Pobreza e Consumo: Um estudo sobre o comportamento do consumidor em situação de pobreza
Poverty and Consumption: A study on consumer behavior in poverty
Pobreza y Consumo: Un estudio sobre el comportamiento del consumidor en situación de pobreza
Pobreza e Consumo: Um estudo sobre o comportamento do consumidor em situação de pobreza
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 8, pp. 01-15, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 09 Maio 2019
Revised: 15 Maio 2019
Aprovação: 28 Maio 2019
Publicado: 30 Maio 2019
Resumo: A pobreza indica um estado de carência e privação vivenciado por pessoas e famílias que compromete os recursos necessários à uma vida digna. Crianças que vivenciam um contexto de pobreza sofrem restrições de consumo material e vivem em famílias onde o consumo se resume as necessidades indispensáveis à sobrevivência. Frente ao contexto, o objetivo do artigo é caracterizar o comportamento de consumo de pessoas em situação de pobreza. Na discussão teórica abordamos aspectos relacionados a pobreza, a cultura de consumo dos pobres e o comportamento de pessoas em situação de pobreza. A pesquisa identificou que pessoas pobres tem aspectos de consumo e privações que moldam seu comportamento e sua vida em sociedade. As privações vivenciadas estão relacionadas a saúde, educação, habitação e alimentação. Em decorrência das privações de consumo, essas pessoas sofrem implicações emocionais e sociais. Como forma de enfrentamento das privações elas desempenhas estratégias de enfrentamento emocionais e comportamentais.
Palavras-chave: Privação de Consumo, Cultura de Consumo, Consumidor empobrecido.
Abstract: Poverty indicates a state of deprivation and deprivation experienced by people and families that compromises the resources necessary for a dignified life. Children who live in a context of poverty are subject to material consumption restrictions and live in families where consumption is the basic necessities of survival. Against the background, the objective of this research is to characterize the consumption behavior of people living in poverty. In the theoretical discussion, we deal with aspects related to poverty, the consumption culture of the poor and the behavior of people living in poverty. Research has identified that poor people have aspects of consumption and deprivation that shape their behavior and their life in society. The deprivations experienced are related to health, education, housing and food. As a result of the deprivation of consumption, these people suffer emotional and social implications. As a way of coping with deprivations, they play emotional and behavioral coping strategies.
Keywords: Deprivation of Consumption, Consumer Culture, Consumer depleted.
Resumen: La pobreza indica un estado de carencia y privación vivido por personas y familias que compromete los recursos necesarios para una vida digna. Los niños que viven un contexto de pobreza sufren restricciones de consumo material y viven en familias donde el consumo se reduce a las necesidades indispensables para la supervivencia. Frente al contexto, el objetivo de esta investigación es caracterizar el comportamiento de consumo de personas en situación de pobreza. En la discusión teórica abordamos aspectos relacionados con la pobreza, la cultura de consumo de los pobres y el comportamiento de las personas en situación de pobreza. La investigación identificó que las personas pobres tienen aspectos de consumo y privaciones que moldean su comportamiento y su vida en sociedad. Las privaciones vivenciadas están relacionadas con la salud, la educación, la vivienda y la alimentación. En consecuencia de las privaciones de consumo, esas personas sufren implicaciones emocionales y sociales. Como forma de enfrentamiento de las privaciones ellas desempeñan estrategias de enfrentamiento emocionales y comportamentales.
Palabras clave: Privación de Consumo, Cultura de Consumo, Consumidor empobrecido.
1. Introdução
O comportamento do consumidor é entendido como algo mais do que aquisição de bens por meios econômicos, representa o comportamento humano (Macinnis & Folkes, 2010). Os estudos de comportamento do consumidor procuram entender os mecanismos intrínsecos envolvidos no consumo com a finalidade de compreender a lógica desse comportamento. Segundo Simonson et al. (2001), estudar essa temática é essencial para diferentes áreas de estudo como o marketing, a psicologia e economia. Embora a psicologia tenha tido maior impacto nas pesquisas do consumo, outros campos, como a economia e antropologia, tiveram significativa contribuição.
