Natureza da filosofia e formação da subjetividade: proposta teórico - metodológica para o ensino de filosofia
Nature of philosophy and formation of subjectivity: theoretical-methodological proposal for the teaching of philosophy
Naturaleza de la filosofía y formación de la subjetividad: propuesta teórico-metodológica para la enseñanza de filosofía
Natureza da filosofia e formação da subjetividade: proposta teórico - metodológica para o ensino de filosofia
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 5, pp. 01-11, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 19 Fevereiro 2019
Revised: 25 Fevereiro 2019
Aprovação: 05 Março 2019
Publicado: 06 Março 2019
Resumo: O presente artigo examina a natureza da filosofia e discute a utilização de uma metodologia apropriada para o ensino de Filosofia, em nível do Ensino Médio. Objetivou-se, investigar o caráter específico do ensino de Filosofia e a sua articulação com o desenvolvimento da reflexão crítica, criativa e instauradora de novas realidades, tendo como referência a sensibilização, problematização, investigação e conceituação. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica, a partir da proposta teórico-metodológica de Gallo, para o ensino de filosofia. Não basta a existência da disciplina no currículo das escolas e a necessidade do exercício do filosofar, mas é preciso pensar no método que possibilite a formação da subjetividade e a produção novos conceitos e conteúdos e que mobilize a construção de novos saberes e fazeres. Concluiu-se que uma inspiração metodológica, para o ensino de filosofia, deverá ter em conta a realidade de cada instituição, bem como a habilidade de cada professor para refazer e adaptar a proposta por meio de um trabalho constante de construção da própria Filosofia, que estimula o pensamento ético-crítico.
Palavras-chave: Filosofia, Ensino, Método, Filosofar.
Abstract: This article examines the nature of philosophy and discusses the use of an appropriate methodology for the teaching of Philosophy at the High School level. The objective was to investigate the specific nature of Philosophy teaching and its articulation with the development of critical reflection, creative and instituting new realities, having as a reference the sensitization, problematization, investigation and conceptualization. A bibliographical research was carried out, starting from the theoretical-methodological proposal of Gallo, for the teaching of philosophy. The existence of discipline in the curriculum of schools and the necessity of the exercise of philosophy is not enough, but it is necessary to think about the method that enables the formation of subjectivity and the production of new concepts and contents and that mobilizes the construction of new knowledge and actions. It was concluded that a methodological inspiration for the teaching of philosophy should take into account the reality of each institution, as well as the ability of each teacher to redo and adapt the proposal through a constant work of constructing Philosophy itself, which stimulates ethical-critical thinking.
Keywords: Philosophy, Teaching, Method, Philosophize.
Resumen: El presente artículo examina la naturaleza de la filosofía y discute la utilización de una metodología apropiada para la enseñanza de Filosofía, a nivel de la Enseñanza Media. Se objetivó, investigar el carácter específico de la enseñanza de Filosofía y su articulación con el desarrollo de la reflexión crítica, creativa e instauradora de nuevas realidades, teniendo como referencia la sensibilización, problematización, investigación y conceptualización. Se realizó una investigación bibliográfica, a partir de la propuesta teórico-metodológica de Gallo, para la enseñanza de filosofía. No basta la existencia de la disciplina en el currículo de las escuelas y la necesidad del ejercicio del filosofar, pero hay que pensar en el método que posibilite la formación de la subjetividad y la producción nuevos conceptos y contenidos y que movilice la construcción de nuevos saberes y haceres. Se concluyó que una inspiración metodológica, para la enseñanza de filosofía, deberá tener en cuenta la realidad de cada institución, así como la habilidad de cada profesor para rehacer y adaptar la propuesta por medio de un trabajo constante de construcción de la propia Filosofía, que estimula el pensamiento ético-crítico.
Palabras clave: Filosofía, Educación, Método, Filosofar.
