conhecimento. Há muitos alunos que não querem aprender, que não têm qualquer projeto escolar, e a escola encontra-se perdida perante esta realidade”. (NÓVOA, 2014, p. 5).
A importância de se vincular a leitura às práticas dos alunos é um desafio constante, que exige criatividade por parte dos docentes e daqueles que contribuem para a decisão diante das práticas pedagógicas. Segundo Rangel (2010), isso certamente inclui um processo de (re) conhecimento e de discussão, não só dos direitos e deveres do cidadão, mas, ainda, das bases do funcionamento da sociedade. Por todos esses motivos, podemos dizer que a primeira e mais decisiva das inclusões sociais é a que a própria escola ao mesmo tempo implica e promove: quanto melhor a escola desempenhar sua função formadora, mais eficazmente promoverá a inclusão social e a cidadania.
A seguir são apresentados os apontamentos da coordenadora pedagógica e diretora referente à importância dos projetos de incentivo à leitura no contexto escolar:
“O professor A. é o nosso parceiro, que a gente não abre mão, sempre se reúne com a gente lá pelo final do ano, fazendo a avaliação (ouvindo os professores e planejando com os mesmos) e colocando a proposta para o próximo ano, o que ele está pensando, ouvindo os professores. A minha preocupação desde que eu cheguei aqui, foi realmente o projeto, eu adoro essa questão da leitura, pela minha experiência de doze anos de alfabetização, a minha preocupação foi realmente estimular as gurias cada vez mais, desde criar o Baú da Leitura, o Carrinho da leitura, sempre estimulando o que mais podemos fazer como motivar mais as crianças, sempre a preocupação desde o início do ano é a questão de ver o que foi feito no ano passado e o que podemos fazer mais no sentido, por isso bem observado que cada uma das gurias tem dentro do projeto maior projetos específicos de acordo com a faixa etária, com a sua realidade de sala de aula, para que os alunos se sintam estimulados, porque sabemos que os benefícios da leitura são infinitos”. (COORDENADORA PEDAGÓGICA)
“O projeto em si começou lá no tempo da antiga diretora e quem deu o chute inicial foi a professora L., que era professora do quinto ano, e que ela começou a fazer o projeto de leitura com a turma dela junto com o professor A., que lançaram um livro da turma dela. Quando nós assumimos a direção (5 anos), um dos nossos carros chefes era continuar esse trabalho, então o professor A. se dispôs e nós começamos a fazer o trabalho junto com as turmas com o intuito de que cada ano ele faz o projeto com uma turma diferente, na culminância lança o livro (três livros lançados), foi esse início do projeto. A professora C. começou o trabalho com a semana literária, uma coisa agrega a outra, e nós começamos todo esse movimento dentro da escola. As meninas junto com a coordenação fazem esse trabalho de ações de leitura em cada turma. O professor A. em cada ano escolhe uma turma que ele quer fazer o trabalho (poesia, leitura), ele tem todo um preparo, ele com o professor faz todo o planejamento. Sim, todo ano a escola vai ampliando, para os alunos maiores também, tem trazido os alunos maiores para participar do projeto, na semana literária eles fazem poesias, trabalhos, criam trabalhos para apresentar na semana literária, tudo isso é resultado das ações do projeto de leitura”. (DIRETORA)
No depoimento da diretora, percebe-se uma proposta educativa permeada pelo incentivo de práticas de leitura ao longo da história escolar. É sabido, que muitas vezes, o único espaço onde algumas crianças terão oportunidade de acesso à leitura é na escola e, a ela é reservado o papel, antes de qualquer outro, de promover o ensino da leitura e escrita. Portanto, é necessário que a escola promova o acesso à cultura escrita, além de alfabetizar, mas, inserir o estudante no mundo da escrita como ferramenta indispensável para a compreensão do mundo.