Já a pobreza, seria a situação na qual as necessidades não são atendidas de forma adequada (Rocha, 2005). Trata-se de não ter o que é necessário à sobrevivência, indica, portanto um estado de carência e privação vivenciado por pessoas e famílias que compromete os recursos necessários para uma vida digna em sociedade. Apesar da universalidade na definição acima mencionada, reitera-se aqui que diferentes maneiras de interpretar a pobreza foram desenvolvidas ao longo do tempo como: a monetária (medida pelo nível de renda), a subjetiva (está relacionada à opinião dos indivíduos sobre bens e serviços necessários à satisfação pessoal) e as privações de consumo (à privação de bens e serviços julgados importantes numa sociedade).
Nesse sentido, o aprimoramento nos padrões de consumo e a evolução dos costumes na sociedade foram, ao longo do tempo, se modificando e motivando novas necessidades que passaram a ser consideradas básicas. Com isso, a pobreza passou a se referir a um conjunto de privação que extrapolam as necessidades básicas à sobrevivência (Kageyama & Hollmann, 2006). O pensamento sugere que pessoas em situação de pobreza sofrem privações de entretenimento e tecnologia, por exemplo, que são dispensáveis a sobrevivência física do indivíduo em situação de pobreza, mas indispensável para a sobrevivência social, como também importante em relações de grupos.
Estudar a pobreza é de grande importância por ser um fenômeno que atinge todos os países e, ainda, de forma mais constante os países subdesenvolvidos (Santos, 2011). Em todo o mundo são milhões de pessoas que vivem em situações precárias sem acesso à saúde, educação e habitação. A UNICEF aponta que cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo não têm sequer acesso a condições adequadas de saneamento básico.
Como contribuição, esse estudo proporciona uma pesquisa relacionada ao comportamento do consumidor de uma forma que não investigue apenas o que as pessoas consomem, mas possibilite a identificação de suas privações de consumo e como essas privações podem afetar suas vidas.
Dessa forma, essa pesquisa procurou investigar aspectos do comportamento de consumo de pessoas em situação de pobreza, com uma visão voltado para a área do Marketing, para compreender a pobreza não apenas como um aspecto econômico, mas como uma condição que torna o indivíduo vulnerável, que sofre consequências de sua condição financeira. Seguindo esse pensamento, nosso problema consiste em: Como se caracteriza o comportamento de consumo de pessoas em situação de pobreza? Seguindo a problemática definida, o objetivo desse artigo é: Caracterizar o comportamento de consumo de pessoas em situação de pobreza.
Quanto aos procedimentos metodológicos, para atender o objetivo dessa pesquisa, foi desenvolvido um estudo qualitativo e teórico, que parte de uma sequência de outros trabalhos desenvolvidos para a compreensão do comportamento de consumo de pessoas em situação de pobreza, criança pobres e implicações da pobreza na vida dessas crianças e de suas famílias.
2. Pobreza
Os pobres são pessoas, famílias e grupos de pessoas que por terem recursos são limitados são excluídos do modo de vida minimamente aceitável nos países em que vivem, esses recursos podem ser material, cultural ou social (Huston, 2011). Nesse sentido, as pessoas em situação de pobreza são privadas de bens materiais que são utilizados para satisfazer suas necessidades, como também, a cultural que ajuda no desenvolvimento intelectual e na educação de crianças de famílias pobres e consequentemente, afeta suas relações sociais.
A pobreza denota a incapacidade de um indivíduo ou uma família para adquirir recursos suficientes para satisfazer as necessidades básicas (Field, 1994). Como necessidades indispensáveis a sobrevivência de adultos e crianças de uma família, como alimentação, saúde, habitação e educação Nessa perspectiva, Rocha (2003, p. 9), trata a pobreza como “um fenômeno complexo, podendo ser definido de forma genérica como a situação na qual as necessidades não são atendidas de forma adequada”. Assim, observa-se que estudiosos parecem medir e definir a pobreza a partir da renda ou pela falta da mesma, que impõe às famílias um alto risco de privações de consumo para a satisfação de suas necessidades. Com isso, fala-se em linha de pobreza, que indica os níveis de renda, assim como os indicadores de bem-estar físico. E que são estabelecidas considerando a estimativa dos custos efetivos das necessidades básicas dos indivíduos, considerando ainda, as diferenças no custo de vida de acordo com as regiões metropolitanas.
