As mordaças da gramática normativa: o preconceito linguístico
The Gags of Normative Grammar: the linguistic prejudice
Los gags de la gramática normativa: los prejudicios linguísticos
As mordaças da gramática normativa: o preconceito linguístico
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 11, pp. 01-17, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 30 Julho 2019
Revised: 07 Agosto 2019
Aprovação: 10 Agosto 2019
Publicado: 24 Agosto 2019
Resumo: Neste artigo, refletimos sobre a problemática de ainda existir uma gramática normativa e como ela afeta os falantes das comunidades linguísticas, gerando o preconceito linguístico. Intentamos mostrar como a escrita tem ainda um espaço privilegiado, o que acaba abrindo margens para a transformação das regras linguísticas naturais em uma camisa de força. Também pretendemos pensar a língua como um sistema sígnico posto em processo pelos falantes - detentores naturais de uma faculdade de linguagem - sendo viva, portanto, podendo ter seu sistema modificado, dentro das regularidades previstas, pois é uma estrutura. A partir do processo, que são os enunciados, os discursos, podemos refletir sobre língua e discurso, resolvendo talvez o problema, baseando-nos, principalmente, em autores como Bagno (1999, 2007), Greimas (1973, 1975), Hjelmslev (1975), Perini (1999, 2001) e Saussure (2006).
Palavras-chave: Sistema sígnico, Língua, Faculdade da linguagem.
Abstract: In this article, we reflect on the problem of the existence of a normative grammar and how it affects the speakers of linguistic communities, generating linguistic prejudice. We intend to show how writing still has a privileged space, which ends up opening margins for the transformation of natural linguistic rules into a straitjacket. We also intend to think of the language as a sign system put in process by the speakers - natural holders of a language faculty - being alive, therefore, having its system modified, within the predicted regularities, as it is a structure. From the process, which are the utterances, the discourses, we can reflect on language and discourse, perhaps solving the problem, based mainly on authors such as Bagno (1999, 2007), Greimas (1973, 1975), Hjelmslev ( 1975), Perini (1999, 2001) and Saussure (2006).
Keywords: Signal system, Language, Faculty of language.
Resumen: En este artículo, reflexionamos sobre el problema de la existencia de una gramática normativa y cómo afecta a los hablantes de las comunidades lingüísticas, generando prejuicios lingüísticos. Tenemos la intención de mostrar cómo la escritura todavía tiene un espacio privilegiado, que termina abriendo los márgenes para la transformación de las reglas lingüísticas naturales en una camisa de fuerza. También pretendemos pensar en el lenguaje como un sistema de signos puesto en marcha por los hablantes (poseedores naturales de una facultad de idiomas), por lo tanto, estar vivo, por lo tanto, habiendo modificado su sistema, dentro de las regularidades previstas, ya que es una estructura. Del proceso, que son las expresiones, los discursos, podemos reflexionar sobre el lenguaje y el discurso, quizás resolviendo el problema, basado principalmente en autores como Bagno (1999, 2007), Greimas (1973, 1975), Hjelmslev ( 1975), Perini (1999, 2001) y Saussure (2006).
Palabras clave: Sistema de señalización, lenguaje, facultad de lenguaje.
1. Introdução
Os estudos linguísticos iniciados pelo genebrino Ferdinand de Saussure marcam o início da linguística no rol das ciências, apresentando conceitos fundamentais para que a disciplina fosse assim considerada. Entre esses conceitos temos o de língua, que foi tida como o objeto de estudo da linguística, pois a linguagem seria fenômeno por demais abrangente, “heteróclita e multifacetada”.
A língua é um sistema de signos, de acordo com o mestre de Genebra, ou, como afirmou Greimas, é uma rede de relações, apresentando uma organização estrutural imanente, dominando os sujeitos falantes, que são incapazes de mudá-la. Dessa forma, os falantes estão sujeitos ao sistema linguístico, que ao usarem de sua criatividade, criam diversas combinações sígnicas. Ou seja, o falante mais que ninguém sabe utilizar a língua, portanto a acusação de que ele possa estar errado surge quando temos um padrão a ser seguido, não o padrão do próprio sistema linguístico, mas de um padrão construído a partir da cristalização de certas regularidades linguísticas de uma determinada época.
