Juventude, gênero e religião: o papel da Igreja Católica na formação da juventude
Youth, gender and religion: The role of the Catholic Church in youth formation
Juventud, género y religion: El papel de la Iglesia católica em la formación juvenil
Juventude, gênero e religião: o papel da Igreja Católica na formação da juventude
Research, Society and Development, vol. 8, núm. 12, pp. 01-15, 2019
Universidade Federal de Itajubá

Recepção: 16 Setembro 2019
Revised: 24 Setembro 2019
Aprovação: 07 Outubro 2019
Publicado: 15 Outubro 2019
Resumo: A história do Brasil está profundamente marcada pela presença da Igreja Católica, trazida pela coroa portuguesa no processo de colonização ficou encarregada pela formação educacional da população e consequentemente pela formação moral e ideológica. Nas últimas décadas a Igreja tem se voltado mais para o público jovem por meio de movimentos contemporâneos e da formação de grupos. A partir desta constatação, temos por objetivo estudar a presença e a influência da Igreja Católica na construção e reprodução dos discursos quanto aos papéis sociais de homens e mulheres junto à juventude. Nosso percurso metodológico se deu por meio de revisão de textos que abordam a temática religião, Igreja Católica, Juventude e a leitura dos discursos de líderes católicos. A partir da análise destes discursos, verificamos que os movimentos religiosos que contam com expressiva participação de jovens, apesar de apresentarem uma roupagem nova, adotam conteúdos retrógados e conservadores. Neste sentido, concluímos que estes movimentos reforçam as concepções sobre os papéis sociais do que é ser masculino e do que é ser feminino, no campo religioso e na esfera pública.
Palavras-chave: Catolicismo, Mulher, Jovens, Conservadorismo.
Abstract: The history of Brazil is deeply marked by the presence of the Catholic Church, brought by the Portuguese crown in the process of colonization was in charge of the educational formation of the population and consequently the moral and ideological formation. In recent decades the Church has focused more on young audiences through contemporary movements and group formation. From this finding, we aim to study the presence and influence of the Catholic Church in the construction and reproduction of discourses regarding the social roles of men and women with the youth. Our methodological path was through the review of texts that address the theme religion, Catholic Church, Youth and reading the discourses of Catholic leaders. From the analysis of these discourses, we found that religious movements that have a significant participation of young people, despite presenting a new guise, adopt retrogressive and conservative content. In this sense, we conclude that these movements reinforce the conceptions about the social roles of being male and female, in the religious field and in the public sphere.
Keywords: Catholicism, Woman, Youth, Conservatism.
Resumen: La historia de Brasil está profundamente marcada por la presencia de la Iglesia Católica, traída por la corona portuguesa en el proceso de colonización que se encargó de la formación educativa de la población y, en consecuencia, de la formación moral e ideológica. En las últimas décadas, la Iglesia se ha centrado más en el público joven a través de movimientos contemporáneos y la formación de grupos. A partir de este hallazgo, nuestro objetivo es estudiar la presencia e influencia de la Iglesia Católica en la construcción y reproducción de discursos sobre los roles sociales de hombres y mujeres con los jóvenes. Nuestro camino metodológico fue a través de la revisión de textos que abordan el tema de la religión, la Iglesia Católica, la Juventud y la lectura de los discursos de los líderes católicos. A partir del análisis de estos discursos, encontramos que los movimientos religiosos que tienen una participación significativa de los jóvenes, a pesar de presentar una nueva apariencia, adoptan contenido regresivo y conservador. En este sentido, concluimos que estos movimientos refuerzan las concepciones sobre los roles sociales de ser hombre y mujer, en el campo religioso y en la esfera pública..
Palabras clave: Catolicismo, Mujer, Juventud, Conservadurismo.
1. Introdução
A juventude encontra-se em um constante processo de construção e de desconstrução de sua identidade e a formação e participação em grupos é fundamental para conquistar e consolidar de espaços na comunidade em que vive. Neste sentido, integrar um grupo religioso - o que nos interessa neste artigo - torna-se importante à medida que o pertencimento e o acolhimento oferecidos possibilitam o estímulo e o conforto para enfrentar os medos, as angústias e dúvidas emocionais e sexuais inerentes a este período. Afinal, no processo de socialização, os valores e princípios religiosos em nossa sociedade tornam-se elementos importantes na constituição da identidade de homens e mulheres, determinando concepções de mundo e modos de agir e reagir.
