A pesquisa acontecimento: diferença e aprendizagem
The happening research: difference and learning
La investigación del evento: diferencia y aprendizaje
A pesquisa acontecimento: diferença e aprendizagem
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 7, pp. 01-15, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 29 Abril 2019
Revised: 17 Maio 2019
Aprovação: 23 Maio 2019
Publicado: 29 Maio 2019
Resumo: O presente estudo teórico busca compreender a prática de pesquisa por meio do conceito de acontecimento proposto pela Filosofia da Diferença de Gilles Deleuze, com o intuito de refletir sobre as possíveis contribuições que este conceito pode trazer às maneiras contemporâneas de pesquisar. Indica-se, da teoria das Filosofias da Diferença, uma ênfase no conceito de diferença e a sua relação com uma forma de pesquisa que saliente o processo de aprendizagem que acontece no pesquisar. Trata-se de uma forma de pesquisa que não focaliza simplesmente os resultados e os objetivos finais, mas que dá sentido e valoriza o que de fato acontece durante o próprio processo de pesquisar. Através do conceito de acontecimento, pode-se realçar a aprendizagem e as infinitas construções e criações que acontecem durante a pesquisa – o aprendizado é o que ganha sentido e valor nesse modo de pesquisar.
Palavras-chave: Aprender, Movimento, Construção.
Abstract: The present theoretical study seeks to understand the practice of research through the concept of the event proposed by the Philosophy of Difference of Gilles Deleuze, with the intention of reflecting on the possible contributions that this concept can bring to the contemporary ways of researching. It is indicated, from the theory of Philosophies of Difference, an emphasis on the concept of difference and its relationship with a form of research that emphasizes the learning process that happens in the research. It is a form of research that does not simply focus on results and final objectives, but which gives meaning and value to what actually happens during the research process itself. Through the concept of event, one can highlight learning and the infinite constructions and creations that take place during research - learning is what makes sense and value in this way of researching.
Keywords: Learn, Movement, Construction.
Resumen: El presente estudio teórico busca comprender la práctica de investigación por medio del concepto de acontecimiento propuesto por la Filosofía de la Diferencia de Gilles Deleuze, con el propósito de reflexionar sobre las posibles contribuciones que este concepto puede traer a las maneras contemporáneas de investigar. Se indica, de la teoría de las Filosofías de la Diferencia, un énfasis en el concepto de diferencia y su relación con una forma de investigación que resalta el proceso de aprendizaje que ocurre en la investigación. Se trata de una forma de investigación que no focaliza simplemente los resultados y los objetivos finales, sino que da sentido y valoriza lo que de hecho ocurre durante el propio proceso de investigación. A través del concepto de acontecimiento, se puede realzar el aprendizaje y las infinitas construcciones y creaciones que ocurren durante la investigación - el aprendizaje es lo que gana sentido y valor en ese modo de investigar.
Palabras clave: Aprender, Movimiento, Construcción.
1. Introdução
O presente estudo teórico busca compreender a prática de pesquisa por meio do conceito de acontecimento proposto pela Filosofia da Diferença de Gilles Deleuze, com o intuito de refletir sobre as possíveis contribuições que este conceito pode trazer às maneiras contemporâneas de pesquisar.
Trata-se, primeiramente, de entender que a Filosofia da Diferença de Deleuze propõe um modo de pensar embasado em conceitos que salientam o divergente, o pensamento que não se restringe à racionalização e à representação. Há, a partir dessa teoria, uma concepção singular sobre as formas de pensar, que trata os seres como repletos de multiplicidades, diferenças, pluralidades, infinitas construções, acontecimentos.
