Cartas ao Editor

Recepción: 20 Diciembre 2024
Aprobación: 10 Marzo 2025
Ações de educação e promoção em saúde são fundamentais para a conscientização da população sobre autocuidado, contribuindo diretamente para a melhoria da qualidade de vida. Essas iniciativas desempenham um papel relevante para o controle de doenças infecciosas, como a tuberculose (TB).1 O Brasil é um dos países com maior índice de TB no mundo, e em 2023, foram estimados cerca de 80 mil novos casos da doença.2,3 Dessa forma, estratégias nacionais de educação em saúde se alinham ao “Plano Nacional pelo Fim da TB” e ao “Programa Brasil Saudável – Unir para Cuidar", do Ministério da Saúde, e ao propósito social de controle da doença, visto que a TB é uma enfermidade associada a determinantes sociais, com maior prevalência em pessoas de baixa renda e menor escolaridade e em pessoas em situação de vulnerabilidade, como as privadas de liberdade, em situação de rua e vivendo com HIV/Aids.2
Buscando uma forma lúdica e acessível para abordar a TB em ações de educação em saúde, o Núcleo de Pesquisa em Microbiologia Médica da Universidade Federal do Rio Grande (NUPEMM-FURG), em Rio Grande, Rio Grande do Sul (RS), desenvolveu uma mascote nomeada “Bacilão Vacilão”. A mascote foi confeccionada em crochê, seguindo o estilo amigurumi. O termo amigurumi é definido por “boneco de crochê” e seu uso já foi demonstrado como promissor no ensino em saúde.4 O amigurumi desenvolvido pelo NUPEMM-FURG foi inspirado no bacilo Mycobacterium tuberculosis, agente etiológico da TB, quando visualizado por microscopia, após coloração de Ziehl-Nielsen. Sua coloração rosa, seu tamanho aumentado e seus aspectos humanizados foram idealizados para atrair visualmente o público (Figura 1).

Estratégias envolvendo o uso de textos, ilustrações e conteúdo audiovisual podem servir para informar os principais conceitos relacionados à TB, uma vez que estes podem ser disseminados por meio de redes sociais ou demonstrados em ações de promoção da saúde.5 A mascote de amigurumi, dessa forma, pode auxiliar na explicação sobre a etiologia da doença e sobre a transmissão do bacilo, facilitando a popularização de informações básicas sobre a TB. “A TB pode ser transmitida?”. A partir de uma pergunta simples e com o auxílio do Bacilão Vacilão, pode-se desenvolver um diálogo iniciado sobre o que é uma bactéria e como vê-la no microscópio, se estendendo até em como o M. tuberculosis afeta os pulmões, abrindo margem para explicações sobre a tosse como um dos principais sintomas da doença, por exemplo. No entanto, destacamos que até o momento não foi relatado o uso da técnica de amigurumi para esse propósito, sendo “Bacilão Vacilão” uma ferramenta inovadora que poderá ser replicada em diferentes cenários.
Atualmente, o Bacilão Vacilão vem sendo utilizado pelo NUPEMM-FURG em ações voltadas para a comunidade local, no município do Rio Grande, prioritário para o controle da TB no RS. Com 40 casos novos de TB a cada 100 mil habitantes, destacamos que esse estado apresenta um coeficiente de incidência superior à média nacional (37 casos novos de TB a cada 100 mil habitantes). Rio Grande, por sua vez, está entre os dez municípios prioritários para o controle da doença no RS, com 71,4 casos de TB a cada 100 mil habitantes em 2023.2,6 Apesar desse cenário, reconhece-se que ações de educação em saúde voltadas à TB ocorrem em baixa frequência no estado.1
Esta carta ao editor apresenta uma ferramenta didática e inovadora para a popularização de conhecimento sobre a TB, e reconhece a necessidade de fortalecimento de ações de educação e promoção da saúde focadas na doença. Previamente, o Bacilão Vacilão foi utilizado em ações extensionistas e de promoção da saúde em escolas da rede pública do município de Rio Grande e em atividades voltadas aos alunos de graduação da FURG, com a colaboração do Programa “Ciência na Cidade, Ciência na Vida”, da própria universidade. Além disso, foi apresentado a professores da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da região sul do estado por meio do Projeto "Quebrando Barreiras - Comunidade Carcerária contra Tuberculose e Hepatite C", promovido pelo Núcleo de Pesquisa e Extensão com Foco no Sistema Prisional (NUPESISP), da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Nesses diferentes cenários mencionados, a mascote foi recebida com entusiasmo, promovendo diálogos sobre a TB.
Portanto, como perspectivas futuras, destaca-se o uso da mascote por educadores, em ações voltadas a alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e privadas da região sul do RS. Entende-se que as crianças e os adolescentes alcançados pelas ações a serem desenvolvidas poderão atuar como multiplicadores do conhecimento sobre a TB em seus círculos sociais. Além disso, as ações em escolas almejam alcançar o público adulto, por meio da EJA em estabelecimentos prisionais, uma vez que se trata de uma população de risco para o desenvolvimento da TB.
O uso da mascote também poderá servir de inspiração para ações no âmbito nacional, resultando na criação de protótipos similares e no incentivo à educação em saúde. Ademais, a mascote proposta é resultado de um projeto de extensão (EXT – 2114) desenvolvido na FURG e reflete a responsabilidade de pesquisadores, engajados no combate à TB, de adaptar os seus conhecimentos sobre a doença com o objetivo de disseminá-los de forma compreensível à comunidade. Dessa forma, destaca-se que, a extensão universitária, um dos pilares da tríade ensino-pesquisa-extensão do ensino superior brasileiro, atua no desenvolvimento de práticas educativas por meio da integração do conhecimento técnico-científico da academia com o conhecimento popular, sendo uma ferramenta importante para a promoção da saúde.7
Agradecimentos
Os autores agradecem pelo apoio financeiro da Universidade Federal do Rio Grande – FURG (Edital ProExtensão 2023) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil – CAPES (Código Financeiro 001).
REFERÊNCIAS
1. Kessler M, Thumé E, Duro SMS, et al. Ações educativas e de promoção da saúde em equipes do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica, Rio Grande do Sul, Brasil. Epidemiol Serv Saúde 2018; 27 (2):e2017389. https://doi.org/10.5123/S1679-49742018000200019
2. BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico - Tuberculose 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024; 67 p. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2024/boletim-epidemiologico-tuberculose-2024/view
3. World Health Organization. Global Tuberculosis Report 2023. Geneva: World Health Organization; 2023; 57 p. Disponível em: https://www.who.int/teams/global-tuberculosis-programme/tb-reports/global-tuberculosis-report-2023
4. Kırkan Ç, Kahraman A. Effect of therapeutic play using a toy nebulizer and toy mask on a child’s fear and anxiety levels. J Pediatr Nurs 2023; 73:e556– 62. https://doi.org/10.1016/j.pedn.2023.10.033
5. Ni S, Wang J, Li X, et al. Assessment of health promotion action for tuberculosis of end tuberculosis action plan (2019–2022) in China. BMC Public Health 2024; 24(1):2051. https://doi.org/10.1186/s12889-024-19413-w
6. BRASIL. DATA SUS TabWeb - Casos de tuberculose desde 2001 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde. 2024. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/acesso-a-informacao/casos-de-tuberculose-desde-2001-sinan/
7. Santana RR, Santana CCAP, Neto SBC, et al. Extensão universitária como prática educativa na promoção da saúde. Educ Real 2021; 46(2):e98702. https://doi.org/10.1590/2175-623698702
Información adicional
redalyc-journal-id: 5704