Práticas de Leitura: contribuição na formação crítico - reflexiva do aluno

Practices of Reading: contribution in the critical-reflective formation of the student

Prácticas de lectura: contribución en la formación crítico-reflexiva del alumno

Silvana Lúcia Costabeber Guerino
Universidade Franciscana, Brasil
Janaína Pereira Pretto Carlesso
Universidade Franciscana, Brasil

Práticas de Leitura: contribuição na formação crítico - reflexiva do aluno

Research, Society and Development, vol. 8, núm. 3, pp. 01-11, 2019

Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 16 Dezembro 2018

Revised: 18 Dezembro 2018

Aprovação: 21 Dezembro 2018

Publicado: 28 Dezembro 2018

Resumo: O objetivo do presente artigo é apresentar os resultados de experiência de prática de leitura vivenciado em uma escola de educação básica na Cidade de Santa Maria/RS. Este estudo objetiva compartilhar um relato de experiência vivenciado numa Escola Municipal de Ensino Fundamental localizada no município de Santa Maria, RS, Brasil, no que concerne às práticas de leitura em sala de aula por meio do projeto “Vanguarda Escolar”. Tal experiência consiste na abordagem de fatos, notícias, documentários, selecionados pelos alunos de uma turma do quinto ano do Ensino Fundamental I.O projeto ocorre semanalmente, com a apresentação de temas, aleatoriamente, elencados pelos alunos mediados pela professora da turma. Para embasar teoricamente a discussão foram utilizados os autores como Soares, Rojo, Kleimann, entre outros. Os resultados evidenciam que as práticas de leitura desenvolvidas no contexto escolar possibilitaram uma aprendizagem mais significativa para os alunos participantes do projeto, contribuindo para uma formação mais crítico-reflexiva.

Palavras-chave: Práticas de Leitura, letramento, formação crítica.

Abstract: The aim of this article is to present the results of experienced reading practice in a basic education school in the city of Santa Maria / RS. This study aims to share an experience report in a Municipal School of Elementary Education located in the city of Santa Maria, RS, Brazil, regarding the reading practices in the classroom through the project "Vanguarda Escolar". This experience consists of the approach of facts, news, documentaries, selected by the students of a fifth grade class of elementary school I. The project occurs weekly, with the presentation of themes, randomly, listed by the students mediated by the class teacher. To support the discussion theoretically, authors such as Soares, Rojo, Kleimann, among others were used. The results show that the reading practices developed in the school context made possible a more meaningful learning for the students participating in the project, contributing to a more critical-reflexive formation

Keywords: Reading Practices, literacy, critical training.

Resumen: El objetivo del presente artículo es presentar los resultados de experiencia de práctica de lectura vivida en una escuela de educación básica en la Ciudad de Santa María / RS. Este estudio objetiva compartir un relato de experiencia vivido en una Escuela Municipal de Enseñanza Fundamental ubicada en el municipio de Santa Maria, RS, Brasil, en lo que concierne a las prácticas de lectura en el aula por medio del proyecto "Vanguardia Escolar". Esta experiencia consiste en el abordaje de hechos, noticias, documentales, seleccionados por los alumnos de una clase del quinto año de la Enseñanza Fundamental I. El proyecto ocurre semanalmente, con la presentación de temas, aleatoriamente, enumerados por los alumnos mediados por la profesora de la clase. Para basar teóricamente la discusión fueron utilizados los autores como Soares, Rojo, Kleimann, entre otros. Los resultados evidencian que las prácticas de lectura desarrolladas en el contexto escolar posibilitar un aprendizaje más significativo para los alumnos participantes del proyecto, contribuyendo a una formación más crítica-reflexiva.

Palabras clave: Prácticas de lectura, alfabetización, formación crítica.

Introdução

A implantação de políticas públicas mais eficazes na educação brasileira registrou importantes avanços na última década. São milhões de meninas e meninos nas salas de aula. Contudo, mesmo com a expansão das vagas como condição fundamental para o direito à educação, é no âmbito das práticas pedagógicas que as escolas podem tornar-se expressão deste direito. Com isso, a criança e adolescente devem estar no centro do processo ensino- aprendizagem, e a escola configurar-se como espaço educativo que consolide o direito ao conhecimento, considerando as diferentes dimensões para sua formação integral.