Introdução
Na atualidade, muito se tem discutido sobre o ensino de Filosofia, de maneira a se atentar para a busca de um método que, em última instância, permita ao estudante o exercício do filosofar em sala de aula. A realização deste trabalho justifica-se sob vias da abertura de espaço para a reflexão sobre as condições e formas específicas de desenvolvimento de uma metodologia de ensino de filosofia no Ensino Médio, salvaguardando as características que lhes são inerentes; a saber, a criatividade, a criticidade, a autonomia, a fundamentação teórica do pensamento e a formação de conceitos.
A proposta é atual e essencial. Inquirir sobre o específico da Filosofia, investigar as possíveis possibilidades daí advindas tendo em vista o desenvolvimento de um método e suas características, possibilita ir ao encontro de propostas concretas para o trabalho da disciplina em sala de aula. Muitas são as questões ligadas a este “novelo” sistemático que acabam por brotar das atividades concretas do dia a dia e impulsionar novos saltos teóricos que por sua vez vão inspirar novas ações.
Tendo em vista o apresentado, Sílvio Gallo (2004, 2012) vai justamente fundamentar uma pedagogia do conceito, onde a aula poderá ser organizada a partir de quatro momentos didáticos: sensibilização, problematização, investigação e conceituação. Trata-se de um caminho a ser investigado e descoberto. Ele possui bases sólidas e se articula em quatro etapas, mas tudo para que se possa pensar a partir do conceito.
Nesse sentido, a aula de filosofia ganha sentidos muito interessantes ao ser tomada como uma “oficina de conceitos”. Se a metodologia de trabalho se dará utilizando as ferramentas do diálogo, do debate, da reflexão etc. é uma questão posterior; o fundamental é que a aula garanta o contato dos jovens com o instrumental conceitual (GALLO, 2012, p 92).
A aula de filosofia, na perspectiva do filósofo, será um espaço de pensamento da realidade, a partir do conceito. Esse pensamento vai permear a prática de um ensino filosófico que supõe e tem como base a tradição dos escritos, da história, mas que não se fecha nesta perspectiva, pois o pensamento por meio dos conceitos é que vai permitir o exercício do filosofar e a ligação com todos estes aspectos inerentes à disciplina. A partir de uma pesquisa bibliográfica, considerando as contribuições de Gallo (2004), amparado, sobretudo, na leitura de Deleuze e Guattari e de vários autores, que tratam do ensino de filosofia, defende que o ato de filosofar prescinde do caráter interdisciplinar e transversal do processo de ensino e aprendizagem, que através de novos conceitos e conteúdos mobilize o pensamento na busca constante de novos saberes e fazeres.
Durante seu trabalho de pesquisa e escrita, Gallo (2012), cita por diversas vezes, Deleuze e Guattari. Por engendrarem um trabalho de filosofia a partir do conceito, serão referências constantes no pensamento de Gallo (2004). A partir da instauração do novo, da produção do pensamento, do vigor criativo; Deleuze e Guattari (2003) vão afirmar que o conceito é uma forma de equacionar um problema, um movimento do pensamento que motiva a experiência filosófica, sem, no entanto, resolvê-lo ou eliminá-lo. Deleuze e Guattari, sobre esta questão, vão afirmar justamente que:
O filósofo é amigo do conceito, ele é o conceito em potência. Quer dizer que a filosofia não é uma simples arte de formar, de inventar ou de fabricar conceitos, pois os conceitos não são necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar (...) conceitos. Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p 13)
Trata-se aqui de salvaguardar o caráter sempre aberto e dinâmico da filosofia. Sempre em construção e busca de si mesma, mas tendo em vista um método que se define a partir da conceituação. Ao estudante de filosofia é permitido o referenciar-se e o esclarecer de um caminho que irá possibilitá-lo pensar, a partir do conceito. Ele não apenas vai lidar com conceitos prontos, que lhe foram dados, mas por meio de sua prática dentro, e fora de sala de aula vai desenvolver, a partir dos problemas, os próprios conceitos.
