Exclusão de mulheres negras: uma análise do filme “ Histórias Cruzadas ”
Exclusion of black women: an analysis of the film "Cruzed Stories"
Exclusión de mujeres negras: un análisis de la película "Historias cruzadas"
Exclusão de mulheres negras: uma análise do filme “ Histórias Cruzadas ”
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 2, pp. 01-11, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 26 Setembro 2018
Revised: 03 Outubro 2018
Aprovação: 16 Novembro 2018
Publicado: 18 Novembro 2018
Resumo: Na prática social da exclusão, os fatores raça e gênero somam-se ao se considerar as desvantagens históricas para mulheres negras. Em face dessa dupla desvalorização, as mulheres negras são a fatia mais marginalizada da sociedade. Embora o cenário atual possa ser considerado de redução das desigualdades sociais, ainda persistem padrões desprivilegiados para esse grupo social de participação na educação, mercado de trabalho, saúde e demais espaços públicos. Este artigo analisou o filme “Histórias Cruzadas”, no contexto dos anos 60, a fim de identificar processos de exclusão de mulheres negras, fazendo comparações com a realidade atual das negras no Brasil. Concluiu-se que dos anos 60 pra cá houve pouca evolução quanto aos direitos das mulheres negras, configurando-se como manutenção da exclusão e privação coletiva, recusa e abandono deste grupo social no país.
Palavras-chave: Desigualdade racial, Racismo, Discriminação.
Abstract: In the social practice of exclusion, the factors race and gender are added when considering the historical disadvantages for black women. In the face of this double devaluation, black women are the most marginalized slice of society. Although the current scenario can be considered as a reduction of social inequalities, there are still unprivileged patterns for this social group of participation in education, labor market, health and other public spaces. This article analyzed the film "Cross Stories" in the context of the 60s, in order to identify processes of exclusion of black women, making comparisons with the current reality of blacks in Brazil. It was concluded that from the 60's there was little evolution regarding the rights of black women, being configured as maintenance of the exclusion and collective deprivation, refusal and abandonment of this social group in the country.
Keywords: Racial inequality, Racism, Discrimination.
Resumen: En la práctica social de la exclusión, los factores raza y género se suman al considerar las desventajas históricas para las mujeres negras. En vista de esta doble devaluación, las mujeres negras son la parte más marginada de la sociedad. Aunque el escenario actual puede ser considerado de reducción de las desigualdades sociales, aún persisten patrones desposeídos para ese grupo social de participación en la educación, mercado de trabajo, salud y demás espacios públicos. Este artículo analizó la película "Historias cruzadas", en el contexto de los años 60, a fin de identificar procesos de exclusión de mujeres negras, haciendo comparaciones con la realidad actual de las negras en Brasil. Se concluyó que de los años 60 para allá hubo poca evolución en cuanto a los derechos de las mujeres negras, configurándose como mantenimiento de la exclusión y privación colectiva, rechazo y abandono de este grupo social en el país.
Palabras clave: Desigualdad racial, racismo, Discriminación.
1. Introdução
Em 2009, as mulheres negras correspondiam a cerca de um quarto da população brasileira. Eram quase 50 milhões de mulheres em uma população total que, naquele ano, alcançou 191,7 milhões de brasileiros(as). Além disso, em 2009, do total de mulheres, 50% eram negras e 49,3% eram brancas, indicando um número relativamente maior de negras em comparação às brancas (BOTTO, 2016). Dados mais atuais apontam que em 2013 havia, no Brasil, um contingente de 53.566.935 mulheres negras (CARNEIRO, 2017).
Tendo em vista esses dados, pode-se perceber que as mulheres negras são um número considerável em nossa sociedade e a partir disso, foi feita uma análise do filme “Histórias Cruzadas”, a fim de relacionar a dupla exclusão – gênero e raça – de mulheres negras vividas na década de 60, buscando refletir sobre o desrespeito com que as negras têm sido tratadas na atualidade, visto que as práticas racistas de antigamente ainda estão enraizadas no século XXI.
2. Metodologia
O estudo é de caráter qualitativo cujo método de investigação consiste em pesquisa documental, que se caracteriza por “[...] materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos da pesquisa” (GIL, 2008, p. 45). Utilizou-se o filme “Histórias Cruzadas” (2011), a fim de analisar os processos de exclusão social com relação ao contexto das mulheres negras.
