A pesquisa - ação nas publicações da Revista Brasileira de Educação (2016 - 2018)
The research in the publications of the Brasilian Journal of Educacion (2016-2018)
La investión-acción em las publicaciones de la Revista Brasileña de Educación (2016-2018)
A pesquisa - ação nas publicações da Revista Brasileira de Educação (2016 - 2018)
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 10, pp. 01-17, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 19 Julho 2019
Revised: 20 Julho 2019
Aprovação: 24 Julho 2019
Publicado: 25 Julho 2019
Resumo: A pesquisa-ação se coloca como modalidade de pesquisa social que pode colaborar com vários modelos de pesquisa. O presente artigo tem como objetivo fazer uma discussão a respeito desta estratégia metodológica e de suas possibilidades de utilização como instrumento pedagógico e científico nas pesquisas em educação. O trabalho analisa as publicações da Revista Brasileira de Educação, no período de 2016 a 2018, que utilizam a pesquisa-ação como procedimento metodológico. O artigo baseia-se nas concepções de pesquisa-ação de Thiollent (2005), além da contribuição de Moreira (2011) e Tripp (2005) e nas ideias de construção do conhecimento de Minayo (2014). Como metodologia, utilizamos pesquisa bibliográfica a respeito da temática e pesquisa documental, por meio do levantamento das produções nas edições da Revista no período em estudo, para identificar os trabalhos publicados que efetivamente utilizaram a pesquisa-ação e informaram esse procedimento. A pesquisa encontrou como resultado cinco produções que utilizaram a metodologia em questão, de um total de cento e quarenta e três artigos publicados, apontando algumas dificuldades de operacionalização e execução de pesquisas com essa formatação. Entretanto, apesar dos desafios da execução, a pesquisa-ação apresenta-se como uma metodologia com significativas contribuições para melhoria da qualidade das pesquisas em educação.
Palavras-chave: Metodologia da pesquisa, Pesquisa-ação, Revista Brasileira de Educação.
Abstract: Action research is a social research modality that can collaborate with several research models. This article aims to discuss this methodological strategy and its possibilities of use as a pedagogical and scientific tool in education research. The paper analyzes the publications of the Brazilian Journal of Education, from 2016 to 2018, which use action research as a methodological procedure. The article is based on Thiollent's (2005) research-action conceptions, in addition to the contribution of Moreira (2011) and Tripp (2005) and Minayo's ideas of knowledge construction (2014). As a methodology, we used bibliographical research on the topic and documental research, through the survey of the productions in the editions of the Journal in the period under study, to identify the published works that effectively used the action research and informed this procedure. The research resulted in five productions that used the methodology in question, of a total of one hundred and forty three published articles, pointing out some difficulties of operationalization and execution of researches with this formatting. However, despite the implementation challenges, action research presents itself as a methodology with significant contributions to improve the quality of research in education.
Keywords: Research methodology, Action research, Brazilian Journal of Education.
Resumen: La investigación-acción se plantea como modalidad de investigación social que puede colaborar con varios modelos de investigación. El presente artículo tiene como objetivo hacer una discusión acerca de esta estrategia metodológica y de sus posibilidades de utilización como instrumento pedagógico y científico en las investigaciones en educación. El trabajo analiza las publicaciones de la Revista Brasileña de Educación, en el período de 2016 a 2018, que utilizan la investigación-acción como procedimiento metodológico. El artículo se basa en las concepciones de investigación-acción de Thiollent (2005), además de la contribución de Moreira (2011) y Tripp (2005) y en las ideas de construcción del conocimiento de Minayo (2014). Como metodología, utilizamos investigación bibliográfica acerca de la temática e investigación documental, por medio del levantamiento de las producciones en las ediciones de la Revista en el período en estudio, para identificar los trabajos publicados que efectivamente utilizaron la investigación-acción e informaron ese procedimiento. La investigación encontró como resultado cinco producciones que utilizaron la metodología en cuestión, de un total de ciento cuarenta y tres artículos publicados, apuntando algunas dificultades de operacionalización y ejecución de investigaciones con ese formato. Sin embargo, a pesar de los desafíos de la ejecución, la investigación-acción se presenta como una metodología con significativas contribuciones para mejorar la calidad de las investigaciones en educación.