Por esse viés, portanto, entende-se os seres como constituídos por diferenças, por divergências, por acontecimentos. Acontecimento é um conceito importante no escopo da filosofia deleuzeana, por expressar a diferença, entendida como multiplicidade divergente. Nesta direção, o acontecimento se coloca como um processo de diferenciação e, por isso mesmo, como um processo de criação. E, neste sentido, coloca-se a necessidade de pensar que a pesquisa pode ser um dos lugares onde essas multiplicidades, essas desordens, essas inúmeras diferenciações podem ganhar corpo, podem se expressar, falar, podem ser, acontecer. A pesquisa é então vista como movimento, como um caminhar, um traçar de uma passagem em que se está atento a tudo, a tudo que pode aparecer em meio a essa trajetória, as surpresas, aos desafios, aos encontros que podem ser produzidos.
O estudo, com a Filosofia da Diferença em Deleuze, se torna uma prática de criação, ao invés de uma tentativa de encontrar aquilo que já existe ou que já se espera encontrar. Pesquisar, com Deleuze, se torna uma produção de diferenças. Por isso, pesquisar para a Filosofia da Diferença, é diferente das formas tradicionais de pesquisar às quais muitas vezes estamos submetidos, voltadas para os resultados, para o cumprimento de um protocolo único de pesquisa, voltadas para encontrar aquilo que já imaginávamos desde o início, sem que nada possa ser aprendido no ínterim do processo de construção da pesquisa. Pensa-se, portanto, em uma pesquisa que considere fundamental a importância do próprio exercício de pesquisar, como o exercício de aprender que se desprende em meio a esse processo.
2. Metodologia
Este estudo caracteriza-se por ser uma pesquisa bibliográfica exploratória com o intuito de repensar e problematizar as noções e formas de pesquisar tradicionais. Propõe-se neste estudo relacionar o conceito de acontecimento a partir da teoria das Filosofias da Diferença com o intuito de ampliar as concepções acerca dos modos de pesquisar. A pesquisa trata-se de uma revisão bibliográfica, cujos dados para análise serão materiais já elaborados como por exemplo, livros e artigos científicos, permitindo ao pesquisador um conhecimento mais amplo e completo acerca dos fenômenos da temática escolhida (Gil, 2008).
Além disso, este estudo por tratar-se de uma pesquisa de caráter exploratório, tem a finalidade de tentar compreender, desenvolver e esclarecer alguns conceitos que foram estabelecidos. Tratando-se de uma pesquisa de caráter exploratório, a mesma disserta sobre uma temática que é pouco discutida e salientada e que, objetiva-se, se torne mais elucidado (Gil, 2008).
O estudo possui um embasamento teórico em autores da Teoria das Filosofias da Diferença, pelo campo do movimento Pós-Estruturalista. Por este motivo, a pesquisa é pautada principalmente no autor Gilles Deleuze, trazendo as noções sobre os conceitos de diferença e acontecimento para propor um pensamento que apresente problematizações e questionamentos sobre a forma de pesquisar tradicionais. Trazemos autores como Tadeu, Corazza e Zordan (2004), Dias (1995) e Brito (2015, 2016) para pensar esses conceitos interligados na pesquisa, dando foco para uma pesquisa que é fomentada pelo acontecimento e pela diferença, e que nesse sentido é um estudo em movimento, transformação, infinito e constante construíres e devires.
3. Fundamentação Teórica
3.1 Situando as linhas da diferença e o acontecimento
A diferença foi um dos conceitos que inaugurou o movimento pós-estruturalista, assim como solidificou a teoria das Filosofias da Diferença. Para Peters (2000), o pós-estruturalismo pode ser entendido como um modo de pensar, ou filosofar, ou até mesmo como uma forma de escrita que se direciona para a ideia de singularidade. Mas mais do que isso, o pós-estruturalismo refere-se a um movimento do pensamento, que se correlaciona com diferentes formas e correntes de pensar.
Assim, uma das linhas que congrega essas formas de pensar e que caracteriza o movimento do pós-estruturalismo é o conceito de diferença. Nietzsche, Saussure, Heidegger e Gilles Deleuze são alguns dos filósofos que se debruçaram sobre o pensamento da diferença, situando-a como um importante conceito de suas filosofias. E, neste contexto, Deleuze tratou de pensar sobre a diferença como um conceito chave para um pensamento radical que buscava as condições para a criação de novas formas de existências e de pensamentos (Peters, 2000).