O falante fica preso a esse padrão, a essa norma, a fim de “acertar” como fala, para se comunicar bem, tendo a ingênua ideia de que seguir esse padrão o fará atingir seus objetivos comunicacionais e de que esse padrão reflete a realidade linguística, estando sujeito às críticas de outros falantes, por causa de um preconceito linguístico, que é uma sanção negativa ao desviar-se da norma, indo esta muito além de uma convenção de usos linguísticos para a eficácia comunicacional nas mais diversas situações comunicativas.
Este artigo se mostra relevante, na medida em que mostra a importância de não desvincular as descobertas linguísticas científicas do discurso pedagógico dentro das escolas, assim como corrobora e reitera as descobertas científicas, a fim de que não sejam mal interpretadas, nem que as considerem distantes da situação comunicativa comum, de maneira a tornar a língua colocada como disciplina na escola algo diferente daquilo que sabemos ser a linguística.
Portanto, objetivamos compreender como a existência e o ensinamento de uma norma gramatical prejudicam o correto conhecimento linguístico e acabam por embasar um dos muitos problemas sociais, o preconceito linguístico.
2. Metodologia
Para Marconi e Lakatos (2001), a pesquisa é considerada como um procedimento formal com método de pensamento reflexivo que requer um tratamento científico, constituindo-se como um caminho para se conhecer a realidade ou descobrir verdades parciais. Pode ser bibliográfica quando trata do levantamento de toda a bibliografia já publicada, oferecendo meios para definir, resolver, não somente problemas já conhecidos, como também explorar novas ideias. Já, de acordo com Gil (2002), a pesquisa é qualitativa quando não busca enumerar os dados ou apresentar a estatística deles e é exploratória quando seu principal objetivo é o aprimoramento de ideias ou descoberta de intuições, proporcionando maior familiaridade com o problema.
Este artigo apresenta uma pesquisa de caráter dedutivo, de acordo com as considerações de Marconi e Lakatos (2001), pois parte de conceitos linguísticos gerais, de critérios científicos, para combater a noção de norma usada no ensino de muitas escolas, sendo bibliográfica, pois busca em sites e livros as bases para análise e reflexão. Além disso, conforme Gil (2002), é qualitativa e exploratória, buscando esclarecer o que seria uma gramática, com base na ciência linguística, e o problema decorrente da cristalização da gramática natural da língua, oferecendo uma visão panorâmica do problema e uma possível solução. Dessa forma, fomos contrapondo conceitos e ideias baseados na teoria, assim como refletindo as consequências dos conceitos ensinados e como os conceitos e as ideias baseados na ciência linguística podem gerar outras consequências não-nocivas.
3. Referencial teórico
Os estudos sobre a linguagem se iniciam no século IV a.C. com os hindus. Esse fascínio se deve ao fato de a linguagem ser a base última da sociedade, moldando os pensamentos do homem, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, suas vontades e seus atos, conforme já afirmou Hjelmslev (1975). Sendo uma atividade exclusivamente humana, Câmara Jr. (1970) três traços característicos podem ser destacados: (I) propósito claro e definido, (II) significação permanente e (III) divisibilidade na representação.
Alguns traços característicos da linguagem, que a mostram como humana, foram pontuados por Coseriu (1982): a linguagem não é uma mera atividade de expressão subjetiva entre outras, nem se resume a falar, não podendo ser equiparada a uma função, pois os atos de fala e a definição da linguagem mediante um “serve para” ou “serve fundamentalmente para isto ou aquilo” não se tratam da finalidade da linguagem, mas apensas os fins dos atos de fala.
Entretanto, a linguagem é um falar com o outro, por isso a “comunicação” dos animais não pode ser considerada linguagem, porque nada comunicam, sendo apenas um código, em que há um ajuste de uma reação a outra reação. Uma outra comprovação ou característica apontada pelo autor, importante para os objetivos deste artigo, é que a linguagem como fala se realiza segundo uma técnica determinada e condicionada historicamente, ou seja, de acordo com uma língua.
