Formação de professores: construção do conhecimento, dilemas e desafio
Teacher training: construction of knowledge, dilemmas and challenges
Formación de profesores: construcción del conocimiento, dilemas y desafíos
Formação de professores: construção do conhecimento, dilemas e desafio
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 5, pp. 01-12, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 21 Fevereiro 2019
Revised: 28 Fevereiro 2019
Aprovação: 08 Março 2019
Publicado: 08 Março 2019
Resumo: Este artigo objetiva conhecer a contribuição da academia para o percurso docente enfocando os dilemas e desafios de professores que experienciam a profissão nos anos inicias da educação básica. Os autores que sustentam o estudo discutem sobre formação de professores que envolvem saberes docentes, formação inicial e profissional, dilemas da profissão, professor reflexivo e identidade profissional. A metodologia utilizada foi as Narrativas de Formação, que trabalha pontualmente com percursos pessoais e coletivos de educadores. Os resultados apontaram que os sujeitos pesquisados, ao entrar em contato com os aportes teóricos e com o estagio, vivenciaram dificuldades que se estenderam até o inicio de carreira. Porém, o convívio em um ambiente colaborativo de aprendizagens e trocas de experiências, os instrumentalizaram paulatinamente para enfrentar os desafios inerentes à profissão. Portanto, os resultados apontaram que os sujeitos tem ciência dos desafios da profissão e percebe a importância da reflexão sobre a prática para que alcance os significados de sua profissão e veja-se como produtor de saberes enquanto agente de interações humanas.
Palavras-chave: Dilemas e desafios da docência, Formação acadêmica, Percurso docente.
Abstract: This article aims to know the contribution of the academy to the teaching course focusing on the dilemmas and challenges of teachers who experience the profession in the early years of basic education. The authors who support the study discuss teacher training involving teacher knowledge, initial and vocational training, professional dilemmas, reflexive teacher and professional identity. The methodology used was the Training Narratives, which works punctually with personal and collective paths of educators. The results showed that the interviewed subjects, when coming in contact with the theoretical contributions and with the stage, experienced difficulties that extended until the beginning of their career. However, living together in a collaborative environment of learning and exchanging experiences, gradually instrumented them to face the challenges inherent in the profession. Therefore, the results pointed out that the subjects are aware of the challenges of the profession and realize the importance of the reflection on the practice so that it reaches the meanings of its profession and sees itself as producer of knowledge as agent of human interactions.
Keywords: Dilemmas and challenges of teaching, Academic training, Teaching experience.
Resumen: Este artículo objetiva conocer la contribución de la academia al recorrido docente enfocando los dilemas y desafíos de profesores que experimentan la profesión en los años iniciales de la educación básica. Los autores que sostienen el estudio discuten sobre formación de profesores que involucran conocimientos docentes, formación inicial y profesional, dilemas de la profesión, profesor reflexivo e identidad profesional. La metodología utilizada fue las Narrativas de Formación, que trabaja puntualmente con recorridos personales y colectivos de educadores. Los resultados apuntaron que los sujetos investigados, al entrar en contacto con los aportes teóricos y con el estadio, experimentaron dificultades que se extendieron hasta el inicio de carrera. Sin embargo, la convivencia en un ambiente colaborativo de aprendizajes e intercambios de experiencias, los instrumentalizaron paulatinamente para enfrentar los desafíos inherentes a la profesión. Por lo tanto, los resultados apuntaron que los sujetos tienen ciencia de los desafíos de la profesión y percibe la importancia de la reflexión sobre la práctica para que alcance los significados de su profesión y se vea como productor de saber como agente de interacciones humanas.
Palabras clave: Dilemas y desafíos de la docencia, Formación académica, Recorrido docente.