O desenvolvimento da linguagem cumpre um papel fundamental na garantia do direito à educação e na formação crítico-reflexiva da criança e do adolescente. Freire (1993, p.41) diz que a linguagem configura-se como o “caminho da cidadania”. Sabe-se, também, que decodificar palavras é insuficiente para a participação em práticas sociais que envolvem a língua escrita, ou seja, é necessário saber usar a leitura e a escrita de acordo com as exigências sociais. Então, destaca-se o letramento, que é tema altamente relevante para consolidar o direito ao conhecimento e, consequentemente, ao exercício da cidadania. Como diz (Soares 2004, p.36), a alfabetização é: “[...] a ação de ensinar e aprender a ler e a escrever”, ao tempo que letramento “[...] é estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita”.

A experiência foi desenvolvida numa Escola Municipal de Ensino Fundamental localizada na cidade de Santa Maria, RS, que se apresenta nesta reflexão escrita, como parte da coleta de dados de pesquisa de mestrado, intitulada “A importância de práticas de incentivo à leitura no âmbito escolar e suas contribuições ao desenvolvimento cognitivo dos alunos pelo viés da Neurociência”, configura-se numa significativa ação pedagógica envolvendo as práticas de leitura e contribuindo de forma relevante para que os alunos consigam adentrar no mundo letrado com uma postura mais crítico-reflexiva, entendendo e compreendendo o código linguístico e refletindo sobre o mesmo.

O objetivo do presente artigo é apresentar os resultados de experiência de prática de leitura vivenciado em uma escola de educação básica na Cidade de Santa Maria/RS.

Leitura, Letramento e Gêneros Textuais no Contexto Escolar

Dentre as práticas culturais, das comunidades letradas, a leitura é a mais frequente encontrada no cotidiano. A transmissão do conhecimento apoia-se no exercício contínuo da leitura. Lê-se para tudo ou quase tudo. Lê-se a partir do que se é, e do lugar social que se ocupa. Nesta perspectiva, a escola deve ser o principal agente de letramento e o professor tem um papel extremamente importante nessa função, oportunizando diferentes textos, com diferentes práticas de leitura e escrita, ou seja, a escola precisa considerar a língua como um processo de interação de sujeitos construtores de sentido e significados. Faz-se muito importante que o aluno esteja completamente envolvido e inteirado ao meio que ocorre seu processo de letramento, ou seja, seu acesso ao mundo da escrita, leitura e verbalização, por meio de textos contextualizados a sua realidade.

É claro saber que, quando fala-se em leitura, está-se falando diretamente em letramento, e por consequência em gêneros textuais. Neste contexto é importante ressaltar o quanto que os gêneros textuais representam na organização do processo comunicativo humano e o que isto interfere no que condiz ao letramento do indivíduo em seu processo de aprendizagem, principalmente no âmbito formal, e, assim, a leitura que ele realiza do mundo que o cerca. Para Rojo (2005) apud Lima (2009), em se tratando de língua, enunciado e gêneros, na perspectiva bakhtiniana, pode-se perceber duas nítidas tendências, para o que compete a análise dos gêneros textuais, denominadas pela autora de “teoria dos gêneros do discurso ou discursivos”, pautadas em aspectos sócio históricos, e “teoria de gêneros de texto”, centrada na descrição da materialidade textual. Segundo a autora, as duas vertentes estão ligadas a diferentes releituras da herança bakhtiniana.

Ainda segundo (Rojo, 2005), verifica-se, então, a distinção entre as duas vertentes, sendo que gêneros de texto tendem a recorrer a um plano descritivo intermediário – equivalente à estrutura ou forma composicional – que trabalha com noções herdadas da linguística textual (tipos, protótipos, sequências típicas etc.) e que integrariam a composição dos textos do gênero. A outra vertente, a dos gêneros discursivos, tendem a selecionar os aspectos da materialidade linguística determinados pelos parâmetros da situação de enunciação – sem a pretensão de esgotar a descrição dos aspectos linguísticos ou textuais, mas apenas ressaltando as ‘marcas linguísticas que decorriam de/ produziam significações e temas relevantes no discurso (LIMA, 2009).