O Banco Mundial afirma que uma pessoa pode ser considerada pobre se seu nível de renda ou seu consumo não é suficiente para suas necessidades básicas, esse nível é denominado linha de pobreza (Kotler & Lee, 2009). A linha de pobreza é um valor real constante, abaixo do qual as pessoas são ditas a ser pobres, sendo definido pelos padrões de um determinado país e em um estágio de seu desenvolvimento econômico. Uma vez determinado quem é pobre e quem não, a extensão da pobreza em um país pode, então, ser aferido por variáveis, tais como o número de pessoas que são pobres e a extensão da sua carência de recursos (Field, 1994). Além dos aspectos anteriormente citados pelos autores, podemos ainda destacar que a pobreza pode ser poder de compra e pelo nível de consumo de uma família que estão relacionados a renda familiar. Abaixo da linha de pobreza, está uma população carente, em muitos casos de alimentação e muitos são associados à linha de indigência ou à pobreza extrema (Rocha, 2005). Esse grupo de indivíduos ou famílias abaixo desta linha constitui o principal alvo das políticas redistributivas (Tolosa, 1978). Por serem indivíduos que não tem renda e precisa da ajuda do governo para conseguir sobreviver.
Assim, a linha de pobreza pode ser utilizada como parâmetro para a comparação da pobreza. Como as necessidades básicas variam ao longo do tempo e do lugar, cada país usa uma linha que é adequada a seu nível de desenvolvimento, normas sociais e valores (Kotler & Lee, 2009). Essa variação da linha da pobreza ocorre de forma diferente nos países em decorrência da economia nos países serem diferentes.
Para Rocha (1992), um conceito relevante depende basicamente do padrão de vida e do modo com que várias necessidades do ser humano são atendidas em uma determinada sociedade, pois a linha de pobreza em função do rendimento pode ser vista como focada totalmente no elemento “recursos” para a definição de pobreza (Layte, 2000). Porém, é importante serem considerados os níveis de consumo e as necessidades das famílias em determinadas regiões, considerando aspectos da regionalidades. Em estudo realizado no Brasil, Tolosa (1978) discute o problema da pobreza em relação ao emprego e desigualdades e destaca que a pobreza deve ser definida e medida tendo em conta não apenas a sua dimensão puramente econômica, mas também seus aspectos sociais, culturais e biológicos. Pois, além dos aspectos econômicos a pobreza denota a incapacidade de pessoas de trabalhar e gerar renda para sustentar suas familiar, essa incapacidade pode ser ocasionada por problemas de saúde, falta de habilidade de desenvolver algumas atividades e falta de oportunidade no mercado onde estão localizados.
A pobreza é normalmente definida pela renda atual da família em comparação com um padrão absoluto projetado para representar a quantidade necessária para um nível minimamente adequado de vida ou aos rendimentos medianos de pessoas no mesmo país (Mayer & Jencks, 1989). Considerando os rendimentos do pais e as necessidades relacionadas as especificidades dos países, é que o Banco Mundial descreve e distingue três níveis de pobreza: pobreza extrema, pobreza moderada e pobreza relativa.
Na pobreza extrema as pessoas vivem com menos de US $ 1,25 por dia. Segundo o Banco Mundial esse estado é moralmente inaceitável à luz dos recursos e tecnologia atualmente disponíveis. Na pobreza extrema as famílias não conseguem suprir as necessidades básicas, não têm acesso a cuidados de saúde, saneamento e não tem condições de proporcionar a educação de alguns ou de todos os membros da família e em muitos casos não dispõem de moradia (Kotler & Lee, 2009). Nesse nível da pobreza as pessoas estão nas ruas e precisam do governo, por meio de políticas públicas para garantir a sua sobrevivência física.
Na pobreza moderada, segundo o Banco Mundial as pessoas ganham entre US$ 1,25 e US$ 2 por dia. Para suprir suas necessidades básicas, muitas pessoas acabam não tendo cuidados com a saúde e educação e com o menor infortúnio como por exemplo, a perda de emprego ou inflação pode fazê-los cair no nível de pobreza extrema (Kotler & Lee, 2009). Assim como na pobreza extrema, na pobreza moderada as pessoas também precisam de ajuda do governo para atender suas necessidades, já que sua renda não é suficiente para atender aos aspectos indispensáveis, como a saúde.
