O conto africano a dona do fogo e da água e as suas dimensões estéticas: estudos, reflexões e experiências numa classe de alfabetização
The african tale the owner of fire and water and aesthetic dimensions: studies, reflections and experiences on a literacy class
La historia africana el dueño del fuego y del agua y la dimensión estética: estudios, reflexiones y experiencias sobre una clase de alfabetización
O conto africano a dona do fogo e da água e as suas dimensões estéticas: estudos, reflexões e experiências numa classe de alfabetização
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 7, pp. 01-12, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 11 Abril 2019
Revised: 29 Abril 2019
Aprovação: 03 Maio 2019
Publicado: 16 Maio 2019
Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar o conto africano A Dona do Fogo e da Água, uma obra literária do autor Celso Sisto (2012) e ilustrações de Rubem Filho, como elemento oriundo da cultura africana. A pesquisa realizada foi bibliográfica fundamentada nas dimensões estéticas que analisa os elementos ilustrativos e o texto narrativo, sob o aspecto étnico-cultural do Continente africano, utilizando-se das estratégias de leitura preconizadas por Celso Sisto (2012), Ana Aparecida Arguelho de Souza (2010) e José Auri Cunha (2005). A pesquisa participante foi desenvolvida com uma atividade interativa de mediação de leitura numa classe de alfabetização no município de Volta Redonda. Destacamos a importância da interação dialógica entre os sujeitos participantes perante a relevância cultural, predominantemente enraizada na origem da civilização brasileira, tal como, a tradição dos contos populares e a preservação da memória folclórica pelos contadores de história, transmitida de geração a outra, além de apresentar as belezas e riquezas do misticismo por meio de imagens ilustrativas, que por meio do imagético e da narrativa textual, tem a finalidade de expressar durante a prática dialógica, o pensamento reflexivo das dimensões estéticas do conto africano para compreender o contexto histórico e étnico-cultural africano e afro-brasileiro, valorizando-o como produtor de cultura.
Palavras-chave: Conto africano, Dimensões estéticas, Interação dialógica, Pensamento reflexivo.
Abstract: This article aims to present the african tale the power of fire and water, a literary work of the author Celso Sisto (2012) and illustrations of Reuben Son, as an element from the African culture. The bibliographic survey was based on aesthetic dimensions that analyzes the illustrative elements and the narrative text, under the ethnic-cultural aspect of the African Continent, using the reading strategies advocated by Ceslo Sisto (2012), Hannah Arguelho Aparecida de Souza (2010) and Jose Auri Cunha (2005). The research participant was developed with an interactive activity of mediation of reading in a literacy class in the municipality of Volta Redonda. We underline the importance of the dialogical interaction between the participants in the cultural relevance, predominantly rooted in the origin of brazilian civilization, such as the tradition of popular tales and the preservation of folk memory by the counters of history, passed down from generation the other, in addition to the beauties and riches of mysticism by means of illustrative images, which by means of imaging and textual narrative, has the purpose of expressing during the dialogical practice, reflective thinking of aesthetic dimensions of african tale to understand the historical context and ethnic-cultural african and afro-brazilian, recognizing it as a producer of culture.
Keywords: African tale, Aesthetic dimensions, Dialogical interaction, Reflective thinking.
Resumen: Este artículo tiene como objetivo presentar el cuento africano el propietario de água y fuego, uma obra literária del autor Celso Sisto (2012) e ilustraciones de Rubén Hijo, como elemento de la cultura africana. La revisión bibliográfica se basó em la dimensión estética que analiza los elementos ilustrativos y el texto narrativo, bajo el aspecto étnico-culturales del continente africano, utilizando las estrategias de lectura propugnadas por Celso Sisto (2012), Hannah Arguelho Aparecida de Souza (2010) y José Irsa Cunha (2005). El participante em la investigación fue desarrollada com una actividad interactiva de la mediación de la lectura em una clase de alfabetización em el município de Volta Redonda. Subrayamos la importância de la interacción dialógica entre los participantes em la importância cultural, predominantemente enraizado em la origen de la civilización brasileña, como la tradición de cuentos populares y la preservación de la memória popular por los contadores de historia, transmitida de generación los otros, además de la bellezas y riquezas de la mística por medio de imágenes ilustrativas que, por medio de imágenes y narración textual, tiene el propósito de expresar durante la práctica dialogante pensamiento reflexivo de la dimensión estética de cuento africano para comprender el contexto histórico y étnico-cultural africana y afro-brasileña, reconociendo que era un productor de cultura.
