Percepção dos moradores da comunidade de Cabeça de Boi - Itambé do Mato Dentro (MG), e dos turistas que visitam a região acerca dos impactos desencadeados pela atividade turística
Perception of the people of the community of Cabeça de Boi - Itambé do Mato Dentro (MG) and tourists that visit the region on impacts understood by tourism activity
Percepción de los moradores de la comunidad de Cabeza de Boi, Itambé del Mato Dentro (MG) y de los turistas que visitan la región acerca de los impactos desencados por la actividad turística
Percepção dos moradores da comunidade de Cabeça de Boi - Itambé do Mato Dentro (MG), e dos turistas que visitam a região acerca dos impactos desencadeados pela atividade turística
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 10, pp. 01-18, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 26 Junho 2019
Revised: 26 Julho 2019
Aprovação: 13 Agosto 2019
Publicado: 23 Agosto 2019
Resumo: O ecoturismo representa um segmento do turismo que utiliza de forma sustentável os recursos naturais, buscando incentivar a conservação destes e promover o bem-estar da população. Neste sentido, a comunidade de Cabeça de Boi, situada na cidade de Itambé do Mato Dentro (MG), corresponde à um local comumente procurado por turistas dada a existência de diversos atrativos turísticos naturais, tais como as cachoeiras do Intancado, da Maçã, do Chuvisco, além do Lajeado e Poço. Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo identificar a percepção dos moradores dessa comunidade e dos turistas que frequentaram a região no período desta pesquisa acerca dos impactos desencadeados pela atividade turística. Para tal, utilizando uma abordagem quali-quantitativa foram entrevistados 15 moradores locais e aplicados questionários a 182 turistas. Considerando a percepção dos moradores da comunidade referente ao turismo, salienta-se como impacto positivo a geração de emprego, contudo, uma parcela significativa dos entrevistados não reconhecia que esta atividade desencadeava impactos ambientais negativos. Ressalta-se que a maioria dos turistas que frequentaram a região correspondia à jovens e adultos, possuindo nível superior de escolaridade. Em relação aos elementos turísticos considerados positivos pelos turistas podem ser destacadas a gastronomia e a qualidade do atendimento; por sua vez a limpeza dos atrativos e a sinalização precisam ser adequados. Nota-se, assim, que o planejamento da atividade turística se mostra essencial para a comunidade, uma vez que visa diminuir os impactos negativos, promover a conservação dos atrativos turísticos e fomentar o desenvolvimento econômico local.
Palavras-chave: Ecoturismo, Educação ambiental, Impactos socioambientais.
Abstract: Ecotourism represents a segment of tourism that uses sustainable natural resources, seeking to encourage conservation of these and promote the well-being walfare of the population. In this sense, the Cabeça de Boi community, located in the city of Itambé do Mato Dentro (MG), corresponds to a place commonly sought wanted by tourists given the existence of several natural tourist attractions, such as the waterfalls of Intancado, Maçã, Chuvisco, in addition to Lajeado and Poço. Thus, this research aimed to identify the perception of the residents perception of this community and the tourists who have visited the region in the period of this research about the impacts triggered by the tourist activity. For this, using a qualitative and quantitative approach, 15 residents were interviewed, and questionnaires were applied to 182 tourists. Considering the perception of the residents perception of the community regarding tourism, it is highlighted as a positive impact the generation of employment, however, a significant part of the interviewees did not has not recognized that this activity had negative environmental impacts. It should be noted that most of the tourists who attended the region corresponded to the young and adults, having a higher education level. In relation to the tourist elements considered positive by the tourists can be highlighted the gastronomy and the quality of the service quality; In turn it was necessary to adequate the signage and the cleaning of the attractions. Thus, it is noted that the planning of tourism is essential for the community, since it aims to reduce negative impacts, promote the conservation of tourist attractions and foster local economic development.
Keywords: Ecotourism, Environmental education, Social and environmental impacts.