Palabras clave: Metodología de la investigación, La investigación-acción, Revista Brasileña de Educación.
1. INTRODUÇÃO
Nas discussões relacionadas à metodologia da pesquisa social encontra-se a pesquisa-ação. Trata-se de um conjunto de procedimentos de pesquisa que agrega formas de ações coletivas para resolução de problemas e/ou melhoria de práticas sociais, objetivando transformações. De acordo com Thiollent (2005), a estratégia da pesquisa-ação ainda está em discussão, não sendo unanimidade entre pesquisadores, por essa razão, se abrem inúmeras possibilidades e variações na forma de colocar em prática essa estratégia quando assumida na pesquisa acadêmico-científica.
A pesquisa-ação deve ser compreendida como uma das diferentes formas de investigação-ação, a qual é definida como toda tentativa continuada, sistemática e empiricamente fundamentada de aprimorar a prática de investigação de problemas sociais.
Segundo Thiollent (2005), ela se propõe a compreender e estimular a interação entre pesquisadores e membros da pesquisa, tendo como um dos seus principais objetivos proporcionar aos envolvidos a capacidade de responder com mais eficiência aos problemas identificados, através da proposição de ações transformadoras. O foco da pesquisa-ação está no contexto da base empírica, voltado para situações concretas e ação orientada dentro de pequenos grupos e coletividades, portanto, não é adequada ao enfoque macrossocial.
De acordo com Thiollent (2005), a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica, desenvolvida em estreita associação com uma ação ou resolução de um problema coletivo, de forma que os pesquisadores e participantes estejam envolvidos de modo cooperativo e participativo.
O autor acrescenta que exista um equívoco ao apresentar a pesquisa-ação como sinônimo de pesquisa participante, apesar das estratégias se configurarem como alternativas aos modelos tradicionais de pesquisa, essas não são equivalentes. A pesquisa-ação, como dito anteriormente, supõe, além da participação, ação planejada, o que nem sempre acontece na pesquisa participante.
Assim, a pesquisa aborda a pesquisa-ação com o objetivo de apresentar esta metodologia e suas possibilidades de utilização como instrumento científico para a produção de conhecimentos em diversas áreas de ciência.
Busca abordar a sua concepção e organização, seu caráter emancipatório, sua concepção colaborativa, as áreas em que se aplica e, especificamente, como vem sendo utilizada especialmente na área da educação, a partir das publicações da Revista Brasileira de Educação, campo empírico escolhido por ser um veículo referenciado academicamente nessa área. O estudo foi realizado entre os meses de maio e junho do ano de 2018, buscando analisar as publicações referentes ao período de 2016 a 2018,
Como metodologia foi realizada inicialmente uma pesquisa bibliográfica a respeito da metodologia em estudo – a pesquisa-ação, o que tornou possível a apropriação das discussões que envolvem esta metodologia e os conceitos e definições apresentados por alguns autores discorrem sobre a pesquisa-ação. Realizou-se uma interpretação discursiva sobre as concepções de pesquisa-ação de autores como Thiollent (2005), Moreira (2011) e Tripp (2005) e sobre as ideias de construção do conhecimento apresentadas por Minayo (2014).
Posteriormente, foi realizada a pesquisa documental através da consulta às edições da Revista Brasileira de Educação, publicadas no período de 2016 a junho/2018, disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a09v31n3.pdf> para identificar a presença de pesquisa-ação nos artigos publicados na revista. O período escolhido se deu pelo interesse em compreender de que forma a metodologia vem sendo utilizada nos últimos anos, sendo definidos os nove últimos volumes da Revista para análise.
Ao acessar as edições da revista, foram inicialmente explorados os resumos das produções publicadas, para identificar aquelas que efetivamente utilizaram a pesquisa-ação e a informaram nos resumos. Porém, ao encontrar dificuldades nesta identificação, os artigos que não apresentavam a metodologia adotada de forma explícita no resumo, foram lidos na íntegra, para a identificação de seus procedimentos metodológicos.