O conceito de diferença para Deleuze (2003) não é algo que possamos ver ou que seja palpável, mas está relacionado com uma expressão do ser. Nesse sentido, para Deleuze (1988), a diferença não pode se restringir ao seu conceito em geral, como um efeito do diferente, a diferença, para ele, é aquilo que emerge a partir de um acontecimento, de algo que invade e convoca o corpo, ela é o acontecimento maior do ser. A diferença é o que não possui representação, o que não possui comparação, é o inédito, o exclusivo. Daí a importância de pensarmos sobre a diferença como uma potência criadora, como uma potência de invenção do próprio exercício do pensamento (Schöpke, 2004).
Peters (2000) coloca que, com Deleuze e o movimento pós-estruturalista, houve um rompimento epistemológico, uma quebra no modelo até então estruturado sobre as configurações do pensamento que se restringia a ser pensado como representação. Assim, a partir do pós-estruturalismo, o que surge é a produção de pensamentos que não negam as diferenças ou aquilo que foge dos padrões da representação, muito ao contrário, é a partir disso que o movimento do pensamento passa a ser caracterizado, o pensar como um ir além das representações, um pensar que se constrói fora dos modelos fixadores.
O pós-estruturalismo refere-se então a um novo movimento do pensamento, sendo que uma das grandes críticas colocadas por esse movimento, portanto, é em relação a noção de conhecimento como uma representação da realidade, ou seja, a realidade não é simplesmente uma representação, mas um lugar onde se criam potencialidades para surgir o novo, o inédito, e não só a representação do que já existe (Brito, 2015).
A representação deixa escapar o mundo afirmado da diferença. A representação tem apenas um centro, uma perspectiva única e fugidia e, portanto, uma falsa profundidade; ela mediatiza tudo, mas não mobiliza nem move nada (Deleuze, 1988, p. 93).
Os modos de pensar que surgiram com o movimento pós-estruturalista são baseados em um movimento que salienta a potencialidade do pensamento, a sua complexidade, as possíveis variações e transformações do conhecimento. Ou seja, é uma forma de compreender o pensar que rompe com um pensamento organizado, prévio e meramente representativo. Trata-se de um movimento que reconhece a importância da transformação, da mudança, que reconhece que o pensar é, sem dúvida alguma, uma potência de criação e de diferir.
É a partir desse movimento que o pensamento passa a ser olhado de um outro modo, percebendo-se que, se o mesmo for visto simplesmente como representativo, pode acabar limitando e enquadrando o próprio exercício do pensar e, portanto, eliminando e perdendo completamente as diferenças. Deleuze (2002) mostra que um modelo de pensamento que valoriza apenas a representação acaba generalizando e universalizando o saber e o pensar, ou seja, emoldura o conhecimento como algo único e elimina toda uma construção singular que pode ser criada a partir de composições de diferenças. A representação, neste caso, eliminaria então a possibilidade de construção, de criação, de inovação do pensamento, bem como as inúmeras potências que o processo do conhecimento pode fazer pensar. Por este motivo que o pensar não pode ser identificado como sinônimo de representar ou reconhecer. Segundo Brito (2015), o pensamento e o conhecimento devem ser enaltecidos de diferenças, de outros e inúmeras formas de pensar, completamente cheios de multiplicidades.
Assim, a diferença se coloca, nas considerações filosóficas de Deleuze (1988), como um conjunto de singularidades que dá a ver o próprio acontecimento. Diferença como um movimento de diferir, de colocar em suspenso tudo o que já existe, sendo entendido como uma condição primordial para os processos de significações (Peters, 2000).
Deste modo, o acontecimento pode ser definido como uma eclosão de diferenças. Deleuze (2003) define o acontecimento puro como aquele que se estabelece através de linhas de diferenciações que atualizam um movimento infinito de singularidades. Acontecimento é, com isso, uma novidade totalmente singular, e singular entendido como aquilo que não guarda relação de semelhança com nenhuma outra coisa já conhecida, mas como algo único, inédito, totalmente singular.