Palabras clave: Cuento africano, Dimensiones estéticas, Dialogante la interacción, Reflexión.
1. Introdução
Este artigo visa relatar uma experiência em sala de aula do 2° ano do Ensino Fundamental, durante o Programa Mais Alfabetização[1] com a utilização da obra literária denominada A Dona do Fogo e da Água, pertencente ao autor Celso Sisto (2012), com a participação do ilustrador e artista gráfico Rubem Filho.
Entendemos que a experiência literária em sala de aula, conduz a prática do pensamento reflexivo por meio das dimensões estéticas do conto africano, de maneira que, possa despertar a imaginação e a emoção ao lidar com o diferente, ou seja, a diferença étnica, histórica e cultural de uma sociedade enraizada em nossas origens brasileiras, que permanecem até os dias de hoje, pela influência musical, gastronômica, artesanal e principalmente, histórico-literária por onde, vivencia-se a aprendizagem de mundo, tornando-se consciente de si e da realidade social.
O livro literário na alfabetização tem como fundamento propiciar o diálogo entre o professor e os alunos, tornando-se sujeitos participativos pela prática do pensamento reflexivo, onde o professor atua como mediador das atividades dialógicas, incentivando os alunos em sua autonomia de exercer a própria voz para expressar o que sentem e pensam.
O que é necessário para despertar o pensamento crítico e criativo dos alunos por meio da literatura em sala de aula? Diante desse questionamento, o estudo do livro A Dona do Fogo e da Água tem o propósito de realizar uma breve análise sobre as dimensões estéticas da obra literária, pautada na alegoria africana para oportunizar ações de identificar diferentes tradições, cultura e linguagem pertencente à história sócio-cultural de uma sociedade, no qual caracteriza a subjetividade do educando.
Sendo assim, dividimos o artigo em três partes. Na primeira trataremos sobre o estudo do livro A Dona do Fogo e da Água, por onde serão apresentadas as dimensões estéticas como recursos que promovem o imaginário e o diálogo reflexivo entre os sujeitos participantes em uma mediação literária. Para potencializar a importância do docente agente da leitura utilizo o fundamento teórico do autor Celso Sisto (2012), junto com a obra da autora Ana Aparecida Arguelho de Souza (2010), que nesse espaço perpassa os elementos estéticos da trama narrativa e para consolidar a interação dialógica por meio do pensamento crítico e criativo venho acrescentar a obra de José Auri Cunha (2005).
Na segunda parte apresentaremos a metodologia do trabalho e as ações desenvolvidas com os alunos do 2° ano do Ensino Fundamental, bem como os resultados e as conclusões obtidas.
2. Breve estudo sobre o livro A Dona do Fogo e da Água e suas dimensões estéticas
O conto é inspirado na alegoria “Sapatá”, que movido a ganância pelo governo do universo se esquece de trazer a água para a Terra, originária da cultura africana. Essa alegoria foi retirada da obra Mitologia dos orixás[2], onde Sapatá é uma divindade africana originária do Daomé, atual Benin, país do continente africano e também é conhecido por Obaluaê em sua forma jovem ou Omulu, na mais velha. Portanto, a obra literária apresenta alguns elementos essenciais à vida, como por exemplo, água, fogo, terra e ar, o que retrata a forte ligação dos deuses afro-brasileiros com as forças da natureza (SISTO, 2012).
A dimensão estética da obra literária possui características marcantes que revelam as riquezas da cultura africana por meio de imagens e cores traduzidas nos personagens e cenários que mostram a relação de poder entre os deuses e a natureza. Neste sentido, a valorização imagética, proporciona a emoção de sermos atingidos pelo encantamento do embelezamento da ilustração literária. Além disso, o autor traz em sua obra a arte de contar história pelo personagem da literatura, onde a construção da narrativa textual utiliza-se de palavras de origem africana e a linguagem articulada com a voz do contador de histórias, apresenta o conjunto de ritmos e sonoridades transmitidas pelas onomatopéias, sendo um dos atributos do contador de histórias, no qual se apresentam como elementos estéticos que perpassa o conhecimento e tradição cultural elencados na sabedoria dos antigos povos de um determinado continente.
