Profissão docente: Um estudo do abandono da carreira na contemporaneidade

Teaching profession: A study of career abandonment in contemporary

Profesión docente: Un estudio del abandono de la carrera en la contemporaneidad

Lilian Wagner
Universidade Franciscana - UFN, Brasil
Janaína Pereira Pretto Carlesso
Universidade Franciscana - UFN, Brasil

Profissão docente: Um estudo do abandono da carreira na contemporaneidade

Research, Society and Development, vol. 8, núm. 6, pp. 01-13, 2019

Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 05 Fevereiro 2019

Revised: 27 Fevereiro 2019

Aprovação: 08 Março 2019

Publicado: 08 Março 2019

Resumo: O objetivo desse estudo foi investigar os fatores que influenciam os professores no contexto contemporâneo ao abandono da carreira docente. A pesquisa realizada é do tipo bibliográfico, de caráter qualitativo. A coleta de dados foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas: Scielo, Google Acadêmico, Bireme e repositórios de dissertações e teses das principais universidades brasileiras durante o segundo semestre de 2018. Os resultados do estudo apontam que a falta de valorização do professor, as condições precárias de trabalho, os baixos salários, a falta de incentivo à formação inicial e continuada, o desrespeito e a sobrecarga de trabalho levam ao esgotamento, desencanto, frustração e, consequentemente, ao abandono da carreira docente.

Palavras-chave: Carreira, Docência, Abandono, Contemporaneidade.

Abstract: The objective of this study was to investigate the factors that influence teachers in the contemporary context to the abandonment of the teaching career. The research carried out is of the bibliographic type, with a qualitative character. Data collection was carried out in the following electronic databases: Scielo, Google Scholar, Bireme, repositories of dissertations and theses of the main Brazilian universities during the second half of 2018. The results of the study indicate that the lack of appreciation of the teacher, the precarious conditions of work, low wages, lack of incentive for initial and continuing training, disrespect, and overwork lead to exhaustion, disenchantment and frustration and consequently dropping the teaching career.

Keywords: Career, Teaching, Abandonment, Contemporaneity.

Resumen: El objetivo de este estudio fue investigar los factores que influencian a los profesores en el contexto contemporáneo al abandono de la carrera docente. La investigación realizada es del tipo bibliográfico, de carácter cualitativo. La recolección de datos fue realizada en las siguientes bases de datos electrónicas: Scielo, Google Académico, Bireme, repositorios de disertaciones y tesis de las principales universidades brasileñas durante el segundo semestre de 2018. Los resultados del estudio apuntan que la falta de valorización del profesor, las condiciones precarias de trabajo, los bajos salarios, la falta de incentivo a la formación inicial y continuada, el irrespeto y la sobrecarga de trabajo conducen al agotamiento, desencanto y frustración y consecuentemente al abandono de la carrera docente.

Palabras clave: Carrera, Enseñanza, Abandono, Contemporaneidad.

Introdução

A educação está passando por um momento repleto de inseguranças e incertezas. Desafios e dilemas rondam o sistema educacional. Insere-se nesse contexto, toda a comunidade escolar, porém o enfoque desta pesquisa se produz na figura do professor.

O docente, enquanto grupo social, e em virtude das próprias funções que exerce, ocupa uma posição estratégica no interior das relações complexas que unem as sociedades contemporâneas aos saberes que elas produzem e mobilizam com diversos fins (Tardif, 2002). O ser professor vai muito além de dar aula, engloba toda atividade educativa, seja ela em um espaço formal, como a escola, ou em espaços informais. Para Libâneo (2007), o conceito de docência passa a não se constituir apenas de um ato restrito de ministrar aulas, nesse novo contexto, passa a ser entendido na amplitude do trabalho pedagógico, ou seja, toda atividade educativa desenvolvida em espaços escolares e não escolares pode-se ter o entendimento de docência.