Com isso, entende-se que todas as esferas da atividade humana, ainda conforme Lima (2009), por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreender que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão variados como as próprias esferas da atividade humana. A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes de uma ou de outra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso o que se denomina gêneros do discurso.

No que concerne à teoria bakhitiniana, conceitos como: língua, enunciado e gêneros do discurso estão intimamente relacionados, para o bom funcionamento da comunicação. As vastas variedades das esferas da atividade humana dão origem a vários gêneros do discurso, que segundo Bakhtin resulta em formas-padrão “relativamente estáveis” de um enunciado, determinadas sócio-historicamente. Bakhtin vai mais além, ao referir que só nos comunicamos, falamos e escrevemos por meio de gêneros do discurso. Os gêneros estão no dia-a-dia dos sujeitos falantes, os quais possuem um infindável repertório de gêneros, muitas vezes usados inconscientemente. Até nas conversas mais informais, por exemplo, o discurso é moldado pelo gênero em uso. Tais gêneros, segundo (Bakhtin, 1997, p. 282), nos são dados “quase da mesma forma com que nos é dada a língua materna, a qual dominou livremente até começarmos o estudo da gramática”.

Os gêneros do discurso sofrem constantes atualizações ou transformações. A este respeito, (Bakhtin, 1997, p. 106) diz que “o gênero sempre é e não é ao mesmo tempo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo”. Esta passagem, de certa forma, explica o “relativamente estável”, pois, bem como a sociedade, os gêneros também se modificam para atender às necessidades desta sociedade (LIMA, 2009).

A influência do letramento diante da possibilidade de pluralizar o termo “letramento”, frente às suas diversas utilizações e meios em que pode ser desenvolvido, traduz-se como letramentos ou múltiplos letramentos, que são experiências diversas práticas e eventos de leitura e escrita cotidianos. Com isso, por exemplo, por questões conceituais, é preferível utilizar a palavra letramento no singular, pois na medida em que cada vez que se criam diferentes tipos de letramento, por exemplo, midiático, visual ou urbano, pode-se acabar por perder o seu sentido.

Kleiman (2008) apud Teixeira (2013) afirma que o conceito de letramento é utilizado para compreender e referir-se aos usos da língua escrita em qualquer lugar, além do ambiente escolar, na medida que a complexidade da sociedade moderna exige conceitos também complexos para descrever e entender seus aspectos relevantes. E o conceito de letramento surge como uma forma de explicar o impacto da escrita em todas as esferas de atividades e não somente nas atividades escolares.Neste sentido, o conceito por si só já é abrangente o suficiente para agregar os diversos níveis e suportes de escrita que envolve as suas práticas.

O termo letramento surge a fim de problematizar as práticas pedagógicas, além de levar às escolas a importante difusão da utilização de diferentes tipos de textos, gêneros textuais e suportes de escrita. Porém, afirma-se que o letramento não é um método de ensino. Conforme Kleiman (2008) apud Teixeira (2013) é preciso abandonar a procura do método perfeito, além de buscar transformar toda novidade científica em método.

Com isso, letramento não é alfabetização, mas está última é uma das práticas de letramento, que compreende o ensino da leitura e da escrita utilizadas para objetivos específicos. Eis que começamos a entender e problematizar as relações entre o escrito e o oral, entre os suportes e os textos. Assim, (Kleiman, 2008, p.56) segue expondo:

[...] letramento implica o ensino de estratégias e capacidades adequadas aos diversos textos que circulam em outras instituições, onde se concretizam as práticas sociais”. Portanto, as práticas de leitura e escrita não podem estar deslocadas ou atravessadas de seu contexto, na medida em que “[...] são construções culturais que se interligam a fatores tão diversos quanto à noção de infância, o entendimento do que seja a formação de um leitor, a compreensão do que se deve ou não ensinar [...]”.

Ou seja, tais práticas só têm validade quando se considera e atenta para as particularidades e necessidades de cada aluno, de acordo com as suas experiências de leitura (TEIXEIRA, 2013).