A nova dimensão da aprendizagem apresentada pela Neurociência referendada nesse estudo permite apontar que a criança precisa de estimulação necessária e adequada em todas as fases de seu desenvolvimento. Segundo, Relvas (2012), o processo de aprender pode ser melhorado com estímulos as linguagens, oral, cantada, escrita, expressão facial e corporal que desenvolvam as capacidades cognitivas e futuras memórias. Logo, a formação e a apropriação do conhecimento neurocientífico se faz necessário na formação do professor. A aplicação do projeto de incentivo à leitura na escola e suas implicações no processo de construção da cidadania dos alunos foi analisada na seguinte categoria: “as práticas de leitura com temáticas que envolvem as práticas sociais da vida dos estudantes”. A seguir serão apresentados os relatos da amostra estudada:
“Procuro trazer através da leitura alguma coisa que seja do cotidiano deles e também vou além (Textos de Portugal, português de Portugal, eles gostam muito dessa coisa, que acham linda), que seja acontecimentos gerais, são do terceiro ano, são pequenos, mas eles têm pouco conhecimento do que se passa ao redor não sabia que século viviam). A escola ainda é, no contexto que os alunos vivem, a escola ainda é referênciaem conhecimento, ainda precisa muito. Embora tenha a outros tipos de informação a escola ainda é esse espaço do conhecimento. A democratização dos meios de comunicação e das informações, não é tanto assim, a escola ainda é referência”. (PROFESSORA REGENTE DO 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
No relato acima, é possível identificar que a escola ainda é a base de informações, formais e informais, da cultura e também das sabedorias populares. Considerando a formação da cidadania por meio da leitura e da reflexão que esta deve provocar Rangel (2010), define que se trata de combater e superar a herança de um ensino tradicional da gramática normativa, dotando-o de uma postura flexiva e descritiva, e ainda, de ampliar o campo dos conhecimentos linguísticos abordados sistematicamente pela escola para as questões envolvidas nos diferentes usos da linguagem.
No relato a seguir pode-se verificar a evolução do desenvolvimento das crianças, da consciência crítica, da formação da cidadania, pois a compreensão crítica de um texto envolve a abordagem de questões socioculturais de diversos tipos, inclusive as que se podem considerar formas de preconceito e/ou discriminação contra certos tipos e/ou grupos sociais. Nesse sentido, Rangel (2010) evidencia que a formação do leitor é indissociável da formação ética e política
“Tem, eles mesmo depois que tu conta, eles mesmos dizem que nem as historinhas, em fazer tal coisa, nos pequenos influencia bastante eles não esquecem, têm coisas que eles puxam lá do início do ano, fazem as comparações trazem para a vida deles”. (PROFESSORA REGENTE DO 1º ANO ENSINO FUNDAMENTAL I)
Como podemos verificar na fala da professora regente do 1º ano do Ensino Fundamental I que a escola é responsável por assumir o papel de mediadora de letramento de seus estudantes. A este respeito Soares (2010) reforça que a escola, nas sociedades contemporâneas, é a instância responsável em promover o letramento. Desta forma, entendemos que os estudantes precisam compreender a leitura como uma atividade de construção de sentido em que é preciso interagir com o texto para poder elaborar novos conhecimentos. Ao ler e discutir histórias ou outros textos literários o professor está contribuindo para formar leitores que buscam produzir significados.
“Acho que sim, por exemplo a nossa escola, bastante focada nisso, é uma experiência muito significativa que eles levam para o resto e vão ampliando também em termos de conhecimento, de aprendizagem, de leitura de mundo, é devagar, não é uma coisa de um dia para o outro, bem devagar, às vezes dá um desespero, mas eu acredito que sim eles vão devagarinho e vão ampliando o conhecimento, faz uma diferença uma escola que não se preocupa com isso e a escola que sim. Muitas vezes passa o ano inteiro e não se vê, mas acredito que vá. Na escola há um diálogo entre os professores para ir seguindo e acompanhando os alunos”. (PROFESSORA REGENTE DO 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
No relato acima, são apontados os resultados das ações dos projetos de incentivo a leitura observados no desempenho intelectual e comportamental dos estudantes. Acerca disso, cabe ressaltar que a construção do conhecimento é um processo continuado. Quando o estudante encontra na escola um local em que se sente seguro para ser ele mesmo, para experimentar, para expor suas ideias, é capaz de modificar suas formas de pensar e agir diante do mundo. Por meio, segundo Rangel (2010),das práticas de leitura, que o docente precisa, assumir o debate e o diálogo contínuo como ferramentas indispensáveis, tanto para o planejamento pedagógico como para o convívio cotidiano, o que significa incluir os pais de estudantes e a própria comunidade como interlocutores permanentes, estabelecendo-se mecanismos regulares de interação em aprendizagens significativas.