A partir destas considerações, surgiu o interesse de estudar a presença e a influência da Igreja Católica na construção e reprodução dos discursos quanto aos papéis sociais de homens e mulheres junto à juventude. Para tanto, realizamos uma revisão de literatura, a leitura de documentos e discursos dos líderes católicos voltados para a juventude e seu papel na Igreja e na sociedade.
A seguir, apresentaremos nossas primeiras aproximações em relação ao tema pesquisado.
2. A Igreja Católica no Brasil
Em todas as sociedades encontramos estruturas de pensamento místicas e religiosas em seus processos de desenvolvimento, as quais são produzidas de modo a explicar e organizar a realidade em que se encontra. As sociedades ocidentais europeias e latinoamericanas desenvolveram laços estreitos com as religiões em especial a Igreja Católica, garantindo a construção e reprodução de normas e padrões de conhecimento e comportamento, tendo em vista que as religiões e religiosidades não se encontram enquanto elementos inertes e isolados, ao contrário, participam ativamente na construção de um pensamento social, explicando e ordenando a realidade, definindo padrões de relações e papéis sociais a serem desenvolvidos pelos indivíduos. Enfim, as instituições religiosas atuam nas sociedades enquanto instituições formadoras e os discursos religiosos determinam e ensinam o papel social dos indivíduos.
A Igreja Católica constitui-se enquanto uma das instituições religiosas mais consolidadas nas sociedades ocidentais, esteve presente em grande parte da história, vivenciando e participando ativamente de diversos processos históricos e transformações sociais, desde o feudalismo à consolidação do sistema capitalista.
Inicialmente, no Brasil, o catolicismo foi trazido pela coroa portuguesa, aparecendo de forma imposta ao ser decretada religião oficial da colônia, exercendo papel fundamental no processo de formação e desenvolvimento da população brasileira, cabendo-lhe, entre outras atribuições, a responsabilidade pela conversão dos povos nativos, através da catequização. E foi por meio dela que os padres Jesuítas assumiram o trabalho de alfabetização, considerando que a educação formal era ministrada pelos próprios padres. Ao longo do processo de colonização e desenvolvimento de uma sociedade colonial, a Igreja assumiu importante papel para a metrópole portuguesa, tornando-se a principal agência de formação não somente moral, mas ideológica. Como destacou Bourdieu (1998), as estruturas de pensamento, de explicação universal:
[...] registram como que as diferenças de natureza, inscritas na objetividade, das variações e dos traços distintivos (por exemplo em matéria corporal) que eles contribuem para fazer existir, ao mesmo tempo que as “naturalizam”, inscrevendo-as em um sistemas de diferenças, todas igualmente naturais em aparência; de modo que as previsões que elas engendram são incessantemente confirmadas pelo curso do mundo, sobre tudo por todos os ciclos biológicos e cósmicos (BOURDIEU, 1998, p. 16).
Coube então à Igreja a incumbência de ensinar normas sociais e de conduta, estabelecendo e reforçando papéis sociais para cada cidadão, inculcando as categorizações e diferenciações pelas quais os sujeitos analisam e interpretam a realidade. Dessa forma, por meio de seus ensinamentos e explicações, a Igreja disseminou sua concepção patriarcal sobre as diferenças entre os sexos e principalmente a valoração das mesmas. Ainda de acordo com Bourdieu (1998), a perspectiva androcêntrica impõe-se acima de tudo e de todos, não necessitando de discurso para ter legitimidade, considerando que a:
A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo da vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos. (BOURDIEU, 1998, p. 18)
Uma característica importante das religiões é o fato de serem fenômenos coletivos, tendo em vista que para a sua existência necessitam da crença de um grupo que propulsionará força aos ideais religiosos. Conforme Simmel (2006, p.60) “[...] A fome, o amor, o trabalho, a religiosidade, a técnica, as funções sociais ou os resultados da inteligência não são em seu sentido imediato, por si sós, sociais”; mas, transformam-se em interação quando agrupam os indivíduos em determinadas formas de estar ou ser para o outro.