1. Introdução
A prática da docência é permeada de obstáculos a serem transpostos diariamente, e sob este enfoque, o embasamento teórico e a reflexão propiciam argumentação e aprimoramento da prática. De acordo com Shön (1.992, p. 5), “É possível olhar retrospectivamente e refletir sobre a reflexão-na-ação. Após a aula, o professor pode pensar no que aconteceu, no que observou, no significado que lhe deu e na eventual adoção de outros sentidos.” Portanto, ao refletir sobre os desafios enfrentados em sua aula, o professor irá descobrir novos caminhos e novas possibilidades de aprimorar seu trabalho.
Os primeiros passos na profissão serão os mais desafiadores e as teorias e conhecimentos acadêmicos servirão como suporte para entender melhor o que está se passando na prática. No entanto, cabem questionamentos pertinentes ao assunto: Os professores apresentam uma formação acadêmica capaz de lhes oferecer esse embasamento e reflexão de forma eficaz? Como se define o percurso desses professores que ao se depararem com situações diárias desafiadoras, sentem-se perdidos e desmotivados?
1.1. Origem da docência
Na antiguidade, os primeiros a repassar conhecimento de forma empírica, foram os filósofos, que viviam na Grécia antiga, quando buscavam explicações sobre a existência e debruçavam-se sobre estudos e observações acerca da vida sendo considerados os mestres da retórica e da oratória, exercendo grande influência sobre seus seguidores.
Séculos mais tarde, já no Brasil, no período colonial, os jesuítas dominavam a educação e catequizavam os índios, ensinando-lhes sua cultura como instrumento de controle e dominação. Havia escolas que trabalhava com o método jesuítico para os filhos dos nobres e a educação era pautada no ‘ratio studiorum’, que era o plano e organização de estudos da Companhia de Jesus. Portanto, a educação e a docência estavam pautadas na igreja, pois ela detinha grande influência sobre a educação e determinava o que deveria ser estudado. Nesse processo, os docentes eram leigos e religiosos que se dedicavam a atividade docente. De acordo com Nóvoa (1995, p. 15-16)
A função docente desenvolveu-se de forma subsidiária e não especializada, constituindo uma ocupação secundária de religiosos ou leigos das mais diversas origens. A gênese da profissão de professor tem lugar no seio de algumas congregações religiosas, que se transformaram em verdadeiras congregações docentes. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os jesuítas e os oratorianos, por exemplo, foram progressivamente configurando um corpo de saberes e técnicas e um conjunto de normas e valores específicos da profissão docente. (NÓVOA, 1995, p.15-16).
Durante um período de 210 anos a educação permaneceu assim configurada. No século XVIII, a educação jesuítica entra em decadência. O Marques de Pombal, expulsa os jesuítas do Brasil, pois acreditava que estes estavam fortalecendo, acumulando riquezas e diminuindo o poder da Coroa Portuguesa. E neste subterfúgio, a educação passa por mudanças sendo agora autoritária, enciclopédica e disciplinar ocasionando um ensino de baixa qualidade por 10 anos, com as aulas ministradas por professores sem preparo suficiente para lecionar e sob o controle estatal.