A obra literária conta a história de dois irmãos filhos do rei do universo, em que um deles resolve pedir sua parte da riqueza ao rei para viver na Terra. Devido a sua ganância pelo poder de governar, Sapatá se esquece de trazer a água para Terra e no decorrer do tempo, homens, mulheres, crianças, animais e plantas começaram a morrer por falta de água. Dentro desse contexto, o autor utiliza-se de narrativas que nos levam à reflexão e indagação sobre o que é essencial à vida, que porventura, a alegoria trata de um desentendimento entre irmãos em disputa pela sucessão do governo do mundo. Sapatá torna-se um rei indesejável, e Sobô[3], que tinha consigo o fogo e a água, torna-se legitimamente líder do Universo, diante desta circunstância, as dimensões estéticas da literatura podem suscitar questionamentos sobre a relação entre pensamento e o mundo, e como compartilhamos razões e critérios para aceitar crenças e regras, no qual, fundamenta o pensamento crítico (CUNHA, 2005).
Em vista disso, venho relatar momentos de interação com a classe de alfabetização, por onde, realizei a mediação da leitura literária do livro A Dona do Fogo e da Água, do autor Celso Sisto (2012) pelo motivo de propiciar o diálogo entre os participantes, sendo capazes de argumentar sobre suas emoções e reflexões da obra apresentada.
3. Metodologia
A metodologia desta pesquisa ocorre por meio de ações e observações interativas, denominada por pesquisa participativa durante a mediação de uma obra literária e para fundamentar as ações realizadas em sala de aula, utilizamos a pesquisa bibliográfica, que é aquela que se utiliza de materiais já elaborados como livros, artigos, resenha e entre outros (GIL, 2002). Sendo assim, as interações que envolvem a ação-reflexão entre docente e discente em uma classe de alfabetização, consiste na prática de estimular no educando a curiosidade pela busca do saber. Dessa forma, os registros da pesquisa são elementos importantes para refletirmos sobre o exercício da literatura em sala de aula, que é caracterizada pela interação entre os membros da situação investigada (GIL, 2002).
Os relatos do estudo são elementos importantes para refletirmos sobre o exercício da literatura em sala de aula, no que convêm enfatizar, que as dimensões estéticas são um conjunto de elementos harmônicos conectados em uma obra literária. Visto que:
[...] para que a narrativa atinja a sensibilidade do leitor, altere seus horizontes de expectativas e sedimente valores formativos. (SOUZA, 2010, p. 59).
Neste sentido, ao mediar o livro, aproveitei o momento para organizar a turma em uma roda do pensamento, de maneira a fazer com que os alunos saíssem de suas rotinas, e transformassem esse momento, em um ambiente propício para a interação visual, ou seja, a expressão das emoções ao dialogar sobre a literatura, ou até mesmo, associar a consciência de si com a obra apresentada, se revela por meio do olhar, logo, os alunos e a mediadora da obra literária tornam-se sujeitos participantes, não apenas de um momento da leitura, mas de um acontecimento do despertar do pensamento crítico e criativo pela literatura.
Assim, demos início a nossa roda do pensamento, por onde apresentei a obra, A Dona do Fogo e da Água e por meio do título, expliquei que o livro trata-se de um conto sobre príncipe e princesa africanos, a partir disso, aproveitei para apresentar os elementos estéticos da capa que engloba o título, o autor da obra, o ilustrador e a ilustração da personagem. Neste momento, percebi a surpresa no rosto dos alunos, pois estão acostumados a ler livros de personagens encantados de cor da pele branca, em que moram em seus suntuosos castelos, como príncipes e princesas ou personagens antropomórficos, com características humanas a animais, plantas e objetos. A personagem da capa do livro A Dona do Fogo e da Água é uma princesa africana, ou seja, a composição estética por meio da imagem fez com que atingisse a sensibilidade dos alunos e estimulasse a expectativa pelo diferente. Portanto, a ilustração da capa do livro é um dos componentes estéticos, no qual surtiu como elemento surpresa para o inicio do texto narrativo.