Gauthier (1998) ressalta que nas últimas duas décadas do século XX a educação escolar tem sido acusada, com insistência e vigor, de não cumprir convenientemente seu papel de construção de conhecimento. Essa intimação além de estender-se à escola atingiu também os professores, considerados os principais responsáveis pela crise dada à falta de saberes necessários ao exercício da docência, pois sua relação com os saberes não se reduz a uma função de transmissão dos conhecimentos já constituídos, mas de uma prática íntegra de diferentes saberes, planejamentos e relações com o próprio corpo docente. Contudo, o docente tem um papel fundamental diante de todo esse cenário, e devido à sua importância, seus atos têm consequências, tanto na sua vida particular quanto profissional.

O objetivo do presente artigo foi identificar na literatura, os fatores que influenciam os professores no contexto contemporâneo ao abandono da carreira docente. O estudo faz-se necessário para que se esclareçam os fatores que motivam os pedidos de exoneração e que esses sejam revistos, tanto pelo professor, quanto pelo poder público, a fim de minimizar os pedidos de exoneração, visto que causam prejuízos a todos os envolvidos. Segundo Folle, Farias, Boscatto e Nascimento (2009) a carreira docente é permeada por desafios, dilemas e conquistas que repercutem no processo de como o professor percebe-se e sente-se no ambiente de trabalho, na busca da realização pessoal e profissional.

A falta de valorização, as condições precárias de trabalho, defasagem nos salários, pouco incentivo à formação docente e também à formação continuada, desrespeito e sobrecarga de trabalho, são alguns dos fatores elementares que colaboram para que os docentes se sintam esgotados. O amor pela profissão transforma-se em desencanto e frustração. A precarização da educação traz como uma das consequências o abandono da carreira docente pelo professor.

Lapo e Bueno (2003) corroboram ressaltando que o abandono não significa apenas renúncia ou desistência, mas o desfecho de um processo de insatisfação, fadigas, descuidos e desprezo. Ainda, conforme Cassettari, Scaldelai e Frutuoso (2014), o abandono da carreira docente traz custos significativos, pois é preciso substituir e replicar custos como contratação e formação, prejuízo na construção de equipe na escola, vínculo com a comunidade escolar e aprendizagem do aluno. Fatores estes que estão atrelados a um estado e sistema de educação.

Metodologia

A pesquisa deste estudo é do tipo bibliográfico. A pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2008), é elaborada a partir de material já publicado, composto principalmente de livros, artigos de periódicos e, recentemente, materiais disponibilizados na Internet. Primeiramente, foi realizado um levantamento bibliográfico referente à temática estudada. A pesquisa foi feita nas seguintes bases de dados eletrônicas: Scielo, Google Acadêmico, Bireme, repositórios de dissertações e teses das principais universidades brasileiras durante o segundo semestre de 2018. As palavras- chaves ou descritores utilizados para busca foram: abandono docente, exoneração, mal-estar docente, desencantamento.

Abandono Da Carreira Docente No Contexto Contemporâneo

A palavra abandono, conforme Ferreira (1999), autor do dicionário Aurélio, apresenta várias possibilidades, entre elas: deixar ao desamparo, deixar só, renunciar, fugir de, retirar-se de, deixar o lugar em que o dever obriga a estar, desleixar-se, não cuidar de si. Todos os sinônimos citados têm ligação direta com o propósito do trabalho que fala sobre o abandono da carreira docente.

O abandono da carreira docente no contexto contemporâneo não significa apenas uma renúncia ou desistência do professor, mas um desfecho, o fim de um ciclo de um processo de fadiga, insatisfação, descuido, desprezo, incompreensão, enfim, um mal-estar. Também conforme o dicionário Aurélio, mal-estar remete a uma situação incômoda, desassossego, e esse mal-estar muitas vezes não é bem definido pelo professor, mas percebe-se que algo não está bem, não sendo possível identificar ao certo o que e por quê.

“A expressão mal-estar docente é intencionalmente ambígua… Quando usamos a palavra mal-estar sabemos que algo não anda bem, mas não somos capazes de definir que é o que não anda e por quê…” (Esteve, 1994, p.12-13).