As tentativas de formação de professores teve seu início por volta do ano de 1820, com a criação da primeira instituição de formação de professores do Brasil, através do método Lancaster, criado por Joseph Lancaster, cujo objetivo era ensinar um maior número de alunos, usando pouco recurso, em pouco tempo e com qualidade. Contudo, Lancaster amparou seu método no ensino oral da repetição e memorização e nessa metodologia, não se esperava que os alunos tivessem originalidade ou estímulo intelectual na atividade pedagógica, mas disciplinarização mental e física. (CASTANHA, 2012)
O sistema monitorial ou método Lancaster, como ficou mais conhecido no Brasil, foi desenvolvido na Inglaterra, no final do século XVIII e início do século XIX, momento em que a Inglaterra passava por uma fase de intensa urbanização, devido ao processo acelerado de industrialização. Seus criadores foram Andrew Bell e Joseph Lancaster. De acordo com a proposta, o professor ensinava a lição a um “grupo de meninos mais amadurecidos e inteligentes. Os alunos eram divididos em pequenos grupos, os quais recebiam a lição através daqueles a quem o mestre havia ensinado”. Assim um professor poderia instruir muitas centenas de crianças. (CASTANHA, 2012, p. 3)
Foram muitas as tentativas de formar professores preparados para atuar, dentre elas a criação de Escolas Normais, porém somente homens eram admitidos. Nessa época, o prestígio da docência era pequeno e associado a baixos salários. A partir do surgimento da indústria, houve um desfalque na educação, pois os homens passam a preferir trabalhar nas fábricas, abrindo espaço para a mulher frequentar a Escola Normal que passou a se chamar Habilitação para o Magistério, tornando-se um curso de nível médio. O cenário continuava infelizmente com pouco prestígio e remuneração, pois as mulheres não tinham reconhecimento no campo social e se submeteram a uma remuneração baixa, porém e ao longo dos anos muitas lutas foram travadas em prol da valorização da profissão e melhores condições salariais e de trabalho, e os desafios se estendem até os dias atuais com a busca por situações melhores no campo educacional e a valorização do docente.
A história da docência é marcada por muitos desafios ao longo do tempo e são enfrentados até os dias atuais.
Embora tenha se destacado nos últimos anos, com o intuito de se aproximar do que é estabelecido pela recomendação OIT – UNESCO em 1.996, a educação dos países não atingiu os padrões mínimos necessários para que a docência como responsabilidade pública, atenda aos milhões de estudantes.
No Brasil houve também tentativas de valorização por parte do governo, destacando-se mais recentemente a lei que instituiu um piso salarial e o decreto sobre a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica liderada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), infelizmente essas mudanças não foram suficiente para mudar o quadro da educação brasileira e as avaliações internacionais, mostram que o rendimento escolar continua baixo e que os problemas permanecem grandes.
Gatti e Barreto (2009, pg.8), especialistas em educação e pesquisadoras da fundação Carlos Chagas afirmam:
Tais desafios se tornam mais que urgentes porque, sem professores valorizados continuamente qualificados, o direito a uma educação de qualidade para todos não será uma realidade em nosso país, o que pode retardar a consecução de metas de qualidade na educação que são imprescindíveis para o desenvolvimento do país. (GATTI e BARRETO, 2009, pag.8)
Portanto, a educação e a profissão da docência são a base para que o país se desenvolva e as políticas devem priorizá-las, pois de acordo com Tardif (2007), os professores constituem, em razão do seu número e da função que desempenham, um dos mais importantes grupos ocupacionais e uma das principais peças da economia das sociedades modernas. O que nos leva a constatar que o professor é o principal agente transformador da sociedade e sua valorização é imprescindível.
2. Metodologia
Este artigo elaborado a partir de pesquisas narrativas busca conhecer a contribuição da academia para o percurso docente enfocando os dilemas e desafios de professores que experienciam a profissão nos anos inicias da Educação básica. Para este objetivo, foram explanadas as origens da profissão docente e seus percalços, dialogando com a experiência dos professores que participaram da pesquisa. O instrumento de coleta de dados foi a Pesquisa Narrativa de Formação que se respaldou em Souza (2006) que aponta que estas oportunizam compreender o processo e percurso de formação do sujeito.
O uso da investigação narrativa como opção metodológica possibilita ao sujeito pesquisado a organização de ideias, via relato escrito ou oral, reconstruir e dar uma visão pessoal às suas experiências de vida de modo reflexivo, promovendo a compreensão de sua própria prática. Os sujeitos, ao escreverem ou relatarem suas experiências de vida e/ou profissionais, permitem revelar saberes construídos nas experiências vividas nas suas práticas pedagógicas, que são fundamentais para sua formação. Esses sujeitos ao se expressarem podem nos possibilitar a compreensão de sua visão de mundo, de educação, de ensino, de aprendizagem, e, por conseguinte, de sua ação pedagógica que está imbricada na sua prática. A Investigação narrativa permite observar que falar de si, escrever sobre si e refletir sobre si são elementos importantes para compreender quem são como docentes e o que fazem sendo docentes (SOUZA, 2006).