Ao mediar à história, constatei que algumas palavras chamaram atenção dos alunos, cujos nomes dos personagens, Chainan e Azinza, provenientes da linguagem africana, contribuíram no despertar da curiosidade, no sentido que, ao pronunciar os nomes a sonoridade repercutiu de modo desconhecido em relação aos nomes fictícios de personagens famosos, nos quais os alunos estão acostumados a ler e a ouvir e que também fazem parte da leitura em sala de aula.
Estava faltando luz. Já fazia tempo. Depois de esperar um pouco e saber que ainda podia demorar para a energia voltar, Chainan e Azinza foram para a rua. Sentaram na calçada, no meio-fio, e ficaram olhando o céu. Como a escuridão convidava a falar o que viesse à cabeça, começaram: __ Angu, batucada, cachimbo e dendê – disse o menino Chainan, que era o mais velho.__ [4]Exu, fubá,[5]guandu e... com “h” eu não sei! – disse Azinza, que era mais nova. – Eu sei! Humulucu! (A Dona do Fogo e da Água. SISTO, 2012, p.2)
Sendo a linguística como um dos componentes estéticos da obra literária, a palavra Humulucu que é o prato típico da culinária africana, foi motivo de risada entre os alunos. Sendo que ao narrar esta palavra, a turma achou graça e todos repetiam o nome como se estivessem se divertindo com o novo vocábulo que aprenderam durante a leitura, logo, a curiosidade veio à tona, no intuito de saber o que é Humulucu, sendo assim, mostrei a imagem de uma das páginas do livro, onde estava registrada a ilustração do prato de origem africana, explicando que, o prato é feito com feijão fradinho, azeite de dendê, camarão, cebola e sal (SISTO, 2012). Uma aluna lembrou que o prato é semelhante ao da feijoada.
Em sequência, surgiu outro personagem da história, chamado Jeguedé, que era um velho, com fama de inventar histórias encantadas junto com seu tambor, que a cada batida chamava a atenção de Chainan e Azinza. Nesse momento da história, no qual foi introduzida a batida do tambor, fiz com que os alunos participassem entoando a batida com o som da voz, “toom, toom”. Uma das abordagens que o autor Celso Sisto (2012) traz ao longo da obra literária, é a importância do contador de histórias que explora o imaginário e desperta emoções pelo resgate da sabedoria antiga.
O texto transforma as palavras em som e ritmo na voz do narrador por meio das onomatopéias, cedendo espaço ao pensamento mágico com seu poder de evocar imagens (SISTO, 2012). O personagem Jeguedé que tinha fama de inventar histórias encantadas reflete a tradição de uma sociedade que ensina e transmite valores para nova geração e ao contar a história, o velho Jeguedé utiliza-se do desempenho oral, além dos artifícios musicais para exprimir sentimentos em busca de desencadear pensamentos criativos, que envolvem o lúdico. A batida do tambor se mostrou como uma maneira de fazer com que os alunos participassem juntos à narrativa do texto, sendo que, a turma entoava suas vozes para dar vida ao instrumento musical do personagem, assim, vivenciando a fantasia da história narrada e por isso, a função do personagem percorre a dimensão estética da obra literária.
Nisto, continuei com a história, em que Jeguedé pede para que as crianças olhem para a direção, para o fim da rua, enquanto ele falava:
[...] [6]Orocongo está chamando, [7]xaxará está soando, [8]atotô eu vou dizendo [...] (A dona do fogo e da água. SISTO, 2012, p.8)
Enquanto mediava o texto, os alunos estranharam a sonoridade e mesmo explicando de maneira acessível para que pudessem compreender, a excentricidade das palavras permanecia em suas faces, ocasionando a incompreensão por ser de uma linguagem cultural diferente. Porém, o uso dos vocábulos africanos como um dos elementos estéticos do texto narrativo, não desempenhou uma relação de familiaridade e assimilação entre os alunos. Sendo assim, esta operação do “não fazer sentido” por meio das palavras foi diagnosticado durante o diálogo reflexivo sobre a obra literária.
Ao passar das páginas, a narrativa apresenta o conto dos dois irmãos, Sapatá e Sobô, filhos do rei do universo e no decorrer da história, Sapatá pede perdão a sua irmã em forma de oferenda.