A preocupação com o mal-estar na docência teve início na Espanha, na década de 70, com um autor chamado José M. Esteve, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Málaga, que escreveu um livro sobre professores em conflito. Para Esteve (1994), o mal-estar docente é descrito pelos efeitos permanentes de caráter negativo que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência. Seguindo com as ideias do autor, o estudo do mal-estar docente tem três funções precisas: (a) a de ajudar os professores a enfrentarem e até eliminarem os desajustamentos introduzidos por situações de reforma educativa; (b) a de estudar as influências resultantes de mudanças sociais sobre a função docente (a falta de apoio aos docentes, as críticas e a omissão da responsabilidade da sociedade face à realidade educativa); e, (c) a de traçar políticas de intervenção coerentes que melhorem as condições em que os professores desempenham a sua atividade.

As exigências da sociedade contemporânea, que se transforma rapidamente e que exige constantes mudanças e adaptações, provoca em muitos professores a insatisfação de não conseguirem dar conta dessas exigências: sobrecarga de trabalho, a falta de apoio dos pais, sentimento de inutilidade em relação ao trabalho realizado. Esses sentimentos causam desânimo, esgotamento e consequentemente, podem vir a levar ao abandono da carreira docente.

Huberman (2000) fez um estudo sobre o ciclo de vida profissional dos professores e nele aponta diversas fases: a entrada na carreira, fase da estabilização, fase da diversificação, pôr-se em questão, serenidade e distanciamento afetivo, conservantismo e lamentações e desinvestimento. Essas fases podem ser vivenciadas ou não em sua totalidade. A primeira fase, que vai do primeiro ao terceiro ano, classifica como fase da sobrevivência, descoberta e exploração.

A sobrevivência se dá entremeio ao choque com o real (confronto inicial com a complexidade profissional), envolvendo as preocupações consigo mesmo, os desencontros entre os ideais e as realidades e o enfrentamento de outras dificuldades do contexto escolar. Já a descoberta traduz o entusiasmo do início de carreira, experimentações e a exaltação pela responsabilidade assumida, por constituir parte de um corpo profissional. Soma-se a estes aspectos a exploração que pode ser fácil ou problemática, sendo limitada, portanto, por questões de ordem institucional. Dos 4 a 6 anos, é a fase da estabilização; essa fase caracteriza-se como o estágio de consolidação pedagógica, de sentimento de competência crescente e segurança. Ocorre o comprometimento com a carreira docente e aumenta a preocupação com os objetivos didáticos. Considera-se, ainda, como a fase de libertação ou emancipação, em que se acentua o grau de liberdade profissional (Huberman, 2000).

Ainda segundo o autor, do sétimo ano de carreira ao vigésimo quinto, nessa ocasião o professor encontra-se num estágio de experimentação e diversificação, de motivação, de buscas de desafios. Experimenta novas práticas e diversifica métodos de ensino, tornando-se mais crítico. Pode se caracterizar, também, como uma fase de questionamentos, gerando uma crise, seja pela monotonia do cotidiano da sala de aula, seja por um desencanto causado por fracassos em suas experiências ou por reformas estruturais. O professor faz um exame do que será feito de sua vida frente aos objetivos e ideais estabelecidos inicialmente; reflete tanto sobre continuar no mesmo percurso como sobre as incertezas de uma possível mudança.

Dos 25 aos 35 anos de carreira, de acordo com Huberman (2000), o professor começa a lamentar o período passado caracterizado pelo ativismo, pela força e pelo envolvimento em desafios. Mas, em contrapartida, evoca uma grande serenidade em sala de aula, certo conformismo com sua prática e se aceita como é. Tem-se um afastamento afetivo para com os alunos que pode se dar ou pelo distanciamento gerado pelos alunos com relação aos professores mais velhos, ou, numa análise sociológica, pode resultar do pertencimento de professores e alunos a gerações diferentes, dificultando o diálogo e o envolvimento entre ambos. A fase de serenidade pode se deslocar para uma fase de conservadorismo, em que os professores se tornam mais resistentes às inovações e às mudanças e é enfatizada uma nostalgia do passado.