Como técnica de análise do filme, optou-se pela análise de conteúdo que, segundo Flick (2009), considera o filme como um relato e tem em conta o tema do filme. A aplicação deste tipo de análise implica, primeiramente, identificar o tema do filme (mulheres negras) e, posteriormente, proceder uma decomposição, no sentido de refletir sobre aspectos que envolvam o tema fílmico. Além disso, o uso do filme como fonte de pesquisa traz uma riqueza de informações, facilitando o entendimento de conceitos estudados através da representação de um contexto histórico e sociocultural das décadas de 50 e 60, permitindo analogias com a atualidade.
3. Referencial teórico
3.1. Exclusão e relações raciais
Ao analisar a desigualdade social, a exclusão é basicamente conceituada pela pobreza e discriminação, todavia, se esquece de que o ponto fundamental da exclusão é a injustiça social. Por este motivo, além de conceituar exclusão, precisa-se discutir sobre a dialética exclusão/inclusão, que produzem subjetividades, fazendo com que os sujeitos venham a se sentirem discriminados ou incluídos. Decorrente disso, o indivíduo pobre é constantemente “incluído” na mídia e nas próprias políticas públicas através de uma falsa igualdade, que em síntese normatiza a igualdade como regra social, entretanto, na prática os processos inclusivos não funcionam de acordo com a realidade dos grupos excluídos, podendo gerar um sentimento de culpabilização individual. Deste modo, os processos de inclusão/exclusão envolvem o ser humano e suas relações sociais, configurando um sistema de dimensões políticas, materiais e subjetivas. Portanto, a exclusão é muito mais que uma falha do sistema, na verdade é o produto das configurações de um sistema (SAWAIA, 2002).
De acordo com Guareschi (2002), para brevemente contextualizar a história dos processos de exclusão nos dias atuais, é importante realizar uma análise crítica sobre a formação dos grupos sociais ao passar dos séculos. As relações humanas são os alicerces de um grupo, sendo que as mudanças históricas e sociais não surgem exclusivamente pelas singularidades dos indivíduos, mas sim, através das mudanças nas maneiras em que os grupos se relacionam. Para Guareschi (2002), no início de nossa história, a sobrevivência era provinda da terra, pesca e caça, fornecendo alimentos para um determinado povo. A partir do desenvolvimento da agricultura, surgiram os proprietários de terras que obtinham todo o controle da produção, assim como também consideravam seus escravos como mercadorias de uso pessoal. O poder dos proprietários se expandia desde as terras até as pessoas, subordinando essas pessoas a viver em condições de exaustão como única forma de sobrevivência. Com a Revolução Industrial, ocorreram grandes mudanças na forma de perceber e reconstruir as relações, onde o homem passa a ser o condutor da sua vida, podendo assumir contratos de trabalho e o pagamento pelo serviço prestado. Surgem novas formas de perceber o trabalho e os direitos trabalhistas, também construindo novas configurações de exploração e uma falsa ideia de liberdade meritocrática, em que a produção capitalista movimenta todas as necessidades da sobrevivência de grande parte da população mundial.
No Brasil, ao falarmos de relações raciais precisamos evidenciar o fato de que a miscigenação é o resultado biológico do encontro sexual de negros, brancos e índios. Ao comparar o Brasil com os Estados Unidos, percebem-se diferenças no modo como a sociedade reconhece e classifica as relações sociais. Para o Brasil o sistema se caracteriza por considerar a classificação de “mulatos” e “mestiços” e um fato importantíssimo que deve ser citado é que grande parte da população brasileira se declarou parda na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE (IBGE, 2003). Já o sistema americano desconsidera essa ambiguidade, classificando os indivíduos em “negros” e “brancos”. No Brasil, modificar a percepção social do reconhecimento do lugar do “mestiço”, atualmente nomeado por boa parte da população como uma conquista de representação é um importante caminho de luta contra o preconceito. Em ambos os sistemas ainda é extremamente necessário buscar maneiras de estabelecer maior igualdade de oportunidade para os grupos discriminados e marginalizados socialmente (MATTA, 1997).
O preconceito racial no Brasil atualmente é visto em um contexto mais “humanitário” se comparar com o período de escravidão, todavia, essa escravidão ainda existe em formas diferentes, que aprisionam os negros em um sistema que impossibilita o reconhecimento de sua cidadania. Ao falar de racismo, muito se fala dos padrões abomináveis de discriminação perpassados durante anos, os padrões de preconceito e estereótipos raciais impedem oportunidades de igualdade e a ascensão social do negro em relação ao branco. Mesmo os que ascenderam socialmente permanecem sujeitos a discriminação e inferiorização de suas capacidades, movimentando uma democracia racial ilusória que mantém os privilégios e a não subordinação dos brancos. Mesmo que na teoria a democracia racial possua um lugar importante e significativo, ainda permanece distante da realidade. A desigualdade no Brasil é uma das mais marcadas do mundo, sendo muito evidente a desigualdade econômica, segregação informal e a discriminação que os negros sofrem, até mesmo maior que nos Estados Unidos. As desigualdades socioeconômicas no Brasil são um forte reflexo da discriminação informal, as políticas do estado que deveriam procurar soluções compatíveis, acabam por criar um incentivo seletivo que acentua a desigualdade, faltando regras e oportunidades eficientes e possíveis para promover um maior nível de identidade e mobilização racial (MARX, 1997).