Resumen: El ecoturismo representa un segmento del turismo que utiliza de forma sostenible los recursos naturales, buscando incentivar la conservación de éstos y promover el bienestar de la población. En este sentido, la comunidad de Cabeza de Boi, situada en la ciudad de Itambé del Mato Dentro (MG), corresponde a un local comúnmente buscado por turistas dada la existencia de diversos atractivos turísticos naturales, tales como las cascadas del Intancado, de la Manzana, Chuvisco, además del Lajeado y Pozo. De esta forma, esta investigación visó identificar la percepción de los habitantes de esa comunidad y de los turistas que asistieron a la región en el período de esta investigación acerca de los impactos desencadenados por la actividad turística. Para esto, utilizando un enfoque cualitativo y cuantitativo, se entrevistó a 15 residentes locales y se aplicaron cuestionarios a 182 turistas. Considerando la percepción de los habitantes de la comunidad referente al turismo, se destaca como impacto positivo la generación de empleo, sin embargo, una parte significativa de los entrevistados no reconocía que esta actividad desencadenaba impactos ambientales negativos. Se resalta que la mayoría de los turistas que asistieron a la región correspondían a jóvenes y adultos, con un nivel superior de escolaridad. En cuanto a los elementos turísticos considerados positivos por los turistas pueden destacarse la gastronomía y la calidad de la atención; a su vez, la limpieza de los atractivos y la señalización deben ser adecuados. Por lo tanto, se observa que la planificación del turismo es esencial para la comunidad, ya que tiene como objetivo reducir los impactos negativos, promover la conservación de las atracciones turísticas y fomentar el desarrollo económico local.
Palabras clave: Ecoturismo, Educación ambiental, Impactos socioambientales.
1. Introdução
O turismo corresponde a um conjunto de resultados de caráter econômico, financeiro, político, ambiental, social e cultural produzido em uma localidade, por meio do contato entre os visitantes com os locais visitados ou do deslocamento temporário de pessoas de seu local habitual de residência para outros, de forma espontânea e sem fins lucrativos (Oliveira, 2007).
De acordo com Bueno et al. (2011), devido ao seu crescimento, a atividade turística está sendo segmentada, especializando-se dentre outras, nas áreas do turismo rural, cultural, religioso, de aventura, turismo náutico, de negócios, gastronômico, ecológico, para a terceira idade e infantil. Neste sentido, o ecoturismo representa um segmento turístico que usa de forma sustentável os patrimônios natural e cultural, incentivando sua conservação e buscando a formação de uma consciência ambiental por meio da compreensão do meio ambiente, promovendo, assim, o bem-estar da população que reside nestes locais (Rodrigues, 2009).
A cidade de Itambé do Mato Dentro, localizada na porção centro-leste do Estado de Minas Gerais, possui diversos atrativos turísticos naturais, podendo ser destacadas a Cachoeira do Lúcio, a 1 km do município; a Cachoeira da Vitória, com 70 metros de queda, a 3 km da cidade; a Cachoeira da Maçã e a Cachoeira do Encantado (ou Intancado), localizadas próximo à comunidade de Santana do Rio Preto, à 13 km da cidade; a Cachoeira da Serenata, composta por um conjunto de três quedas, à 8 km da cidade e a Cachoeira do Funil, com suas piscinas naturais, localizada à 6 km do município (Miguilim, 2012).
Neste contexto, a comunidade de Santana do Rio Preto, mais conhecida como Cabeça de Boi, corresponde a uma das áreas do município com potencial para o crescimento turístico, sendo que nos últimos anos foram construídas diversas pousadas e casas para aluguel na região. De acordo com Miguilim (2012), o turismo possibilita para esta região a interação cultural entre os moradores da comunidade e os turistas, além de representar uma fonte de renda para a comunidade local.
Por outro lado, o turismo pode desencadear impactos negativos, tanto sociais como ambientais, como o aumento da geração de resíduos, a degradação da paisagem, o desmatamento, a contaminação e o assoreamento de rios, o aumento do tráfego de veículos, o aumento da marginalidade e a migração de famílias para a comunidade, caso esta atividade seja desenvolvida sem um planejamento adequado (Ministério do Meio Ambiente, 2005).
Desta forma, este trabalho objetivou delinear o perfil dos turistas que frequentam a região de Cabeça de Boi e caracterizar a percepção destes e dos moradores locais quanto aos impactos positivos e negativos desencadeados pela atividade turística.
Salienta-se que essas informações podem contribuir para a proposição de medidas de controle e/ou mitigação dos impactos negativos causados ao meio ambiente, derivados das atividades antrópicas, possibilitando o desenvolvimento do turismo em bases sustentáveis.