Essas últimas afirmações nos levam diretamente ao fator social, pois as línguas são um acordo de uma determinada comunidade linguística, como bem lembra Saussure (2006), já que dentre os signos que se encontram no sistema, aqueles que se realizam e se fixam em uso, têm de ser aceitos pelos falantes da comunidade. Sendo assim, a língua é o meio para nos comunicarmos.
Bakhtin (2006) diz que a língua é uma ferramenta para a enunciação do locutor, para este, a construção da língua é orientada no sentido da enunciação da fala. O enunciador jamais em uma situação de fala diz a mesma coisa da mesma forma, adequando os signos ao que deseja pronunciar, numa escolha paradigmática para uma disposição sintagmática.
A escrita surge, assim, como a maneira para maior fixação do que é dito, mas
É quase impossível proceder à constituição arqueológica do processo de invenção da escrita, ou seja, da transposição de um código de substância sonora para um código de tipo visual. No entanto, a lentidão desse processo e a complexidade de problemas a resolver, como por exemplo a constituição de uma fonologia implícita necessária para a transposição, nos fazem pensar que a escrita, e talvez não o cavalo, foi a mais nobre conquista do homem, e que talvez a descoberta deve ser correlacionada com uma mutação qualitativa brusca do pensamento humano (Greimas, 1975: 48).
Dessa forma, os estudos da linguagem que levaram a identificar as regularidades de uma sincronia e transformá-las em uma norma, ao lado do prestígio dado à escrita foram suficientes para embasarem a formulação ingênua de um preconceito grafocêntrico e linguístico, preconceito este que, obviamente, impede uma análise linguística científica.
Os falantes devem, portanto, entender que os estudos baseados em textos escritos para se obter uma gramática a ser seguida não devem ser parâmetro para falarem, escreverem e/ou analisarem a língua, pois este mesmo falante, segundo mostrou Chomsky (2015), cujas maiores contribuições são seus estudos cognitivistas, o ser humano nasce com uma faculdade inata de linguagem, possuindo uma gramática intuitiva. Por isso, o falante, sendo o enunciador, aquele que põe o sistema linguístico em processo, é o fornecedor do conhecimento linguístico, ele é o parâmetro, consequentemente não há compreensão para a existência de um preconceito linguístico.
Koch (1999) fala que cada língua possui uma variedade de formas de expressão, abrindo-se desta maneira um espaço amplo de formulação para o falante, isto é, a possibilidade de um leque de opções possíveis. Sendo assim, o mito de que é necessário ter um conhecimento da norma gramatical para se conseguir manifestar as ‘intenções’ ou atingir seus propósitos, não é necessário, na verdade. Não defendemos, contudo, a abolição do ensino de gramática, mas sim de um repensar sobre a questão de uma norma gramatical, como se equivalesse ao ensino da língua.
Perini (1999) é um dos teóricos que corroboram com a afirmação anterior, protestando contra as gramáticas que querem amordaçar a língua, prendê-la, modifica-la e ditar regras, contradizendo, assim, um dos grandes gramáticos normativistas brasileiros, Almeida (2009), este afirmava que o idioma só é sabido de fato pelo falante, se este tiver o máximo de domínio possível da gramática normativa, sob a alegação de que a língua é a mais viva expressão de nacionalidade. Portanto, Perini (1999) vai no mesmo viés de Bagno (1999) que afirma existir um padrão linguístico, mas não uniformidade nesse padrão, pois é usado por seres humanos que nunca serão criaturas física, psicológica e socialmente idênticas.
O mesmo teórico, Bagno (1999), diz que existe uma prática milenar de se confundir língua com escrita, sendo mais importante para o falante nem empregar os termos da língua e nem perder-se no emaranhado da terminologia técnica, mas comunicar-se, expressar-se, a fim de obter êxito, sendo, assim, entendido. Concordamos com a afirmação, contudo deixamos claro que o posicionamento teórico aqui adotado está vinculado menos a sociolinguística que a tradição greimasiana, portanto, reconhecemos as variações, mas nos focamos nas invariantes, na gramática dos discursos em geral.
Ao pensarmos acerca do discurso, aliás, devemos concordar com Perini (2001), que não é estudando as normas gramaticais impostas que leremos bem ou escreveremos bem, pois os textos ou discursos - que aqui tomamos como sinônimos por decisão teórica - são um todo de significação, rompendo as barreias entre frases e textos, conforme Hjelmslev (1975).