A crença coletiva, ao criar forças aos ideais religiosos, acaba por constituir consigo um grupo religioso, o qual determina as relações entre seus integrantes e consequentemente produz códigos e normas de condutas, assim como a identidade coletiva de seus membros.
Neste sentido, as instituições religiosas, seus dogmas e suas crenças, atuaram e atuam enquanto determinantes da diferenciação e valoração de gênero. A começar com o mito da criação, que já estabelece uma diferenciação e hierarquização entre os gêneros - de acordo com a mitologia cristã, Deus, enquanto entidade suprema, cria um ser perfeito à sua imagem e semelhança, Adão; vendo sua solidão, resolve criar Eva a partir de uma costela. Dessa forma, a história cristã da criação constrói a mulher como submissa e dependente uma vez que seu surgimento se dá com o objetivo de agradar ao homem, livrá-lo de sua solidão, ao mesmo tempo em que sua criação só é possível a partir de uma parte do homem.
As concepções gendradas da Doutrina Católica são repassadas para os indivíduos por meios muito além de seus discursos teológicos, porque reproduzidas cotidianamente. Com uma rápida olhada nos rituais cristãos, já é de fácil percepção as concepções sobre os papéis masculino e feminino - o casamento é um exemplo de fato social que garante o modelo de pensar e agir, principalmente porque legitima a reprodução biológica e social. Como aponta
Émile Durkheim (2007, p.13), o fato social é uma forma de realizar “fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coação exterior ou ainda que é geral no conjunto de uma dada sociedade tendo ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais”.
Durkheim desenvolveu o conceito de fato social buscando compreender as formas como a sociedade funciona, destacando a necessidade de analisar as transformações, mas principalmente as permanências. Para Durkheim, os fatos sociais são os meios pelos quais a sociedade realiza a sua manutenção, isto é, através da reprodução de determinadas ações, que são reforçadas e os comportamentos considerados corretos: “O homem não pode viver entre as coisas sem formular ideias a respeito delas, e regula sua conduta de acordo com tais ideias” (DURKHEIM, 2007, p.13).
No ritual cristão do matrimônio, o pai leva sua filha ao altar e a entrega ao noivo, não sem antes realizar um aperto de mãos simbolizando o fechamento de um acordo, no qual a mulher é dada como mercadoria. Este ato simboliza a passagem da responsabilidade de um para o outro - um acordo realizado pelos homens. Ainda que hoje em dia o ritual pareça ser esvaziado de sentido, o é somente em sua superfície, pois os significados das ações ainda estão presentes e são reforçados mesmo que no campo do simbólico.
Dessa forma, a reprodução dos ritos implica em um reforço, ainda que simbólico, dos papéis socialmente designados aos homens e às mulheres e consequentemente suas posições dentro da estrutura de dominação e subordinação. De acordo com Bourdieu (2014, p. 225226), aquele/aquela que é dominado/a conhece e reconhece as relações de sentido e comunicação, já que o ato de obedecer pressupõe conhecer e reconhecer:
[...] quem se submete obedece, dobra-se a uma ordem ou a uma disciplina, opera uma ação cognitiva. [...] Os atos de submissão e de obediência são atos cognitivos que, como tais, empregam estruturas cognitivas, categorias de percepção, esquemas de percepção, princípios de visão e de divisão, todo um conjunto de coisas que a tradição neokantiana põe em primeiro plano [...].
Ainda que no trecho acima citado Bourdieu esteja tratando mais especificamente das relações de dominação e subordinação entre os indivíduos e o Estado, estas estruturas se aplicam para todas as relações de dominação que não sejam exercidas exclusivamente pela força física.
Por meio de seus textos, discursos e rituais, a Igreja Católica se constitui enquanto uma instituição educacional que alcança o cotidiano de seus fiéis. Os ensinamentos católicos são apreendidos servindo como lentes pelas quais leem o mundo ao seu redor, são as estruturas cognitivas pelas quais os indivíduos analisam, categorizam e interpretam a realidade, os meios pelos quais valorizam as ações e os sujeitos. Dessa forma, todo pensamento patriarcal e conservador contido no catolicismo é transmitido e reproduzido.
Toda essa situação se demonstra mais problemática ao considerarmos que nas últimas décadas as denominações religiosas, em especial a católica por meio da Renovação Carismática, têm centralizado suas ações nos públicos jovens; e ainda mais problemático é o fato de que a maioria dos movimentos religiosos juvenis apresentarem posicionamentos de forte valor conservador, com repercussões que vão além dos grupos que se reúnem no interior das igrejas.