[...] Mandei folhas de bambu. Mandei bolinhos de feijão. Mandei batata-doce, maçãs e cerejas. Mandei rosa vermelha, leque, espelho, conchas polidas, chifres dourados. (A dona do fogo e da água. SISTO, 2012, p.20)
Logo, mostro a imagem da princesa Sobô entre as nuvens, com toda sua imponência, trajada com um vestido verde e adornada com pulseiras e braceletes de ouro, recebendo o perdão de seu irmão por meio de uma ave africana, com pena de cor vermelha, denominada alukó, que significa sinal de boa sorte e riqueza. No entanto, o que chamou a atenção dos alunos ao apresentar a imagem, além dos elementos que compõem a cena, foi o cabelo esvoaçante da princesa.
Com o perdão da irmã, Sapatá resolveu deixar para Sobô todo o governo do universo. Para ela, que era dona do fogo e da água (SISTO, 2012). Neste momento, mostro a imagem de Sobô com todo o seu poder diante dos elementos da natureza, sendo que, a princesa estende as mãos ao universo, enviando o fogo e a água em forma de tempestade para Terra.
O mundo do maravilhoso expande a estrutura do texto literário, que vai além das palavras, por onde é capaz de transcender o real por meio dos componentes mágicos (SOUZA, 2010). O conto revela o misticismo e a ligação forte dos deuses com os elementos da natureza que são caracterizados pelas ilustrações, refletidos pelo contraste de cores, complementando as dimensões estéticas da obra literária, logo, a imagem se transforma em segunda linguagem paralela ao texto, de forma, a propiciar o diálogo em conexão com o imaginário. O artista gráfico traduz a magnitude do rei, príncipe e princesa pelos trajes, pelos gestos e fisionomia dos personagens e o elo de poder com a natureza.
Então, os personagens ganham vida no mundo imaginário dos que experimentam a história, despertando o desejo de ser como uma princesa ou um príncipe, ou até mesmo, de estimular a curiosidade pelo novo, de querer aprofundar o conhecimento por outras culturas e etnias, ou seja, aprender a fazer e saborear novas gastronomias, aprender outros idiomas e seus significados, aprender novos ritmos musicais e quais instrumentos realizam tais sonoridades, enfim aprender a dialogar sobre o diferente. Portanto, o reconhecimento pelo novo gerou nos alunos o conceito sobre o diferente, sendo que, a dimensão estética e histórica construída na obra literária de Celso Sisto (2012) permitiu uma nova aprendizagem sobre o conhecimento cultural. Assim, a literatura propiciou temas geradores sobre a percepção das diferenças étnicas e culturais.
4. Resultados
Nesse processo de interação entre educador e educandos por meio da obra literária, a aprendizagem consiste ser verdadeira, no sentido de estimular o pensamento crítico e criativo, para que os alunos possam se transformar em reais sujeitos da construção e reconstrução do conhecimento. Assim faz perceber a importância do papel do docente de não apenas ensinar o conteúdo, mas também à ensinar a pensar criticamente.
O conto africano A Dona do Fogo e da Água perpassa a cultura e a valorização da identidade étnica por onde é representada pelas cores, pratos e sabores, histórias e misticismos e a tradição de passar de geração em geração o saber preservado na memória dos antigos contadores de histórias que exprimem por meio do olhar, do gesto e da voz os acontecimentos vividos pelos personagens de um determinado tempo, época ou sociedade, contidos no conto, na fábula e em qualquer gênero literário. Desta forma, a construção do conhecimento literário e a dimensão estética, busca estimular a criatividade, a descoberta e a reflexão com o propósito de enriquecer e ampliar os horizontes a cada nova leitura (SOUZA, 2010).
A literatura apresenta-se como caminho por onde se encontram histórias, personagens, significados, emoções, razões, dúvidas e questionamentos até chegar à reflexão e durante esse percurso, o educador transforma-se em mediador da leitura que por meio do diálogo reflexivo venha conduzir os alunos ao despertar do pensamento crítico e criativo.