O texto é mais que frases ou sentenças bem construídas colocadas juntas, mas mais que isso, existindo, portanto, uma gramática que preside os textos. Por isso, há o dever dos educadores de “abrirem os olhos” de seus discentes, mostrando os mecanismos e regularidades que estruturam os discursos, conforme Barros (1990).
As regularidades existem nos discursos e na língua como um todo, apresentando, no português, por exemplo, uma estrutura oracional SVO (sujeito, verbo e objeto), que apresentada na sala de aula não como uma norma, mas como um fenômeno linguístico, mostrando um estudo sincrônico, ou seja, um estado da língua atual, mas que está sujeito a mudanças que depois são adotadas pela comunidade linguística, surgindo outra sincronia, constituindo uma diacronia, que advertimos não se trata de algo temporal, mas relações que um fenômeno apresenta, quando considerado em estados sucessivos da língua, segundo Lopes (1997).
Dessa forma, através de um ensino mais reflexivo sobre a língua seria um combate não só a ideia de uma norma, mas ao da existência de um preconceito linguístico, corroborando com o ensino linguístico científico iniciado pelo mestre genebrino Ferdinand de Saussure.
4. O poder coercitivo da escrita.
De acordo com o dicionário Houaiss (2009), escrita é a representação da linguagem falada por meio de signos gráficos. Greimas (1975), citado no tópico anterior, também nos apresenta uma ideia do que seria a escrita. Sendo assim, podemos entender a escrita como estática, sóbria e duradoura, seguindo normas padronizadas, principalmente, quanto a questões ortográficas, que por serem signos criados para representar a língua falada, têm de ser memorizados pelos falantes, ou seja, não se trata de um conhecimento que vem de nossa faculdade de linguagem.
Por isso o papel do educador é importante, no sentido de alertar que saber a ortografia de uma língua, não é conhecer essa língua, mas somente uma pequena parte dela, assim como dificuldades em conhecer a ortografia não se trata de baixas capacidades cognitivas, já que não podemos negar o fato de que errar a ortografia das palavras se torna motivo de zombaria.
Outra definição de escrita trazida pelo mesmo dicionário é: técnica ou método particular de se exprimir literariamente; escritura, estilo. Sem adentrarmos profundamente no que entendemos por estilística, podemos pensar nessa área ao lermos essa definição, pois
Estilo é tudo aquilo que individualiza obra criada pelo homem, como resultado de um esforço mental, de uma elaboração do espírito, traduzido em ideias, imagens ou formas concretas. A rigor, a natureza não tem estilo; mas tem-no o quadro em que o pintor a retrata, ou a página em que o escritor a descreve. (Garcia, 2010)
Assim, o enunciador se mostrará através de suas escolhas lexicais e ajustes sintáticos, por exemplo, ao reconhermos o texto de um autor pelas repetidas leituras em suas obras, captamos seu estilo. Por isso, Fernando Pessoa é colocado como um dos grandes mestres da literatura, pois seus diversos pseudônimos mostram maneiras tão diferentes de escrever, ao ponto de não serem reconhecidos como pertencendo ao mesmo autor. O que podemos destacar em relação ao estilo é a maneira particular do texto de um autor pode trazer o efeito de sentido de proximidade. Essa sensação de intimidade pela escrita é vista largamente nos chats das redes sociais.
As falas nas redes sociais, entretanto, apesar de apresentarem, muitas vezes, esse efeito de sentido, se utilizam de signos gráficos, portanto, ainda existe certo preconceito com o que seria considerado “a maneira correta de escrever”, principalmente na parte ortográfica e sintática. Até mesmo os áudios, que mais do que a conversa oral, cujo som somente está gravado na memória daquele que ouviu, seus sons estão gravados no aplicativo, podendo ser ouvidos mais de uma vez, sendo sujeitos a percepção de “erros” de pronúncia, pois ainda há uma ideia ingênua de que “se fala como se escreve e se escreve como a norma diz”.