3. Juventude e Religião
Atualmente, a juventude tem se tornado alvo de diversas pesquisas que visam entender como este grupo social se relaciona na e com a sociedade. Durante muito tempo, os jovens foram considerados questionadores e potenciais atores de mudança social, tendo em vista as concepções que sempre relacionam a juventude com rebeldia. Período da vida considerado de transição no desenvolvimento do indivíduo, experimentando dificuldades de adaptação a novos relacionamentos, novas escolhas, novas crenças, demandas, interesses, desejos, exigências e grupos sociais, afinal “o jovem busca e cria situações limites nas quais ele possa vivenciar mudança, experimentar a passagem da infância, da tutela dos pais, para uma prática social, que configure sua autonomia e liberdade [...] a juventude contemporânea tem que encontrar novos caminhos para vivenciar novas experiências e desafios” (SILVA; TERUEL; SILVA, 2017, p. 164-165).
Para Groppo (2000), a juventude possui caráter de agente transformador da ordem social em oposição aos adultos que apresentam maior resistência às mudanças, uma vez que já apresentam posturas e concepções formadas a respeito das realidades, enquanto os jovens encontram-se em um espaço de experimentação e formulação de opiniões.
De certo modo, é possível afirmarmos que os jovens estão em uma posição intermediária na sociedade, já superaram a infância, recebendo maiores responsabilidades, liberdades, ao mesmo tempo não são considerados adultos, mas lhes são cobradas atitudes e comportamentos similares. É justamente neste espaço intermediário que são criadas e recriadas as culturas jovens, fazendo emergir signos de reconhecimento e de identidades. É fato que a juventude se encontra em um constante processo de elaboração de valores e concepções para interpretar o mundo, sendo que os ideais dos grupos aos quais pertencem possuem elementos formadores de opinião.
Entretanto, em uma sociedade plural, não é possível encontrarmos uma identidade homogênea que caracterize a juventude – sob outro olhar, este grupo pode, também, ser relacionado com a reprodução de modelos sociais. Tendo em vista tal fato, pesquisadores que abordam questões a respeito deste grupo social têm utilizado o conceito de “tribos urbanas”[1]. Além deste conceito, diversos outros são utilizados para abordar a diversidade existente entre os jovens; entretanto, independente dos conceitos ou linhas teóricas utilizadas, vários autores apontam para a formação de grupos juvenis, sejam punks ou religiosos[2].
A importância de conhecimento a respeito dos grupos apresenta-se justamente no fato destes exercerem grande influência na vida dos jovens, ideias em comum os aproximam, mas em momento algum é possível afirmarmos que todas as ideias e ideais são igualmente compartilhados por todos integrantes - o pertencimento, assim como a vontade de pertencer,
A importância de conhecimento a respeito dos grupos apresenta-se justamente no fato destes exercerem grande influência na vida dos jovens, ideias em comum os aproximam, mas em momento algum é possível afirmarmos que todas as ideias e ideais são igualmente compartilhados por todos integrantes - o pertencimento, assim como a vontade de pertencer, produz códigos e normas de comportamento que orientam ações,ao mesmo tempo que delimitam uma identidade coletiva
A formação de grupos caracteriza-se enquanto importante elemento para a compreensão a respeito da juventude, e suas características estão diretamente vinculadas à própria sociedade; daí, conforme Sofiati (2008), a necessidade de entender as mudanças da sociedade brasileira no que se refere às questões política, trabalhista, educacional para estudar as mudanças no perfil e nas características da juventude:
Parte-se do pressuposto que os espaços privilegiados pela juventude para participação na sociedade foram mudando conforme o desenvolvimento histórico, sendo que nos anos 1960 e 1970 havia o predomínio do sindicato e movimento estudantil, nos anos 1980 nos movimentos sociais e nos anos 1990 os jovens atuam de forma diluída e fragmentada nos movimentos culturais e lúdicos. (SOFIATI, 2008, p. 3-4)
E nos anos 2000 os movimentos religiosos, em especial a Renovação Carismática Católica e os pentecostais do meio protestante brasileiro, têm se apresentado enquanto um grande espaço de socialização para a juventude.