Assim, após a identificação dos trabalhos que utilizaram a pesquisa-ação, foi feita uma leitura crítico/interpretativa de cada um para que fosse possível compreender como a metodologia havia sido empregada na área da educação. Dessa forma, o artigo aqui apresentado analisa os cinco artigos selecionados buscando compreender a forma como utilizaram a metodologia em foco.
2. CONFIGURAÇÃO E CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA-AÇÃO
A pesquisa-ação é uma estratégia metodológica de pesquisa social que demanda ampla interação entre pesquisadores e participantes e é daí que os problemas a serem pesquisados e a proposição de ações concretas são desvelados e solucionados. O objeto de investigação é construído pelas pessoas envolvidas no contexto em que estão inseridas, sendo a finalidade da pesquisa-ação a resolução ou esclarecimento dos problemas apresentados coletivamente. A utilização dessa estratégia pretende também aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o nível de consciência das pessoas e grupos envolvidos sobreo papel e as responsabilidades dos cidadãos com o desenvolvimento social.
Moreira (2011) acrescenta que a participação das pessoas envolvidas na situação ou problema investigado é necessária e afirma que a pesquisa-ação é coletiva e colaborativa, e depende da participação e envolvimento dos participantes nas reflexões, assim como da capacidade crítica dos envolvidos, para o mapeamento e implementação das ações definidas coletivamente.
Thiollent (2005, p. 20) define a pesquisa-ação como:
[...] tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
O objetivo prático, que consiste na proposta de ação, deve ser estabelecido considerando a sua viabilidade. Já o objetivo de conhecimento é a forma de obter as informações a respeito das situações envolvidas no processo. Com maior apropriação deste conhecimento tem-se uma melhor formulação e condução das ações propostas.
Para Thiollent (2005, p. 25), a pesquisa-ação possui três aspectos: a resolução de problemas, a tomada de consciência e a produção do conhecimento. Podendo a pesquisa alcançar apenas um destes aspectos, ou, sendo bem conduzida, alcançar os três aspectos concomitantemente.
A pesquisa-ação estuda de forma dinâmica o processo de transformação da situação, considerando decisões, conflitos, negociações e tomada de consciência. Situa-se no contexto em que está inserida a problemática a ser investigada e a visão dos sujeitos envolvidos, considerando as informações subjetivas que são colocadas em discussão.
Apesar do foco empírico, é importante considerar a fundamentação científica e a produção do conhecimento, para que a pesquisa não se torne vazia de cientificidade. Thiollent (2005, p. 27 ) acrescenta que, embora as exigências da pesquisa-ação sejam diferentes das pesquisas tradicionais, a compreensão da situação, a definição de problemas, a proposição de ações são características da pesquisa que pertencem ao campo científico. Para o autor,
Do ponto de vista científico, a pesquisa-ação é uma proposta metodológica e técnica que oferece subsídios para organizar a pesquisa social aplicada sem os excessos da postura convencional ao nível e observação, processamento de dados, experimentação, etc. Com ela se introduz uma maior flexibilidade na concepção e na aplicação dos meios de investigação concreta (Thiollent, 2005 p. 30).
Thiollent (2005) argumenta que devido à natureza prática, a pesquisa-ação pode ser vista como uma concepção empirista, na qual não haveria muitas implicações teóricas. Em relação a esse entendimento, Tripp (2005) expõe que a pesquisa-ação pode ser considerada “ateórica”, mas, embora a teoria disciplinar tradicional não seja prioridade, ela é importante, pois por meio dela é possível compreender as situações, fazer um planejamento eficaz e explicar os resultados obtidos.
A lógica utilizada na pesquisa-ação se distingue da lógica formal clássica. Nesta metodologia não cabem as formulações binárias como verdadeiro ou falso. O raciocínio construído por ela se dá através de processos de argumentação e diálogo, que possibilitam compreensão, interpretação, análise e síntese da situação estudada, baseando-se na linguagem, principal componente do material de análise. O pesquisador deve trabalhar considerando as argumentações que fortalecem a racionalidade e criticando os argumentos que se contrapõem ao ideal científico.
Assim, observa-se que a pesquisa-ação não se enquadra no esquema tradicional de formulação de hipótese, coleta de dados, comprovação ou refutação das hipóteses. As hipóteses dão lugar às instruções ou diretrizes que são colocadas de forma mais flexível, podendo ser alteradas, substituídas ou até descartadas. As possíveis soluções para o problema são consideradas suposições que serão verificadas e comprovadas. Esta suposição, embora não definitiva, norteará o desenvolvimento da pesquisa, fazendo progredir o conhecimento.