[...] se a diferença tende a repartir-se no diverso, de maneira a desaparecer e a uniformizar este diverso que ela cria, ela deve, primeiramente, ser sentida como aquilo que leva o diverso a ser sentido. E deve ser pensada como aquilo que cria o diverso (Deleuze; Guattari, 2010, p. 213).
Deste modo, a diferença é aquilo que se pode pensar como o múltiplo, como multiplicidade. Surge de um acontecimento-criação, e não se relaciona com nada que já foi visto ou que já existe. Diferença enquanto aquilo que salienta a intensidade, os acasos dos acontecimentos, é por isso que a diferença não possui representação (Deleuze, 1988), porque ela é intensidade de devires, sempre novidade. Por este motivo também ela está diretamente relacionada com os afetos, uma vez que o campo dos afetos não pode ser representado, medido, tampouco comparado.
O campo afetivo conta assim com processos que não cessam de diferir, de transmutar, de se ressignificar, sempre com algum elemento novo, e esse é o diferencial e o mais bonito desse modo de pensar o conhecimento e o pensamento. Somos movidos por afetos, por diferenças, não só por saberes, e é isso que nos faz únicos – e assim também acontece com o pesquisar movido por essa teoria, como veremos adiante.
Nesse sentido, o conceito de acontecimento não remete a algo referente a um acidental positivo ou negativo das coisas, acontecimentos não são estados de coisas, nem fatos, nem ações, acontecimento é aquilo que se passa. E o que se passa é uma expressão em ato dos acontecimentos. Deleuze trata o acontecimento enquanto virtual, como a parte virtual da realidade. Deste modo, com o conceito de virtual, Deleuze (2003) considera que ao acontecimento não falta nenhuma realidade, ele é pleno de realidade. Ao acontecimento não caberia, portanto, a necessidade de uma realização, ao invés disso, a parte virtual da realidade poderia se tornar atualidade, ou seja, ao virtual poder-se-ia esperar apenas um processo de atualização.
Importante sublinhar que estes conceitos querem destacar que as linhas de diferenciação que compõem um acontecimento são reais, estão já aí. Cabe a elas atualizarem-se e, neste processo, as diferenças se atualizam sempre na forma de uma criação singular. Por este motivo, toda atualização de diferenças significa também a criação de novas vidas, de novas maneiras de ser no mundo, de novos modos de olhar uma questão em pesquisa, por exemplo. Atualizar diferenças que eram virtuais remete sempre, portanto, a novidades. Não se permanece o mesmo após a atualização de diferenças virtuais.
Os acontecimentos podem ser pensados não como acidentes, mas como modificações incorporais, incorporais no sentido de que não se referem somente a qualidades, ações, paixões, mas são os resultados dessas paixões, dessas ações, efeitos que resultam em todas as causas que agem uma sob as outras (Deleuze, 2003). São acontecimentos ou efeitos incorporais impassíveis, infinitivos, tanto que Deleuze (2002) se refere aos acontecimentos como verbos no infinitivo, porque há neles algo que não pertence a ninguém, que é de todos, um devir em si. O acontecimento tem um lado voltado para as coisas e um outro que é direcionado à linguagem e a dificuldade de pensar sobre o acontecimento, afinal, o próprio pensamento se torna um acontecimento (Dias, 1995).
Dias (1995) acrescenta que o acontecimento é pura virtualidade, devir, movimento, ele não existe sem pensarmos a linguagem e a sua corporeidade. É um insistente, não é existente e nem inexistente, é um quase, um entre, não é o possível assim como tampouco é o impossível. O acontecimento se relaciona ao mesmo tempo com os corpos e com a linguagem, por isso pensar que o sentido é um acontecimento que se refere a linguagem. Os acontecimentos são devires, podem ser modestos e microscópicos, silenciosos e imperceptíveis. Eles nos acontecem e forçam sempre a um devir-outro, tirando a identidade do ser, enaltecendo a multiplicidade que há em cada ser, tornando-nos irreconhecíveis a nós mesmos, por isso que o acontecimento pode ser pensado como uma violência, como aquilo que pode nos modificar, transformar, sem nenhum aviso prévio.