Na perspectiva dos multiletramentos, o ato de ler envolve articular diferentes modalidades de linguagem além da escrita, como a imagem (estática e em movimento), a fala e a música. Nesse sentido, refletindo as mudanças sociais e tecnológicas atuais, ampliam-se e diversificam-se não só as maneiras de disponibilizar e compartilhar informações e conhecimentos, mas também de lê-los e produzi-los. O desenvolvimento de linguagens híbridas envolve, dessa forma, desafios para os leitores e para os agentes que trabalham com a língua escrita, entre eles, a escola e os professores.

Gagliardi (2012) afirma que se faz necessário que a escola discuta uma nova ética que, nos dizeres de Rojo, “não se baseie tanto na propriedade de direitos de autor, de rendimentos (que se dissolveram na navegação livre da web)”, e que também “discuta as novas estéticas que impregnam e constituem os textos contemporâneos”, multimodais, para transformar o consumidor acrítico em analista crítico. Para isso, fazem-se necessários princípios básicos de uma pedagogia, que são: formar um usuário funcional (que tenha “competência técnica e conhecimento prático”), criador de sentidos (“entenda como diferentes tipos de texto e de tecnologias operam”), analista e crítico (“entenda que tudo o que é dito e estudado é fruto de seleção prévia”) e transformador (“usa o que foi aprendido de novos modos”).

Essa pedagogia envolve uma “prática situada”, ou seja, baseia-se, inicialmente, em práticas que fazem parte das culturas dos alunos (de massa, popular, erudita), em gêneros, mídias e linguagens por eles conhecidos, envolve “instrução aberta”, ou seja, uma análise dessas práticas, gêneros, mídias e linguagens e de seus processos de produção e de recepção, o que se dá a partir de um “enquadramento dos letramentos críticos que buscam interpretar os contextos sociais e culturais de circulação e produção desses designs e enunciados”, tendo em vista uma prática transformadora.

Conforme pesquisas realizadas (Hernández; Ventura, 1998; Silva, 2008), os projetos pedagógicos interdisciplinares são mobilizados em resposta às demandas ou desafios que se encontram nas escolas de hoje. Funcionam como lócus em que seus idealizadores propõem atividades didáticas intercomplementares entre as disciplinas curriculares, procurando escapar das atividades escolares pontuais ou isoladas, com finalidades restritas ao cumprimento dos conteúdos disciplinares. Nesses projetos, os gêneros discursivos, tematizando assuntos específicos de interesse dos alunos, possibilitam a integração de atividades ou ações entre disciplinas (SILVA, 2009).

Metodologia

A abordagem metodológica do trabalho trata-se de uma pesquisa exploratória, baseada na coleta de dados a partir de observações em sala de aula das práticas de leitura em um grupo de quinto ano de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental localizada na cidade de Santa Maria, RS. A coleta de dados ocorreu no período de setembro a dezembro de 2017, sendo registrada em diário de campo, foram utilizados registros presenciais de vídeo e áudio das atividades desenvolvidas.

A partir da coleta de dados foi desenvolvido um estudo bibliográfico acerca dos temas de leitura, letramento e gêneros textuais e suas contribuições no processo de ensino e aprendizagem na escola. Para (Lakatos, 1992, p.44), “a pesquisa bibliográfica permite compreender que, se de um lado a resolução de um problema pode ser obtida através dela, por outro, tanto a pesquisa de laboratório quanto a de campo (documentação direta) exigem, como premissa, o levantamento do estudo da questão que se propõe analisar e solucionar. A pesquisa bibliográfica pode, portanto, ser considerada também como o primeiro passo de toda pesquisa científica”.

Resultados e Discussões

A escola escolhida para a aplicação e o desenvolvimento da ação prática proposta, constitui um Regimento Escolar e um Projeto Político Pedagógico que privilegia a criação e a execução de projetos diferenciados entre professores e alunos e estabelece profícua relação com as instituições educativas que ali se envolvem para o desenvolvimento de atividades diferenciadas. Isso parte da proposta filosófica da escola, pois o que norteia o seu trabalho pedagógico está embasado no lema: “Educar para a Vida em Comunidade”, o que significa possibilitar que o aluno conviva socialmente como cidadão autônomo, crítico, solidário e cooperativo, demonstrando comportamento humano através da vivência de valores éticos, políticos e estéticos.