2. Metodologia
O distrito de Cabeça de Boi, situado na vertente leste da Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira, adjacente a Serra do Cipó e ao Parque Nacional (PARNA) homônimo (Figura 1), possui vários balneários utilizados para atividades turísticas, tanto pelos moradores da comunidade quanto pelos visitantes, podendo ser destacadas as cachoeiras da Maçã, do Intancado, do Chuvisco, do Chiquinho, o Lajeado e o Poço, além da própria paisagem urbana do vilarejo, que remete às construções do século XIX (Miguilim, 2012). Além disso, a comunidade também atrai os turistas por meio de festividades, podendo-se ressaltar a festa de Nossa Senhora de Santana e a tradicional Festa da Banana com Melado, que acontecem no mês de julho.

Segundo Fernandes (2013), Cabeça de Boi possuía como principal economia local o corte de candeia, atividade que atualmente é proibida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) devido à conservação da APA Morro da Pedreira.
Devido à quantidade de atrativos naturais, tais como as cachoeiras da região; o estado de conservação do meio ambiente da região e em função do potencial turístico local, os moradores da comunidade encontraram na atividade turística, iniciada há cerca de 12 anos, uma alternativa para o desenvolvimento da economia (Fernandes, 2013).
Dessa forma, para o alcance dos objetivos deste trabalho, utilizou-se a abordagem quanti-qualitativa, por meio da pesquisa de campo. Destaca-se que a pesquisa de campo é utilizada com o objetivo de conseguir informações, conhecimentos ou comprovar uma hipótese acerca de um problema, para o qual se procura uma resposta, ou ainda, descobrir novos fenômenos ou as relações entre eles; consistindo também na observação de fatos e fenômenos que ocorrem espontaneamente (Marconi & Lakatos, 2002).
Segundo Prodanov e Freitas (2013), a pesquisa quantitativa é aquela que apresenta os dados por meios quantificáveis, ou seja, permite que as informações coletadas sejam interpretadas através de números, opiniões e informações para caracterizá-las e avaliá-las. Em contrapartida, ao invés de estatísticas, regras e outras generalizações, a pesquisa qualitativa é basicamente aquela que busca entender um fenômeno específico em profundidade, utilizando-se de descrições, comparações, interpretações e atribuição de considerações metodológicas sobre projetos de pesquisa e significados (Botelho & Cruz, 2013).
Os instrumentos de coleta de dados utilizados nesta pesquisa foram a entrevista e o questionário. A entrevista pode ser considerada como um instrumento básico de coleta de dados, estabelecendo interação entre o entrevistado e o entrevistador, facilitando a captação imediata das informações desejadas (Botelho & Cruz, 2013). Por sua vez, o questionário é um instrumento de coleta de dados, composto por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador. Este deve ser enviado ao informante, junto com uma nota explicando a natureza da pesquisa, sua importância e necessidade de obter respostas (Marconi & Lakatos, 2002).
A comunidade de Cabeça de Boi é composta por 50 famílias, sendo que aproximadamente 30 famílias vivem nesta área. Assim, foram entrevistados 15 moradores da comunidade (designados nesta pesquisa de “Entrevistado” 1 a 15). Dentre as perguntas realizadas, pode-se destacar os benefícios e desvantagens do turismo à comunidade, os impactos negativos socioambientais desencadeados por esta atividade e as ações que poderiam contribuir para melhorar o turismo na região.
Já os questionários foram deixados em pousadas, bar e restaurante na comunidade de Cabeça de Boi, no período compreendido entre os meses de março e agosto de 2016, sendo aplicados a 182 visitantes. De maneira geral, estes eram constituídos por 12 perguntas, em sua maioria fechada que abordavam dentre outros aspectos, a idade, grau de instrução, tempo e forma de hospedagem dos turistas; os atrativos visitados; os impactos (social e/ou ambiental; positivo e/ou negativo) na comunidade; além de uma avaliação dos atrativos e da infraestrutura local.