Talvez o fato de percebermos o mundo pelos sentidos e podermos pensar como Greimas (1973) colocando a “percepção como o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”, assim como entendendo que o ser humano tende a ver o mundo e apoiar-se no que vê, como humano, possuindo um cérebro que procura regularidades, acaba por privilegiar a escrita, já que é o que permanence, assim como procurar regras permanentes para escrever, falar e pensar na língua. Obviamente essa é uma hipótese cognitivista que foge de nosso escopo e corpo teórico, estando, por isso, sujeita a análise e correção de áreas que tratem da cognição humana.
O que podemos afirmar é que a noção de certo ou errado fecha o falante em uma concepção de língua superficial e o torna escravo, até mesmo em situações comunicativas informais, como seriam as redes sociais – que apesar de virem apresentando, a cada dia, situações comunicacionais mais formais, como marcar o horário de uma consulta médica, ainda são marcadas pela informalidade.
O universo cibernético é também um ambiente para sanar as dúvidas dos estudantes, pesquisadores e curiosos, por isso pesquisamos em 11 sites[1], o que eles responderiam para a seguinte pergunta: como falar português corretamente? Os resultados podem ser vistos no Gráfico 1 abaixo:

Percebemos, portanto, que em mais da metade dos sites pesquisados, a resposta para nossa pergunta está em aprender ou decorar regras, propagando ainda mais a ideia de norma e uma falsa concepção linguística, propagando o preconceito linguístico. Por exemplo, um dos sites, um blog, DeRose coloca no mesmo nível fala e escrita e diz que cometer erros em uma das duas formas de se comunicar é uma das maiores demonstrações de que o indivíduo em questão não recebeu uma boa educação. O autor ainda defende, de modo eufêmico, que o português correto é o de Portugal. “Até quando poderemos declarar, com orgulho, que falamos uma língua vagamente aparentada com a de Camões, a melhor língua literária do mundo?”. E afirma que o fenômeno de evolução da língua portuguesa brasileira o tem deixado perplexo, pois ela caminha para tornar-se um dialeto esdrúxulo, deixando de ser português.
Acreditamos que no estágio de descobertas científicas linguísticas em que nos encontramos não há mais como considerar o português de Portugal um padrão, pois os signos escolhidos do Sistema por uma comunidade revelam sua maneira de recortar o mundo, sua cultura. Ou seja, dentre outros fatores, determinar a gramática da língua de um país para um outro país como uma norma, é inconsistente, não somente por rejeitar a cultura do país para o qual está se impondo tal gramática, como dando uma gramática para a língua, ao contrário da norma que impomos por cristarlizarmos um estado de língua, esta norma seria mais incoerente que nunca, pois seria a cristalização das regularidades de uma língua para serem impostas para uma outra língua, que é uma estrutura que têm suas próprias regularidades, o homem é “impotente” mediante essa estrutura. Vã a tentativa de impor uma gramática que não seja aquela que a língua já colocou para si, conforme Greimas (1975).
Dentre os sites e blogs este é o que mostra de maneira mais radical a visão do falar português corretamente baseado em uma norma gramatical. Os outros defendem a norma gramatical, mas não rejeitam de maneira forte o português brasileiro. Além desses, vemos os 19% que respondem colocando o certo como a escrita dos grandes escritores ou a convenção de escrita de gêneros, tais como artigos, o que não deixa de ser outra forma de entender o português correto como o de uma norma, corroborando com os 54%.
Finalmente, os que entendem que a liberdade da fala não tem a preocupação em darem ao leitor a resposta da existência de uma norma, pois entendem que o falante tem uma faculdade da linguagem, é criativo, por isso não precisam preocupar-se com a norma imposta, entretanto caminham em uma direção que os pode levar ao outro viés, que seria o radicalismo da liberdade linguística, de que não precisamos de convenções linguísticas, o que seria absurdo no mundo em que vivemos. Infelizmente, os 12% restantes não apresentaram uma resposta para a pergunta, não mostrando um posicionamento, ou seja, se entendiam o certo como uma norma, ou se não existiria a concepção de certo e errado, entre outros pontos de vista.
5. A vivacidade da língua
Sabe-se que a fala resulta do entendimento que uma pessoa tem da própria cultura e da influência que esta cultura e o indivíduo têm de outras culturas, isso gera um modo de se expressar diferenciado, pois pode resultar em uma pronúncia distinta, um vocabulário distinto, um contexto distinto do que outros indivíduos costumam usar, e por aí vai, sem, contudo, dificultar ou impedir a comunicação entre membros de uma mesma sociedade.