3.2. Exclusão social de mulheres negras
Desde o século XIX, as relações entre senhores-escravos e senhores-escravas eram diferentes. Segundo Giacomini (1988), a escrava, por sua condição feminina, além do trabalho desumano devia ainda oferecer o corpo como ama de leite ou como amante, pois na lógica escravista, seus corpos não lhe pertenciam:
Pois a negra é coisa, pau para toda obra, objeto de compra e venda em razão de sua condição de escrava. Mas é objeto sexual, ama de leite, saco de pancada das sinhazinhas, porque além de escrava é mulher. evidentemente essa maneira de viver a chamada ‘condição feminina’ não se dá fora da condição de classe [...] e mesmo de cor (GIACOMINI, 1988, p. 39).
A escrava negra também enfrentava problemas devido sua falta de força física em atividades lucrativas aos senhores. Na venda, um escravo homem valia muito mais que uma mulher ou criança. Dessa forma, ser mulher representava para as escravas sofrimentos que iam muito além dos vividos pelos homens negros (GIACOMINI, 1988). Chegou-se ao século XXI, com um modelo de sociedade brasileira marcada por diversos tipos de preconceitos e discriminações agravados no contexto das mulheres negras. Para Saffiot (1979), os laços de dominação e os preconceitos a que estão submetidas as mulheres da atualidade estão relacionados com a maneira como a sociedade brasileira vem se organizando ao longo da história. O que torna ainda mais determinantes as condições sociais a que estavam sujeitas as mulheres negras, uma vez que sobre elas tende a incidir ainda com mais força o peso da tradição que procura mantê-las nos seus tradicionais papéis de objeto sexualizado e submisso.
Na prática da exclusão social, os fatores raça e gênero somam-se ao se considerar as desvantagens históricas para mulheres negras. No caso brasileiro, há que se considerar que, embora o cenário atual possa ser de redução das desigualdades sociais, ainda persistem padrões diferenciados de participação na educação e no mercado de trabalho, na saúde e demais espaços públicos. É importante levar em conta a especificidade desse grupo social, além de serem mulheres, elas são negras. Em face dessa dupla desvalorização, as mulheres negras são a fatia mais marginalizada da sociedade (CARNEIRO, 2003). Mulheres negras são mais excluídas do mercado de trabalho que mulheres brancas, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2003 revelam que as mulheres negras recebem os salários mais baixos do país (IBGE, 2003). A renda mensal dessas mulheres é de apenas 30% se comparada a dos homens brancos e de 50% se comparada a das mulheres brancas. As negras ainda são a parcela da população com a maior taxa de desemprego do Brasil – 52% do total do contingente estão sem emprego. A falta de atendimento na área da saúde também é mais aguda para as negras. Em 2004, a PNAD revelou um dado preocupante: 46,3% dessas mulheres com mais de 25 anos nunca haviam realizado um exame clínico de mamas, já entre as brancas esse mesmo índice era de 28,7%. A morte materna também é uma realidade muito mais presente na vida de negras; segundo o Ministério da Saúde, a taxa de morte é quase seis vezes maior nelas do que nas brancas (IBGE, 2004).
As mulheres negras arcam com todo o peso da discriminação de cor e de gênero, e ainda sofrem a discriminação setorial-regional-ocupacional que os homens da mesma cor e a discriminação salarial das brancas do mesmo gênero (SOARES, 2000). Racismo este que se manifesta de forma dramática nos números de violência letal quando verificamos que as mulheres negras compõem 62% das vítimas de mortes por agressão, mas que se manifesta de diversas outras formas. Mulheres negras foram as principais vítimas em todas as questões relacionadas a assédio no espaço público. Cerca de 43% das mulheres negras relataram que foram assediadas na rua, transporte público ou ambiente de trabalho, enquanto 35% das mulheres brancas afirmam que viveram este tipo de situação. Mulheres negras também foram mais abordadas agressivamente em festas e beijadas à força do que as mulheres brancas (ODARA; BUENO, 2017).