Segundo pesquisa realizada pelo Bertelsmann Stiftung no ano de 2007, intitulada “Monitor Religioso”, o Brasil estava reconhecido enquanto o segundo país mais religioso do mundo, estimando que 96% da população declara-se religiosa, e ainda, é considerado o terceiro país com maior número de jovens religiosos[3], sendo 30% dos jovens se dizem religiosos e 65% se dizem profundamente religiosos.
No ano de 2011, a Fundação Getúlio Vargas publicou os resultados de uma pesquisa intitulada “Novo Mapa das Religiões”, onde o Brasil está posto como o país com maior contingente de católicos, com um número estimado em 68,43% da população em 2009, o que correspondia ao equivalente a 130 milhões de brasileiros.
Ao analisarmos estes dados, torna-se clara a importância reconhecida às igrejas no Brasil, assim como a juventude brasileira tem sido atraída para os movimentos religiosos. Vale ressaltar que estas se apresentam enquanto instituições formadoras, uma vez que são compostas por dogmas, doutrinas, ideais e concepções, constantemente ensinados e repassados a seus seguidores.
Em A economia das trocas simbólicas, Pierre Bourdieu afirma que o processo de formação de instituições religiosas está diretamente relacionado à produção de um capital religioso, poisem sua formação e constituição passam por um processo de sistematização de normas, práticas e conhecimentos, os quais compõe este capital:
O processo conducente à constituição de instâncias especificamente organizadas com vistas à produção, à reprodução e à difusão dos bens religiosos, bem como a evolução [...] do sistema destas instâncias no sentido de uma estrutura mais diferenciada e mais complexa, ou seja, em direção a um campo religioso relativamente autônomo, se fazem acompanhar por um processo de sistematização e de moralização das práticas e das representações religiosas [...]. (BOURDIEU, 2004, p. 37)
Considerando que estes movimentos religiosos contemporâneos possuem seu público alvo composto, em especial, pela juventude, questões a respeito de seus conteúdos e suas crenças tornam-se importantes, uma vez que seus jovens integram uma camada populacional ativa que será lançada ao mercado de trabalho e diversos outros grupos sociais, em que carregarão o conhecimento apreendido neste movimento. Assim, a concepção a respeito de castidade, sexualidade e pluralidade religiosa tornam-se fundamentais, já que estes conteúdos apresentam-se de forma elementar na formação de pensamentos que transcendem as questões religiosas.
Os ensinamentos do catolicismo aos jovens são levados para além do campo religioso, uma vez que seus fiéis participam e atuam na sociedade. Em um país como o Brasil, que possui o maior contingente de católicos do mundo e que tem seu desenvolvimento e sua história entrelaçados com a Igreja, teve e tem suas relações sociais influenciadas em grande parte pelo discurso teológico católico, tendo seus espaços coletivos igualmente afetados.
De acordo com Kergoat (1996), todas as entradas na esfera pública são marcadas pelo conjunto de representações do feminino, uma vez que as relações sociais de sexo se materializam em práticas sociais, os homens não se pensam enquanto dominantes, porque já são e existem de direito. Contudo,
[...] uma mulher não se pensa como mulher, ela se pensa também dentro de uma rede de relações sociais. Como trabalhadora (na relação capital/trabalho, na relação salarial), como jovem ou velha, como, eventualmente, mãe ou imigrante. Ela sofre e/ou exerce uma dominação segundo sua posição nestas diversas relações sociais. E é o conjunto que vai constituir sua identidade individual e nascimento às suas práticas sociais. Em nível coletivo, é ainda o conjunto das relações sociais que vai fundar o sentimento de pertencer a um grupo e a consciência de dele fazer parte. (KERGOAT, 1996, p. 21)
Como aponta Kergoat no trecho acima, a mulher não se pensa exclusivamente como mulher, pois está inserida na sociedade em diversos espaços, exercendo diferentes e múltiplos papéis. Entretanto, os ensinamentos religiosos a respeito da concepção do que é ser mulher e suas funções são levados para todos os espaços ocupados pelas mulheres. Ao se biologizar e valorizar as diferenças entre homens e mulheres, seja pela força física, seja pela maternidade ou seja pelo mito criador, a Igreja Católica acaba por construir uma ideologia que transforma sistema de opressão e subordinação em uma questão natural.