A fase de desinvestimento, recuo e interiorização que vai dos 35 aos 40 anos é tomada por uma postura positiva face à destituição profissional, libertando-se progressivamente do trabalho sem lamentações para dedicar mais tempo a si próprio e a outros interesses extraescolares. Contudo, professores que não tenham alcançado seus objetivos, suas ambições iniciais, podem caminhar para o desinvestimento na sua vida profissional ainda no período de desenvolvimento da carreira. Enfim, tal fase pode acontecer de modo sereno ou amargamente (Huberman, 2000). Nem todos os profissionais passam por essas fases bem como nem sempre essas fases se dão nos anos descritos.

Conforme exposto pelo autor, a carreira do professor apresenta muitas fases, vários momentos que ele mesmo se coloca em xeque com sua profissão. Vários fatores desencadeiam isso, os quais veremos mais adiante. O professor, no momento atual, está mergulhado em uma sociedade extremamente complexa, sendo, assim, cada vez mais exigido em seu trabalho docente.

Nóvoa (2001) em uma entrevista comenta sobre as novas atribuições e preocupações do professor na atualidade:

[...] a profissão docente sempre foi de grande complexidade. Hoje, os professores têm que lidar não só com alguns saberes, como era no passado, mas também com a tecnologia e com a complexidade social, o que não existia no passado. [...] e essa incerteza, muitas vezes, transforma o professor num profissional que vive numa situação amargurada, que vive numa situação difícil e complicada pela complexidade do seu trabalho, que é maior do que no passado. (NÓVOA, 2001)

Ainda corroborando com o autor, a crise da profissão docente se arrasta por muito tempo e não se vislumbram perspectivas de superação em curto prazo. Pode- se dizer que essa crise é resultado, principalmente, das transformações que ocorrem na sociedade e que alteram o sentido e o significado do trabalho docente.

O abandono da carreira docente não se dá de uma hora para outra. Os fatores envolvidos vão se tornando cada vez mais evidentes até se chegar o momento da ruptura definitiva. Lapo e Bueno (2002) apontam que existem os abandonos temporários: as faltas, licenças, o afastamento físico do local de trabalho. Ressaltam ainda outros dois tipos de abandonos especiais: a remoção e acomodação. A remoção, ou transferência, é um mecanismo que oferece a possibilidade ao professor de afastar-se das situações que provocam insatisfação e desequilíbrio, mudando de escola.

Quando não se consegue essa transferência de escola para se esquivar dos problemas, o professor é conduzido a um estado de tensão que, se levado ao extremo, leva os professores a manifestarem um esgotamento de suas energias, no qual não conseguem, de fato, continuar trabalhando. Não podendo deixar o trabalho, recorrerão a outro mecanismo de evasão, aqui denominado de acomodação. Neste tipo de abandono não há o distanciamento físico, ou seja, o professor comparece à escola, ministra as aulas, cumpre as obrigações burocráticas, mas executa essas atividades dentro de um limite que representa o mínimo necessário para manter-se no emprego.

O pedido definitivo de desligamento dos vínculos estabelecidos com o trabalho docente, mesmo quando estes já estão enfraquecidos pelas dificuldades e insatisfações, é muito difícil de ser realizado. Essa dificuldade em abandonar decisivamente o trabalho se deve a vários fatores. Um dos fatores é de que houve um esforço para se construir, conquistar esse espaço e, ter que se afastar, poderá ocasionar alguns sentimentos: além da frustração, também a impressão de fracasso, de ter sido malsucedido em seus empenhos. Outro fator são as perdas que o abandono provoca. Tudo aquilo que foi conquistado, seguramente com grande esforço, será perdido: o cargo, o trabalho, as pessoas. Lapo e Bueno (2002) também relacionam aos sonhos e ideais perdidos pelo professor; uma parte da identidade e uma parte da vida. Abdicar dessas coisas não é tarefa fácil, mesmo quando elas não se apresentam exatamente como se esperava. Ainda conforme as autoras:

Toda perda é difícil, e se torna ainda mais difícil e dolorosa quando está associada ao confronto com as limitações e a sensação de impotência para reverter a situação e manter o que foi conquistado. Nesse sentido, o abandono definitivo será adiado pelo maior tempo possível, para que a sensação de fracasso e de perda também sejam adiadas (LAPO E BUENO, 2002, p. 266).