Os sujeitos para este estudo foram 10 professores, egressos do curso de Pedagogia UNIC/Cuiabá, que já atuam na Educação Básica da Rede pública municipal. Para a definição desses sujeitos priorizou-se aqueles que, exercem a profissão de docente em sala regular. A coleta de dados ocorreu via entrevista narrativa quando os sujeitos foram levados a expor sobre a experiência do início de carreira, os desafios frente à prática docente e os desafios por eles apresentados.
Este estudo é resultado de uma pesquisa de Iniciação Científica com financiamento da FUNADESP que oportunizou a sua realização. O Projeto de Pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Ensino da Universidade de Cuiabá, via Plataforma Brasil, que gerou o nº de registro do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética - CAAE: 77499617.0.0000.5165 Conforme parecer nº 113406/2017, o projeto foi aprovado pelo mesmo Comitê em 26/09/2017 às 10h20min.
3. Apresentação e análise dos dados
3.1. Os dilemas e desafios
Os desafios enfrentados e as exigências do mundo contemporâneo são inúmeros e, reforçados com a desvalorização da profissão, recursos e estruturas escassos, o professor, vê-se por vezes sobrecarregado por constantes cobranças e responsabilidades. E, ao sair da academia o profissional se depara com os dilemas e desafios que precisa enfrentar para desenvolver sua prática.
A Professora M.H.S. demonstra sua insatisfação com a profissão:
Como professora eu me sinto frustrada por que sempre imaginei que poderia contribuir muito com a formação e o aprendizado das crianças, mas os obstáculos que temos que superar todos os dias são muito complicados. Os problemas são a falta de recursos, material pedagógico, problemas de gestão, falta de formação continuada e famílias que não dão o devido valor e educação para os seus filhos.
Percebe-se claramente na fala da professora que a falta de suporte e incentivo e as dificuldades diárias, causam uma desmotivação e sensação de impotência perante a necessidade de formação de seus alunos e o resultado deste quadro, é por vezes a desistência da carreira ou a falta de motivação para lecionar. Tardiff (2007, p. 58) nos fala sobre a importância dos saberes da profissão e o quanto esses saberes são o suporte para os professores. “Saberes mobilizados e empregados na prática cotidiana, saberes esses que dela provém de uma maneira ou de outra, e serve para resolver os problemas dos professores em exercício, dando sentido às situações de trabalho que lhe são próprias.” Porém os professores constroem esses saberes com o tempo ao longo de sua experiência em sala.
o ao longo de sua experiência em sala.
Outro ponto importante a ser ressaltado na fala dessa professora diz respeito à afetividade e ao processo emocional que envolve a profissão. Segundo Tardif (2007) o trabalho docente se constitui também “na capacidade não somente de pensar nos alunos, mas igualmente de perceber e de sentir suas emoções, seus temores, suas alegrias [...]” (p. 130)
A professora F. F P. enfatiza que a profissão é muito desafiadora:
É bastante desafiadora a tarefa de ensinar, pois não há uma valorização da profissão. Muitas vezes, você precisa ser multiprofissional para dar conta de tantas dificuldades apresentadas pelos alunos atualmente. Sem falar que o trabalho é agregado de outras funções que fazem parte do ofício.
A professora A.M. P. explicita os desafios atuais:
Os desafios sempre foram falta de infraestrutura, material didático para prender a atenção dos alunos falta de alunos e pais compromissados com a educação. Baixo salário somado à desvalorização da carreira, o que faz com que muitos aumentem seus turnos de trabalho ou assumam funções extras. Outra dificuldade é conciliar atividades profissionais e pessoais do dia-a-dia, pois o professor leva muito trabalho para casa.
A professora I. S. L. relata seus anseios:
Tenho muito que aprender, sinto-me feliz mas um pouco frustrada pela não valorização que temos.