Sendo autônomo, porque é capaz de gerenciar, governar sua própria vida, de quebrar os laços de dependência estabelecidos desde seu nascimento. Através da crítica, o aluno gradativamente irá desenvolvendo consciência de si, de suas atividades, atitudes e do mundo, tornando-se ciente de que é capaz de criar e recriar, transformando a realidade em que está inserido. A percepção crítica o levará buscar saídas para situações limites, que constituem estímulos para superação dos problemas por meio de ações sobre a realidade concreta. Assim, a percepção crítica desenvolve um clima de esperança e confiança em uma realidade futura, melhor que o presente.

Com isso, a produção textual tem papel fundamental na formação das crianças que frequentam o período escolar e que se tornarão peças fundamentais da opinião pública que construirá a sociedade em que e estarão inseridos. A produção escrita e oral é essência para interagir socialmente; toda atividade interativa se instaura por meio do texto. Os textos são organizados, moldados ou ajustados conforme os gêneros discursivos neles realizados (SILVA, 2009).

Os gêneros emergem nos processos sociais em que as pessoas tentam compreender umas às outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos práticos, isso é fundamental para (Bazerman, 2005). Na escola é onde acontece que todo o processo de esclarecimento e manifestação de opinião acontece, por excelência, e se fortalece, por isso a necessidade de mudar o processo ainda existente nas escolas quanto ao letramento: Pode-se afirmar que a escola, a mais importante das agências de letramento, preocupa-se, não com o letramento em si, prática social, mas com apenas um tipo de prática de alfabetização, o processo de aquisição de códigos( alfabético e numérico), processo geralmente concebido em termos de uma competência individual necessária para o sucesso e promoção na escola.

Já outras agências de letramento, como a família, a igreja, a rua como lugar de trabalho, mostram orientações de letramento muito diferentes. (KLEIMAN, 1995). Faz-se muito válido que haja novas propostas de ensino-aprendizagem na escola, pois para Freire (2005) é próprio do homem, consciente, estar em constante relação de enfrentamento com a realidade e desejar transformá-la. O enfrentamento leva a superação dos obstáculos. Isso só pode acontecer como processo histórico porque o homem é um ser de relações. As relações homem-mundo, bem como sua ação transformadora, geram a história, produzem os bens materiais, as intuições, as ideias e concepções. Os homens, por terem consciência de si e do mundo vivem numa relação dialética, entre os condicionamentos e a liberdade.

Dessa forma, tem-se a experiência da professora do quinto ano do ensino fundamental I da Escola Municipal de Ensino Fundamental que apoia-se em uma proposta inovadora para desenvolver a prática de leitura em seu turno escolar com uma das turmas as quais ministra suas aulas e, dessa forma tenta colher resultados diferenciados dos já obtidos em outras atividades do gênero. A professora consegue reunir seus alunos em atividades propostas em sala de aula e orientadas, também, como tarefa de casa e, consequentemente, complementadas em sala de aula, o que proporciona que os alunos leiam artigos de jornal, revistas, documentários, façam anotações de informações obtidas por meio de programas televisivos, de rádioou mesmo, simplesmente algo informativo, coletado e escrito por eles, que contenha fatos presenciados ou ocorridos na família.

Durante as aulas os assuntos mais abordados são notícias, atualidades regionais, nacionais e mundiais e há uma tendência entre os assuntos elencados entre os meninos e as meninas; futebol, a violência nas cidades e doméstica e a estrutura das cidades são temas bem recorrentes. Uma proposta como a apresentada nessa reflexão projeta uma necessária discussão frente às práticas de letramento na escola.

Haja vista que iniciativas que envolvam leitura, reflexão e produção textual são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes e contribuem profundamente para que elas tenham mais foco e direcionamento em suas atividades escolares e projetos futuros:

“... é muito bom participar das aulas da professora, porque desenvolve o meu conhecimento e tem me ajudado a escolher o que desejo realizar profissionalmente no futuro” (aluna do 5º ano e participante do projeto).