Na pobreza relativa, segundo Kotler e Lee (2009), as famílias têm um nível de renda abaixo da proporção da renda nacional, o que reflete a distribuição de renda em cada país, em países de alta renda, onde os relativamente pobres não têm acesso à educação de qualidade, a recreação, diversão e acesso a cuidados de saúde e educação de qualidade. Segundo os autores citados, não existem estimativas globais em relação aos pobres relativos. A falta de estatística em relação a pobreza relativa decorre de que em seus parâmetros para definir quem são pobres relativos são: inflação e distribuição de renda, são variáveis de constante oscilação. Nesse sentido, Mayer e Sullivan (2012) discutem que as medidas de pobreza relativa fornecem outra maneira de caracterizar a extensão da privação em uma população, assim, o tipo mais comum de definir as medidas de pobreza são os limites de uma determinada percentagem de renda ou consumo mediano. E ainda, um quarto grupo, denominado por Kotler e Lee (2009) como os vulneráveis à pobreza. Nesse grupo, as pessoas entram e saem constantemente do nível de pobreza. Para os autores nesse segmento, as famílias já foram pobres, mas atualmente possuem renda igual à média da renda nacional. Nesse grupo as pessoas estão fora da pobreza, mas ainda vulneráveis a retornar.
Embora a pobreza de renda esteja correlacionada com dificuldades materiais, por exemplo, insuficiência de alimentos, moradia inadequada, falta de acesso a cuidados médicos (Mayer & Jencks, 1989), também está relacionada com o abandono da escola, com o baixo nível de escolaridade, gravidez na adolescência ou gravidez não planejada, má saúde física e mental, comportamento delinquente, trabalho infantil ou na adolescência e início da vida sexual precoce (Guo & Harris, 2000). Esses fatores se relacionam a pobreza por serem as consequências de privações de consumo ocasionado em pessoas e famílias.
As causas da pobreza estão relacionadas a algumas categorias principais como: saúde, ambiente, economia, infraestrutura, educação, fatores sociais e planejamento familiar. Dentre os exemplos, podem ser citados: a falta de infraestrutura e serviços básicos, dificuldade de acesso à educação e falta de planejamento familiar (Kotler & Lee, 2009). A falta de informação para conhecer seus direitos e ter cuidados com a saúde, faz com que muitas pessoas em situação de pobreza tenham problemas de saúde, falta de atendimento aos serviços de saúde, podemos compreender que esse estado de coisas faz com que muitas famílias perdurem na pobreza. Os fatores responsáveis pela falta de crescimento econômico são também, em grande parte, responsáveis pelo crescimento da pobreza extrema. É claro que é possível tomar medidas para aliviar as condições de pobreza, mesmo na ausência de crescimento econômico. Entretanto, em situação de crise, as restrições são muito maiores do que em um período de crescimento econômico (Hoffmann, 1995a). Porém, a economia de um pais que gera empresa para a população faz com que muitas pessoas consigam garantir seu sustento.
Estratégias de redução da pobreza são apresentadas por Kotler e Lee (2009) onde as pessoas em pobreza extrema seriam levadas a pobreza moderada, em seguida a relativa e por último para fora da pobreza, mas ainda vulnerável a pobreza. Isso, ocasionada em detrimentos de soluções propostas para a redução da pobreza incluem os programas de assistência social, como por exemplo, o programa de serviço social implantado nos Estados Unidos que incluem vales-alimentação, bolsas de estudo e serviços de saúde para os que não dispõem de assistência medica (Kotler & Lee, 2009). Esses programas são importantes para a redução da pobreza, desigualdade, inclusão social e aumento do nível de educação. No Brasil, o programa Bolsa Família paga um dinheiro às famílias pobres, desde que as crianças frequentem a escola e participem de programas de vacinação do governo, esse programa aumentou a frequência nas escolas e um maior número de vacinação. Para a redução da pobreza são lançadas estratégias que englobam, por exemplo, o crescimento econômico, redistribuição de renda e planejamento da população.