Os desafios constantes, a falta de valorização, as condições de trabalho, são obstáculos constantes apresentados na docência.
Os dilemas da profissão docente se apresentam logo no início da carreira por ser esse um período de tensões e aprendizagens intensas, em contextos geralmente desconhecidos, onde se adquire o conhecimento profissional que possibilita a sobrevivência na profissão. As primeiras experiências vivenciadas pelos profissionais em início de carreira têm influência direta sobre a sua decisão de continuar ou não na profissão, porque este é um período marcado por sentimentos contraditórios que desafiam cotidianamente o professor e sua prática docente. Pimenta (2006, p. 11), aponta que “[…] é um período realmente importante na história profissional do professor, determinando inclusive seu futuro e sua relação com o trabalho”.
Sobre as falas das professoras acima citadas, vale ressaltar também que a profissão docente é permeada de momentos de realização e/ou frustração profissional. Segundo Mosquera (1996) aponta que esse fenômeno é denominado de “bem-estar e mal-estar docente”.
3.2. O curso de pedagogia e sua contribuição na docência
O curso de pedagogia surgiu na década de 30, e passou por diversas fases e modificações, hoje apresenta a estrutura de licenciatura plena e uma grade voltada a matérias teóricas e relacionadas com a educação infantil, ensino fundamental e E.J.A, além das disciplinas de inclusão como: Libras, Educação Inclusiva, há no curso também, os estágios supervisionados e atividades como seminários. O curso de pedagogia deve ser um embasamento à profissão, conforme nos ressalta a professora M. F. A.:
Quando iniciei minha vida acadêmica, minhas expectativas eram de que na Faculdade eu viesse aprender teorias, das quais subsidiassem a minha prática. Graças aos meus mestres e a Faculdade que na época eu fiz, pude aprender como desenvolver meu trabalho em sala. As oficinas, aulas a campo, estágios supervisionados colaboraram para a minha realização profissional.
A professora F.F. P. argumenta que:
Escolhi a profissão por influência da minha mãe que foi professora muitos anos. Comecei em sala de aula antes mesmo de cursar pedagogia, trabalhando com aulas particulares e então decidi fazer o curso. No começo do curso, senti um pouco de decepção, algumas coisas não eram como imaginava. Porém, refleti e ajustei alguns pensamentos em relação ao curso. Foi então que as disciplinas foram ficando mais claras e mais significativas para mim. Com o passar do tempo, o curso foi ficando mais interessante e com várias dinâmicas que iam me encantando.
A Professora L. J. P. enfatiza as dificuldades em início de carreira:
Quando eu comecei foram muitos desafios, sai da faculdade sem rumo e sem noção do que me esperava, logo fui trabalhar em uma escola pública e encarei a realidade, mas consegui superar e continuo superando os desafios.
A professora N. B. S. elenca os principais desafios em início de carreira:
Os principais desafios: Falta de experiência na prática pedagógica, lidar com situações de conflito na sala de aula, desenvolver metodologias de trabalho com a inclusão, dentro do ambiente escolar. Insegurança pela falta de qualificação para lidar com as dificuldades nas aprendizagens dos alunos.
A professora H. M. K. demonstra a relação entre a teoria e a prática:
Esse período vivido como professora trouxe-me muito conhecimento, pois o que aprendi durante o período de faculdade na parte teórica agregou muito na prática em sala de aula, porém no dia – a – dia dentro da escola, aprendi e aprendo mais ainda. A cada dia surgem situações diferentes para lidar. Então, a prática está sempre sendo embasada pela teoria.
Analisando as falas das professoras, fica evidente que o curso propicia uma base teórica e, agregada a prática, é somada com as experiências nas escolas. Na fase acadêmica, a prática é experienciada no momento dos estágios, quando o aluno assume uma sala.
Algumas professoras pesquisadas ressaltam que fizeram Magistério anteriormente e que o curso de pedagogia veio acrescentar, também possuíam experiências anteriores ao curso o que demonstra que seus conhecimentos se tornaram mais embasados quando entraram na faculdade.