Thiollent (2005) acrescenta também que a pesquisa-ação tem uma função política, pois trabalha com aspectos como o fortalecimento da autonomia do grupo, estreitamento das relações entre organização e base, ações participativas, além de contribuir com a conscientização dos sujeitos envolvidos através da prática democrática. Porém, considera ainda que a pesquisa-ação não é livre de valores.
Os aspectos que diferenciam a pesquisa-ação de outros tipos de pesquisa são que todas as partes interessadas ou envolvidas devem ser consultadas, assim como devem acompanhar a avaliação e acessar os resultados.
Thiollent (2005) defende que a pesquisa-ação é inovadora do ponto de vista científico somente quando inova o ponto de vista sociopolítico, ou seja, quando tenta colocar o controle do saber nas mãos dos grupos e das coletividades que expressam uma aprendizagem coletiva tanto na sua tomada de consciência como no seu comprometimento com a ação coletiva. Assim, a principal característica da pesquisa-ação não é a conexão entre pesquisa e ação, mas a utilidade do conhecimento produzido coletivamente com os cidadãos e populações desfavorecidas e exploradas.
Tripp (2005) aborda algumas modalidades da pesquisa-ação: a técnica, a prática e a política. A pesquisa-ação técnica considera uma prática já existente e implementada na realidade em que a pesquisa está inserida. Na pesquisa-ação prática, as mudanças propostas são frutos das definições do pesquisador, que devem ser tomadas coletivamente com o grupo envolvido.
Já a pesquisa-ação política propõe mudança da cultura institucional ou de limitações, podendo ser classificada como socialmente crítica ou emancipatória, sendo a última uma estratégia que pretende mudar o status quo.
2.1 ORGANIZAÇÃO/FASES DA PESQUISA-AÇÃO
Pode-se observar que nesta estratégia de pesquisa a flexibilidade apresenta-se como caminho para o seu desenvolvimento, tendo em vista que o seu percurso é fruto de resultados que ainda serão experienciados pelo pesquisador. O processo de desenvolvimento desta metodologia, segundo Thiollent (2005), apresenta duas características importantes que são a fase inicial - exploratória - e a fase final - divulgação dos resultados. O que acontece entre esses dois momentos não segue uma sequência temporal determinada, pois serão as circunstâncias que determinarão o desenvolver da metodologia.
Na fase exploratória, Thiollent (2005) destaca que é o momento de descoberta do campo de pesquisa, conhecimento dos interessados e de suas expectativas. É realizado o diagnóstico da situação. Esse momento inicial pode ser definido como o planejamento do que será realizado ao longo da pesquisa, sendo difícil prever regras precisas.
No entanto, algumas situações precisam ser observadas como, por exemplo, o perfil do pesquisador para desenvolver tal estratégia, bem como, se é possível realizar a pesquisa com todas as suas características, as condições de colaboração entre pesquisador e pesquisados.
A definição do tema da pesquisa, segundo Thiollent (2005, p. 59), “é a designação do problema prático e da área de conhecimento a serem abordados”. Com isso, podem ser definidas as áreas que podem ajudar a resolução dos problemas, sendo o tema definido pela sua natureza e urgência de resolução. Logo após esse processo, as problemáticas precisam ser elaboradas, tendo em vista que a pesquisa pode abranger várias, é preciso que o pesquisador defina a que irá pesquisar.
A teoria toma nessa estratégia metodológica um lugar de desmistificação, pois frequentemente a pesquisa-ação é posta como aquela que traz em sua construção a sabedoria popular e os apontamentos do pesquisador, mas isso não se configura como verdade.
A formulação de hipóteses, fase que também merece destaque, é “simplesmente definida como suposição formulada pelo pesquisador a respeito de possíveis soluções a um problema colocado na pesquisa, principalmente ao nível observacional” (Thiollent, 2005, p. 65), isso deve ser realizado com cautela, sendo por vezes suavizado, compreendendo que em pesquisa social essas hipóteses poderão ser modificadas.