Além do caráter de formadoras, as denominações religiosas também podem ser vistas enquanto um espaço de socialização, no qual diversos indivíduos que compartilham a mesma opção religiosa interagem entre si formando laços, os quais estendem-se para além do convívio religioso, podendo ser levados para o campo de trabalho e para o ambiente político, o que pode ser averiguado com o crescimento das bancadas religiosas dentro do Estado e dos partidos políticos que defendem ações com base em valores religiosos.
Aqui se encontra um grande problema para a questão, como aponta Joan Scott (2001), o público sempre foi tido como um espaço primordialmente masculino, consequentemente o poder de interferir nele também, por muitos anos somente os homens, mais especificamente homens brancos, eram reconhecidos enquanto cidadãos detentores de direitos.
A constante negação do reconhecimento à mulher enquanto sujeito provocou prejuízos que se estendem até os dias de hoje, como a dificuldade para se debater direitos reprodutivos, aborto e outras questões sobre as quais o Estado Brasileiro legisla sobre o corpo da mulher. Estas são somente algumas situações que necessitam ser debatidas. Entretanto, a naturalização da dominação masculina provocada pelos discursos conservadores católicos proferidos aos jovens se apresentam em uma via contrária.
É fato que a juventude, enquanto período do desenvolvimento humano é uma etapa na qual o indivíduo passa pelo processo de formação de seus pensamentos para posteriormente ser considerado um adulto. O contato dos jovens com uma matriz religiosa constitui-se, também, enquanto um processo de formação, uma vez que as denominações religiosas possuem um código de conduta, determinando o que é aceitável ou não. Como verificado em pesquisa realizada com estudantes de um curso superior “o espaço religioso tem sido uma forma de obter um sentimento de “segurança” e de “solidez”, porque sua doutrina produz e reproduz princípios e valores cuja mudança se opera de forma lenta e gradual, tão distante do que se observa na sociedade atual” (TIEMI; SILVA, 2016, p.453).
Os jovens que pertencem a um grupo religioso participam de outros espaços de socialização, nos quais os indivíduos que o habitam não compartilham das mesmas crenças, causando um choque de opiniões que perpassam por questões morais e ideológicas, como sexualidade, que está diretamente ligada ao debate dos direitos civis, de posicionamentos políticos. E a posição de alguns líderes da Igreja Católica fundamenta-se exclusivamente no aspecto biológico para justificar e ratificar seus valores morais:
Nossa sociedade, hoje, diz que os homossexuais têm o direito de assumir sua condição. Não desprezamos as pessoas que são vítimas, mas a verdade é que Deus só criou o homem e a mulher, e não uma mistura. Foi a humanidade que os estragou. Nossa intenção, portanto, não é discriminar, mas ajudar. E ajudar em quê? A continuar sendo homossexuais? Não, e sim a sair dessa situação. (ABIB, 1997, p. 45)
O trecho acima faz parte de um livro do Monsenhor Jonas Abib, integrante do Movimento da Renovação Carismática Católica - o sacerdote é autor de diversos livros destinados à utilização nos encontros dos grupos da Renovação.
Este processo formador sofrido pelo jovem atua diretamente nas escolhas e opiniões dos mesmos ao se depararem com uma sociedade composta por uma pluralidade religiosa e de opiniões diversas, podendo gerar, entre outras situações, processos de intolerância e discriminação religiosa, como por exemplo, frente à conquista dos direitos civis dos homossexuais ou dos adeptos das religiosidades afro-brasileiras. Conforme Bittencourt Filho (2003), assim como ocorreu com as religiões totalitárias da Antiguidade, as novas práticas religiosas procuram
[...] impor suas respectivas mundividências e disseminam “dogmas” capazes de inspirar tanto a submissão de muitos, quanto a admiração de outros. Acresce que tais propostas alcançam elevados níveis de adesão, na proporção em que elegem inimigos e adversários – reais ou imaginários – que apenas podem ser convertidos ou rejeitados. (BITTENCOURT FILHO, 2003, p 210)
Considerando o papel dos indivíduos enquanto agentes históricos, pode-se perceber que as influências que os jovens absorvem através de sua participação na Igreja Católica há de resultar em atitudes e práticas no interior das relações sociais extras religiosas, como a participação política, que tem gerado dificuldades nas discussões de políticas públicas ao levarem os dogmas e as morais religiosas para dentro do Estado, como as referentes ao aborto, luta pela conscientização a respeito das sexualidades, liberdade religiosa.