3.2 Pesquisar como Acontecimento: rizomar, encontrar
A forma de pesquisar, nas diversas áreas e territórios do conhecimento atuais, muitas vezes, se resume a organizar tabelas, gráficos, estatísticas, coleta e categorização de dados. Há formas de pesquisar onde o pesquisador só se preocupa com os resultados, com o objetivo final da pesquisa. Há formas de pesquisar onde se lançam hipóteses as quais tornam o processo de pesquisa um caminho único para comprová-las. No entanto, um dos efeitos dessas maneiras de pesquisar é que elas podem acabar direcionando a trajetória inteira da pesquisa para um determinado formato ou modelo, a partir de onde se perdem as inúmeras possibilidades, informações, conhecimentos que poderiam ter sido criados, inventados, reconhecidos, durante o percurso de um trabalho mais atento ao próprio andamento.
Assim, a pesquisa onde o foco está somente nos resultados se torna um tanto quanto restrita, escassa em potencialidades, em conhecimentos que poderiam ser produzidos no decorrer do percurso, em aprendizados e novas significações que poderiam ser produzidas durante o percurso do pesquisar. É esse o motivo que faz com que uma pesquisa norteada pelas bases teóricas do conceito de acontecimento pode propor uma ampliação de conhecimentos, de conceitos, de aprendizagens que são pensadas através da multiplicidade, ou seja, das inúmeras possibilidades que são criadas a cada passo dado em um movimento de aprender.
Assim, quando se considera o conceito de acontecimento, as maneiras de pesquisar se diferem substancialmente da maneira tradicional de pesquisar. Com a filosofia deleuzeana, surge uma outra imagem para o pensamento e, portanto, um outro modo de estudar, aprender e construir conhecimento.
Deleuze e Guattari (2010) conceituaram o pensamento como rizoma. O rizoma não é feito e constituído por unidades, mas por uma multiplicidade de dimensões, não é definido por um começo ou por um fim, mas trata de ser o meio infinito de possibilidades, o entre, o processo. São multiplicidades feitas de linhas, linhas de fuga e linhas de desterritorialização, são relações de infinitos devires. Rizoma é o entre, o inter, inter-ser e, nesse sentido, não é um meio referente à média, mas o lugar onde tudo adquire velocidade. É um movimento incansável, transversal, incessante, onde as coisas não são localizáveis, mas o meio onde tudo adquire velocidade, potencialidades.
Pensar uma filosofia que se exerce a partir de uma lógica dos acontecimentos e das multiplicidades é pensar nas possibilidades de construção de um pensamento não rígido ou imutável, mas em processo, em variação. Para Brito (2016), as multiplicidades não são fixas, são devires, elas divergem de si a todo o instante, não são findáveis ou classificáveis. Por isso, pesquisar a partir de uma filosofia rizomática não é tão somente um outro modo de pesquisar ou de estudar, é uma outra forma de compreender, de viver, sentir e ver. Pesquisar a partir do acontecimento é uma possibilidade de construção de algo que não preexiste, de invenção de novos conceitos, novas formas de compreender o mundo, de compreender e de construir novos problemas. Pesquisar com o conceito de acontecimento não tem o intuito de redescobrir algo universal e que seja tomado como única resposta, mas criar condições para que algo novo possa ser produzido, para que possam emergir outras formas de pensar. É sobre isso que se trata uma pesquisa como acontecimento, de pensar que a prática de pesquisa envolve a construção, o processo de criar algo novo, único, diferente (Tadeu; Corazza; Zordan, 2004).