Mas, isso modifica a língua portuguesa? Não! Pois a estrutura da língua não foi alterada. O fato de poder manuseá-la livremente, não libertinamente, deixa-a mais bela, faz do falante um artista, não apenas um nativo da língua, pois ele possui a liberdade de configurá-la e reconfigurá-la nas situações comunicativas.
Ao refletirmos sobre a oralidade, podemos considerar que ela apresenta maior flexibilidade, pois nem sempre que falamos utilizamos a mesma norma, mas “manipula-se” a fala de acordo com as funções comunicativas que se quer exercer, de acordo com os ambientes em que o orador se encontra e o modo como reage a eles.
Por não aceitarem a realidade é que muitos gramáticos classificam por erro determinadas variações que se derivam do contexto social, considerando sociedade não apenas o todo, mas até os relacionamentos mais íntimos, pois estes também influem significativamente, até mais do que os relacionamentos mais distantes, no modo como alguém irá falar.
Afetar a integridade física e espiritual de uma pessoa é mexer com sua identidade, é coloca-la para questionar-se de modo negativo, podendo afetar sua interação e traumatizá-la. Restringindo-se ao foco deste trabalho, o preconceito linguístico mediante as variações, vê-se que os primeiros a cometerem esse tipo de preconceito, muitas vezes são os que estão mais próximos, crianças corrigem crianças de modo depreciativo, os tios e os avós, enfim, até mesmo as pessoas íntimas estão cheias de preconceito linguístico dentro de si, muitas vezes não aceitando as próprias variações que possuem, matando a língua, tentando deixá-la estática, querendo fazer do Brasil um país linguisticamente uniforme. Mera utopia.
Como lembra Bagno (2007), um perfeito paradoxo é um brasileiro nativo afirmar para outro brasileiro nativo que português é muito difícil. Provavelmente, ambos estarão se utilizando da língua portuguesa para interagirem, afinal todo falante nativo sabe essa língua. O que é saber uma língua? No sentido científico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela. Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua. Assim, aquela afirmação preconceituosa existe porque as regras que são aprendidas na escola, em boa parte, não correspondem à língua realmente falada e escrita no Brasil, os alunos decoram conceitos e regras que não significam nada para eles.
A fim de acabar com os preconceitos linguísticos devemos aceitar a ideia de que não existe erro de português, sim diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa. Devemos reconhecer que tudo o que a Gramática Tradicional chama de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Ora, se diversas pessoas (consideradas cultas inclusive) estão optando por um uso que diverge da regra prescrita é porque escolheram outras possibilidades sígnicas do sistema, modificando-o. Assim, o problema está com a regra tradicional, e não com as pessoas, que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua. A língua permeia tudo, constitui o homem enquanto ser humano, ele é a língua que fala. Transformar a língua em algo inalcançável para o falante, é tornar o falante um estrangeiro na sua própria comunidade linguística.
É preciso entender que não podemos procurar por regras sem a reflexão da complexidade do sistema linguístico, entendendo as regularidades como vindas de uma estrutura que reconhecemos como parte de nosso pensamento. As regras da língua estão lá justamente por ser a língua um sistema, uma estrutura, não são uma camisa de força. Devemos ter convenções de escrita ou de gêneros, por exemplo, para que possamos nos comunicar de maneira eficaz em todos os âmbitos sociais, mas não podemos confundir as convenções, que surgem a partir das regularidades naturais do Sistema linguístico, com as próprias regularidades do Sistema.
6. A imposição que se tornou natural
Pensar na escrita tão cientificamente, parece que a distancia da realidade. A escrita está presente no dia a dia, como bem ressalta Marcuschi (1999), antes era nos jornais, revistas ou alguma coisa que se via na televisão, hoje com as redes sociais, a escrita se faz fortemente presente na vida das pessoas, consequentemente, a leitura. Todavia esta relação fala/escrita, precisa ser conceituada e observada de acordo com cada situação.