O tratamento dos dados obtidos foi baseado na estatística descritiva e na análise de conteúdo. De acordo com Guedes et al. (2005), a estatística descritiva se preocupa em descrever os dados, com objetivo básico de sintetizar uma série de valores de mesma natureza, por meio de tabelas, gráficos e de medidas descritivas, permitindo assim que se tenha uma visão global da variação desses valores. Já a análise de conteúdo é usada para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos e textos, conduzindo a descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, ajudando a reinterpretar e a atingir uma compreensão adequada dos dados apresentados (Moraes, 1999).
Os dados obtidos por meio das entrevistas realizadas com os moradores e questionários aplicados aos turistas foram tabulados em planilha Excel e analisados no software Statistical Package for Social Sciences (SPSS), desenvolvido pela IBM, versão 22.
3. Resultados e discussão
Para analisar a percepção dos moradores da comunidade de Cabeça de Boi em relação aos impactos do turismo para a comunidade, foram entrevistadas 15 famílias residentes na localidade. Com relação ao perfil dos entrevistados, verificou-se que 20% destes possuíam idades entre 18 e 25 anos, 33% entre 26 e 40 anos e 47% possuíam idades entre 41 e 60 anos, perfil este que é semelhante à população geral do município de Itambé do Mato Dentro que, segundo o censo demográfico do IBGE (2010b), possuía 2283 habitantes, sendo que destes 37,7% possuíam idades entre 0 e 24 anos; 19,4% idade entre 25 e 39 anos; 34,6% idade entre 40 e 69 e 8,3% dos habitantes possuíam 70 anos ou mais.
Considerando o nível de escolaridade dos entrevistados, observou-se que 40% destes possuíam ensino básico; 33% ensino fundamental; 20% ensino técnico e 7% ensino superior. Semelhantemente à faixa etária, constatou-se que os entrevistados possuíam escolaridade análoga à da população geral do município, uma vez que de acordo com dados do IBGE (2010b), 61,5% dos moradores de Itambé do Mato Dentro eram analfabetos ou possuíam ensino fundamental incompleto; 12,1% habitantes possuíam fundamental completo ou ensino médio incompleto; 11,7% habitantes possuíam ensino médio completo ou superior incompleto e 2,4% habitantes possuíam ensino superior completo.
Quando questionados a respeito de qual atrativo natural da região era o mais visitado por eles e pela família, 40% dos entrevistados indicaram o Poço, uma vez que este atrativo está localizado mais próximo da comunidade; 33% apontaram o Lajeado e 27% citaram a Cachoeira do Intancado.
Ao serem indagados se a atividade turística promovia benefícios à comunidade, os 15 entrevistados responderam de forma afirmativa, sendo que destes 80% (correspondente a 12 moradores) ressaltaram que o principal proveito está relacionado à geração de emprego. Neste sentido, de acordo com Fernandes (2013), sob a perspectiva da população, os benefícios promovidos pelo turismo na comunidade de Cabeça de Boi estão limitados aos aspectos econômicos; já para os ecoturistas esses benefícios vinculam-se à melhoria da infraestrutura para recebê-los, relacionados, por exemplo, ao abastecimento de água e pavimentação das vias de acesso, além do incremento do comércio local.
Contudo, segundo Silva e Miranda (2013), é necessário um planejamento adequado da atividade turística por parte da gestão local, para que o turismo possa contribuir para uma melhor condição socioeconômica da população. Ainda de acordo com Silva e Miranda (2013), se o planejamento do turismo e do lazer não estiver associado às ações de desenvolvimento territorial como um todo, o crescimento da atividade acarretará mais impactos negativos no território do que propriamente um desenvolvimento local.
Com relação aos impactos negativos relacionados à atividade turística, podem ser ressaltados o aumento da geração de resíduos e a disposição incorreta destes nos atrativos turísticos. Dessa forma, conforme Santos e Cândido (2015), o aumento da geração de resíduos e a ausência de um gerenciamento adequado destes causam impactos negativos ao meio ambiente, podendo provocar a poluição do solo e da água, alterando suas características físicas, químicas e biológicas, além de ser um problema de saúde pública.
Nesta perspectiva, foi questionado aos moradores se eles já encontraram resíduos ou indícios de degradação nos atrativos turísticos. Todos os entrevistados responderam afirmativamente, podendo-se ressaltar a resposta fornecida pelo Entrevistado 11 “vejo principalmente no Poço, que sempre encontro restos de fogueiras em cima das pedras, resto de comida e muito lixo”.