Fatores Que Influenciam O Abandono Da Carreira Docente

Para que se finde uma carreira docente, vários elementos se unem. Não é apenas um fator que define o abandono. Há um conjunto de fatores internos (do professor) e externos (comunidade escolar) que, somados, levam ao pedido de exoneração. Conforme Lapo e Bueno (2001), do mesmo modo que o tornar-se professor é um processo através do qual o indivíduo se constrói como professor, também o deixar de ser vai se concretizando ao longo do percurso profissional.

Os elementos que induzem o pedido de exoneração levam em conta o modo como a profissão é escolhida, as insatisfações relacionadas ao salário, ascensão profissional, ao plano de carreira, às relações com o sistema educacional, tanto com o aluno quanto com os demais membros da comunidade escolar. Referem-se também, à formação inicial, à precarização e desvalorização do trabalho, ao sentimento de inutilidade em relação ao trabalho que realiza, à impossibilidade de autorrealização e da realização de projetos pessoais, acúmulo de jornada de trabalho e às questões de saúde, principalmente no âmbito psicológico. Esses aspectos e os dilemas que exercem influência podem ser determinantes na evasão de professores, pois os vários fatores que produzem insatisfações e frustrações são, certamente, causadores de mal-estar.

Corroborando com Rebolo (2012):

O desvelamento desses fatores e da inter-relação entre o mundo interno (de cada professor) e externo (escola, sistema educacional e sociedade), bem como a identificação das estratégias de enfrentamento utilizadas frente às situações adversas e conflituosas do trabalho, permitiu conhecer de que modo os vários espaços (físicos, sociais e psicológicos em que a pessoa circula) interferem na dinâmica evolutiva do vir-a-ser professor e do deixar de sê-lo. (REBOLO, 2012, p. 162)

O fator que mais se ressalta em todas as bibliografias lidas é a questão salarial. A questão financeira é a maior causa de pedidos de exoneração. Segundo Esteve (1999),

O status social é estabelecido, primordialmente, a partir de critérios econômicos. [...] O salário converte-se em mais um elemento da crise de identidade dos professores. [...] Paralelamente à desvalorização salarial produziu uma desvalorização social da profissão. [...] O professor é visto como um pobre diabo que não foi capaz de arranjar uma ocupação mais bem remunerada. A interiorização desta mentalidade levou muitos professores a abandonar a docência, procurando uma promoção social noutros campos profissionais ou em atividades exteriores à sala de aula (p. 105).

Somando-se ao fator salarial, engloba-se o plano de carreira, muitas vezes defasado e sem perspectivas de crescimento. Percebe-se, então, que a exoneração da profissão docente se dá em virtude de uma busca pela ascensão profissional, tentando buscar melhores condições de vida.

Junto a isso, a insatisfação, o desprestígio, o desrespeito, a falta de apoio, as frustrações e o sentimento de inutilidade do trabalho prestado são sentimentos bem evidentes nas bibliografias pesquisadas. A falta de comprometimento de alguns professores sobrecarrega outros, a falta de vontade dos alunos e o desrespeito com o professor, causam desencanto. As relações interpessoais também geram um desconforto tão grande, que podem vir a ser um dos motivos para a ruptura definitiva da profissão. Segundo Rebolo (2012),

A ambiguidade de sentimentos em relação à origem da frustração e do desencantamento (no “eu” ou no “outro”) é uma reação denominada por Sawrey e Telford (1974, p. 272) de “intropunitiva”, que, apesar de oferecer uma justificativa para a situação, leva a pessoa a “considerar-se inferior, sem merecimentos, e sentir-se impotente ou deprimida”. (REBOLO, 2012, p.153).