O presente artigo examina a natureza da filosofia e discute a utilização de uma metodologia apropriada para o ensino de Filosofia, em nível do Ensino Médio. Objetivou-se, a partir da proposta teórico-metodológica de Gallo (2004, 2012) e do pensamento filosófico de Deleuze e Guattari (1992), investigar o caráter específico do ensino de Filosofia e a sua articulação com o desenvolvimento da reflexão crítica, criativa e instauradora de novas realidades, tendo como referência a sensibilização, problematização, investigação e conceituação. Frente aos novos desafios docentes, será possível apresentar uma proposta instigante e atraente, um convite ao filosofar, pois não basta a prerrogativa da existência da disciplina no currículo das escolas e a necessidade do exercício do filosofar, mas é preciso pensar no método que possibilite a formação da subjetividade: a consciência, a autonomia, a criticidade, a descoberta do seu lugar no mundo e na história. Concluiu-se que uma inspiração metodológica, para o ensino de filosofia, deverá ter em conta a realidade de cada instituição, bem como a habilidade de cada professor para refazer e adaptar a proposta por meio de um trabalho constante de construção da própria Filosofia, que estimula o pensamento ético-crítico. Aqui o professor passa a ser um mediador, uma presença singular que estimula a criação de conceitos e desperta para o exercício do filosofar.
Natureza e metodologia de ensino de filosofia
Desde os anos de 1980 que se debate a inclusão da Filosofia como disciplina do currículo do ensino médio. Com a aprovação da Lei nº 9.394/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, fica garantida aos estudantes o direito de acesso aos conhecimentos de Filosofia e Sociologia, instrumentos importantes ao exercício da cidadania. Conforme estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o que se espera dos sistemas de ensino no país é que eles desenvolvam em seus estudantes o pensamento crítico, necessário para que se formem como agentes sociais capazes de atuarem ativamente no mundo onde vivem (ALVES, 2017).
O ensino de Filosofia já é uma realidade nas redes públicas da maioria dos Estados brasileiros, confirmando a decisão do Conselho Nacional de Educação, que aprovou a resolução nº 04/2006, no qual há a determinação da introdução das disciplinas Filosofia e Sociologia nos currículos escolares. Desta maneira, nos vemos diante de um direito, uma conquista, mas também de um grande desafio: Como ensinar Filosofia no ensino médio e qual o método ou indicação específica para orientação de tal processo.
Ressaltar a importância de uma formação onde se contemple o aspecto crítico, bem como o caráter interdisciplinar da filosofia, configura um elemento de destaque a ser considerado no processo ensino-aprendizagem da mesma. Entretanto, poderíamos nos perguntar qual o processo específico da Filosofia, para que pudéssemos corresponder adequadamente a um método que venha justamente ao encontro destes objetivos? Se a função da Filosofia nos bancos escolares é o desenvolvimento da criticidade do pensamento e a interdisciplinaridade do currículo, de que forma podemos pensar a construção de um currículo que contemple as necessidades, características e dinâmicas de uma sociedade pulsante e orgânica, em constante transformação?
Num primeiro momento, serão aqui destacados alguns desses pontos, que vão fundamentar e oferecer o sentido para a proposição de um método, dentro da teoria de Silvio Gallo (2004), em consonância com as teorias de Deleuze e Guattari (1992). Segundo os filósofos franceses Gilles Deleuze e Felix Guattari existem três potências do pensamento que, mergulhando no caos, dele retornam intactos, sem se perder no não pensamento. Essas potências são: a Arte, a Ciência e a Filosofia. Desta maneira, o pensamento criativo pode se organizar a partir de três modalidades. A partir de Perceptos (Arte), funções (Ciência) e conceitos (A Filosofia). Estas três modalidades instauram uma nova realidade, uma vez que não promovem apenas a repetição do pensamento, mas propiciam uma produção sempre aberta e dinâmica em busca de novos saberes, a partir de um vigor criativo.