Apesar de parecerem incoerentes ao momento ou atual geração, os discursos religiosos conservadores alcançam a juventude, ditando às mulheres seus espaços na sociedade e os papéis a serem desempenhados, assim como reforçam aos homens uma concepção de superioridade. Alcançam os jovens ao oferecerem espaços de socialização onde existe a promessa de reconhecimento de suas identidades, posteriormente repassando suas noções da realidade após terem cativado os sujeitos. Os ideais transmitidos por este movimento religioso repercutem não somente no campo religioso, mas também em todo e qualquer campo social ocupado por seus praticantes que os convertem em práticas sociais reproduzidas cotidianamente.
O sentimento de pertencimento que os jovens encontram na Igreja, assim como todas as relações que desenvolvem neste e a partir deste espaço, pode ser analisado enquanto fator principal para a atração da juventude. Em meio a um processo de construção de suas identidades, os jovens buscam espaços onde se sintam compreendidos, acolhidos e onde possam se expressar. Enfim, encontram um espaço ondem se sentem integrantes de um grupo, porque atraídos pelo desejo de pertencer; como já constatado por pesquisadores da temática juventude e religião: “as igrejas são escolhidas à medida que apresentam relações seguras, de proximidade, fundadas no afeto e no cuidado. Os fiéis apresentam a necessidade de se sentirem cuidados, animados, fortificados.” (SILVA; LANZA, 2017, p.259)
Além disso, encontram um local de formação e com um discurso que lhes explica a realidade e lhes fornece padrões para a interpretação do mundo, fomentando a manutenção e a reprodução dos papéis desiguais de homens e mulheres.
4. Considerações Finais
A Igreja Católica é uma instituição que participou e participa ativamente da história do Brasil, desde sua chegada em terras tupiniquim assumiu um importante papel na formação cultural, identitária e política da população brasileira. Vinculada à coroa portuguesa, atuou como a principal agência de formação ideológica e moral, sendo ela a responsável pelo processo de alfabetização.
Mesmo após a separação oficial entre o Estado e a Igreja, o catolicismo continuou a exercer sua força no processo de formação ideológica, uma vez que o Brasil se constitui no país com o maior contingente de católicos do mundo. Seus ideais ainda continuam a surtir impactos em todo o território nacional, atuando diretamente na construção das estruturas cognitivas de análise e interpretação da realidade.
Nas últimas décadas, a Igreja Católica voltou sua atenção para as camadas jovens da sociedade, fato que chama a atenção ao se levar em consideração que ocorre concomitantemente ao crescimento dos movimentos e discursos mais conservadores do catolicismo.
A importância de se refletir sobre a relação entre a juventude brasileira e a Igreja Católica se dá pelo fato de os jovens se encontrarem em um momento de construção de suas identidades, e o contato com conteúdos conservadores - que reforçam os discursos biologizantes das diferenças sexuais que valoram e hierarquizam os papéis sociais de homem e de mulher - se apresentam enquanto um processo problemático ao naturalizarem o sistema de dominação e subordinação.
Os impactos destes discursos alcançam locais e situações para além dos muros das igrejas, em um momento em que crescem os espaços de debate – com temas sobre feminismo, orientação sexual, laicidade - e a reação conservadora apresenta-se com força; basta verificar o debate sobre gênero e a comoção ao redor da inclusão de conteúdos que abordem esta questão nas escolas. Situação promovida por políticos vinculados a chamada bancada cristã.
A importância de se refletir sobre a relação entre a Igreja Católica e a juventude brasileira se dá pelo fato de que a instituição religiosa se apresenta enquanto um importante agente de formação, produzindo e reproduzindo normas de conduta, valores morais e as estruturas cognitivas pelas quais analisarão a realidade ao seu redor.
Ainda que existam grupos católicos de caráter progressista, como o Católicas pelo Direito de Decidir, estes movimentos não chegam a se constituírem em maioria entre os católicos. O que tem sido verificado é que os grupos com discursos conservadores têm encontrado espaço e maior facilidade na disseminação de seus ideais.