A saúde é outro fator muito relevante. Devido ao estresse, cansaço, fadiga, muitos professores acabam com a Síndrome de Burnout. Lapo e Bueno (2003) remetem a LeCompte, Dworkin para definir Burnout:

Burnout é uma forma extrema de alienação específica de papel caracterizada por um sentimento de que o trabalho de alguém é destituído de sentido e que essa pessoa está impotente para realizar mudanças que podem tornar o trabalho mais significativo. Além disto, esse sentimento de falta de sentido e impotência é reforçado por uma crença de que as normas associadas ao papel e à situação são ausentes, conflitantes ou inoperantes, e que essa pessoa está só e isolada entre os colegas e clientes. (LeCompte, Dworkin, 1991, p.94) Apud (LAPO e BUENO, 2003, p. 84)

O acúmulo de responsabilidade e estresse, tornando o trabalho algo sacrificante, com sofrimento psicológico e até físico, também pode levar ao fim da carreira. A grande distância entre teoria e prática, a formação inicial, que muitas vezes não condiz com as realidades das escolas, sejam elas tanto de ordem estrutural quanto de ordem de gestão também geram tensão. O que se aprendeu na teoria, quando aplicada em sala de aula, com as relações interpessoais, com os percalços do dia a dia, com o enfrentamento do aluno, causam um estranhamento. Segundo Esteve (1999, p. 44), o encontro com uma prática do magistério bastante distante dos ideais pedagógicos assimilados durante o período de formação inicial vai levar os professores a reações diversas.

Huberman (2000) enfatiza:

O aspecto da sobrevivência traduz o que se chama vulgarmente de choque do real, a confrontação inicial com a complexidade da situação profissional: o tatear constante, a preocupação consigo próprio (estou-me a aguentar), a distância entre os ideais e as realidades quotidianas da sala de aula, a fragmentação do trabalho, a dificuldade em fazer face, simultaneamente, à relação pedagógica e à transmissão de conhecimentos, a oscilação entre relações demasiado íntimas e demasiado distantes, dificuldades com alunos que criam problemas, com material didático inadequado [...]. Em contrapartida, o aspecto da descoberta traduz o entusiasmo inicial, a experimentação, a exaltação por estar, finalmente em situação de responsabilidade [...] (HUBERMAN, 2000, p. 39).

O mal-estar docente, permeado de todos esses fatores, vai se acumulando e gerando as insatisfações, os desencantos, culminando na ruptura definitiva que é a exoneração do cargo docente.

Ainda que o abandono seja uma determinação individual, a sua magnitude vai além das questões pessoais, pois a insatisfação com o trabalho reflete tanto nas mudanças que estão ocorrendo na sociedade e que atingem as instituições e as pessoas, como no sistema educacional, no modo como o trabalho docente está organizado na escola contemporânea.

Considerações Finais

Diante dos problemas da contemporaneidade, relacionados à docência e aos desencantos que a docência proporciona, fica simples associar esses mesmos desencantos às fases do ciclo de vida profissional descrito por (Huberman, 2000). Os problemas citados, tais como, a desvalorização profissional, o “faz de conta” dos colegas, o descaso e desrespeito dos estudantes, as decepções frequentes, as expectativas financeiras, bem como a falta de reconhecimento pessoal e profissional levam os professores a apresentar distintas maneiras de lidar com a situação: fechar-se em si, entristecer-se, buscar outras profissões. Assim, revelam-se duas fases importantes do ciclo de vida profissional que são: o pôr-se em questão e o desinvestimento na carreira.

A análise do estudo realizado apontou que a dimensão financeira é a maior causa do desencanto e abandono da docência, seguido por tantas outras dimensões, tanto em âmbito pessoal, profissional e social. O não reconhecimento da identidade do professor perpassa pelo desrespeito não só do aluno, mas da comunidade escolar e das gestões públicas. Somando-se a isso, a falta de preparo do professor que ingressa em uma escola e se depara com a realidade distante daquela descrita na teoria.