Acompanhar o processo de aprendizagem como um todo é um desafio para o docente, que possui diante de si diferentes crianças com diferentes formas de absorver saberes. Deahene (2012) elucida que mesmo para cérebros com dificuldades, a plasticidade cerebral permite encontrar soluções, em que é visível que “À medida que emerge um consenso científico sobre os mecanismos da leitura, seu ensino deveria progressivamente se transformar numa autêntica “neuro-psico-pedagogia”: a ciência unificada e cumulativa onde a liberdade de ensino não é negada, mas voltada para a pesquisa pragmática de um ensino melhor estruturado e mais eficaz” (DEHAENE, 2012, p. 344,345). Esse conhecimento seria um grande avanço para os professores que possuem diante de si desafios diversos de aprendizagem.
A respeito dos desafios de aprendizagem, pode-se observar nas falas da professora regente do 5º ano do EF algumas questões importantes:
“Sim, em duas atividades que a gente desenvolveu esse ano uma bem diferenciada que foi especificamente com a turma, Leitura Livre, eles tiveram como experiência elaborar o projeto e depois na forma de realização do projeto os grupos eram responsáveis por acompanhar a leitura dos colegas durante o horário do recreio, então eles liam para os colegas que não eram leitores, liam as imagens para os menores mostravam os diferentes formatos dos livros, foi uma experiência fantástica eles foram os promotores da leitura nesse momento e depois eu sempre faço as avaliações e os relatos são muito produtivos. Em relação ao Projeto Vanguarda Escolar a gente vê assim não só em relação a eles lerem, mas eles buscarem a leitura e também conseguir passar para os outros os conhecimentos os quais eles tiveram interesse, então é muito positivo, a então há melhora no elaborar a informação, como passar a informação, de elaborar de forma correta a sequência dos fatos, o registro não só oral, mas também escrito. Essa experiência me traz muita satisfação. No início eu sempre proponho para eles o projeto, é um projeto que eu desenvolvo há alguns anos a cada ano tem um formato diferente segundo o que a turma propõe, alguns se sentem desafiados, alguns demoram meses lá no segundo trimestre, sempre com muito estímulos às vezes eles apresentam agarrados, uns não usam microfone, uns lêem, não conseguem fazer o relato oral, importante que todos participam, todos traziam uma notícia, alguns choram, eles mesmos vão corrigindo, vão melhorando no uso do microfone, vão melhorando a postura, todos os alunos participam, inclusive os excluídos, mesmo os que não conseguem ler, isso dá uma satisfação muito grande”. (PROFESSORA REGENTE DO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I)
As diferentes atividades e abordagens sobre os temas se fazem necessárias no contexto escolar. Muitas vezes a compreensão de algo ocorre quando a criança encontra eco sobre determinada temática em sua vivência, em sua vida cotidiana. Quando dominar as habilidades de leitura e escrita, mais facilmente exercerá sua capacidade crítica, e sua cidadania. O domínio da leitura e da escrita − nos níveis esperados para cada um dos patamares de ensino-aprendizagem compreendidos numa educação básica − aparece como igualmente imprescindível ao pleno exercício da cidadania, Rangel (2010).Assim, acreditasse nas diferentes possibilidades que a leitura, enquanto uma prática ancorada pela área da neurociência, pode de maneira singular contribuir para a compreensão do desenvolvimento do cérebro humano, se envolvido num processo guiado pela leitura nessa possibilidade.