Existe um trabalho insistente para não sucumbir à tentação da mera opinião, chamada pelos gregos de doxa, que são os conceitos de senso comum, contrapostos à produção de conhecimentos intelectuais elaborados. Desta maneira, a partir das modalidades apresentadas, que não substituem uma a outra, é possível traçar um caminho e instaurar, pela energia de um pensamento autônomo aquilo que extrapola a matriz conteudista e inaugurar “um novo”. Sendo assim, assumimos “o especifico” da filosofia, dentro da concepção de Gallo (2012). Ela traz em si algo de genuíno que disciplina o pensamento e executa uma tripla função: Delimita fronteiras, ordena o pensamento e executa uma forma de aprendizado, conforme suas próprias palavras de Gallo:
Ela é uma forma de delimitar as fronteiras de um campo do saber, permitindo sua enunciação em discursos. Ela é a imposição de uma ordem ao pensamento, permitindo que não apenas experimentemos um recognição, um pensar de novo o já pensado, mas que experimentemos também o pensamento como novidade, como criação. Por fim ela é ainda uma forma de aprendizado, uma educação do pensamento, na medida em que eu impõe protocolos que tornem o pensamento possível (2009, p 32).
Nesse interim, poderíamos falar justamente sobre o específico da filosofia que segundo os mesmos autores franceses pode ser conceituada como a atividade de criação de conceitos.
No tocante à instância comum, o conceito pode ser definido como a concepção mental de um objeto, seja ele concreto ou abstrato. O conceito, portanto, seria atribuído ao objeto a fim de corresponder a um conjunto de características comuns a uma classe de seres, objetos ou entidades abstratas, ou mesmo para determinar aquilo que o sujeito é e o seu significado.
Para Deleuze e Guattari (1992) o conceito atinge instâncias mais profundas. Para eles o conceito é sempre uma multiplicidade, pois não há conceito que não remeta a outro e assim infinitamente. Todo conceito remete necessariamente a um problema, a uma refundação, fundação sobre a qual se vai desenvolver uma dinâmica do pensamento. O conceito aqui nos remete a uma ideia dinâmica e não a uma situação estanque. O conceito não pode ser medido, ele não está restrito a gramáticas filosóficas ou lógicas: conceitos são instâncias de ligação.
Em Deleuze e Guattari (1992) o conceito, é ao mesmo tempo, um ato de pensamento e um produto do pensamento. O conceito é uma forma de equacionar um problema, que motiva a experiência filosófica sem, no entanto, resolvê-lo ou eliminá-lo. Antes de estar centrada na ideia de um produto final, a questão aqui circula em torno da necessidade de se manter uma dinâmica. A noção de conceito nos remete justamente a um tipo de pensamento que se articula em torno do problemático, em torno de problemas que não se resolvem de forma direta, imediata e definitiva.
Tomando a filosofia como criação de conceitos, Deleuze e Guattari vão direcionar uma dura crítica a três perspectivas muito comuns nos dias de hoje em relação a filosofia: segundo eles, a filosofia não é nem contemplação, nem reflexão, nem comunicação (GALLO, 2009, p 34).
Assumir a Filosofia como esta definição, significa assumir a ideia de Filosofia como um processo ativo, em que o estudante assume o protagonismo que extrapola a ideia de simplesmente reproduzir ou assimilar conteúdo e decorar sistemas. A prática do professor também é desafiadora, uma vez que o conhecimento é visto de maneira dinâmica e em constante transformação, não podendo ser pautado apenas nos conhecimentos adquiridos nas instituições formadoras. Essa lide também engloba as experiências que ele apreende no cotidiano, ele envolve não apenas um produto, mas um método, um caminho de instauração. É bom citar ainda que, essa prática dos professores que caracteriza os enfoques de tal processo pode definir inclusive as intenções do ensino, o modo como a aula é organizada, as atividades propostas, os conteúdos selecionados, os instrumentos e procedimentos de avaliação empregados e a forma como acontece a relação professor/estudante (ALVES, 2013).