Conforme a literatura sobre o assunto, os fatores vão se somando e culminam em uma imensa desilusão, em um desencantamento, causando a doença, estresse, o “fim da linha” para muitos professores. Até chegar esse momento, muito sofrimento já foi experienciado, vivido e cabe ao próprio professor, tomar a atitude de abandonar a carreira docente. O abandono da profissão docente é um desenlace inevitável de um processo que muitas vezes já iniciou de forma errada.

Pode-se perceber, a partir da pesquisa realizada, o quanto é necessário possibilitar reflexões sobre essa temática e estar atento às dificuldades e desafios que o profissional docente enfrenta em seu cotidiano, no exercício da docência, pois o mesmo assume responsabilidades inúmeras e acaba muitas vezes não conseguindo dar conta de tudo, entrando em colapso. Esse esgotamento, no mundo efêmero em que se vive atualmente, manifesta muitos questionamentos: quem cuida desse profissional? O que pode ser feito para minimizar o abandono da carreira docente? Quais as políticas que temos para evitar esse sofrimento que pode levar à desistência da profissão? Ficam algumas questões, ou seja, inquietações para estimular a realização de mais estudos sobre esse assunto, enfim precisa-se pensar em Humanidades na docência para que não ocorra o abandono da carreira no mundo contemporâneo.

Referências

Cassettari, N., Scaldelai, V.F., Frutuoso, P.C. (2014). Exoneração a pedido de professores: estudo em duas redes municipais paulistas. Educ. Soc., Campinas, 35(128),.629-996. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v35n128/0101-7330-es-35-128-00909.pdf. Acesso em: 13 out.2018.

Esteve, J. M. (1994). O mal-estar docente. 3. ed. Barcelona: Paidós.

Esteve, J. M. (1999). Mudanças sociais e função docente. In: Nóvoa, A. (Org.). Profissão professor. 2. ed. Porto: Porto Ed.

Ferreira, A. B. H. (1999). Aurélio século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Folle, A., Farias, G.O., Boscatto, J.D., & Nascimento, J.V. (2009). Construção da carreira docente em Educação Física: escolhas, trajetórias e perspectivas. Porto Alegre: Movimento, 15 (1), 25-49.

Gauthier, C. (1998). Por uma teoria da Pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o saber docente. Ijuí, RS: UNIJUI.

Gil, A.C. (2008). Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas.

Huberman, M. (2000). O ciclo de vida profissional dos professores. In: Nóvoa, A. (org.). Vidas de professores. 2. ed. Porto: Porto.

Lapo, F.R, & Bueno, B.O. (2001). Evasão docente e abandono da profissão: um estudo com professores do magistério público do Estado de São Paulo. Educação em Debate, Fortaleza, 2 (42), 30-42. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/14609. Acesso em: 12 set.2018.

Lapo, F.R, & Bueno, B.O. (2002). O abandono do magistério: vínculos e rupturas com o trabalho docente. Psicologia USP, São Paulo, 13(2), 243-276. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642002000200014&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 18 set.2018.

Lapo, F.R, & Bueno, B.O. (2003). Professores, desencanto com a profissão e abandono do magistério. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, 118, 65-88. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/n118/16830.pdf. Acesso em: 02 out.2018.

Libâneo, J. C. (2007). Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez.

Nóvoa, A. (2001). O professor pesquisador e reflexivo. TVE Brasil – Salto para o futuro. Rio de Janeiro. Disponível em: https://tvescola.org.br/tve/salto-acervo/interview;jsessionid=360D0C55FBA58EB74BF2B4539E1932FA?idInterview=8283. Acesso em: 15 nov. 2018.

Rebolo, F. (2012). Do mal-estar docente ao abandono da profissão professor: a história de Estela. Série-Estudos, Campo Grande, 33, 143-163. Disponível em: file:///D:/Downloads/85-864-1-PB.pdf. Acesso em 14 out.2018.

Tardif, M. (2002). Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes.

Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito

Lilian Wagner – 60%

Janaína Pereira Pretto Carlesso – 40%

HMTL gerado a partir de XML JATS4R por