Quanto ao seminário, momento importante no processo de reflexão e replanejamento da pesquisa, se caracteriza pela reunião dos pesquisadores, em suas respectivas funções. Sobre isso, Thiollent (2005, p.67) esclarece que “o papel do seminário consiste em examinar, discutir e tomar decisões acerca do processo de investigação”.
O campo de observação, a amostragem e a representatividade qualitativa consistem na definição dos sujeitos que farão parte da pesquisa. Sendo levado em consideração a contribuição do grupo pesquisado. A coleta de dados se dá por meio dos grupos que estão atuando na pesquisa, observadores ou pesquisadores, sendo esse momento sempre alinhado por meio das discussões que ocorrem no seminário. É válido salientar que todas as coletas de dados são postas nesse momento para serem discutidas, analisadas, interpretadas, sempre fruto de outras técnicas, como por exemplo, as entrevistas.
Nesse processo de pesquisa tem-se um terreno fértil para a aprendizagem e ampliação de conhecimentos, tanto dos pesquisadores como do grupo envolvido, pois o processo de colaboração e a prática dialógica possibilitam a troca de conhecimentos, através da valorização de todos os saberes. Thiollent (2005, p.77) complementa que, “na busca de solução aos problemas colocados, os pesquisadores, especialistas e participantes devem chegar a um relacionamento adequado entre saber formal e saber informal”.
Para que a pesquisa tome seu caráter de uma pesquisa formal, é necessário a elaboração de um plano de ação, com as etapas e os momentos da pesquisa, observando questões como: quem são os atores ou unidades de intervenção; como se relacionam os atores e as instituições - convergência, atributos, conflitos abertos; quem toma as decisões; quais são os objetivos (ou metas) tangíveis da ação e os critérios de sua avaliação; como dar continuidade à ação; como assegurar a participação da população e incorporar suas sugestões; como controlar o conjunto do processo e avaliar os resultados.
Por fim, a divulgação externa é o momento em que devem ser apresentados os resultados da pesquisa a grupos pré-estabelecidos e ao próprio grupo pesquisado. Embora este último ainda não ocorra de forma satisfatória entre os pesquisadores que usam essa estratégia de pesquisa. Para Thiollent (2005), o retorno deve ser feito com objetivo de ampliar o conhecimento e fortalecer a convicção da pesquisa, e não como efeito ou estratégia de propaganda.
2.2 ÁREAS DE APLICAÇÃO DA PESQUISA-AÇÃO
Em função de sua orientação prática, a pesquisa-ação pode ser aplicada em diversas áreas. Serão apresentadas algumas informações e ideias sintéticas que estão relacionadas com a aplicação da orientação de pesquisa-ação em cada uma das áreas que serão mencionadas a seguir. É importante lembrar que o uso dessa metodologia não se esgota no conjunto de possibilidades apresentadas, portanto, o que se apresenta são diretrizes extraídas dos autores estudados.
Na educação a pesquisa-ação é uma estratégia para o desenvolvimento de professores e pesquisadores de modo que eles possam utilizar suas pesquisas para a busca de soluções e aprimoramento de suas práticas. As bases metodológicas da pesquisa-ação podem orientar os pesquisadores em educação a produzir conhecimentos de uso efetivo, inclusive pedagógico, contribuindo para a compreensão de situações escolares e definição dos objetivos das ações pedagógicas. É necessário que os pesquisadores em educação considerem aspectos comunicativos na espontaneidade e no planejamento consciente de uma ação transformadora.
A pesquisa em comunicação é feita de linguagens, palavras e imagens captadas e interpretadas, muitas vezes desprovidas de valores estéticos, cuja evidência pode tornar-se o ponto de partida para novas experiências comunicativas e artísticas.
Nessa perspectiva, Mata (1981) defende que a comunicação procura desenvolver uma comunicação diferente, para as quais são necessárias novas abordagens metodológicas e, para isso, passa a investir na pesquisa-ação, porém ainda é uma orientação minoritária, que está sendo cogitada especialmente no contexto da comunicação alternativa e da comunicação popular, além de também ser discutida como possível meio de crítica à comunicação de massa.