Perini (2001) deixa o seguinte questionamento ao leitor, por intermédio do fragmento supracitado: até que ponto os cultos são realmente cultos dentro de acordo com o padrão? A sumidade Mário de Andrade cometeu inúmeros “deslizes” gramaticais, seria ele um inculto? Um ignorante? Não se pode afirmar tal absurdo. Há inúmeros fatores que levam uma pessoa a achar melhor a expressão “me leve embora daqui!” do que “leve-me embora daqui”, talvez haja uma mudança de efeito de sentido percebida dentro de determinado grupo ou situação, por exemplo.
É quando se aborda sobre o discurso que fala e escrita relacionam-se intimamente, em ambas as situações ele se faz presente e varia de acordo com o contexto vivenciado pelo indivíduo. Rompe-se, assim, a concepção da sentença bem formada que junto com outras sentenças bem formadas formam um texto bem formado. Passamos a entender que existem sujeitos em situações de fala que através da enunciação apresentam enunciados para outros sujeitos, que ao aceitarem esses enunciados, aceitam um contrato enunciativo, portanto houve transmissibilidade de um objeto de conteúdo, de um saber, por isso, como ousar afirmar que os enunciados não estão bem formados?
É comum vermos pessoas alfabetizadas, corrijindo erros gramaticais uns dos outros, porque os professores de português (o que deveria ser reformulado, pois o preconceito já começa a partir daí, quando se diz que as aulas são de Língua Portuguesa. Sabe-se que não se vai a escola aprender português e sim, as regras estabelecidas que sequer são aplicáveis no dia a dia, revistas, jornais, jornalistas, radialistas, artistas, enfim, a mídia e as pessoas que a compõe são os primeiros a ofenderem a gramática normativa que tanto é, teoricamente, defendida por todos) transmitem isso aos alunos.
Por isso, insistimos no papel do educador, que foi formado linguísta, a mostrar a realidade da língua para seus discentes, destruindo conceitos errôneos, fazendo-os capazes de refletir sobre a língua, sendo, portanto, aqueles que aprenderão o porquê condenar o preconceito linguístico.
7. Considerações finais
O já muito discutido preconceito linguístico não sai deixa de ser discutido. Devemos ver que, ao mesmo tempo que somos cientistas nas academias científicas e combatemos esse preconceito, ferimos nossa cientificidade ao continuarmos ensinando uma norma, contribuindo para a perpetuação de algo que rejeitamos. O que aqui viemos pensar, então, é o que aprendemos/pesquisamos nas universidades, pois acreditamos nesse modo de ver a língua, baseados em pensamentos formalistas e funcionalistas.
Contudo, parecemos tratar todo esse conhecimento de forma elitista, ou seja, “só pode ser tratado na academia científica, pelos cientistas e para os cientistas”, não para aquele estudante escolar que pretende ser engenheiro, por exemplo. Quando, na verdade, o ensino científico repassado pelas universidades que formam educadores seria a solução para a erradicação desse preconceito, a partir do pensamento reflexivo científico linguístico. Por isso, esse artigo vem a contribuir para a teoria linguística formal, na medida em que não somente corrobora com ela, mas que entende que a partir dela podemos mudar a visão ingênua que, como educadores e cientistas ensinamos, por isso também contribuindo na interdisciplinaridade entre a linguística e a educação.
Portanto, procuramos entender através desse artigo que não há qualquer base teórica que possa sustentar a ideia de alguma norma, por isso é errôneo continuar a repassar tal conhecimento para os maiores sabedores de uma língua em específico, o falante dessa língua. Entendendo que a língua é um sistema de estruturas de significação à disposição daqueles que colocam esse sistema em processo, e que estes sujeitos que enunciam possuem uma faculdade de linguagem, compreendendo e captando as regularidades desse sistema de maneira ideal.
Entretanto, nossa abordagem trata de um problema muito geral, logo tem uma reflexão ampla, por isso ainda há questões mais particulares a serem tratadas, como a didatização do ensino científico linguístico, de maneira a não perder sua coerência, que leva a questões de língua e discurso e o lugar do sentido na língua. Sendo essas questões o que aqui deixamos em aberto para futuras pesquisas.
Referências
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Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Karen Bernardo Viana - 40%
Aldayr de Oliveira Monteiro - 20%
Sandro César Silveira Jucá - 20%
Solonildo Almeida da Silva - 20%
Notas