Após esse processo, os alunos, em sala de aula, contam os fatos, as histórias e abre-se a discussão entre os colegas, mediada pela professora, onde todos devem participar e, logo, um encaminhamento é conduzido, ou seja, após a reflexão deve-se propor uma ação que possa modificar uma realidade mais próxima diante do tema, e, ou problema abordado.

Indivíduos ou grupos sociais que dominam o uso da leitura e da escrita e, portanto, têm habilidades e atitudes necessárias para uma participação viva e competente em situações em que práticas de leitura e/ou escrita têm uma função essencial, mantêm com os outros e com o mundo que os cerca formas de interação, atitudes, competências discursivas e cognitivas que lhes conferem um determinado e diferenciado estado ou condição em uma sociedade letrada. (SOARES, 2002, p.146).

A educação formal praticada na escola não deve servir unicamente como transmissora de conhecimento, mas utilizar o conhecimento e a cultura como instrumento de ensino profícuo. O conhecimento deve servir para o aluno resolver problemas e enfrentar as dificuldades da vida. A escola é um lugar público, coletivo. Sendo assim, deve ser inclusiva, acolher a todos, e como espaço coletivo, é regida por princípios de convivência e indivíduos que nela convivem e são sujeitos de direitos e deveres, portanto, é mais do que bem-vinda e aceita propostas inovadoras na educação formal.

Considerações Finais

A linguagem ocupa papel de destaque nas relações sociais, em que a participação é mediada pelo texto escrito que se apropria das convenções linguísticas e das práticas sociais em que os diferentes gêneros textuais circulam o que implica na importância de a escola promover atividades que levem os alunos a ter contato e construir conhecimentos sobre os gêneros textuais e seus usos na sociedade, para que possam atuar de forma autônoma e crítica em seu meio. Desse modo, o desafio que se apresenta para ação pedagógica é conciliar de maneira articulada e simultânea os processos de letramento, assegurando a apropriação do sistema alfabético e as possibilidades do uso da língua nas práticas sociais de leitura e escrita.

As vivências de práticas de leitura na escola estudada, através do Projeto Vanguarda Escolar, que são à base da reflexão neste trabalho, vão além da decodificação de palavras. As ações do projeto retratam um espaço escolar que estimula os alunos a compreender o mundo, seus pares, suas próprias experiências. Afirma (Rojo, 2009, p.119) “que a escola deve contribuir para que o aluno desenvolva certas habilidades básicas para o trato com as línguas, as linguagens, as mídias e as múltiplas práticas letradas, de maneira crítica, ética, democrática e protagonista”.

Assim, as novas propostas e práticas de leitura que proporcionam maior interação com o meio ambiente escolar, com as pessoas e as novas tecnologias usadas na atualidade, são muito bem-vindas e de extrema importância nos processos de letramento e, por conseguinte, de reflexão e formação crítico-reflexiva dos alunos no espaço escolar e até fora dele. Fica evidente que trabalhos que provoquem a reflexão sobre essas novas formas de letramento e que possibilitam provocar possíveis mexidas com todo um processo pedagógico já existente nas escolas são muito necessárias e resultam em positivas transformações no que condiz o letramento dos alunos.

Portanto, são trabalhos como este que tem a significativa função de contribuir para a mudança do processo de ensino-aprendizagem no contexto do letramento das crianças e adolescentes e dos contextos pedagógicos nas escolas de uma determinada região, ou microrregião; ou de uma um processo bem maior, macrorregional.

Sugere-se mais estudos referente à temática estudada nesse artigo, pois projetos de incentivo a leitura no âmbito educacional em diferentes níveis de ensino poderão contribuir de maneira importante para a formação do leitor-literário, estimulando a curiosidade dos alunos e a produção de novos conhecimentos. Cabe apontar também que o contato com a leitura no cotidiano escolar mediada por docentes pode oportunizar transformações no pensamento e comportamento do aluno-cidadão, possibilitando um olhar critico reflexivo diante do mundo.

Referências

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