O serviço social é uma das áreas em que já existe a tradição de aplicação da pesquisa-ação. Os profissionais dessa área são contratados para intervir em situações nas quais categorias da população enfrentam problemas sociais que resultam dos efeitos do funcionamento da sociedade global (desigualdade, desemprego, pobreza etc.).
Assim, constitui um excelente campo de aplicação e desenvolvimento da pesquisa-ação, pois seus pesquisadores desempenham um papel ativo que consiste na dinamização do meio social observado. Além de se caracterizar como uma categoria profissional que tem um compromisso ético no tocante à conscientização e formação crítica da população.
Na área organizacional existe a coordenação e definição dos meios necessários para produzir um determinado produto ou serviço. Embora existam organizações sem fins lucrativos, as maiorias das pesquisas acontecem nas organizações empresariais, de capital privado ou estatal.
A área organizacional é complexa para o desenvolvimento da pesquisa-ação, entre outros aspectos pela estrutura de poder e influência de interesses particulares na execução e nos resultados da pesquisa. Seu princípio fundamental consiste na intervenção dentro da organização com a qual os pesquisadores e os membros da organização colaboram na definição do problema, acompanhado por práticas pedagógicas como: difusão de conhecimentos, treinamento, simulação e outros.
A pesquisa na área do desenvolvimento rural é pluridisciplinar e possui uma finalidade de conhecimentos da situação dos produtores e da elaboração de propostas de planejamento. Na difusão de tecnologias visa facilitar a adoção de novas técnicas.
Nos últimos anos, nas instituições de pesquisa agropecuária, foi experimentada a possibilidade de aplicação da "pesquisa-ação". Na concepção participativa do desenvolvimento rural, os produtores devem se organizar em torno dos problemas para adquirir uma capacidade coletiva de controle com relação a utilização de recursos.
A pesquisa-ação possibilita contribuições significativas para a transformação social no meio rural. Paulo Freire e Orlando Fals Borda têm grandes contribuições na área. De acordo com Paulo Freire: “Subestimar a capacidade criadora e recriadora dos camponeses, desprezar seus conhecimentos, não importa o nível em que se achem, tentar 'enchê-los' com o que aos técnicos lhes parece certo, são expressões, em última análise, da ideologia dominante. (Freire,1982)”.
Diante do exposto, observa-se que a pesquisa-ação tem aplicação em diversas áreas de estudo, tais como administração, enfermagem, comunicação e até práticas políticas e sindicais, sendo mais difundida especialmente nas áreas das ciências humanas e áreas que promovem a participação e o planejamento coletivo. É utilizada também como instrumento de mobilização social. Considerando que, na área da educação este tipo de metodologia pode ser utilizado de diversas formas.
3 A PESQUISA-AÇÃO NOS ARTIGOS DA REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO (2016-2018)
Para compreensão do desenvolvimento da pesquisa-ação como estratégia metodológica, foi realizado um levantamento de artigos publicados na Revista Brasileira de Educação entre as publicações realizadas no período de 2016 a junho/2018, disponíveis para consulta através do endereço eletrônico da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED). De acordo com as informações apresentadas no site, a Revista teve suas edições publicadas trimestralmente desde 1995 até 2017 e iniciando no volume 22/2017 edições de publicação contínua, hoje com aproximadamente 90 edições.
Nela são publicadas inúmeras pesquisas vinculadas à educação; pesquisas em áreas específicas como formação de professores, currículo, leitura e letramento, matemática, novas tecnologias, entre outras. Essas pesquisas foram realizadas em campos de estudos variados, reforçando os apontamentos realizados no que se refere à aplicação da pesquisa-ação em diversas áreas de conhecimento.
A RBE, no período de janeiro de 2016 a junho de 2018, publicou cento e quarenta e três artigos, desses apenas cinco utilizaram a pesquisa-ação como metodologia. O que nos revela que essa estratégia ainda não é convencional entre os pesquisadores, como apresenta Thiollent (2005).
Podemos observar que há publicações de artigos que podem ser classificados com procedimentos de pesquisa-ação em todos os anos do período em estudo definido nesta pesquisa, conforme o Quadro 01, que traz os artigos onde a pesquisa-ação foi identificada.