Pesquisar a partir dessa filosofia é embarcar em uma viagem que não se tem destino pré-determinado, que não se conhece previamente o percurso e muito menos o lugar em que se chegará. A pesquisa inspirada pelo conceito de acontecimento é um processo de criação e nesse sentido criar é também problematizar e não somente com o objetivo de encontrar uma única solução específica ao que se propõe, mas encontrar possibilidades que possam auxiliar em uma compreensão de um desenvolvimento da problemática em questão. O movimento da pesquisa, assim como o movimento do pensamento é infinito, é sempre novo, não cansa de se transformar, de se problematizar, de renovar, a todo o instante, o próprio pensamento.
A pesquisa inspirada pelo acontecimento envolve intensidades e coloca o pesquisador em um âmbito de se transpor, de se desterritorializar, de se despir de inúmeras normativas e dogmas com o intuito de literalmente mergulhar no universo da pesquisa. Com o conceito de acontecimento no terreno da pesquisa, exige-se compreender que o ato de pesquisar é um exercício do próprio pensamento voltado para a produção de diferenças e de criações, que não tem aversão ao fato de se diferir e de se estranhar o tempo todo.
É importante ressaltar que os acontecimentos, de acordo com Dias (1995) estão sempre em produção, os conceitos a partir dessa pesquisa encontram-se sempre em construção e, nesse sentido, não são noções gerais ou universais. Deleuze e Guattari (2010) entendem os conceitos como algo sempre em movimento, pois são compreendidos como acontecimentos que, portanto, podem mover a pesquisa.
A pesquisa como um acontecimento assume-o como inesgotável, ele não é algo que já aconteceu ou aquilo que está para acontecer, mas ele é os dois ao mesmo tempo, é contradição, paradoxo, infinitivo, devir. É um incapturável, porém sensível.
Segundo Deleuze e Guattari (2010), os acontecimentos transbordam potencialidades, são possibilidades de um plano de imanência, daquilo que está para além do campo das representações. E uma pesquisa como acontecimento é entendida como um recorte do caos, que concebe a potencialidade do pensamento não tão somente em solucionar ou então conceitualizar. O conceito, para os autores, é também um acontecimento no pensamento, é além do pensamento, não é aquilo que tradicionalmente se pensa como uma solução para um problema. O conceito é uma forma de organizar o pensamento para enfrentar o problema, mas não é algo fixo, estático, ele também se transforma e muda de semblante, de sentido. Conceituar é um ato do pensamento que reúne elementos que permitem fazer frente a algo que era problema. Os conceitos não existem separadamente, eles remetem a outros conceitos, não são criados do nada, são devires. O conceito nada mais é do que acontecimento puro, é incorporal, é aquilo que ressoa (Deleuze; Guattari, 2010).
Por isso que é necessário pensar a construção de um processo de pesquisa como algo que também possa envolver a desconstrução. Ou seja, a primeira parte de uma pesquisa desenvolvida a partir da Filosofia da Diferença e sob o ponto de vista do acontecimento, é uma pesquisa que primeiro desconstrói. Essa desconstrução diz respeito a questionar, problematizar, desmantelar, se debruçar a conhecer e indagar a respectiva temática. Trata-se de pensar, analisar e decompor tudo aquilo que envolve a temática sob o ponto de vista de um olhar que indaga, desconfia, não aceita submissamente tudo o já existe.
O segundo momento acontece então a partir de uma perspectiva que compreende e apreende com o assunto que foi pesquisado, debruçado, e se propõe a refazer algo a partir do que foi desmantelado, afinal, aí podem ser encontradas infinitas possibilidades, forças, olhares. Esse momento é aquele no qual algo pode ser reconstruído, repensado e olhado de outra forma, afinal, é o momento em que há a possibilidade de surgir algo novo. É o momento da criação, da novidade, do que pode ser visto como exclusivo e inédito do ponto de vista da pesquisa.