Esse método pode ser empregado com o objetivo primordial de atender, o objetivo específico da filosofia em sala de aula. Além disso, têm também um caráter dialógico, uma vez que não se trata apenas de construir um discurso ou expressar um componente impondo uma solidão estéril. Mas, trata-se de alternar falas, de um jogo entre agentes do conhecimento, estruturado através de um perguntar e um responder, dando corpo a uma busca comum. Essa busca não se estabelece por meio de um discurso unívoco, mas de uma relação que vai além do valor meramente normativo. A investigação conjunta supõe justamente o protagonismo das partes que se alternam e articulam um novo espaço de aprendizado.
O filosofo procura desvendar o saber. Não um saber pronto e acabado, mas um saber que experiência o não saber, que faz o movimento da ignorância ao saber. Aquele que busca conhecer alguma coisa, que está sempre à procura de respostas e da constante superação dessas respostas, pois, sempre que chegamos a uma resposta, ela nos desperta para inúmeras outras perguntas. Por isso, definimos anteriormente a pergunta filosófica como uma pergunta/problema (GALLO, 2000, p. 15)
Segundo Guatari e Deleuze (1992), esse processo não pode ser entendido como debate. O específico da filosofia está justamente em trabalhar com a atividade conceitual, ou seja, como o processo e o produto do conhecimento ao mesmo tempo. E preciso que, em primeiro lugar, a aula de filosofia garanta o contato primordial com o instrumental conceitual. Pois, o essencial é que os estudantes tenham a filosofia como um laboratório onde possam romper com a passividade aderindo ao exercício da criatividade e produção.
Nesse sentido, como apontamos no início deste artigo, poderíamos pensar num método que ajudaria a desenvolver nos estudantes esta potência conceitual. Para Silvio Gallo (2012), a construção nunca é aleatória e ao acaso, mas implica sempre num regramento do pensamento. Ou seja, p filosofar se faz com um método, mas precisamos entender que não existe apenas um método, existem várias maneiras de pensar. Ainda que seja perturbador, incontrolável, Sílvio Gallo vai defender a autonomia e a atividade do pensamento frente a uma proposta que, em certo sentido vai desestabilizar certas estruturas, para em seguida, se articular numa nova estruturação e assim sucessivamente. Logo, não existe um ponto, mas abertura, devir e o fazer criativo, pois é a força que impulsiona esse pensamento que tem como característica sua instabilidade e busca “O ensino de filosofia pode ser tomado em uma perspectiva ativa, que tenha por meta a emancipação intelectual daquele que aprende, a produção de singularidades, ainda que não seja possível controlar isso (GALLO, 2012, p. 48).
Silvio Gallo (2004) vai construir uma proposta, visando articular o exercício da atividade conceitual dentro de um processo de sala de aula que contemple justamente o específico da filosofia. A saber, este método pode ser dimensionado em quatro passos; sensibilização, problematização, investigação e conceituação.
Na sensibilização ocorre o situar do tema na realidade dos estudantes, neste primeiro momento existe um chamamento da atenção do mesmo de maneira que os estudantes possam se mobilizar em torno do proposto encontrando motivos reais para o encontro com o problema. Como nos diz Gallo (2004), trata-se de que os estudantes sintam na pele um problema filosófico a partir de um elemento não filosófico.
O segundo momento é marcado por um passo que chamamos de problematização. Aqui o professor vai instigar os estudantes a produzirem questões a partir do tema abordado. Neste espaço privilegiado é o momento em que se vai desenvolver e explorar o senso crítico dos estudantes fazendo com que transformem o tema em problema.