7. Considerações Finais
Conclui-se por meio da análise dos discursos da amostra estudada, que os projetos de incentivo à leitura no cotidiano escolar podem ser considerados como dispositivo potencializador, quando pensado pelos caminhos da Neurociência, pois os mesmos possibilitam estimular a capacidade crítica e reflexiva dos estudantes de diferentes níveis de ensino,, oportunizando-os a exposição de ideias, posicionamentos subjetivos, e especialmente, a construção de significados. Ressalta-se também que as práticas de incentivo à leitura, por meio de projetos de trabalho no âmbito escolar, surgem como uma possibilidade de reavaliar a natureza da escola e as práticas pedagógicas, numa perspectiva de um ensino globalizado e relacional, oportunizando aprendizagens e contribuindo de forma efetiva para o desenvolvimento cognitivo, social, emocional dos estudantes.
A partir do estudo realizado, foi possível compreender que a Neurociência abre um campo de discussão pertinente sobre como o estudante aprende e guarda saberes e apresenta conhecimentos incontestáveis que podem contribuir de forma significativa para o contexto educacional. O investimento na formação de professores com enfoque na Neurociência é de fundamental relevância, é indispensável, que o professor tenha contemplado em sua formação inicial ou continuada os conhecimentos que advém do campo cientifico desta ciência. Isto implica, em políticas públicas de investimento na formação do professor, de repensar os currículos não apenas da Pedagogia, mas em todas as áreas que formam educadores e, na abrangência dos gestores escolares a sensibilidade de oferecer no âmbito escolar momentos de formação com temáticas que incluam tais conhecimentos. Logo, é coerente afirmar que a Neurociência ao propor estratégias pedagógicas que estimulem e potencializem a capacidade cognitiva dos estudantes, apoia-se na leitura como uma ferramenta inesgotável de conhecimento. A leitura é sem dúvida, uma atividade interdisciplinar, que integra saberes e contribui para a construção de novos conhecimentos.
Por fim, sugere-se que a infância vivida na escola seja povoada de muitas e intensas experiências de leitura, ler para crianças por afeto e por direito, para fantasiar, viver, sonhar, inventar, reinventar, sendo seu “passaporte” no processo de inserção social e cultural em qualquer lugar do mundo. À escola, cabe olhar com mais nitidez para o contexto social, refletindo de maneira crítica sua função, pois, não há como negar o ritmo veloz e inusitado que se constrói a história da humanidade. Para tal, é preciso acompanhar a evolução, e potencializar a capacidade de aprender dos estudantes, por meio das concepções da Neurociência e contribuir na formação plena destes, para que possam ser capazes de lidar com as complexidades da vida contemporânea.
Referencias
AMORIM, G. Leitura e cidadania. 2007. Disponível em: http://www.blogacesso.com.br/?p=51. Acesso em: outubro de 2015.
BARDIN, L. Análise de conteúdo (L. de A. Rego & A. Pinheiro, Trads.). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1977)/2006.
BARTOSZECK, A.B. Neurociência na Educação. 2006. Disponível em: http://www.geocities.ws/flaviookb/neuroedu.pdf. Acesso em: 10 de maio de 2016.
BARTOSZECK, A.B, BARTOSZECK, F. K. Neurociência dos seis primeiros anos- implicações educacionais. 2013. Disponível em: http://www.researchgate.net/publication/267236019_NEUROCINCIA_DOS_SEIS_PRIMEIROS_ANOS-implicaes_educacionais/links/544e03990cf294731619f2d3.pdf Acesso em: agosto de 2014.
BARTOSZECK, A.B. Percepção do professor sobre a Neurociência aplicada à Educação. EDUCERE, Revista da Educação Umuarama, v.9.n.1,32- 37 2009.
BRANDÃO, H.H.N; MICHELETTI, G. Teoria e prática da leitura. In: CHIAPPINI, L. Aprender e ensinar com textos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1998.
BRASIL. Planejando a próxima década: Conhecendo as 20 metas do PNE. Ministério da Educação / Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino (MEC/SASE), 2014.
BRASIL. Plano Nacional da Educação 2014-2024. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições da Câmara, 2014.
BRITO D.S. A importância da leitura na formação social do indivíduo. 2010. Disponível em: http://www.fals.com.br/revela12/Artigo4_ed08.pdf. Acesso em: outubro de 2015.