É por esse motivo que pesquisar a partir desses conceitos e dessa teoria que salienta e valoriza a diferença, é impreterivelmente inventar algo. De acordo com Tadeu; Corazza; Zordan (2004), há nessa forma de pesquisar momentos onde se precisa desconstruir, desterritorializar-se, processo esse que envolve muita dedicação, estudo, infinitas aprendizagens. E, juntamente a este processo, conectando as forças de tudo isso que foi fragmentado e despedaçado em um novo processo, advém a criação e a construção de outras formas de pensamento e de conhecimento.
Há que se dizer aqui a importância de uma desconstrução, de um processo de se despir de paradigmas, de buscar outras formas, outros conhecimentos e de lembrar que essa desconstrução acontece também para que algo de novo possa ser criado. É nesse momento em que o conceito de diferença – tal como desenhado pelos pensadores pós-estruturalistas – ganha força. Pensar a pesquisa como um movimento constituinte de diferenças, de desconstruções, reconstruções e, acima de tudo, de aprendizagens, de novos conhecimentos, de infinitas composições e devires é, portanto, um dos grandes achados que se pode obter ao traçar o plano de uma pesquisa sustentada pelo conceito de acontecimento. É isso que move o pesquisar pensado por meio da teoria pós-estruturalista de Deleuze: pesquisar como processo de aprender em meio a... processo de diferenciar-se, sempre.
Nesse sentido, a pesquisa a partir do acontecimento é criação, invenção, construção, mas mais do que isso, é a complexidade da compreensão de um movimento do pensamento, de um movimento de construção de algo inédito, eis o acontecimento. É pensar a complexidade dos conceitos, para além de meramente conceitos pré-estabelecidos, os conceitos não são e nem podem ser verdades absolutas. Essa é a grandiosidade dessa pesquisa, é compreender que a partir dessa forma de estudar, pesquisar e pensar, todo esse movimento é uma criação de algo novo, algo que não se conhece e, mais do que isso, não cessa. Não tem fim. A pesquisa é por si só um acontecimento e isso já a difere de uma pesquisa dentro dos moldes tradicionais. Porque a partir dessa concepção, a pesquisa é movimento, é construção, é sempre transformação e, portanto, não é tão somente o seu produto final. Entendida como um rizoma, pesquisa não é somente o resultado, mas o processo, o movimento, a velocidade e as possibilidades de criação de pensamentos e aprendizagens que permeiam o entre.
4. Considerações Finais
Atualmente, percebe-se que há um aumento, assim como um incentivo das instituições de ensino para o campo de pesquisa no âmbito acadêmico. São programas de pós-graduações, projetos de iniciação científica, inúmeros trabalhos e projetos em prol de incentivar a pesquisa acadêmica aos estudantes, e, com isso, a grande necessidade de repensar os processos e os significados do pesquisar na atualidade.
No entanto, acredita-se que muitas pesquisas na atualidade acabam não pensando nesses sentidos e efeitos, consolidando um grande número de pesquisadores que repetem formas de pesquisa sem refletir sobre o que, junto a isso, se produz.
Por meio deste estudo, colocam-se outras possibilidades de se pensar e se produzir pesquisas, trazendo a necessária prática da criação junto ao processo infinito do criar que se dá no pesquisar. Afinal, pesquisar a partir do acontecimento e da diferença coloca ao pesquisador a necessidade de se inserir no próprio processo de pesquisa, mas também de se estranhar, de problematizar o que antes sossegadamente não se questionava.
Deste modo, por meio do conceito de acontecimento, tem-se condições de entender a pesquisa como um movimento de acompanhamento e produção de diferenças. E neste movimento, a pluralidade e a multiplicidade que emergem enquanto se pesquisa não podem ser reduzidas somente aos resultados dessa pesquisa. Muito mais do que isso, é pensar que a pesquisa ganha sentido através e a partir de tudo aquilo que se renova e se constrói com ela, sob os aspectos do que se encontra sem estar procurando algo definitivo, sob o ponto de vista de tudo aquilo que se cria, se recria, se inventa e se constrói. Por isso pensar que a pesquisa por si só também é um exercício do pensamento e nesse sentido ela é um acontecimento, um processo, devir. Trata-se de pensar que a pesquisa está em movimento ininterrupto, que ela não cessa de produzir novas formas, novos significados, novos conhecimentos e, por isso, é sempre construção de novas potências criativas.