Os entrevistados também foram indagados sobre as ações que realizavam para minimizar esses problemas, sendo possível observar que 80% destes afirmaram recolher os resíduos sólidos que encontravam, enquanto 20% salientaram que conversavam com os turistas para que estes retornassem à comunidade com os resíduos gerados.
De acordo com Santos et al. (2010), a educação ambiental voltada para o turismo deve ser construída com a participação da comunidade visando o desenvolvimento sustentável. Nesta acepção, a educação ambiental é compreendida como um meio de comunicação para solucionar ou minimizar os impactos negativos desencadeados no ambiente.
Desse modo, ao serem questionados se o turismo desencadeava algum impacto socioambiental negativo à região, 74% dos entrevistados (correspondendo a 11 moradores) disseram que esta atividade não desencadeava impactos negativos, enquanto 26% (correspondendo a 4 moradores) afirmaram que estes impactos ocorriam na região, como salientado pelo Entrevistado 2 que declarou que “no meio ambiente causa, porque algumas pessoas não respeitam a natureza e jogam lixo em qualquer lugar”.
Ainda nesta perspectiva, quando indagados sobre as possíveis desvantagens relacionadas ao desenvolvimento turístico na comunidade, 13 entrevistados (correspondendo a 86,6%) disseram não reconhecer prejuízos vinculados à atividade; enquanto 2 entrevistados (13,4%) além de reconhecerem que o turismo pode causar danos, ressaltaram que “o meio ambiente acaba sendo muito degradado” (Entrevistado 2).
Nota-se, assim como destacado por Fernandes (2013), que uma pequena parcela dos moradores de Cabeça de Boi, relacionou a degradação do meio ambiente à falta de cuidado dos turistas, que descartam lixo nos locais visitados. Deste modo, segundo Machado e Conto (2012), para que se tenha a melhoria das atividades turísticas, os destinos turísticos necessitam de um plano de gerenciamento de resíduos sólidos e a ordenação dos recursos hídricos, com planos de gestão de uso.
Por fim, quando questionados sobre quais ações contribuiriam para melhoria do turismo na região, 53,5% dos entrevistados disseram que a comunidade deveria ser mais divulgada; 33,3% afirmaram que deveria ter mais sinalização turística nas cidades vizinhas; enquanto 13,2% disseram que não precisava melhorar.
Percebe-se, dessa forma, que o turismo promove benefícios para comunidade, principalmente no âmbito socioeconômico, representado pela geração de emprego. Entretanto, com relação ao meio ambiente, pode-se constatar que a população não possuía informações suficientes relacionadas às formas de degradação ocasionadas por esta atividade.
3.1 Percepção dos turistas acerca do turismo na região de Cabeça de Boi
Segundo Vieira et al. (2014), a compreensão do perfil do ecoturista no Brasil mostra-se importante para orientar as alternativas visando a implantação desse segmento em qualquer destino. Assim, com relação ao perfil dos turistas participantes desta pesquisa (n = 182) observou-se que 73% destes eram originários de Belo Horizonte e região metropolitana; 26,5% do interior de Minas Gerais e 0,5% de outros Estados e países, como a França.
Além disso, notou-se que 48,3% dos respondentes, quando participaram deste estudo, possuíam idades entre 25 e 40 anos, seguidos pela faixa etária de 40 a 60 anos (correspondendo a 30,7% dos turistas pesquisados) caracterizando assim um perfil de turistas jovens e adultos. Segundo Alvite et al. (2014), os adultos procuram por atividades de recreação com menor gasto de energia e com apreciação da natureza, já os jovens tem preferência por atividades mais energéticas, como caminhadas e a prática de esportes radicais
Considerando o nível de escolaridade, 56% dos turistas haviam concluído o nível superior, 24,7% possuíam curso técnico, 12% tinham ensino fundamental e 7,3% ensino básico. Estes dados estão de acordo com aqueles apresentados por Campos et al. (2011), que discorrem que ecoturistas possuem um nível elevado de escolaridade e normalmente são mais conscientes das necessidades relativas à conservação ambiental e das atividades ecoturísticas.