Os anúncios de emprego nos jornais, ainda hoje exigem uma boa aparência, ou seja, tem que ser branco(a). Assim, mesmo a mulher negra tendo ótima experiência e qualificação no ramo profissional, pela sua aparência e cor, ela não apresenta as características imposta pelo empregador (MEDEIROS, 2002). Para pensar além dessas questões de “boa aparência”, o Conselho Estadual da Condição Feminina fez um arquivo sobre as mulheres negras, onde a pesquisa analisa porque o empregador não contratava mulheres negras e o motivo era sempre algo ruim:
30 anunciantes preferem empregados brancos alegando que os pretos são desonestos, roubando os patrões; 18 anunciantes, acham que os pretos não são assíduos e além, disso, são inconstantes nos empregos (...); 5 anunciantes acham que os pretos são desobedientes, indisciplinados, desordeiros (...); 4 anunciantes dizem que “os pretos não prestam” (...); outros 2 acham que os pretos não são espertos, trabalhando muito devagar; 2 outros anunciantes, acham que só os pretos são sem vergonha(...); 1 acha que os pretos são preguiçosos; outro acha que os pretos são ‘relaxados’ (SOARES, 2002, p. 12).
Portanto, percebe-se que o empregador não consegue discernir que a cor, raça não tem relação com a produtividade ou outras exigências do mercado de trabalho. No Brasil, o racismo é nítido, pois os lugares menos valorizados são compostos por negros. Também não são em todos os trabalhos domésticos que é permitido mulheres negras, alguns contratam apenas para que cozinhe, lave e passe e só as mulheres brancas trabalham como governantas ou copeiras, babá e acompanhante. As mulheres negras nunca foram tratadas como frágeis. Elas trabalharam e trabalham durante décadas como vendedoras, escrava na rua ou lavoura. Quando as feministas falaram que as mulheres deveriam ganhar as ruas elas não entenderam, porque essa conquista não fazia parte delas, pois as mesmas não são rainhas de nada, pois o modelo, a aparência da rainha é ser branca (CARNEIRO, 2003)
4. Análise dos dados e discussão dos resultados
Nos anos 60, no Mississippi, Skeeter é uma garota da sociedade que retorna para sua cidade natal determinada a se tornar escritora. Ela começa a entrevistar as mulheres negras da cidade, que deixaram suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca, da qual a própria Skeeter faz parte. Aibileen Clark, a empregada da melhor amiga de Skeeter, é a primeira a conceder uma entrevista. Apesar das críticas, Skeeter e Aibileen continuam trabalhando juntas e, aos poucos, conseguem novas adesões. O filme retrata fortemente o papel das mulheres negras da década de 60 como empregadas domésticas da elite branca. Nessa época, 23% das mulheres negras dos Estados Unidos trabalhavam como prestadoras de serviços enquanto 38,1% eram empregadas domésticas (GILLIAM, 1997).
Como retratado no filme, esse trabalho não era uma escolha, a vida para elas não dava muitas opções quanto aos meios de sustento. Já no início do filme ao ser indagada por Skeeter se Aibileen já sabia que iria ser empregada doméstica ela responde que sim, que desde criança ela já sabia que esse era seu destino, era algo passado de geração a geração de forma imutável. A vida era humilhante e o trabalho desumano. Apesar da elite branca ser tão dependente do trabalho dessas domésticas negras em questões como alimentação, limpeza e criação dos filhos, elas eram consideradas desnecessárias e “parasitas” com doenças contagiosas. O filme mostra os esforços de uma personagem para criar uma política pública chamada “saúde no lar” que objetivava construir banheiros separados fora da casa para as empregadas, pois, segundo ela, as negras tinham “doenças diferentes das mulheres brancas”.
Trazendo para os tempos de hoje, não é incomum encontrar residências que possuem quartos e banheiros separados para as empregadas domésticas. Em julho deste ano, alunos do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) criticaram um trabalho da disciplina Casa Grande que consistia em projetar um imóvel de alto padrão com espaço separado para empregados – com quartos e banheiros incluídos. Em nota coletiva de repúdio, os estudantes consideraram que o projeto “incorpora a senzala e reforça os moldes de dominação em pleno século 21”. Diz trecho da nota de repúdio:
Como discutido em diversas disciplinas na EAD-UFMG, o quarto de empregada, por exemplo, tem como origem a segregação escravista. Ele surge como uma solução para separar empregados e patrões que permaneceram vivendo juntos após a abolição, em 1888 (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 2017).