Além disso, pesquisar a partir do acontecimento e da diferença coloca também a necessidade de compreender de que pesquisar é também aprender. A todo momento o trabalho de uma pesquisa envolve aprendizagem, envolve acontecimentos, envolve um processo de aprender que não é e nem pode ser medido ou tão somente reduzido a resultados expressivos.
Assim, a pesquisa-acontecimento é também um incessante, um infinito, é o que se renova e refaz a todo o instante, e inclusive depois do seu término. Ela acaba, mas não tem fim, se renova, tal como o que Deleuze vai dizer que é o pensamento, infinito movimento. Pesquisar a partir dessa perspectiva é entendê-la afetivamente, por entre afetos que se compõem e se transformam durante todo o processo, fazendo diferir também o próprio pesquisador.
Só há uma percepção sobre os acontecimentos de uma pesquisa, quando se sente ela, quando se vive ela e mais do que isso quando se dá lugar a tudo que se constrói enquanto aprendizado, enquanto conhecimento, enquanto desejo de criar. Pesquisar como acontecimento é despir-se de dogmatismos, métodos, formatações tradicionais, mas é poder dar lugar, dar sentido ao que de fato há de ser produzido, inventado e criado dentro da viagem que é pesquisar.
É deixar o conhecimento tocar, o sentimento falar, a emoção aparecer dentro da escrita, dentro da leitura, dentro do próprio estudo. O conhecimento, assim como a aprendizagem, precisa nos afetar, nos tocar enquanto sujeitos, nos desacomodar, nos inferir, precisa fazer algum tipo de laço com a vida, para fazer sentido. Se isso não ocorre, a pesquisa vira meramente obrigação, dados, informações, números, palavras, teorias, gráficos, resultados. Há que se ter uma forma de pesquisar que não seja enrijecida, tradicional, mas que possa ser sentida, afetada pelo pesquisador de modo que poderá então encontrar e afetar outros sujeitos.
É por esse motivo que trazemos a importância de pensar uma pesquisa acontecimento, e principalmente a prática desse modo de pesquisar, para que todas as pesquisas possam de fato serem afetos, acontecimentos. Pensar um modo de pesquisar pelas Filosofias da Diferença é pensar em um estudo que se constrói e se transforma em um movimento infinito e que neste sentido, enriquece e amplia o estudo. É importante que mais estudos possam ser pensados dessa maneira, a partir dessa compreensão, que não sejam apenas estudos objetivos e técnicos, mas que possam tocar, afetar, movimentar aquele o qual o realiza e também aquele que o lerá, que será atingido com o estudo realizado.
Referências
Bardin, L. (1977). Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70.
Brito, M. R de. (2016). A educação por vias da Diferença. Revista Signos, Lajeado, ano 37, n. 1.
Brito, M. R. (2015). Entre as linhas da educação e da diferença. São Paulo: Livraria da Física.
Deleuze, G. (1988). Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal.
Deleuze, G. (2002). Espinoza: Filosofia prática. São Paulo: Escuta.
Deleuze, G. (2003). Proust e os Signos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
Deleuze, G.; Guattari, F. (2010). O que é a filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34.
Dias, S. (1995). Lógica do acontecimento. Deleuze e a Filosofia. Porto/Portugal: Ed. Afrontamento.
Gil, A. C. (2008). Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6ª Ed. São Paulo: Atlas.
Peters, M. (2000). Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Uma introdução. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica.
Schöpke, R. (2004). Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Edusp.
Tadeu, T.; Corazza, S.; Zordan, P. (2004). Pesquisar o acontecimento: estudo em XII exemplos. Em: Tadeu, T.; Corazza, S.; Zordan, P. (2004). Linhas de escrita. Belo Horizonte: Autêntica.
Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Luiza Bäumer Mendes – 50%
Marcele Pereira da Rosa Zucolotto – 50%