Verificou-se que 54% dos turistas haviam viajado com a família; 37% estavam acompanhados por amigos; 4,5% responderam que viajavam com outros, como por exemplo, namorado(a), e 4% estavam sozinhos. Segundo a Confederação Nacional do Turismo – CNTUR (2012) grupos que normalmente viajam em família ou com amigos, optam por destinos que atendam às diferentes expectativas, buscando harmonizar os diferentes interesses da viagem, abrangendo desde a apreciação da natureza até a prática de esportes radicais.
Pode-se contatar através dos questionários que 58,7% dos turistas já conheciam a região e 41,3% estavam visitando-a pela primeira vez. Observou-se também que, dentre aqueles que já conheciam a região, 35% dos turistas já a visitaram de 2 a 5 vezes; 15% de 6 a 10 vezes e 8,7% mais de 10 vezes.
Destaca-se que 56,5% dos visitantes permaneceram na comunidade de 3 a 4 dias; 42,3% permaneceram por 2 dias e 1,2% retornou à cidade de origem no fim do dia. De acordo com Dutra et al. (2008), percebe-se uma tendência referente ao turismo de curta duração, concentrado especialmente no período de férias escolares e feriados prolongados. Por outro lado, salienta-se que a concentração da demanda turística em certos períodos do ano desencadeia impactos negativos para a comunidade, relativos, por exemplo, à mão de obra temporária (Vidal, 2015).
Notou-se também que 50,5% dos respondentes conheceram a região por meio de amigos, enquanto 39,5% a conheceram por indicação de familiares, como apresentado no Gráfico 1. Segundo Barros (2008), os ecoturistas que apreciam da experiência e saem satisfeitos, tendem a partilhar suas experiências positivas de viagem com os seus amigos e parentes, além de retornarem aos destinos turísticos.

Neste sentido, todos os participantes desta pesquisa (182 turistas) pretendiam retornar à comunidade, sendo que destes, 56% ressaltaram a beleza e a tranquilidade da região; enquanto 35,7% destacaram a hospitalidade da população.
Com relação aos atrativos turísticos mais visitados pelos turistas, pode-se constatar que 62% dos respondentes indicaram mais de um atrativo turístico; 12% indicaram a Cachoeira do Intancado; seguida pelo Poço (10,2%); o Lajeado (9,3%) e a Cachoeira da Maçã (6,5%), conforme apresentado no Gráfico 2.

Quanto à qualidade do acesso aos atrativos turísticos da comunidade, apresentados no Gráfico 3, observou-se que, 53,8% dos participantes da pesquisa a classificaram como ótima, enquanto 32,9% acharam o acesso bom. Com relação à qualidade dos atrativos turísticos da comunidade de Cabeça de Boi, 89,5% dos respondentes os consideraram ótimos e 10,5% acharam apenas bom.

Considerando a limpeza dos atrativos turísticos, 39% dos respondentes a julgaram regular, enquanto 21,9% a descreveram como ruim. Neste sentido, ressalta-se que a limpeza dos atrativos turísticos corresponde a um elemento importante relacionado aos destinos turísticos, uma vez que sua ausência acaba degradando a imagem da região, causando uma poluição visual, além de possibilitar a contaminação dos cursos d’água (Oliveira et al., 2010).
Em relação à qualidade da sinalização até os atrativos turísticos, apresentada no Gráfico 3, 42,3% dos turistas participantes desta pesquisa a julgaram péssima, enquanto 31,3% dos respondentes a consideraram regular. Segundo Bittencourt (2015), a sinalização é um dos aspectos mais importantes do destino turístico, visto que possibilita ao turista se localizar no seu destino de forma mais simplificada.
Considerando a gastronomia da comunidade de Cabeça de Boi, 46,1% dos participantes desta pesquisa a classificaram como boa, enquanto 37,9% a julgaram como ótima. Neste contexto, segundo Barczsz e Amaral (2010), é muito importante que as cidades estabeleçam seu prato típico ou que criem algo que possa atrair os turistas, pois assim a região pode também tornar-se conhecida pela gastronomia e cultura.