Outro momento do filme que retrata a situação das mulheres negras na época era a segregação social que determinava os lugares para negros e lugares para pessoas brancas, onde os negros tinham entradas diferentes aos mesmos locais. As cenas mostram claramente os negros sentados ao fundo dos ônibus, nos supermercados, dando prioridade aos brancos e nas igrejas separadas para negros e outra para brancos. É certo que ocorreram grandes mudanças sociais que possibilitaram a participação de negros como cidadãos, mas ainda há muito racismo e preconceito girando em torno da raça negra. A segregação ainda é evidente e o racismo persiste na resistência à mudança do status quo das relações racializadas. O racismo moderno surge de atitudes raciais públicas dos indivíduos quando as normas inibem expressões abertas de racismo.
Nesta direção, Carneiro (2017, p. 7) acrescenta que:
As barreiras realizadas pelo racismo e pela pobreza fazem com que mulheres negras vivenciem no seu cotidiano múltiplas formas de violências e estresses, como nas dificuldades de acesso aos serviços de saúde e na baixa atenção às especificidades da saúde das mulheres negras; pela reificação de estereótipos das mulheres negras; pela desvalorização da cultura e religiosidade africana; pelas violências produzidas pelas forças de segurança do Estado, do crime organizado e de milícias, sofrendo maior exposição às drogas; por serem as principais vítimas do tráfico de mulheres, entre outras violações.
A violência policial também foi retratada no filme como sendo algo muito mais reincidente e agressiva contra negros. Em uma cena específica, após uma abordagem violenta contra uma doméstica negra, os policiais a espancam cruelmente sem necessidade, pois uma mulher negra contra 4 policiais armados naquela situação não representava perigo algum. Essa cena, embora datada dos anos 60, ainda representa o contexto atual em que muitas mulheres negras sofrem. Em maio de 2016 um caso revoltou a mídia: Luana dos Reis, 38 anos, mulher negra, foi brutalmente espancada por Policiais Militares no estado de São Paulo enquanto levava seu filho ao colégio. De acordo com os dados do IML, Luana morreu em decorrência de traumatismo crânio-encefálico e isquemia cerebral provocada por espancamento (G1, 2017).
Outra questão levantada pelo filme é a intensa carga horária de trabalho a que se submetiam as mulheres negras, as quais cuidavam da casa e filhos de suas patroas e não tinham tempo para cuidar de suas próprias famílias. Aibileen cuidou de sua primeira criança branca, um menino, quando tinha apenas 14 anos. Ao relatar essa experiência, ela pontuou a inocência desse menino que lhe perguntou “porque ela era negra”, Aibileen sorriu e respondeu “porque eu tomei café demais”. Isso mostra o quanto esses padrões sociais são introjetados culturalmente através dos discursos preconceituosos e racistas da sociedade. Uma criança inocente não entende a diferença entre negros e brancos, o racismo e o preconceito se aprende. Em março deste ano, uma reportagem (EXTRA GLOBO, 2017) causou encanto na mídia: um menino de cinco anos, Jax, pediu a mãe para que cortasse o cabelo igual ao de seu amigo com o objetivo de fazer uma pegadinha com a professora tornando difícil para ela conseguir distingui-los. Mas um detalhe não foi visto por Jax, ele era branco e seu amigo negro. Em sua rede social, a mãe de Jax fala: “Aqui está uma foto de Jax e Reddy na festa de Natal. Tenho certeza que todos vocês veem a semelhança. Se isso não for prova de que ódio e preconceito são ensinados, eu não sei o que é.”
5. Considerações finais
O filme Histórias Cruzadas, apesar de representar o contexto de mulheres negras na década de 60 nos Estados Unidos, ainda representa a realidade destas mulheres atualmente no Brasil. Assim como antigamente, hoje as mulheres negras são maioria no emprego doméstico e minoria nas Instituições de Ensino Superior, de modo a dificultar o crescimento profissional e autonomia desse grupo social.
A desigualdade social e exclusão presentes no Brasil chegou a tal grau que se tornou incompatível com a democratização dos direitos humanos. Dos anos 60 pra cá, houve apenas a manutenção da privação coletiva e recusa das mulheres negras. Esse processo ainda é agravado pela manutenção da pobreza, discriminação, subalternidade, não equidade, não acessibilidade e não representação pública. A luta das mulheres não consiste apenas em superar as desigualdades entre homens e mulheres, mas também na superação de ideologias do sistema de opressão, no caso o racismo, portanto as mulheres negras sofrem uma dupla exclusão, sendo elas de raça e de gênero. Concluiu-se que dos anos 60 pra cá houve pouca evolução quanto aos direitos das mulheres negras, configurando-se como manutenção da exclusão e privação coletiva, recusa e abandono deste grupo social no país.
Referências
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