Mesmo com esses benefícios a pobreza em seus vários segmentos continua a existir, Kotler e Lee (2009) abordam várias explicações que justificam essa persistência e argumentam que sempre haverá pessoas com pouca inteligência, fraqueza, saúde ruim ou vícios; falta de planejamento e rompimento familiar; fracasso das instituições sociais em proporcionar boa educação e boa moradia; a discriminação de classe, raça e etnia que limita as oportunidades disponíveis a determinados grupos; catástrofes naturais (por exemplo: terremotos e furacões) e de guerras; superconcentração da riqueza; governança fraca e corrupção que retarda o crescimento econômico e desenvolvimento ocasionando uma vida de pobreza. Mais ainda, a incapacidade da economia de gerar um número suficiente de bons salários diante da mudança das habilidades necessárias e da desindustrialização.
Na seção seguinte, apresentamos aspectos voltados a cultura de consumo de pessoas em situação de pobreza.
3. Cultura de Consumo dos Pobres
O consumo pode ser compreendido como um ato social e processo cultural, isto é, independentemente do objetivo da compra, seja para atender as necessidades básicas ou supérfluas (Slater, 2002). Os itens que consumimos estão relacionados a nossa identidade, desejo e influencias que sofremos ao consumo. Compreende-se ainda, que o consumo é um momento onde ocorrem trocas simbólicas, é um ato de natureza social, onde os significados simbólicos e os relacionamentos são produzidos e recebidos (Firat & Venkatesh, 1995). Nosso consumo, está relacionado ao meio no qual estamos inseridos, aos nossos grupos sociais e familiares que influenciam nesse consumo. Assim, o consumo não se torna simplesmente uma escolha sobre bens e serviços, mas uma escolha sobre um estilo de vida, sobre quem somos e como queremos ser percebidos pelos outros em determinadas configurações sociais (Martens et al. 2004). Pois muitos dos itens de consumo são usados para socialização, como as crianças que usam brinquedos para entrar e/ou serem aceitas em grupos de amigos, como também constitui as relações entre pais e filhos.
O contexto cultural do consumo diz respeito ao significado para a comunidade. Por meio de suas distinções significativas, a cultura cria categorias de pessoas, tempo, espaço, atividade e objeto. Ela fornece as distinções de classe social, sexo, idade e profissão em que o mundo social é organizado, explica McCracken (1987).
A cultura do consumo tem se expandido em conformidade com os seus discursos críticos de direita e esquerda, ricos e pobres. Isto sugere que os dilemas morais colocados pelo consumo são fundamentais para o processo que impulsiona o início do consumo. Ao mesmo tempo em que as pessoas estão questionando os efeitos sociais e ambientais da cultura de consumo, outras organizações desafiam o pressuposto tomado como certo que o aumento do consumo faz as pessoas mais felizes (Wilk, 2001). Essa afirmação, nos leva a algumas das consequências da pobreza e privação de consumo que são: depressão, ansiedade, medo e incerteza sobre o futuro.
Em 1959, Oscar Lewis propôs pela primeira vez sua controversa “cultura da pobreza”. Na realidade, o termo se refere a uma subcultura de pessoas que vivem em situação de pobreza que respondem à sua falta de abundância material com um conjunto distinto de crenças negativas, atitudes e comportamentos. Sendo resultado da desigualdade, alienação, perda de autoestima, e problemas de saúde mental e física que elas devem suportar (Hill, 2002a). Para as famílias de baixa renda, a incapacidade dos recursos dá origem a um conjunto de comportamentos e resultados com determinadas origens e implicações para a vida das crianças (Pugh, 2004). Essas implicações, como problemas de saúde, tendem a acompanhar a criança para a vida adulta, se tornando mais grave com a falta de assistência à saúde.
Hill (2002a) afirma que a cultura da pobreza representa um esforço para lidar com sentimentos de desesperança e desespero, resultando em soluções para problemas que não foram cumpridos pelas instituições e agências já existentes. Eles conduzem seus sentimentos para desenvolver mecanismos que lhes permitem superar limitações materiais. Acredita-se que até mesmo as dívidas excessivas por parte da população empobrecida são resultado das consequências de suas ações, que buscam maximizar abundância material.