Em relação à qualidade do atendimento aos turistas, 55,4% dos respondentes a consideraram boa, enquanto 33,5% a julgaram ótima. Salienta-se que com relação à impressão geral da região enquanto destino turístico, conforme apresentado no Gráfico 3, 143 respondentes (correspondendo a 78,5%) classificaram a localidade como ótima e 24 turistas (correspondente a 13,2%) a consideraram boa.
Destaca-se que os participantes desta pesquisa deram sugestões para a melhoria do turismo na comunidade, sendo que 52,2 % respondentes apontaram a conscientização ambiental dos turistas e moradores; 13,1% ressaltaram a necessidade de mais opções de atividades de lazer; 29,7% indicaram a melhoria na informação turística sobre a região e 5% sugeriram a elaboração do plano diretor para o município.
Além disso, os participantes dessa pesquisa foram questionados se o turismo causava algum impacto (social e/ou ambiental, positivo e/ou negativo) à comunidade, sendo possível notar que 59,4% dos respondentes (correspondendo a 108 visitantes) indicaram que o principal impacto causado pelo turismo se relacionava ao meio social, gerando renda e oportunidades de trabalho para a comunidade. Com relação ao meio ambiente 40,6% dos turistas consideraram que o impacto é negativo, uma vez que esta atividade pode causar a degradação e a destruição dos atrativos turísticos.
Diante dos resultados obtidos nesta pesquisa, a comunidade pode realizar melhorias na infraestrutura; incrementar e divulgar sua gastronomia; conscientizar o visitante a respeito da necessidade de conservar os atrativos turísticos; além de solicitar ao poder público benfeitorias referentes à sinalização e à limpeza periódica dos atrativos turísticos, visando o desenvolvimento turístico sustentável da região.
4. Conclusões
O turismo é um dos setores que mais cresce no Brasil, possuindo grande relevância para as pequenas comunidades, visto vez que contribui para o desenvolvimento econômico destas. Contudo, destaca-se que as atividades turísticas podem desencadear em uma comunidade impactos positivos e negativos nos âmbitos econômico, social e ambiental.
Dessa forma, dentre os impactos positivos relacionados à esta atividade, podem ser ressaltadas a geração de emprego, valorização do patrimônio cultural e melhoria da qualidade de vida da comunidade. Já com relação aos impactos negativos destacam-se o aumento da população, aumento da geração de resíduos e degradação do meio natural.
Com relação à percepção dos residentes na comunidade de Cabeça de Boi, identificou-se que atividade turística causa impactos negativos e positivos à região, tais como o aumento da geração de resíduos e a geração de emprego, respectivamente. Dessa forma, com o intuito de minimizar os impactos associados aos resíduos, os moradores ressaltaram que conversavam com os turistas para que estes retornassem à comunidade com os resíduos gerados. Ainda neste sentido, salienta-se que alguns moradores entrevistados destacaram que a atividade turística não desencadeava impactos ambientais negativos, apesar de relatarem a presença de resíduos sólidos ou indícios de degradação nos atrativos turísticos da região.
A partir dos questionários aplicados aos turistas que frequentaram a região no período desta pesquisa, constatou-se que estes correspondiam, em sua maioria, a jovens e adultos, com formação acadêmica de nível superior. Ademais notou-se uma tendência ao desenvolvimento do turismo de curta duração, visto que o maior fluxo de visitação ocorria nos finais de semana e feriados prolongados. Destaca-se ainda que os turistas reconheceram que a atividade turística causa a degradação do meio natural e que para a melhoria da mesma, deve-se promover a conscientização ambiental dos moradores locais e dos visitantes.
Nesta perspectiva, sugere-se a manutenção periódica dos atrativos turísticos e o desenvolvimento de programas de educação ambiental abarcando moradores e turistas, visando às práticas de conservação do meio ambiente. Além disso, ressalta-se que o planejamento da atividade turística se mostra essencial para a comunidade, uma vez que visa diminuir os impactos negativos, promover a conservação dos atrativos turísticos e fomentar o desenvolvimento econômico local. Contudo, para que este planejamento ocorra em bases sustentáveis é indispensável a participação de todos os envolvidos no desenvolvimento da atividade turística.
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Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Gilcilaine da Silva Perdigão – 60%
Juni Silveira Cordeiro – 10%
Giovanna Moura Calazans – 10%
Graziele Lage Alves Santiago – 10%
José Luiz Cordeiro – 10%