A professora G. K.T.
Impulsionada pela paixão em educar, pois já atuava em sala de aula quando ingressei no curso de pedagogia, minhas expectativas para o curso eram grandes e, eu imaginava que a faculdade me daria “receitas” de como melhorar minhas aulas. Porém, constatei que as disciplinas teóricas desconstruíram tudo aquilo que julgava saber sobre educação. E aquilo que, no inicio, me deixara insatisfeita, foi o que serviu de base fundamental para o aperfeiçoamento (constante) da minha prática profissional. E assim, as minhas expectativas do curso em si, foram superadas, diante da minha ideia distorcida de prática pronta.
Diante das falas das professoras percebe-se o quanto a prática aliada à teoria é essencial para que o aprendizado de fato ocorra. Pimenta (1999, p.15) ressalta sobre a importância de uma formação eficiente de professores:
E, então, para que formar professores? Contrapondo-se a essa corrente de desvalorização profissional do professor e às concepções que o consideram como simples técnico reprodutor de conhecimentos e/ou monitor de programas pré-elaborados, tenho investido na formação de professores, entendendo que na sociedade contemporânea cada vez mais se torna necessário o seu trabalho enquanto mediação nos processos constitutivos da cidadania dos alunos para o que concorre a superação das desigualdades e dos fracassos escolares. O que me parece, impõe a necessidade de se repensar a formação de professores. (PIMENTA, 1999, p.15)
A profissão da docência em si, como aponta a autora, é transformadora, admirável e traz em seu bojo a mudança para o futuro, a cidadania e a inclusão. Os professores apesar de toda a dificuldade mencionada sabem da importância do seu trabalho e de sua relevância social.
A professora S.B. M. demonstra seu compromisso em relação à formação de seus alunos:
Eu estou trabalhando na área à três anos, gosto muito de estar em sala, da forma como facilita a aprendizagem dos meus alunos, mas gostaria de fazer muito mais. Minha expectativa é contribuir com a aprendizagem das crianças que fizerem parte dos locais em que eu esteja trabalhando, auxiliando nos conhecimentos que eles possam adquirir de forma lúdica e ética.
A professora A.C. M. explicita seus anseios com relação à profissão:
Já trabalho a dois anos na área, estou me aprimorando, buscando realizar um trabalho que contribua e facilite o aprendizado das crianças que estão sob a minha responsabilidade. Sonhava com o momento que assumiria uma sala de aula, mas tinha muitas dúvidas e um pouco de medo. As dúvidas se amenizaram, mas a realidade não é fácil, mas no final consegui fazer um trabalho bom que melhorará muito.
A professora C. L. O. ressalta:
Optei por essa profissão por que considero uma das mais importantes profissões, pois todas as demais passam pelas mãos de um professor. Formar, construir um futuro cidadão é muito importante, sinto – me orgulhosa por poder contribuir com o desenvolvimento social, cultural e criticidade do estudante, que são o futuro do Brasil. Apesar das dificuldades que enfrentamos é muito bom ver o progresso no processo de aprendizagem da criança.
A professora M. H. S. complementa:
Quando trabalhamos com amor, vemos resultados muito bons em nosso trabalho, principalmente quando ensinamos um aluno que não sabe quase nada e ao final do ano aprende ler, é uma satisfação muito grande, não pelo salário, mas pelo resultado do nosso trabalho.
Destarte, de acordo com as falas das professoras, o comprometimento, a dedicação e a persistência estão presentes em suas atitudes, a busca por fazer um bom trabalho é evidente e o foco é o desenvolvimento e a construção da cidadania, ética, desenvolvimento pessoal e cognitivo de seus alunos, no entanto em seu início de carreira fica evidenciada a importância da relação teoria-prática na formação do educador.