![Pesquisa-ação na Revista Brasileira de Educação [online] - 2016 a 2018](../560662201008_gt2.png)
Dentre as edições em que foram identificados os cinco trabalhos, temos dois artigos publicados no volume 23, no ano de 2018, na segunda edição de publicação contínua da Revista que, até junho do ano de publicação, apresentava 29 artigos publicados abordando diversas temáticas da área educacional, tal edição não apresenta um editorial.
O terceiro artigo foi publicado na edição nº 70, em 2017, composta por onze artigos que trazem discussões sobre o ensino superior sob a perspectiva da aprendizagem colaborativa e formas alternativas de ensino menos verticalizadas à luz das propostas de Paulo Freire.
O quarto artigo foi publicado na edição nº 68, também no ano de 2017, que traz doze artigos que discutem a linguagem, identidade e diferenças, e seus desafios no campo da política educacional e das práticas pedagógicas. E, por fim, o último artigo listado compõe o nº 66 da Revista, publicado no ano de 2016, com onze artigos que discutem aprendizagem e avaliação, educação superior e ética na pesquisa.
O artigo O arco-íris em foco: a linguagem como mediação do ensino e da aprendizagem sobre conhecimentos físicos (Azevedo e Abid, 2018), apesar de não citar explicitamente a metodologia da pesquisa-ação, apresenta características desta estratégia de pesquisa. O trabalho se propôs a estudar a comunicação entre estudantes e professores e o processo de aprendizagem dos conceitos científicos pelas crianças no primeiro ano de escolarização, privilegiando o diálogo. Foi desenvolvida em fases como: planejamento, desenvolvimento das ações, e a reflexão coletiva.
A utilização da pesquisa-ação fica clara quando as autoras apresentam na metodologia empregada que “os dados foram obtidos por meio de entrevistas, filmagem de reuniões e de aulas. [...] Essa atividade é composta de fases de planejamento, desenvolvimento das ações com os alunos e reflexão coletiva entre as docentes” (Azevedo e Abid, 2018, p. 10). Apresentando as características da pesquisa-ação já expostas em seção anterior deste trabalho.
O artigo O professor e a autoria em tempos de cibercultura: a rede da criação dos atos de currículo, (Veloso e Bonilla, 2018) é desenvolvido a partir da metodologia da pesquisa-formação, segundo os autores “[...] uma metodologia que existe o compromisso dos pesquisadores, seja numa prática de mudança individual ou coletiva, [...] tal abordagem tem características da pesquisa-ação, mas, ao ser voltada para a educação, tem suas especificidades metodológicas” ((Veloso e Bonilla, 2018, p. 5).
Os autores afirmam que a pesquisa-formação é um tipo de pesquisa-ação desenvolvida no âmbito da área educacional, por se caracterizar também como um processo formativo. O trabalho se propõe a estudar o processo criativo dos docentes de uma escola estadual no contexto da cibercultura, aonde a tecnologia vem influenciando o processo pedagógico, e tem como objetivo transformações no que se refere aos processos educativos.
O artigo Formação sustentável do professor no mestrado profissional, de Silva (2017), é fruto de uma pesquisa-ação, por se caracterizar como uma proposta interventiva e por se tratar de estudo de profissionais a respeito de suas próprias práticas. O estudo teve como questão central: “Que contribuições a universidade pode oferecer para a formação sustentável do professor de língua materna, orientada pela prática de pesquisa científica na escola básica brasileira?”.
Os autores colocam a “pesquisa-ação como tipo privilegiado de investigação no MP pela nossa própria experiência enquanto formadores revelar a relevância desse tipo de pesquisa para a produção de respostas às demandas do local de trabalho docente” (Silva, 2017, p. 723). Durante toda a apresentação do trabalho, a pesquisa-ação é apresentada como metodologia de grande contribuição à área educacional, sendo referenciado diversos autores que discutem essa metodologia.