Como foi abordada por Hill e Stephens (1997) a pobreza ocasiona implicações emocionais negativas no comportamento do consumidor. Em relação à gravidade destas consequências emocionais negativas, os consumidores empobrecidos geralmente empregam uma variedade de estratégias de enfrentamento, a fim de sobreviver. Alguns desses métodos são de natureza psicológica, esses consumidores tentam alterar seu estado emocional, reorientando suas mentes em circunstâncias materiais mais agradáveis ou fantasias de melhores oportunidades de consumo no futuro. É claro que a cultura da pobreza, muitas vezes não tem os bens e serviços necessários para criar uma mudança permanente, portanto, eles podem buscar recursos por meio da generosidade de outras pessoas em situação financeira mais favorável (Hill, 2002a).
A pobreza e a privação podem conduzir diferenças significativas nos perfis cognitivos e motivacionais dos pobres. Na medida em que a cultura difere regionalmente, mesmo para os pobres do mundo, pode haver significativa heterogeneidade dentro do grupo que será refletido em suas orientações de consumo. Assim, grupos de associação influenciam o comportamento do indivíduo através de efeitos de que reforçam comportamentos em contextos sociais via efeitos negativos. Esses grupos podem fornecer reconstruções e interpretações de situações de pobreza. Além disso, eles muitas vezes atribuir sentido e justificação com consumidores que compartilham a pobreza (Chakravarti, 2006).
4. Comportamento do Consumidor em situação de Pobreza
A vida dos pobres é significativamente diferente da população mais favorecida financeiramente, segundo Hill (2001a), a principal característica do comportamento do consumidor empobrecido é a incapacidade de pagar por bens e serviços que necessitam (Hill & Stephens, 1997). Hill (2002b) retrata algumas características do consumidor em contexto de pobreza, segundo o autor, consumidores empobrecidos são muitas vezes obrigados pela falta de recursos a consumirem produtos e serviços que seriam considerados inadmissíveis e com qualidade abaixo do aceitável para os consumidores mais favorecidos financeiramente. Esse pensamento é condizente com o de Jaiswal e Gupta (2015) ao argumentar que os consumidores empobrecidos não têm acesso a produtos e serviços de boa qualidade, como também, não têm acesso a recursos jurídicos.
Os pobres têm preferência por produtos novos e caros em relação a produtos mais baratos e mais adequados à sua situação financeira. Segundo Jaiswal e Gupta (2015) os consumidores empobrecidos não são apenas excessivamente preocupados com a satisfação das suas necessidades básicas, mas também em comprar bens de luxo e insistem em igual direito para escolher o que quer comprar e consumir. Com isso, observa-se que os consumidores empobrecidos praticam o consumo compensatório como uma forma de compensar a sua incapacidade de elevar seu status social por outros meios (Hill, 2002b). O conceito de consumo compensatório se concentra em comportamentos reacionários da falta ou deficiências na vida de um indivíduo, e ocorre quando uma pessoa sente uma necessidade, falta, ou o desejo que os produtos não podem satisfazer, assim usa o comportamento de compra como um meio alternativo para atender essa satisfação (Jaiswal & Gupta, 2015).
Consumidores empobrecidos são retratados como vítimas, por terem a educação e habilidades intelectuais limitadas, tornando-os capazes de obterem facilmente condições de crédito no mercado, porém com altas taxas de juros. E ainda, são muitas vezes explorados por diversas entidades, como agiotas (Jaiswal & Gupta, 2015). Isso ocorre pela falta de conhecimento para adquirir empréstimos com taxas de juros menores e no mercado legal. Essa incapacidade dos consumidores empobrecidos é um resultado direto de sua pobreza relativa (HILL, 2002b), já que em estado de pobreza o nível de educação é baixo. O conceito de pobreza relativa está associado ao sentimento de impotência e exclusão social, é ter menos do que outros na sociedade (Kageyama & Hoffmann, 2006), nessa classificação da pobreza as famílias têm um nível de renda abaixo da proporção da renda nacional (Kotler & Lee, 2009). Estão abaixo da linha da pobreza e seu consumo é limitado em decorrência da falta de renda suficiente para atender as suas necessidades.