Portanto, consideramos necessário estudos que tenham por finalidade verificar em que medida os discursos de líderes católicos influenciam ações e decisões dos indivíduos, sejam eles jovens ou não, nas instituições públicas, onde deve – ou deveria – predominar o princípio da laicidade, como preconiza a Constituição de 1988.
Referências
Abib, Jonas. (1997). Céus Novos E Uma Terra Nova. Cachoeira Paulista/Sp: Edições Canção Nova/Edições Loyola.
Bittencourt Filho, José. (2003). Matriz Religiosa Brasileira: Religiosidade E Mudança Social.
Bourdieu, Pierre. (1998). Uma Imagem Ampliada. In: A Dominação Masculina (Pp.13-67). Rio De Janeiro: Bertrand Do Brasil.
Bourdieu, Pierre. (2004). A Economia Das Trocas Simbólicas. 5 Ed. São Paulo: Perspectiva.
Bourdieu, Pierre. (2014). Sobre O Estado. São Paulo: Companhia Das Letras.
Centro De Políticas Sociais:<Http://Cps.Fgv.Br/Re> Acesso Em: 14/05/2014.
Durkheim, Émile (2007). As Regras Do Método Sociológico. 3 Ed. São Paulo: Martin Fontes.
Fraser, Nanci. (2015). Heterosexismo, Falta De Reconocimiento Y Capitalismo: Respuesta A Judith Butler. Fortunas Del Feminismo. Madrid: Traficantes Del Sueños.
Groppo, Luís Antônio. (2000). Juventude: Ensaios Sobre Sociologia E Histórias Das Juventudes Modernas. Rio De Janeiro: Difel.
Jeolás, L.S. (2018). Arriscar A Vida Por Uma Corrida: Risco E Corridas Ilegais De Carros E Motos. Interface (Botucatu), 22 (67), P.1173-1182. Disponível Em: Http://Www.Scielo.Br/Pdf/Icse/V22n67/1807-5762-Icse-1807-576220170548.Pdf. Acesso Em: 03/04/2019.
Kergoat, Daniele. (1996). Relações Sociais De Sexo E Divisão Sexual Do Trabalho. In: Gênero E Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, P 19-27.
Mori, V.T.; Silva, C.N. (2016). A Religiosidade Dos Estudantes De Uma Universidade Pública: Considerações A Partir Do Curso De Serviço Social. Plura, Revista De Estudos De Religião, 7 (1), P. 439-457. Disponível Em: Http://Www.Abhr.Org.Br/Plura/Ojs/Index.Php/Plura/Article/View/1131. Acesso Em: 02/10/2019.
Scott, Joan W. (2001). A Cidadã Paradoxal: As Feministas Francesas E Os Direitos Do Homem. Florianópolis: Ed. Mulheres.
Simmel, George. (2006). Questões Fundamentais Da Sociologia: Indivíduo E Sociedade. Rio De Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Silva, Cn; Teruel, Jm; Silva, At. (2017). Manifestações Religiosas No Espaço Acadêmico: Interferências No Processo Pedagógico. Revista De Ensino Educação E Ciências Humanas, 18(2), P. 163-168. Disponível Em: Https://Www.Researchgate.Net/Publication/324735826_Manifestacoes_Religiosas_No_Espa co_Academico_Interferencias_No_Processo_Pedagogico. Acesso Em: 02/10/2019.
Silva, Cn; Lanza, F. (2017). Estudantes De Serviço Social E As Religiões: Conservadorismo Sob Nova Roupagem? O Social Em Questão. Nº 38 (20), P. 249 – 268. Disponível Em: Http://Osocialemquestao.Ser.Puc-Rio.Br/Media/Osq_38_Sl_Art_1_Silva_Lanza%20(1).Pdf. Acesso Em: 02/10/2019.
Sofiati, F.M. (2008). A Juventude No Brasil: História E Organização. Passages De Paris (Apeb-Fr), Edition 3, P. 1-14. Disponível Em: Http://Www.Apebfr.Org/Passagesdeparis/Editione2008/Pdf/14%20flavio%20munhoz%20sofi ati.Pdf. Acesso Em: 15/05/2018.
Porcentagem de contribuição de cada autor no manuscrito
Douglas Alexandre Boschini – 60%
Cláudia Neves da Silva – 40%
Notas