Na investigação, os estudantes vão buscar elementos que permitam a solução do problema. Vários métodos podem ser adotados nesse terceiro momento, mas, de maneira mais sistemática, pode-se permitir e convidar os estudantes a revisitar da história da filosofia e dos construtos erigidos. Nessa etapa, o professor vai fazer uso da história da filosofia, recorrendo a filósofos e suas teorias, sobretudo deixando emergir o contexto especifico de cada um, fazendo com que os estudantes entendam o porquê de cada pensamento e de que forma ele colaborou ou colabora para solucionar um problema.
No quarto momento, trata-se de recriar os conceitos encontrados de modo a equacionar o problema proposto, ou mesmo de criar novos conceitos. Se durante a investigação encontramos conceitos que foram apresentados em outros períodos da história, aqui vamos deslocá-los para o nosso contexto. Se por algum motivo, não se equacione um conceito que venha de encontro a um problema, o simples fato de executar o movimento da conceituação faz com que seja fortalecida a construção de um pensamento autônomo, um conceito próprio.
Esta singularidade do pensar abre inúmeras possibilidades, tanto para o especifico da filosofia como para a construção da transversalidade do pensamento em relação a outras disciplinas (ALVES, 2014). Se o processo de conceituação por meio do método apresentado figura o apropriar-se de um processo criativo de construção do conhecimento, logicamente que poderá ser celebrado de maneira a concretizar também a desejada interdisciplinaridade. Os conteúdos articulados por meio de um fazer consciente e reflexivo pode ser a fonte fecunda de articulação do processo ensino aprendizagem.
Considerações finais
Frente ao desafio, de apresentar uma proposta instigante e ao mesmo tempo atraente para os nossos jovens e adolescentes aos quais é feito o convite ao filosofar, apresentamos este breve artigo, não como resposta pronta e fechada, mas como fonte de inspiração que terá como chão a realidade de cada instituição, bem como a habilidade de cada educador em refazer e adaptar a proposta por meio de um trabalho constante de aprimoramento e construção.
O artigo se constitui também como necessidade de pensar o ensino da disciplina filosofia dentro salas de aula no ensino médio. Existe a prerrogativa da existência da disciplina no currículo das escolas e a necessidade do exercício do filosofar, no entanto, é preciso se pensar um caminho, um método.
Saberíamos começar a estudar a filosofia, por outro lugar, que não fosse pela mitologia? Seria possível partir da leitura de mundo, do olhar desafiante e desinstalador frente às realidades presentes? Haveria possibilidade de filosofar como busca de um eu autônomo? Tudo isso poderia ser engendrado a partir de um pensamento que se articule por meio dos conceitos?
O trabalho é árduo, mas encantador, uma vez que, num mundo de dispersões e externalismos postulamos um “poder” que é a possibilidade de formação do sujeito naquilo que lhe é peculiar: a consciência, a autonomia, a criticidade, a descoberta do seu lugar enquanto existente.
Neste sentido, tencionamos apresentar esse pequeno ensaio com a proposta de Silvio Gallo. Sem dúvidas, trata-se de uma proposta metodológica instigante, criativa e inovadora, a saber, entende-se que a abordagem do filósofo representa uma importante contribuição, em âmbito metodológico, para o ensino da filosofia. Essa estratégia promove um efetivo ensino do ensino da filosofia, que rompe com uma visão instrumental e conduz para uma efetivação do movimento próprio da filosofia, que estimula o pensamento crítico, ético e reflexivo, sobretudo, por meio da sensibilização, problematização, investigação e conceituação. Aqui o professor passa a ser um mediador e estimulador, uma presença singular que catalisa a criação. Obviamente, os estudantes precisarão dele para quebrar com o imediatismo hodierno e instaurar nova realidade, promovendo o exercício do filosofar.
Referências
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Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Nery Charlon Ribeiro Chaves– 60%
Marcos Alexandre Alves – 40%