Hill e Stephens (1997) apresentam um modelo tridimensional do comportamento do consumidor pobre (Figura 1). Este modelo reconhece as características únicas do sistema de marketing em contexto de pobreza, as consequências emocionais negativas para os consumidores pobres, e as estratégias de enfrentamento subsequentes.

É importante ser observado na Figura 1, que as restrições financeiras causam consequências, como problemas de saúde, em seguida essas consequências faz com que os indivíduos desenvolva estratégias de enfrentamento emocional e comportamental, como pode ser visto na figura, essas atividades acontecem de mateira sequencial, onde as condições financeiras que são limitadas causam consequências e com isso as estratégias de enfrentamento são desempenhadas.
O comportamento do consumidor empobrecido é apresentado no modelo de Hill e Stephens (1997), onde os autores mostram três características relacionadas. Em primeiro lugar, os consumidores pobres enfrentam restrições financeiras significativas que limitam a sua capacidade de adquirir vários bens e serviços necessários e atender seus desejos. Em segundo lugar, as consequências dessas restrições normalmente são negativas, incluindo separação e alienação da cultura de consumo da classe média, sentimento de perda de controle sobre os aspectos de consumo de suas vidas, e problemas de saúde mental e física. Em terceiro lugar, os consumidores pobres respondem a essas consequências com estratégias de enfrentamento emocional e comportamental, como se engajar em atividades legais e ilegais com o propósito de adquirir renda ou produtos desejados.
Hill (2002a) explica que as necessidades materiais são uniformes, independentemente de sua condição socioeconômica. Isso pode ter implicações para o comportamento do consumidor em geral, principalmente de consumidores pobres. A maioria dos consumidores enfrenta pelo menos uma restrição à disponibilidade de produtos ou a sua incapacidade de pagá-los durante uma parte ou durante toda sua vida (Hill & Stephens, 1997).
A pobreza pode ter implicações mais amplas dentro do campo do comportamento do consumidor. As consequências dessas restrições são negativas, e as respostas são em forma de reações emocionais, como raiva, vergonha ou humilhação, sentimento de perda de controle sobre sua vida como consumidores, em relação às consequências das privações de consumo (Hill & Stephens, 1997). A raiva em tais situações pode ser uma reação dos consumidores empobrecidos e uma adaptação a esta forma de privação (Hill, 2001a). Em relação às consequências das privações de consumo adentraremos nesse tema adiante no tópico referente à pobreza.
5. Considerações Finais
As privações vivenciadas estão relacionadas a saúde (como falta de cuidados médicos, atendimentos psicológicos e medicamentos) educação (falta de atividades complementares para o desenvolvimento de crianças pobres), habitação (pessoas pobres tendem a ter seus lares deteriorados e em lugares com falta de saneamento básico), alimentação (falta frutas, verduras, carne e outros tipos de alimentos) e entretenimento (falta de dinheiro para pagar por viagens e passeios que são compreendidos como itens de socialização para crianças). Em decorrência das privações de consumo, as crianças sofrem implicações emocionais e sociais, caracterizada como o sentimento de tristeza, vergonha, humilhação, raiva e ainda, exclusão de grupos. Como forma de enfrentamento das privações as crianças desempenhas estratégias de enfrentamento emocionais e comportamentais, como: idealização de situações de consumo prazerosas, roubo e furtos.
A pesquisa contribuiu para o campo acadêmico de modo que, abordou a pobreza relacionada ao comportamento do consumo, uma vez que são raros os estudos que tratam a pobreza voltando para aspectos não apenas econômicos, unindo as dimensões: privações de consumo, implicações dessas privações e estratégias de enfrentamento das privações.
Acreditamos que seja relevante que futuros trabalhos sejam desenvolvidos considerando privações de consumo familiar, como também pesquisas empíricas focadas nas privações de educação de crianças de famílias pobres, considerando que a criança é mais vulnerável que o adulto a pobreza, pois a criança nasce em famílias pobres e tende a perdurar na pobreza até que chegue na vida adulta e consiga sai da pobreza. A educação auxilia no aumento do nível de renda e na inclusão social, por isso é importante serem desenvolvidos estudos considerando esse fator de privação.
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Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Mayara Muniz de Oliveira – 50%
Rita de Cássia de Faria Pereira – 30%
Mariana Ferreira Pessoa – 20%