4. Considerações
Os desafios e dificuldades, segundo os sujeitos da pesquisa, iniciaram ainda no período de formação e os conhecimentos adquiridos deram suporte em parte no momento do exercício da prática. Essa questão corrobora a afirmação de Monereo e Poso (2007) ao afirmar que os professores apresentam muitas dificuldades para enfrentar os novos desafios, as novas tarefas e as situações novas, a partir dos conhecimentos e das habilidades adquiridos. Porém, o objetivo de educar tem se mostrado cada vez mais determinante de uma sociedade igualitária, humana e cidadã.
Nesta jornada enfrentada pelo docente, a academia contribuirá de forma significativa desde que propicie não só um embasamento teórico consistente, mas principalmente a prática, por meio de pesquisas, reflexões, didáticas vivenciadas e experimentos que transmitam maior segurança e capacitação aos professores. A motivação para persistir neste árduo caminho advém do apoio e suporte que são encontrados no período de preparação do professor. Destarte, é importante ressaltar que os sujeitos da pesquisa têm consciência dos desafios da profissão e, apontam que a realidade por eles vivida clama por mudança, pois se no passado a educação era para poucos, hoje ela é direito de todos e o docente é a peça chave deste processo.
De acordo ainda com a fala dos sujeitos, o curso de formação docente necessita de um olhar especial para o laboratório dos acadêmicos (estágio) desde o inicio da formação. Dessa forma, as experiências e desafios podem ser vivenciados no decorrer do curso, que pode abrir espaço de diálogo sobre todo o processo vivenciado na prática do estágio entre os acadêmicos e seus formadores.
Portanto, ao analisar todo o contexto, percebe-se que de posse de uma formação acadêmica aliada à prática em laboratórios (estágios), esses primeiros passos da carreira tornam-se menos complexos, pois os desafios em sua grande parte poderão e deverão ser experienciados ainda com seus formadores, em um ambiente colaborativo e de aprendizagem. Somente desta forma, o docente estará ciente dos desafios da profissão e adquirirá os saberes necessários para transpor os obstáculos ora apresentados.
5. Referências
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Gatti, B. A.; Barreto, E. S. S. (2009) Professores do Brasil: Impasses e Desafios. Brasília: UNESCO.
Monereo, C.; Pozo, J. I. (2007). Competencias para (con)vivir con el siglo XXI. In: Monereo, C.; Pozo, J. I. (Coord.). Monográfico sobre competências básicas. Cuadernos de Pedagogía. Barcelona: Editorial Wolters Kluwer n. 370, p. 12-23.
Mosquera, Juan J. M., Stobäus, Claus. (1996). O mal-estar na docência: causas e conseqüências. In: Educação, Porto Alegre: PUCRS, ano XIX, n. 31,
Nóvoa, A. (1995). O passado e o presente dos professores. In: NÓVOA, António. Profissão Professor. Porto. Porto Editora.
Pimenta, S. G. (2006). Estágio e docência: diferentes concepções. Revista Poíesis -Volume 3, Números 3 e 4, pp.5-24,. Retirado no dia 02 de agosto de 2018. http://www.revistas.ufg.br/index.php/poiesis/article/view/10542/7012.
Schön, D. A. (1992). Formar professores como profissionais reflexivos. In: Nóvoa, António, “Os Professores e sua Formação”. Portugal (Lisboa): Publicações Dom Quixote, (2.a edição).
Souza, E. C. (2006). Pesquisa narrativa e escrita (auto) biográfica: interfaces metodológicas e formativas. In: SOUSA, Elizeu Clementino de.; Abranhão, M. H. M. B. Tempos, narrativas e ficções: a invenção de si. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 135-147.
Tardif, M. (2007). Saberes docentes e formação profissional. 4. ed. Petrópolis: Vozes.
Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Edenar Souza Monteiro – 50%
Laureliza Santos – 20%
Cilene Maria Lima Antunes Maciel – 10%
Okçana Battini – 10%
Eliza Adriana Sheuer Nantes – 5%
Léia Laura de Souza Mendes – 5%