Diante desse panorama, a prática pedagógica sobre a obra literária fez elucidar a curiosidade pelo novo, tendo como princípio, a manifestação do interesse à cultura africana por meio de perguntas feitas pelos alunos. Esses questionamentos são importantes para a interação do diálogo reflexivo, em que consiste na construção do conhecimento, no qual, a mediadora serve como “ponte” de acesso para os alunos entre o desconhecido até a descoberta do saber. Mesmo, que no decorrer desse caminho, apareçam obstáculos, que é o caso, da incompreensão dos alunos pela diferença cultural, as dúvidas geradas durante a conversação podem ser transformadas em ações pedagógicas para que se atinja a re-construção de ensino e aprendizagem significativos.
5. Conclusão
A dimensão da obra como linguagem estética confere o sentido de como é organizada a trama literária e convêm ao docente explorar os elementos estéticos, não somente as palavras, mas a extensão da obra literária, para que a narrativa atinja a sensibilidade dos discentes durante a mediação do livro (SOUZA, 2010). O trabalho realizado com o livro A Dona do Fogo e da Água em uma classe de alfabetização vem articular os fundamentos das ações pedagógicas durante a mediação literária. Essas ações proporcionam a busca pelo saber de diferentes culturas por meio das dimensões estéticas da literatura, no intuito de estimular o imaginário e o pensamento crítico para que possa promover o diálogo reflexivo entre os sujeitos participantes.
O relato de uma experiência literária traz a concepção do que é necessário para despertar o pensamento crítico e criativo dos alunos por meio da literatura e dentro desse contexto, as ilustrações gráficas, a narrativa, o conto e as palavras africanas do texto são elementos que compõem a estética do livro, no qual, contribuíram para essência do diálogo reflexivo. Porém, mesmo com a divergência de algumas palavras em que não houve assimilação por não conhecer e não possuir a vivência dos costumes culturais africanos, os alunos puderam expressar suas dúvidas e estimular a curiosidade pelo novo conhecimento, em que, é preciso saber os limites entre o que faz e o que não faz sentido dentro do campo de significações criado pela conversação (CUNHA, 2005).
Portanto, o diálogo reflexivo por meio da obra literária tem a função de permitir a acomodação de novas aprendizagens e principalmente, expandir a percepção docente para as ações pedagógicas, no que concerne dispor de criatividade no decorrer da prática literária, recorrendo à apresentação de apetrechos culturais, utilizando-se de mapas para mostrar a localização de um determinado País e/ou Continente e entre outros. Assim, podemos perceber que a diversidade cultural representada pelas obras literárias fornece caminhos de valorização histórico-social da realidade étnica e que se faz necessária a expansão para o ensino-aprendizagem em todos os níveis educacionais.
Referências
CUNHA, José Auri. Filosofia na educação infantil: fundamentos, métodos e propostas. 2. ed. Campinas, São Paulo: Alínea, 2005. 129 p. ISBN 85-7516-033-8.
LIMA, Valeria da Silva. Contação de histórias no imaginário social: as múltiplas possibilidades e utilizações das narrativas africanas nos primeiros anos do ensino fundamental. 2014. Monografia (Pós-graduação Lato Sensu em educação)- Instituto de Educação, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2014.
SISTO, Celso. A dona do fogo e da água. Organização de Branca Jurema Ponce; ilustrações de Rubem Filho. São Paulo: Mundo Mirim, 2012. 32 p. ISBN 978-85-617-3084-0.
SISTO, Celso. O conto popular africano: a oralidade que atravessa o tempo, atravessa o mundo, atravessa o homem. Tabuleiro de Letras. Revista de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens. Número especial. ISSN: 2176-5782. Disponível em: http://www.tabuleirodeletras.uneb.br/secun/numero_especial/pdf/artigo_nespecial_01.ppd. Acesso em: 20 de jan. 2019.
SISTO, Celso. Textos & pretextos sobre a arte de contar histórias. 3. ed. Belo Horizonte: Aletria, 2012. 216 p. ISBN 978-85-61167-51-6.
SOUZA, Ana Aparecida Arguelho. Literatura infantil na escola: a leitura em sala de aula. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2010. 128 p. Coleção formação de professores. Apoio: OMEP/BR/MS. ISBN 978-85-7496-242-9.
Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Ana Carolina de Almeida Alves – 60%
Valéria da Silva Lima – 40%
Notas