CARVALHO, F. H. de. Neurociências e educação: uma articulação necessária na formação docente. Trabalho, educação e saúde. Rio de Janeiro, v. 8 n. 3, 2010.
CONSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
DEHAENE, S. Os Neurônios da Leitura: Como a Ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso Editora, 2012.
DIAMOND, M; HOPSON, J. Árvores maravilhosas da Mente: como cuidar da inteligência da criatividade e das emoções do seu filho do nascimento até a adolescência. Trad. Miriam Crohmal. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
FAIRCLOUGH, N. Language and power.Londres: Longman, 1989.
FOUCAMBERT, J.A leitura em questão/ Jean Foucambert; trad. Bruno Charges Magne – Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
FREIRE, P. A importância do Ato de Ler: três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ed. São Paulo: Atlas, 2009.
GÓMEZ, A. P. Educação na era digital: a escola educativa. Porto Alegre: Penso, 2015.
IZQUIERDO, I. Memória. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
KLEIMAN, A. Ação e mudança na sala de aula: uma nova pesquisa sobre letramento e interação. In: ROJO, R. (org.). Alfabetização e letramento: perspectivas linguísticas. Campinas: Mercado de Letras, 1998.
KUENZER, A (Org.). Ensino Médio: construindo uma proposta para os que vivem do trabalho.3ª ed.São Paulo. Cortez, 2002.
LAJOLO. M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2005.
LENT, R. Cem bilhões de Neurônios – Conceitos Fundamentais da Neurociência. São Paulo: Editora Atheneu, 2001.
LIMA, E.S. Escrita Para Todos - a aplicação da neurociência na docência e na aprendizagem. CADERNOS do CEPAOS 1 - Janeiro, 2013.
MARCONI, M. de A. LAKATOS, E. M. Metodologia Científica. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2011.
NORONHA, F. Contribuições da Neurociência para a Formação de Professores. Disponível em: < http://www.webartigos.com/articles/4590/1/Contribuicoes-DaNeurociencia-Para-A-Formacao-De-Professores/pagina1.html >. Acesso em: junho 2011.
NÓVOA, A. Os professores e a sua formação. 2 ed. Lisboa: Dom Quixote, 1995.
OLIVEIRA, A.A; SPÍNDOLA, A.M. Linguagem na Educação Infantil III – literatura infantil. NEAD. Cuiabá-MT: EdUFTM, 2008.
RANGEL, E.O. ROJO, R.H.R. Língua Portuguesa: Ensino Fundamental. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010.
RATEY, J.O cérebro: um guia para o usuário. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
REBELO, J. Dificuldades da leitura e da escrita em alunos do ensino básico. Rio Tinto: Edições ASA,1993.
RELVAS, M.P. Fundamentos biológicos da educação: despertando inteligências e afetividade no processo de aprendizagem. Rio de Janeiro: Wak, 2005.
RELVAS, M.P. Neurociências e transtornos de aprendizagem: as múltiplas eficiências para uma educação inclusiva. Rio de Janeiro: Wak, 2011.
RELVAS, M.P. Neurociência na prática pedagógica. Rio de Janeiro: Wak, 2012.
ROSA, C.S.S. Leitura:uma porta aberta na formação do cidadão. 2005. Disponível em: http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espacovirtual/espaco-autorias/artigos/leitura%20-%20uma%20porta%20aberta....pdf. Acesso em: outubro de 2015.
SILVA, E.T. Criticidade e Leitura:ensaios. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil (ALB), 2002.
SILVA, E.T. In: RANGEL, E.O. ROJO, R.H.R. Língua Portuguesa: Ensino Fundamental. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010.
SISTO, C.Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Chapecó: Argos, 2001.
SOARES, M. Alfabetização e Letramento. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2010.
SOARES, M. Letramento:um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
SOARES, M. O que é letramento e alfabetização. In: Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
SOARES, M.V.M. A leitura como prática cotidiana e motivacional: da infância ao crescimento intelectual e discernimento crítico. Revista ABC, v 11, nº 1/ano 2006.
TARDIF, M. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2010.
XIMENES, S. Minidicionário da língua portuguesa. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Ediouro, 2000.