O artigo Práticas de leitura literária e a contribuição do PNAIC, de Zanchetta Júnior (2017), se propõe a avaliar as práticas de leitura literária sugeridas pelo Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). A pesquisa teve como base o polo de Assis/SP, com encontros presenciais com orientadores e coordenadores locais, através de etapas da pesquisa-ação como a análise diagnóstica, intervenções propositivas e a prática determinada, conforme o autor acrescenta foram “[...] desenvolvidas como etapas condensadas de uma pesquisa-ação: análise diagnóstica imediatamente sucedida por intervenções propositivas, levando-se em conta as impressões de leitura dos participantes para a promoção de noções teóricas e práticas determinadas” (Zanchetta Júnior, 2017, p. 154).
Através da apresentação das atividades desenvolvidas na pesquisa, pode-se observar que essas se coadunam com o que foi apresentado no que se refere à proposição de mudanças e alterações na prática profissional, como uma das principais características da metodologia apresentada.
O trabalho sob o título Caracterização da avaliação da aprendizagem nas salas de recursos multifuncionais para alunos com deficiência intelectual ( Anache e Resende, 2016), assinala como pesquisa-ação por trazer a reflexão sobre a prática. Tem como objetivo a caracterização do processo da avaliação da aprendizagem escolar realizada pelos professores das salas de recursos multifuncionais, sendo realizada através da metodologia que as autoras tratam como pesquisa colaborativa.
Porém, ao descrever a pesquisa, as autoras afirmam que, após a fase inicial e de coleta de algumas informações, inicia-se as fases da pesquisa em que, “confrontam-se as respostas com as orientações fornecidas pelos pesquisadores sobre o tema, estimulando-os à reflexão crítica e à reconstrução das práticas docentes que deverão ser introduzidas na escola” (Anache e Resende, 2016, p. 578).
Assim, observa-se que a pesquisa se distinguiu pela reflexão crítica dos professores sobre o seu trabalho, oportunizando a interação entre os sujeitos. Sendo desenvolvida por meio da descrição, informação, confronto e reconstrução das práticas, possibilitando a capacidade reflexiva. Isso confirma a percepção de características próprias da pesquisa-ação nesse trabalho.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base no que foi apresentado acima, observa-se que a pesquisa-ação é recente e ainda pouco utilizada, apesar de se caracterizar como uma metodologia aplicável em diversas áreas do conhecimento, pois encontra alguns desafios na sua execução. Por se tratar de uma metodologia que demanda várias fases, como a coleta de dados, implementação das ações definidas e acompanhamento dessas ações através de um ciclo interativo, ela demanda médio ou longo prazo de acompanhamento.
Outro desafio nesta metodologia refere-se à participação e envolvimento dos pesquisadores e pesquisados e a busca pela imparcialidade nas discussões e proposições levantadas. Além disso, há a resistência de alguns pesquisadores em reconhecer o caráter científico desta estratégia, devido ao seu enfoque empírico.
Os resultados apontaram para um total de cinco artigos em um universo de cento e quarenta e três artigos publicados, o que leva a um percentual de 3,5% de trabalhos que trazem a pesquisa-ação como metodologia adotada, um número pouco expressivo.
Se levarmos em consideração as contribuições que esta metodologia proporciona ao propor melhorias nas políticas educacionais e práticas pedagógicas, pode-se refletir que é uma metodologia que precisa ser mais difundida entre os pesquisadores, por trazer resultados práticos no desenvolvimento dos estudos. Porém, por este motivo, também é uma estratégia que requer maior envolvimento dos pesquisadores com a causa e com as mudanças propostas na realização do estudo.
De modo geral, a metodologia utilizada pelos pesquisadores denominada de pesquisa-ação que foram identificadas nas publicações analisadas, estas seguiam os apontamentos que foram colocados neste trabalho como proposta metodológica para o desenvolvimento de uma pesquisa.
Porém, apesar de alguns desafios, observa-se que esta metodologia tem grandes contribuições no que se refere a resultados efetivos, ao processo de socialização do conhecimento e de conscientização do público envolvido. Executada através de técnicas e estratégias de trabalhos com grupos, traz conceitos como autonomia, emancipação e diálogo como centrais na sua execução.
REFERÊNCIAS
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Barbier, R. A pesquisa-ação. Tradução de LucieDidio. Brasília: Liber Livro Editora, 2004.
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Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Adda Késia - 25%
Idinária Faustino Pereira - 25%
Raiana Marjorie Amaral de Oliveira - 25%
Roseane Idalino da Silva - 25%